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Sexta-feira, Maio 16, 2008
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9:45 PM by Cassiano Leonel Drum
João Domingos 16/5/2008 - O Estado de S. Paulo
É melhor um filho vivo no colo de outro
Marina usa passagem bíblica sobre rei Salomão para ilustrar sua demissão
Na imagem que construiu para sua demissão - a de imolar-se para salvar a política ambiental do governo -, a ex-ministra Marina Silva recorreu a uma famosa passagem bíblica que busca relatar a sabedoria do rei Salomão, herdeiro do trono de Davi. “É melhor um filho vivo no colo de outro do que tê-lo jazendo no próprio colo.” O filho, no caso, é a política ambiental. Marina é evangélica.
De acordo com essa passagem bíblica, duas mulheres que se diziam mãe de um mesmo menino foram até o rei Salomão para que resolvesse o impasse.
Como as duas afirmassem categoricamente que eram a mãe, Salomão pegou a espada e ameaçou partir a criança ao meio, para entregar um pedaço a cada uma delas.
Diante disso, uma das mulheres renunciou à maternidade e atirou a criança no colo da outra. Salomão deu-lhe então o menino, reconhecendo que só o amor de mãe verdadeira a levaria a renunciar ao filho, para salvá-lo.
A ex-ministra disse que aprendeu muito no Ministério do Meio Ambiente. Por isso, prometeu, na tribuna do Senado, continuar lutando para que não haja retrocesso na política ambiental, mas sem sectarismo.
“Se o deputado Caiado (Ronaldo Caiado, do DEM de Goiás, ruralista) tiver uma boa proposta, vou julgá-la no mérito, não no preconceito.”
Marina disse que chegou a fazer boa parceria com o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), tido como um dos maiores adversários da política ambiental do governo.
“Nós fomos para Bali (Indonésia, para conferência mundial sobre meio ambiente em 2007). Eu dizia sempre para ele: ‘deixa comigo a parte da política ambiental que gera desgastes e toque a que gera frutos políticos’. Se ele rompeu comigo, foi um rompimento unilateral.”
Ela se gabou de nunca ter deixado vazar suas brigas com ministros. “Hoje posso dizer que tive discussões muito acaloradas com o ex-ministro Ciro Gomes (Integração Nacional).
Mas consegui convencê-lo a reduzir a vazão da transposição do Rio São Francisco. Sei o quanto ele sofreu para trabalhar com sua equipe e reduzir a vazão. Ganhamos todos.”
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9:42 PM by Cassiano Leonel Drum
Ludmilla Totinick - Gazeta Mercantil
Pobre paga mais imposto que rico
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou ontem, em Brasília, que a população considerada extremamente mais pobre do país compromete 44,5% de sua renda com pagamento de impostos e contribuições. Os 10% mais ricos gastam 23% em tributos. A diferença superior a 21 pontos percentuais é atribuída à política tributária brasileira.
O presidente do Ipea, Márcio Pochmann, considera que o sistema atual aprofunda a desigualdade social. Os mais pobres arcaram também com maior elevação no pagamento de impostos em comparação com os ricos.
Os brasileiros mais pobres pagam mais impostos que os mais ricos devido à política tributária do país, de acordo com levantamento apresentado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.
A pesquisa revela que os 10% mais pobres do país comprometem 33% da renda com pagamento de impostos e contribuições, enquanto os 10% mais ricos pagam 23% em impostos. Os extremamente pobres pagam 44,5%.
O estudo mostrou ainda que os 10% mais pobres tiveram um aumento de 73,4% no pagamento de impostos, enquanto os 10% mais ricos tiveram aumento de 45,9%, no período de 1996 a 2003.
De acordo com o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, o sistema tributário aprofunda a desigualdade social do país.
– O Brasil precisa de um sistema tributário mais justo que seja progressivo e não regressivo como é hoje, quando quem é pobre no Brasil está condenado a pagar mais impostos – disse Pochmann. – Quem ganha mais deve pagar mais, quem ganha menos, deve pagar menos.
O economista sugere a cobrança de impostos sobre grandes fortunas. –Se cobrasse 1% dessas pessoas, teria R$ 100 bi a mais nos cofres – disse o presidente do Ipea.
A média salarial dos 10% mais pobres é de R$ 45,86 e dos 10% mais ricos é 2.178, 69, ou seja, os mais ricos ganham 47,6 mais vezes que os pobres, analisados em 2003.
Os números do Instituto mostram que os impostos indiretos são os principais indutores da desigualdade. Os pobres pagam, proporcionalmente, três vezes mais Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS) que os ricos. Os pobres pagam 16% no mesmo impostos, enquanto os ricos pagam 5,7% em ICMS.
Marcio Pochmann lembrou ainda que outro exemplo de desigualdade é o Imposto de Renda para pessoa física. Segundo ele, os ricos deveriam pagar mais, e sugere a necessidade de novas faixas do IR.
– Na história recente do país, os Imposto de Renda tinha 13 faixas com alíquotas de até 60%, entre 1983 e 1985. Na ditadura militar, houve 12 faixas, com arrecadação de até 55% sobre as maiores rendas – lembrou o presidente do Ipea. – Desde 1989, há apenas duas faixas. Na primeira, a alíquota é muito alta (15%), na segunda é muito baixa (27,5%), isso precisa mudar.
Dessa forma quem ganha R$ 2.743,25 mensais paga proporcionalmente a mesma coisa de quem ganha R$ 27 mil ou R$ 270 mil mensais.
Comparado a 26 países, o Brasil mantém o menor número de faixas do IR, como Peru e Barbados. E tem o segundo menor imposto de renda para o mais ricos, perdendo apenas para o Peru, onde a faixa mais alta é de 20%.
Outro ponto destacado por Marcio Pochmann foi o IPTU: os 10% mais pobres gastam 1,8% da renda com o imposto, enquanto os ricos desembolsam 1,4%.
– O pobre está lascado por morar na favela –afirmou Pochmann. – As mansões pagam menos impostos que as favelas.
A cobrança com o Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) também contribuiu para o empobrecimento da população mais necessitada, segundo a pesquisa. O imposto tem quase a mesma incidência para todos, com alíquotas de 0,5% para o mais pobres e de 0,6% a 0,7% para os mais ricos.
O estudo mostra ainda que o Estado só fica um terço do que arrecada. Dos 34% da carga bruta de impostos, só fica com 12%.
– Não há governabilidade sobre 2/3 do arrecadado. É falso dizer que o setor público se apropria de 35% da carga tributária - concluiu Pochmann
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9:39 PM by Cassiano Leonel Drum
JOSÉ SIMÃO
Socuerro! Minc é casaco de pele!
E um amigo disse que o mico-leão é um bicho em extinção. E viado é um bicho em expansão!
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
E como disse aquele paulista engarrafado: como será a vida depois do trânsito?! E saiu o apelido do novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc? MINC LEÃO! É o Minc-Leão-Dourado!
E eu já disse que Minc é nome de casaco de pele! O Peta vai cair em cima! E um amigo me disse que o mico-leão é um bicho em extinção. E viado é um bicho em expansão! Rarará!
E o Lulalelé disse que a política ambiental continua a mesma. Ou seja, tem que continuar obedecendo à Dilma. A Dilma falou, tá falado!
E ontem eu vi o Roberto Justus, o SUSTUS! Ele tá parecendo jacaré do Pantanal tomando sol, nem pisca mais!
E reparou que tudo no Brasil tem o dedo do Zé Dirceu? É a versão brasileira da mãozinha da família Adams. Tudo no Brasil tem o dedo do Zé Dirceu. Até exame de próstata.
Aí, o médico pergunta: "O que você está sentindo?" O DEDO DO ZÉ DIRCEU! Como na charge do Amorim! E como é que o Zé Dirceu conseguiu ficar 20 anos na clandestinidade com aquele sotaque? Rarará!
E olha a faixa que eu vi numa igreja evangélica: "O pastor Lucio Hermano, que morreu após uma facada no coração, estará contando seu testemunho e agradecendo a Deus pelo milagre". Rarará!
E sabe o que me deixou mais admirado no jogo São Paulo x Fluminense!? O Fluminense tem torcida!
Ou era efeito especial da Globo? Cinco pessoas replicadas por mil? Eu achava que o Fluminense não tinha torcida, tinha testemunha.
Que o presidente do clube ligava pra casa do torcedor: "Hoje tem jogo, você vem, né?" Rarará! E Flamengo depois do Ronaldo é TRAmengo. I
Love TRA! É o Tra-Tru. Tramengo e Truminense. Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.
Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.
É que em Cuiabá tem um bar de sapatas chamado Borracharia Bar das Meninas! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula.
Mais um verbete pro óbvio lulante. "Trotskysta": companheiro que gosta de passar trote. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês.
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!
simao@uol.com.br
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6:27 AM by Cassiano Leonel Drum
16 de maio de 2008
N° 15603 - Liberato Vieira da Cunha
O silêncio dos celulares
Algum dia ainda vou escrever uma tese sobre o silêncio dos celulares. Quando fui comprar meu primeiro, nos longínquos anos 90, o vendedor armou uma pose solene e começou a recitar todas as proezas que o minúsculo aparelho era capaz de aprontar. Mal o ouvi. Eu estava à procura de um mínimo instrumento que executasse duas tarefas simples: chamasse determinados números e pessoas e recebesse ligações idênticas ou diversas.
É tudo o que continuo a esperar de seus sucessores. Sei hoje que um telefone desses tira fotos, anota endereços, conversa até com computadores, isto sem falar no milagre de mostrar a imagem viva da pessoa para a qual discamos. Mas eu não sonho com nada disso. Toda a minha ambição é passar recados, se possível breves, e ouvir respostas, prontas e curtas.
Sucede no entanto que o meu celular, ou por ser antigo, ou por ser tratado com alguma indiferença, é dado a silêncios. Soa o meu número, atendo, responde uma abissal ausência de ruídos.
Transcorridos uns 20 segundos da mais absoluta incomunicabilidade, emerge um barulhinho: tu, tu, tu, tu. Não é preciso dizer que a ligação foi cortada e não resta, como desde o início, sombra de algarismos na telinha.
Minhas teorias são três.
Primeiro: me chamou alguém para participar que acertei os seis números mágicos da Mega Sena. São os próprios, reais e inconfundíveis, exatos e inimitáveis.
Mas, depois de certa reflexão, o autor da chamada se eclipsa, pois suspeita que provavelmente eu vou desperdiçar o dinheiro em banalidades como livros, viagens, uma tela de Renoir.
Segundo: me ligou alguém para dizer que fui contemplado com uma bolsa de dois anos em Paris. A passagem está carimbada com uma singela informação: Air France, primeira classe. Mas, após segundos de suspense, não vem som nenhum, pois desconfiam que gastarei os dois anos estudando de verdade, sem nem chegar próximo às mesas de Les Deux Magots.
Terceiro: a Gwyneth Paltrow descobre que está apaixonada por mim. Disca, siderada e romântica, mas alguns instantes depois de eu atender, desliga. Um cavalheiro como eu deve ter muitas amadas, e ela não quer ser apenas mais uma. Uma lágrima escorre de seus olhos perfeitos.
Perceberam? Há muitos universos no silêncio dos celulares.
Ótima sexta-feira e um excelente fim de semana para todos nós.
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6:21 AM by Cassiano Leonel Drum
16 de maio de 2008
N° 15603 - Paulo Sant'ana
Aposentadorias degradadas
Acontece o seguinte: no governo Fernando Henrique Cardoso, foi instituído o fator previdenciário.
Trata-se de um mecanismo que determina um corte de até 40% nas aposentadorias dos trabalhadores, conforme a idade do cidadão, mesmo que ele já tenha cumprido todo o tempo de contribuição.
O corte varia de acordo com a idade de quem se aposenta (menos idade, maior o corte). Os mais penalizados são aqueles que começaram a trabalhar mais jovens, que cumprem o tempo de contribuição mas têm de continuar a trabalhar para não sofrerem o corte.
Outra herança trágica para o trabalhador instituída no governo Fernando Henrique Cardoso foi a desvinculação do reajuste de todas as aposentadorias com o reajuste do salário mínimo.
Por essa separação, os governos Fernando Henrique e Lula jactam-se de concederem reajustes consideráveis no salário mínimo, mas não atribuem às outras aposentadorias com valor superior ao salário mínimo o mesmo índice de reajuste.
Quem ganha na aposentadoria mais que um salário mínimo tem recebido reajuste insignificante em comparação ao salário mínimo, ocasionando por exemplo a perversidade de que quem ganha cinco salários mínimos na aposentadoria vê reduzidos seus proventos, em poucos anos, para três, para dois salários mínimos, logo adiante passará a ganhar um só salário mínimo.
Vai subindo cada vez mais o valor do salário mínimo, reajustado em nível altamente compensador, enquanto que as aposentadorias maiores sofrem um arrocho que tem sido desumano.
Tanto o fator previdenciário quanto o não-acompanhamento do reajuste das aposentadorias em geral com o do salário mínimo constituem-se em perversidade do governo com os aposentados, que ficam por esses dispositivos condenados à opressão salarial ou a trabalhar por tempo excessivo ao do exigido para a contribuição.
Os aposentados brasileiros vêm sofrendo ano a ano degradação de seus ganhos, eles que já entregaram toda sua vida ao trabalho e agora precisam mais do que nunca de proventos minimamente dignos, com reajustes de índices iguais ao do salário mínimo.
O governo mesmo informou que nos últimos sete anos poupou R$ 10 bilhões graças ao fator previdenciário.
A seguridade, que compreende previdência, saúde e assistência social, é superavitária. Parte desse superávit tinha de ser destinada aos cada vez mais precários proventos dos aposentados.
Para mudar esse quadro, o senador Paulo Paim (PT-RS) apresentou projeto no Senado Federal que acaba com o fator previdenciário e revincula os proventos dos aposentados ao índice de reajuste do salário mínimo.
Foi tanta a repercussão do esforço do senador Paim, que o projeto foi aprovado por unanimidade no Senado.
Mas o governo, que tem maioria absoluta na Câmara, onde será decidida a questão, não concorda com a mudança.
Anteontem, foi realizado em Brasília um evento que visou à mobilização dos deputados federais para essa importante questão previdenciária e social, sob a liderança do senador Paim e da deputada federal Luciana Genro (PSOL-RS), dois gaúchos na liderança dessa luta pela redenção das aposentadorias.
E, no próximo dia 29, esse ato pela luta contra a opressão salarial dos aposentados será realizado aqui em Porto Alegre, às 14h, no auditório da Fetag e às 18h na Esquina Democrática.
É imprescindível que os aposentados gaúchos lá compareçam, como o público em geral, para levar à frente esta luta por uma política que visa a desconstituir o empobrecimento e a inanição dos aposentados brasileiros.
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6:15 AM by Cassiano Leonel Drum
16 de maio de 2008
N° 15603 - Opinião ZH | David Coimbra
O livro, a frase
Tenho um velho livro, Maravilhas do Conto Francês, que é velho mesmo. A encadernação original nem existe mais, o livro foi reencapado em pano, num tecido axadrezado que bem daria um kilt escocês. Há contos que, como promete o título, são maravilhosos.
De Stendhal, Balzac, Mérimée, Maupassant, Verlaine e outros de igual quilate. Não sei se o comprei em um sebo, se ganhei de presente, não sei como foi parar em minhas mãos, mas sei que o possuo há tempo. Li as histórias com prazer. Na última página da última delas, de Tristan Bernard, encontrei uma dedicatória:
"Lelê: Só queria te desejar felicidades em tudo que tu desejas alcançar. Seja pouco ou muito, o importante é que pra ti seja muito. E não te esquece da gente quando estiveres no Louvre. Até. Beto. Julho de 1961".
Embora tenha lido o livro há pelo menos 20 anos, nunca esqueci da dedicatória. Porque, sei lá, imaginava a Lelê em Paris, com aquele mesmo livro debaixo do braço, zanzando pelo Louvre, pensando no Beto que a esperava no ultramar. Tinha sua história, aquele livro. Havia emoções impressas em suas páginas, e não só as que os autores tentavam transmitir.
Ontem, lidava na minha pequena biblioteca e, sem qualquer razão consciente, tomei o livro de uma estante e reli a dedicatória. Enquanto o fazia, senti que havia algo preso sob a capa de pano. Uma saliência que talvez até tivesse percebido antes, mas que só agora se soltara.
Era como se fosse um cartão ou um bilhete. Fiquei aceso de curiosidade. Fiz à faca uma pequena incisão no tecido e empurrei o papelzinho para fora.
Era uma foto.
Uma daquelas fotos antigas, do tamanho de uma caixa de fósforos, com as bordas recortadas em ziguezague. Duas pessoas estavam retratadas, um homem e uma mulher. Posavam lado a lado em uma praia que não consegui identificar.
Ela vestia um maiô que poderia remontar aos anos 50, tudo ficava pudicamente coberto por aquele maiô. Ele usava um calção que lhe subia ao umbigo.
Ambos olhavam sorridentes para a câmera, os braços pendentes ao longo do corpo, relaxados. A foto, tão antiga quanto o livro, estava escurecida, desgastada, mal divisei os rostos deles e a paisagem que lhes fazia moldura.
Intrigado, pensei no motivo pelo qual alguém esconderia uma foto dentro de uma capa de livro.
Então, a virei.
No verso, alguém escreveu a lápis uma frase em letra de fôrma, sem ponto final. Uma frase de letras apagadas, como se fosse desenhada sem convicção. A seguinte:
"Eu era feliz".
Foi como se levasse um soco no peito. Eu era feliz. Quem teria escrito a frase? O Beto? A Lelê? Ou algum outro antigo dono do livro? Eu era feliz. Significava que, quando a frase havia sido escrita, a felicidade já se fora.
E a felicidade, óbvio, existia na época em que o flagrante na praia fora colhido. E a reunião dos dois personagens da foto é que era a causa da felicidade. Assim, tornava-se lógico que a razão da infelicidade era a separação dos dois.
O que aconteceu? Um deles morreu? Romperam?
Mais: por que a parcela sobrevivente do casal costurou a foto sob a capa do livro? Por que aquele livro em especial? As possibilidades têm rondado o meu cérebro, desde então. Quem diria que, num livro escrito por tantos mestres, a melhor história seria a do seu leitor?
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6:10 AM by Cassiano Leonel Drum
16 de maio de 2008
N° 15603 - Ricardo Silvestrin
Made in England
O que Woody Allen foi achar na Inglaterra? Como se sabe, o cineasta americano hoje vive por lá. Se tomarmos por base dois dos seus filmes made in England, ele encontrou as matrizes do pensamento do seu próprio país. É sempre mais difícil entender algo estando dentro.
Os filmes de Woody Allen criados nos Estados Unidos tratavam, a maioria, de questões psicológicas da classe média culta. Pessoas como o próprio diretor. Não por acaso, ele é quase sempre um dos personagens.
O bom humor mais à frente ou os dramas, mas num universo conhecido, olhado afetivamente. É o olhar para os seus pares, para pessoas de cujas questões o autor compartilha. Não vão além desse horizonte, como se o mundo que interessava estivesse dado.
E o que o circunda é o velho e gasto american way of life, alvo de críticas mais no âmbito da cultura de massa, o rock versus o jazz, quando muito os de esquerda num país de direita.
Mas, na Inglaterra, Woody Allen acordou para as bases de comportamento e de ideologia do mundo americano. Isso que aparentemente todos sabiam, inclusive ele, tocou tão fundo e com tanta nitidez que virou imagem: filme. São histórias que precisam ser contadas. Foi o que se viu em Match Point e agora em O Sonho de Cassandra.
O que aparece é o desesperador materialismo guiando as relações sociais. Ter dinheiro, ser o tal do vencedor, o bem-sucedido, tudo isso como uma carga insuportável sobre os ombros de todos. Medindo e mediando os vínculos, inclusive os familiares e afetivos.
A ponto de a vida valer muito menos do que o dinheiro. Isso que agora na Inglaterra grita aos olhos do diretor parecia passar camuflado durante todos esses anos nos Estados Unidos. E, no entanto, é o que move seu país de origem.
Falando da Inglaterra, Woody Allen está dialogando com seus compatriotas. A estrutura de tragédia grega dos dois filmes é também um alerta.
Nesse sentido, o deliberado pessimismo das histórias narradas ainda é um gesto de otimismo. Como se sabe, a função da tragédia, fazendo o espectador vivenciar o sofrimento, é contribuir para tornar a todos mais humanos.
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Quinta-feira, Maio 15, 2008
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9:59 PM by Cassiano Leonel Drum
Brincar também é importante
Perdoai-me, Senhor, por todas as tarefas que hoje ficaram por fazer. Mas, de manhã, quando meu filho, com seus passinhos incertos, entrou no quarto e pediu: "Mamãe, quer brincar comigo?", eu simplesmente tive de dizer sim.
E entre os quebra-cabeças e caminhões, cubos de madeira e bonecos, velhos chapéus, livros e risadas, dividimos mil pensamentos especiais, centenas de esperanças, sonhos e muitos abraços.
E quando à noite, na hora de rezar, ele juntou as mãozinhas e falou baixinho: "Obrigado, Deus, por mamãe e papai, pelos meus brinquedos, pelo cachorro-quente, pelo sorvete de chocolate e por mamãe brincar comigo", eu sabia que tinha sido um dia bem gasto.
E tinha certeza de que o Senhor entenderia.
Jayne Jandon Ferrer
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9:57 PM by Cassiano Leonel Drum
CARLOS HEITOR CONY
Tábua de logaritmos
RIO DE JANEIRO - Nos últimos tempos, por penitência ou por masoquismo, tenho ouvido palestras, conferências e debates sobre variados assuntos sobre os quais nada entendo.
Pouco tenho aprendido, mas sempre me distraio vendo a reação das platéias.
Descobri que metade delas, de uma forma ou de outra, cochila de diversos modos. Alguns chegam a ressonar, a cabeça tombada sobre o peito, dando a impressão de que aprovam o que está sendo dito.
Outros aprendem a dormir de olhos abertos -técnica na qual o finado Magalhães Jr. era mestre, ajudado pela natureza, que o fez estrábico dos dois olhos.
Há, porém, os "punti luminosi" de que Ezra Pound falava. Em qualquer situação, seja qual for o orador, seja qual for o assunto, ficam atentos, eretos, marciais, como se estivessem ouvindo um hino nacional imaginário -a imagem é do Nelson Rodrigues.
Um desses pontos luminosos, segundo consta na ABL, foi o ministro Ataulpho de Paiva, mestre do galanteio e das boas maneiras.
Chegou ao Supremo Federal sem ser jurista e à Academia sem ter livro publicado. Hoje é nome da avenida mais importante do Leblon, enquanto Machado de Assis tem uma rua mesquinha, escondida no Catete.
Ataulpho tinha um topete majestoso, que pintava de acaju, ninguém sabia a sua idade, era celibatário e rico. Sucesso absoluto nas rodas sociais, não perdia conferência, simpósio, palestra, debate, mesa-redonda ou quadrada.
Duro na cadeira, aprovava antecipadamente tudo o que orador dizia, lesse ele o catálogo de telefones ou a tábua de logaritmos.
Reza a lenda que foi o autor do convite para Getúlio Vargas entrar na Academia. Vargas quis tirar o corpo fora, alegando não haver vaga. Ataulpho respondeu: "Não seja por isso, presidente, eu me suicido".
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9:54 PM by Cassiano Leonel Drum
ELIANE CANTANHÊDE
A praia de Minc é outra
BRASÍLIA - Sai a cabocla Marina Silva, herdeira de Chico Mendes, criada descalça na Amazônia, só alfabetizada na adolescência, contaminada por malária e por mercúrio. Entra Carlos Minc, o ambientalista do Leblon e de Ipanema. Digamos que a Amazônia não é exatamente a praia dele.
Os dois são do PT e respeitados por ambientalistas de diferentes cores, mas os contrastes podem, em vez de diminuir, aumentar as reações e a perplexidade diante da queda de Marina, principalmente fora do país.
Acrescente-se que Minc tem fama de ser rápido na concessão de licenças ambientais. Para alguns, um grande mérito. Para outros, um risco.
Lula preferia o ex-governador Jorge Viana por uma questão mais política do que ambiental. Ele também é do PT do Acre e cresceu sob o simbologismo de Chico Mendes, o que ajudaria a neutralizar as reações externas. E, internamente (no governo, diga-se), seria um alívio para Dilma (Casa Civil), Stephanes (Agricultura) e outros mais.
Marina é considerada "purista", Viana já passou por um governo e uma prefeitura e é mais "realista" -ou seja, mais flexível no embate entre ambiente e desenvolvimento.
Mas, desta vez, a decantada habilidade de encantador de serpentes não funcionou, e Lula não convenceu Viana a aceitar a cadeira de Marina. Aliás, nem se esforçou muito, porque o ex-governador já chegou ao Planalto disposto a agradecer muito e a declinar do convite.
Com Viana fora, Lula agora tem de convencer gregos e troianos, não só acreanos, de que a prioridade de Minc, dele próprio e do Brasil é a Amazônia -que é o que interessa ao mundo.
Tem, também, de tirar o PAS (Plano Amazônia Sustentável) de Mangabeira Unger e devolver ao Meio Ambiente, de onde nunca deveria ter saído. Para isso, Lula precisa admitir que errou. Ou que o seu "problema" não era só o endereço do ministério; tinha cara e nome: Marina Silva.
elianec@uol.com.br
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6:24 AM by Cassiano Leonel Drum
JOSÉ SIMÃO
Socuerro! O Bambi é argentino!
Walt Disney desenhou a floresta do Bambi em Bariloche. Desculpe destruir seu sonho!
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
E um amigo meu de Piracicaba me deu a definição esdrúxula de travesti: "Travesti é como gorro de lã, é uma delícia usar, mas quem nos vê com ele acha feio". Rarará!
E socuerro! Mais uma baixa no Sinistério do Lula: Marina Silva. Aliás, sabe por que a ministra do Meio Ambiente pediu demissão?
Por falta de ambiente! "Não tenho mais ambiente pra ficar nesse ministério.
" Ministra do Meio Ambiente não tinha mais ambiente! E aí o Lula convidou o Carlos Minc. Errado. Minc é nome de casaco de pele. Como é que um ministro do Meio Ambiente pode ser um casaco de pele?
E sabe qual é o sonho de toda onça? Ter um casaco de pele de puta! Rarará! E aí perguntei a uma modelo: "O que é ecologia?". "Ecologia é quando dá eco na cabeça da gente." Ou seja, a Carla Perez é ecológica. Rarará!
Salve o planeta. Mande o Bush pro planeta dele! E o Ronalducho, na Ana Maria Braga: "Meu sobrepeso se deve ao gosto que tenho por pratos pesados como lasanha e rabada".
RABADA? Isso é piada pronta. Buemba! Buemba! Ronaldo é chegado a uma rabada! Voltando ao meio ambiente: tem aqueles ecologistas radicais! A sua existência polui o planeta: "Pára de respirar, você tá poluindo o planeta".
Nem o planeta agüenta mais os ecologistas radicais. O planeta ainda vai gritar: "Parem de me proteger". "Deixem-me morrer em paz!" "Deixa que eu me viro sozinho." Rarará! É mole?
É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.
É que em Buenos Aires, Argentina, tem um supermercado chamado Supermercados Bambi. Deve ser pra são-paulino. E o Bambi é argentino.
É verdade. Walt Disney desenhou a floresta do Bambi em Bariloche. Desculpe destruir o sonho infantil de vocês. Mas o Bambi é argentino.
Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Encerrar": botar o não-companheiro Serra de volta no caixão. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês.
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!
simao@uol.com.br
Uma ótima quinta-feira, esta que marca que metade de maio, mês da noivas já se foi
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6:20 AM by Cassiano Leonel Drum
15 de maio de 2008
N° 15602 - Paulo Sant'ana
Carroças na França
O Batata Pimentão veio me tirar satisfações no fumódromo: "Eu quero que tu me digas em que lugar do mundo há carroças puxadas a cavalo, no trânsito, para recolher lixo".
Fiquei quieto, humilhado, cheguei a pensar em dizer para ele que no Central Park, em Nova York, há carruagens transportando turistas.
Mas como não era de lixo o transporte, fiquei quieto, esperando uma oportunidade de devolver a humilhação.
Não levou um dia para eu me vingar, Zero Hora publicou ontem uma notícia espetacular: "Preocupadas com questões ambientais relacionadas às mudanças climáticas, as prefeituras de cerca de 70 pequenas cidades francesas estão substituindo veículos motorizados por carroças puxadas por cavalos para realizar serviços públicos como coleta de lixo, transporte de pessoas e manutenção de jardins".
Mais esta agora: as carroças evitam a poluição.
A notícia joga mais lenha na fogueira da polêmica das carroças.
Só o que faltava era acabarem com as carroças em Porto Alegre e anos depois fazê-las voltar às ruas para evitar a poluição.
Fico imaginando que no futuro as cidades optarão por veículos que não sejam automotores, como carroças, charretes e bicicletas para se tornarem mais respiráveis.
Seria um retorno à pureza ambiental, na contramarcha do progresso destruidor do meio ambiente.
Parece que esta última agitação sobre o problema das carroças na Capital atingiu seu objetivo: há toda a aparência de que as autoridades e os poderes constituídos estão conscientes, caso haja a proibição das carroças, de que deverá acontecer uma destinação social às famílias dos carroceiros, com aproveitamento em atividade paralela dos carroceiros, impedindo um holocausto da classe e seus familiares.
Recebi muitos e-mails de pessoas contrárias às carroças, mas notei que eram as tradicionalmente contrárias, que usam como argumento ou pretexto os maus-tratos que alguns carroceiros infligem a seus cavalos.
Mas depois que andei de carroça pelas ruas, uma onda de simpatia com os carroceiros invadiu a cidade. As pessoas se comoveram com as condições de miserabilidade dos carroceiros em suas casas, com a desproteção de seus filhos, com os ganhos reduzidos deles em sua atividade.
Como me disseram muitos e escreveram, ficaram conhecendo o outro lado da questão.
Mas é um dilema em que tanto os que são contra os carroceiros quanto os que se postam a favor têm razão.
E qualquer pessoa que for dar opinião, como eu dei, será bombardeada por um dos dois lados.
Já enfrentei muitas questões desse tipo, sei quanto é difícil opinar em assunto que compreende duas fatias ideológicas.
No entanto, o que vale é que se instigue o meio social a refletir.
A reportagem por nós feita visava trazer novamente à tona o problema, para que ele não ficasse dormindo nos escritórios de planejamento do governo municipal e nos escaninhos dos anteprojetos da Câmara Municipal, onde em seguida já foi feita, na Comissão de Justiça, uma votação a respeito.
E o prefeito José Fogaça já anunciou que está preocupado com a questão, que certamente fará parte dos debates da eleição de outubro próximo.
Quanto a mim, me recuso a ver categorias sociais exterminadas por um golpe de caneta. Eu tenho obrigação moral e profissional de proteger os que estão na iminência de serem destroçados.
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6:18 AM by Cassiano Leonel Drum
15 de maio de 2008
N° 15602 - Leticia Wierzchowski
Os poloneses e o Rio Grande
Em virtude de uma pesquisa, naveguei por alguns sites em busca de números a respeito da imensa leva de imigrantes que ajudaram a construir o nosso Estado, dotando-o de características tão peculiares e distintas - afinal, o Rio Grande do Sul é um cadinho de raças e heranças que dá gosto de se ver, e esse amálgama genético formou uma gente com aparência européia, que inclusive tornou nossa terra famosa pela beleza das suas mulheres.
Enfim, qual não foi o meu espanto ao não encontrar quaisquer referências aos poloneses no site do RS Virtual.
Ao enumerar os imigrantes que vieram colonizar o Rio Grande, o RS Virtual linka alemães, espanhóis, italianos, japoneses, judeus, negros e portugueses, oferecendo um completo panorama de toda essa gente, suas mazelas, vitórias e culturas. Não há, porém, nem uma palavra sequer sobre a saga da gente polonesa - lapso, infelizmente, muito comum em publicações sobre o assunto.
Ora essa, para quem não sabe, os poloneses foram o terceiro maior grupo migratório a se estabelecer nas terras do Rio Grande do Sul. A partir de 1891, começaram a dar as caras por aqui, assentando-se em núcleos coloniais criados pelo governo.
Sucede, porém, que do ano de 1795 até o final da I Guerra Mundial, a Polônia teve suas terras divididas entre a Rússia, a Áustria e a Prússia, e os imigrantes chegados aqui nesse período, embora falassem a língua polonesa e se reconhecessem como tais, foram registrados como sendo russos, austríacos ou prussianos, o que gerou grande confusão.
Porém, a partir de 1920, a Polônia - uma das nações mais antigas da Europa - teve suas fronteiras finalmente restauradas.
Viveu então alguns anos de pretensa estabilidade, até a terrível invasão alemã de 1º de setembro de 1939, que desencadeou a Segunda Guerra Mundial, e mais outros tempos horríveis vieram para a gente polonesa.
Apesar dos pesares, os polacos continuaram chegando ao Brasil em grandes levas até os idos de 1930, e muitos outros vieram após o fim da II Guerra. Formam no Estado uma comunidade extensa - dezenas de cidades prósperas são habitadas por cidadãos gaúchos cujas raízes são polonesas.
Sendo assim, essa memória, além de preservada, merece ser louvada por todos nós: vamos dar aos imigrantes poloneses o crédito que lhes é devido. Vamos conhecê-los melhor, e vamos contá-los melhor também.
Aliás, fica aqui uma dica: quem nunca comeu pierogi, aqueles pastéizinhos poloneses feitos com batata e requeijão, não sabe o que está perdendo!
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6:16 AM by Cassiano Leonel Drum
15 de maio de 2008
N° 15602 - Luis Fernando Verissimo
Escolhas
Infelizmente para quem gosta de teses enxutas, as coisas nem sempre têm uma simetria aproveitável. Não está provado que a terra usada para produzir etanol vai ser roubada da terra usada para produzir comida.
As duas podem coexistir racionalmente - desde que haja racionalidade. Mas, mesmo improvável, a tese de que se deixaria de alimentar gente para alimentar carro não é absurda, levando-se em conta o domínio que o carro exerce em nossas vidas.
Toda uma maneira de viver, toda uma civilização e uma cultura foram construídas pelo e para o automóvel. Que condiciona (e muitas vezes encurta) a nossa existência tanto quanto determinou o nosso desenvolvimento urbano, a nossa vida econômica e as nossas paisagens nos últimos cem anos.
Não admiraria se, na crise terminal do combustível fóssil, escolher sacrificar a comida humana para ter o que dar ao tirano que manda em nós há tantos anos fosse a escolha lógica. Já que a alternativa seria trocar de vida.
A atual crise mundial de alimentos não é nem decorrência da produção crescente do etanol nem prelúdio do que virá quando a escolha entre gente e carro terá que ser feita, mas mostra como não se poderia contar com a racionalidade na hora da opção.
Conspicuamente ausente na discussão sobre produção agrícola, subsídios etc. e a ameaça de faltar comida está a atuação das poucas grandes empresas que dominam o comércio de alimentos no mundo.
Desde a chamada Revolução Verde dos anos 50 a Terra produz o suficiente para alimentar, literalmente, todo o mundo. Se não alimenta é porque as grandes multinacionais que ditam e controlam a distribuição no setor sempre fazem a escolha lógica. No caso a lógica capitalista que ignora a fome e opta pelo lucro. E escolhem outro monstro em vez da gente.
Para quem procura simetrias: as grandes multinacionais do alimento que ninguém menciona só têm como rivais no mundo crepuscular dos monstros que dominam a vida no planeta os grandes consórcios de petróleo.
Era inevitável - pobres de nós - que os dois sistemas acabassem tratando, juntos, complementando-se, da nossa sobrevivência. Não há como enfrentá-los, muito menos apelando à razão. A alternativa seria trocar de mundo.
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Quarta-feira, Maio 14, 2008
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6:22 AM by Cassiano Leonel Drum
14 de maio de 2008
N° 15601 - Martha Medeiros
Gente fina, elegante e sincera
Entrei numa loja de discos - estava às moscas, só mesmo eu para ainda comprar CDs - e tocava uma música do Lulu Santos.
Aliás, a que que mais gosto dele, Tempos Modernos, principalmente daquela parte que diz: "Eu vejo um novo começo de era/de gente fina, elegante e sincera/com habilidade/pra dizer mais sim do que não..."
Faz um tempão que eu espero essa nova era começar, mas por enquanto ainda vejo por aí gente grossa e deselegante, que não dá a menor importância para a maneira como trata os outros.
Lembrei dessa música porque semana passada publiquei no meu blog um texto de não mais de 10 linhas falando sobre minha satisfação com a conquista do Inter no Campeonato Gaúcho e me declarando uma colorada sincera, porém meia-boca, já que foi-se o tempo em que eu ia ao estádio e sabia a escalação de cor. Hoje acompanho o time de longe, mas ainda me emociono com as grandes conquistas.
Audácia minha, declarar que sou colorada em público. Há quem considere isso um insulto, e xinga pra valer. Não importa que seja uma minoria: enquanto existir um único destemperado que parta pra ignorância por causa de algo tão saudável como o esporte, o risco de violência nos estádios seguirá existindo.
A rivalidade sempre fez parte do jogo e uma segunda-feira sem flauta não é segunda-feira. Mas há quem leve essa rivalidade a sério demais, e imagino que sejam essas as pessoas que vão aos estádios em busca de discussão e pancadaria.
Tem muita gente que ainda se sente ofendida pelas diferenças dos outros - qualquer diferença. Incapazes de levar a vida com leveza, eles espancam homossexuais, mendigos e prostitutas, discriminam os que têm tatuagens, revoltam-se com os que votam em partidos que não o deles, perseguem os que possuem outra religião e, claro, brigam feio com torcedores de outros times.
Essa é a maior bandeira que o inseguro pode dar: se há pessoas que não são como ele, talvez sejam melhores do que ele, então só lhe resta atacá-las, agredi-las, destruí-las. Conviver em paz, nem pensar.
Sigo aguardando um novo começo de era, com gente fina (que não é sinônimo de riqueza), gente elegante (que não é sinônimo de grife) e gente sincera (que não é sinônimo de brutalidade), com habilidade para cuidar do planeta não apenas no que diz respeito à ecologia, mas também em relação ao superaquecimento dos ânimos.
Gente mais cool - não necessariamente gelada - torna o ar mais respirável.
Uma ótima quarta feira para todos nós - Namore, aproveite o Dia Internacional do sofá.
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6:18 AM by Cassiano Leonel Drum
14 de maio de 2008
N° 15601 - David Coimbra
Que pena do Gerald Thomas!
A tradição diz que o Eclesiastes não era outro senão o próprio Rei Salomão, classificado pela Bíblia como "o homem mais inteligente do mundo".
Se foram de fato a mesma pessoa, Salomão merecia a fama. Os textos do Eclesiastes formam um belo sistema filosófico, sustentado pelo pilar de uma frase genial:
"Vaidade das vaidades, tudo é vaidade debaixo do sol".
E é.
A vaidade escorre pelas frestas de praticamente todas as ações do homem. Mas alguns exageram. Alguns são campeões. Segunda-feira à noite, tive a preciosa oportunidade de ver um deles exibir os efeitos da sua vaidade em público. Testemunhei, eu e mais mil e tantos sortudos, no que a vaidade pode transformar um ser humano.
Gerald Thomas. Eis o homem, como diria Pilatos. Apresentou-se no Fronteiras do Pensamento, ele e seu colega diretor de teatro Fernando Arrabal. E foi precisamente aí, nessa relação de iguais, que se originou o show da noite. Natural: ninguém é rival de um dessemelhante. São os vizinhos que se tornam inimigos de morte.
A quizília rebentou no dia anterior, durante a entrevista coletiva, por uma dessas questões que costumam mesmo gerar conflitos viscerais. No jardim de infância. É que os dois disputavam quem havia sido mais íntimo do autor irlandês Samuel Beckett. Não assisti à coletiva, mas imagino os dois brigandinho:
- O Beckett gostava mais de mim!
- Não! De mim!
- De mim! De mim! De mim!
- Demimdemimdemimdemim!
- Lalalalalalá! - Com as mãos tapando as orelhas. - Não tô ouviiiindo!
Esses meninos, sabe como é.
Por conta disso, desistiram do debate para o qual foram pagos para participar. Preferiram fazer palestras em separado. Arrabal falou primeiro. Fiquei espantado ao ouvir seu discurso. Por duas razões:
1. Como é que um homem pretensamente inteligente, com mais de 70 anos de idade, com bom conceito profissional em parte do planeta, consegue falar tanto sem dizer nada??? Arrabal só fez gracinhas, quase todas sem graça. Mas a reação do público foi a seguinte, e é a segunda razão do meu espanto:
2. O público adorou! Algumas pessoas aplaudiram-no de pé. Houve quem suspirasse, quando ele anunciou o fim da palestra.
Hoje, em retrospectiva, até compreendo o que se deu: Arrabal foi vazio, foi superficial, foi até simplório, mas foi simpático. Esforçou-se para agradar. E agradou. As pessoas sorriam para ele, da platéia.
Foi isso que abalou Gerald Thomas. Seu desafeto fizera sucesso. E agora? Ele teria de fazer sucesso também. Ao pisar no palco da reitoria, Gerald Thomas tresandava sua insegurança. Verdade que tentou. Apelou para a estratégia do inimigo. Esforçou-se para ser gracioso.
Não conseguiu.
Gerald Thomas não é gracioso.
Para atacar Arrabal, projetou no telão uma foto em que estava numa mesa de bar com Beckett, tomando café. Era a prova de que Beckett era mais amiguinho dele do que do rival espanhol.
- Estão vendo aquela mão direita? Eu apertei aquela mão - jurou, orgulhoso.
Ninguém se impressionou. As pessoas começaram a se retirar da platéia. Saíam aos magotes, acintosamente. Confesso que naquele momento me deu certa pena do Gerald.
Mas o Gerald não faz o tipo comiserativo. Em seguida, reagiu. Voltou à sua velha característica de polemista agressivo, algo que quase sempre funciona. Desta vez, não. O Gerald não estava preparado para o improviso.
Não se comportou como contestador, comportou-se como tolo: ele, um judeu, era contra a existência do Estado de Israel; ele, que havia cinco minutos acompanhava embevecido a uma projeção de filmes de suas próprias peças, pregava que o teatro falira, que quer fazer outra coisa na vida, ajudar a uma ONG, algo assim.
In extremis, não tendo realmente o que dizer, o Gerald socorreu-se do público. Pediu para que nós, a plebe ignara, fizéssemos perguntas. Alguém concordou, formulou uma questão, o Gerald não gostou, disse que não ia responder.
Desesperado, encerrou o programa, marchou para fora do palco. Sob vaias. Ontem, escreveu em seu blog um texto apressado, cheio de erros ortográficos, pedindo desculpas. Coitado do Gerald, sucumbiu à própria vaidade.
É assim: alguns não suportam o sucesso. Isso um Gerald, um ser enfatuado de seu cosmopolitismo, da sua cultura, da sua relação com Beckett. Imagine um rasteiro, oco, limitado, insosso, insípido e inodoro técnico de futebol.
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6:16 AM by Cassiano Leonel Drum
14 de maio de 2008
N° 15601 - Paulo Sant'ana
Colapso no trânsito
O Fantástico previu para breve o colapso no trânsito de Porto Alegre e Belo Horizonte.
Quem anda de carro hoje em Porto Alegre já sabe que o entupimento geral do trânsito virá antes do que se prevê.
São despejados sobre nossa cidade milhares de carros novos por mês. Hoje se compra carro em até 72 prestações.
Se todos os carros que circulam em Porto Alegre fossem comprados à vista, dirigir na Avenida Ipiranga seria um paraíso.
Metrô não é solução para essa catástrofe anunciada. São Paulo tem metrô e apresentou na semana passada um congestionamento de 266 quilômetros, Zero Hora sacou que é a distância daqui a Pelotas. Isto é inacreditável.
Quer dizer que em São Paulo já há motoristas que gastam mais tempo no trânsito que no trabalho.
Como são insuficientes os corredores de ônibus, isto quer dizer que os passageiros dos coletivos vão sofrer o mesmo engarrafamento que os motoristas dos carros.
E quando uma pessoa vai comprar um carro popular novo, isso não significa que o usado que ela dá de entrada na revenda irá sair de circulação. Nada disso, a revenda gariba o carro e vende para outro cliente. Ou seja, o que era um carro virou dois.
A gente vê carros novos transitando só dentro de Porto Alegre e, entrando na cidade, vindos de Viamão, Alvorada e Cachoeirinha, carros usados.
Todos de carro, contínuos, office-boys, até mesmo empregadas domésticas andam de carro. Impressionante a democratização do trânsito viário, os carros deixaram de ser um monopólio da classe média e passaram a ser a condução de professores e alunos, médicos e pacientes, chefes e chefiados do serviço público e das empresas privadas.
Mal completam 18 anos, rapazes e garotas já compram ou ganham seus carros. Antigamente, antes dos 28, 30 anos, as pessoas não tinham acesso ao automóvel. Hoje, crianças já ficam ansiosas por seu carro desde os 15 anos e quase todas já sabem dirigir com essa idade.
Não tem solução, vem aí o colapso do trânsito nas grandes cidades. É a pior notícia para Porto Alegre e para algumas outras capitais.
Para milhões de pessoas isso significará um suplício ou uma danação. Multidões perderão seu direito ao sono e ao convívio com a família.
E a economia dessas cidades, inclusive a da nossa Porto Alegre, será inteiramente danificada.
Como não há solução, vou apresentar a minha: diante desta ameaça de colapso, teríamos desde já que ir nos acostumando a novos hábitos.
Eu decretaria que os bancos só iriam abrir e funcionar à noite. O mesmo com todos os serviços e repartições públicas.
O que está errado e está acabando por tornar todos os horários diurnos como horários de pico é a concentração de todas as atividades em apenas 10 das 24 horas de um dia. Tudo funciona só de 8h até 18h. E todo mundo sai de casa em ônibus ou em carro em torno dessas 10 horas.
E as outras 14 horas? Que é feito delas? O racional numa grande cidade é que todas as 24 horas sejam utilizadas para todas as atividades, que devem ser escalonadas em horários.
Uma prova disso que estou escrevendo é que quem trabalha à noite em Porto Alegre não tem nenhum problema para voltar para casa de carro e não teria se os horários de ônibus fossem estendidos pela madrugada.
O que não pode é assistirmos ao colapso de mãos cruzadas. Dá pena ver um trabalhador da Grande Porto Alegre gastando quatro, cinco horas, só para ir ao trabalho e voltar para casa. Dá pena.
E está ficando cada vez pior. Eu por exemplo já antecipei em meia hora a minha saída de casa para ir ao trabalho. Vai indo, vai indo, daqui a pouco serão duas horas.
E na marcha que vai, em 10 ou 15 anos, as empresas e as repartições públicas vão providenciar que seus empregados e funcionários durmam no serviço.
Isso é uma situação de terror precoce.
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6:13 AM by Cassiano Leonel Drum
14 de maio de 2008
N° 15601 - Diana Corso
Noivos nervosos
Acontece na vida real, acontece na televisão: o casamento é um ritual cada vez mais complexo, cheio de detalhes tão insignificantes quanto significativos.
Na televisão a cabo, há programas, do tipo reality show, onde uma noiva estressada é acompanhada nos preparativos do seu dia de princesa. Há outro só sobre comidas de banquete de casamento, e ainda Três noivas gordas e um vestido magro, uma competição de perda de peso pela indumentária, entre tantos outros.
Na vida real, a preparação da cerimônia leva no mínimo meses: todo detalhe é importante, flores, roupas, champagne, comidas, luzes, devem se combinar numa apoteose em que cada item deve traduzir o amor dos noivos, selar sua união.
Já que maio de 68 aniversaria, permitam-me um momento saudosista: sinto falta da informalidade das uniões entre os que crescemos marcados pela revolução dos costumes.
Gostava da sem-cerimônia com a qual as pessoas iam morar juntas, ou faziam uma festa do seu jeito para comemorar a união. Debutar estava fora de moda, formaturas estavam em declínio, e tampouco havia formaturas de jardim de infância.
Nas diferentes formas de comemorar datas marcantes, o que muda é o lugar onde assentamos a expectativa de aprovação, a segurança de que estamos fazendo a coisa certa do jeito certo. No tempo das bisavós, a validade do casamento estava garantida pelos rituais religiosos, a festa era complemento.
Para muitos dos meus contemporâneos, hoje pais e avós, ignorar as convenções e ir morar junto era acreditar que o amor bastava, não precisávamos da aprovação de ninguém e, além do mais, graças ao legado da contracultura, tínhamos aprendido que o laço só seria eterno enquanto durasse.
Talvez como forma de crítica a esse passado recente de irreverência ou, quiçá, porque esta geração seja menos romântica que a anterior, hoje se acredite, acima de tudo, nas convenções.
Pouco importa que alguns desses casamentos durem meses, nada abala o sonho dos noivos de ao menos por um dia serem o centro das atenções, vestidos de gala, enfeites personalizados e até mestre- de-cerimônias. Tudo pelo ritual!
Nunca fomos tão intolerantes em termos amorosos, tudo é motivo para dizer "não brinco mais". Suspeito que quem quer uma cerimônia perfeita, exigirá o mesmo da relação, com o qual, temos um risco de fracasso aumentado.
É óbvio que essa proliferação de quinquilharias em torno do amor não garante a força dos laços, talvez ela seja o anseio de que a pompa empreste uma consistência ao novo casal. Afinal, casamentos de qualquer tipo são sempre um voto de esperança.
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Terça-feira, Maio 13, 2008
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9:59 PM by Cassiano Leonel Drum
ELIANE CANTANHÊDE
Mentira tem perna curta
BRASÍLIA - Henrique Meirelles era ligado à AP (Ação Popular, da década de 1960) e teve até alguma participação no movimento estudantil de resistência à ditadura, mas nunca foi preso e muito menos torturado. Se conhece pau-de-arara e palmatória, é de ouvir falar.
Por isso ele não teve nem tem o direito de mentir, apesar de aparentemente estar mentindo pelos cotovelos quando diz que não quer, não tem condições e não vai concorrer ao governo de Goiás em 2010. Ele me disse isso, olho no olho, em 25 de abril.
Ainda bem que não escrevi. Dias depois, veio a notícia de que vai se candidatar -e até já comunicou ao chefe Lula. De duas, uma: ou Meirelles mente, ou Lula mente. Façam suas apostas.
Na nossa conversa, o presidente do BC recebeu um telefonema e disse que estava monitorando "a abertura das Bolsas na Ásia". Era sexta-feira, e Bolsa nenhuma, asiática ou não, abre aos sábados. Vá lá que era uma mentirinha indolor.
Mas também é coisa de quem subestima a inteligência do interlocutor com muita facilidade. Não dá para entender por que Meirelles me chamou para desmentir o "indesmentível": que não desistiu de suas pretensões eleitorais, depois de trocar o admirável mundo das finanças globais justamente para enveredar pela política no Brasil.
Ele explica a troca do domicílio eleitoral para Anápolis "por questões sentimentais", mas articula com líderes goianos de quase todos os partidos e gostos, à frente o mensaleiro Sandro Mabel.
Com tanto assessor e consultor, alguns meus bons amigos, falta quem lhe diga que conversa em "off" com jornalista é para informar e balizar, não para mentir e confundir. Mentira tem perna curta. Em Brasília, curtíssima.
Meirelles vai ao Congresso hoje e, em vez da proteção do "off", terá ouvidos adversários, câmaras e gravadores. Tudo o que falar poderá ser usado contra ele amanhã. Em especial o que for mentira.
elianec@uol.com.br
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9:57 PM by Cassiano Leonel Drum
JOSÉ SIMÃO
Rubinho, 257 corridas! Devagar e sempre!
E um amigo meu disse que só vai transar com a mulher quando o Rubinho ganhar
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
É que tem um programa de humor na TV portuguesa chamado "Levanta-te e Ri". E precisa levantar pra rir?
Português só dá risada em pé? E o Felipe Massa ganhou na Turquia pela terceira vez! Felipe Massa de Esfirra! Patrocínio Habib's!
E essa: "Rubinho completa 257 corridas na F-1. Espera chegar a 300". É como diz o ditado: DEVAGAR E SEMPRE!
Rarará!
E o Galvão tava parecendo galinha alucinada botando ovo! E um amigo meu disse que só vai transar com a mulher quando o Rubinho ganhar. Rarará!
E o Ronalducho tá grávido! Ops, diz que a noiva dele tá grávida! Aliás, sabe o que o Ronaldo disse quando soube da gravidez da noiva? "Dois barrigudos na mesma casa?" Rarará! Com aquela barriga, grávido é ele!
Vai pedir licença-obesidade! E como disse um leitor: o Ronaldo tá a cara do Maguila de ressaca!
E só falta aparecer a traveca: "Eu também tô grávido". Pra pedir pensão. Vai pedir pensão na Sonia Abrão! E já imaginou o ultra-som da traveca? Rarará!
E olha a pichação que eu vi no muro da igreja velha da Penha: "Padre não voa!". E piada pronta é essa manchete na internet: "Acompanhe a lentidão do trânsito em São Paulo"!
Cidade quebra mais um recorde de congestionamento. Vamos pra Olimpíada! E eu sei como acabar com o congestionamento em São Paulo: carro financiado não circula. Rarará!
E avisa pro Lula que eu tô de pac cheio desse PAC. PAC é quando o saco estoura: "PAC"! Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês".
Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Carrancas, Minas, tem uma cachoeira chamada Racha da Zilda. Parece Dias Gomes. Mais direto, impossível.
Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Extraído": companheiro que deixou de ser corno. Rarará!
O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!
simao@uol.com.br
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6:21 AM by Cassiano Leonel Drum
DISCRIMINAÇÃO RESIDUAL
A Lei Áurea, que acabou com a escravidão no Brasil, completa 120 anos hoje. Alguns dados atuais sobre os brasileiros: 49,5% são não-brancos, 2% deles estudam em universidades, 3,5% desses ocupam cargos de chefia em empresas (negras chefes são 0,5%).
Tudo isso por não sermos racistas. Como se caracteriza então a discriminação racial no Brasil? A resposta exige uma situação concreta. Em função das cotas, muita gente passou a defender a melhoria do ensino público básico.
É justo. Excluídas as cotas, não se retomará a justificava da falta de recursos para que tudo continue como está? Afinal, tem-se um álibi perfeito para justificar o modelo excludente: os melhores entram. E isso não gera racismo.
A criatividade brasileira produziu a mestiçagem, evitando o apartheid de outros países. Fomos mais longe: misturamos, mas mantivemos a separação. Juntos, mas separados. Eis a nossa fórmula.
Estão certos aqueles que dizem não haver discriminação racial no Brasil no que se refere à aceitação de um não-branco na universidade? Até certo ponto, sim. Há quem seja racista. Mas não é por racismo explícito que se dá a exclusão de que tanto falamos.
Não há rejeição ao negro no sentido primário do racismo de outros tempos ou lugares. Nenhum estudante, salvo exceção por mim desconhecida, deixará de sentar-se ao lado de um não-branco. Nenhum estudante se recusará a fazer um trabalho com um mestiço. A nossa discriminação é residual ou inercial.
Esse resíduo, porém, atinge metade da população. Esse resíduo tem conseqüências paradoxais. Os não-brancos tornaram-se, por razões bem conhecidas, os mais pobres. Sendo mais pobres, têm menos condições de preparação. O círculo vicioso não pára de viciar.
A discriminação racial explícita existe em inúmeras instâncias da nossa sociedade. A inclusão dos não-brancos na educação não tem sido suficiente para ajudar a romper essa cadeia ardilosa.
Enquanto o Brasil não admitir que há discriminação residual ou explícita, racial ou de aparência, jogará para baixo do tapete uma questão grave. Até quando?
Por enquanto, há um jogo perverso de empurra-empurra: os não-brancos não avançam por serem pobres (ou, segundo certos pontos de vista 'universalistas', por não se esforçarem o suficiente), cabe alocar mais recursos à educação de maneira que eles não precisem auferir de 'privilégios', mas, infelizmente, os recursos são escassos e só lhes resta um pouco mais de esforço pessoal...
Alguns acreditam que a política de cotas vai criar racismo no Brasil. Outros alegam que a nossa Constituição proíbe a discriminação racial. Só quem não recusa nem proíbe a discriminação racial é a nossa realidade. Por que não se cumpre a Constituição?
Há quem veja politicagem no apoio às cotas. Não seria sacanagem, em vez de politicagem, se recursos de fato existem, faltando apenas vontade política para destiná-los à educação? Não há politicagem também na falta histórica de projetos para superar a exclusão dos não-brancos do ensino superior?
Um leitor, com um cinismo salutar ou uma ironia fabulosa, explicou-me o óbvio: os não-brancos não entram na universidade porque nem terminam o ensino médio.
Bem entendido, quando passam do ensino fundamental. Não fosse essa indigesta discussão sobre cotas, fabricando racismo numa democracia racial, o 13 de Maio seria apenas um gesto magnânimo do passado. Em 120 anos, não dá para fazer muito. Talvez em 1.200.
juremir@correiodopovo.com.br
Excelente terça-feira para todos nós - Parabéns aos aniversariantes do dia que marca o aniversário da Abolição da Escravatura - 13 de maio de 1888
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6:17 AM by Cassiano Leonel Drum
13 de maio de 2008
N° 15600 - Paulo Sant'ana
Carroceiro odiado
Quando o Nílson Souza teve a idéia de me pôr para dentro de uma carroça e apurar jornalisticamente o que sentem os motoristas e os carroceiros quando se defrontam no trânsito a bordo de veículos tão discrepantes, fui pensando ontem na minha travessia coberta pela RBS que estava topando no trajeto com um mico-leão-dourado, um hipopótamo-pigmeu ou uma ararinha-azul.
Sabia que a carroça que eu iria dirigir pelas ruas da cidade é veículo em extinção, em breve expurgado da paisagem da Capital, como acontecera há décadas com o bonde.
Levantei às 5h30min e saímos no frio em direção à Ilha Grande dos Marinheiros, onde devem morar mais de mil carroceiros. Se for assim, na Ilha da Pintada, onde dizem se concentrar o maior número, lá podem vir a ser 3 mil.
Por que os carroceiros se concentraram nas ilhas? Acho que sei: adivinharam que se fossem se enquistar na cidade, no continente, seriam depressa daqui enxotados, eles se constituem numa categoria profissional antipática, as pessoas comuns não os suportam, eles são de uma pobreza primitiva, sem salvação, e muitos deles maltratam os cavalos e se entregam ao furto e à embriaguez.
Por isso correram para as ilhas, separados da civilização, lá escondem suas misérias e seus defeitos. E de lá só saem para recolher o lixo da cidade, um material que se coaduna com o seu aspecto miserável e repelente. E também porque ficam perto do Centro.
O carroceiro que Zero Hora escolheu para me acompanhar em minha aventura, Teófilo Rodrigues Motta Júnior, 38 anos, seis filhos, é um homem doce e se expressa muito bem.
Ao olhar-se para seu cavalo, o Pretinho, vê-se pela disposição do animal que não é maltratado, e está ansioso e disposto para iniciar seu trabalho matutino.
E lá saímos da vila pobre da ilha, onde se amontoam os barracos precários como o de Teófilo e ingressamos na BR-116 em seguida, dando de cara com a primeira ponte sobre o Guaíba, um gargalo perigoso para uma carroça que não pode ali ser ultrapassada, tornando-se iminente um acidente provocado por motorista impaciente.
Quando, comigo aliviado, cruzamos a ponte, fui notar a primeira grande dificuldade para manejar as rédeas: carroça não tem espelho retrovisor. E assim fica difícil derivar para a esquerda ou a direita, se olhar para trás, pode-se perder o controle sobre a direção da carroça, corre-se o risco de o cavalo tornear para um dos lados.
Outra dificuldade: para deixar livre e mais folgado o tráfego de carros na faixa contígua à calçada, é-se obrigado a trafegar com a carroça bem pela direita, correndo-se o risco de bater com o varal direito nos carros estacionados.
Atrás da gente, os caminhões e as jamantas buzinam e ultrapassam, qualquer indecisão nas rédeas pode significar um acidente grave: e os carros já são frágeis, imaginem uma carroça.
É uma vida dura e sacrificada a do carroceiro. Ele consegue a muito custo catar grande quantidade de lixo todos os dias para ganhar R$ 600 a R$ 700 por mês e alimentar seus filhos com leite, pão, feijão e arroz e seu cavalo com milho moído, pastagem na cidade ou nas ilhas é rara.
Não tem férias, não tem fundo de garantia, não tem seguro-saúde. Sua vida se compara à dos animais: resume-se somente em sair para a rua de dia e trazer comida para os filhos no ninho, à noite.
São odiados por muitos porque alguns patifes carroceiros maltratam seus animais ou os deixam desnutridos.
Mas a maioria dos carroceiros trata bem seus cavalos. O Teófilo, que nos acompanhou, disse que, quando acabarem com as carroças, ele continuará vivendo com seu cavalo Pretinho, pelo qual se afeiçoou ternamente.
Não sei como poderá conviver com seu Pretinho, se acabarem com as carroças, se faltará comida até para seus filhos.
Se acabassem com minha profissão, não seria improvável que eu acabasse com minha vida.
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6:15 AM by Cassiano Leonel Drum
13 de maio de 2008
N° 15600 - Luís Augusto Fischer
68 em 77
Por quanto tempo o ano de 1968 permanecerá sendo um marco cultural e político? Enquanto viverem seus protagonistas, é certo; mas é possível que vá mais adiante, entrando para o rol das datas-marco, que fixam a história, dando nitidez de leitura para os pósteros na mesma medida em que barateiam o processo histórico.
Para não ir muito longe no tempo, bastaria lembrar que 1888, justamente um 13 de maio, entrou para a história como a data maiúscula da Abolição, o que faz grande sentido;
mas essa nitidez impede de lembrar, por exemplo, o 28 de setembro de 1871, data da Lei do Ventre Livre, que parece ter despertado mais debate, controvérsia e luta social do que a Lei Áurea, por sinal assinada por Isabel porque o pai, Pedro II, queria esquentar a manutenção da monarquia no Brasil, com ela de imperatriz.
Neste 2008 são celebrados os 40 anos redondos do Maio de 68, e quase basta dizer essas palavras e números para significar luta pela liberdade, confronto com o conservadorismo, reforma universitária, tudo isso protagonizado pela juventude, setor da sociedade até então inexistente, porque era apenas um passo entre a infância e a idade adulta, mas que naquele momento ganhou nome, prestígio e destino particulares.
Eram os filhos do pós-Guerra, os baby-boomers norte-americanos, que tinham encontrado no rocknroll a sua linguagem e no corpo sua matéria. Por isso não era para confiar em ninguém com mais de 30 anos, como ameaçava uma canção da época.
No Brasil isso tudo ganhou forma especial pela força da canção, praticada nos festivais, veiculada pela moderníssima televisão e embalada pela força do combate à ditadura instalada em 64 (que recrudesceria ao fim do ano de 68, com o AI5).
A geração nascida entre 1940 e 1945 é qualquer coisa: Chico, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Rita Lee, Elis, Tim Maia, Roberto Carlos e uma penca de gente que, oriunda das classes médias, de vez em quando cultas, soube dar voz a um sentimento espalhado pelo Ocidente todo. E que voz: capaz de soar até hoje (e pelo mesmo tempo que durar o marco 68?).
De minha parte, nascido em 58, conheci o Maio de 68 em Agosto de 77, quando minha geração universitária fez as primeiras passeatas fortes contra a ditadura, a mesma, mas já declinante.
Os ingredientes políticos e culturais eram quase iguais, mas já contávamos com o benefício da experiência alheia: já havia os mártires de 64 e 68, os cassados, os torturados, os humilhados, que davam um sinal, chamando-nos para a rua, para a frente, para sempre.
Até cantamos de novo a proibida Caminhando, mas já cantávamos "Agora não pergunta mais aonde vai a estrada, agora não espero mais aquela madrugada: vai ser, vai ter que ser faca amolada".
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6:13 AM by Cassiano Leonel Drum
13 de maio de 2008
N° 15600 - Moacyr Scliar
Israel, 60 anos
Anos atrás, num encontro de escritores realizado em Israel, Judith e eu tomamos o café da manhã com Shimon Peres. Hoje presidente de Israel, naquela ocasião Peres estava no limbo político, não ocupava cargo algum.
Perguntei a que atribuía a recente derrota do Partido Trabalhista, do qual era líder, nas eleições que resultariam na indicação do primeiro-ministro. Peres pousou a xícara de café, pensou um momento e disse: "Perdemos porque nos acomodamos, porque paramos de lutar por nossas idéias".
Que idéias eram essas, e que importância tinham, no momento não interessa. O que me impressionou, e continua me impressionando, foi a notável franqueza daquele homem. Afinal, eu não passava de um desconhecido, e ele podia ter me respondido com uma frase qualquer, tipo "política tem dessas coisas".
Mas não, Peres disse o que julgava ser a verdade, e isto revelava uma dimensão moral, a mesma dimensão moral que agora aparece na sua mensagem presidencial sobre o Dia da Independência de Israel (amanhã, 14 de maio) e que está circulando na Internet. Diz Peres: "Praticamente surgido das cinzas dos horrores inenarráveis do Holocausto, Israel vem lutando pela sua sobrevivência.
Mas conseguimos transformar o sonho de um lar para o povo judeu em realidade: criamos uma democracia-modelo, um sistema judiciário independente e nos colocamos na vanguarda de áreas como ciência e tecnologia, medicina e agricultura.
Alcançamos a paz com o Egito e a Jordânia e esperamos que as negociações de paz com os palestinos tragam frutos. Devemos nos ater aos valores legítimos ditados pelos nossos profetas, um legado que uniu o povo judeu através dos tempos".
É muito interessante que Peres tenha mencionado os profetas bíblicos. Porque essas singulares figuras faziam exatamente o que ele fez naquele café da manhã: diziam a verdade, por dolorosa que fosse.
E a verdade, ao fim e ao cabo, é a grande defesa de seres humanos, de povos e de países. Israel é um triunfo, como diz Peres? Sem dúvida.
É impressionante o que aquele povo conseguiu num país minúsculo, carente de recursos naturais - nem água tem - rodeado de inimigos que a todo instante prometem "varrê-lo do mapa". Se Israel sobreviveu foi exatamente porque corresponde aos valores mais profundos e mais autênticos não do só judaísmo, mas da humanidade.
Cometeram erros, os sucessivos governos de Israel? Cometeram erros, sim. Tardaram a reconhecer a identidade palestina e as legítimas aspirações de um grupo humano que tem muito em comum com os israelenses, além do parentesco étnico.
Por outro lado, criaram colônias entregues a fanáticos religiosos que são uma constante dor de cabeça. Isto resultou de previsões equivocadas. Nem todos são profetas.
Queixas e acusações à parte, Israel tem muito a celebrar no seu 60º aniversário. E o presidente Peres, herdeiro de grandes tradições do judaísmo, soube dizê-lo melhor d |