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Espero que retornes
sempre a este espaço feito para você.
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Uma Alegria Para Sempre (Quintana)
"As coisas que não conseguem ser
olvidadas continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre onde as
datas não datam.
Só no mundo do nunca
existem lápides...
Que importa se –
depois de tudo – Você se foi
como sempre me dizia
e escrevias que havia feito já com outros.
Não importa amor, se você descasou
mudou, sumiu, esqueceu,
enganou, ou que quer que haja
feito, em suma?
Tive uma parte de sua vida
que foi só minha e, esta, você
jamais poderá passar de mim para ninguém.
Há bens inalienáveis,
há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte da tua vida presente
e não do passado.
E abrem-se no meu
sorriso mesmo quando, deslembrada deles,
estiver sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto
devo à você, que mesmo sem querer
quem sabe fostes uma ingrata criatura...
"A thing of beauty is a joy for ever
disse, há cento e muitos anos, um poeta
inglês que não conseguiu morrer".
Se tiveres curiosidade a respeito:
Amo-a muito ainda.
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E
N T R E L A C O S
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Quarta-feira, Novembro 25, 2009
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6:42 AM by Cassiano Leonel Drum
25 de novembro de 2009 | N° 16166
MARTHA MEDEIROS
Vidas de plástico
Assisti no DVD a um filme que me sensibilizou, ainda que não tenha feito muito barulho quando esteve em cartaz, ao menos não que eu lembre. É uma produção norte-americana chamada A Garota Ideal.
É a história de Lars, um homem tímido e fechado em si mesmo. Ele mora nos fundos da casa do irmão e da cunhada, que tentam atraí-lo para uma vida mais social, só que ele não quer saber de fazer amigos, não tem namorada, vive da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, sem nem mesmo apertar a mão de ninguém – é refratário a qualquer toque. Sua solidão não é bem aceita, e tanto pegam no seu pé, que ele encontra uma solução para que o deixem em paz: compra uma boneca sexual pela internet.
O que poderia não passar de uma piada vira um constrangimento, porque Lars trata Bianca, a boneca, como uma mulher real. Conversa com ela, a leva à mesa na hora das refeições, apresenta aos amigos, deixando a todos perplexos com esse delírio.
Uma psicóloga acaba sendo convocada e, pra surpresa geral, recomenda que todos entrem no jogo de Lars, tratando a boneca como uma mulher de verdade – é o único meio de ajudá-lo. E mais não conto, mas acreditem, esse roteiro aparentemente estapafúrdio rendeu um filme terno e inteligente.
Mostra um homem se refugiando na fantasia para vencer seus traumas e mobilizando todo um vilarejo a fazer o mesmo: a população, solidária, trata a boneca como se ela tivesse pensamentos e vida própria.
Em determinado momento do filme, Lars está saindo da igreja com a sua “namorada” (que se locomove numa cadeira de rodas: seria demais exigir que ela caminhasse) quando uma moradora da cidade deixa no colo da boneca um buquê de flores artificiais. Lars agradece, se afasta com a cadeira e sussurra à namorada: “Não são de verdade, por isso vão durar para sempre”. É a frase que, a meu ver, resume não só o filme, mas um comportamento que está se tornando epidêmico.
A melhor maneira de fugir dos problemas é inventar uma vida em que tudo dê certo. Não por acaso, as relações virtuais andam com um ótimo cartaz, já que, em vez de serem realizadas, elas são controladas à distância.
Você se relaciona com fotos, com palavras tecladas, com alguém que está amenizando a sua carência sem que haja interação pra valer – é a legítima “proteção de tela” para ambos. Assim, fica fácil alcançar o romance ideal: como não há um envolvimento de fato, também não haverá decepções de fato.
Flores artificiais não perdem a cor e não precisam ser regadas, por isso se assemelham às relações dos nossos sonhos: são imortais. No entanto, não têm beleza, cheiro, não exigem dedicação, há apenas tédio, e acabam esquecidas num canto.
Não são de verdade, já que a verdade pressupõe mais instabilidade e emoção. Um amor de plástico, assim como flores de plástico, apenas servem para não dar trabalho, mas seu valor é nenhum. Onde não existe a possibilidade de morte, a vida não acontece.
Aproveite o dia. Uma ótima quarta-feira para vc
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6:39 AM by Cassiano Leonel Drum
25 de novembro de 2009 | N° 16166
DIANA CORSO
Em nome do filho
Passei por um homem jovem e vi em seu braço forte, como o dos marinheiros de cartoon, uma tatuagem: era um nome de mulher, mas no outro braço havia um nome de homem. Não era um bissexual proclamando sua condição na pele, era um pai. Hoje em dia, numa celebração ao único amor certamente eterno, muitos tatuam o nome de seus filhos.
Tatuados ou não, filhos são indeléveis, seu nascimento é uma marca inesquecível. Mesmo que um pai ou uma mãe acabem não criando seus filhos, afastando-se deles, sentirão para sempre sua existência, da mesma forma como se sente um membro fantasma, um membro amputado que ainda dói. Por vezes até os não nascidos, gestações perdidas ou interrompidas, também deixam marcas e fazem aniversários.
Apesar disso, é difícil acreditar que os filhos recém-nascidos são uma realidade. Podemos ficar horas olhando a criatura adormecida, como se ela fosse um sonho do qual vamos acordar. Quando crescem, ainda parece incrível que “mamãe” e “papai” sejamos nós.
Em certos momentos da infância das minhas filhas esperava que um adulto de verdade aparecesse para assumir a função. Ocorre que as tarefas maternas e paternas sempre transcendem os que se ocupam delas, pois, mais do que práticos, são atos simbólicos, que assumem contornos míticos, ninguém está à altura.
Os pais que tatuam o nome dos seus filhos talvez saibam disso e querem a garantia da perenidade do vínculo no seu corpo. Tatuar-se o nome da pessoa amada é como impor uma certeza de fora para dentro, pode também ser uma declaração pública de pertença, como uma aliança que não sai do dedo. Os filhos sempre nos tatuam, nos possuem, queiramos ou não.
Dizer que os filhos são um amor que se impõe de fora para dentro não significa que falte em nós o júbilo de esperá-los, a felicidade de tê-los, apenas, inicialmente, o que amamos é a ideia de um filho que é sonhado. Já aquele nasce, é alguém que ainda teremos que trabalhar muito para conhecer e aprender a amar.
Seu modo de ser, de se parecer e os desafios que seu crescimento nos impõe, nos transformarão pelo resto da nossa parca existência: de fora para dentro. Nunca estamos realmente preparados para os choros, as doenças, os conflitos com amigos, os namoros, as dificuldades na escola, os dilemas vocacionais, as separações das viagens, a saída de casa.
Vamos tocando e improvisando. Frente a tanta incerteza, não se estranha que se recorra à tatuagem para firmar um vínculo mutante, denso, pleno de ambivalências e mal-entendidos.
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6:37 AM by Cassiano Leonel Drum
25 de novembro de 2009 | N° 16166
PAULO SANT’ANA
O lixo nas praias
É fácil suportar a dor dos outros, difícil é suportar a própria dor. Não existe ditado mais verdadeiro do que “cada um sabe onde lhe aperta o calo”.
Medito, assim, que o homem verdadeiramente santo ou verdadeiramente sábio é o que chora pela dor alheia, o que sente na própria carne o sofrimento dos outros: eis um homem superior.
Se só sofrendo se consegue ser uma pessoa, então estou formado para a vida depois destas tonturas.
O pior da tontura é que na nossa volta ninguém mais a está sentindo.
E essa inveja que se sente dos que não estão tontos é uma dor ainda mais aguda do que a própria tontura.
A tontura priva o tonto de todos os prazeres, o de achar graça, o de rir, o de comer, até mesmo o de conversar.
Olho para os meus circunstantes e não entendo como eles podem não estar alegres, eufóricos, delirantes de alegria por não estarem tontos.
Comparo-me a eles e calculo que a nenhum deles sucede o acicate da dor permanente, da dor contínua, sem quartel.
Não há manifestação mais genuína de felicidade do que se estar apto para cantar ou para ouvir música. Um ser que canta ou ouve música é um ser feliz ou propício a ser feliz.
Isso me ocorre porque nesses longos dias de tontura nunca me sucedeu ousar cantar qualquer verso de tango ou de samba.
Adivinho que se for cantar ou ouvir qualquer melodia não usufruirei da música na essência do que ela é: a alegria do espírito.
Pode-se avaliar a felicidade das pessoas ouvindo-as cantar ou dançando.
Quem canta ou dança seus males espanta. O canto e a dança são o habeas corpus para a felicidade.
Não me ocorre beber, não me ocorre ler, não me tenta ser espirituoso em quaisquer conversas, a grande arma que sempre tive para cativar pessoas e cultivar amigos.
E o pior é que ninguém viu a minha dor chorando. O meu sofrimento não se mostra, ele é só meu, terrivelmente só meu, não consigo justificá-lo, sua invisibilidade ainda mais me amassa por não atrair de ninguém a compaixão.
Não tem jantar, não tem almoço, não tem bate-papo, esta tontura é uma dor que não tem programa, a dor da solidão.
Tento driblar a tontura com o trabalho. Pois ela me será muito mais dolorosa se eu me entregar ao ócio. Pelo menos o trabalho me distrai e atenua a náusea.
E, enquanto cismo absorto em dor, leio que o prefeito do Rio de Janeiro critica violentamente os seus munícipes.
O usual é os munícipes criticando o prefeito. Lá, não. O prefeito chama os habitantes do Rio de Janeiro de “porcos” por sujarem a cidade: mais de sete toneladas de lixo são retiradas diariamente só das praias do Rio.
Ninguém se aplica em colocar o lixo nas lixeiras, o trabalho de recolhimento dos detritos é gigantesco, as verbas gastas com isso são monumentais, parece que os banhistas se comprazem em ir largando o lixo onde ficam e por onde passam.
Isto de jogar o lixo fora sem colocá-lo na lixeira é um vandalismo, por ele se pode aferir o caráter de um povo.
Não é só nas praias, onde o lixo fica mais visível, mas qualquer detrito que jogarmos fora em qualquer parte das ruas passa a ser algo que se volta contra nós. Essa despesa com o recolhimento do lixo recairá em nossos próprios bolsos.
Nisso e em outros mil detalhes, o Brasil demonstra estar muito longe ainda de um patamar razoável de civilização.
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6:34 AM by Cassiano Leonel Drum
25 de novembro de 2009 | N° 16166
DAVID COIMBRA
Velhas noites de sexta
Havia um bar bem ao lado do Teatro Presidente, teatro que, aliás, também havia, não há mais, foi-se o teatro, foi-se o bar, muito se foi naquela região da cidade. Edelweiss chamava-se o bar, nome de uma flor e de uma música da Noviça Rebelde.
Bem.
Todas as sextas-feiras íamos ao Edelweiss. Não precisava marcar, era certo: sexta, a partir da última esquina das 11, Edelweiss. O pedido não variava: uma pizza à xadrez que o dono do bar, o Tio Beto, fazia na manteiga, ficava crocante e macia, e não grudava no fundo da forma, uma delícia.
E cerveja, claro. Lembro que um dia cheguei por volta da meia-noite, cansado, sedento, precisando tirar a poeira da garganta, como diria o Tex Willer, e o Tio Beto fez aterrissar aquela garrafa branquinha de tão gelada na minha frente, declarando:
– Esta é melhor maneira de dizer boa noite a um amigo.
Lágrimas de emoção subiram-me aos olhos.
O Chico Trago levava o violão para o Edelweiss e cantávamos madrugada adentro. Mão, violão, canção, estrada e viola enluaradaaaaa...
O pessoal do Taranatiriça também ia tocar lá, e às vezes juntávamos as mesas.
Na hora de ir embora, abríamos a porta da rua e, Cristo!, a luz do sol nos cegava por instantes. Como a luz do sol é deprimente no fim da festa.
De qualquer maneira, era um belo bar, o Edelweiss, desses que não há mais na cidade.
Uma noite, cheguei antes da turma, sentei-me, eu com minha cerveja, e vi três moças que ainda não conhecia, na mesa ali adiante. Estavam entretidas numa conversa audível, não tive como não prestar atenção.
Mas não lembro de nenhum dos assuntos que tratavam, lembro apenas de uma única frase dita pela mais magrinha, a mais sequinha, a mais murchinha, quando a mais exuberante delas levantou-se para ir ao banheiro. Tratava-se, a exuberante, de uma morena magra, porém curvilínea, de cabelo reluzente e olhos d’água. Deslizou cheia de graça para o extremo sul do bar, enquanto as duas amigas a observavam. Aí a tal magrinha, a sequinha, a murchinha falou para a outra, num suspiro:
– Queria saber como é ser bonita como ela...
Foi como se me tivessem sacudido na cadeira. A singeleza triste da observação me enterneceu. Ela dizia, a murchinha, que queria saber como é ser bonita. Ou seja: sabia que não era. Que nunca seria. Mas desejava experimentar a sensação de ser.
Sua vida de feia de nascença decerto ensinara-lhe que, ao contrário do que a literatura e o cinema pregam com tanta generosidade, a beleza faz, sim, diferença. Mais: que alguns simplesmente vêm ao mundo privilegiados. São mais belos, mais inteligentes, mais ricos, têm mais sorte, e isso não significa que sejam menos bondosos, menos decentes, menos dignos.
O que a murchinha certamente sabia é que o mundo não é justo. Às vezes é até cruel. Cabe ao ser humano atenuar essas injustiças, corrigir as distorções da Natureza e dar mais a quem tem menos. Se a vida é torta, o homem tem de lutar pela retidão. Portanto, nada deste injusto e desigual campeonato de pontos corridos. Em nome da justiça e da suspirante murchinha do Edelweiss, que o campeonato volte a ter uma final.
A imoralidade da fórmula
Minha candente desaprovação à fórmula de pontos corridos no Brasileiro não tem a ver com a emoção na competição – qualquer campeonato de futebol, com qualquer fórmula, acaba sendo emocionante. Tenho ojeriza a essa fórmula precisamente pelo motivo alegado para implantá-la: diziam que era justa; é profundamente injusta e desigual. Pior: é imoral.
A prova provada são os jogos que decidirão o precário campeonato deste ano:
São Paulo x Sport
Inter x Santo André
Flamengo x Grêmio
Sport e Santo André já rebaixados e Grêmio cristalizado no meio da tabela. Onde fica a igualdade desses confrontos? São Paulo, Inter e Flamengo enfrentam a pressão de uma decisão contra adversários que jogarão bocejando. Pode ser bom para o adversário, que não tem razão para nervosismo. Mas também existe a possibilidade de o adversário, por estar bocejando, distrair-se, levar gol e pouco se importar em virar o resultado.
Melhor seria uma fórmula mista, com pontos corridos e uma final com três jogos entre os dois melhores colocados, mas, se tivesse que escolher entre o sistema atual e o antigo, ficaria com o antigo, que exigia do campeão a prova definitiva de ter que passar por uma decisão, com todas as suas solicitações emocionais. Era mais lógico. E mais justo.
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Terça-feira, Novembro 24, 2009
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9:27 PM by Cassiano Leonel Drum
JOSÉ SIMÃO
Socuerro! Saiu a Barbie Geisy!
Chegou o pentelho bomba! O coisa-ruim! O impronunciável: Ahmadinejad!
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! É que um amigo foi fazer um exame em Natal e sabe como se chama o laboratório de análises clínicas? CACA! Rarará!
E o blog Criativo de Galochas criou a Barbie Geisy, uma "fashion doll"! Na facul ou na balada, ela veio pra causar. E eu já falei do terrorismo musical da Volks: "Fuscão Preto", "No Meu Crossfox" e agora "Kombi Branca".
Então, vou lançar mais duas: "Dei pro Meu Rei no Delrey!", um axé, e "Boquete no Chevette", um funk! Pra bombar no YouTube!
E socuerro! Me mate um bode! Todos para o abrigo. Salve-se quem puder! Chegou o pentelho bomba! O coisa-ruim! O impronunciável: Mahmoud Ahmadinejad! Como é que o Lula vai conseguir falar esse nome? Ah, vai chamar de companheiro mamute!
Eu tenho pena de âncora de telejornal. Todos treinando em frente ao espelho: "Ahmadinejad". Ele é o Bush do islã! Ele tem cara de tapado! QI de minhoca!
Diz que no Irã não tem biba. Ah, tá boa, burca amiga?! Deve tá tudo embaixo do tapete! Ele devia se casar com o Bin Laden! E imagine o discurso: "O Holocausto é um mito, e a Terra é quadrada". Todas as piadas do Bush, transfere pra esse doido.
Todo mundo bota a vassoura atrás da porta. Pra ele ir embora logo! Ô, visita inconveniente. Sabe aquelas visitas que chegam na hora do almoço? E você tem que abrir mais uma lata de atum pra jogar no macarrão! E o Rafinha Bastos do "CQC" revela a agenda do presidente do Irã: churras de criancinha no haras do Sarney e bate-bola na casa do Obina.
Tudo bem light! E o meu São Paulo continua na liderança! E olha o e-mail provocação que eu recebi: "Sabe qual a semelhança entre o Campeonato Brasileiro e um pingolim? É que os dois rodam, rodam, rodam e sempre caem na mão do São Paulo!". Rarará! Que sacanagem! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão! Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. Em João Pedro, Paraíba, tem uma boate gay chamada Anel do Brejo! Ueba!
Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Sopetão": congresso de companheiras siliconadas. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.
simao@uol.com.br
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9:14 PM by Cassiano Leonel Drum
CARLOS HEITOR CONY
Já vimos este filme
RIO DE JANEIRO - Tal como na televisão, as novelas da vida real são recorrentes, repetem-se com frequência mudando apenas alguns pormenores irrelevantes. O chassi é sempre o mesmo.
O pedido de extradição do italiano Cesare Battisti transformou-se num novelão que ainda não chegou a seu final. A mais alta corte de Justiça do país passou o abacaxi para o presidente Lula decidir e até agora sua excelência não decidiu.
Sabe-se que Lula é amigo do peito de todos os chefes de governo em exercício, inclusive de Berlusconi, com quem recentemente trocou afagos e palmadinhas nas costas.
Isso não chega a ser uma suspeição, a relação pessoal entre os dois presidentes pode ser boa, mas sem influir na decisão final.
Contudo, gostaria de lembrar um caso parecido, quando, nos anos 70, três países, Alemanha, Polônia e Israel, pediram a extradição do criminoso de guerra Gustav Wagner, que havia anos morava no Brasil.
A folha corrida do criminoso era horripilante. Em Sobibor, campo de concentração do qual era diretor, ele apanhava as criancinhas no colo das mães e as espatifava num poste da estação ferroviária. Era um monstro, com mãos enormes e disformes. Romeu Tuma, que o prendera, deixou que eu o entrevistasse, fiquei sem dormir algumas noites.
Pois o governo brasileiro, pressionado pelos países árabes que dominavam então o preço do petróleo, por meio da Opep, negou a extradição e Wagner veio a morrer, anos depois, na santa paz dos justos, aqui mesmo no Brasil, onde nunca foi molestado.
Isso mostra que os casos policiais em nível internacional transformam-se em casos políticos, que são resolvidos em termos políticos, a Justiça, o bom-senso sendo substituídos por interesses momentâneos e até mesmo pessoais das autoridades envolvidas.
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9:11 PM by Cassiano Leonel Drum
ELIANE CANTANHÊDE
Antes perto do que inacessível
BRASÍLIA - Mahmoud Ahmadinejad vem aumentando sua presença na América do Sul, que fica logo abaixo e sofre influência direta do arqui-inimigo do Irã, os EUA. Não deve ser por acaso.
Primeiro, Ahmadinejad passou a visitar a Venezuela com uma frequência curiosa. Depois, aproximou-se do Equador e da Bolívia. Agora, botou literalmente os pés no Brasil, trazendo mais de 200 empresários de vários ramos, de agricultura a energia.
Diplomacia se faz muito pelos interesses bilaterais, um pouco pelos regionais e às vezes pelos multilaterais. Na vinda de Ahmadinejad, esses três ingredientes estiveram fortemente presentes, enquanto gays, feministas, bahá'ís e judeus gritavam do lado de fora dos palácios.
Para o mundo ouvir. A visita é mais um marco da polêmica política externa brasileira, que já criou "frisson" com uma cúpula Mercosul-países árabes em Brasília e atraiu ao país num só mês os presidentes de Israel, da Autoridade Palestina e agora do Irã.
A intenção não é assumir um lado da questão, nem apoiar o regime iraniano, muito menos compactuar com as barbaridades de Ahmadinejad, que nega o Holocausto e já pregou "varrer Israel do mapa".
É, ao contrário, fazer como o Brasil faz inclusive com a Venezuela de Chávez: perto o suficiente para ter penetração e diálogo, longe o necessário para não se comprometer com regimes, governos ou decisões pontuais. Ao contrário, tendo força moral para criticá-los.
É melhor ter o Irã por perto e submetido a alguns compromissos do que tê-lo isolado para fazer o que bem entender. Aliás, o simples fato de haver uma crescente oposição interna é bom sinal. Ahmadinejad sabe que ela não está sozinha e que o mundo está de olho. Não deixa de ser uma forma de proteção.
Engana-se quem acha que é uma ação do Brasil veladamente contra os EUA. Ao contrário, trata-se de um jogo bem combinado.
elianec@uol.com.br
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6:59 AM by Cassiano Leonel Drum
24 de novembro de 2009 | N° 16165
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA
Entre dois mundos
Num entardecer de novembro de 1989, precisamente há 20 anos, Lauro Schirmer, então diretor de Zero Hora, me chamou à sua sala para mostrar o que foi um dos acontecimentos mais importantes do século 20. Na tela da televisão, uma multidão, na noite de Berlim, se apropriava do Muro e o punha abaixo, desafiando a bipolarização do mundo entre duas superpotências e acabando com a cisão de um país dividido contra si mesmo.
Contemplei emocionado aquele capítulo vivo da História e disse a Lauro que não me faltava ver mais nada.
Eu era sincero. Conheci Berlim em 1980, ainda dilacerada, e não esqueço a primeira vez que transpus suas fronteiras. O ônibus cruzou o Checkpoint Charlie, e logo um impressionante aparato da polícia oriental nos cercou. Meus companheiros de travessia e eu fomos cuidadosamente revistados e meu passaporte examinado como se fosse uma arma letal. Depois de uma excursão por entre ruínas da II Guerra e a monumental arquitetura socialista – imensos pombais de mínimos apartamentos – retornamos ao ponto original.
Aí aconteceu o ápice da vigilância. Guardas fardados nos cercaram, aparatos com espelhos escrutinaram a parte inferior do ônibus, cães enormes farejaram cada recanto do veículo. Nunca me esqueci dessa cena.
Tornei a Berlim em 1982. A rigidez do lado leste era a mesma. Ainda assim, em algum fim de semana – eu tirava um curso de Jornalismo Avançado que durava três meses – volvia a cruzar a fronteira, dessa vez por Friederichstrasse. O roteiro incluía a fantasmagórica visão de uma estação de metrô mantida exatamente como era no dia em que o Muro foi erguido, aí incluídos anúncios de artigos havia muito esquecidos e arquivados. Era como se o tempo tivesse parado.
Regressei em 1987 para outros três meses também assombrados pela divisão entre dois universos.
Houve 1989. Voltei em 1991, mas então os espectros se tinham dissipado. Onde antes resistia o Muro, já não se via sinal de sua existência.
Era como se eu caminhasse por um pedaço de calendário olvidado pela evolução da humanidade.
Melhor assim.
A liberdade é algo que não tem preço.
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6:51 AM by Cassiano Leonel Drum
24 de novembro de 2009 | N° 16165
MOACYR SCLIAR
O jogo do fanatismo, o jogo da paz
A entrevista que o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, deu a Tulio Milman (o brilhante editor da página 3) é um modelo de sobriedade e de bom senso, e contrasta com as declarações de Ahmadinejad negando o Holocausto.
Uma cantilena que o líder iraniano provavelmente não repetirá no Brasil. Sabe que aqui esta retórica, à qual não falta inclusive uma conotação neonazista, será muito mal recebida. Na verdade, até já está modificando a linguagem; numa entrevista recente admitiu que o Holocausto “talvez” tenha acontecido. Absurdo e má-fé.
Não pode haver qualquer dúvida quanto ao genocídio nazista: o assassinato de milhões de pessoas foi exaustivamente comprovado. No Brasil, não faltam inclusive testemunhos pessoais de sobreviventes. Além disso, é importante assinalar que o Holocausto matou principalmente judeus, mas não só judeus. Etnias como os ciganos, adversários do nazismo, minorias sexuais, membros de várias religiões e doentes mentais tiveram o mesmo fim. Será que o mandatário iraniano nega isso também?
O raciocínio de Ahmadinejad é muito simples – simplório, até. Parte da ideia de que o Estado de Israel foi criado por causa do Holocausto. Ora, como não houve Holocausto (sic), não deveria haver Estado de Israel, que portanto precisa ser “varrido do mapa”.
Tola como é, esta retórica tem, contudo, uma finalidade concreta: Ahmadinejad quer mostrar aos aitaolás que é um fundamentalista convicto, daqueles que não hesitam em negar a realidade em nome do fanatismo. É uma jogada, sinistra jogada mas jogada, um discurso para fins internos, e por isso creio que não será recitado no Brasil.
Lula tem um passado de luta pela justiça social, e isto sempre incluiu a rejeição de ideias nazistas e neonazistas. Bem que ele podia dar um discreto puxão de orelhas no líder iraniano. Talvez isso melhore a audição desse senhor. E sua lucidez.
Quando comecei a trabalhar em saúde pública, um de nossos maiores problemas era a desnutrição, que se manifestava em déficit de peso, sobretudo nas crianças, e em déficit de altura (por isso os nordestinos eram baixinhos). Agora, a pesquisa Saúde Brasil 2008 mostra a mudança verdadeiramente dramática que ocorreu nesta área. Em 1996, a desnutrição afetava 13,4% das crianças com menos de cinco anos. Dez anos depois, esta porcentagem caiu a menos da metade (6,7%).
O déficit de altura reduziu-se em 75% neste grupo. Claro, desnutrição ainda existe e afeta muita gente, mas 43,3% dos adultos nas capitais brasileiras estão acima do peso. O que também traz problemas: aumenta a prevalência de diabete e de óbitos ligados a essa doença.
Conclusão: o Brasil mudou. Mudou para melhor, mas, como sempre acontece nessas situações, tal mudança não se fez sem um preço. Contudo, nada impede que os programas de saúde agora coloquem ênfase na dieta racional e no exercício físico. Obesidade Zero, deve ser agora o nosso lema. Frutas e verduras em vez de salgadinhos e alimentos gordurosos, calóricos. Dá para chegar lá.
Ainda falando em Oriente Médio: Lula está propondo, para março de 2010, uma partida de futebol entre o Brasil e uma seleção israelense-palestina. Em termos de esporte, certamente o jogo não será o bicho, mas em matéria de caminho da paz é uma boa proposta. Não esqueçam que a briga entre os Estados Unidos e a China praticamente terminou com uma partida de tênis de mesa entre jogadores dos dois países.
Ótima terça-feira ainda que com chuva. Que haja muto sol dentro de você.
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6:47 AM by Cassiano Leonel Drum
24 de novembro de 2009 | N° 16165
LUÍS AUGUSTO FISCHER
Monstrumentos
O assunto marcado no trocadilho do título, levantado pelo historiador Voltaire Schilling e debatido por várias figuras interessantes, ainda está vivo, me parece.
Para quem está por acaso aterrisando neste momento, cabe dizer, em súmula atropelada, que o Voltaire escreveu um texto destratando vários monumentos de arte pública fixados na geografia de Porto Alegre; a superfície do argumento denunciava o mau gosto das obras focadas, mas no fundo havia todo um questionamento sobre o papel das artes de nosso tempo, em especial as ditas artes visuais, que para Voltaire teriam por assim dizer se aproveitado de sua alegada condição de vanguarda – que ao mesmo tempo produz a arte e a justifica, como costuma ocorrer com toda vanguarda – para se imporem na cidade por sobre o gosto dos cidadãos cultos.
Entre todas as reações, das mais corporativas e desconfortáveis com a arguição pública (que simplesmente sugeriam ao Voltaire estudar) às mais sutis, me pareceu faltar outra dimensão, que foi tangenciada pelo artigo de sábado da Cláudia Laitano, quando comentou a conferência de Tom Wolfe – por um breve momento, eu paro e meço as palavras, e me dou conta de que, eba, estamos fazendo um debate escrito sobre matéria cultural! Parabéns para nós; não se assustem, crianças, debate pode existir.
A tal dimensão: está claro que o nosso tempo, este aqui, posterior à Guerra Fria, encerrada faz redondos 20 anos, já pode tomar distância bastante serena em relação ao fenômenos das vanguardas que caracterizaram o século 20, o curto século de Hobsbawn, que durou entre 1914, começo da I Guerra, à Derrubada do Muro de Berlim e ao Fim da URSS. Distância não apenas em relação às vanguardas estéticas, mas também às suas irmãs-gêmeas, as vanguardas políticas.
Que ainda haja gente fazendo gestos de vanguarda aqui e ali, na arte como na política, parece agora muito mais uma recordação do que uma proposta; estamos vendo o começo da campanha política do ano que vem e visitando os cenários da Bienal, portanto habilitados a dimensionar a fragilidade da saúde das vanguardas.
Não quer dizer que estamos no melhor dos mundos, pelo menos para meu gosto; mas sim quer dizer que o momento histórico é outro, posterior. Ontem mesmo saiu notícia dando conta de que foi eleito presidente do DCE da UFRGS um jovem ligado ao PP, partido herdeiro do PDS e da Arena, que nos dava nos nervos por seu inacreditável apoio à ditadura, à eleição indireta, à censura.
Consigo imaginar pouca coisa mais representativa da mudança que está, perdão pelo trocadilho, instalada. Mas não, calma, os “monstrumentos” não são necessariamente de direita, nem o rapaz esse será um monstro... Acabou o espaço, e nem consegui dizer bem o que queria.
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6:43 AM by Cassiano Leonel Drum
24 de novembro de 2009 | N° 16165
PAULO SANT’ANA
A gravata e a bomba
Quem já viu o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, de gravata?
Eu nunca o vi de gravata, mas é possível que ele alguma vez ceda à tentação dos costumes ocidentais tradicionais e vista esse apêndice da moda.
Por sinal, eu sempre admirei secretamente as pessoas que comparecem a solenidades e festas onde se recomenda a gravata nos convites e não vestem aquele adereço.
A pessoa enfrenta sem gravata o ambiente com a maior naturalidade, é única, entre todos, sem gravata e desembaraça-se com desenvoltura, parecendo não importar-lhe que esteja trajada diferente de todos e contra a recomendação da etiqueta.
Mas eu queria mesmo é falar do anãozinho Ahmadinejad. Vi-o ontem discursando no Itamaraty, o único sem gravata.
E fico a pensar no que deseja mais a autossuficiência de Ahmadinejad que não seja somente a destruição de Israel.
Quando ele nega tenha havido o Holocausto judeu, parece insinuar que ainda não houve o Holocausto. Ele próprio o cometerá dentro em breve, usando de armas nucleares que o Ocidente acusa que ele está elaborando. Quer atrair para si a primazia de destruir Israel.
Para ele, não tem meio-termo nem negociação, ele pretende “varrer Israel do mapa”.
E quem expõe assim seu ideal sem nenhum constrangimento, torna-se perigoso, daí por que as Nações Unidas e os Estados Unidos olham com desconfiança o programa nuclear iraniano, considerando o risco que será o Irã cultivar um artefato atômico.
Israel, por exemplo, possui a bomba nuclear. Consta que a Índia e o Paquistão já possuem artefatos nucleares.
Mas Israel não declara por nenhum dos seus governantes que quer varrer o Irã do mapa.
A Índia e o Paquistão têm conflitos, nenhum até agora que possa acarretar um ataque nuclear unilateral ou recíproco.
Com o Irã, se dá o contrário, e é por isso que o mundo se preocupa: suspeita-se de que seu plano nuclear esteja se desviando da finalidade pacífica, justamente para “varrer Israel do mapa”.
Por isso é que é naquele lugar do Oriente Médio que se concentram todas as preocupações mundiais.
No dia em que os serviços de informações de Israel detectarem que o Irã está avançando num programa nuclear não pacífico, é certo que o país dos aiatolás será bombardeado. Pronto, eis a guerra e todas as suas consequências desastrosas.
O que se nota, pois, é que só uma força pode romper o equilíbrio de poder militar no mundo: o ódio.
Nenhum dos detentores de energia nuclear bélica pode ter governantes fanáticos. Esse é justamente o temor que Ahmadinejad e o Irã inspiram.
Em cerimônia em que constava a entrega dos espadins aos novos capitães da Brigada Militar, fui agraciado sábado passado, entre outros homenageados, com a Medalha dos Serviços Distintos, outorga tradicional da Polícia Militar gaúcha.
Sinto-me honrado e agradecido com o galardão.
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Segunda-feira, Novembro 23, 2009
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9:57 PM by Cassiano Leonel Drum
MOACYR SCLIAR
Vida dupla
Os números e as tabelas estudadas simplesmente sumiam de sua mente, e ela só tinha olhos para o parceiro
Uma ex-prostituta que divulgava suas memórias em um famoso blog -transformado em série de TV- causou furor no Reino Unido ao revelar sua identidade, mantida em segredo por seis anos. A autora do blog "The Intimate Adventures of a Call Girl" ("As Aventuras Íntimas de uma Garota de Programa") é uma médica de 34 anos da cidade de Bristol.
Brooke Magnanti, que diz ter trabalhado como prostituta de luxo para bancar seus estudos de doutorado (é PhD em epidemiologia), resolveu revelar sua identidade ao jornal "Sunday Times" porque não queria mais suportar "esse pesado segredo".
Com o dinheiro levantado com as adaptações de seu blog para um livro e a série de TV, Magnanti largou a carreira de prostituta. Hoje ela trabalha em um programa de pesquisa em um hospital da Universidade de Bristol.
Um porta-voz da universidade disse: "Esse aspecto do passado da dra. Magnanti não é relevante para o seu atual papel na universidade" e que as revelações não afetariam as suas futuras chances de contratação.
A DECISÃO não foi fácil, mas sua determinação de fazer o doutorado era grande, e assim ela recorreu ao meio mais imediato para ganhar o dinheiro necessário para pagar os estudos: aderiu àquilo que é eufemisticamente chamado de "a profissão mais antiga do mundo".
Para ela, contudo, uma coisa estava bem clara: entregar o corpo não significava entregar-se como pessoa. Usava sempre uma máscara, que aliás para muitos homens funcionava como algo excitante, e durante as relações procurava manter a mente ocupada; recordava, por exemplo, os estudos epidemiológicos que tinha lido naquele dia, examinava-os à luz da lógica científica, tirava suas próprias conclusões, discutia com imaginários interlocutores. Coisa que os clientes aparentemente nunca notavam; ao contrário, eram unânimes em dizer que ela era uma grande mulher.
Mas houve um cliente que, desde a primeira vez, deixou-a abalada. Era um homem jovem, bonito, gentil, de fala macia; pior, era médico, trabalhava num grande hospital e adorava sua profissão, sobre a qual falava com muito entusiasmo.
Ela nada disse, claro, sobre sua própria formação profissional, nem sobre seus planos de fazer o doutorado; mas a verdade é que o belo doutor perturbava-a e era em vão que ela tentava concentrar sua mente em complexos estudos epidemiológicos. Os números e as tabelas estudadas simplesmente sumiam de sua mente, e ela só tinha olhos para o ardente parceiro.
Foi com enorme alívio que, um dia, constatou que já não precisava da prostituição para viver. Concluiu o doutorado e foi contratada para o programa de pesquisa epidemiológica de um grande hospital universitário. Trabalharia com um parceiro médico. Quando foi apresentada a ele, quase desmaiou: era o jovem doutor que tanto a fascinara.
Se ele a reconheceu ela não sabe dizer. Mas de uma coisa tem certeza: em algum momento farão amor novamente. E aí os estudos epidemiológicos irremediavelmente irão para o espaço. MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha.
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9:54 PM by Cassiano Leonel Drum
RUY CASTRO
Dilemas
RIO DE JANEIRO - A mão de Thierry Henry conduzindo a bola, a resultar no gol que classificou a França para a Copa do Mundo de 2010, tem permitido aos franceses praticar seu esporte favorito: a discussão ética, moral, filosófica. No caso, discute-se em Paris se a lisura, a verdade e o direito não seriam mais importantes do que a vibração nacional pelo resultado do jogo, aliás, imerecido.
Na França, toda discussão contrapõe teoria e prática, pensamento e ação, ideal e realidade. Já era assim na Revolução de 1789, em que o dístico "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" foi esculachado de saída e, mais ainda, durante o Terror (1792-1794). As poucas cabeças que escaparam da guilhotina se perguntavam se não havia ali uma contradição em termos. Sem falar na discussão mais profunda, sobre se liberdade e igualdade seriam politicamente compatíveis.
Na Segunda Guerra, a mesma coisa: como a Alemanha poderia ter ocupado o país com uns poucos soldados e agentes sem um alto colaboracionismo do povo francês? Estabelecido tal colaboracionismo, os pensadores, entre eles Jean-Paul Sartre, extrapolaram para perguntar o que seriam a covardia, o oportunismo e, no geral, a natureza humana.
O mesmo Sartre, em 1947, foi convidado pela Gallimard a escrever um pequeno prefácio para uma edição da poesia de Baudelaire. Sartre aceitou e sentou-se para escrever.
Mas se empolgou e, quando se levantou da cadeira, tinha produzido mil páginas sobre a "alteridade" do poeta. O jeito foi a Gallimard publicar seu texto como um ensaio gigante e incluir no fim a obra de Baudelaire -como apêndice.
Isso explica um habitual dilema dos franceses a respeito de alguma novidade que lhes caia às mãos, seja um conceito, seja um objeto: "Na prática, funciona. Mas funcionará na teoria?".
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6:41 AM by Cassiano Leonel Drum
Bananão desbanca vampiro
Divertido livro infantil que já vende mais do que "Crepúsculo" pode lhe ensinar algo sobre seu próprio filho
E squeça a vampiromania. A saga Crepúsculo perdeu o primeiro lugar na lista de best-sellers do jornal The New York Times. O mais surpreendente é que isso ocorreu na mesma semana em que estreava, mundialmente, cercado de alvoroço e marketing, o filme Lua Nova, adaptação para o cinema do segundo título da série Crepúsculo (Twilight, no original).
O novo número 1 da pesquisa do Times é o divertido Diary of a Wimpy Kid. No Brasil, Diário de um Banana.
São apenas três volumes: Diário de um Banana, Rodrick É o Cara e Dias de Cão – este último (Days Dog, no original) ainda não saiu no Brasil. Juntos, os três livros desbancaram os quatro que compõem a série vampiresca concebida por Stephenie Meyer.
Diário reproduz o cotidiano de Greg Heffley, um garoto magrelo e tímido que precisa lidar (fazendo o mínimo de esforço) com os incômodos da puberdade, os desmandos domésticos e os valentões da escola. Os volumes são escritos no formato de um diário, com linhas feito as de um caderno e desenhos bem toscos.
Dog Days, lançado na semana passada nos Estados Unidos, já é o livro mais vendido no site Amazon.com, ultrapassando inclusive o recente Dan Brown, O Símbolo Perdido. A procura foi tanta que a editora aumentou a tiragem inicial – de 3 para 4 milhões de cópias.
Alguns pais se mostraram preocupados. Nas primeiras cinco páginas do livro, aparecem palavras como “idiota”, “imbecil”, “babaca” e “meninas gostosas”. Especialistas advertem que aí não haveria problema. Sugerem, inclusive, que os pais leiam os livros. Joshua Sparrow, psiquiatra da Faculdade de Medicina de Harvard, leu o primeiro volume depois de ouvir comentários de um paciente e ficou entusiasmado:
– O livro capta o que a criança é capaz de conseguir e o que está além do alcance delas.
Lawrence Rosen, pediatra e fundadora do Whole Child Center, de Nova Jersey, diz que já conversou sobre os livros com a sua filha pequena. O que ela mais gosta no texto é que o personagem principal não é perfeito.
– O poder do livro está no banana, uma criança comum com problemas comuns, lidando com o que a vida oferece – diz Rosen. – Para os pais, acredito que ler os livros, ou pelo menos discuti-los com seus filhos, dá uma ideia mais real de como eles enfrentam o dia a dia.
O autor, Jeff Kinney, um designer de games de 38 anos, com um filho de seis e outro de quatro anos, diz que, em vez de oferecer lições de moral, preferiu focar no humor natural que aparece nas decisões erradas que as crianças geralmente tomam. Em um episódio do terceiro livro, Greg deixa seu melhor amigo ser castigado por uma diabrura que ele, Greg, havia aprontado.
– Decidi que a coisa certa, desta vez, era deixar o Rowley encrencado – comenta o garoto.
Kinney sublinha:
– Greg realmente pensa que ele fez a coisa certa e acha que aprendeu a lição. Você espera que em algum momento um adulto vá esclarecer tudo, mas isso nunca acontece. Se há uma lição no livro, é que façam o oposto do protagonista. Até o meu filho, que está no jardim da infância, entende que Greg está sendo malcriado e que não deve agir como ele.
Joshua Sparrow diz que parte do apelo do livro é que ele não moraliza.
– Se você tivesse uma voz onisciente dizendo para "fazer a coisa certa", os jovens não dariam a mínima. Isso dá espaço para a criança ser desafiada a decidir o que ela pensa.
Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana
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6:38 AM by Cassiano Leonel Drum
23 de novembro de 2009 | N° 16164
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL
Vulgaridades
O que é banal, o que é sórdido ou obsceno; o que é rasteiro, o que constrange pela falta de gosto: eis os itens que compõem o gabinete das curiosidades de nosso tempo.
A julgar pelo som dos carros ou pelas fotos das capas das revistas, as pessoas não têm o menor pudor em declarar sua própria vulgaridade.
De um tempo para cá, as comemorações, mesmo as domésticas e outrora íntimas, tornaram-se espetáculos de mau gosto.
Veja-se, por exemplo, o casamento, que, de uma instituição religiosa, legal ou moral, acaba sendo motivo de manifestações da mais deslavada ostentação: em geral ao ar livre [para invocar os “elementais da natureza”(, seja isso o que for)]; em geral com um amigo servindo de oficiante “ad hoc”, gaguejando aforismos de Buda ou de Paulo Coelho; em geral com dezenas de padrinhos, para amealhar presentes; em geral apresentando, no que toca ao figurino dos convidados, uma verdadeira catástrofe.
Quanto às formaturas: promoters tomaram conta de suas encenações, [porque em encenações se transformaram] quase sempre sem o menor conhecimento do que estão falando. Foi possível escutar de um destes, ao se dirigir a seus clientes [porque em clientes se transformaram]: “Na hora em que o diretor põe aquele chapéu na cabeça de vocês, vocês ...”. Chapéu. Sim: chapéu.
No que se refere às leituras que andam por aí, o quadro é assustador. A lista dos best-sellers é vergonhosa. Salvo as clássicas exceções, avultam os livros de interesse prático ou que apresentem soluções milagrosas para a gestão de empresas ou para amestrar papagaios. Mas se falarem sobre cachorros sentimentais, melhor ainda.
A vulgaridade, em si, não é um mal - cada qual tem a biblioteca que merece - mas é sintoma da incapacidade de abstração e de reflexão. O lazer, que poderia representar um tempo dedicado a pensar na vida, é logo preenchido por intoxicantes entregas às compras ou ao entretenimento mais discutível.
Esse quadro não surgiu do nada.
As causas são muitas, mas é inegável que destacam-se, como dominantes, a ausência de uma convicção ideológica ou de uma fé em algo transcendente. Ou as duas ao mesmo tempo. Mas aí já estamos operando num plano de difícil solução, a não ser que intervenha a passagem do tempo. Espera-se muito do tempo. A Humanidade aprendeu a confiar nele. Mas que não demore.
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6:36 AM by Cassiano Leonel Drum
23 de novembro de 2009 | N° 16164
PAULO SANT’ANA
A guerra é aqui!
A guerra contra o tráfico de drogas se intensifica até mesmo em táticas de contraguerrilha para conter os métodos dos traficantes cariocas.
A PM do Rio de Janeiro está enviando para a Colômbia oficiais que se especializarão em combate contra o terror nas favelas e entornos do Rio de Janeiro.
Os traficantes do Rio de Janeiro estão usando barricadas e casamatas de concreto para não permitir a passagem de carros blindados da polícia, a nova arma contra o traficantes.
Os policiais que vão aprender táticas modernas na Colômbia foram até lá levados pelas bombas, minas terrestres e outras armadilhas engendradas pelo tráfico, o que transforma definitivamente o Rio de Janeiro em um palco de guerra, com todas as tintas de uma guerra civil, já enfrentada pela Colômbia e agora instalada no Brasil.
Para evitar a entrada nos pontos de depósito e distribuição de drogas, os traficantes utilizam trilhos na pista e muretas de concreto com aberturas por onde os criminosos atiram, além de uma nova tática com método nitidamente militar: a abertura de fossos para impedir os carros blindados de avançar e se instalar no centro vital de ação dos traficantes.
Acostumados a usar mão de obra de ex-militares, os traficantes passaram a utilizar armadilhas ensinadas pelos manuais das Forças Armadas, abrindo fossos de 1m50cm de extensão por 1m de largura. Essas crateras são implantadas nas entradas das favelas e visam a não permitir a passagem dos carros blindados policiais, que estavam se tornando eficiente estratégia da PM para atingir o âmago da atividade do tráfico.
E os bandidos estão jogando óleo nos fossos para impedir sua concretagem.
A possibilidade de que os bandidos venham a colocar explosivos nessas crateras é já admitida pela polícia.
Como se vê, a guerra entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro se torna um combate militar a que foi levada a polícia pelos sofisticados métodos de estrutura bélica montada pelos traficantes.
É guerra de guerrilha pura, guerrilha urbana genuína, com instrutores de batalha utilizados em ambos os lados.
Chegamos ao ponto em que o tráfico não se especializa só em transportar, depositar e comercializar as drogas, mas também em adotar estratégia militar para protegê-las e impedir o acesso das forças policiais a seus bunkers.
A tática de guerrilha dos traficantes chegou ao ponto de arremessos de coquetel molotov contra os caveirões (carros blindados) da polícia, além de bombas de tinta para atrapalhar a visão dos policiais dentro dos veículos.
Esses combates não se verificam nas selvas, longe dos centros civilizados, é ali mesmo, junto à Zona Sul carioca, encravada entre os morros e sujeita assim aos ataques criminosos, enchendo a sociedade de medo e terror.
Assim como a Polícia Militar está enviando oficiais para aprender táticas antiguerrilha na Colômbia, os traficantes também se apoderam de táticas militares que lhes são transmitidas por ex-militares contratados para instruí-los.
Estas notícias são as mais apavorantes de que se tem notícia. Porque revelam nitidamente que esta guerra urbana sem quartel não tem fim, está marcada para se desenvolver nos próximos anos e décadas, sujando a paisagem humana do Rio de Janeiro e ameaçando contagiar as favelas de São Paulo e das grandes cidades provincianas.
Deus salve-nos desta tragédia.
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6:33 AM by Cassiano Leonel Drum
23 de novembro de 2009 | N° 16164
L. F. VERISSIMO
Avô em playground
Uma das eventuais missões de avô, Zuenir, é acompanhar a neta a playgrounds e ficar de olho enquanto ela se mistura com outras crianças, sobe e desce de brinquedos, corre, cai, chora, se levanta – enfim, interage com o mundo e com os outros.
Pode ser uma experiência desconcertante, para o avô. Um playground cheio de crianças é um microcosmo em que todos os impulsos e calhordices da humanidade são reproduzidos em estado puro, sem dissimulação.
Alianças são feitas e desfeitas em minutos, os mais fortes ou mais ativos impõem sua vontade, e, como no mundo dos adultos, os piores conflitos parecem sempre passar pela questão da propriedade. Desconfio que John Locke desenvolveu sua teoria sobre o instinto da propriedade acompanhando uma disputa sobre baldes e pazinhas em algum playground inglês do século 17.
Corta o coração de um avô ver o primeiro encontro da neta com a realidade de que o que é do outro é do outro, e só será compartilhado por um raro ato de altruísmo. Isto vale tanto para baldes e pazinhas quanto para bolas, bonecos, lugares na fila do escorregador e latifúndios improdutivos.
Avô em playground precisa ter, antes de mais nada, autocontrole. Deve resistir à tentação de socorrer a neta cada vez que ela cai, abraçá-la e tentar convencê-la a não sair mais do colo do vô, que é o lugar mais seguro da Terra.
Também deve resistir à tentação de dar um sutil empurrão no garoto que insiste em não desocupar o balanço, ou interferir quando a menina maior não deixa a sua neta colaborar nos seus bolinhos de areia. Inclusive indo lá e, disfarçadamente, pisando nos bolinhos.
O correto, claro, é deixar a neta descobrir sozinha como se defender e como se impor. Mas aí entra outra consideração: sua neta só aprenderá a sobreviver à truculência e à prepotência dos outros se também se tornar um pouco truculenta e prepotente. E você jamais aceitará que sua neta não tenha o melhor caráter do playground, além de um inato senso de justiça.
Outra coisa: avô em playground deve tentar evitar o ridículo. Ele é um estanho no meio, e estará sob constante observação crítica de mães e babás. Em hipótese alguma deve se oferecer para descer junto com a neta no escorregador, temendo que ela caia, e arriscando o vexame. E nunca fazer um discurso contra o egoísmo e a falta de solidariedade no mundo antes de confiscar um balde e uma pazinha para sua neta.
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Domingo, Novembro 22, 2009
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10:01 AM by Cassiano Leonel Drum
DANUZA LEÃO
Como é difícil ser feliz
É hora de inventar alguma coisa para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade
POR MAIS louco que pareça, é difícil suportar a felicidade. Você conhece alguém feliz? Nem eu, e os poucos que têm tudo para serem felizes ficam inventando modas para complicar a vida.
Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo.
Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.
Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?
Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.
Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta.
Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.
Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.
As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo.
As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.
Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde.
Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.
Basta pensar: e se sua felicidade acabar?
danuza.leao@uol.com.br
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9:58 AM by Cassiano Leonel Drum
JOSÉ SIMÃO
Ueba! Lula, o filho do Shrek!
"Shrek 4": o mocinho é ogro, não tem um dedinho e no final fica com a Fiona
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Ops, do Planeta da Piada Pronta: tribunal chinês proíbe venda dos programas da Microsoft POR PLÁGIO.
Em matéria de plágio, a China quer exclusividade! Lolex, Plada e Miclosoft. E cheque Bladesco. E um amigo foi num desses stand centers e perguntou pra chinesa: "O aparelho de som vem com as caixinhas surround?". "Caxinha sulound paga sepalado." "Então, enfia na peleleca." Rarará!
O PGN, o meu Partido da Genitália Nacional vai criar a faculdade para as rejeitadas da Uniban: UNIBUNDAS! Não tem matrícula nem mensalidade. Cada uma dá o que pode!
E o babado da semana: "Lula, o Filho do Brasil". Um amigo me disse que só vai assistir ao filme do Lula se ele morrer no final! E um outro disse que o filme acaba mal: no final, ele vira presidente. Rarará! Mas o Lula não foi à estreia.
Dizem que ele foi assistir a "2012". Pra ver se a Dilma conseguiu ser eleita! Dona Marisa foi representar o Lula na estreia. Será que o filme é mudo? E sabe por que o ator aceitou fazer o papel do Lula? Porque disseram que ele não precisava beijar a Marisa no final!
E o site Comentando lançou uma nova versão: ""Lula, o Filho do Barril". Em breve em todas as biroscas do Brasil. Um filme de Fábio Velho Barreiro". Mas nos EUA vai passar como "Shrek 4": o mocinho é ogro, não tem um dedinho e no final fica com a Fiona. E adorei a charge do Pelicano com dois convidados do filme do Lula: "Ué, tá tudo escuro, o filme não vai começar?". "Já começou, é a cena do apagão." Rarará!
E diz que a Geisy da Uniban vai posar pra "Playboy". Logo depois da Fernanda Young? O véio dono da "Playboy" vai se atirar da cobertura. De desgosto.
E olha o e-mail que me mandaram. Campeonato Brasileiro: o Palmeiras quer ser penta, o Flamengo quer ser hexa e o São Paulo quer ser hétero. Detestei. Porque sou bambi com muito orgulho.
O Kassab tomou umas PITU pra aumentar o IPTU. Diz que vai aumentar 40%. Não é IPTU, é HIPERTU! IPTU de Itu! IPTU quer dizer Impossível Pagar Tudo Isso!
E a novela do Maneco? Continua a campanha Reage, Helena. E uma outra do contra: Tapa na Helena. Rarará. É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Sine qua non": cinema que tá passando o filme do companheiro Lula. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
simao@uol.com.br
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9:55 AM by Cassiano Leonel Drum
CARLOS HEITOR CONY
Tecnologia de ponta
RIO DE JANEIRO - Nem tudo está perdido para nós, os brasileiros que desejam chegar ao ranking das grandes potências do século 21. Tivemos há pouco um apagão no abastecimento de energia elétrica, colapso que acontece nas melhores famílias da comunidade internacional. E, aspirando a ter uma tecnologia de ponta, capaz de explicar o acidente, temos recursos avançadíssimos para saber o que aconteceu.
Um senador amazonense, por gozação ou por influência das lendas e superstições de seu Estado, lembrou uma consulta à cobra coral, não sei se uma instituição ou entidade esotérica capaz de explicar as causas e prever os efeitos de qualquer incidente pessoal ou coletivo.
Afinal, a ex-ministra de Minas e Energia, douta no assunto, já deu o caso por encerrado, em contradição com o presidente da República, que até agora não compreendeu o problema e exige explicações dos responsáveis, sem que estes responsáveis possam ser liminarmente culpados.
Apelando para um tipo de pajelança, é capaz de ser encontrada uma solução que substituirá a tecnologia de ponta que nos falta. Tudo é possível -dizia constantemente Machado de Assis.
Cultivo um mistério que já foi também mistério nacional. Onde estão os ossos de Dana de Teffé? Para quem não sabe, a ossada da milionária assassinada pelo amante nunca foi encontrada, apesar de o país inteiro levar anos procurando a prova que condenaria o assassino.
Foi um problema nacional, não houve osso de galinha ou de cachorro que não fosse levado aos laboratórios. Tenho para mim que enquanto não forem localizados, nada dará muito certo para o Brasil. Com a ajuda da cobra coral lembrada pelo senador amazonense, é possível que esse mistério -como o do apagão- seja resolvido.
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9:52 AM by Cassiano Leonel Drum
ELIANE CANTANHÊDE
Decolando
BRASÍLIA - A decisão sobre os novos caças da FAB está madura. Jobim decide as promoções das três Forças Armadas e encontra-se com Lula amanhã. Na quinta, reunião do Alto Comando da Aeronáutica.
Depois da gafe brasileira de anunciar o vencedor de um processo de seleção ainda em andamento, os concorrentes trocaram provocações e ironias ao longo do processo, fazendo romarias ao Brasil nunca antes vistas nos reinos da Suécia, da Boeing e da Dassault. Sinal de que o negócio é dos bons.
Cada proposta tem vantagens e desvantagens. A elas:
O Rafale, francês, integraria um pacote de submarinos e helicópteros, num processo diplomático de aproximação entre Brasil e França. Mas nunca foi vendido para nenhum outro país. Com seu uso apenas pelas Forças Armadas da própria França, não tem ganho de escala e o custo tanto do produto quanto da manutenção é alto.
O F-18 Super Hornet, dos EUA, é considerado o melhor avião, produto de um país que investe dez vezes mais que a França e cem vezes mais que a Suécia em equipamentos de defesa. Mas é também tido como o pior pacote: por mais que o governo norte-americano e a Boeing se esgoelem prometendo transferência de tecnologia, não há viv'alma em Brasília que acredite.
No caso do Gripen NG, sueco, ocorre o oposto: é apontado por setores militares e empresariais (inclusive a maior interessada, a Embraer) como o melhor pacote, com bom preço e transferência direta de tecnologia pelo sistema "aprender fazendo", de parcerias diretas desde o projeto. Mas ele causa desconfianças como produto, pois não saiu do papel, é monomotor e tem partes inclusive dos EUA.
A FAB fez uma avaliação rigorosa e detalhada, mas técnica. A decisão é de Lula, política. Ele deve ensaiar bem, não só para evitar falar besteira, como para justificar a opção como melhor para o Brasil e os brasileiros. "Porque eu quero" não vale.
elianec@uol.com.br
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Sábado, Novembro 21, 2009
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7:43 PM by Cassiano Leonel Drum
22 de novembro de 2009 | N° 16163
MARTHA MEDEIROS
Um oásis no deserto
Aconteceu no Rio, pelo que ouvi falar. Um garoto aparentando ter uns 19 anos resolveu improvisar um pocket show usando uma esquina da cidade como palco: a cada vez que o semáforo fechava, ele se posicionava na frente dos carros e tocava saxofone por um minuto. Aí o sinal abria e ele voltava para a calçada.
Não era malabarismo para garantir uns trocados. Ele fez isso por... sei lá, sugira você uma razão: farra, vaidade, benemerência, esperança de cruzar com um produtor musical? O que importa é que fez, e o curioso é que assim que o sinal abria, os motoristas custavam a arrancar seus carros, perdiam a pressa. Haviam deparado com um pequeno oásis em meio ao caos.
Cheguei do Marrocos há pouco, como comentei na coluna de quarta passada. Um país encantador, com uma biodiversidade de tirar o fôlego. Cruzei a árida cordilheira Atlas, percorri uma pequena trilha que já fez parte do Paris-Dakar e cheguei a dormir uma noite num acampamento de tuaregues em pleno deserto: tudo estupendo, mas seco.
Ainda assim, engolindo areia, fui surpreendida várias vezes por alguns oásis que quebravam o jejum. Fazia-se uma curva na estrada e de repente se vislumbrava um conjunto de palmeiras verdes, tão verdes que pareciam pinceladas à mão. De onde brotavam, de que solo fértil, de que estúdio cenográfico? Pareciam miragens.
Aterrissei de volta ao Brasil e entre as notícias de um apagão inexplicável e de um escândalo mais inexplicável ainda por causa de uma reles minissaia que gerou teses sociológicas, preferi me ater a essa história do garoto saxofonista que fazia shows de um minuto no agito das ruas, silenciando os buzinaços com sua música. Pensei: também é um oásis.
O que não falta por aí são pessoas com vidas desérticas, pensamentos viciados, gente presa em calabouços e respirando por aparelhos, sem dedicar um minuto, um minutinho que seja por dia, a criar seu próprio oásis.
Os nossos podem ser tão numerosos quanto os que eu encontrei naquelas paisagens marroquinas em tons de terracota, em que já não se distingue o que é cor original ou desbotado, uma estética da solidão que tem sua beleza e força, mas que clama por um pouco de oxigênio.
As pessoas dizem que a tecnologia, que deveria servir para agilizar o nosso trabalho e liberar mais tempo para o lazer, está, ao contrário, produzindo ainda mais trabalho e mais stress.
A culpa não é da tecnologia, que, pelo que sei, ainda não tem cérebro, mas de seus usuários, que deveriam pensar mais em vez de entrarem na paranoia de preencher cada hora do seu dia com atividades produtivas, ignorando a produtividade que também há num encontro entre amigos, num cinema, numa caminhada, na audição de um disco, na meditação, num final de semana longe da cidade, na leitura de um livro, num passeio de bicicleta, num namoro, no desprezo à lógica e no respeito aos acasos.
Esses são os verdadeiros oásis, ao contrário dos oásis fabricados, como, por exemplo, restaurantes da moda onde não se come bem nem se ouve ninguém.
O saxofonista no meio da rua nada mais fez do que ofertar à nossa vida opaca um toque de verde.
Um ótimo domingo para você.
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7:29 PM by Cassiano Leonel Drum
22 de novembro de 2009 | N° 16163
MOACYR SCLIAR
A sogra perfeita
A Cidade espanhola de Castellón promove anualmente uma feira de casamentos com artigos para serem usados nas bodas. Este ano, os organizadores resolveram organizar um evento adicional: criaram um concurso que, durante os dias do evento, buscará a sogra perfeita.
Uma idéia ousada, que certamente provocará controvérsia. Sogra perfeita? Mas não é isso uma contradição em termos, segundo muitos genros e noras? A verdade é que sogras têm uma imagem ambivalente, para dizer o mínimo.
É só vocês verem o anedotário a respeito, que é enorme. Nas historinhas, a sogra é sempre retratada como uma figura tão inevitável quanto desagradável, alguém que se mete de forma autoritária na vida de jovens casais (notem a semelhança entre as palavras “sogra” e “ogre”).
Mas existem aí aspectos intrigantes. Em primeiro lugar, esta hostilidade não se estende ao sogro, visto como um cavalheiro distante e às vezes amável e bondoso: o “sogrão” (do qual o Boca, aquele fantástico personagem do Verissimo, é fã). Claro, há momentos em que o pai da moça vira bicho: a figura do rapaz que tinha de casar com a namorada grávida sob ameaça do revólver durante muito tempo fez parte do folclore gaúcho e brasileiro. Mas, consumado o matrimônio, a agressividade habitualmente desaparecia.
Não no caso da sogra. E isso faz pensar que a diferença entre as duas situações tem muito a ver com a maternidade. A sogra é uma mãe que durante anos criou um filho ou uma filha e um dia é obrigada a enfrentar a realidade: eles saem de casa para formar suas próprias famílias. É inevitável, mas é uma frustração. E frustração muitas vezes se exterioriza sob a forma de um comportamento agressivo.
Isso contrasta com a expressão “casa da sogra” um lugar onde o genro, principalmente o genro, tem mordomias e faz o que quer. Daí o contraste, a contradição.
Que, contudo é aparente. Em casa, a sogra refaz, ao menos transitoriamente, a sua posição maternal. Ela volta a cuidar do filho ou da filha, da nora ou do genro. E todo mundo fica contente com isso.
Voltando ao concurso espanhol: os piadistas criarão uma série de definições para sogra perfeita. Sogra perfeita é a sogra que mora em Marte. Sogra perfeita só na ficção. Mas isso é um preconceito, como vimos. A sogra é, antes de mais nada, uma mulher, uma pessoa com seus defeitos e suas qualidades. A sogra é, como se diz em inglês, “mother-in-law”, e os dois componentes da expressão traduzem seus aspectos contraditórios.
Mãe é aquela figura doce e protetora com quem todos sonhamos; mas quando, por força da lei (e o casamento é em grande parte isso) ela tem de assumir uma nova condição os problemas emergem. E esses problemas têm de ser elaborados e compreendidos, por sogras, noras e genros. É neste momento que a sogra pode se aproximar da perfeição pretendida pelo concurso.
Ah, sim. Deixem-me dar um exemplo que conheço bem. Minha sogra, Seldi Oliven, está completando neste fim de semana 90 anos de uma vida bem vivida. Estou apresentando a candidatura dela para sogra perfeita. Acho que ganha.
Não é isso uma contradição, segundo genros e noras?
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7:26 PM by Cassiano Leonel Drum
22 de novembro de 2009 | N° 16163
PAULO SANT’ANA
O apagão
Até agora não foram esclarecidas as causas do apagão da semana retrasada, que deixou às escuras 18 Estados brasileiros.
Visivelmente, as autoridades não mostram convicção de que tenha havido um somatório de vento forte, chuva e descargas elétricas que tenham causado um curto-circuito nas linhas de transmissão de Itaipu.
O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, já pediu um relatório à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que deverá constar de uma “análise profunda” das causas do blecaute.
Uma vez pronto o relatório, para ainda mais legitimá-lo, o governo pretende submetê-lo a especialistas de universidades de Rio e São Paulo.
Há críticas ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) por ter permitido que a Usina de Itaipu abastecesse praticamente sozinha a maior parte do consumo de todo o país.
No entanto, o governo insiste na tese de que o apagão se deveu a fatores climáticos.
A impressão é de que não há convicção sobre a origem do blecaute e que as investigações não vão solucionar as dúvidas.
Já era tempo de ter sido produzido um diagnóstico seguro e definitivo sobre as causas, mas o Ministério de Minas e Energia tropeça em dúvidas e indecisões.
Fica portanto no ar a hipótese de que possa no futuro vir a ocorrer um novo apagão com as consequências graves e amplas desse último, que aturdiu o país.
São cinco as linhas de transmissão da energia de Itaipu. O normal é que haja problemas em uma ou duas delas, mas nesse apagão ocorreu um colapso no conjunto de linhas, um fato raro, que no entanto não tem cabido nas explicações governamentais.
Este assunto é fechado à compreensão do público em geral, somente os especialistas se debruçam sobre ele. No entanto, as divergências entre eles demonstram que a linha de investigação sobre as causas se revela perturbada e inconvicta.
Como é que é? Pode ter apagão no futuro ou não? O grupo de trabalho que analisa a origem do blecaute, composto pela Aneel e pelo ONS, tem 30 dias, a partir da última segunda-feira, dia 16, para apresentar os relatórios sobre as causas do apagão.
Mas fontes do setor elétrico afirmam que esse prazo é muito longo e não passa de uma forma de esvaziar o debate, eis que em seguida virão o Natal e o Ano-Novo e o assunto ficará escondido no noticiário.
Interessante é que o ministro Edison Lobão declarou que o apagão terá análise “às claras”.
Melhor que seja.
Como brasileiro, no entanto, me preocupo com essa análise. É um assunto de extrema gravidade, vital para a vida nacional e transcendental para a economia.
Se um tal sistema de transmissão de linhas for precário, as medidas para aperfeiçoá-lo deveriam ser tomadas antes de um novo colapso.
E, se for precário o sistema, tudo indica que os investimentos para corrigi-lo serão de alta monta, bilionários.
Ao mesmo tempo, um sistema de transmissões que seja frágil e nevrálgico apenas à intempérie causa enorme preocupação.
Parece claro que a população brasileira tem o direito de saber detalhadamente o que sucedeu, além de se munir da garantia de que não mais acontecerá.
E as trevas dos relatórios e dos diagnósticos, além das explicações oficiais, têm-se mostrado até agora mais escuras que o próprio apagão.
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7:24 PM by Cassiano Leonel Drum
22 de novembro de 2009 | N° 16163
DAVID COIMBRA
Como manter a cabeça sobre os ombros
O Palácio de Versalhes tem 700 quartos e nenhum banheiro, o que mostra o apreço dos franceses pelo sono e o seu desapego à higiene pessoal. Passei um dia andando por aquelas vastidões e não vi tudo. Não vi a metade. Talvez não tenha visto nem um quinto do que deveria ver.
Vi a Galeria dos Espelhos, onde foi assinado o tratado de paz que encerrou a I Guerra Mundial e deu motivos para começar a II. E caminhei por aqueles compridos e gelados corredores imaginando em qual deles Luís XV foi esfaqueado por um serviçal chamado Damiens em meados do século 18. Damiens atingiu o rei no flanco, feriu-o de leve. Mas a pena a que a Justiça francesa o submeteu não foi leve.
Os carrascos derramaram chumbo derretido em suas entranhas abertas e, depois, ele teve os membros amarrados a quatro cavalos, que os puxaram cada um para um lado. Para facilitar o esquartejamento e diminuir o trabalho dos cavalos, os verdugos cortaram-lhe as axilas e as virilhas.
Essa a França dos iluministas, dos enciclopedistas, de Voltaire. Da Razão. Mas era também a França da realeza sagrada. Donde a necessidade de aplicar uma punição exemplar a um regicida, ainda que fosse um regicida frustrado.
O sucessor de Luís XV, seu neto Luís XVI, tinha, igualmente, a noção do caráter sacro e intocável da monarquia, e igualmente vivia em meio à suntuosidade de Versalhes. Mas, ao contrário dos outros Luíses, não conseguia se fazer respeitar pela fidalguia que o cercava. Luís XVI era gordo, míope e sofria de fimose.
Esse problema impedia que ele consumasse o casamento com Maria Antonieta. Um desperdício. Maria Antonieta era austríaca, loira, formosa e ardente. À noite, Luís esgueirava-se até os aposentos dela por túneis secretos, acolchoados e perenemente iluminados.
Agia assim para que os mexeriqueiros do palácio não ficassem contando quantas vezes ele tentava possuir a rainha. Precaução inútil. Na manhã seguinte, até os diplomatas estrangeiros sabiam que tipo de marcas haviam sido deixadas nos lençóis reais. O embaixador espanhol chegou a escrever em um relatório para Madri:
“São encontrados nos lençóis dos príncipes manchas que revelam que o ato ocorreu, mas muitos atribuem a expulsões externas do delfim, que não teria conseguido concluir a penetração não por problemas de temperamento, mas devido a uma pequena dor em lugar delicado, que se acentua quando ele insiste”.
Um dia, na presença de príncipes e fidalgos, Maria Antonieta reclamou em voz alta:
– O senhor é meu homem. Quando será meu marido?
Hoje as mulheres talvez invertessem as frases, mas Maria Antonieta referia-se especificamente à consumpção do matrimônio.
Luís levou sete anos de humilhações até conseguir satisfazer sua fogosa austríaca. Nesse meio tempo, há suspeitas de que ela tenha se consolado com um oficial sueco espadaúdo, o que transformaria o triste Luís em corno manso, porque o rei sabia de tudo o que ocorria no seu entorno.
O chamado “Gabinete Negro”, uma espécie de serviço de inteligência palaciana, o informava de qualquer movimentação em Versalhes. As cartas dos embaixadores, inclusive, eram copiadas pelos espiões e enviadas a Luís. Ele leu, por exemplo, o que o embaixador da Áustria escreveu a seu respeito numa correspondência para o irmão de Maria Antonieta, o imperador José:
“A natureza parece ter-lhe recusado tudo. O príncipe, em sua atitude e em suas palavras, anuncia uma inteligência muito limitada, uma enorme falta de graça e nenhuma sensibilidade”.
Também ficou ciente da opinião do embaixador de Nápoles:
“Ele parece ter sido criado no mato”.
Esses e outros relatos desairosos dos contemporâneos de Luís XVI sobre o rei você poderá encontrar no saboroso livro que Max Gallo escreveu sobre a Revolução Francesa, lançado recentemente pela L&PM. Trata-se de um livro alentado, mas de estilo tão escorreito que você o lerá, glub, glub, em dois goles.
Segundo Max Gallo, Luís XVI tomava conhecimento do que os outros achavam dele e se deprimia. Teria sido melhor que fizesse como Mário Sérgio, Abel e outros técnicos, que dizem que não leem jornal para não saber o que os jornalistas pensam deles.
Porque, envenenado pela rude opinião alheia, Luís XVI acabou se tornando paranoico, afastou-se das pessoas, inclusive dos seus bons conselheiros e ministros mais competentes. Isolado, Luís acreditou que o tal caráter sagrado da realeza seria suficiente para resolver todos os graves problemas da França. Não era. A crise francesa se acentuou, gerou a Revolução e Luís XVI e sua bela rainha perderam as reais cabeças na guilhotina.
Portanto, treinadores do Brasil, lembrem-se do velho rei Luís XVI: não tenham mania de perseguição, ouçam os bons conselhos. E, assim, preservem suas cabeças acima do pescoço.
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10:22 AM by Cassiano Leonel Drum
Suzana Villaverde - Lailson Santos
O brinquedo dos famosos
No Twitter, gente que luta para preservar a vida pessoal passa o dia falando de sua vida pessoal. Às vezes, fala mais do que pretendia
DIA, NOITE E MADRUGADA
Sabrina, 310 000 seguidores: de tanto contar o que está fazendo, namorar escondido ficou difícil
É madrugada de uma segunda-feira e a apresentadora Sabrina Sato, acordadíssima, conta aos interessados o que está fazendo no momento. "Gente, estou até com vergonha, pareço uma coruja.
Não consigo dormir. Já tomei leite quente, rezei e li", lamuria-se Sabrina, que não passa mais de três horas sem fazer contato com seus mais de 300 000 seguidores, como é chamada a multidão cadastrada na sua página no Twitter, a rede virtual em que pessoas repartem sua rotina e suas impressões em mensagens rápidas, de até 140 caracteres.
No mesmo dia, depois de avisar na sua página que acabou de amamentar o filho Davi, a cantora Claudia Leitte (310 000 seguidores) fala com VEJA e, ato contínuo, twitta: "Acabei de dar entrevista! O assunto foi Twitter". Também cantora, também baiana, em outubro Ivete Sangalo fez questão de anunciar a seus 470.000 seguidores que estava indo para o hospital ter o filho, Marcelo.
"Crianças, agora vou parar de twittar porque acho que chegou a hora de ter meu baby. Obrigada pelo carinho de todos. Um beijo enorme!", digitou. Embora faça sucesso com meio mundo, ou mais, é entre as celebridades que a mania de dar palpite geralmente irrelevante, a qualquer momento, por celular ou computador, alastrou-se com mais vigor. Isto mesmo: quem antes fugia dos flagrantes para preservar a intimidade agora usa o brinquedinho para divulgar, por vontade própria, detalhes da vida pessoal.
"É o lugar que os famosos encontraram para chegar mais perto do público, impondo, ao mesmo tempo, a distância que querem estabelecer. O problema é que muitas vezes eles mesmos se esquecem e passam dos limites", alerta a consultora de imagem Renata Mello.
Até artistas muito reservados, como a cantora Sandy, apreciam a chance de manter uma relação mais próxima com os fãs. Ela lembra que, logo que entrou para a rede, em junho, chocou os seguidores (230 000, pelas últimas contas) com uma revelação espantosa: confessou que adorava picanha. Choveram comentários.
"Mesmo quando escrevo bobagem, as pessoas acham que é grande coisa. Recebi respostas do tipo ‘nossa, ela come a mesma comida que eu’", admira-se. Igualmente twitteira, a deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS, menos de 8 000 seguidores até agora) também mantém blog e perfis no Orkut e no Facebook, espaços que aproveita tanto para mostrar seu lado mais pessoal quanto para discutir com a oposição com menos formalidade. "Quem quer informação oficial vai ao meu site.
O Twitter é algo comportamental, não é uma central de informações", diz. Para os famosos, uma das maiores utilidades da ferramenta é a possibilidade de negar boatos infundados. Sandy apelou ao Twitter para desmentir que estivesse grávida; Manuela, para esclarecer que não, não estava de casamento marcado. Já Sabrina, nos tempos em que queria manter escondido seu namoro - hoje assumido - com o deputado Fábio Faria (PMN-RN), passou por apertos estratégicos.
"A gente ia ao cinema e eu comentava o filme no Twitter. Ele tinha de tomar cuidado para não comentar a mesma coisa", lembra Sabrina, que, viciada confessa, twitta até em reuniões - "Mas meu lugar preferido é sentada no meu banheiro".
Fotos Anderson Schneider e Lailson Santos
VIVA A INFORMALIDADE
Manuela (à esquerda, 7 800 seguidores) e Claudia (310 000): o gosto de falar sobre tudo, inclusive, ou principalmente, sobre as coisas mais irrelevantes
Gafes acontecem, claro (veja o quadro abaixo), e, lidas por seguidores que se contam aos milhares, viram um caso sério em questão de minutos. No começo do mês, a atriz Thaila Ayala escreveu que "é ruim sentar na primeira cadeira do avião. Todo mundo fica olhando, como se você fosse paraplégico!". Todo mundo, no caso, comentou. Thaila se desculpou e apagou a frase, mas o registro ficou.
"As pessoas ainda estão mais acostumadas com o mundo físico, onde você conta alguma coisa para um amigo e, por mais fofoqueiro que ele seja, vai falar para outras dez pessoas. No mundo virtual, qualquer comentário tem abrangência mundial", diz Wanderson Castilho, especialista em segurança na internet. Ele estima que em média 40% dos seguidores de uma pessoa no Twitter leem a mensagem no instante em que ela é enviada.
Ou seja: não adianta apagar - alguém já viu. Primeiro brasileiro a conquistar 1 milhão de seguidores, o apresentador Luciano Huck diz que se preocupa o tempo todo em não contar mais do que deve, mesma atitude de sua mulher, a também twitteira Angélica.
"A gente toma muito cuidado para não deixar escapar algo que não queremos dividir", diz Huck. "Famoso ou não, a dica é sempre olhar o número de seguidores antes de começar a escrever qualquer coisa", aconselha a consultora Renata.
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9:39 AM by Cassiano Leonel Drum
Claudio de Moura Castro
Tecnologia para ricos ou pobres?
"Há pouco tempo, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis"
Revolução Industrial pesou no lombo do operariado. Marx e Dickens, com ânimos diferentes, descreveram a miséria opressiva de Londres. Mas, a longo prazo, os maiores ganhos foram para esse mesmo proletariado.
Para Schumpeter, o desenvolvimento econômico não é mais meias de seda para os ricos – que sempre as tiveram à vontade – mas meias para os pobres. Nos países mais prósperos, um operário hoje tem um nível de conforto que um rico da época de Marx não tinha. Nas nossas paragens tupiniquins, os benefícios para os mais pobres, trazidos pelo crescimento do século XX, foram superiores aos de todos os quatro séculos anteriores.
Apenas para ilustrar, a esperança de vida passou de 30 anos para mais de 70. Obviamente, falta muito, não são poucos os excluídos e não se trata de desculpar a horrenda distribuição de renda. Mas, é interessante registrar, os avanços tecnológicos têm sido muito generosos para com os mais pobres. Não que tenham sido pensados assim, mas é o que aconteceu.
A produção de motos (1,5 milhão por ano) corresponde a mais da metade dos brasileiros atingindo 18 anos. Um jovem empregado, morando com seus pais, consegue pagar a prestação de uma motocicleta simples, desfrutando a indescritível sensação de liberdade oferecida por ter seu próprio veículo.
O telefone celular é a redenção de quem trabalha por conta própria. Enterro em vala comum para o precário sistema de recados em telefones "de favor". De fato, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis.
As fotos de família estavam a cargo dos fotógrafos das praças públicas. Hoje, um celular melhorzinho fotografa tudo, a custo zero. O computador começa a chegar ao povão (em modestas prestações). Por exemplo, o meu borracheiro tem.
Quase um terço da população tem algum acesso a ele. O crescimento das vendas é espantoso. Para um universitário, um bom computador usado custa menos do que os livros indicados anualmente pelos professores.
Ilustração Atômica Studio
Quantos municípios brasileiros não têm livrarias? Ou, se têm, seu acervo é pífio. Mas, para que livrarias, se há a Amazon.com e suas versões caboclas? Qualquer um pode comprar quase 20 milhões de títulos pressionando algumas teclas.
Quem tem Google ri dos 32 volumes da Britânica, ao custo de 1.000 dólares, pois a Wikipedia é mais simpática e de graça. Pobre não tem dinheiro para revistas ou jornais, mas agora está tudo na internet. E pode ler, em português e gratuitamente, milhares de livros de domínio público.
O rico mandava o contínuo ou o moleque de recados ao correio para postar uma carta. Agora, o pobre passa um e-mail, igualzinho ao rico. E nenhum dos dois paga o selo. E o preço absurdo dos CDs? Hoje, qualquer música pode ser encontrada na web. E, com um pouquinho de astúcia, sem gastar nada.
E passam fagueiros os garis, com seus fones ligados nos tocadores de MP3. Como dito, longe deste ensaísta subestimar a situação de pobreza de grande parte da nossa população. Não obstante, a mensagem deste ensaio é que os avanços presentes da tecnologia trazem benefícios bem maiores para o povão.
Tais elucubrações nos levam de volta ao bando de hippies da Califórnia que inventou os microcomputadores, na década de 70. Era um grupo de contracultura que via na tecnologia um antídoto para a opressão, por parte de uma sociedade impessoal, comandada por grandes empresas e por "big brothers" sinistros.
Eles buscavam alternativas tecnológicas libertadoras. Queriam ferramentas que permitissem aos pequenos expressar-se em múltiplas direções. Precisavam de soluções pouco dispendiosas.
Com o sucesso dos microcomputadores, quase todos ficaram milionários. Não precisaram das soluções baratas que criaram. Mas as ideias estavam na rua. Suas aplicações foram herdadas por bilhões de pessoas.
Restam duas cogitações. Primeiro, o povo ficou mais feliz com seus novos apetrechos? Ou aumentou sua alienação e angústia? Segundo, ele saberá usar isso tudo? Ou as lastimáveis deficiências em sua educação o impedem de usar o melhor desse potencial criado pela tecnologia para aumentar sua cultura e qualidade de vida?
Claudio de Moura Castro é economista
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9:32 AM by Cassiano Leonel Drum
Com reportagem de Laura Lopes Rick Gomez
O que desperta o desejo sexual feminino
Novos estudos sobre revelam um abismo entre o que as mulheres sentem e o que dizem sentir Ivan Martins e Francine Lima.
Ida Bauer aparece nos textos de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, sob o nome fictício de Dora. É uma moça bonita, de 15 anos, perturbada por tosses nervosas e incapacidade ocasional de falar.
Chegou ao divã do médico vienense queixando-se de duas coisas: assédio sexual de um amigo da família e indisposição do pai em protegê-la. Freud aceitou os fatos, mas desenvolveu uma interpretação própria sobre eles. O nervosismo e as doenças se explicavam porque a moça se sentia sexualmente atraída pelo molestador, mas reprimia a sensação prazerosa e a transformava, histericamente, em incômodo físico.
Como Ida se recusou a aceitar essa versão sobre seus sentimentos, largou o tratamento. Peter Kramer, biógrafo de Freud, diz que os sintomas só diminuíram quando ela enfrentou o pai e o molestador, tempos depois. Freud estava errado; ela, certa.
Anos mais tarde, refletindo sobre a experiência, Freud escreveu uma passagem famosa: “A grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não fui capaz de responder, apesar de 30 anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que querem as mulheres?”.
Meredith Chivers, uma jovem pesquisadora da Universidade Queen, no Canadá, acredita que pode finalmente responder à pergunta. Sem os preconceitos e a ortodoxia de Freud, e com recursos experimentais que ele não tinha, reuniu 47 mulheres e 44 homens em laboratório e aplicou o mesmo teste a todos eles: viram oito filmes curtos sobre sexo, com temas variados, enquanto seus órgãos genitais eram monitorados por sensores capazes de medir a ereção masculina e a lubrificação feminina.
Ao mesmo tempo, Meredith pediu que indicassem, num sensor eletrônico, quanto estavam excitados com cada cena projetada. Essa era a parte subjetiva do teste.
Os resultados foram sensacionais. Meredith descobriu, primeiro, que as mulheres, sejam elas hétero ou homossexuais, se estimulam com uma gama muito variada de cenas. Homem e mulher transando, mulheres transando, homens transando, quase tudo foi capaz de produzir excitação física nas mulheres.
Até cenas de coito entre bonobos (os parentes menores e mais dóceis dos chimpanzés) causaram alterações genitais nas voluntárias, embora tenham deixado os homens indiferentes. Qualquer que seja a sua orientação sexual, eles parecem ser mais focados em suas preferências.
Homossexuais se excitam predominantemente com cenas de sexo entre homens ou com cenas de masturbação masculina. Heterossexuais se interessam por sexo entre mulheres, sexo entre homens e mulheres e atividades que envolvam o corpo feminino, mesmo as não-sexuais. O estudo sugere que as mulheres são mais flexíveis em sua capacidade de se interessar. Seu universo sexual é mais rico.
A outra surpresa da pesquisa de Meredith, talvez sua descoberta mais importante, foi a constatação de que existe uma distância entre o que as mulheres manifestam fisicamente e o que elas declaram sentir.
As cenas de sexo entre mulheres, por exemplo, foram as que causaram maior excitação física entre as mulheres heterossexuais – mas aparecem em segundo na lista de respostas sobre as imagens mais excitantes. Ocorre o mesmo com sexo entre dois homens. Os sensores vaginais mostram ser esse o terceiro tipo de cena que mais excita as mulheres, mas ele aparece na quinta posição nas declarações.
O fenômeno de divergência entre corpo e mente não poupa os macacos. Meredith diz que o relato subjetivo das mulheres sobre os bonobos não é coerente com a excitação física que elas demonstram. “O que eu descobri foi que as mulheres ficaram fisicamente excitadas (com os macacos), mas não declararam se sentir dessa forma”, ela disse em entrevista a ÉPOCA. Os homens demonstram um grau de coerência mais elevado entre as medidas objetivas e subjetivas.
Eles declaram gostar daquilo que fisicamente os comove, embora também se confundam com escolhas, por assim dizer, difíceis. No instrumento em que registram suas preferências, os homens heterossexuais marcaram as cenas de masturbação femininas como as mais excitantes, vencendo por pouco o sexo entre duas mulheres.
Mas os sensores genitais mostraram coisa diferente: a vitória pertence claramente às cenas de sexo entre mulheres. A conclusão é que também entre os homens há uma diferença entre excitação mental e excitação física, mas ela parece ser muito menor do que entre as mulheres.
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9:19 AM by Cassiano Leonel Drum
Fernanda Colavitti
Em busca do Viagra cor-de-rosa
Uma nova droga está em testes para combater a falta de desejo feminino. Ela funciona mesmo ou é apenas uma jogada da indústria farmacêutica?
Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 21/novembro/2009.
Sexo, todo mundo sabe, é o grande barato do século XXI. Nunca se falou tanto do assunto, nunca ele foi considerado tão importante, nunca se gastou e se ganhou tanto dinheiro com isso.
Basta olhar os números de crescimento populacional – em 2050 seremos 9 bilhões de pessoas neste pequeno planeta apertadinho – para perceber outra óbvia novidade: nunca se fez tanto sexo como se faz agora. Não obstante, uma parcela imensa da população humana parece estar à margem dessa festa.
Algo como 1 bilhão de pessoas. Calcula-se que 30% das mulheres sofram de uma disfunção sexual chamada de Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH). Trata-se de uma doença descrita pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Psiquiatria.
Ela é caracterizada pela ausência de desejo sexual por um período superior a seis meses. Não é que essas mulheres não tenham parceiros, não tenham orgasmos ou não saibam obter prazer de alguma forma.
Elas simplesmente não têm vontade. São “frígidas”, para usar uma terminologia velha e quase insultuosa. E sofrem imensamente com isso. O desejo hipoativo, segundo os médicos especialistas, é uma grande fonte de angústia feminina.
Essa é a notícia ruim. A notícia boa é que o primeiro tratamento destinado especificamente a esse problema poderá chegar ao mercado entre o fim de 2010 e o início de 2011. Na última terça-feira, dia 17, o laboratório alemão Boehringer Ingelheim apresentou, durante um encontro médico na França, os resultados de um estudo que demonstrou a eficácia de uma substância chamada flibanserina no tratamento da baixa libido (leia na página 100 o quadro com os resultados completos do estudo).
As voluntárias que receberam o medicamento, já batizado “Viagra cor-de-rosa”, eram maiores de 18 anos, ainda não haviam atingido a menopausa e estavam em relações “estáveis, monogâmicas e heterossexuais” por pelo menos um ano. Todas sofriam de TDSH.
O estudo reuniu dados recolhidos por sete grupos de testes envolvendo mais de 5 mil europeias e americanas ao longo de 48 semanas. Enquanto tomavam o novo medicamento, pediu-se a elas que relatassem eventos sexuais de qualquer espécie. Valiam relação sexual, sexo oral, masturbação ou estimulação genital pelo parceiro.
O questionário perguntava se o ato foi satisfatório ou não.
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8:56 AM by Cassiano Leonel Drum
21 de novembro de 2009 | N° 16162
NILSON SOUZA
Salamaleque
Obama fez uma reverência diante do imperador japonês e foi espinafrado pelos críticos de seu país sob a alegação de que não é apropriado para um presidente americano se curvar diante de um estrangeiro. “Nós não fazemos reverências a reis ou imperadores!” – vociferou um comentarista de televisão. Eta arrogância!
Que mal há em ser gentil? Ainda mais diante dos japoneses, que exercitam diariamente a mesura como manifestação de respeito. Além disso, o presidente estadunidense é mais jovem e tem quase o dobro da altura de seu colega nipônico. Na linguagem gestual, Obama estava dizendo: “Eu sou igual a você”. Ou, numa interpretação mais otimista, talvez estivesse tentando dizer: “Não somos inimigos”. O nariz empinado é que gera hostilidades.
Pode ser até que o protocolo entre chefes de Estado exija uma certa formalidade, evitar tapinhas nas costas, abraços calorosos demais, beijos imprevistos. Mas governantes são, antes de tudo, seres humanos.
E nós, humanos, nos tornamos civilizados exatamente quando começamos a apertar as mãos de nossos oponentes para mostrar que estávamos desarmados, que não queríamos agredir e sim compartilhar a proximidade. Quando o aperto de mão é acompanhado pela inclinação da cabeça, mais respeitosa se torna a aproximação.
Claro que há povos e povos. Nós, brasileiros, somos em geral bastante afetuosos e irreverentes, às vezes até demais. Tem uma história do ex-ministro Paulo Brossard que é exemplar sobre o excesso de informalidade com as autoridades. Uma vez um jornalista aproximou-se do então ministro, colocou as mãos sobre os seus ombros e perguntou:
– Quais são as novidades ministro?
E Brossard, sem perder a fleuma, respondeu:
– Afora essa sua intimidade, nenhuma.
Temos até um certo orgulho da nossa irreverência. Quando um governante estrangeiro aparece por aqui, não sossegamos enquanto não o vemos cair no samba ou cobrar um pênalti de mentirinha.
Rainhas, príncipes e até ditadores são, invariavelmente, submetidos ao ritual da descontração. Se Obama tivesse feito aquele gesto diante de Lula, certamente teria recebido em troca um salamaleque ainda mais espalhafatoso.
E ninguém por aqui veria fantasmas. Aliás, o presidente americano até andou fazendo coisa parecida quando lançou um estranho olhar na direção de uma jovem brasileira. Na ocasião, pelo que me lembro, nenhum crítico achou que ele estava saindo da linha. Todo mundo achou graça. E assim é que tem que ser.
Deixem o homem ser humano.
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8:53 AM by Cassiano Leonel Drum
21 de novembro de 2009 | N° 16162
PAULO SANT’ANA
A bela sozinha
Estou no fumódromo e uma das cadeiras ocupadas o é por uma linda moça, ali pelos 20 anos, no máximo 22. Um portento de senhorita.
Pernas torneadas, cabelo alinhado, pés e mãos com dedos simétricos, deixa antever duas maçãs nos seios que se forem se libertar do sutiã parecerão dois pombos assustados.
Bela senhorita. Além de tudo, é portadora de uma meiguice encantadora.
Pergunto-lhe de chofre: “Deve ser fácil para você arranjar um namorado?”.
Ela respondeu prontamente: “Tá muito difícil”.
Fico a cismar no que deseja mais a minha curiosidade que não seja perscrutar a alma da forçosa moça.
No entanto, está difícil para ela arranjar um par. Imagino como são idiotas os rapazes que deixam de explorar aquela energia desaproveitada.
Como dizem na rua, o difícil é a relação. Aquela moça por exemplo está prestes a ser conquistada, no apogeu da sua formosura e juventude.
E no entanto não lhe surge o príncipe encantado.
Falta um estalo para aquela moça ou para cada um dos seus prováveis pretendentes.
É só uma questão de encaixe, alguém que adivinhe ou simplesmente constate os seus encantos.
Mas está ali aquela moça abandonada, amor febril para doar, estuante, pronta para a entrega, ou apta para a pronta entrega, e não aparece nenhum imbecil para desfrutá-la.
Como são intrincadas as relações humanas! Como é penoso livrar-se da solidão, mesmo que estejam aptas as pessoas para se entrelaçarem!
Aquela senhorita não pode continuar sozinha. Mas visivelmente há algo nela que a impede de aproximar-se de alguém que a entenda e mostre interesse.
E assoma como transcendental a sua beleza, o seu aspecto frágil de gata esquiva apelando por um adestrador.
Quantos e quantos desperdícios como esse espalhados por aí! Quanta gente à procura de um cais onde atraque seu vulto esplêndido de jovem bela e oferecida à procura de quem a guie pelos caminhos deliciosos do amor!
Mas por que prosperam assim tantas incompletudes? Por que tanta ânsia desatendida, por que tantos fastios desanimados?
Por que é indispensável que a mulher se una ao homem para realizar-se? Por que, enquanto não se dá esse encontro, uma frustração amassante percorre esses seres dilacerados, essas almas abandonadas à procura de um refúgio, de uma realização?
Por quê? Para que serve a semente sem germinação? Mas por que é tão difícil encontrar terra fértil e propícia em que prospere?
O que intriga é que eu não esteja aqui com piedade de uma mulher feia, sem atrativos, indesejável.
O que me deixa estupefato é que estou sentindo compaixão por uma mulher bela e desejante, capaz também pela sua ternura de fazer qualquer homem feliz.
Será a timidez que a impede de relacionar-se? A ofuscante beleza é que não é.
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8:50 AM by Cassiano Leonel Drum
21 de novembro de 2009 | N° 16162
CLÁUDIA LAITANO
Flor de reacionarismo
Volpi ou Portinari? Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende preferiam Portinari, mas os críticos da época (1968) eram Volpi desde criancinhas. Na crônica O Medo de Parecer Idiota, Nelson apanha no ar esse ambiente de “desajuste estético” para dizer mais ou menos o seguinte: gente comum desconfia do que entende (arte, literatura...), enquanto intelectuais têm pânico de parecerem limitados.
O resultado é que uns e outros não confessam seus verdadeiros gostos para não passarem por idiotas. Nelson e seu amigo-personagem Otto, envergonhados do próprio analfabetismo visual, só têm coragem de revelar sua preferência por Portinari trancados no banheiro: “E ali, no banheiro inescrutável do Helio Pellegrino, cada um de nós se concedeu o direito de ser, por um momento, um pleno, chapado, eufórico idiota plástico”.
O leitor que vem acompanhando as páginas de opinião do jornal nas últimas semanas é tomado por uma sensação de déjà-lu ao deparar com essa crônica de Nelson. Vai aí, com um pouco mais de graça e autoironia, o mesmo raciocínio do professor Voltaire Schilling para desqualificar tanto um escultor consagrado como Carlos Tenius quanto o jovem e pouco conhecido artista Henrique Oliveira, 36 anos, criador da instalação apelidada de Casa-Monstro.
Pois a mesma indignação quanto a uma espécie de “ditadura do gosto” foi o eixo da palestra do jornalista americano Tom Wolfe, em Porto Alegre, na última segunda-feira. Nelson não gostava de Volpi, Voltaire mandaria derreter Tenius. Já Tom Wolfe mira mais alto: acusa a fraude evidente por trás do sucesso de Picasso (que “abandonou a escola de artes antes de aprender anatomia e perspectiva”) e Matisse (que “desenhava mãos que pareciam aspargos”).
Volpi, Tenius, Matisse, Picasso e mesmo o criador da Casa-Monstro sobreviverão sem que eu precise defender o direito da arte de nos desagradar (lembrando Voltaire I, o francês, poderia dizer que com relação à arte também deveria valer o velho princípio iluminista: “Discordo do que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizeres”).
O que me interessa nessa bronca generalizada com a arte moderna é esse curioso argumento de que o “gosto médio” (Homer Simpson assistindo à Zorra Total é a imagem que me vem a cabeça) está sendo desrespeitado ou sufocado por uma elite que tiraniza o povo com obras “feias” (no caso das artes) ou “chatas” (no caso do cinema, do teatro, da literatura ou mesmo da televisão).
Não sei em que mundo essa gente vive (ou já não vive) – ou melhor, sei. Era um mundo em que realmente valia alguma coisa ser intelectual, estar acima da patuleia, dominar um conhecimento erudito. Nelson cita Sartre como o exemplo mais bem-acabado desse intelectual que dá opinião sobre tudo e é respeitado até quando diz bobagens.
Quase 30 anos depois da morte do filósofo francês, desconfio que não existam muitos nomes desfrutando desse mesmo prestígio intelectual multiuso. Quem se interessa pela opinião dos intelectuais sobre a crise, o apagão, o vestido da Geisy? Pouca gente, eu arriscaria.
Mais aguda do que a ditadura da “aristocracia intelectual”, me parece, é a ditadura da mediocridade, da desqualificação da cultura letrada, da eliminação das diferenças culturais, da estupidificação de estudantes com pouca ou nenhuma exigência na escola, da incapacidade de pensar além do senso comum (como se o que “a maioria” gosta fosse o ápice da civilização ocidental) – ou seja, da dificuldade de sequer vislumbrar, no cotidiano, uma elite intelectual disposta a oprimir nosso gostinho médio.
Tom Wolfe, como suas roupas denunciam, não está confortável em sua própria época – mas pelos motivos errados. Condena a liberdade sexual e as descobertas da genética (sim, a genética) e tem nostalgia do patriotismo descabelado e da moral de origem religiosa (sim, ele disse isso), além de confessar publicamente a esperança de que uma nova era vitoriana (ironia?) dê jeito nisso tudo mais cedo ou mais tarde.
Parafraseando Nelson, uma genuína flor de reacionarismo – como poucas vezes Porto Alegre viu igual.
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8:15 AM by Cassiano Leonel Drum
Vera linden
Foi assim, sem querer
Foi assim, sem querer que eu comecei a gostar dele. Uma ternura imensa tomando conta do meu coração e me fazendo tão feliz. Sem nada a ver com paixão de mulher por homem, que aliás é muito bom e não tenho nada contra, só a favor.Me enamorei do jeito dele, da maneira dele ser, ou explicando melhor ainda, do blogger dele.
Afinal não o conheço, nem preciso conhecer mesmo, para quê ??!! Ele é como um livro precioso, capa dura, bem encadernado e com letras douradas para o título e boa impressão. Eu amo muito os livros. Sabe aquela pergunta típica e besta que algum dia na vida fazem às pessoas: "O que você levaria para uma ilha deserta?"
Todos os livros do Balzac, do Almeida Garret, do Maughan, do Machado, do Érico, Tchekhov, Doyle, Victor Hugo, Vargas llosa, Neruda, Lopes Neto, Agatha Cristie, Simenon e Cora Coralina. Ah! na ilha precisaria ter energia elétrica e uma boa internet para poder ler ENTRELAÇOS , diariamente.(umas duas ou três vezes por dia)afinal eu teria mais tempo livre.
O blogger dele é o encontro do bom gosto, com a praticidade e a inteligência. Lá encontro meus autores prediletos, poesias - algumas vezes, frases, coisinhas que aprecio, imagens encantadoras, principalmente de flores e crianças ( que sonho serem meus netos). Tem aquela foto pequena dele, que acho um luxo de bonita.
Ele tem um jeitão de homem bem humorado, resolvido, generoso, de bem com a vida, que faz o que gosta, progressista. Fiquei tinindo de vontade de pedir uma foto dele lá de Portugal.
Ele citou que estão no Orkut, mas não entro nestas coisas nem morta, já me colocaram, para meu desespero no tal de H não sei o que e no tal de Tagged, que infortúnio!! Todo o dia tem uns 12 cavalheiros me enviando mensagens, como pode??? Santo Deus, nem foto ou perfil tem por lá, cruzes.
Será que o mistério, o anonimato é que incita a curiosidade das pessoas ?? Já pensei em editar um perfil de uma senhora de 120 kg e com várias manias estranhas, solteirona convicta, sei lá. Tentei sair do negócio, mas precisa senha, me enredei toda, ainda vou descobrir como sair daquilo.Vai saber. Eu me acho maluquete, mas tem gente bem pior.
Só queria lhe dizer, como sinto a sua falta, de ler o nome dele lá na minha caixa postal. É lógico que eu entendo, não sou nem amiga, só uma simples desconhecida, alguém que francamente é ninguém e, nem tem pretensões de ter qualquer importância em sua vida tão cheia de estudo e dedicação ao trabalho.
Well, amanhã, quer dizer, hoje, após as 9:30 vem um aluninho gordinho, gosto de beliscar as bochechas rosadas dele, preciso lhe explicar o que é MERCOSUL e ALCA e suas respectivas diferenças.
Em uma rápida prelação ontem, lhe expliquei por alto do acordo de livre comércio e ele concluiu: "Tia, são os ricos que reunem prá vender um pro outro e melhorar o seu comércio; quer dizer, só tem o México que é pobre lá no ALCA e nós aqui do MERCOSUL, os pobretões sulamericanos, é isto??
O Gordinho captou alguma coisa. É rápido e rasteiro. Quer ser cardiologista. Quem sabe, não estarei investindo em meu futuro médico ? Como eu aprendo com esta criançada, me divirto e tem gente que os chama de aborrecentes....como pode. Mas, quero mesmo me dedicar ao pessoal do EJA, que gente dedicada, dá prazer de dar uma aula para eles.
Findi de prazeres e alegrias especiais, aquelas que acalmam a alma e aceleram o coração. Viver a vida com gosto pelo que se faz, eis o que nos deixa deliciosamente em paz.
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