Voces encontrarão aqui muitas figuras construidas em Flash, Fireworks, Swift3D e outros aplicativos. Comentários de Livros, revistas e de jornais que já li e que por julgá-los interessantes postarei aqui, espero, todos os dias para que você sempre tenha algo que lhe facilite no seu dia a dia ou nas suas atividades. Se ele cumprir parte desses objetivos, estarei feliz por ter podido repartir essas conquistas.
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Há dez anos, o Brasil testemunhava um drama que parecia cena de novela. A atriz Daniella Perez, de 22 anos, foi assassinada com 18 golpes de tesoura, no Rio de Janeiro.
Na época, ela vivia a doce Yasmin em De Corpo e Alma, trama escrita por sua mãe, Glória Perez. O mais espantoso foi a revelação da autoria do crime. Daniella havia sido morta por Guilherme de Pádua, que vivia o Bira na novela, apaixonado pela personagem Yasmin, e por Paula Thomaz, sua mulher na época.
A atriz foi assassinada na noite do dia 28 de dezembro de 1992, por volta das 21h30, logo após ter deixado os estúdios da Globo, depois de mais um dia de gravação. Seu corpo foi encontrado em um matagal da Barra da Tijuca. No dia seguinte, a notícia dividia a atenção dos brasileiros, que assistiam também à renúncia do presidente Fernando Collor.
Antes de confessar a autoria do crime, Guilherme de Pádua procurou Glória Perez e o ator Raul Gazolla, marido de Daniella, para prestar solidariedade. Raul, emocionado, teria dito para Guilherme que ele era um "grande amigo".
Logo após a confissão dos assassinos, começaram a circular várias versões que tentavam explicar o ocorrido. Entre elas, a de que Guilherme de Pádua estaria confundindo a ficção com a vida real e que estaria apaixonado por Daniella Perez. Foi cogitado, inclusive, que os dois estariam vivendo um romance fora das telas, história totalmente negada por todos os colegas de elenco.
Em janeiro de 1997, o juiz José Geraldo Antônio condenou Guilherme a 19 anos de prisão pela morte da atriz. No dia 16 de maio daquele ano, após 44 horas de julgamento, o mesmo juiz condenou também Paula a 18 anos e meio, pela sua participação no assassinato. A decisão foi comemorada pelo público presente com uma salva de palmas.
Paula Thomaz e Guilherme de Pádua estavam presos desde o momento da confissão.Na ocasião, ela estava grávida do primeiro filho do casal, Felipe, que nasceu em 1993, na cadeia. Foi o filho, aliás, o responsável pela redução da pena de Guilherme. Ele reinvindicou a redução da pena, baseado no Decreto Presidencial nº 3.226, de 29/10/1999, que concede indulto da pena ao "condenado à pena privativa de liberdade superior a seis anos, pai ou mãe de filho menor de doze anos de idade incompletos até 25 de dezembro de 1999 e que, na mesma data, tenha cumprido um terço da pena, se não reincidente, ou metade, se reincidente."
Os personagens da história
Daniella Perez - A única filha mulher da autora Glória Perez sempre quis ser artista. Começou como dançarina, atividade que, aliás, exerceu extra-profissionalmente até a sua morte prematura.
Quando morreu, aos 22 anos, Daniella estava casada com o ator Raul Gazolla, que ela havia conhecido na novela Kananga do Japão, da Manchete.
Glória Perez - Depois do assassinato da filha, Glória Perez passou a se dedicar quase que integralmente à condenação dos culpados, buscando provas através de uma investigação paralela feita com seu advogado, Arthur Lavigne. Glória chegou a convencer três pessoas que trabalhavam em um posto de gasolina, onde Daniela teria passado pouco antes de ser morta, a prestarem depoimentos contra Paula e Guilherme.
Além disso, a autora liderou um movimento nacional para mudar a lei que garante a criminosos primários o cumprimento da pena em liberdade. Recentemente, Glória tem dado várias declarações de que não acredita mais na Justiça do Brasil.
Nascida em Rio Branco, no Acre, Glória Perez é formada em História e começou a sua carreira como escritora de novelas colaborando com Janete Clair. Depois da morte da "mestra", foi Glória quem assumiu o comando da novela Eu Prometo, de 1983. Sua carreira havia começado antes, em 1979, quando ela escreveu um episódio para a série Malu Mulher, da Rede Globo. O episódio, no entanto, nunca chegou a ser gravado, mas foi ele que despertou em Janete Clair o interesse pela nova autora.
Depois da morte de Daniella, Glória ficou quase três anos sem escrever, só voltando às telas com Explode Coração, em 1995. Seu mais recente sucesso foi O Clone.
Em novembro desse ano, Glória Perez viveu mais um drama pessoal, perdendo seu filho Rafael Ferrante Perez, de 25 anos. Portador de Síndrome de Down, Rafael morreu vítima de uma torção intestinal, em Brasília, onde vivia com a avó. Agora Glória só tem um filho vivo, Rodrigo.
Guilherme de Pádua - O mineiro Guilherme de Pádua estreou na televisão na novela De Corpo e Alma, a primeira e última da sua breve carreira. Anos antes da estréia, ele chegou ao Rio de Janeiro para tentar a carreira artística. Especula-se que ele chegou a realizar trabalhos como michê, mas o fato sempre foi negado por ele.
Após cumprir um terço da pena (seis anos e quatro meses), Pádua conseguiu a liberdade condicional em 1999, por bom comportamento. No ano seguinte, a Vara de Execuções Criminais de Minas Gerais concedeu a ele a redução de 25% da sua pena, que passou para 14 anos, dois meses e 26 dias. Em 2001, ele entrou com o pedido de indulto, que o deu a liberdade esse ano. Se nos próximos 5 anos, Guilherme mantiver um bom comportamento e não se envolver em nenhum outro crime, passará a ser considerado réu primário. Caso alguém o chame de assassino, ele pode, inclusive, entrar com um processo por calúnia e difamação.
Atualmente, Guilherme de Pádua leva uma vida normal e cursa o 1º período de Ciências da Computação na PUC Minas, em Belo Horizonte, e já desenvolve trabalhos na área. Recentemente, ele foi pré-selecionado para receber uma bolsa de estudos.
Paula Thomaz - Em liberdade condicional desde novembro de 1999, Paula Nogueira de Almeida Thomaz, 28 anos, agora assinando apenas Paula Nogueira, cursa Administração de Empresas desde 2000, na Faculdade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. O privilégio da condicional veio após ela cumprir um sexto da pena de 15 anos a que foi condenada.
Ao contrário dos seus colegas, Paula não prestou vestibular. Ela conseguiu ingressar na faculdade através do Programa de Acesso Direto, aprovado há dois anos pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). Através dele, o aluno que tenha obtido média sete nos três anos do ensino médio pode ingressar na faculdade sem prestar vestibular.
Paula queria estudar Ciências Contábeis, mas como o curso é à noite, ela não pode frequentar as aulas por determinação judicial. Outra determinação exige que Paula Thomaz se apresente à Justiça a cada três meses.
O casamento com Guilherme de Pádua acabou logo depois do crime. O advogado de Paula Thomaz defendeu a tese de que sua cliente estaria em um shopping no momento do crime. O de Guilherme, por sua vez, alegou que a autora das estocadas teria sido Paula. Seu cliente teria apenas imobilizado a vítima.
Em 2001 foi anunciado o segundo casamento de Paula, com Sérgio Ricardo Rodrigues Peixoto.
Fernanda Castello Branco
Redação Terra
hora da virada
Os brasileiros estão em lua-de-mel com 2003. Mais esperançosos, acreditam que o País pode melhorar Chico Silva e Sara Duarte
Lorena Calábria, jornalista e apresentadora de tevê ¿Quando se está esperando uma vida, a tendência é começar a pensar no coletivo. Fico feliz em saber que o novo governo terá um foco maior no social ¿ afinal, não adianta imaginar que minhas filhas terão uma condição de vida bacana se o que está em volta não crescer junto. É preciso acreditar que as coisas vão melhorar, sem ser imediatista. Será preciso tempo para essas mudanças acontecerem¿
Na definição do filósofo grego Aristóteles, a esperança é uma virtude motivadora, o sentimento que faz as pessoas acreditarem num futuro mais feliz. Embalados pela eleição de um novo presidente e pela expectativa de um ciclo de mudanças que afetará diferentes áreas, como a economia e a educação, muitos vêem 2003 como um símbolo de mudança. De acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto FGV-Opinião, ligado à Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, a esmagadora maioria dos brasileiros acredita que o ano que vem será melhor. É como se os brasileiros estivessem em lua-de-mel com o ano que chega, o governo novo e as prometidas mudanças.
A figura do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, aparece identificada como um símbolo de esperança, já que, pela primeira vez, o eleitor votou em alguém igual a si mesmo. Em uma comparação entre Fernando Henrique Cardoso e Lula, 85% dos 2.988 entrevistados disseram acreditar que o governo do petista será melhor, 6% afirmaram que será a mesma coisa e 9% previram que será pior. Questionados sobre áreas sociais como educação e saúde, 84% apostam que a situação vai melhorar. E até mesmo quando o assunto é espinhoso, a confiança impera. Cerca de 81% dos entrevistados crêem na diminuição do desemprego e 73% acreditam no controle da inflação. Alberto Carlos de Almeida, pesquisador do FGV-Opinião, explica que mesmo quem votou em Serra se dobrou e agora faz votos de que tudo dê certo. ¿É como um homem que trocou a esposa antiga por uma nova¿, diz.
Quando a vida pessoal também dá uma guinada, a empolgação é ainda maior. Famosos como o ator Edson Celulari e a apresentadora Lorena Calábria vivem a euforia de entrar em 2003 ¿grávidos¿. A mulher do galã, Cláudia Raia, espera para janeiro a chegada de sua primeira filha. Já Lorena, grávida de seis meses do diretor de tevê Maurício Arruda, prepara-se para passar o Carnaval abraçando as filhas gêmeas. ¿Um filho, por si só, é um signo de esperança¿, afirma Celulari. ¿Mas ele chegar ao mundo no ano em que o povo assume o poder torna 2003 ainda mais especial.¿
O certo é que ninguém fica indiferente à mudança. Muitos clamam por ela, outros sentem calafrios quando ouvem falar do assunto. Por quê? ¿É muito subjetivo, mas, em geral, quem busca mudança é quem tem menos a perder, quem tem um longo caminho pela frente. Os mais ricos ou mais velhos têm mais dificuldades para aceitar alterações drásticas de vida¿, explica Ari Rehfeld, supervisor da clínica psicológica da PUC-SP.
O teólogo Fernando Altemeyer, também da PUC-SP, concorda com o psicólogo e acrescenta que quem tem o poder, em geral teme alterações. Mas, mesmo num momento de euforia como esses, é necessário manter a calma e agir com cautela. ¿É preciso ter discernimento para se mudar o que precisa e não alterar aquilo que está bom¿, avisa. Para ele, é preciso serenidade para não se decepcionar se as propaladas mudanças demorarem mais do que um réveillon para acontecer. O maior desafio é trocar a esperança e a empolgação iniciais pela confiança.
Esta é a capa da Revista Isto É que amanhã bem cedinho estará nas bancas. A Revista Veja está de folga esta semana e portanto não terá a capa de sempre. Como a Isto É está toda online, vale a pena consultar ler e se gostar adquirir no seu jornaleiro mais próximo.
Saiba o que vem pela frente. Confira as perspectivas para o próximo ano na política, economia, cultura, ciência e tecnologia, medicina e saúde
BRASIL
A GINÁSTICA DA COALIZÃO Acordo com PMDB vira mico e
Lula assume cargo sem maioria
ESTILO LULA O presidente é bom de conversa e bom humor, mas só faz o que quer
AÇÃO CONTRA O CRIME O que é preciso fazer para evitar
a explosão da violência no País
ECONOMIA
AGORA É COM ELES A chave para o crescimento está nas mãos de Palocci e Meirelles
INTERNACIONAL
A SEGUNDA GUERRA DO GOLFO Os EUA estão prontos para atacar o Iraque, custe o que custar
MEDICINA
FEITOS PARA VOCÊ Novos métodos e exames deixam tratamento de doenças mais eficaz
COMPORTAMENTO
A HORA DA VIRADA Esperançosos, brasileiros acreditam que o País vai melhorar
NOVA VELHA HISTÓRIA Minissaias e cargos prometem voltar ao guarda-roupa feminino
SINTA-SE EM CASA Baladas serão cheias de conforto, aconchego e música tranquila
Também não entendo porque ainda há gente no Brasil que quer vir morar num país de pobres como os Estados Unidos! É verdade, aqui a gente divide todos os ganhos de salário com o Governo, pois o imposto de renda chega a 27,5% descontado já no contra-cheque; do que sobra e vai para a conta tem mais a CPMF que é descontado a cada saque que você faça. Tudo o que você compra tem uma dezena ou mais de impostos e agora nas contas de luz você vai pagar mais a taxa de iluminação pública mesmo que sua rua ainda não tenha luz, ou ela esteja queimada. E assim é isso mesmo que o Sant'Ana escreveu. Este é um País de ricos, até porque se dá ao luxo de ter uma taxa em torno de 20% de desempregados, mas que de uma forma ou outra têm de vestir, têm de comer.
Esplêndida ironia contém esta carta enviada por um norte-americano ao leitor desta coluna Luiz Valdir Andres Filho. Achei que os leitores desta coluna vão aproveitar muito este atestado inequívoco de como somos um povo assolado por impostos. Olhem a carta do gringo: "Como você brasileiro pode se chamar de pobre, quando é capaz de:
Pagar por um metro cúbico de água mais do que o dobro que eu?
Dar-se ao luxo de pagar tarifas de eletricidade ou telefone pelo menos uns 60% mais caras do que eu?
Pagar pela gasolina mais do que o dobro que eu? E olha que a gasolina aqui nos Estados Unidos é de ótima qualidade!
Pagar US$ 40 mil por um carro que me custa US$ 20 mil? Isto só é possível porque você pode se dar ao luxo de presentear seu governo com US$ 20 mil, o que nós aqui na pobre América não podemos fazer.
Pois é meu amigo brasileiro, realmente não consigo entender quando você diz que é pobre!".
Prossegue: "Realmente não consigo entender quando você diz que é pobre!
O governo estadual da Flórida leva em conta nossa precária situação financeira e nos cobra somente 6% (sendo que 4% referem-se a imposto federal) de impostos como Imposto ao Valor Agregado (IVA), parecido com o ICMS de você. E não quase 18% como vocês os ricos que vivem no Brasil pagam. Além do mais, vocês têm outros impostos, taxas, contribuições ou encargos como ISS, CPMF, PIS, COFINS, INSS, IPVA etc. E ainda pagam impostos em cascata.
Se não fossem ricos, como poderiam pagar impostos nessa proporção? Pobres no Brasil??? Onde??? Desculpe, mas não consigo vê-los!
Um país cujos trabalhadores e empresas pagam Imposto de Renda antecipado sobre salários (vocês chamam na fonte, será que na fonte da riqueza?) e lucros presumidos, necessariamente tem que nadar em dinheiro, pois assume que os assalariados ganham muito e os negócios são sempre bem sucedidos e sempre terão lucros e, claro, que vocês são RICOS! Pobres somos nós que não pagamos imposto sobre renda, se ganhamos menos de US$ 3 mil por mês. Nossas empresas esperam a apuração de resultados após um ano para ver se devem ou não pagar imposto sobre a renda, ou seja, se tiveram lucro.
Aí, no Brasil, vocês podem pagar segurança privada, enquanto que nós nos conformamos com a força policial pública. Enviam seus filhos a colégios privados caros, enquanto nós americanos de classe média e média alta, enviamos nossos filhos às escolas públicas gratuitas, onde nos emprestam os livros para que nossos filhos possam estudar, já que o governo prevê que não paguemos por eles".
E finaliza: "Às vezes eu fico verde de inveja de vocês do Brasil. Quando tiram um empréstimo pessoal no banco, podem pagar 4,5% de juros ao mês, ou seja, 70% de juros ao ano! Desculpe, caro amigo brasileiro, mas isso sim é ser RICO! Aqui não chegamos a pagar 8% (geralmente 7,8%) ao ano, justamente porque não estamos em condições de pagar mais. Suponho que como todos os ricos, você tem um carro e está pagando de 8% a 10% do valor do carro por ano de seguro. Para sua informação, eu pago somente US$ 345 dólares por ano de seguro, por um carro grande e top de linha. E como lhe sobra um bom dinheiro, você pode fazer pagamentos anuais de US$ 300 a US$ 2 mil dólares por conceitos que vocês chamam de IPVA, licenciamento e seguro obrigatório, enquanto nós aqui não podemos nos dar a esse luxo e, se muito, pagamos uns 15 dólares por ano pelo STICKER, sem importar que modelo, ano e origem de carro tenhamos.
Mas claro, isto é para nós que estamos apertados financeiramente e não podemos dispor de enormes fluxos monetários que vocês brasileiros administram pessoalmente nas suas gordas contas bancárias.
Vamos! Faça as contas! Quem é o rico e quem é o pobre?
Mais de 20% da população economicamente ativa do Brasil não trabalha, não tem emprego! Aqui, há somente uns 4% da população na mesma condição, quase pleno emprego. Você não acha que viver sem trabalhar é um luxo ao qual somente os ricos podem se dar? E, neste caso, não haveria no Brasil muitas dezenas de vezes mais ricos do que aqui?
Por fim, vocês pagam para nós americanos US$ 62 bilhões por ano de uma dívida, cujo principal já foi pago muitas vezes. Também não entendo porque ainda há gente no Brasil que quer vir morar num país de pobres como os Estados Unidos!!!
Cordialmente,(ass.) Seu Amigo Pobre, (cidadão americano)"
psantana.colunistas@zerohora.com.br
Vocês viram só minhas amigas Kelly e Jane, o Veríssimo está escrevendo que se não der certo tantos gaúchos lá no poder a culpa será dos paulistas. Vocês concordam?
O desempenho do PT nos governos de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul é responsável pelo grande número de gaúchos no governo Lula. Como o PT foi derrotado nas últimas eleições estaduais no Rio Grande do Sul, a credencial não deixa de ser paradoxal. Se a escolha de tantos gaúchos não foi para consolá-los pela derrota, foi um reconhecimento da qualidade de um quadro político que se provou na luta, mesmo em lutas perdidas. Ou então o próprio paradoxo tem sua lógica, pois os gaúchos em número desproporcional representam o mais paradoxal dos Estados brasileiros, onde o crescimento do PT era impossível e, ao mesmo tempo, coerente com uma longa história de incongruência política (o berço agropastoril do trabalhismo, terra de oligarcas liberais e caudilhos que liam Augusto Comte etc.). Talvez o que Lula queira aproveitar seja justamente essa experiência gaúcha com o improvável, já que seu governo também é uma impossibilidade que se tornou realidade. Talvez ele tenha convocado o paradoxo.
As gaúchas do governo Lula, Dilma Rousseff, das Minas e Energia (que é gaúcha não de nascença mas de propósito), e Emília Fernandes, dos Direitos da Mulher, são paradoxais, como são as duas deputadas do PT, Maria do Rosário e Luciana Genro, que vão estrear na Câmara Federal, e a Câmara Federal que se prepare, e outros sucessos políticos femininos num Estado supostamente machista. Outro aparente paradoxo que desafiará estereótipos e desinformação nacional é Olívio Dutra, do novo Ministério das Cidades, o do agressivo bigode estalinista e biótipo de gauchão quintessencial. Poucos políticos brasileiros conversariam com o Noam Chomsky no nível, e com o bom inglês, do Olívio, como o vi fazer no último Fórum Social Mundial. A escolha do paradoxal Miguel Rossetto - o mais "radical" e o mais socialmente ameno dos gaúchos chamados - para o Desenvolvimento Agrário, justamente a pasta em que o governo petista mais precisa ser coerente sem ser provocador, quase compensa o inexplicável Meirelles no Banco Central. E no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e com acesso a um dos ouvidos do Lula em assuntos internacionais estarão dois dos melhores pensadores do PT, Tarso Genro e Marco Aurélio Garcia, que saiu do Rio Grande do Sul há tempo, mas, pelo que sei, ainda torce pelo Internacional.
Quer dizer: se não der certo, culpa dos paulistas.
Nada como a obrigação para acabar com qualquer espécie de prazer. Uma vez fui contratado para ler um livro e dar minha opinião, se a história daria ou não um bom filme. Pensei que finalmente tinha encontrado a minha profissão: estava sendo pago para ler! Engano. O livro se tornou um pesadelo, cada frase parecia um discurso de formatura. Acho que foi o livro mais chato que eu li até o fim, devia ter cobrado mais. Digo isso só para deixar claro que ninguém é obrigado a ler os dois volumes do melhor livro do ano, As Ilusões Armadas, do Elio Gaspari. Não encare o livro como a autópsia definitiva do autoritarismo armado, que ele é. Encare como um bom livro para ler nas férias, um ótimo texto, ágil, engraçado e profundo, que ele também é.
Você sabia que os militares brasileiros em 1975 fizeram planos para invadir Portugal? Dá para imaginar? Sabe os detalhes do incrível roubo do cofre do Adhemar? Conhece a história do general que entrou para a Academia Brasileira de Letras escrevendo "naturesa", assim mesmo, com esse? Já viu alguém que parece "médico de filme argentino"? Não? Então leia o livro. Há um capítulo extraordinário (A Dor) sobre a lógica da tortura, se é que se pode haver lógica numa doença. Há uma análise perfeita (A Roda de Aquarius) da fatalidade histórica que foi o Brasil mergulhar numa ditadura enquanto o mundo vivia um período de liberdade sem igual. Há um levantamento completo das atrocidades da tortura e dos movimentos da guerrilha e um diagnóstico preciso da direita brasileira, ao mesmo tempo conservadora e corrupta. Há também uma análise brilhante do comportamento das esquerdas (A Ratoeira), onde "cada tentativa de moderação é confundida com deserção e covardia", o que provoca "o predomínio da militância extremada".
Além de se divertir e aprender, como se espera da leitura de qualquer bom livro, você ainda pode recuperar sua fé na democracia, eventualmente abalada pela eleição de algum Enéas ou pela suspeita de que a maioria freqüentemente se engana. Você vai acabar, como eu, lendo o segundo volume devagar, economizando livro.
E se, no futuro, alguém vier lhe falar mal da democracia, mande ler a descrição de uma reunião do Conselho de Segurança Nacional. Um coronel lia em voz alta os nomes dos que teriam seus direitos políticos cassados - o que significava desemprego imediato e muito provável risco de vida - seguido de um sumário "das culpas da vítima". Os ministros votavam, rápido e em aberto. "Cada cassação tomava apenas alguns minutos, mas a leitura do prontuário acabava tornando-se enfadonha. Chegou a vez de Simão da Cunha, deputado federal. O coronel ainda não tinha dito do que ele era acusado, ia terminando a leitura dos seus dados pessoais:
- Mineiro, bacharel...
- Basta! - cortou Orlando Geisel.
O Conselho de Segurança caiu numa grande gargalhada."
A reunião terminou com Simão da Cunha cassado, acusado de ser mineiro e bacharel. O livro de Elio Gaspari tem, entre muitos méritos, o de nos lembrar que fora da democracia a política é, na melhor hipótese, uma boa piada. jorge.furtado@zerohora.com.br
É curioso observar como a vida nos oferece resposta aos mais variados
questionamentos do cotidiano... Vejamos:
A mais longa caminhada só é possível passo a passo...
O mais belo livro do mundo foi escrito letra por letra...
Os milênios se sucedem, segundo a segundo...
As mais violentas cachoeiras se formam de pequenas fontes...
A imponência do pinheiro e a beleza do ipê começaram ambas na simplicidade
das sementes...
Não fosse a gota e não haveria chuvas...
O mais singelo ninho se fez de pequenos gravetos e a mais bela construção
não se teria efetuado senão a partir do primeiro tijolo...
As imensas dunas se compõem de minúsculos grãos de areia...
Como já refere o adágio popular, nos menores frascos se guardam as melhores
fragrâncias...
É quase incrível imaginar que apenas sete notas musicais tenham dado vida à
" de Bach, e à "Aleluia", de Hendel...
O brilhantismo de Einstein e a ternura de Tereza de Calcutá tiveram que
estagiar no período fetal e nem mesmo Jesus, expressão maior de Amor,
dispensou a fragilidade do berço...
Assim também o mundo de paz, de harmonia e de amor com que tanto
sonhamos só será construído a partir de pequenos gestos de compreensão,
solidariedade, respeito, ternura, fraternidade, benevolência, indulgência e
perdão, dia a dia...
Ninguém pode mudar o mundo, mas podemos mudar uma pequena parcela dele:
esta parcela que chamamos de "Eu".
Não é fácil nem rápido...
Mas vale a pena tentar! Sorria!!!
Porque diz a Palavra, "tudo posso naquele que me fortalece"
E aquele que nos fortalece é o criador do céu e da terra.
Recebido da minha amiga Jane Marion
A dúvida de como afinal de contas um homem deve abordar uma mulher para ter sucesso na investida (leia-se levá-la para a cama) poderia tranqüilamente encabeçar a série Grandes Dilemas da Humanidade. Sabemos o quanto se inventa de respostas, mas o fato é que todas as supostas regras de etiqueta e fórmulas de conquista sabotam a espontaneidade e acabam deixando quem se preocupa demais com elas ligeiramente pasteurizado. Ou, o que é pior, acabrunhado e paralisado pelo medo de não dar conta dessa infinidade de mandamentos da sedução.
Dica número 1: Siga as regras, mas confie nas exceções.
2. Enxergarás além da beleza exterior (ou fingirás)
Então, esqueça tudo o que leu ou disseram até hoje sobre os paradigmas do conquistador vitorioso. A verdade está aqui: para uma mulher dizer sim, ela precisa sentir um interesse genuíno e total de sua parte. Genuíno: você realmente a notou e se sentiu impelido a agradá-la; seu interesse é por ela e não movido por desejo de vingança (de outra que tenha te dado um pé inesquecível) ou de competição viril (com os amigos presentes, para ver quem cata uma gatinha mais bonita ou com maior facilidade). Total: você não enxerga, quando olha para ela, apenas um par de glúteos portentosos ou airbags poderosos que prometem transportá-lo ao paraíso, nem tampouco uma coleção de orifícios com os quais obter alguma diversão. Por menos que se possa generalizar quando o assunto é sentimento, a aversão a ser objeto é uma premissa feminina. Pelo menos para aquelas que têm sensibilidade e tutano (como leitor da VIP, certamente esse é o tipo de mulher que o agrada).
Dica número 2: É importante convencer a mulher-objeto de que ela não é uma
mulher-objeto.
3. Terás interesse específico
Outra condição básica para a entrega é ela saber (ou ao menos ter a ilusão de) que se destacou na multidão. Ou seja, você precisa, necessariamente, saber focar. É difícil, eu sei, sobretudo quando a festa, o bar ou o escritório exibem hordas de beldades desfilando na sua frente. Mas se comportar feito lobo esfomeado ou adolescente acometido por descargas hormonais não vai ajudá-lo a voltar acompanhado para casa. Aliás, a engrenagem do erotismo é cruel com os necessitados, porque quanto mais desesperado e voluptuoso você estiver ao se atirar numa balada, menores serão as chances de ouvir um sim. A urgência afugenta, muitas vezes intimida, e essa lógica vale tanto para homens quanto para mulheres. Pense bem: por mais linda e encantadora que uma desconhecida pareça aos seus olhos, se ela der a impressão de que vai se jogar nos seus braços ávida por orgasmos, o que vai acontecer? Você provavelmente vai se encolher e sair pela tangente, afinal quem quer encarar tamanha responsabilidade?
Dica número 3: As mulheres são todas iguais, mas algumas são mais iguais que as outras.
4. Oferecerás uns drinques
Se a situação da mocinha abordada for periclitante, você terá grandes chances de se dar bem. Se ela estiver num momento de parca lucidez (resultado de abundância alcoólica), muita carência ou abstinência prolongada de prazeres eróticos (em dupla, onanismo não conta), o desfecho na cama está garantido. Tanto quanto uma boa ressaca, de ordem física ou moral, e vai sobrar para você. Se quiser, encare. Mas esteja consciente desses possíveis efeitos colaterais.
Dica número 4: Cama de bêbada não tem dono.
5. Serás autoconfiante e low-profile
Não tem mistério nisso: todas gostam de gentileza. Chegar delicadamente numa mulher, sem grandes encenações (o ideal é que não haja nenhuma), com suavidade e autoconfiança, é meio caminho andado para que ela queira conversar. Naturalidade é um trunfo nas mãos de quem sabe usá-la (isso parece um paradoxo, e talvez o seja). Não se pode forçar ser natural, mas evitar cantada pronta e comentários sobre o tempo só somam pontos a seu favor. Não chegue agitadão, querendo impressionar ou galante além do ponto. Pense no seguinte: é só uma mulher. Com toda a fragilidade e inseguranças típicas de qualquer ser deste planeta. Porque, por mais que o que ela queira seja simplesmente acabar a noite em braços másculos, vai fazer uma aprofundada avaliação do seu merecimento. Daí o segredo: seja low-profile. Mesmo sendo apenas um joguinho (particularmente tenho pouquíssima paciência para isso, mas sei que muita gente adora), é muito mais gostoso sentir que o desejo do rapaz cresceu vertiginosamente depois de uma conversa despretensiosa do que sacar imediatamente que seu único objetivo é o coito. Além disso, essa atitude sossegada deixa sempre aquela dúvida: Será que esse cara está mesmo a fim de mim ou só quer bater papo?
Dica número 5: Mulher instigada vira safada.
6. Ficarás atento aos sinais
Você fez o seu papel. Agora fique ligado na sinalização. Se ela estiver atenta ao que você fala, mas de braços cruzados e sem nenhum sorrisinho nos lábios, apele urgentemente para o plano B (seja ele qual for, mas dê uma virada no assunto, antes que ela comece a bocejar). Se a moça resolver contar os fracassos amorosos dela, saia correndo. Porque ela só quer um ombro amigo. Se ela der muita risada do que você fala mas não fizer nenhuma pergunta, desconfie que é muito insegura ou que só quer se divertir, sem o sentido sensual do termo. E, finalmente, se ela estiver interessada na conversa, der sorrisos naturais e ajeitar o cabelo atrás da orelha com aquele charminho feminino, não hesite: agarre essa mulher!
Dica número 6: A mulher diz sim antes que você perceba. Portanto, perceba antes.
7. Partirás para o abraço
Toda mulher espera isso de um homem. Toda. A conversa pode estar maravilhosa, divertida e instigante, mas nada supera um espetacular beijo cala-boca. Nada. Demonstra segurança, ousadia e desejo. Toda mulher (de novo) adora se sentir desejada, daquele desejo que não se contém, que escandaliza as senhoras de Santana, que revitaliza as relações. Esse é o momento decisivo da execução do plano. Se pintou o beijo, a seqüência é o convite. Mas opte por sugerir um lugar mais à vontade em vez do clássico Na sua casa ou na minha? Pelo seguinte: se tudo o que se quer é um belo rala-e-rola, vá para a casa dela. Porque de lá você pode picar a mula com qualquer desculpa de trabalho ou algo assim. Mas, se estiver realmente impressionado, sua casa é mais promissora. Você poderá dormir com ela (ou passar a noite acordado) e de manhã, se ela ainda estiver reconhecível e bonita, você estará com a vida ganha.
Dica número 7: Um beijo bem dado e na hora certa resolve todos os problemas.
Vai longe esta polêmica ainda, mas eles não ficam nem vermelhos e a própria imprensa assimilou como natural, então fica assim mesmo e vamos adiante. Com a previsão de aumento de 30% para a energia elétrica no proximo ano nada mais justo que eles tenham se dado este aumento.
EMÍLIO ROTHFUCHS NETO/ Advogado trabalhista É lamentável que, no momento em que o país inteiro deposita esperanças e expectativas no governo que vai assumir, um grupo dos integrantes da grande família de políticos venha desiludi-lo, mostrando que, lamentavelmente, continuam os mesmos.
Enquanto se pede sacrifício, paciência e tolerância para toda população, os senhores deputados, descaradamente, se autoconcedem mais de 50% de aumento nos vencimentos.
Dizem as notícias que a remuneração dos congressistas passará dos atuais mais de R$ 8 mil para bem mais de R$ 12 mil, o que já é uma agressão e afronta ao que ganha a absoluta maioria dos brasileiros.
Legislando em causa própria,
é assombrosa a eficiência
dos nossos parlamentares
Mas, infelizmente, os números não revelam toda a verdade. Os deputados ganham, além da remuneração, que reputam insuficiente, de mais de R$ 8 mil mensais, o auxílio-moradia, que vai a mais de R$ 3 mil, com o que seus ganhos já estão na casa dos R$ 11 mil antes de qualquer modificação. O auxílio-moradia merece uma reflexão: cada deputado e senador recebia do Congresso Nacional um apartamento funcional, bastante confortável, para lá residir durante o mandato. Porque normalmente não moram em Brasília e para lá não levam a família, ali permaneciam nos poucos dias da semana em que se dedicam ao sacrifício de representar o povo, normalmente de terça a quinta-feira.
Porque o número de apartamentos disponíveis não era suficiente para todos os congressistas, ficou estabelecido que seria pago um auxílio-moradia para aqueles que não conseguissem obter um apartamento funcional destinado aos parlamentares, com cuja importância pagariam o aluguel de um apartamento ou despesas de hotel.
Feitas as contas, e considerando que passam duas a três noites por semana em Brasília, seria mais vantajoso receber o auxílio-moradia integral e ocupar um quarto de hotel ou flat, normalmente de cerca de R$ 100 por dia, resultando daí expressiva "economia" para seus bolsos. Há casos até de dois ou mais congressistas dividirem um flat, reduzindo assim a despesa.
Agora, demonstrando uma agilidade incomum, em sessão-relâmpago, quase em silêncio, aprovam sem ressalva o aumento de sua remuneração, enquanto assim não se comportam quando se trata de fixar o salário mínimo ou a remuneração dos funcionários públicos.
Legislando em causa própria, é assombrosa a eficiência dos nossos parlamentares, que nada disseram sobre o tema quando, em campanha eleitoral, buscavam o nosso voto e se diziam dispostos a fazer qualquer sacrifício pelo povo.
Parece que o "cargo de sacrifício" com que os deputados retratam o mandato nada tem de doloroso. Ao contrário, é sedutor e bem-remunerado, tanto que ninguém quer deixar de exercê-lo.
São tantos os ministros e secretários do governo de Luiz Inácio Lula da Silva que será necessário estabelecer, logo de início, um roteiro para evitar colisões. Onde termina o trabalho de José Graziano, ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome, e onde começa o de Benedita da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social? Sob o guarda-chuva do ministério de Graziano está o programa Fome Zero.
Não ficou claro o que sobra para Benedita, ela que teria uma secretaria, exigiu um ministério e acabou ganhando o título. Benedita intuiu que esse negócio de "secretário com status de ministro" não é muito convicente e tratou de assegurar a nomenclatura. Como evitar, por exemplo, o conflito de competências entre o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, o secretário-geral da República, Luiz Dulci, e o secretário de Desenvolvimento Econômico e Social, Tarso Genro? Na entrevista que deu no Dia de Natal, Tarso assegurou que não há risco de choque entre as suas atribuições e as do ministro José Dirceu.
Como ele coordenará o debate com a chamada "sociedade civil" sobre as reformas, no âmbito do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, fica a dúvida: não há risco de sobreposição de tarefas nas negociações com o Congresso? Ou o ex-prefeito de Porto Alegre fará a articulação no conselho e passará o bastão para Dirceu, com todos os riscos de ruído como na brincadeira do telefone sem fio? E o superministério do governador Olívio Dutra, com um orçamento de R$ 9 bilhões? Como reagirão os ministros que tiverem suas pastas desidratadas em favor do Ministério das Cidades? Qual é o sentido de um Ministério dos Transportes, por exemplo, impedido de tratar de transporte urbano?
O próprio Ministério da Integração Nacional corre o risco de ficar ainda mais esvaziado se as questões mais importantes para as cidades ficar com a pasta específica. A não ser pela confiança irrestrita do presidente Lula no governador Olívio Dutra, qual é a justificativa para transferir o Departamento Nacional de Trânsito para o Ministério das Cidades? E a Caixa Econômica Federal, a quem ficará vinculada? Que papel terá no futuro governo? Essas perguntas certamente serão respondidas antes da posse, mas enquanto não forem fica o temor de que a criação de novas estruturas signifique maior inchaço da máquina pública e algumas trombadas entre os ministros.
rosane.oliveira@zerohora.com.br
Por ter sido curtido na pobreza e nas dificuldades gigantescas que uma pessoa pobre e sem cultura tem para vencer na selva da vida, recolheu dessa sua dura experiência um senso de compreensão, tolerância e compaixão que não é encontrado nos que foram melhor aquinhoados na existência. Tem razão o nosso nobre Paulo San'Ana, sobre o Presidente Lula
Não só o caso dos dois ministros gaúchos, Olívio e Rossetto, que comporão um trio conterrâneo com Dilva Rousseff, como também os dois secretários com status de ministros, Tarso Genro e Emília Fernandes.
Mas maior magnanimidade ainda não é a que se reserva aos membros do PT gaúcho, marcada pelo sentimento de gratidão e companheirismo: o desenvolto altruísmo de Lula se manifesta como um claro traço de bom caráter e desprendimento ao conceder ao seu adversário de primeiro turno Ciro Gomes o Ministério da Integração Nacional.
Ciro não só foi derrotado na campanha presidencial como foi derrotado pelo próprio Lula.
Ciro Gomes se referia a Lula durante a campanha como "inexperiente e vinculado a um partido que não tem projeto para o país".
É espantoso que agora Ciro Gomes se atrele ao projeto do PT como ministro, o que mostra que a política dá voltas incríveis em curto espaço de tempo.
E o Ministério de Integração Nacional não é pouca coisa: controla a Adene (Agência do Desenvolvimento do Nordeste), a ADA (Agência do Desenvolvimento da Amazônia), Dnocs (Departamento Nacional de Obras contra as Secas) e Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales dos rios São Francisco e Parnaíba).
Entre tantos positivos exotismos, como o de nomear um banqueiro tucano para a presidência do Banco Central, o governo de Lula será marcado por este fato que julgo inédito na República (é possível que a memória e o conhecimento me traiam): nomear como ministro um candidato que derrotou na eleição presidencial.
Esta prodigalidade de Lula, característica dos seres superiores, certamente guarda um nexo com a origem humilde do presidente eleito: um homem que, depois de ter sido favelado em Santos, chega à suprema magistratura da nação, por ter sido curtido na pobreza e nas dificuldades gigantescas que uma pessoa pobre e sem cultura tem para vencer na selva da vida, recolheu dessa sua dura experiência um senso de compreensão, tolerância e compaixão que não é encontrado nos que foram melhor aquinhoados na existência.
Só posso atribuir a esses dotes de caráter de Lula que nada menos que 10 integrantes do seu ministério e secretarias com status de ministério tenham sido derrotados nas últimas eleições: Ciro Gomes, na Presidência da República, Jaques Wagner, no governo da Bahia, Humberto Costa, no governo de Pernambuco, Benedita da Silva, no governo do Rio de Janeiro, Tarso Genro, no governo do Rio Grande do Sul, Nilmário Miranda, no governo de Minas Gerais, José Fritsch, no governo de Santa Catarina, Miguel Rossetto, no vice-governo do Rio Grande do Sul, Waldir Pires e Emília Fernandes, no Senado.
Não há nada pior e mais amassante para um político que uma derrota eleitoral.
Lula soube compreender esse drama com uma sensibilidade e grandeza estupendas. Imaginem como devem se sentir os derrotados agora escolhidos ministros: é uma recuperação extraordinária, uma ressurreição em vida, quando os exemplos comuns são designar-se para os derrotados o desprezo e o esquecimento.
De bom caráter estamos excelentemente bem supridos na nova Presidência.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
O número de gaúchos no time do Lula tem lógica. Ou várias lógicas, a escolher. A lógica da retribuição: é um prêmio a um Estado que sempre votou no Lula, cuja capital foi a primeira grande cidade brasileira a ter um prefeito do PT (e não se arrependeu, tanto que já está na quarta administração petista) e teve um governo do PT sabotado mas bem-sucedido, pelo menos na avaliação do próprio partido. A lógica sentimental: é um consolo pela derrota do PT gaúcho nas eleições estaduais. A lógica ilógica: é apenas coincidência. E a lógica prática: a experiência do PT no Rio Grande do Sul teve, como subproduto, a formação de um bom quadro humano escolado em governar com atrito, e este talento para sobreviver num ambiente hostil não poderia ser desperdiçado. Pois se o Rio Grande do Sul foi campo de prova para alguma coisa aproveitável no governo Lula, foi a capacidade do PT de conviver com inimigos e aliados. Neste caso os equívocos são tão valiosos quanto os acertos.
Nas lições que tirar da experiência do PT no Rio Grande do Sul, Lula precisa dar um desconto para as esquisitices gaúchas. O fato, por exemplo, de termos duas tradições paralelas, a da maturidade política superior à média nacional, o que garante uma coabitação mais ou menos civilizada de opostos, e a síndrome do Gre-Nal, historicamente anterior à invenção do futebol, que não nos permite a superação das divisões radicais. Assim, Olívio Dutra teve menos problemas com a maioria oposicionista na Assembléia do que teve com ex-aliados ressentidos, que determinaram a derrota do PT na sua sucessão depois de ajudarem a elegê-lo. Fora isso, Lula pode contar com um ambiente nacional parecido com o que Olívio encontrou no Estado. Um núcleo conservador ideologicamente do contra e com meios para sustentar uma reação sistemática e nem sempre leal, uma imprensa não exatamente simpática, uma herança econômica imobilizadora e aliados incertos. Olívio deu certo na medida em que chegou ao fim do seu mandato com prestígio ministeriável, não deu certo, ou não é um exemplo aproveitável, na medida em que o PT perdeu a eleição justamente por erros de convivência. Um dos maiores problemas que Lula terá que enfrentar com a sua base de apoio é a fatal predisposição da esquerda brasileira para o suicídio.
Com tanta falta de dinheiro e com tantas restrições para abrir contas a questão é como que as pessoas depositam e depois esquecem desse dinheiro todo. Sim porque morrer é natural e faz parte da vida, mas e os recibos dos depósitos realizados, tudo isso é muito estranho. Enfim, vai agora ter um fim mais digno do que simplesmente ficar para os bancos e o novo Ministro da Refroma Agrária deverá estar precisando de grana.
Governo embolsará R$ 348,3 milhões de contas abandonadas Edna Simão Da Sucursal de Brasília
BRASÍLIA - O Tesouro Nacional tem R$ 348,381 milhões depositados em 1,405 milhão de contas bancárias inativas ou que não foram recadastradas. Os donos dessas contas têm até o fim deste mês para regularizar a situação, caso contrário o dinheiro ficará nas mãos do governo. Este ano, já foram devolvidos R$ 112,413 milhões de 123.185 contas.
Para retirar o dinheiro, os titulares que não fizeram o recadastramento até 31 de dezembro de 1994 deverão procurar o banco em que mantinham a conta e apresentar a documentação solicitada. O procedimento deve ser feito na agência original da conta.
No site da autoridade monetária www.bcb.gov.br, o titular pode consultar a relação de contas não cadastradas, organizada apenas pelo nome da instituição, número da agência e da conta bancária. Não é possível, no entanto, fazer pesquisa somente pelo nome e número do Cadastro de Pessoa Física (CPF) do correntista. Se o banco não estiver mais funcionando ou se tiver sido comprado por outra instituição, o correntista deverá entrar em contato com o BC.
O dinheiro das contas inativas que não for sacado será destinado ao Programa Nacional de Reforma Agrária e a outros programas de natureza social (60%) e ao Fundo de Garantia para Promoção da Competitividade (40%).
Dúvidas podem ser esclarecidas no BC pelo serviço de atendimento ao público (tel. 0800-992345).
[26/DEZ/2002]
Os bancos estatais estão emprestando menos dinheiro do que as instituições financeiras privadas e aplicando mais em títulos do governo. Levantamento da ABM Consulting mostra que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal têm sido fundamentais para o financiamento da dívida pública, mas não colaboram para aumentar a oferta de crédito no mercado interno - um dos motivos para a alta do dólar, este ano.
Pior: muitas vezes, os bancos estatais compram papéis considerados de baixa qualidade pelo mercado, por apresentar menor rentabilidade, numa clara estratégia de apoiar a rolagem da dívida pública. Por outro lado, esta política acaba comprometendo a rentabilidade das instituições e, conseqüentemente, reduzindo a atratividade de suas ações em bolsa. Tal fato, segundo o economista Fernando Coelho, da ABM, também contribuiu para o cancelamento da oferta pública de ações do BB, há duas semanas - a operação foi suspensa devido à fraca demanda dos investidores institucionais.
Nos últimos meses, a alta aversão ao risco dos investidores estrangeiros reduziu a oferta de crédito internacional aos países emergentes. Com dificuldades de obter demanda para as emissões de títulos públicos, e assim financiar o déficit em transações correntes, o governo tem recorrido a empréstimos dos bancos públicos federais. Com isso, tais instituições acabam adquirindo os papéis de menor taxa de retorno, que o governo não consegue vender aos bancos privados.
Um exemplo de como práticas gerenciais estatais podem prejudicar uma instituição financeira federal pode ser comprovada por outro estudo, da ARX Capital Management. O levantamento compara o rendimento das ações do Banco do Brasil com o de bancos privados - Bradesco e Itaú - listados na Bolsa de Valores de São Paulo. Segundo o estudo, quem aplicou US$ 1 mil em ações ordinárias (com direito a voto) do BB, em 1986, tem hoje apenas US$ 99,8. Ou seja, perdeu dinheiro.
Já quem optou por comprar papéis preferenciais (sem direito a voto) do Bradesco, aplicando os mesmos US$ 1 mil, tem hoje US$ 3 mil. As ações preferenciais do Itaú deixaram os aplicadores ainda mais felizes, ao multiplicar os mesmos US$ 1 mil em US$ 13,5 mil. O prejuízo dos investidores, supondo que eles optaram por deixar os recursos aplicados nos papéis do BB, foi resultado de uma série de fatores, mas principalmente dos aumentos de capital promovidos pelo governo federal para cobrir rombos nas contas da instituição.
Quem hipoteticamente deixou as aplicações em papéis do BB, e quis manter a mesma participação, teve que acompanhar o governo no aumento de capital. Daí o prejuízo, pois além de perder rendimento, o investidor também teve que tirar dinheiro do próprio bolso para manter a posição nos papéis.
Alguns analistas pensam diferente. Em primeiro lugar, de acordo com Fernando Ferreira, sócio-diretor da Global Invest, o fracasso da oferta pública de papéis do BB também deve ser atribuído a outros fatores, como as perspectivas de mudanças na gestão do banco por conta da sucessão presidencial. Em segundo lugar, enumera o ex-diretor do Banco Central e professor do Ibmec Business School, Carlos Thadeu de Freitas, os bancos públicos naturalmente apresentam menor rentabilidade do que as instituições privadas.
- Os bancos públicos estão naturalmente mais cautelosos por conta do aumento da inadimplência. Por isso eles têm emprestado menos e aproveitado o rendimento proporcionado pelos juros altos às aplicações em títulos do governo, mesmo os de menor rentabilidade - justifica Freitas.
O problema, segundo o ex-diretor do BC, reside não só na superposição de atividades de instituições como a Caixa e o BB, mas também na orientação de mercado dada nos últimos anos pelo governo. O papel dos bancos públicos, diz Thadeu de Freitas, é operar em áreas pouco atrativas de crédito, como financiamento agrícola e habitacional. [26/DEZ/2002]
Em bênção de Natal, João Paulo II pediu paz e lembrou conflito no Oriente Médio
CIDADE DO VATICANO - Diante dos olhares atentos de 20 mil fiéis do mundo inteiro, o papa João Paulo II lançou ontem, durante sua bênção de Natal, um apelo para que ''o mundo não ceda à desconfiança, apesar do terrorismo''. Durante a celebração do 25º Natal de seu papado, realizada na Praça de São Pedro, no Vaticano, o papa disse que o nascimento de Jesus continuava a ser uma mensagem de esperança em tempos de guerra, opressão e sofrimento. João Paulo II falou pela primeira vez publicamente sobre o Iraque - sem citar o nome do país - ao declarar que o Vaticano condena ''toda guerra preventiva''.
O pontífice afirmou ainda que os fiéis de todas as religiões estão convocados a abrir os olhos sobre ''o sinistro conflito que atinge o Oriente Médio, mas que com o compromisso de todos pode ser evitado''.
- O Natal é o mistério da paz. Da gruta de Belém se eleva a mensagem para que o mundo não ceda à desconfiança, à suspeita e ao receio, ''mesmo se o trágico fenômeno do terrorismo aumenta as incertezas e os medos''.
O papa ainda estendeu sua mensagem à América Latina, África e outras regiões afetadas por crises políticas, econômicas e sociais.
A bênção Urbi et Orbi (à cidade de Roma e a todo o mundo) foi celebrada em mais de 60 idiomas. Este ano, por causa das obras na loja maçônica central da Basílica de São Pedro, o pontífice leu a mensagem do átrio da praça e não do balcão central do templo, como de costume.
João Paulo II, de 82 anos, parecia menos cansado do que na Missa do Galo, celebrada na noite de terça-feira na Basílica de São Pedro, em Roma.
- A noite de Natal se converte assim na escola de fé e da vida - ressaltou o papa, iniciando suas palavras sobre o significado da mais importante comemoração da Igreja Católica.
- Passam os séculos e os milênios mas fica esse sinal. É sinal de esperança para toda a família humana, de paz para os que sofrem por todo tipo de conflito, de libertação para os pobres e oprimidos e sinal de misericórdia para os que se encontram no círculo vicioso do pecado - afirmou o Papa durante a homilia.
Ornamentada para a noite especial, a Basílica de São Pedro exibia seus melhores enfeites, com uma iluminação que deixava à mostra suas obras de arte. O papa disse que Deus respondeu ao clamor de seu povo e se fez homem e que em todo o universo, nas catedrais, nas basílicas e nas menores igrejas disseminadas do mundo se eleva com emoção o canto cristão de ''Hoje nasceu o Salvador''.
A missa, que foi transmitida a 47 países dos cinco continentes, começou com uma homenagem floral diante de uma imagem do Menino Jesus, realizada por 12 crianças de diferentes nacionalidades. A missa foi co-celebrada por 50 cardeais e bispos e as leituras foram feitas em espanhol, português, inglês, italiano, francês, alemão, polonês, árabe e indonésio.
[26/DEZ/2002]
O que espera-se de todos é que trabalhem pelo Brasil, independentemente das cores partidárias, que não fiquem engalfinhando-se e priorizando Estados ou Municípios que tenham as suas cores, mas efetivamente aqueles que precisam dos recursos a serem disponiblizados.
Inimigos aqui, aliados em Brasília. É curiosa a situação dos principais adversários do PT no Rio Grande do Sul. O PPS de Antônio Britto, Cézar Busatto e Berfran Rosado está representado no governo de Luiz Inácio Lula da Silva por seu principal líder, Ciro Gomes, futuro ministro da Integração Nacional. Ao ser anunciado ministro, Ciro fez um discurso revelador de seu ânimo em relação ao presidente eleito: - Penso que não era possível recusar uma convocação para ajudar. A idéia que o presidente estabeleceu para mim é de que precisamos fazer um esforço de retomada de desenvolvimento do país e buscar que esse desenvolvimento se faça de forma a dar oportunidade às maiorias que estão excluídas.
Mesmo que hoje Lula tenha admiradores até no PPS gaúcho por ter ultrapassado as barreiras do PT na formação do ministério, as diferenças no Estado são inconciliáveis. Ciro, quando vier ao Rio Grande do Sul, será recebido como um ministro de Lula. A despeito do desconforto, PT e PPS terão que conviver com essa realidade.
Não é diferente o caso do PDT dos deputados Vieira da Cunha e dos secretários Kalil Sehbe e José Fortunati, este um ex-companheiro de Lula. Com Miro Teixeira nas Comunicações, o PDT estará no poder. Bem que o ex-governador Leonel Brizola resistiu à indicação, mas foi o último a conversar com Lula antes do anúncio do ministério. Na platéia VIP do hotel Blue Tree Towers, foi saudado pelo presidente eleito como um aliado de primeira hora.
Também o PTB de Sérgio Zambiasi está no poder com Lula, representado pelo ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, indicado com a bênção do presidente do partido, José Carlos Martinez. Mais complicado para os adversários do PT só se for concretizada a fusão do PTB com o PPB, alinhavada em Brasília. Só de pensar na possibilidade de participar do governo Lula, alguns membros do PPB de Celso Bernardi têm urticária. O PMDB gaúcho escapou por pouco da esdrúxula situação de estar ligado ao governo de Lula e, ao mesmo tempo, enfrentar a oposição do PT no Estado. Essas alianças tendem a se tornar mais incômodas em 2004, com a eleição municipal. A corrida à sucessão dos prefeitos já começou, e os aliados de hoje estarão em lados opostos nos palanques de 2004. Vale para Lula e a sua diversidade ministerial e para Germano Rigotto, que começará o governo com a maior base já reunida por um governador do Rio Grande do Sul desde o início da redemocratização.
rosane.oliveira@zerohora.com.br
Eis que agora, aquela rotunda derrota assume um gosto de vitória.. É verdade e me faz lembrar aquele vélho provérbio e ainda tão real: "Não chores por teres perdido o sol, pois as lágrimas te impedirão de ver as estrelas." Nossa! e quantas estrelas...
Quando foram anunciados os resultados da eleição para governador em 27 de outubro, que sagrou Germano Rigotto como novo ocupante do Piratini, a impressão dominante no Rio Grande é de que os petistas gaúchos tiveram uma acachapante derrota.
A tentativa de imitar o acontecido em Porto Alegre, onde o PT detém a prefeitura há 14 anos, com mais dois anos garantidos de mandato, projetada para o governo estadual, sofrera um doloroso revés, com Tarso Genro sendo derrotado, depois de ter tirado de Olívio Dutra, nas prévias, a chance de reeleição.
Baixou sobre o PT gaúcho um clima de réquiem.
Eis que agora, aquela rotunda derrota assume um gosto de vitória: Olívio Dutra, que teve seu governo desaprovado pelas urnas, assume na semana que vem o Ministério das Cidades.
Seu vice-governador, Miguel Rossetto, derrotado também nas urnas, assume agora o Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Dilma Rousseff, secretária de Energia do governo Olívio, surpreendentemente, embora merecidamente, é elevada à condição de ministra das Minas e Energia, uma das mais importantes pastas do governo federal.
Só aí já são três os ministérios ocupados por gaúchos, o que causou protestos até mesmo entre petistas.
Mas tem mais: outros dois derrotados nas urnas gaúchas das últimas eleições, o candidato a governador Tarso Genro e a candidata a senador Emília Fernandes assumirão secretarias com status de ministério: Desenvolvimento Econômico e Social e Direitos da Mulher.
Nunca se viram tantos derrotados, cinco, logo após o desfecho do pleito, cobertos de tantas distinções.
Seria lícito adivinhar até que, caso fosse proposto a muitos deles que escolhessem entre os cargos que estão assumindo agora e os que deixaram de assumir em razão da derrota eleitoral, fossem escolher por essas missões que lhes são confiadas hoje.
Nunca uma derrota rendeu tantos dividendos políticos.
É impressionante o prestígio que o presidente eleito está dando ao PT do Rio Grande do Sul.
Nunca em toda a história da República o Rio Grande do Sul teve assim tantos ministérios, nem quando os gaúchos Getúlio Vargas, João Goulart, Costa e Silva, Garrastazu Médici e Ernesto Geisel foram presidentes.
O número de assessores do governo estadual que vão perder seus cargos a partir de 1º de janeiro, mas que já se preparam para viajar para Brasília na semana que vem, assumindo seus novos postos, somados aos que serão nomeados para as repartições públicas federais sediadas aqui no Estado, chega à ordem de duas centenas.
Há um clima de verdadeira euforia entre os simpatizantes do PT no Rio Grande do Sul, em face do prestigiamento que a sigla estadual teve junto ao presidente Lula da Silva.
Tem a ver com tudo isso a votação maciça que Lula sempre teve no Rio Grande do Sul nas quatro últimas eleições presidenciais, mesmo nas três vezes em que foi derrotado.
Como também à qualidade do PT gaúcho, que tem nos seus quadros personagens de destaque do PT nacional.
O limão azedo da derrota na eleição estadual transforma-se agora em gostosa limonada.
Nunca se tinha visto em toda a história da política gaúcha um episódio de cura e restabelecimento tão rápidos de pacientes como este verificado no Centro de Tratamento Intensivo do Lula em Brasília.
E um ou dois dos pacientes levavam jeito de terminais.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
Tem razão o Paulo Sant'Ana, parceiro antigo neste ofício de garimpar fatos reais com potencial para serem transformados em crônicas. Noite dessas ele sentou-se ao meu lado na Redação e sentenciou:
- A vida está lá fora. Temos que sair mais para buscar a matéria-prima dos nossos escritos.
Pois saí. Conheci na véspera do Natal uma casa de cegos idosos que funciona na zona norte da Capital. É um lugar iluminado, em todos os sentidos. Construída e mantida pela solidariedade de colaboradores, voluntários e familiares dos deficientes visuais, oferece tratamento adequado e carinho a pessoas que chegaram ao outono da vida pelo misterioso expresso das sombras. Apesar das crueldades perpetradas pela diabetes, não é um lugar triste. Pelo contrário: os velhinhos e velhinhas recebem atenção permanente, participam de atividades físicas e recreativas ajustadas às suas deficiências, alimentam-se num amplo e limpo refeitório, rezam numa capela ecumênica, pintam quadros com os dedos, ouvem música e até dançam de vez em quando.
Durante o breve período da minha visita, presenciei uma cena curiosa. Num canto do salão coletivo onde os idosos se reúnem todos os dias, um casal conversava baixinho - ela, uma senhora de evidentes feições germânicas; ele, um homem negro de aspecto bonachão. Percebia-se cumplicidade e identidade naquelas vozes suaves que compartilhavam lembranças. Visitante enxerido, aproximei-me, interrompi o diálogo e me apresentei. A dama calou-se, recatada, mas o cavalheiro passou instantaneamente do cumprimento formal à familiaridade:
- Prazer, sou João, baiano, marinheiro, viúvo, já viajei por todo o mundo, estive até nos Estados Unidos. Sou cantor e compositor, gosto muito de música. Se morrer amanhã morro feliz, pois já fiz tudo o que queria.
E seguiu contando sua vida, na intuição de que estava diante de um ouvinte inédito de histórias tantas vezes repetidas. Falava com pressa e entusiasmo. Interrompeu-se apenas uma vez para referir-se à companheira de confidências, que permanecia sentada e silenciosa:
- É a minha futura esposa - disse, como se quisesse surpreender o visitante e a própria amiga com a declaração amorosa tardia e pouco convincente.
De vez em quando me perguntava, inquieto:
- O senhor volta amanhã?
Ao sair, ainda ouvi sua voz, perguntando ao administrador da casa se já havia conseguido o radinho que ele pedira.Voltei no outro dia, logicamente. Espero que ele esteja gostando de ouvir o Paulo Sant'Ana no seu radinho novo.
nilson.souza@zerohora.com.br
Entre ministros semafóricos, escolhidos para sinalizar o mercado, e ministros profiláticos, escolhidos para acalmar a esquerda revoltada com os semafóricos, até que nos saiu um bom gabinete. Algumas escolhas quase inevitáveis, como a do Cristovam Buarque para a Educação. Nunca, que eu saiba, houve tantos negros e tantas mulheres nos primeiros escalões de um governo brasileiro, o que já é uma grande novidade. Cara do Brasil, com algum botox discutível, mas deixa pra lá, este governo tem. Como nenhum outro.
O assunto já está velho mas ainda vale um toque. Não concordo que pegou mal o Lula visitando o Bush com a estrela do PT na lapela, enquanto o Dobliú usava a bandeira americana. Bush representava uma nação enquanto Lula representava uma facção? Lula teve sorte de encontrar o Bush em casa. Se tivesse chegado alguns dias antes, Bush estaria em campanha eleitoral, usando o avião presidencial para cruzar o país e mandar os americanos votarem em candidatos do Partido Republicano nas recentes eleições para governador e congressistas. Isto é comum nos Estados Unidos, onde se espera que os presidentes tenham seus candidatos e participem aberta, ativa e facciosamente das suas campanhas, e a bandeira na lapela não impedia Bush de apoiar uma parte da nação contra a outra. Lula usou a estrela do PT porque ainda não era representante oficial de uma nação e um pouco, acho eu, no espírito com que levará a Marisa para passear pelo Palácio da Alvorada, na primeira noite depois da posse. Não duvido que tenha dito baixinho para a estrela: "Quem diria, hein, minha velha? Nós na Casa Branca..." Ele devia à estrela do PT uma viagem a Washington com tudo a que tinha direito.
Falando em estrelas, estive ouvindo um disco de músicas do Moacyr Luz com vários parceiros, principalmente o Aldir Blanc, e na letra do Aldir para Pra que Pedir Perdão tem esta frase: "Estrela é só um incêndio na solidão". Estrela é só um incêndio na solidão! Depois de uma frase dessas, ou você se mata ou fica maravilhado.
Para uma Legislação que pretende ser pautada pela ética, o nosso grande Joelmir tem razão, e que feio que fica para os nossos representantes, todavia será que eles se preocupam se fica feio ou bonito? Por dever de ofício, desfrutam de toda uma baciada de mordomias próximas e remotas. Entre outras, o auxílio-moradia, o auxílio-aerovia, o auxílio-hotelaria, o auxílio-burocracia, o auxílio-assessoria, o auxílio-isonomia...e por aí vai. Lembram o que disse certa vez nosso saudoso Rui Barbosa, que sentia vergonha de ser honesto...Pois é...
Legislar abusos ostensivos sob a carapaça de peroba de direitos adquiridos constitui um atentado à democracia. Ou pior: uma agressão à cidadania. E legislar abusos em causa própria, em plena véspera de Natal, aí a coisa aderna para um delito moral digno de um Papai Noel sem-vergonha.
Nada contra o reajuste salarial dos abnegados deputados federais. São patriotas que colocam os interesses da Nação acima dos negócios particulares ou corporativos. Eles se dedicam com exemplar denodo aos tratos da coisa pública. Uma profissão feita de privação e renúncia.
O problema é que os deputados federais, do PL ao PT, passando por uma dezena de bancadas de maior ou menor peso, acabam de se autopresentear com um reajuste de quase 60%. Claro, antes da acurada partilha, ensaiaram um aumento de quase 100%. Jogaram com o bode russo e, contentando-se com quase 60% em vez de quase 100%, deixaram a opinião pública aliviada. Ou indiferente.
O reajuste da própria lavra (ou larva) é de R$ 8.240 mensais para R$ 12.720. Antes, pretendia-se uma tungada para exatos R$ 17.100, em nome da "equiparação aos vencimentos" dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), igualmente chegados ao exercício das canetadas em causa própria. A Previdência que o diga!
Os abnegados representantes do povo têm direito ao 13.º, ao 14.º e ao 15.º salários. Eles ganham 15 salários e trabalham 9 meses - sem contar o feriadão a cada semana de batente. Ah! Nem pensam em abrir mão dos adicionais de chegada e de despedida de cada legislatura.
Por dever de ofício, desfrutam de toda uma baciada de mordomias próximas e remotas. Entre outras, o auxílio-moradia, o auxílio-aerovia, o auxílio-hotelaria, o auxílio-burocracia, o auxílio-assessoria, o auxílio-isonomia...
Isonomia! Aí é que mora o conde Drácula. A isonomia nunca se dá por baixo. O nivelamento é invariavelmente por cima. Como não dá para rebaixar o arrimo dos federais, que se eleve o ganha-pão dos estaduais e até dos municipais - os ativos e os inativos. Rápida no gatilho, a Assembléia Legislativa de São Paulo já cuidou do assunto.
No domingo, 15, os estóicos deputados paulistas compareceram a uma sessão extraordinária remunerada - caprichosamente marcada (ou escondida) para as 17 horas daquele dia santificado. Sessão instalada no pontapé inicial do clássico Santos 3 vs. Corinthians 2, decisão do campeonato brasileiro pelo telão em plenário.
Na pauta, auxílio-moradia do mesmo valor arbitrado pelos federais para todos os 94 estaduais. Incluídos nesse auxílio-moradia também os 51 deputados que residem na Grande São Paulo. Alguns dos quais, a menos de 10 minutos da Assembléia Legislativa. A pé.
A matéria foi votada por consenso, em menos de 10 minutos, no intervalo do jogo. Deu tempo de se ir ao banheiro, que nenhum torcedor é de ferro.
SECOS & MOLHADOS
Jeitinho - Sim, ainda não há orçamento federal garantido para o reajuste de 20% do salário mínimo a partir de 1.º de abril, data apropriada. Mas dá-se um jeito, já em 17 de fevereiro (ao fim e ao cabo do recesso parlamentar mais prolongado do mundo), para cacifar os quase 60% de aumento dos autolegisladores.
Come-quieto - Também na semana passada, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) cuidaram de decretar "decisão administrativa" que isenta do Imposto de Renda e da Previdência (privilegiada) o reajuste salarial retroativo a 1998. Reajuste retroativo aprovado pelo Congresso a pedido do próprio Supremo.
Sem reajuste - Bem, não se trata de um reajuste retroativo, firmaram os magistrados. E, sim, de uma "indenização" funcional. Portanto, isenta do Imposto de Renda e da Previdência. Decisão que salvou perto de 30% do valor total desse holerite distraído.
Sempre soubemos ler os códigos da natureza e os caminhos das estrelas, e vimos, tal como tantos, nascer no coração do Brasil uma nova estrela: a estrela da esperança. Uma estrela pintada de vermelho, mas que se torna verde, negra e até cor-de-rosa.
Como povos indígenas, nascidos nas terras do Brasil e donos naturais de diversos ecossistemas, mas com uma densidade eleitoral ínfima diante dos 200 milhões de brasileiros, sabemos da importância histórica que vive nosso país.
Ao longo do tempo aprendemos a conhecer o sistema dos governos do homem branco e a classe política. Nos processos eleitorais, corrompem. Os compromissos são apenas meias verdades. Por isso nos enganaram e nos silenciaram por mais de 500 anos, inclusive em nome da proteção e dos direitos humanos.
Agora, quando sentimos a chegada de um novo tempo, queremos participar das alegrias e das euforias, mas também das responsabilidades que teremos. Como eleitores dessa nova estrela e junto com os demais brasileiros que assim fizeram, tornarmo-nos co-responsáveis e guardiões das ações do novo governo e da implementação de programas que façam com que os ricos continuem ricos, mas sem empobrecer a maioria da nossa população.
Um novo tempo chegou. Tempo de chorar a alegria de quem buscou o caminho da esperança.
Tempo de levar comida a quem não tem o que comer. Tempo de levar casa para famílias que nunca tiveram onde dormir e onde viver. Tempo de produzir um novo brilho no olhar das crianças que perambulam noite e dia, muitas vezes com ódio das pessoas e da própria vida. Tempo de demonstrar a toda civilização internacional, tecnológica e moderna e seus assédios anti-ecológicos e anti-sociais, a potência que é o nosso Brasil, com águas doces, salgadas, biodiversidades, recursos minerais estratégicos e a força da nossa gente. Tempo de dignificar a identidade e a auto-estima dos diversos setores culturais e ecológicos das sociedades que formam esta terra nascida sobre os corpos de nossos antepassados.
Tempo de falar do grande amor pela terra que devemos ter. Terra como território, mas também como fonte de vida.
Como povos indígenas, mais do que um tratamento diferenciado que esconde uma sutil discriminação, queremos respeito e dignidade. Terra demarcada. Respeito aos nossos ancestrais e aos valores culturais, espirituais e medicinais. Direito de sermos gente, onde a riqueza não seja material e onde saúde não seja uma penicilina, mas fator de qualidade de vida.
Como povos indígenas queremos estabelecer um diálogo sincero e honesto com o novo governo do homem branco. Um diálogo que não nos trate como menores, incapazes ou selvagens, mas como primeiras nações e que buscam apenas o resgate de uma dívida histórica: a vida.
Lula-lá cantamos um dia sem medo de ser feliz, e assim, estamos fazendo parte de uma nova página na história do Brasil, graças aos aliados que nos mostraram os caminhos da liberdade, mas que não puderam como nós pisar nesse novo tempo: Cunhambebe, Betinho, Kretan, Carlito Maia, Antônio Callado, Marçal, Severo Gomes, Hibes Menino, Darcy Ribeiro, Mário Juruna, Barbosa Lima Sobrinho, Joãos, Josés e tantas Marias.
Se a esperança existe, a sabedoria indígena ensina que é tempo de lutar. Fazer acontecer nossos sonhos não depende de governos e sim de nós mesmos.
Como povos indígenas sempre respeitamos os códigos do homem branco, inclusive os erros, para que os mesmos jamais possam se repetir.
A esperança indígena começa na concretização de um diálogo novo, a começar pelo novo conceito de ver e tratar nossos povos através de uma política indigenista oficial porém distinta diante da nossa forma de ser, onde a diferença seja um direito e não uma justificativa para o surgimento de intermediários. Para isso aceitamos inclusive o desafio de educar o homem branco fazendo valer nosso direito de viver, mas viver bem!
Marcos Terena, índio do Pantanal, é criador da União das Nações Indígenas.
[25/DEZ/2002]
Posted
8:22 PM
by Cassiano Leonel Drum
A Lagoa Rodrigo de Freitas iluminada pela árvore gigante
O dia de Natal sempre foi a grande festa de minha família. Meu pai não dava grande importância à ceia. Mas o almoço do 25 de dezembro era sagrado. Nenhum filho podia faltar e o mandamento valia também para genros, noras e netos. A ausência era recebida como ofensa e demorava muito a ser perdoada.
Não sei de onde o velho Álvaro herdou a mania natalina. Talvez dos tempos de menino em Teresina. Os nordestinos são generosos e recebem com fartura. Gostam da boa mesa e meu avô Odylo saiu à sua gente. Conta-se que mal terminava o almoço, perguntava a dona Aurora o que seria servido no jantar. Conhecido o menu, recolhia-se à sesta.
É isso. A comilança do Natal deve ter raízes no Piauí. Dias antes, minha mãe entrava em ação, dava as ordens na casa e tudo caminhava para o grande almoço. Os trabalhos eram abertos com uísque, salgadinhos, queijos e vinhos. Em meio ao corre-corre das crianças, as empregadas começavam a pôr a mesa. Saladas, camarões, presunto, pernil e o famoso peru. Depois, várias sobremesas, com lugar obrigatório para os sorvetes de frutas do Nordeste. Quando os adultos relaxavam, chegava a hora da qual minha mãe mais gostava: a troca de presentes. Satisfeito, meu pai subia as escadas e só voltava à noite. Terminara sua festa maior.
Quando vi Fanny e Alexander, fiquei emocionado com a nova maravilha de Bergman. E pensei nos Natais da Tijuca. Quantas histórias para contar. Uma delas me diverte até hoje. Eu tinha 19 anos e recebi a missão de comprar o peru numa granja de Guaratiba. Escolhi um bicho de 12 quilos e pedi que o pusessem no chão do carro, pois seria abatido em casa, depois de embriagado com cachaça.
Era início de verão. Antes de subir o Alto da Boa Vista, parei na Barra para dar um mergulho em frente ao Fetiche. Os amigos estavam por lá. Animei--me, dei alguns mergulhos e fui tomar um chope. Lembrei-me, então, de que o peru estava no carro, debaixo de sol, embrulhado num jornal. Dei um grito: ''O peru!''. Se estivesse morto, eu estaria tão frito quanto ele. Corri, abri a porta e desembrulhei o bicho, quase sem vida. Os amigos encontraram uma borracha e deram um banho salvador na pièce de résistance. O bicho foi salvo, tomou novo banho no quintal da Tijuca e, no dia seguinte, passou pelo fio do facão.
Outra história de Natal. Aos 21 anos, fui convidado por um padre jesuíta espanhol (chamava-se Luís) para participar do Treinamento de Liderança Cristã (TLC), organizado pelo Colégio Santo Inácio. Discuti muito, disse que admirava Che Guevara e a resistência dos vietcongues, mas padre Luís era bom de papo e me convenceu de que Cristo foi revolucionário a seu modo. Passei um fim de semana no Retiro das Pedras, em São Conrado, e tornei-me líder do TLC. No Natal, decidi radicalizar na carolice. Pedi a palavra e disse que o nascimento de Cristo fora desvirtuado. Merecia respeito e introspecção. Minha mãe me abraçou e pediu permissão para manter a tradição festiva. Concordei, sob gargalhadas da família.
Meu pai morreu e dona Rafaela manteve o almoço enquanto a saúde permitiu. A casa da Tijuca foi vendida este ano. Tudo mudou. Mas Cristo continua em meu coração. Feliz Natal!
Natal, não só 25 de dezembro GÉRSON SCHMIDT/ Padre e jornalista
Nossos pensamentos e sentimentos, neste dia de Natal, tornam-se mais sublimes, nobres e profundos. Os ambientes são coloridos de flores e pisca-piscas. Fogos de artifício, dos mais variados, enchem os céus de glória. Tudo canta de alegria! O exterior parece traduzir uma linguagem interna de bons desejos. Os profetas, porém, alertam: "Talvez seja no Natal que nossas carências ficam mais expostas. Damos presentes sem nos dar, recebemos sem acolher, brindamos sem perdoar, abraçamos sem afeto, damos à mercadoria um valor que nem sempre reconhecemos nas pessoas" (Frei Betto, Folha de São Paulo, 24/12/97).
É preciso celebrar hoje não apenas 25 de dezembro, mas o Natal do Senhor. Por isso, não tem sentido colocar o presépio no local de convívio, se não há um ambiente acolhedor, uma família construída. Terá valor a árvore natalina, ornada de enfeites, luzes e bolinhas, sem o ser humano ser revestido de sua dignidade? Que significado terá o banquete natalino sem preocupação com a campanha do Natal sem Fome para uma justa ceia dos 50 milhões de famintos brasileiros? De que adianta a figura ilustrativa do Papai Noel trazendo brinquedos e alegria aos filhos, se os adultos não trouxerem esperança e educação às crianças e jovens? A estrela de Belém brilha mais quando houver luz nos corações. É difícil ser estrela... Muito mais fácil é ser cometa. É mais simples ser fraterno somente nessa época de sentimentos solidários.
Hoje é Natal não porque os sinos
repicam nas igrejas, mas porque
as vozes e vidas dentro
delas multiplicam bênçãos
Hoje é Natal não porque os sinos repicam nas igrejas, mas porque as vozes e vidas dentro delas multiplicam bênçãos. É noite santa não porque se cantará o tradicional Noite Feliz, mas porque se canta e concretiza a felicidade em cada dia do ano. É Natal não porque um menino nasceu há 2 mil anos, mas porque Ele renasce hoje onde o amor for vivido e celebrado. Hoje é Natal não porque Deus se faz novamente uma criança, mas porque permanece conosco desde aquele primeiro presépio. É Natal hoje não porque nos emocionamos entoando cantigas natalinas, mas porque ajudamos aqueles que não podem cantar e se alegrar. Se Jesus nascesse em nossa época, para ser adorado, talvez tivesse que nascer num shopping, não numa estrebaria.
Existem presépios feitos com criatividade, dos mais variados materiais: de madeira, de gesso, de pano, de lata, de palha... Neste ano, chamou-me atenção um presépio feito, lá em casa, pela minha mãe. Acontece que o Menino Jesus estava sem braços, que se quebraram de um ano para outro. Para utilizá-lo novamente, com os panos da manjedoura ela cobriu o corpo do menino, ocultando assim seu defeito de não ter os membros superiores. Então me ocorreu dizer o seguinte, na ocasião: "Esse menino está sem braços, porque precisa usar os nossos". Desejamos a todos um Feliz Natal e Ano-Novo cheio de alegrias e bons projetos!
Perdão, Jesus CÂNDIDO NORBERTO/ Jornalista
De acordo com a tradição cristã, o dia 25 de dezembro deve ser considerado a mais festiva de todas as datas. Afinal, foi nela que, há pouco mais de 2 mil anos, nasceu lá longe, numa singela manjedoura, nem mais nem menos do que o Filho de Deus. Em verdade, segundo a mesma tradição, o próprio Deus feito homem.
Ao longo de minha vida tenho feito intimamente reparos à crença de que o nascimento de Cristo seja motivo para comemorações, entre as quais a de se matar perus para enriquecer nossas ceias natalinas e trocar presentes.
Sempre que penso no nascimento de Jesus, no começo de sua peregrinação pela terra, não me liberto da lembrança do que lhe aconteceu dali para diante e como seu desfecho foi tão dramático. A meu juízo, o nascimento do menino nazareno marcou o início de uma das mais penosas existências de que a humanidade tem notícia. E, por mais que me empenhe em contrário, não consigo vislumbrar no princípio de uma história tão penosa, tão trágica, algo que possa ensejar qualquer motivo para festejos. Ao contrário penso. O acontecimento deveria ser lembrado com um silêncio geral, envergonhado, com um ato de contrição universal que pudesse traduzir ao menos em parte nossa reprovação aos crimes que nossos longínquos antepassados cometeram contra aquela sublime figura que legou à humanidade as mais sábias lições, os mais comoventes exemplos e as mais tocantes palavras de amor, de concórdia, de solidariedade, de fraternidade que conhecemos. Etc...
O acontecimento deveria
ser lembrado com um
silêncio geral, envergonhado
É mais ou menos isso o que me ocorreu escrever para hoje, numa tentativa de esconder outros pensamentos e emoções que me assaltam a cada passagem do Natal. E sobre o assunto vou ficando por aqui, embora veja que ainda me restam mais algumas linhas para preencher este espaço, o que me impõe este dilema: o que fazer dele? Pedir perdão a leitores que eventualmente discordem do que disse até aqui ou tentar encontrar e reproduzir um belo trecho de louvor natalino produzido por autor de muito engenho e formosa arte?
Na dúvida, faço uma pausa constrangedora para mim. E o único questionamento que me ocorre no momento é este que me atormenta desde há muito: com quais intenções Deus criou os homens, sabendo de antemão que, depois, na tentativa de tirá-los do mau caminho, teria de enviar seu próprio filho à terra para ser tratado, morto e crucificado como foi?...
O Rio Grande terá expressiva representação no primeiro escalão do governo a empossar-se a 1º de janeiro. Ao anunciar a equipe completa de seus auxiliares diretos, o presidente eleito confirmou os nomes de Olívio Dutra para o Ministério das Cidades e de Miguel Rossetto para o de Desenvolvimento Agrário, enquanto o de Emília Fernandes foi ratificado para a Secretaria dos Direitos da Mulher e o de Tarso Genro para a de Desenvolvimento Econômico e Social. Desde sexta-feira da última semana já se conhecia a futura titular da pasta de Minas e Energia, Dilma Rousseff, que, embora não seja gaúcha, aqui desenvolveu sua destacada carreira na esfera oficial.
Estamos diante de pessoas públicas respeitadas pelo que já lhes foi dado realizar por nosso Estado. O atual governador dos rio-grandenses terá diante de si encargo de envergadura. Trata-se de dar forma a um novo ministério, que cuidará especificamente da questão urbana, que abrange alguns dos maiores problemas nacionais, já a partir da excessiva concentração demográfica nos grandes aglomerados. Não lhe faltam nem experiência nem conhecimento para tanto, hauridos especialmente no período em que foi prefeito de Porto Alegre.
Dilma Rousseff revelou, à frente da secretaria estadual de Energia, Minas e Comunicações, o conhecimento técnico e a capacidade de aglutinação que já demonstrara em outras missões. Devem-lhe os gaúchos, particularmente, a visão e o empenho com que se houve diante de uma crise que abalou fortemente a economia brasileira: a da ameaça de um colapso no sistema energético. Soube ela obter dos consumidores a colaboração eficiente para que o Rio Grande ficasse fora do racionamento que afetou outras regiões. Seu principal papel será o ampliar a geração, para que o país possa responder ao repto da retomada do crescimento.
Dos ministros gaúchos se diz que priorizam o país. Os novos não podem esquecer de nossas causas
A Tarso Genro incumbirá igualmente tarefa de proporções. A secretaria que assumirá será crucial para que se concretize uma das maiores prioridades da administração Lula: a concertação de um grande pacto social, base para a construção de uma nação moderna, na qual à prosperidade econômica corresponda o bem-estar das populações desassistidas. Responsabilidade similar será a da senadora Emília Fernandes, a quem cumprirá antes de tudo resgatar a dignidade da condição feminina, tantas vezes injustiçada. Trabalho da maior relevância aguarda também o vice-governador Miguel Rossetto: o de levar avante uma reforma agrária altamente desejável, mas não raro obstaculizada por grupos sociais, o mais notório dos quais o MST, que tumultuam o processo, a pretexto de apressá-lo. Varrer a violência das invasões, instaurar o diálogo como norma, fazer com que à distribuição de terras corresponda assistência técnica e creditícia adequada são algumas das incumbências que o esperam e para cujo enfrentamento reúne as qualidades necessárias.
Dos ministros gaúchos já se afirmou no passado que costumam dar primazia às questões nacionais, esquecendo-se por vezes de seu Estado. Dos ora anunciados é lícito aguardar que trabalhem pelo Brasil, mas tenham sempre presentes as causas do Rio Grande.
É emocionante que o Natal impregne assim todos os corações de solidariedade em todo o mundo, contagiando até mesmo os povos que não professam a fé cristã. Mas o que mais impressiona depois da passagem de Cristo sobre a Terra é que a sua mensagem de atenção, caridade e amor para com os mais fracos, os mais pobres e os mais oprimidos permaneça luminosa.
Há cada vez mais fracos, há cada vez mais pobres e há cada vez mais oprimidos no mundo, decorridos 2002 anos do advento do Messias.
E o poder romano que dominava o mundo e o dilacerava em guerras está ainda imperante e ameaçador.
E aquela sanha humana pelo sangue, pelo sacrifício, pela guerra, que marcava o tempo de Cristo é terrivelmente permanente e renovada nos tempos em que vivemos.
Depois de Cristo, as atrocidades de Estado, que se manifestavam ao tempo do Nazareno, tanto pela nação romana dominante quanto por seus adversários, os bárbaros ou até mesmo as nações pacíficas que foram conquistadas pelos Césares, acentuaram-se de forma ainda mais assustadora, basta lembrar os terrores nazista e stalinista, que consumiram pela violência mais primitiva e brutal dezenas de milhões de seres humanos.
Por isto é que a Bíblia se reveste de uma eternidade. Se por uma parte a bondade, como por um mandamento, passou a habitar os corações dos cristãos, por outra a humanidade prosseguiu na sua caminhada de destruição, guerra e violência.
E quase sempre, mesmo entre as nações tidas como cristãs, como se percebe cabalmente no mundo de hoje, o poder foi empalmado por homens maus, voltados para a opressão dos outros homens e das outras nações.
Até mesmo os governantes de nações que se confessam cristãos atiram-se para a violência, para a guerra e para a destruição.
O próprio imperador romano Constantino, que se converteu ao cristianismo, que se entregou devotadamente ao símbolo da cruz, que mandou cessar a perseguição feroz e carnívora que massacrou milhões de cristãos no império que o sucedeu, ainda assim, por vários e repetidos episódios, foi também, após sua conversão, um assassino primário e impiedoso.
Por um lado Constantino ergueu em Roma alentadores templos cristãos que pregavam a compaixão e a bondade, aliviando os seguidores do Nazareno das perversidades que sofreram durante séculos pelos déspotas anteriores, por outro lado comandava uma camarilha que semeava o terror e a morte entre os círculos que cercavam o poder.
Até em nome do próprio Cristo foram sacrificados sanguinariamente cristãos e hereges, que tinham os ossos partidos ou eram queimados nas fogueiras, como Joana D'Arc e outros tantos mártires.
O homem ficou melhor depois de Cristo, mas não deixou de ser pior.
Ainda hoje permanecem reinantes a crueldade de Estado e a crueldade individual.
Por isso é que tem significado especial e comovente o Natal. Senão pela salvação ou redenção perenes da alma humana, pelo menos por uma trégua na instintiva e ancestral maldade humana.
O Natal é a data que marca o augúrio de que o homem possa um dia deixar de ser mau.
E é o tempo e a data que marcam a glória dos justos, dos bons, dos humildes, dos que constroem a civilização com princípios que não admitem o homem como fera do homem, que exalta