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Sábado, Março 01, 2003
Posted
8:37 PM
by Cassiano Leonel Drum
Comportamento
Elas brincam com o tempo
PAOLA DEODORO E PATRÍCIA PONTALTI
Seis mulheres, seis exemplos de que beleza e talento não dependem da idade. Elas acham que estão melhores aos 40 do que aos 20. São Bernadete, Heloísa, Márcia, Maiza, Elizethe e Beatriz, mas poderiam ser Maria, Carolina ou Vitória. Os nomes pouco importam diante das histórias dessas mulheres que brincam com o tempo, que mostram que a idade não é limite para nada. Elas amadureceram e se tornaram mais belas e realizadas. Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, dia 8, a Revista ZH Donna recebeu seis convidadas especiais, que contam como é chegar aos 40 anos sem temer o passado ou o futuro.
Quando ainda era uma médica residente em ginecologia e obstetrícia, aos 24 anos, Bernadete Nonnenmacher viu muitas pacientes morrerem de câncer de colo de útero implorando pela cura. Hoje, chega aos 40 anos concluindo a primeira fase da campanha de vacinação contra o papilomavírus humano (HPV).
- Só me sinto satisfeita quando sou desafiada. Cada novo projeto para mim é uma jóia, e a realização deles faz com que a minha auto-estima vá às alturas. Preciso estar sempre ajudando alguém. E isso faz bem até para a pele - revela.
O marido, o psiquiatra Nélio Tombini, e os filhos Paulo Afonso, 18, e Felipe, sete, completam o momento sublime. A beleza é herança genética. Bernadete é prima de uma das mulheres mais bonitas do mundo, Gisele Bündchen, com quem convive apenas quando a top está em Porto Alegre.
Mas as realizações são mérito dela. Expulsou da sua vida a culpa por trabalhar demais e trocou a quantidade pela qualidade de atenção que dá à família. O bom relacionamento em casa dá sustentação para assumir os compromissos como professora na Faculdade de Medicina da Ulbra, pesquisadora mundial contra o câncer de colo de útero e voluntária da Liga Feminina de Combate ao Câncer, além das pacientes clínicas e cirúrgicas do seu consultório no Hospital Moinhos de Vento.
- Todos na minha vida precisam de atenção: o meu marido, meus filhos, meus funcionários, meus pacientes, meus alunos. Quando cheguei a uma certa idade, aprendi que não é possível fazer tudo em um dia de 24 horas. Então comecei a estabelecer prioridades e me dedico a menos coisas, mas com mais intensidade. Com 20 anos, eu queria fazer tudo e nem sempre as coisas davam certo.
A paixão pela profissão já correu risco. Depois de ter o primeiro filho, Bernadete caiu nos encantos da maternidade e não queria mais voltar à faculdade. Por providência divina, um grupo de colegas conseguiu trazê-la de volta à vida acadêmica. E bastou para aprender a lição. Apenas 10 dias depois do nascimento do caçula, ela já estava operando. Felipe chegou a ser amamentado no intervalo de um parto, e ela garante que valeu a pena:
- Fiz terapia por algum tempo para desfazer alguns nós que tinham na minha cabeça, para aprender a lidar com a rotina sem sacrificar ninguém. A minha maturidade só me trouxe benefícios. Aprendi a cuidar do meu corpo e da minha cabeça. Estou satisfeita com tudo o que faço. E ainda dizem que eu estou mais bonita. Bom, né?
Abaixo estão mais dois depoimentos destas seis mulheres ai acima.
Posted
8:34 PM
by Cassiano Leonel Drum
Bom aqui o depoimento de duas das seis mulheres que estão na reportagem abaixo do caderno Dona de ZH.
Comportamento
A empresária Maiza
Ontem, gordinha, estressada e repleta de trabalho que não a agradava. Hoje, magra, relaxada e fazendo o que mais gosta. A operadora de turismo Maiza Aiquel, chegou aos 49 anos mais bonita do que nunca. Na idade da loba, Maiza investiu em um tratamento completo para reformular corpo e mente. Ex-compulsiva por doces e sofrendo de enxaquecas, a operadora agora tem uma alimentação equilibrada, seguindo a dinâmica da dietética chinesa, pratica exercícios regulares e mantém o coração em dia. Resultado: nove quilos a menos e adeus às dores de cabeça e ao estresse.
- A gente vive e vai aprendendo. Quando tinha 20 e poucos anos, era outra pessoa. Não sabia o que queria, era gordinha, comia muito mal. Para mim, essa fase não deixa saudade nenhuma.
Maiza se formou em Letras. Como não sabia o que queria, passou a administrar a imobiliária da família. Ficou anos a frente do negócio, trabalhando muito, como uma verdadeira workaholic, tanto que abdicou de filhos e de um casamento formal. O maior prazer era encontrado durante as viagens de férias por todos os lugares do mundo.
- Sempre fui daquelas que pegava folhetos e cartões para passar para os amigos. Minha atual profissão era latente. Hoje sou feliz com o turismo.
A transformação no visual também colaborou para que Maiza conduzisse melhor os relacionamentos pessoais. Há um ano, reatou o namoro com uma pessoa com quem se relaciona há mais de 20 anos. Só que tudo está melhor.
- A gente está mais tranqüilo e equilibrado. O respeito é muito maior. O tempo é bom. Tem coisas que só os anos pode nos dar.
A vendedora Beatriz
Quando pisou na casa dos 40 anos, Beatriz Parenza iniciou uma transformação. A mudança começou com o fim de um relacionamento de 13 anos que lhe fazia infeliz há muito tempo. E essa foi a primeira de muitas que viriam. Hoje, aos 44 anos, a comerciária tem amor, profissão e amigos novos. E o melhor: aprendeu a levar a vida com bom humor.
- Estou melhor em todos os sentidos. Aos 20 anos, eu era mais feia, ingênua e tímida, tinha medo de tudo. Sofri muito em minha vida e fui acumulando essa dor no meu corpo, na minha personalidade. Estava infeliz e amarga. Acho que chegar aos 40 anos me fez abrir os olhos para muito coisa, me fez ver como eu estava e quem eu realmente queria ser.
Logo após o fim do namoro, Beatriz iniciou um processo de reeducação alimentar e começou a fazer exercícios. Perdeu 15 quilos, ingressou na terapia, cortou os cabelos e passou a cuidar da beleza.
- Vivia ouvindo coisas ruins do meu namorado. Ele não me amava e eu fiquei me sujeitando a conviver com isso porque ainda gostava dele. Custei a perceber que o melhor é gostar da gente. Essa compreensão, talvez, só se consiga com a idade.
Já magra e mais confiante, Beatriz ingressou em um ramo ainda inédito. Deixou de vender roupas e objetos para trabalhar na área de arte, em uma galeria de Caxias do Sul. Foi aí que descobriu uma paixão que a motivou a voltar a estudar.
- Conheci pessoas que têm idéias diferentes. Valorizam cultura e informação. Estou me esforçando para acompanhar - conta Beatriz, que atua na galeria há dois anos.
Dias depois de ingressar na galeria de arte, Beatriz saiu para dançar com as amigas. Ela já estava indo embora quando percebeu um ''gatinho'' na mesa ao lado. A mulher segura na qual Beatriz se transformou arriscou trocar olhares com o jovem, que tinha 27 anos. Beatriz e Samuel estão juntos desde então.
- No começo, tinha vergonha da diferença de idade. Lembro da primeira vez em que saímos juntos e eu soltei minha mão da dele. Que bobagem! Ele comprovou que o importante é amor. Acho que nunca fui tão feliz e realizada.
Posted
8:23 PM
by Cassiano Leonel Drum
O Sant'Ana está inspirado, também pudera estar na Capital carioca e agora mais tranqüilo, vez que policiada por uma tropa de 3.000 homens do exército. Se bem que as ameaças e a ousadia dos marginais não tem mostrado receio, não. Se cuida meu nobre Sant'Ana, precisamos de você inteiro aqui na sua coluna diária.
Paulo Sant'ana
02/03/2003
A poesia da Vila
Caminho pelas ruas de Vila Isabel, aqui por estas calçadas palmilhou encantado o grande vate nacional da música popular brasileira, Noel Rosa, que compunha dois sambas por dia, abandonou a faculdade de Medicina para entregar-se ao violão, à música e à poesia, morrendo estupidamente com apenas 26 anos de idade.
Se Noel tivesse atingido a idade que tem hoje Chico Buarque de Holanda, que parte para os 60 anos, pela riqueza de sua obra construída em tão escasso tempo, pela natural maturidade de seu espírito, teria se tornado num dos maiores, senão o maior poeta popular de toda a história da humanidade.
Ali num quiosque, às vésperas do desfile da Sapucaí, um grupo que enxameia duas mesas repletas de cervejas obriga-me a sentar-me em um banquinho adjacente.
Empunham violões, cavaquinhos, um banjo, um pandeiro e um surdo e recordam o maior de todos os sucessos de Noel, acima até de Feitiço da Vila, o Último Desejo, gravado estrondosamente nos anos 30 por Araci de Almeida:
"... Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
E às pessoas que detesto
Diga sempre que não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim''.
Monumental. Não há nada que se compare na literatura brasileira a estes versos simples de grande profundidade. O menino Noel Rosa se equipara nesses versos ao estro gigantesco do velho Catulo da Paixão Cearense.
Como estou na Vila Isabel, que Noel celebrizou como berço do seu samba imortal, de onde se catapultava para a Lapa, para a Mangueira, onde dormia no barraco de Cartola após a intensa noite de boemia, vêm-me as lágrimas aos olhos ao recordar a desgraça do grande poeta, cuja inspiração avançava prodigiosamente em seu coração e sua mente com a mesma intensidade com que a tuberculose progredia em seu pulmões.
Os músicos do quiosque, entre uma música e outra, atiram-se à beberagem e aquinhoam-me com várias pérolas musicais, entre as quais o filosofar do ainda vivo e oitentão Nélson Sargento:
"O nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito".
E logo a seguir atacam com um sacudido samba, cuja letra é a síntese da saga imemorial dos favelados e pobres brasileiros em geral, espremidos sempre entre o caso de amor conjugal e as dificuldades de sobrevivência:
"Ô Maria! Ô Maria!
Vamo acabar com essa mordomia
É de noite, é de dia
Chega a sogra, chega a tia
Meio-dia
É panela no fogo
E barriga vazia"
Saio daquele oásis poético convencido de que é uma grande injustiça que um povo carioca assim tão alegre e inspirado tenha sido obrigado a chamar para guardar e proteger o seu Carnaval irreprimível as tropas do Exército.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
Posted
8:14 PM
by Cassiano Leonel Drum
Enfim, uma transitória subversão da ordem, da qual a máscara e a fantasia eram, e são, os símbolos maiores: a pessoa aparenta aquilo que não é, e pode fazer o que não faria na vida real. O fato é que mascarados ou não no carnaval, fica mais fácil, até pelo clima, pela cumplicidade que se sobressai e aí solta-se as frangas todas.
Moacyr Scliar
02/03/2003
O mundo (e o Brasil) de pernas para o ar
Originariamente o Carnaval era uma festividade pagã, preservada na Europa cristã pela simples e lógica razão de que era uma válvula de escape para as tensões coletivas. Não a única, claro: o mesmo acontecia com a Festa dos Loucos, que, apesar do nome, não era uma celebração da loucura e sim uma oportunidade para as pessoas se fingirem de loucas e assim botar para fora a maluquice. No Carnaval europeu o elemento principal era o cortejo, com temas fantasiosos - o Jardim das Delícias, a Fonte da Juventude - ou outros, mais terrenos: em Koenigsberg, Alemanha, em 1583, açougueiros, os grandes carnavalescos da época, desfilaram carregando uma salsicha de mais de 200 quilos. Era uma festa da carne, em todos os sentidos: falos gigantescos eram freqüentes nos desfiles. O "liberou geral" não raro degenerava em agressão, com mascarados insultando pessoas e desafiando a polícia.
Enfim, uma transitória subversão da ordem, da qual a máscara e a fantasia eram, e são, os símbolos maiores: a pessoa aparenta aquilo que não é, e pode fazer o que não faria na vida real. No Brasil, o Carnaval começou na época da colônia, como uma brincadeira de rua. Não muito refinada: escravos atiravam uns nos outros ovos, farinha, restos de comida e frutas podres, enquanto, dos balcões, as famílias jogavam baldes de água suja nos transeuntes. Depois, a coisa ficou mais civilizada. O primeiro baile de máscaras (que eram importadas da Europa) ocorreu no Hotel Itália, no Rio, em meados do século 19: uma cópia do Carnaval de Veneza. O Carnaval dicotomizou-se, socialmente falando: de um lado, a popular festa de rua, de outro, o Carnaval de salão, destinado sobretudo à classe média emergente no país.
Mas a festa de rua também teria duas tendências. Isto aconteceu graças a uma figura quase folclórica: o Zé Pereira, apelido pelo qual era conhecido o português José Nogueira de Azevedo Paredes. Com seu bumbo, dava ritmo à música carnavalesca que logo fez sucesso graças a marchinhas como Ó Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga. Surgiram os blocos, que era um desfile organizado, com papéis bem definidos: o mestre-sala, o porta-estandarte. E surgiram os desfiles de carros alegóricos, o primeiro deles no Carnaval de 1907, quando as filhas do então presidente Afonso Pena, fantasiadas, fizeram um passeio no automóvel presidencial. Foram logo imitadas por foliões que tinham carro. Pronto: o desfile estava consagrado.
A outra tendência era a festa de rua propriamente dita, sem organização, sem patrocínio - a válvula de escape na sua expressão mais pura. O Carnaval do Rio é a expressão da primeira tendência; o de Salvador (e isto nada tem a ver com ACM), expressão da segunda. Organização de um lado, espontaneidade de outro. Os que defendem o Carnaval do Rio gabam seus méritos como super-espetáculo; os que são pela festa de rua torcem o nariz para o que chamam de burocratização da festa. E este, ao fim e ao cabo, é o dilema do Brasil. Como conseguir que a população se organize sem o controle de caciques políticos ou das instâncias de poder? Como mobilizar a espontaneidade sem cair na desordem? No caso do Carnaval, esta pergunta dura uns 10 dias, se tanto. No caso do país, vem atravessando os séculos. Sem resposta.
scliar@zerohora.com.br
Posted
8:01 PM
by Cassiano Leonel Drum
Eu, elétrico por natureza, reduzi meu ritmo por um tempo longo demais, abusando dos meus limites. Valeu ter aprendido a relaxar, mas aqui é que é a minha praia. Mais um pouco e eu arrebentava de saudades de escrever. Será que vai ser assim quando eu tiver viajado por alguns dias que poderão se tranformar em um mês ou mais?
Martha Medeiros
02/03/2003
Limites estendidos
Longe de Porto Alegre há um tempão, vivendo uma rotina de cidadezinha do interior, com horas e horas para ler, caminhar e pensar na vida, me perguntava: quanto tempo agüentarei? Duas semanas? Três? Sou da raça das inquietas, daquelas pessoas que estão sempre arranjando alguma coisa pra fazer, então mantenho uma relação de amor e ódio com as férias, sempre fico com medo de que repouso demais acabe me estressando. Mas que nada: fui, vi e venci. Aprendi a me entregar ao ócio sem culpa e hoje sei que meus limites podem ser estendidos. O meu limite de desconexão do trabalho, do relógio e do computador, que sempre foi curto, ampliou-se.Isso é mais ou menos como atravessar uma fronteira e permitir variações de si mesmo.
Todo mundo tem seus limites de tolerância. Sabe até quando pode suportar uma abstinência, quanto tempo resiste sem sentir prazer, ou sem sentir-se útil, ou produtivo, ou o que for. E estipulam prazos: "Fico neste casamento até a hora que as crianças crescerem". "Fico neste emprego apenas enquanto estiver sendo valorizado". "Vou continuar morando com meus pais apenas até terminar a escola". Até que nos vemos frente a frente com o fim da estrada: as crianças cresceram, o seu patrão não acena com uma promoção e você terminou os estudos. Vai separar? Pedir demissão? Sair da casa dos pais? É nesta hora que muitos descobrem que ainda têm gás para seguir adiante.
Estender os limites que a gente se impõe é como prosseguir viagem após ter chegado ao seu destino: agora vem aquela parte que você não planejou, para o qual não estipulou um roteiro. De repente, descobre que vai, sim senhor, permanecer no casamento, porque as tentativas não foram esgotadas, porque acredita em reversões de quadro, porque precisa saber lidar com altos e baixos.
E vai ficar mais um tempo no emprego também, mesmo o patrão já não lhe achando grande coisa, pois tem uma selva lá fora e você tem que se alimentar, se garantir, pagar suas contas. E vai ficar mais um tempo morando com seus pais, ora bolas, afinal se acostumou com a mordomia e ninguém está lhe chutando pra fora. Nenhum problema nisso, desde que você use esta elasticidade para aprender mais sobre si mesmo, e não para ganhar tempo.
Sempre dá pra gente agüentar mais um tanto, dar uma esticada na nossa resistência, mas sem abdicar das nossas urgências. Eu, elétrica por natureza, reduzi meu ritmo por um tempo longo demais, abusando dos meus limites. Valeu ter aprendido a relaxar, mas aqui é que é a minha praia. Mais um pouco e eu arrebentava de saudades de escrever.
martha.medeiros@zerohora.com.br
Posted
7:57 PM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
02/03/2003
Satisfações
Da recepção avisaram que tinha um Carmano para falar com ele. Carmano, Carmano... O nome não lhe era estranho. Queria falar com ele ou com qualquer um do jornal?
- Pediu para falar com o senhor.
- Manda subir.
Estava só ele na redação. Às quintas, sempre ficava até mais tarde para fechar o caderno de cultura que saía nos domingos. Fazia o caderno de cultura quase que sozinho. Editava, diagramava, escrevia resenhas... Resenhas. Era isso. Comentara um livro desse Carmano semanas antes. Um livro policial. Metera o pau. Na certa o tal de Carmano viera pedir satisfações. Tarde demais para barrá-lo na recepção. Ele estava subindo. Ele estava no elevador. Talvez já engatilhando a pistola com que se vingaria da crítica. Ou seria uma navalha? No livro o assassino usava uma navalha.
Mas o Carmano que entrou na redação parecia estar desarmado. Era um homem franzino, camisa fora das calças, mais moço do que ele. Chamou-o de senhor.
- O senhor é o Zardo do caderno de cultura?
- Sou eu.
Ele estendeu a mão.
- Carmano. O senhor escreveu sobre o meu livro na semana passada.
- Ah, certo. Certo. E aí? Tudo bem?
- Eu só queria fazer uma pergunta.
- Faça.
- O senhor...
- Me chame de você.
- Você disse que a cena do crime era inverossímil. O cara sozinho no local de trabalho. Como o criminoso iria saber que o cara estava sozinho, lembra?
- É. Olha. Inverossímil, não. Achei meio forçado.
- O senhor escreveu "inverossímil".
- No sentido de forçado. Improvável. Coincidência demais.
- Era só o assassino investigar a vida do cara para descobrir os seus hábitos, a sua rotina de trabalho. A cena não era inverossímil.
- Mas você não escreveu nada sobre essa investigação. Ficou parecendo que o assassino foi matar o cara contando com a coincidência, contando com a eventualidade de ele estar sozinho. Quer dizer...
- Mas a investigação está subentendida.
- Não. Péra um pouquinho. Você não pode pedir que o leitor subentenda nada. É como pedir que ele faça o seu trabalho por você. O leitor só sabe o que você diz pra ele. Só sabe o que você quer que ele saiba.
- Como é que você sabe?
- Eu sei, meu caro. Estou cansado de ler policial. E sempre me coloco no lugar do leitor comum. E o leitor comum nunca subentende. Entende o que você lhe conta ou não entende nada. Subentender, nunca. Não é a função dele.
- Se for inteligente, subentende. Talvez você não seja um leitor inteligente.
- Bom, se você vai partir para...
- Por exemplo: o que o senhor subentende da minha presença aqui, hoje, a esta hora?
- O quê?
- Não está subentendido que eu pesquisei a sua vida, descobri a sua rotinade trabalho e sabia que às quintas você fica até tarde na redação, e que a esta hora estaria aqui sozinho? Aqui onde eu posso matá-lo sem que ninguém veja, e ninguém descubra até eu estar longe?
- Me matar?
Carmano levou a mão direita às costas. Disse:
- Não está subentendido que eu tenho uma arma na cintura, aqui atrás?
- Que arma?
- Subentenda.
- Navalha?
- Vejo que o senhor leu meu livro com atenção. Não gostou, mas leu até o fim. Outra pergunta. Por que o senhor disse que a identidade do criminoso ficava evidente desde o começo, no livro?
- Porque o criminoso era obviamente o menos provável, o que parecia mais inofensivo, o que ninguém desconfiaria.
- Porque era um insignificante como eu?
- Não. Eu...
- O senhor acha verossímil que eu tenha uma navalha aqui atrás?
- Acho. Quer dizer...
- Pois não é uma navalha.
Carmano começou a movimentar o braço lentamente, para mostrar o que tinha na mão escondida. Zardo:
- Você vai me matar por causa de uma resenha? Só porque eu...
- Você me ridicularizou. Você me chamou de inocente inútil. Disse que eu tinha muito que aprender sobre livros policiais e que a primeira lição era não fazer outro.
- Mas eu gostei, viu? Eu gostei! Achei um pouco forçado mas...
Carmano mostrou a mão. Ela também não segurava uma pistola. Imitava uma pistola, com dois dedos estendidos. Que ele apontou para a testa de Zardo.
- Veja. Uma pistola subentendida.
E fez:
- Pum!
Depois que se recuperou, Zardo ligou para a recepção e deu ordens para nunca mais deixarem entrar alguém para falar com ele, às quintas. Naquele domingo sairia uma resenha dele metendo o pau no trabalho de uma nova poeta. Era só o que faltava, a poeta também ir pedir satisfações.
Talvez agredi-lo com o salto do sapato. Ou coisa pior. Com as poetas, nunca se sabe.
Posted
7:52 PM
by Cassiano Leonel Drum
Clima
Fim de temporada em alto estilo
O litoral gaúcho teve sol forte e pouco espaço na areia no sábado que abriu o feriadão e o fim do veraneio (foto Emílio Pedroso/ZH)
Posted
11:51 AM
by Cassiano Leonel Drum
O Carnaval é bom por isso as pessoas extravasam os seus sentimentos mais profundos, guardados, muitas vezes por anos. Olha só, será que é paixão antiga esta da Ana Maria?
Fábio Cordeiro/O Dia Francisco Silva Eraldo Platz/Ed. Globo Reginaldo Teixeira/Cia. da foto
Mulheres endiabradas
Luana Piovani na quadra do Salgueiro, Ana Maria Braga na Mocidade Independente e, no detalhe, com Simone e Luciana Gimenez: liberou geral - é Carnaval!
Rapazes, relaxem: se os ensaios nas quadras das escolas são termômetro, a temperatura já está máxima entre as beldades que pretendem mostrar seus dotes - não necessariamente de passista - na Sapucaí. Luana Piovani (1), loiríssima, tirou a fantasia de Alice, personagem que interpreta no teatro, e deixou a platéia masculina de babador no ensaio do Salgueiro. O assunto da noite? As pernas da moça, que estão, digamos assim, mais marombadas. Enquanto isso, outra loura famosa também esbanjou fôlego: Ana Maria Braga (2), solteira e de minissaia, sambou até as 5 da manhã na Mocidade Independente de Padre Miguel. Um dia antes, ela já tinha virado alvo de todos os flashes, no Canecão, quando não resistiu ao convite da melhor amiga, Simone (4) - dona do show e de seu entusiasmo -, e subiu no palco, cheia de alegria. Na Grande Rio, a animação da veterana Luciana Gimenez (3) só foi ofuscada pela presença de Deborah Secco. A primeira tem jogo de cintura. A segunda nem sabe sambar direito, mas já ganhou o título de madrinha da escola no ano que vem. Briga das boas!
Bomba H
Vai explodir logo, logo um escândalo no Rio de Janeiro, com as mesmas dimensões, ou até maiores, daquelas do caso Silveirinha - sobre remessa ilegal de dinheiro ao Exterior. A história da vez tem a ver com a Delegacia Regional do Trabalho.
Língua presa
As poucas pessoas que tem conversado com Antônio Carlos Magalhães, em meio a toda essa confusão do grampo na Bahia, estão assustadas: quase não se escuta o que ele diz. O senador anda tão deprimido que está falando para dentro.
Posted
9:54 AM
by Cassiano Leonel Drum
Quando saio deste minúsculo escritório e de meu computador, embora viva todo o cotidiano necessário que inclui cinema, televisão e supermercado, eu me reabasteço curtindo esta casa com suas crianças, encontrando amigos, e, sobretudo, ficando quieta. A exemplo da Lia eu também, faço exatamente isso, menos esta casa que está sem crianças e os amigos que foram-se para o mar. Então ficar quieto é uma boa sugestão.
Lya Luft
03/01/2003
Pontos fora dos "is"
Raramente falo em literatura, e quase não comento política. Literatura é parte de mim desde que me contavam histórias antes de eu aprender a ler. Com os anos, tornou-se minha atividade mais constante, minha profissão, minha distração e minha essência. É, para mim, como respirar. Quando saio deste minúsculo escritório e de meu computador, embora viva todo o cotidiano necessário que inclui cinema, televisão e supermercado, eu me reabasteço curtindo esta casa com suas crianças, encontrando amigos, e, sobretudo, ficando quieta. Preciso dessa falsa vagabundagem lírica, na qual não entram nem livros nem cinema nem moda nem economia, mas posso refletir, que é fugir da futilidade - mais mortal das nossas doenças da alma.
Para comentar política não tenho cacife, e tal como anda ela me confunde. Não é por um tolo saudosismo que eu preferia política quando havia três partidos, e passar de um para outro deixava uma chancela tão negativa que nunca mais o vira-casaca conseguia ser votado nem pra síndico de edifício. É por uma velha coisa chamada ética - meio fora de moda neste momento, embora nunca tenha se falado e escrito tanto sobre ela... que na verdade se transmite através dos poros, em casa, na família, na escola.
Mas concordo com minha amiga imaginária que me telefona aflita com algumas das possíveis novidades no país. Uma delas é: se cortarem ainda mais o que ela recebe como viúva de um funcionário federal, aposentado aos 70 anos depois de uma longa carreira de contribuições para a cultura do país, a esta altura da vida ela vai ter de trocar sua velha casa rangente por um quarto-e-sala de periferia. E, embora em idade de descansar um pouco, ela terá de dobrar seu tempo diário de trabalho, já agora necessário para sobreviver com decência.
Podia ser pior, dirão. É preciso, dirão. Mas até uma simples escritora imagina que uma distribuição mais equânime de recursos podia começar reduzindo os salários dos senadores e deputados, por exemplo. Quem sabe assim daria para não nos punirem ainda mais a nós, os comuns mortais, que continuaríamos apenas na precariedade que é nossa marca atual.
Ah, minha amiga também vai ter de remover a velha dama que há anos sustenta numa clínica geriátrica - na qual a anciã recebe cuidados profissionais intensivos que com o passar dos anos se tornou impossível lhe proporcionar em casa.
Minha sugestão será que ela despache sua protegida para o Palácio da Alvorada, na esperança de que lá cuidem dela - e de tantas outras pessoas cada dia mais desvalidas. Porque as nossas possibilidades estarão esgotadas.
Pode ser que, ignorante nesses assuntos tão técnicos, eu esteja fazendo confusão: não vão reduzir o sustento das pensionistas, mas apenas dos aposentados deste nosso amado, belo, cada vez mais estranho país. Porque eles, afinal, ainda fazem (fazem?) três refeições por dia.
Ah, bom, como diz meu colega de outra página.
Posted
9:47 AM
by Cassiano Leonel Drum
Concordo ainda em mais uma coisa, efetivamente os grandes sucessos dos canavais atuais, são músicas antigas, muito antigas numa clara evidência de que recentemente não se está querendo fazer sucessos de músicas carnavalescas, talvez por o foco ser outro. Mas os carnavais continuam existindo, então por que mesmo não se faz? Será a criatividade que está em baixa?
Ricardo Silvestrin
28/02/2003
Viva o zamba!
Marcelo D2 e Falcão, vocalista do Rappa, cantando Maria Sapatão. Aquela marchinha de Carnaval lançada pelo Chacrinha: "Maria Sapatão, sapatão, sapatão / de dia é Maria / de noite é João!". Foi um dos grandes momentos de farra do programa do Serginho Groissman há uma semana. Acompanhando, uma clássica bandinha de Carnaval, com um senhor naipe de sopros tocados por uma turma de velhinhos. Desfilaram cantando marchinhas também Paulo Miklos, Fernanda Abreu, Max de Castro, entre outros.
A MTV fez algo semelhante faz alguns anos. Lembro de uma interpretação clássica do João Gordo e sua banda Ratos de Porão repetindo num arranjo hard core "alalaô, alalaô, mas que calor, calor, calor / alalaô, alalaô, mas que calor, calor, calor".
Fazer músicas de Carnaval, ou tematizando o Carnaval, parece algo que ficou atualmente restrito à Bahia. Lá todo ano aparecem novos grupos, novos trios elétricos, e o Carnaval se realimenta. Fora isso e fora os sambas-enredos, não parece ter ninguém trabalhando uma música específica para o Carnaval.
Caetano Veloso conta no seu livro Verdade Tropical a emoção de voltar ao Brasil depois do exílio bem no período do Carnaval. Seu frevo Chuva, Suor e Cerveja, composto em Londres, era cantado pela multidão que seguia na chuva pela rua atrás do trio elétrico. Caetano fez também anos antes Atrás do Trio Elétrico e Um Frevo Novo.
Durante um período, ali pela virada 70/80, Moraes Moreira e Gil compuseram ou regravaram frevos para o Carnaval. Gal Costa trouxe de volta o Balancê. Tudo isso se somou nos salões às antigas e eternas marchinhas. Chico fez aquele samba-enredo do final da ditadura "Vai passar nessa avenida um samba popular...". Caetano gravou o enredo da União da Ilha: "É hoje o dia / da alegria / e a tristeza nem pode pensar em chegar!".
E o que dizer da belíssima canção do Chico "Hoje o samba saiu / procurando você / quem te viu / quem te vê / quem não a conhece não pode mais ver pra crer / quem jamais a esquece não pode reconhecer... Hoje eu vou sambar na pista / você vai de galeria / quero que você assista / na mais fina companhia / se você sentir saudade / por favor não dê na vista / bate palma com vontade / faz de conta que é turista".
Hoje os funks e pagodes é que estão ombreando com as marchinhas geniais e insubstituíveis. A cachorrinha, o bonecão do posto, a egüinha pocotó...
Mas pra não deixar a peteca cair, estou há anos com o refrão de um samba-enredo que nunca terminei. Pegando a onda de falar de um tema histórico, exigência que acabou gerando às vezes grandes saladas nos sambas-enredos em geral, lasco um sobre a história do socialismo. Olha só o refrão, tudo o que tenho até o momento: "Foi na era mesozóica / que começou a Perestróika!".
ricardo.silvestrin@zerohora.com.br
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9:40 AM
by Cassiano Leonel Drum
Mas precisa ficar muito claro que um país que não sabe tratar de seus presos não saberá também cuidar da proteção das pessoas que estão soltas. E assim ficam os cidadãos pagando os tributos para um Estado que não lhe dá a mínima, pois que não garante a integridade de seu patrimônio, muito menos do seu patrimônio maior que é a própria vida.
Paulo Sant'ana
01/03/2003
O exilado
É espantosamente surrealista a solução que se quer dar para a liderança que o traficante Fernandinho Beira-Mar exerce sobre seu exército de malfeitores no Rio de Janeiro.
De dentro do Presídio Bangu I, onde estava preso até que foi transferido por apenas 30 dias para o interior de São Paulo, Fernandinho comandou uma operação insurrecional que apavora o Rio de Janeiro, centenas de guerrilheiros que servem ao seu Comando Vermelho saem para as ruas e, com incêndios e metralhamentos de veículos e prédios, apavoram uma população que beira 15 milhões de habitantes.
continua
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9:39 AM
by Cassiano Leonel Drum
continuação
Mas criou-se entre as autoridades fluminenses um consenso: era preciso transferir Fernandinho Beira-Mar de Bangu I para uma prisão de outro Estado, a proximidade do bandido com seus comandados está colocando por terra toda a ordem civil no Rio de Janeiro, ameaçando de colapso a segurança pública carioca.
Cria-se assim um estupendo contra-senso: há um ditado que circula em todas as mentes, lugar de bandido é na cadeia.
E o que se vê é o diagnóstico das autoridades de que Fernandinho Beira-Mar é perigosíssimo justamente por estar na cadeia.
Não há quem possa entender isso.
Há algo de tremendamente errado nisso: se a cadeia não é lugar seguro para guardar bandido, se o público de fora da prisão corre perigo com o bandido preso, todo o sistema penal desabou.
Se o comando das operações criminosas não está localizado fora das cadeias, nas ruas, mas se incrusta lá no interior do presídio, onde as condições para vigilância dos presos são as mais propícias possíveis, então é mesmo porque chegamos ao fim da viabilidade penal, não há mais qualquer solução para a demanda criminal brasileira.
Que um preso ameace a segurança de um presídio, admite-se. Mas que um detento esteja lá dentro a comandar uma guerra civil contra a comunidade lá de fora, esse fato escapa aos mínimos padrões da racionalidade.
Ali está o preso, submetido à carceragem. Como pode, sabendo-se que é ele quem lidera as operações de guerrilha das ruas, permitir-se que ele se movimente dentro da prisão com a desenvoltura dos planejadores, comunicando-se com todos os escalões da sua milícia delinqüencial através de uma rede telefônica bem aparelhada e livre de qualquer controle das autoridades?
Mas o presídio não é o lugar ideal para se manter um preso? Aqui no Brasil chegou-se ao auge do absurdo: o bandido mais perigoso e ameaçador é justamente aquele que está na cadeia.
Mas como eu sempre disse em 31 anos de jornalismo, se não há ordem nem segurança na cadeia, fora dela a vida das outras pessoas vai ficar pior ainda.
Não basta a prisão para Fernandinho Beira-Mar, entendem agora aflitas as autoridades, é preciso que ele seja conduzido para fora do Rio de Janeiro, noutro Estado.
Além da prisão, o exílio. E se ele continuar comandando lá do Acre a insurgência civil, talvez o degredo, eis que algumas autoridades já se mostraram favoráveis a que ele fosse entregue aos Estados Unidos.
Mas precisa ficar muito claro que um país que não sabe tratar de seus presos não saberá também cuidar da proteção das pessoas que estão soltas.
E isto que Bangu I é considerado presídio de segurança máxima.
Comprova-se assim que não há presídio de segurança máxima quando lá fora a população goza de segurança mínima.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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9:23 AM
by Cassiano Leonel Drum
O respeito pela música, a necessidade de garantir a existência da música, eram maiores do que tudo, quase maiores do que a vida. E para muitas pessoas ainda é assim e deverá, na opinião delas, continuar sendo.
Celso Loureiro Chaves
01/03/2003
Pagnot
Pierre Boulez sugere, num dos seus artigos, que um texto pode ser "presença/ausência" numa obra musical. O texto pode estar presente nela, como ímpeto inicial da composição, como alicerce estrutural. Mas pode estar ausente dela, se as palavras propriamente não foram colocadas em música, ficando-lhe como subtexto. Nas duas hipóteses, um irrequieto jogo de equilíbrio entre primeiro e segundo plano se estabelece, música e texto a encenar uma curiosa dança de figuras e sombras, presenças implícitas, ausências explícitas.
É um pouco o que acontece com os nossos mestres: deflagradores de todo um processo criativo, quanto mais avançamos na vida, mais permanece em nós o que nos ensinaram, mesmo que eles próprios estejam distantes. Não sei se hoje ainda se usa falar de "mestres", mas quando fui estudante se usava. Mais do que se usava: se praticava. Tanto assim que, substituída a vida de estudante pelos embates da afirmação profissional, estabeleceu-se em mim o jogo de "presença/ausência" proposto por Boulez: se deixei de ter mestres, nunca deixei de ter em mim suas lições de permanência.
Essas reflexões me ocorreram nestas últimas semanas, desde que Jean-Jacques Pagnot, mestre da música, deixou de estar conosco. Guardo dele imagens, sons e lições. Um violoncelo, um cachimbo. Na voz, um incontornável sotaque francês para dizer verdades indiscutíveis sobre a importância de dominar o repertório do passado e do presente, de observar atentamente o metrônomo na música de câmara, de buscar os golpes de arco mais eficientes para extrair som de um violoncelo. Quando minha vida de estudante cruzou com a dele, Jean-Jacques Pagnot já era um mito na cena porto-alegrense.
Depois de quase 20 anos por terras gaúchas, tinha se tornado o mestre incontestável do violoncelo e da música de câmara. Professor do Departamento de Música da UFRGS, ele tinha na prática da música o grande laboratório daquilo que ele propunha em aula. O Trio Porto Alegre foi o seu meio de expressão predileto na música de câmara. Na música sinfônica, a Ospa foi o seu campo-de-provas de repertório, ao tempo do mitológico Pablo Komlós.
Justamente aí testemunhei o cruzamento da carreira de dois de meus mestres, Jean-Jacques Pagnot e Armando Albuquerque. Foi num dos ensaios para a estréia da Evocação de Augusto Meyer, a peça orquestral de Armando que Pagnot regeria num dos concertos da Ospa, isso nos idos de 1970. Um músico de orquestra teimou em fazer chacota da acordeona que fornece o toque final da Evocação, numa superposição de timbres transgressora, um golpe-de-mestre do compositor. Eu nunca tinha visto, e nunca vi depois, Armando tão furioso como diante daquela chacota insensível.
E nem Pagnot tão inflexível na defesa de uma música local que, nem bem ainda estreada, já sofria os abusos de um músico local. Foi essa combinação brabeza/inflexibilidade que, contornando a bossalidade, permitiu que a Evocação de Augusto Meyer entrasse no nosso repertório sinfônico.
Não foi a única lição que me ficou de Jean-Jacques Pagnot, mas foi uma das maiores. Para Pagnot, o respeito pela música, a necessidade de garantir a existência da música, eram maiores do que tudo, quase maiores do que a vida. Hoje, quando às vezes me encontro exercendo as mesmas funções que aprendi com ele, percebo que um jogo de presença/ausência se instala.
Pagnot não está mais por perto, mas suas lições de permanência ainda se reforçam, uma e outra vez. Chego à conclusão que estava longe dele passar por seus alunos no anonimato. Não seria digno dele, ele que foi, acima de tudo, Jean-Jacques Charles Henri Pagnot, um músico e um mestre.
celso.chaves@zerohora.com.br
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9:17 AM
by Cassiano Leonel Drum
Litoral
Mar cristalino para fugir do calor
Temperaturas superiores a 30ºC e o mar calmo e limpo fizeram os gaúchos acorrerem à beira-mar, como em Capão da Canoa (foto Emílio Pedroso/ZH)
Sexta-feira, Fevereiro 28, 2003
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9:54 PM
by Cassiano Leonel Drum
Corrida contra o tempo
Oposição externa e problemas no front doméstico explicam pressa de Bush com a guerra
Osmar Freitas Jr. - Nova York
Quando estava em Davos, em janeiro último, para a reunião de líderes globalizados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma análise sobre a possível Segunda Guerra do Golfo. Para espanto de alguns de seus interlocutores, o brasileiro disse que seu colega americano, George W. Bush, havia perdido o momentum para um ataque. Na ocasião, houve quem visse ingenuidade geopolítica do estreante brasileiro no cargo.
O tempo parece estar comprovando, pelo menos parcialmente, a sensibilidade profética de Lula. Depois de perder a guerra da opinião pública para o pacifismo encabeçado internacionalmente por França e Alemanha jogando, desse modo, num buraco negro eleitoral seus aliados europeus, o presidente Bush começa a ver se esvaziar o apoio doméstico a seus desejos guerreiros.
As pesquisas de opinião pública independentes mostram que entre 53% e 57% dos cidadãos americanos só apóiam uma invasão do Iraque caso ela seja sancionada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Bush, porém, foi buscar num colega do passado, Franklin Delano Roosevelt, outro que enfrentou oposição pública contra a guerra, um paralelo que lhe servisse.
Depois de notar o vigor das manifestações de rua do começo do mês, parafraseou Roosevelt dizendo que o verdadeiro líder toma decisões pelo bem do país, e não visando popularidade. Roosevelt todos conhecem e George W. Bush não é nada parecido com ele. Mas já há quem o compare com outro predecessor, Lyndon B. Johnson, que foi obrigado a renunciar à candidatura à reeleição por causa de seu apoio à guerra do Vietnã.
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9:46 PM
by Cassiano Leonel Drum
Capa
Bom e esta é a capa da Revista Isto É que amanhã estará nas grandes bookstores ou no domingo em todas as bancas do País.
Te perdôo por te trair
A tendência entre casais é superar a infidelidade com diálogo e reflexão. Hoje, poucos se separam por causa das escapadelas
Camilo Vannuchi, Chico Silva e Eliane Lobato
Colaboraram: Neila Fontenele e Greice Rodrigues
Trair, chifrar, pular a cerca, manter um relacionamento extraconjugal, ser infiel. Expressões como estas fazem tremer as pernas de qualquer um. Poucas coisas são tão desagradáveis quanto descobrir que existe outro dividindo a cama (e os sentimentos) da pessoa amada. Mas, ao que parece, por solidariedade ou puro sadismo, muita gente gosta de acompanhar as peripécias sexuais dos outros, principalmente quando o caso é público e rico em detalhes.
Se não gosta, vai ter de se acostumar. A traição está na boca do povo, nas manchetes dos jornais e no auge do horário nobre. Apenas no mês de fevereiro, o brasileiro visitou a intimidade do prefeito de Ipatinga (MG), Chico Ferramenta, se decepcionou (mais uma vez!) com Antônio Carlos Magalhães, exerceu a arte do voyeurismo diante dos malhos de Sabrina e Dhomini (Big Brother Brasil) e, finalmente, assistiu à impagável sobreposição de casais na nova trama de Manoel Carlos, Mulheres apaixonadas.
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9:38 PM
by Cassiano Leonel Drum
Esta é a capa da Revista Veja que nesta semana empatou com a Isto É, isso é divulgou ao mesmo tempo suas manchetes e a sua capa que está ai em primeira mão para você.
Os limites do corpo
Mesmo malhando, nem todo mundo consegue músculos volumosos e definidos. Mas isso não é pretexto para os preguiçosos: com ou sem um físico privilegiado pela genética, todo mundo tem de se exercitar
Bel Moherdaui
Fotos Carol Quintanilha
Fabiana, na aula de acrobacia: ginástica quase todo dia, mesmo machucada ou com febre
Estar em forma ¿ tradução: magro, corpo durinho, músculos definidos ¿ é o sonho que faz lotar as academias do planeta. Regata molhada de suor, faixa na testa, luva de proteção, homens e mulheres de todas as idades dedicam horas de agendas corridas ao esforço de eliminar gorduras, afinar a silhueta e, enfim, conquistar o gostinho de se olhar no espelho e se achar parecido com o sarado ou a sarada da televisão.
Este é o sonho. A realidade é muito diferente. De um modo geral, as pessoas que assumem a necessidade de praticar exercícios físicos situam-se em dois grupos distintos: os que se dedicam com exagero, e acabam magros demais ou musculosos demais ou obcecados demais, e os que começam animados a semana 1, perdem o pique na semana 2 e desistem na semana 3 ¿ só para começar tudo de novo alguns meses depois. Isso não acontece por acaso, nem por pura obsessão de uns e incontrolável preguiça de outros.
Como a ciência vem demonstrando de forma cada vez mais inapelável, malhar e obter resultados consistentes é questão de genética e cabe a cada um encontrar seu limite e permanecer nele, sem extrapolar mas também sem fazer corpo mole.
Num dos mais recentes estudos americanos sobre o tema, um grupo de 742 pessoas extremamente sedentárias, pertencentes a cerca de 200 famílias diferentes, foi submetido a vinte semanas de um mesmo programa de exercícios supervisionado. Com as comparações entre os resultados obtidos, constatou-se que a melhora da resistência física é semelhante entre membros da mesma família e que a influência da carga genética no resultado é de até 47%. O estudo, ainda em andamento, é coordenado pelo pesquisador Claude Bouchard, diretor do Centro de Pesquisas Biomédicas Pennington da Universidade do Estado da Louisiana. Bouchard, especialista na pesquisa das relações entre genética e capacidade física, já havia coordenado na década de 80 outro importante levantamento na área.
Primeiro, um grupo de trinta sedentários foi submetido a vinte semanas de treinamento, com cinqüenta minutos de exercícios vigorosos quatro vezes por semana. "Alguns melhoraram a forma física em 50% a 60%. Outros não tiveram melhora nenhuma", constatou Bouchard. Ele então repetiu o treinamento com pares de gêmeos idênticos, que, por serem clones naturais, são usados em inúmeros estudos para avaliar a importância da carga genética em contraposição às influências externas.
Constatou que se um respondia bem ao treinamento, o mesmo ocorria com o outro; e se um ia mal, ambos iam. Conclusão óbvia: há pessoas que nascem propensas a, exercitando-se, obter um corpo musculoso ou uma excelente resistência aeróbica. Outras não têm essa capacidade inata. Podem malhar e melhorar a condição física, mas não haverá esteira ou halter que promova a explosão de bíceps desejada por muita gente como ideal estético. Continua no site da revista
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7:06 PM
by Cassiano Leonel Drum
Gisele Bundchen se emociona e chora no Pelourinho
SALVADOR (Reuters) - Gisele Bundchen não conseguiu controlar a emoção durante sua visita, na tarde desta sexta-feira, ao Liceu e Artes e Ofícios de Salvador, no centro histórico da capital baiana.
A top model, que tem por hábito manter a compostura em aparições públicas, chorou pouco depois de ter sido apontada como madrinha do espaço, que trabalha no desenvolvimento do talento dos jovens de classes mais baixas.
"Eu sou chorona e então vou chorar aqui", disse Gisele, que trajava uma blusa azul de seda modelo frente única e uma saia branca abaixo do joelho.
Ela tentou, sem sucesso, desviar seu rosto dos flashes das máquinas fotográficas enquanto chorava.
A empresa com a qual Gisele mantém contrato de exclusividade programou sua ida ao Liceu, uma das organizações não-governamentais que conta com apoio do Instituto Credicard, cujos investimentos em projetos sociais previstos para este ano são da ordem de 3,5 milhões de reais.
A top model, que fica em Salvador até o final do Carnaval, evitou o assédio da imprensa, limitando-se a falar sobre a importância dos trabalhos da ONG:
"É muito importante você ter seu sonho... Eu comecei a trabalhar com 13 anos e não tinha nada. Precisamos sonhar", disse Gisele, que também acompanhou apresentações de dança dos adolescentes do Liceu e posou para fotos junto com os jovens.
Neste Carnaval em Salvador, Gisele tem presença confirmada apenas no camarote de Daniela Mercury, que tem entre os patrocinadores a Credicard.
(Por Cesar Bianconi)
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6:59 PM
by Cassiano Leonel Drum
Sexta, 28 de fevereiro de 2003, 17h41
Gaúchos optam por praias brasileiras no Carnaval
A capital gaúcha começa a ficar vazia, com a proximidade do Carnaval. Na manhã de hoje, o movimento foi fraco no Aeroporto Internacional Salgado Filho. Cerca de 6.700 pessoas devem voar para outros Estados, hoje e amanhã. Os destinos mais procurados são Florianópolis, Rio de Janeiro e Salvador. Alguns passageiros optaram por Buenos Aires, na Argentina e Montevidéu, no Uruguai. Entretanto, a maior procura dos gaúchos foi pelas praias brasileiras.
Das 80 mil pessoas que deixarão a capital neste feriado, pela rodoviária, 60 mil pessoas optaram pelas praias do Litoral Norte. A procura maior aconteceu no final da manhã de hoje e deverá aumentar à noite. Segundo a direção da Estação Rodoviária, a metade dos 700 ônibus extras já estão ocupados. Ainda existem passagens disponíveis.
Até o meio-dia de hoje, 7.500 carros passaram pela freeway estrada que leva às praias e ao interior do Estado. Segundo a concessionária que administra as rodovias, a expectativa é que até o final do dia, passe pela freeway mais de 50 mil carros. Cerca de 500 mil pessoas devem deixar Porto Alegre.
Nas praias do Litoral gaúcho, o tempo é bom, com temperaturas que atingem mais de 30 graus. Nos hotéis, ainda há vagas e a expectativa, segundo os hoteleiros, é que a ocupação chegue a 90% no período de Carnaval.
Nas repartições públicas, as atividades encerram nesta sexta-feira, retornando às 13h de quarta-feira. O transporte coletivo irá funcionar no período com 700 ônibus, excluindo sábado e segunda-feira, quando circulam mil veículos. A terça-feira terá Passe Livre. Quem viaja para o Litoral e interior do Estado, contará com reforço no policiamento nas rodovias gaúchas.
O Batalhão da Polícia Rodoviária Estadual contará com 126 patrulheiros, 16 motocicletas e 20 viaturas de rádio-patrulhamento. A PRE quer coibir o excesso de velocidade, ultrapassagens em locais proibidos e embriaguez ao volante. Já a Polícia Rodoviária Federal (PRF) iniciou a operação "tapa-buracos", com pintura na sinalização vertical no trecho de 100 km da BR-101, no Litoral Norte. Serão 12 viaturas e 18 policiais fazendo rondas diárias.
Os patrulheiros pedem aos foliões respeito à sinalização e respeitar o limite de velocidade neste Carnaval. A Operação Golfinho da Brigada Militar colocou 1100 homens no salvamento nas praias e nas ruas do litoral gaúcho. Em Porto Alegre, a Brigada Militar colocou um reforço de 350 homens no policiamento da capital, a pé e a cavalo. Também haverá reforço no entorno da Avenida Augusto de Carvalho, onde acontece os desfiles das Escolas de Samba.
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12:31 PM
by Cassiano Leonel Drum
Se a moda pega por aqui vai ser fantástico até porque esta temperatura incentiva a este tipo de protesto. Fica ai a sugestão para os líderes de movimento.
SANTIAGO, 28 fev (AFP) - Uma recém-criada Frente Ampla de Jovens contra a Guerra no Iraque encabeçará este sábado um protesto que pretende reunir mais de 2.000 manifestantes nus no Parque Florestal de Santiago do Chile, informaram esta sexta-feira seus dirigentes.
O protesto "nu" se junta a outras manifestações das duas últimas semanas nesta capital, para exigir que o Chile não apóie o provável ataque ao Iraque, a ser decidido no Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao qual se integrou em janeiro passado como membro não permanente.
"Nós vamos tirar a roupa para nos unir na pureza e na simplicidade em um protesto contra a violência da guerra", disse à AFP Francisco Elgueta, um dos porta-vozes do grupo que convocou a nova manifestação.
O Parque Florestal, situado no raio central de Santiago, é o mesmo cenário onde o fotógrafo norte-americano Spencer Tunick concentrou mais de 3.000 homens e mulheres que posaram para sua câmara inteiramente nus, no dia 30 de junho de 2002.
"Mas esta não será uma fotografia artística e sim uma manifestação pacífica em favor da paz", precisou o dirigente.
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12:19 PM
by Cassiano Leonel Drum
Bom seria super chato indexar o salário dos deputados ao salário mínimo, por exemplo, então é melhor indexar a média dos salários do servidor publico. Imaginem um deputado federal ganhando em torno de 330 salários mínimos. Não está errado. Não é 3, 3 nem 33, é exatamente trezentos e trinta salários. Que chato assim na véspera de carnaval, até parece bricandeira de algum bloco. Do bloco da Câmara Federal.
Mais um aumento para os deputados
Sob comando do PT, Câmara amplia verba de gabinete para R$ 35 mil
BRASÍLIA - Em dezembro, eles aumentaram os salários de R$ 8 mil para R$ 12.700. No mês passado, ampliaram em R$ 5 mil a verba para o pagamento das despesas nos Estados. Ontem, deputados federais conseguiram aprovar mais um reajuste em causa própria: elevaram de R$ 25 mil para R$ 35 mil a verba de gabinete para o pagamento de funcionários um aumento de 40%. Os benefícios não param por aí: eles corrigiram também em 40% gastos com passagens aéreas e em 10,5% a cota para envio de correspondências. Agora, cada um dos 513 parlamentares terá direito a pelo menos R$ 66,92 mil por mês, fora passagens.
Se considerar a situação do País, não é uma decisão tranqüila, mas necessária, argumentou o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP). João Paulo foi aplaudido por quase 150 deputados no plenário quando anunciou a decisão da Mesa Diretora pelo reajuste.
A verba de gabinete, na maioria das vezes, é empregada na contratação de parentes dos deputados para os melhores salários, que variam de R$ 1 mil a R$ 6 mil. Com a mudança, os parlamentares poderão empregar 20 funcionários, dois a mais que na outra legislatura. Os gastos da Câmara aumentaram em R$ 61, 3 milhões por ano com mais esses benefícios, quase 10% do valor necessário para pagar o 13º dos servidores do Rio.
Segundo o corregedor da Câmara, Luiz Piauhylino (PSDB-PE), o aumento de ontem havia sido aprovado na legislatura passada. Só não tinha entrado em vigor no ano passado porque a Lei de Responsabilidade Fiscal impede que o aumento salarial do funcionalismo ocorra no fim da legislatura. João Paulo queria dividir o aumento em duas parcelas, mas foi convencido pelos colegas que seria melhor sofrer o desgaste político de uma só vez.
Ao dizer que foi uma decisão da Mesa, sem fugir da responsabilidade, João Paulo mostrou que tem caráter¿, elogiou o deputado Roberto Brant (PFL-MG), ministro da Previdência no governo de Fernando Henrique Cardoso. Roberto Jefferson (PTB-RJ) também comemorou: ¿Depois desse aumento, quem for apanhado fazendo negócio com traficante tem de ser degolado.
Mas nem todos acharam graça, já que o País enfrenta crise econômica. Quer dizer que o João Paulo foi aplaudido? Ah, devem estar achando que o aumento da verba casa bem com o Carnaval, disse o deputado Chico Alencar (PT-RJ). O petista quer apresentar projeto para indexar o aumento de salário dos parlamentares à média de reajuste do funcionalismo público nos últimos quatro anos.
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9:47 AM
by Cassiano Leonel Drum
Qualquer pessoa sabe que quando está devendo muito, deve vender seu patrimônio para pagar suas dívidas, senão os juros que a mesma acarreta acaba as levando a insolvência pessoal. Isso é se vender tudo, ainda não consegue pagá-la na sua totalidade.
Ora o Governo Federal vendeu inúmeras empresas que eram suas, todo o setor elétrico praticamente foi vendido e o de telefonia idem, exatamente para quê? Para abater na sua dívida, só que misteriosamente ao invés dela baixar ela só fêz subir. A CAIXA, mesmo vendeu praticamente todos os seus prédios de uso próprio e comprometeu-se com os compradores de pagar aluguel pelos próximos dez anos. Fazendo assim que ao fim deste tempo, praticamente, o comprador tivesse o retorno de seu capital investido.
Bom o destino desses recursos não é divulgado, assim como não foi o da venda das estatais. Então 568 milhões por dia, fazendo bem a conta só no carnaval de quatro dias, nós pagaremos 2,4 bilhões de juros. E os bancos, os quais são os principais financiadores desta dívida, estão de sorriso largo, também pudera!
28.02.2003, 09h30
Correio Braziliense - Vicente Nunes
R$ 500 milhões de juros por dia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um desabafo ontem à bancada de parlamentares do Rio, com a qual se reuniu para falar sobre a violência no estado: ¿¿Fico angustiado cada vez que sou informado de que o juros têm que aumentar mais meio por cento¿¿. Lula sente-se angustiado porque tal política contraria tudo o que sempre pregou na campanha. Ele sabe que juros altos travam o crescimento, estimulam o desemprego e engolem a renda dos trabalhadores. Em quase dois meses de governo, no entanto, o Banco Central de Lula aumentou duas vezes a taxa básica de juros. Primeiro, a Selic subiu de 25% para 25,5% ao ano. Depois, para 26,5%.
Se essa é uma das angústias de Lula, ontem foi dia de o presidente vê-la multiplicada. A primeira fatura da alta dos juros foi divulgada pelo Banco Central. Apenas em janeiro, os gastos com juros totalizaram R$ 17,632 bilhões, praticamente o mesmo valor do rombo registrado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no ano passado. A cada dia de janeiro, incluindo sábados e domingos, os desembolsos com juros somaram R$ 568,774 milhões, mais de 12 vezes o que o Ministério dos Esportes, depois dos cortes no Orçamento, terá para gastar este ano. Em janeiro de 2002, último ano da administração de Fernando Henrique Cardoso, as despesas com a dívida pública chegaram a R$ 8,045 bilhões, menos da metade do que foi gasto por Lula.
¿¿É importante ressaltar que o atual governo não tem culpa pelo aumento dos gastos com juros. Ele reflete o tamanho da dívida que foi herdada. Os juros incidem sobre o estoque da dívida¿¿, explica José Henrique Dias de Carvalho, chefe da Divisão de Finanças Públicas do Departamento Econômico do BC. No ano passado, a dívida pública cresceu R$ 220,241 bilhões, inflada pela perversa combinação de juros altos com uma brutal desvalorização do real ante ao dólar. Metade do endividamento brasileiro é corrigida pela variação da moeda americana.
Compromissos
A situação da dívida pública é tão preocupante que, apesar de o governo ter registrado superávit primário recorde em janeiro, de R$ 8,463 bilhões, o equivalente a 7,01% do Produto Interno Bruto (PIB), o país ainda fechou o mês com um rombo de R$ 9,169 bilhões. No cálculo do superávit primário entram todas as receitas e despesas do governo, exceto os gastos com juros. É essa sobra de dinheiro que o governo usa para pagar juros e impedir um aumento maior da dívida. Não fosse esse superávit e a inflação, que corrige o PIB, o endividamento líquido do governo, que aumentou R$ 7,787 bilhões e bateu em R$ 888,895 bilhões, teria disparado em relação ao Produto. A relação da dívida com o PIB, que está em 55,9%, é a principal referência dos investidores para medir a capacidade do governo de cumprir seus compromissos em dia.
Segundo o economista do BC, a maior parte do superávit primário foi garantida pelo governo federal. Com a determinação para que todos os ministérios suspendessem as licitações e as contratações de pessoal, até que fossem definidas as prioridades de cada área, as despesas caíram em janeiro. O recuo nos gastos com o funcionamento da máquina pública (custeio e capital) chegou a R$ 5,3 bilhões quando comparados a dezembro. As despesas com pessoal, por sua vez, caíram R$ 1,3 bilhão. Nesse último caso a explicação é óbvia: no último mês do ano, o funcionalismo público recebe parte do 13º salário. O superávit de estados e municípios foi de R$ 2,341 bilhões, o maior desde que o BC começou a divulgar tais informações, em 1991. As estatais, com o pagamento de royalties e de dividendos pela Petrobras, contabilizaram déficit de R$ 1,129 bilhão.
A fatura de janeiro
R$ 1,163 trilhão
Foi em quanto bateu a dívida bruta do governo no último dia 31
R$ 888,895 bilhões
Foi a totalização da dívida líquida do setor público no mês passado
R$ 17,632 bilhões
Foi quanto o BC pagou de juros no primeiro mês de Lula
R$ 8,463 bilhões
Foi a economia do governo, inclusive com cortes na área social, para pagar juros
R$ 9,169 bilhões
Foi o rombo que restou depois do pagamento dos juros
R$ 568,774 milhões
Foi o gasto diário com juros, incluindo os sábados e domingos
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9:26 AM
by Cassiano Leonel Drum
Acredito que a Dora kraemer conseguiu na crônica abaixo que transcrevo para vocês efetivamente colocar o que acontece no Rio. E assim a população efetivamente está refém, porque fica difícil saber quem na realidade é mais bandido.
Dora Kraemer
Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2003
A toalha do Rio foi ao chão
O reconhecimento, pelo ministro da Justiça, de que o crime organizado impôs o "toque de recolher" ao Rio de Janeiro mostra que, na avaliação do governo federal, o Estado está sem comando.
Márcio Thomaz Bastos justificou o envio de tropas federais ao Rio, "em caráter emergencial", dizendo que a tranqüilidade da população está comprometida. Surpreendentemente, mas obviamente não por acaso, usou a expressão "toque de recolher", instrumento que não consta na Constituição nem para o uso da República brasileira nos casos de estado de defesa e de sítio.
O Ministério da Justiça mantém as aparências constitucionais de que a iniciativa das providências está nas mãos da governadora Rosângela Matheus, mas é evidente a convicção de que o Rio jogou a toalha, admite que não dispõe de uma política para garantir a segurança pública.
Essa certeza tomou conta do governo federal já no dia seguinte ao início da onda de terror espalhada pelo narcotráfico, na segunda-feira.
Tanto que a decisão de transferir o traficante Luiz Fernando da Costa para São Paulo já estava tomada muitas horas antes de o ministro se reunir com a governadora, na quarta-feira à noite.
Pouco antes das 18 horas daquele dia, o ministro viajou para o Rio, onde se reuniu com a cúpula do governo do Estado e da área de segurança. Ao final do encontro, foi anunciada a transferência do traficante, decisão esta que, no Ministério da Justiça, era conhecida desde as 15 horas.
A partir daí, o ministro reuniu-se com o presidente da República para, segundo informações do governo, elaborar um pacote de medidas de combate ao crime.
Pelo que se viu do pronunciamento de Márcio Thomaz Bastos ontem no início da tarde, quando foram anunciadas apenas ações emergenciais, de duas, uma: ou aquelas informações eram precipitadas ou houve um recuo temporário a fim de evitar a divulgação de mais um daqueles pacotes ineficazes que fizeram o descrédito do governo anterior na questão da segurança.
Pela referência do ministro ao comprometimento da tranqüilidade da população e o reconhecimento da existência de um toque de recolher, em tese, haveria motivo para intervenção federal.
O artigo 34 da Constituição, que trata do assunto, diz que a intervenção nos Estados é permitida, entre outras razões, para "pôr termo a grave comprometimento da ordem pública".
As justificativas alegadas para o envio de tropas federais - medida inicialmente rejeitada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva - inserem-se perfeitamente naquele artigo. Ainda mais que o ministro não se referiu a ocorrências em pontos isolados, mas no Estado como um todo.
Uma intervenção, no entanto, não é um ato sem conseqüências graves. De um lado, resulta no aumento da fragilidade da autoridade local, o que poderia fortalecer ainda mais a posição dos narcotraficantes e, de outro, qualquer intervenção suspende a prerrogativa do Congresso de votar emendas constitucionais. E delas depende boa parte das reformas pretendidas pelo governo.
Ainda assim, em Brasília considera-se que existam formas de, na prática, manter o Estado caudatário das decisões federais sem ferir a lei nem a autoridade do poder público estadual. Uma delas é condicionar a ajuda à obrigatoriedade de reformulação das polícias e do cumprimento de regras no sistema prisional.
Ainda que não tenha conhecimento detalhado sobre o que se passa nos subterrâneos das relações entre polícia e bandido no Rio, o ministro da Justiça tem ao seu lado o secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, que fez parte da equipe de Anthony Garotinho.
Os desentendimentos dele com o ex-governador não permitem agora que funcione como interlocutor com o Palácio Guanabara, mas seus conhecimentos o credenciam no assessoramento ao Palácio do Planalto.
Pode contribuir para fornecer ao governo federal uma noção bastante clara de que alguma coisa anda muito errada num aparelho estatal de segurança que permite a livre convivência entre líderes de facções criminosas dentro da prisão, não consegue impedir a entrada de armas, drogas e equipamentos de comunicação e, no momento do confronto, reage proibindo os presidiários de receber amigos, tomar sol e ver TV.
Uma polícia cujas devassas em presídios são sempre desmoralizadas pela renitente imposição do domínio da criminalidade dentro e fora deles, autoridades de fala forte e pulso fraco, incapazes de isolar um só bandido, francamente, não podem ser mantidas à frente de qualquer ação séria de enfrentamento. A não ser como poder de fachada.
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9:18 AM
by Cassiano Leonel Drum
Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2003
Diga não ao fogão
De janeiro de 1995 a dezembro de 2002, oito anos corridos do governo FHC, a inflação medida pelo IPCA, índice das metas oficiais, acumulou ponta a ponta elevação de exatos 100,7%. Muito ou pouco? Pouco para a cultura inflacionista da Botocúndia (que se contentou com 84% ao mês no último suspiro do governo Sarney). Muito para um rarefeito programa de estabilização, ainda distante da estabilidade.
O importante é dar uma espiada na autópsia desse índice já arquivado. Nas vísceras dele, os tumores não removidos da (re)indexação de contratos e tarifas monitorados pelos três níveis de governo. Ou seja: os preços praticados livremente pelo mercado, sob o chicote da concorrência e da substituição, acumularam naquele mesmo período remarcações ponta a ponta abaixo de 70%. Já os chamados preços administrados, com peso ao redor de 30 na estrutura do IPCA, simplesmente deram uma banana nanica e um abacaxi pérola aos esforços coletivos pela estabilização do real.
Falam os números indecentes: em oito anos, para aquele IPCA de 100,7%, os preços regulados por contrato e/ou por imperícia subiram nada menos de 228,3%. Entre outros, a gasolina nossa de cada dia cravou 261,7%. O transporte coletivo nas sete maiores metrópoles deixou-se remarcar em 274,8%. A conta da força e da luz a domicílio emplacou 262,1%. Com apagão de contrapeso.
E o que dizer da telefonia fixa? As linhas instaladas duplicaram no período de 19 milhões para 38 milhões, mas as tarifas totalizaram reajustes contratuais de 509,7%. Mas o campeão da inflação por decreto acabou sendo, caprichosamente, o único item de consumo presente simultaneamente em 97% dos lares brasileiros: o gás de botijão. Remarcação acumulada (até aqui não explicada e muito menos justificada) de 500,69%, do Plano Real até o mês passado, segundo a Fipe. Por enquanto.
Pois tome o governo Lula, a bordo dessa "herança maldita", acionando uma divisão estritamente técnica, o Banco Central, para um apelo político a todos os brasileiros: "Digam não à inflação!" Está na ata do Copom, divulgada quarta-feira, para explicar e justificar o novo arrocho monetário no rodapé do novo ciclone inflacionário.
Em vez de o presidente Lula aparecer em rede nacional de rádio e televisão, às 20 horas, para legitimar em dois minutos um "pacto social contra a inflação", a cruzada palaciana apelou para um dispositivo inodoro e insípido de exortação acaciana: "O Copom avalia que, além dos efeitos diretos da política monetária (...), são importantes as reações da sociedade contra a inflação, para propiciar um recuo mais significativo da variação dos preços."
Primeiro: arrocho no crédito e juros no alto e em alta não produzem "efeitos diretos". A menos que se admita como adequado combater inflação típica de custos com elevação dos encargos financeiros da produção e do consumo. Segundo: o reator da reinflação do IPCA, agora na bitola gregoriana de dois dígitos, está nos preços de governo e não nos preços de mercado.
Quem é que vai dizer não ao gás de fogão?
SECOS & MOLHADOS
Duas frentes - Não bastaria desencantar os preços administrados - pelo desacato de contratos de concessão. Seria igualmente preciso arrancar as unhas da mão-de-gato da dolarização. Seja a dolarização natural de preços privados, seja a dolarização espúria de preços públicos. Caso da "lógica de mercado" da estatal Petrobrás.
No desmanche - Na dolarização dos preços privados, nada tem o governo a fazer no bloco dos importados. Os consumidores já estão há três anos travando o repasse de um bocado de "ajustes cambiais" em tabelas de fábrica e em vitrines de loja. Há mercados literalmente em escombros, com retração de demanda da ordem de 10 para 1.
Por que não? - Duro de deglutir tem sido a dolarização sem remorso de festejados produtos de exportação. Em especial aço, papel, açúcar e óleo de soja. Em países atentos, sob certas condições, há taxação sobre exportação.
De caráter emergencial ou regulatório - vulgo confisco cambial.
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9:14 AM
by Cassiano Leonel Drum
É incrível como divulgam números e mais números. Que mais 3 000 homens das Forças Armadas estão ajundando a não sei quanto mil homens da brigada e da Polícia Civil do Rio e aí meia dúzia de delinqüentes continua todos as madrugadas a incendiar ônibus e a tirotear com esses policiais e a bagunça continua.
Será que são tão corajosos estes bandidos que fazem e acontecem ou será que não quer-se fazer nada mesmo e ao contrário discutir-se a qualidade da cocaína?
Paulo Sant'ana
28/02/2003
Cidade encurralada
Rio
Nota-se claramente o despreparo do secretário da Segurança do Rio de Janeiro, Josias Quintal, para seu cargo.
Na terça-feira, um dia após o auge dos atentados contra ônibus, comércio e residências, que foram incendiados e metralhados, ele concedia entrevista à imprensa, afirmando que o segundo dia tinha sido tranqüilo no Rio.
Estava totalmente desinformado. Embora em menor escala, graves ataques dos traficantes tinham se verificado, ônibus novamente incendiados, o Shopping da Penha havia sido metralhado, travaram-se tiroteios entre a polícia e traficantes durante os distúrbios.
Depois de desculpar-se pela total desinformação sobre seu setor, o secretário Josias Quintal saiu-se com uma pérola na entrevista: "Essas ações acontecem porque os traficantes estão se descapitalizando por causa da ação enérgica da polícia. Temos informações inclusive de que a droga que chega hoje ao Estado do Rio não é de boa qualidade. Os viciados precisam tomar cuidado".
É inacreditável o que disse o secretário. Em pleno Rio de Janeiro encurralado pelo tráfico, com a população amedrontada e deixando de sair às ruas, ele se preocupa com o controle de qualidade da cocaína.
E pede aos viciados que se cuidem, a cocaína que está chegando não é boa.
Parece até aquelas pessoas que em Porto Alegre advertem a população para que tenha cuidado com a gasolina mais barata, ao que tudo indica ela é falsificada.
Que país é este em que a gasolina e a cocaína não são genuínas, traficantes e alguns donos de postos impõem engodo aos consumidores?
O aviso do secretário aos consumidores de que tenham cuidado com a cocaína que está sendo atualmente vendida é de cabo-de-esquadra.
Vale dizer que, logo que a cocaína posta em venda tiver melhora de qualidade, o secretário tranqüilizará os viciados e autorizará que eles a comprem sem qualquer preocupação.
O secretário monitora a qualidade da cocaína, embora não tenha qualquer controle repressivo sobre sua distribuição.
E ao que parece, enquanto a cocaína era de boa qualidade, o secretário não fez qualquer advertência aos consumidores sobre seu uso nocivo e ilícito.
Qual a importância de a Secretaria da Segurança ter detectado que a cocaína não é pura? Pura ou falsificada, é cocaína.
No máximo, essa informação teria de ser usada pela Secretaria da Saúde. Mesmo assim, só falta a Secretaria da Saúde colar selos de qualidade nos papelotes da cocaína.
Na marcha que vai, chegamos lá.
Estou no Rio de Janeiro para cobrir os desfiles da Sapucaí pela Rádio Gaúcha, integrando a equipe comandada pelo Cláudio Brito.
Sinto em toda a parte o medo da população e o terror dos comerciantes.
Não se divulga, mas dois terços da região metropolitana carioca estão sob o controle do tráfico de drogas.
Restam apenas sob não-domínio dos bandidos a Zona Sul e o Centro, mas seguidamente recebem sortidas dos delinqüentes.
Os cariocas são praticamente reféns do tráfico. É um estado geral de perplexidade e medo.
A ordem pública é hipócrita: só a Zona Sul, freqüentada pelos turistas, ainda guarda uma aparência de normalidade. É o último reduto sob ordem, visivelmente para proteger os turistas. Porque quem não é turista há muito tempo foi submetido.
Mas também a Zona Sul está acuada pelo medo.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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9:04 AM
by Cassiano Leonel Drum
Bom a cantaridina, deve ser o princípio ativo do viagra ou outros do genero, e serve para a gente ver que naquele tempo já havia esses estimulantes. Como a medicina também copia! Claro, além de criar evidentemente que é o seu trabalho de pesquisa.
David Coimbra
28/02/2003
A sogra
Cantárides é o nome de uma preciosa mosca espanhola. Capturada em razoável quantidade, suas pequenas e delgadas asas são separadas do corpo e postas para secar. Depois de esturricadas, as miríades de asinhas são moídas com critério e cautela, até se transformarem em pó. A esse produto se dá o nome de cantaridina, um afrodisíaco mais do que poderoso: violento.
Quem muito se valia da cantaridina era ninguém menos do que o Marquês de Sade. Mas não a consumia ele próprio. Sade organizava festas e servia aos convidados, sobretudo às convidadas, confeitos de chocolate recheados com o pó mágico. Há descrições desses convescotes, de como os bailes degeneravam em orgias, de como as mulheres mais pudicas rasgavam as vestes, na ânsia do prazer, não resistindo ao furor uterino que as abrasava. O historiador francês Dulaure um dia escreveu sobre uma dessas reuniões:
"E então o Marquês de Sade serviu-lhes licores, cantaridina e tudo o que podia excitar-lhes seu temperamento, e acendeu-lhes no sangue o fogo da sensualidade a tal ponto que, devoradas por uma excessiva ninfomania, o prazer tornou-se para elas não somente uma necessidade, como o remédio para mitigar um mal real e perigoso".
Que coisa.
Todas essas histórias ajudavam a forjar o mito libertino do Marquês de Sade. E quem mais se empenhava para propalá-los, o mito e as histórias, era... a sogra de Sade! Ela o odiava. Tinha suas razões, creio. Uma sogra amorosa é uma bênção, bem sei disso, que tive uma de quem gosto demais. Mas uma sogra azeda pode levar um homem ao desespero, como levou Sade a anos de encarceramento num castelo-masmorra.
A propaganda negativa feita pela sogra e por todos os que odiavam Sade, que não eram poucos, isso tudo o transformou no ícone da luxúria por todos os tempos. Que ele era dissoluto, disso não há dúvida, e ele não negava. Mas seus crimes teriam sido tão maiores assim do que os de outros homens licenciosos do século 18, o século da licenciosidade?
A sociedade tem a tendência de demonizar ou endeusar os homens. Agora mesmo, parece que o Fernandinho Beira-Mar é o único responsável pela rebelião do narcotráfico, no Rio. Mas será que, contido Beira-Mar, outros não assumirão o controle do crime organizado e não vão continuar suas ações com a mesma eficiência? O problema da violência carioca e brasileira está além e acima do indivíduo, passa por todos os dramas que não conseguimos resolver, sobretudo o drama da Educação com E maiúsculo. Ou se coloca os fernandinhos na escola, ou eles acabarão na cadeia. Fernandinho Beira-Mar é menos do que se pensa. Vai ver, essa fama até é coisa da sogra dele.
david.coimbra@zerohora.com.br
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8:57 AM
by Cassiano Leonel Drum
Litoral
Sufoco na cidade, festa na praia
No quinta-feira em que o consumo de energia bateu novo recorde no Estado, uma multidão lotou as praias gaúchas e aproveitou a água quente do mar até o fim da tarde, como estas garotas de Capão da Canoa (foto Emílio Pedroso/ZH)
Quinta-feira, Fevereiro 27, 2003
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11:56 PM
by Cassiano Leonel Drum
Como já estamos a dez minutos da véspra de feriadão, que aliás muitos já estão fazendo por antecipação, também encerro esta página por hoje, desejando que fiquem com os anjinhos de cada um, nada de misturar anjinhos, como se faz no carnaval. E é evidente que seguindo a tendência e mais 80 mil pessoas de POA, que vão viajar de ônibus neste carnaval eu também devo sair um pouco, até porque estarei de folga durante toda a semana que vem, mas para onde for, com certeza poderei entrar em contato com voces. Durmam bem e até.
A l b a
Geir Campos
Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste ¿ o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.
O AUTOR ¿ Capixaba (1924/1999), Geir Campos foi poeta, contista e professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Traduziu, entre outros, Rilke, Brecht e Walt Whitman.
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3:41 PM
by Cassiano Leonel Drum

TOP DAS 5 COISAS QUE REALMENTE DEVO AGRADECER
1 - Imagem: Pelas imagens que me cativam, que me assustam que eu guardo na memória, que eu vejo e revejo incansavelmente, imagens de letras num espaço, num todo, de figuras humanas, de abstratos do consciente e subconsciente meu e de outros. Da imagem que diz muito mais que mil palavras, como as charges que post aqui todos os domingos. Imagem que choca, imagens que decodificam mundos tornando-os mais homogêneos na minha visão.
2 - Leitura: Esta que me proporciona viagens longínquas sem se quer me mover do lugar, que me mostra outros prismas do mundo, me trás fantasias, conhecimentos... Poemas, Romances, Sociologia, Psicologia, Teorias e mais teorias. Que me aguça todos os sentidos ao extremo, me fazendo rir, chorar, me preocupar ¿ leituras que me prendem a atenção, que me ganham por inteiro. Leituras que desvendam o mundo com todos os sabores.
3 - Música: Á música que me transforma, que me descreve, que me despe e me possui, que me nina e mima, que me envolve, que me anima, as músicas que me tomam como num transe, que justifica minhas lágrimas, meus saltos de felicidade, minhas reboladas em público. Também agradeço àquela música que me fere, que fura os tímpanos, me irrita... para estas devo dar meu agradecimento especial, por me fazer admirar cada vez mais e mais as que escolho para agradar aos meus ouvidos e ao meu todo.
4 - Telefone/Computador-Internet: É, foi além de um objeto, já entrou na vivência ¿ Por me aproximar de pessoas que desconhecia a existência, por me permitir conhecê-las e apresentar-me também. Por transformar milhares de quilometros em frações de segundos, quebrando assim a enorme barreira da distância, por diversas sensações e reações que tive e que terei ainda na presença de apenas um objeto. E principalmente aos amigos que conheci e que mantenho por estes meios!
5 - Free Ultra-Lights/Aturgyl (infantil): Ao primeiro por me matar aos poucos e me lembrar de que estou vivo; ás companhias na hora do desespero, desabafo, nervosismo, alegria; solidão ¿ ao ombro, colo, abraço beijo, cafuné... que não tive na hora que precisei e que ele camuflou a necessidade disso. E ao seguindo, por me acompanhar onde quer que eu vá para me dar um alívio dando acesso para a livre passagem do ar que respiro, pelas noites de sono tranqüilas!
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3:38 PM
by Cassiano Leonel Drum
Cada abismo é o reverso de uma montanha
Alice, eternamente curiosa e menina, já demonstrou que tudo neste mundo tem dois lados, anverso e reverso, até mesmo o espelho com seus enganosos reflexos. E muito tempo antes dessa Alice ter visitado aquela assustadora Terra de Maravilhas, um pensador egípcio chamado Hermes Trimegistos já afirmava: ¿O que está embaixo é como o que está em cima¿.
Cada um e tudo, portanto, tem o seu par oposto; o universo é inteiramente alinhavado com incontáveis pares de opostos: Luz e Escuridão, Cheio e Vazio, Leve e Pesado, Dentro e Fora, Princípio e Fim, Bem e Mal, Sim e Não... Interessante é que, segundo os sábios patriarcas chineses, anverso e reverso compõem uma coisa só, única, proveniente de um mesmo lugar: ¿Todos os pares de opostos vêm da Grande Mente Búdica¿ ¿ ensinava Seng Ts¿an, o venerando mestre Zen.
E completava com um conselho: ¿Aceita com dócil resignação a existência dos opostos!¿ Ah... precisamos aceitar, eu sei, mas é tão imensamente difícil aceitar os antagonismos que nos ferem ou perturbam! Escolho, então, partir da afirmação de Hermes Trimegistos, para depois tentar chegar à serena aceitação aconselhada pelo mestre Seng Ts¿an. Primeiramente vou considerar que todas as perdições são o reverso de todos os encontros; todo o ódio humano é o reverso do amor mais sublime, todo abismo é o reverso de uma montanha.
Inacreditável, mas analisando dessa forma agora, tudo parece ter ficado um pouco mais claro, mais atingível e consolador. Se Luz e Escuridão são inseparáveis pares de opostos... estando eu mergulhado em sombras, não seria tão inteligente de minha parte tentar dissolver diretamente essas sombras, e sim eu mesmo mudar-me para o outro lado, para o lado oposto ¿ como o fez a atrevida Alice ao cair de boca em Wonderland. Dissolver a escuridão, ainda que fosse possível, daria muito trabalho e levaria um tempo absurdo!
Também e além disso, bastaria que uma mãozinha safada apertasse um botão de comutador, ou soprasse minha vela de chama bruxuleante, para que a escuridão voltasse a reinar em mim, soberana. Melhor, bem melhor, a alternativa da mudança de lado... Porém surge agora mais um problema: os sábios mestres Zen também afirmam que se fiar nos movimentos é entregar-se a uma ilusão; a quietude absoluta da mente seria o único caminho perfeito (verdadeiro) para a Felicidade, para a Iluminação. É... quando se pensa ter agarrado a solução correta...
Ah! Mas um momento! Lembro-me agora do exemplo contido na história do próprio príncipe Siddartha, o Buda... Vivia ele deitado em rosas, tratado a mel e beijos, protegido de todo o mal, no entanto era infeliz dentro de si mesmo. Tinha bela esposa, um filho recém-nascido, mas continuava infeliz dentro de si mesmo. Então o que ele fez? Moveu-se. Abandonou todo o luxo e toda a proteção do palácio real, vestiu roupas as mais simples possíveis e partiu em busca da sua paz interior. Epa!!! Se Buda serviu-se do movimento para alcançar a quietude, a Iluminação... quem sou eu para tentar fazer de modo diferente?
Claro vai ficando e bem mais nítido enfim, as brumas começam a dissipar-se diante dos meus olhos... Sim, parece que estou sentindo aquela coisa esquisita que sentia Santo Agostinho toda vez que ficava a um milímetro de concluir algo muito importante. Preciso aceitar a existência dos abismos (não cair dentro deles) para que eles me revelem o seu anverso: as montanhas a que estão diretamente ligados! Preciso aceitar as minhas sombras, para que elas me revelem o seu anverso: as luzes a que estão diretamente ligadas.
Assim preciso aceitar meus conflitos, para que eles me revelem o seu anverso: a serenidade a que estão diretamente ligados... Movimento (Ação) é necessário, sim, ao menos foi necessário na busca de Buda. Movimento não é finalidade, originalmente, é apenas um meio, mas Buda não o dispensou. Depois do movimento, quem sabe cheguemos ao mais importante...
Obviamente valei-me, meu perseverante Santo Agostinho, com sua filosofia, sua esperança e sua fé... Acho que, afinal, a palavra salvadora tem nove letras, um rabicho e um telhadinho: ACEITAÇÃO!
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9:13 AM
by Cassiano Leonel Drum
O Prefeito atual que somente o é porque o Tarso Genro eleito para tal com a palavra empenhada de que não renunciaria, não há honrou, foi Presidente do Banrisul. Ora o Banrisul ainda é o único banco no centro da Capital que não possui estes entraves todos para os clientes que lá chegam. Porque na CAIXA ali do ladinho é aquele problema e aquele rosário de reclamações todos os dias.
Se porta de segurança inibisse assalto uma série de assaltos em que as portas ficam trancadas pondo em riscos os empregados que servem de reféns, muitas vezes, não teriam ocorrido.
E por que tem que ser giratória. Por que não de correr como são nos sistemas carcerários, com os mesmos detectores de metal. Isso é por que os fabricantes das giratórias fizeram um preço assim de barbada?
CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 27 DE FEVEREIRO DE 2003
Smov multa agências bancárias
Todas as 24 agências bancárias vistoriadas ontem na Capital pela Secretaria Municipal de Obras e Viação (Smov) foram multadas, em R$ 16 mil, por descumprirem a lei municipal que determina a colocação de portas giratórias, inclusive na área de auto-atendimento. As agências não cumpriram o prazo de 90 dias para adequação. Segundo o supervisor de Edificações e Controle da Smov, Paulo Soares, os bancos têm 30 dias úteis para colocar as portas.
Ele informou que o não atendimento do prazo implicará multa com o dobro do valor. Se dentro de 60 dias persistirem no descumprimento, poderão ter os alvarás de funcionamento cassados. A fiscalização deverá atingir as cerca de 300 agências bancárias da Capital. Até amanhã, a Smov irá vistoriar em torno de 70 unidades do Centro.
A Associação dos Bancos do RS pretende convocar reunião extraordinária para debater o assunto. Conforme o presidente da Comissão de Segurança Bancária, Jaci Meyer, a demora na colocação das portas se deve ao desconforto dos clientes. O diretor do Sindicato dos Bancários da Capital e Região, Ademir Wiederkehr, apóia a medida, que inibe assaltos e garante mais segurança.
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9:00 AM
by Cassiano Leonel Drum
Bom enquanto surgem novos concorrentes a tendência é de que os serviços melhorem e os preços sejam reduzidos e uma sugestão para a própria CAIXA, daqui há pouco buscar um comparativo, quem sabe não se reduz ai substancialmente as contas de telefone com a Embratel, ao invés da Brasiltelecom.
CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 27 DE FEVEREIRO DE 2003
Embratel lança telefonia local em Porto Alegre
Diretoria promoveu ontem o lançamento do novo serviço
A Embratel lançou ontem o seu serviço de telefonia local em Porto Alegre. O VipLine terá como foco inicial cerca de 500 grandes empresas da Capital, que deverão se beneficiar da modalidade. A opção também está sendo oferecida em outras 28 cidades brasileiras. A vice-presidente de Assuntos Locais e Assuntos Externos da Embratel, Purificación Carpinteyro, ressaltou que, em médio prazo, o projeto deverá ser estendido a pequenas e médias organizações e também ao mercado residencial. Em todo o país, cerca de 10 mil empresas poderão utilizar o serviço local.
A meta da Embratel é, em três anos, atender 35% das 40 mil grandes empresas que já utilizam seus serviços. O vice-presidente de Vendas Corporativas da empresa, Breno Kessler, destacou a competitividade do produto, devido à redução nos custos, e alertou para a possibilidade de tarifação por minuto, com identificação das chamadas locais, seu tempo de duração e gastos da ligação. Entre as promoções de lançamento do VipLine estão assinatura e DDR (discagem direta a ramais) gratuita nos três primeiros meses, além da entrega de contas distintas por centro de custo da empresa.
Kessler lembrou que a Embratel é a única do setor capaz de oferecer ligações telefônicas locais, de longa distância nacionais e internacionais, além dos serviços de comunicação de dados e Internet. Outra vantagem é a manutenção do mesmo número de telefone em todas as localidades, o que se tornou possível através de soluções encontradas em redes privativas.
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8:52 AM
by Cassiano Leonel Drum
Que, se fosse intentado, se pareceria com o Fome Zero: tanto não adianta combater-se a fome se se multiplicam os famintos por falta de controle da natalidade, quanto de nada adianta enfrentar-se os traficantes se se multiplicam geometricamente os drogados. É isso aí meu nobre Sant'Ana, atacam-se as conseqüências, mas não as causas e nem precisa ser douto para saber-se isso.
Paulo Sant'ana
27/02/2003
A pior ameaça
Chega a se ter tentação de dizer que o problema maior do Brasil não é a fome nem o desemprego. São as drogas.
A ONU acaba de publicar um relatório aterrorizador para nós, segundo o qual o Brasil se equipara a Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Venezuela em consumo, apreensões e exportações de cocaína.
Se fosse só pelo aspecto da industrialização, comercialização e consumo das drogas, esse dado constatado pela ONU não nos causaria tanto alarma.
O que no entanto infunde verdadeiro pavor é que o relatório afirma taxativamente que as drogas impulsionam o crime vertiginosamente no Brasil.
Nós todos nos perguntamos diariamente a que se deve esta onda de assaltos e seqüestros que invade o nosso cotidiano na Grande Porto Alegre e no Interior.
O relatório da ONU não tem a menor dúvida em responder: deve-se à proliferação incontida e progressiva das drogas.
Brasil e Venezuela aparecem no relatório como fornecedores de produtos químicos para a produção de drogas.
E o relatório adverte que a indústria das drogas ilícitas pode desestabilizar não somente o Estado e a economia, mas também a sociedade civil, como resultado do aumento da delinqüência, com guerra de quadrilhas, seqüestros e extorsões.
Outros efeitos da circulação de drogas são a degradação do capital social, a corrupção da ordem política, a prostituição.
Por aí se explica especificamente a série de atentados realizados por ordem e planejamento dos traficantes do Rio de Janeiro ao sistema de transportes, ao comércio e agora até a residências, transformando a Cidade Maravilhosa em tantas oportunidades em território sitiado e amedrontado.
E também se explica a acusação que motivou a renúncia do deputado federal Landim, envolvido numa indústria milionária de habeas corpus para traficantes.
Ou seja, as drogas vão apodrecendo o tecido social e tornando fracas as estruturas do Estado, criando um poder paralelo que destrói a ordem pública, vide o que acontece na Colômbia.
O pior de tudo isso é que o estímulo aos seqüestros e assaltos de toda ordem que as drogas provocam, com o encorajamento químico-emocional de marginais a esses atos violentos, que buscam também neles recursos financeiros para sustentar o seu vício, é que o sucesso das drogas se deve principalmente aos milhões de cidadãos que se tornam usuários das substâncias ilícitas, pessoas idôneas e membros cordatos da sociedade.
Ou seja, quem sustenta e remunera as drogas não são os criminosos, mas as pessoas comuns, de conceito ilibado.
Isso faz das drogas um problema praticamente insolúvel. Por se tratar sinistramente de uma questão de mercado.
O governo se sente impotente para decretar um Programa Drogas Zero.
Que, se fosse intentado, se pareceria com o Fome Zero: tanto não adianta combater-se a fome se se multiplicam os famintos por falta de controle da natalidade, quanto de nada adianta enfrentar-se os traficantes se se multiplicam geometricamente os drogados.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:45 AM
by Cassiano Leonel Drum
Entre as quais este ofício de juntar letrinhas para dar sentido à vida. Talvez nem seja trabalho, como sugerem as anotações legais. É muito mais um presente do destino esta varinha mágica da escrita, que me permite convocar todos os espectros do passado para este encontro ao mesmo tempo íntimo e público. E assim é com todos os que escrevem e arriscam a se expor para conhecidos e desconhecidos.
Nilson Souza
27/02/2003
Do diário de um preguiçoso
Levei um susto esta semana ao examinar minha coleção de Carteiras de Trabalho. Já vou para a quarta, todas devidamente preenchidas, com entradas, saídas, anotações de férias e tudo o mais. Da primeira delas, um jovem de cabelos arrepiados me olha curioso, como se perguntasse o que viria pela frente. Sei bem o que veio, mas não vou estragar-lhe a surpresa das descobertas.
Prefiro fazê-lo regredir no tempo e vou em sua companhia, como alguém que visita uma de suas vidas passadas. Vejo-o adolescente, chegando em casa depois de uma tarde de leitura num de seus refúgios preferidos - o galho mais confortável de uma figueira da vizinhança. Talvez por causa deste hábito, talvez por alguma outra característica de sua personalidade que nem eu nem ele conseguimos mais identificar, recebe no ambiente familiar, certamente por gozação, o título de "o mais preguiçoso da casa".
Quem pode imaginar o efeito de uma brincadeira dessas? Não há intervalos entre os registros profissionais. Desde que prestei serviço militar - num ano tão distante que nem ouso mencionar -, jamais fiquei três dias sem trabalhar. Os documentos mostram mais: cheguei a trabalhar em dois empregos ao mesmo tempo, sem deixar de freqüentar a faculdade. Não me perguntem como fazia isso. Só quem pode responder é aquele jovem de 20 anos, ansioso para provar que a preguiça da adolescência era apenas uma reserva de energia para o futuro.
E o futuro, posso revelar agora, reservava-nos surpresas maravilhosas - entre as quais este ofício de juntar letrinhas para dar sentido à vida. Talvez nem seja trabalho, como sugerem as anotações legais. É muito mais um presente do destino esta varinha mágica da escrita, que me permite convocar todos os espectros do passado para este encontro ao mesmo tempo íntimo e público. Abro minhas carteiras profissionais como quem abre o diário de uma vida - e percebo, agradecido, que todos os dias, as semanas, os meses e os anos foram muito bem preenchidos.
nilson.souza@zerohora.com.br
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8:38 AM
by Cassiano Leonel Drum
Pois é e ai a alta cúpula policial se reune no Rio e transfere o Fernandino Beira Mar para São Paulo. Mas quando estava em Brasília ele continuava mandando e se comunicando, imaginem logo de São Paulo, apesar de ser penitenciária de segurança maxima, os seus advogados vão continuar tendo contato fisico inclusive.
Luis Fernando Verissimo
27/02/2003
Nosso pânico
"Será que entre os presos deste país existe um que tenha cometido um crime mais hediondo do que matar uma nação de fome e na miséria", escreveu o filósofo mais influente do momento, o anônimo autor da carta distribuída a comerciantes antes do ataque orquestrado do "tráfico" ao Rio, na segunda-feira.
Difícil dizer o que assusta mais, o poder de mobilização e de fogo do crime, o que não é novidade, ou o tom político da sua última ameaça, que é inédito. Pois é aterrador pensar que só o que distingue vandalismo organizado de insurreição é o arranjo das palavras que acompanham os atos. Que só o que falta para banditismo virar revolução é um rótulo que grude, é a frase apropriada. Mais de um criminoso já explicou sua vida e seus crimes como um revide à sociedade desigual em que nasceu, já tivemos muitos aspirantes a Robin Hoods e a bandidos justiceiros entre nós e hoje nem o mais reacionário defensor da tese de que vagabundo nasce feito discute as causas sociais da delinqüência, mas o vocabulário da retribuição ainda não se articulou, ainda não achou a sua seqüência certa.
Você e eu, que somos pessoas conscientes mas sensatas (no Brasil não é fácil ser as duas coisas ao mesmo tempo) e já concluímos há muito que vivemos no meio de uma guerra civil crônica, ou já nos perguntamos muito "como é que essa gente não se revolta?", temos medo dizer isto com clareza para não contribuir para o clima de guerra, ou passar por defensor de assassinos, ou, num descuido, dar aos bandidos slogans prontos para transformar terror cotidiano em terror político, e aí como é que a gente fica? Nosso pânico é de que, junto com as armas de uso exclusivo das Forças Armadas, o "tráfico" passe a usar a retórica de uso exclusivo da esquerda, ou a nossa retórica da indignação sem a sensatez.
Não podemos nos arriscar nem a concordar com que as cadeias estão conspicuamente vazias de culpados pelo que foi feito à nação em anos de insensibilidade e descuido, para não alertá-los de que estão chegando perto de um discurso aproveitável de retribuição. Portanto: ssshhhh.
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