E N T R E L A Ç O S
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Sábado, Março 29, 2003


Monumento de elegância
Nicole Kidman perdeu Tom Cruise, mas ganhou o Oscar e o título de a mais chique das estrelas

Nicole no Oscar: alças assimétricas

Como a rainha que é, ela não deu a menor atenção ao grupo de fotógrafos credenciados para o reduzido tapete vermelho autorizado neste desglamourizado Oscar 2003. Os fotógrafos, em compensação, prestaram uma atenção danada naquela mulher que parece uma mistura de cisne com valquíria. Alta, magra, a tez alvíssima ressaltada pelo contraste com o vestido preto azulado de alças assimétricas assinado por Jean-Paul Gaultier, Nicole Kidman era a encarnação do chique ¿ aquela conjunção de fatores que funciona mais ou menos como a pornografia: ninguém sabe muito bem definir, mas quem vê logo reconhece. Aos 35 anos, solteiríssima depois do traumático divórcio de Tom Cruise, Nicole é hoje provavelmente a mais elegante estrela do cinema. Sem silicone, sem decotes escandalosos ou jóias idem (e de preferência calada, pois a vozinha infantil e o discurso desarticulado atrapalham o efeito), é a imagem do clássico contemporâneo. O Oscar de melhor atriz que ganhou pelo papel da escritora Virginia Woolf no filme As Horas merecia ser complementado por um troféu de a mais bem-vestida nos últimos cinco ou seis anos de festas de premiação do cinema.

"Ela tem um senso inato de estilo", derrama-se Andre Leon Talley, editor da Vogue americana, revista que a elegeu em 2002 a mulher mais bem-vestida do mundo. "Nicole trouxe de volta a Hollywood o bom gosto impecável dos tempos de Grace Kelly." A comparação com outra loira falsamente glacial que encarnou o oposto total da vulgaridade tantas vezes associada às atrizes de Hollywood é inevitável. Como Grace Kelly, Nicole dá a impressão de aumentar o quociente de classe de qualquer coisa que vista. Dotada do equipamento básico (um corpo de modelo: 1,80 metro de altura em míseros 54 quilos), demorou um pouco para desabrochar como paradigma de elegância e atriz de destaque. Durante boa parte de seus dez anos de casamento com Cruise, foi uma belíssima, mas meio apagada (apesar dos cabelos flamejantemente vermelhos), mulher de superastro. A reviravolta veio em 1999, com De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick. No lançamento do filme no Festival de Veneza, com um vestidinho cinza com fenda até o alto da coxa, foi seguida por lanchas de fotógrafos ensandecidos e causou o tipo de comoção que não deixava dúvida: nascia uma estrela. E começava a acabar um casamento. Tom Cruise pediu o divórcio em 2001, de maneira tão abrupta e agressiva que desencadeou todo tipo de boataria.

Nicole não só sobreviveu à separação e às fofocas como melhorou de guarda-roupa ¿ e muito mais de qualidade artística. Nestes dois anos de solteira, não parou de fazer filmes. Filmes revertem em pré-estréias, e cada uma é oportunidade para Nicole abafar. Só Moulin Rouge, de 2001, rendeu dezenas de modelos de grife desfilados com perfeito aplomb ¿ e, com um quê de vingança, muito salto agulha, como convém à esguia ex-mulher do baixinho Cruise. Dando início à febre de tops tipo espartilho que o figurino do filme provocou, ela compareceu à estréia mundial, no Festival de Cannes, com um modelo do gênero da grife Yves Saint Laurent, assinado pelo estilista Tom Ford. Em seu primeiro grande momento sem Cruise, apavorou-se diante da impressionante massa de fotógrafos e curiosos. "Saí do cinema e vi todas aquelas pessoas me olhando, toda aquela luz. Entrei em pânico. Não conseguia respirar", contou numa entrevista na qual confessou que morre de medo de máquina fotográfica. A irmã teve de levá-la ao banheiro e acalmá-la. Na festa seguinte, em Nova York, compareceu com um Gaultier preto coladíssimo ao corpo, cheio de recortes, ousadamente sensual. No Oscar do ano passado inverteu tudo e desfilou etérea como uma ninfa num simplíssimo e chiquérrimo Chanel clarinho.

Renée explode no modelo vermelho: altas grifes depois do sucesso em Chicago

Neste momento de glória, a única ameaça ao reinado de elegância de Nicole é outra novata no mundo do estilo requintado: a loirinha Renée Zellweger, 33 anos, que não sabe cantar nem dançar e mesmo assim capturou uma indicação ao Oscar por Chicago ¿ perdendo justamente para a rival australiana.

Na esteira do recente sucesso, Renée turbinou o guarda-roupa com altas grifes e vasta seleção de modelos vintage. Tudo chique, sofisticado, despojado. Seu longo vermelho do Oscar, assinado por Carolina Herrera e valorizado pelo penteado simples e nada de jóias, salvo um anel de rubi, foi eleito o mais bonito da noite. "Daqui para a frente, vamos ter de prestar atenção em tudo que Nicole e Renée usarem", decretou Andre Talley. "Essas duas vão ser o barômetro do chique."











E eles não foram felizes para sempre

Você deposita toda a sua esperança de felicidade no casamento? Bem, está na hora de rever esse conceito

Karina Pastore


"Minha mulher e eu tentamos tomar juntos o café-da-manhã, mas paramos antes que nosso casamento acabasse."
Winston Churchill (1874-1965), primeiro-ministro inglês

A vida andava um tanto aborrecida. No trabalho, a habitual monotonia. Os encontros com os amigos também já haviam perdido a graça. Nem ele nem ela estavam satisfeitos. Quando se conheceram, porém, tudo mudou. A partir daquele momento mágico, tanto para um quanto para o outro, a existência passou a ter sentido. Casaram-se, na convicção de que seriam felizes para sempre. Foram? Nos filmes, nos romances e nas novelas, sim, eles foram.

Na vida real, provavelmente, não. Um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, avaliou durante quinze anos o nível de satisfação pessoal de 24.000 homens e mulheres, antes e depois do casamento. Publicado na última edição do Journal of Personality and Social Psychology, revista da Sociedade Americana de Psicologia, o trabalho é um balde de água fria em quem (ainda) acredita que a felicidade só é possível quando se tem um homem para chamar de seu ou uma mulher para chamar de sua.

No início do estudo, os participantes tinham 25 anos, em média. Para saberem a quantas andava a vida conjugal de cada um deles, os estudiosos lhes enviavam um questionário por ano, que deveria ser integralmente respondido. A escala usada para medir a satisfação desses homens e mulheres variava de 0 (muito infelizes) a 10 (totalmente felizes). Ao término, constatou-se que a maioria das pessoas não se mostrava mais feliz do que era antes de juntar os trapinhos. Verificou-se também que é curta a empolgação com o casamento. Dura no máximo dois anos. Depois desse período, a rotina toma o lugar do amor e os defeitos do companheiro tornam-se mais evidentes do que as suas virtudes. Nesses casos, talvez seja melhor adotar a estratégia do célebre Winston Churchill. Certa vez, ele disse: "Minha mulher e eu tentamos tomar juntos o café-da-manhã, mas paramos antes que nosso casamento acabasse".

Nos consultórios dos terapeutas de casais, uma das justificativas mais freqüentes para o fracasso matrimonial é a idealização do casamento. O estudo americano comprova isso. A decepção tende a ser maior entre homens e mulheres que, antes de trocar alianças, se consideravam infelizes e resolveram apostar todas as suas fichas na união. "Um casamento realmente satisfatório só é possível quando ambos são capazes de ficar bem sozinhos, cultivam projetos pessoais e não se agarram um ao outro, como dois náufragos que estão quase morrendo afogados", diz a psicanalista carioca Regina Navarro Lins. Não é à toa que, no grupo dos que se diziam satisfeitos com a vida ainda quando solteiros, a felicidade com o casamento revelou-se maior.




Bom e ai estão as duas capas para voce compararem, como sempre em todos os fins de semana, desde o inicio deste Blog. E abaixo a cronica do Diogo Mainardi para a Revista Veja.

A PanTomima beduína "Marta Suplicy pode ficar mais tranqüila porque seu companheiro arrumou uma posição no governo Lula. O mundo pode ficar mais tranqüilo. Estamos todos em boas mãos, brasileiros, iraquianos, ingleses, americanos"

O melhor de todos é Mohamed Said al-Sahaf, o ministro da Informação iraquiano. Outro dia ele chamou o presidente americano de "anão" e o secretário de Defesa britânico de "asno". Para alguém que passa o dia inteiro na frente da TV e já enjoou do habitual espetátulo de bombas de fragmentação caindo sobre a população civil de Bagdá, não pode haver atração mais excitante do que as entrevistas coletivas de Sahaf. Dão um pouco de cor local, com seu repertório clássico de insultos vindos diretamente da casbá ou de filmes de segunda linha de Hollywood.

Cuspindo nos microfones, Sahaf declarou que o "pequeno Bush lidera uma gangue internacional de bastardos criminosos, uma superpotência de Al Capone", que ele é um "vilão", "um biltre", "um homem vil que será amaldiçoado pela eternidade". Para Sahaf, Colin Powell é um "idiota", e Donald Rumsfeld, um "cão", à frente de "mercenários abomináveis". Quanto aos britânicos, só merecem o profundo desdém de Sahaf, pois não passam de "hediondos lacaios que os canalhas dos americanos esmagam com a sola dos pés". Em entrevista recente, o assessor especial de Lula para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, ofereceu asilo no Brasil a Saddam Hussein.

Ao mesmo tempo, os vereadores do Rio de Janeiro decretaram o presidente Bush "persona non grata" na cidade. Se Saddam Hussein é bem-vindo por aqui, e Bush não, faço questão de convidar, igualmente, o ministro Sahaf, essa impagável pantomima beduína. Por mais atrocidades que ele tenha cometido em nome do regime iraquiano, aceito hospedá-lo em minha casa, contanto que ele prometa ficar o tempo todo no terraço, deblaterando contra os moradores do prédio ao lado.

Além de oferecer asilo a Saddam Hussein, Marco Aurélio Garcia também afirmou que o Brasil está disposto a acolher refugiados de guerra iraquianos. Como se nossas cidades fossem muito melhores do que Basra sob o bombardeio de tropas anglo-americanas. Como se nossos bandidos fossem muito melhores do que "Ali, o Químico", aquele que exterminou os curdos com gás mostarda. Como se nossos miseráveis vivessem muito melhor do que refugiados num acampamento da ONU.

Por falar nisso, Benedita da Silva confessou que não gostaria de estar na pele do articulador do Fome Zero, José Graziano, "com essa responsabilidade de dar combate à fome e à miséria". Benedita da Silva é ministra da Assistência e Promoção Social. Seria de supor que a responsabilidade de seu ministério fosse, justamente, dar combate à fome e à miséria. Eu não gostaria de estar na pele dos refugiados iraquianos que vierem para cá. E muito menos na dos miseráveis brasileiros.

A principal medida do governo Lula depois da deflagração da guerra no Iraque foi conceder-se um vital setor de comunicação internacional. O chefe do novo setor é o companheiro de Marta Suplicy, Luis Favre. Em fevereiro, li com apreensão que a prefeita de São Paulo andava "sumida e sorumbática", porque nenhuma posição no governo federal havia sido oferecida a Favre. Agora, ela pode ficar mais tranqüila. O mundo pode ficar mais tranqüilo. Estamos todos em boas mãos, brasileiros, iraquianos, ingleses, americanos.

Diogo Mainardi



Capa: foto de The New York Times/AP

E ai está a capa da Revista Veja deste fim de semana cujos destaques estão ai abaixo.

Brasil

Justiça: Os juízes na mira dos bandidos

Artes e Espetáculos

Música: Emocore, o hardcore adocicado
Cinema: O Novato, com Al Pacino e Colin Farrell
Livros: Onze Minutos, de Paulo Coelho

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

Especial

A luta no caminho de Bagdá
Rumsfeld, o falcão
O desafio de invadir uma cidade
A fragilidade dos governos islâmicos
O papel dos curdos
A Europa dividida
A guerra na TV

Geral

Cidades: Limpeza-relâmpago para receber a rainha
Sexo: O desemprego e a impotência
Cosmética: A terceira geração dos cosméticos
Sociedade: O casamento não traz felicidade
Saúde: Deixar de fumar é mais difícil para as mulheres
Estilo: Nicole Kidman, a mais elegante das estrelas

Guia

Viagem: As vantagens dos programas de milhagem
Turismo: Visite os sítos pré-históricos do Brasil
Etiqueta: Dicas para agir nas crises amorosas
Impostos: Cuidados para evitar a malha fina

O que estou lendo
Pergunte ao Guia




Joelmir Beting
Sábado, 29 de março de 2003


Andando de lado

Anote e guarde: o PIB brasileiro de 2002 foi de exatos US$ 449,3 bilhões. A dólar médio do ano passado, calibrado em R$ 2,94. Em reais, o PIB verde-amarelo de fadiga cravou R$ 1,321 trilhão. Com deflator médio de 8,47%, calculado pelo IBGE. O produto nacional por habitante ficou em US$ 2.577. Ou em R$ 7.576.

No ranking mundial, baixamos nossa crista para o 12.º lugar. Fomos ultrapassados pela Coréia do Sul (US$ 471 bilhões). O México já havia deixado a gente na poeira desde 1999. Ano passado, já membro do Top Ten, o México realizou US$ 634 bilhões. Perdemos a liderança da América Latina, que nos anos 50 tiramos da Argentina.

Nossa derrapada no ranking mundial (dados preliminares) deu-se pela combinação de desvalorização cambial com estagnação econômica. De 1998 a 2002, crescemos pela média de 1,6% ao ano.

No mesmo período, o mundo todo cresceu 3,2% e o bloco dos emergentes, 4,6%. A Coréia do Sul, pós colapso de 1997, rebrotou com a pilha toda, cravando a média anual de 5,6%.

O que tira nosso sono é justamente a esquálida performance de 1,6% ao ano. Ou 1,5% em 2002. Pelo cheiro da brilhantina, vamos continuar resfolegando abaixo de 2% ao ano. Para o Ipea, a coisa não deve passar de 1,8% em 2003. Abaixo do crescimento da população economicamente ativa (PEA), estimado em 2,3%.

A população como um todo cresce 1,4%. O que equivale a um PIB per capita com variação próxima de zero. Pelo "pop-clock" do IBGE, seremos agora em abril exatamente 175 milhões de brasileiros a bordo do Brasil. Em coeficiente demográfico, já somos 5 brasileiros para cada argentino. Ou 58 brasileiros para cada uruguaio.

Sem um solene armistício com o espermatozóide, nosso desafio está em reacelerar as rodas quadradas do PIB. O sonho de uma noite de outono seria recuperar a média anual dos anos 50/70 - da ordem de 7,1%. Pela promessa de palanque, o governo Lula bem que se contentaria com 4% ao ano neste quadriênio 2003/2006. Se o torque ficar abaixo de 2% neste primeiro ano, teria de se situar acima de 6% no último.

O problema é que o processo econômico tem inércia própria. O crescimento sustentado ou duradouro do produto interno bruto guarda relação com as taxas de poupança e de investimento (formação bruta de capital fixo). Na poupança, conta-se com a ração suplementar dos capitais externos de múltis, bancos e fundos. Em se considerando que para um PIB de 4% ao ano se tem de investir o equivalente a 25% do próprio, o negócio é a gente, resignadamente, tirar o cavalo e a égua da chuva.

Por quê? Porque a taxa de investimentos reprodutivos não passou de 18,7% no ano passado (média em torno de 18% no triênio 2000/2002). Porque a taxa de poupança interna para cacifar aquela se contentou com 17,9%. A externa não passou de 0,8%.

Nosso elo perdido está justamente na poupança interna deprimida. Algo a ver com a despoupança do setor público. A da Coréia do Sul flutua acima de 35% do PIB (com 7% do setor público). O que significa crescimento sustentável, com dependência externa nenhuma.

SECOS & MOLHADOS

Sinuca de bico - Não dá para ampliar a poupança interna da noite para o dia. Nem seria conveniente escancarar-se para a poupança externa (de resto, rarefeita e reticente). Zerar a despoupança do setor público seria um expediente ainda mais tortuoso. Teria de aguardar a aprovação e a implementação das reformas ainda encalacradas no Congresso.

Vela no túnel - Há um atalho tipo pinguela para alavancar o PIB atolado: acabar com o mal desnecessário de um crédito bancário curto e caro, abaixo de 26% do PIB. Na Coréia, acima de 120% do PIB (sem inflação). E o que dizer do garrote tributário já acima de 36% do PIB? Na Argentina e no México, abaixo de 20%.

Sem remorso - Os empréstimos para produção e consumo estão encaixando a média de 56,5% ao ano. No cheque especial, capital de giro da classe média, 171,5%. Enquanto isso, o salário real médio não passou de R$ 873 em janeiro. Em 2003, corrigido pelo ICV-Dieese, queda real de 8,2%.




Uma vez Woody Allen, quando perguntado sobre o segredo do seu sucesso, disse que o segredo era ter sorte. Tinha a sorte de fazer exatamente o que gostava, da maneira que queria, e de existirem pessoas que gostavam do que ele sabia fazer. Que nós tenhamos sorte neste sábado e sempre de fazer o que gostamos de fazer e de ter pessoas que apreciem o que nós soubemos fazer.

Ricardo Silvestrin
29/03/2003


Coisas pequenas

Teatro de sombras. Quando era criança, pegava um criado-mudo, um lençol e uma lâmpada. Ficava atrás com meus bonecos e carrinhos inventando uma história. A platéia, pequena, eram os meus amigos nas festas de aniversário. Com o mesmo princípio e muito mais refinamento é o espetáculo Sacy Pererê, a Lenda da Meia-noite. A história é inspirada no primeiro livro de Monteiro Lobato, e a montagem é do grupo Lumbra. Está em cartaz no Teatro de Câmara Túlio Piva. A peça é para crianças, mas quem não tiver criança nenhuma pra levar pode entrar disfarçado de Chaves ou de Kiko que ninguém vai reparar. Vale tudo pra ver.

Os efeitos dão um show de inventividade. Imagens em primeiro plano, outras em segundo e ainda outra mais atrás. Sombras coloridas, sim, coloridas. Ator ao vivo virando sombra e virando ao vivo outra vez. E tudo a serviço de contar uma divertida e, para as crianças, aterrorizante história de assombração. Ou de sombração.

Tem no elenco o Alexandre Fávero, que também é idealizador do projeto, e o Flávio Silveira. Ambos atuam, manipulam objetos e operam as luzes. Tem também a trilha sonora, as ótimas letras e a voz sempre irônica e divertida do Gustavo Finkler. E como se não bastasse, o roteiro e a direção dos atores é do Camilo de Lélis. Olha, sempre que você ver na ficha técnica o nome do Camilo de Lélis dirigindo alguma coisa, vá. Ele é o diretor de grandes coisas pequenas.

Sim, coisas pequenas. Fiquei pensando nisso depois do espetáculo. Não tinha muita gente. O teatro não tem muitos lugares. Mas como é importante apostar em coisas que nascem pra ser exatamente o que são, sem se preocupar com megasrepercussões. Tudo bem se crescerem, se derem dinheiro, mas isso como conseqüência, sem um plano premeditado. Tenho ouvido muita entrevista de banda de gurizada que mais parecem diretores de marketing falando: "Não, porque o diferencial da nossa banda..." Ora bolas, diferencial! Nada contra os diretores de marketing, mas cada Homo sapiens no seu galho.

O que leva a arte adiante é a pesquisa, a experimentação, a liberdade. Isso independe de buscar algo com uma intenção mercadológica, de buscar o diferente para ganhar mais dinheiro. A busca do artista é movida pelo seu desejo de criação. Uma vez Woody Allen, quando perguntado sobre o segredo do seu sucesso, disse que o segredo era ter sorte. Tinha a sorte de fazer exatamente o que gostava, da maneira que queria, e de existirem pessoas que gostavam do que ele sabia fazer. E concluía ironicamente: o Sylvester Stallone tem muito mais sorte do que eu.

No final do espetáculo, podemos subir ao palco e ver as arvorezinhas pequenas, os cavalinos. Essa é a Lição Toon de hoje: ser como o teatro de sombras. Fazer coisas pequenas, mas que, com a incidência da luz, ficam enormes.
ricardo.silvestrin@zerohora.com.br




Lya Luft
29/03/2003


Macho e fêmea

Pensei escrever sobre o aniversário desta minha amadíssima cidade adotiva, que escolhi, escolho e escolherei sempre para viver. Não o faço, pois estou de luto por ela. Porto Alegre - bela, aconchegante e sedutora - está muito doente. Sua enfermidade é a violência, e parece que ninguém a consegue curar. Pobre cidade minha, onde temos de nos esconder, cercar, vigiar... pobres de nós, que andamos nas suas belas ruas como ratos assustados. Teremos tempos melhores?

Então falo de algo mais divertido: se não combinamos, por que - homens e mulheres - nos procuramos? Pensando bem, homens e mulheres pouco têm a ver, exceto a preservação da espécie: as almas são diferentes, a biologia é outra, as vontades e os interesses também. Muito é cultural, concordo. Mas cada vez mais acredito que somos imensamente determinados pelo que éramos nas cavernas. Homem saía pra caçar, voltava, fazia filhote, saía pra caçar e pra matar inimigo, voltava... e assim por diante. Mulher ficava na caverna pra ser fecundada, parir, alimentar a família e proteger as crias. Ah, e cuidar do troglodita para que ele estivesse bem nutrido e descansado ao sair em busca de comida para ela e para as crias, e a fecundar de novo... e assim por diante.

Mudou o mundo, os hábitos se transformaram, incrivelmente muita coisa aconteceu - mas o homem e a mulher das cavernas ainda nos habitam sob a casca de algum requinte. Foi Tomás de Aquino ou Agostinho quem disse que o ser humano é um anjo montado num porco? Na guerra e às vezes na relação amorosa o animal predomina; na paz e nos momentos ternos funciona o anjo. O bom mesmo é a mistura, no ponto: nem de menos, nem demais.

Só a impenetrável natureza explica que seres tão diversos quanto machos e fêmeas se queiram tanto, se encantem, se façam felizes - ou se detestem, se traiam, se façam infelizes. Ou tudo isso ao mesmo tempo. O que os diferencia das peludas criaturas originais nem é, pois, a paixão, mas o amor: amizade com sensualidade.

O que precisa um casal para ser um bom casal, amoroso, alegre, criando pontes sobre as diferenças e resolvendo com bom humor as agruras do convívio cotidiano? Penso que o bom casal é o que SE GOSTA, com tudo o que isso significa: cumplicidade, interesse, sensualidade boa, e o difícil compromisso da lealdade . Dedicação, às vezes até devoção. Para que a gente seja, além de machos e fêmeas, pessoas que se entendem, curtem, confortam, desejam e... tudo aquilo que nas cavernas acontecia. Só que com mais graça, consciência, talvez mais delicadeza.

E aí é que (re)começam os problemas. Ufa. Mas macho e fêmea não desistem - nem devem. Pois, apesar da trabalheira toda, bem que a gente gosta!



Conflito
Pausa no combate



Tropas americanas fizeram uma parada no deserto para reagrupar forças e relaxar antes de retomar o avanço rumo à capital iraquiana (foto Itsuo Inouye, AP/ZH)


Sexta-feira, Março 28, 2003




Esta é uma das reportagens da Revista Isto É cuja capa está ai para você conferir.

Sexo mágico
Numa guinada radical, Paulo Coelho inclui picantes cenas eróticas em seu novo romance, Onze minutos
Francisco Alves Filho

Coelho: ironia aos críticos e recorde nacional de lançamento com 200 mil exemplares

Vai começar outra vez. A maratona de entrevistas a jornalistas do Brasil e do Exterior, multidão de leitores correndo às livrarias e críticos irados falando mal. Afinal, na quinta-feira 3 chega às livrarias mais um livro de Paulo Coelho. Acontece que Onze minutos, obra que marca seu retorno à editora Rocco, vai surpreender muita gente e deixar seus leitores boquiabertos. Sem tanta ansiedade, o escritor observa a movimentação com seu costumeiro estilo low profile. ¿Estou sempre lançando livros ao redor do mundo. Foram 11 nos últimos 12 meses¿, contabiliza ele. Escaldado, Paulo Coelho até arrisca antecipar o argumento das resenhas de seu novo livro. ¿Vão implicar com o final feliz¿, aposta. A profecia não resulta dos poderes sobrenaturais que um dia o Mago atribuiu a si, mas de pura dedução da voz da experiência.

Para o leitor, no entanto, Onze minutos guarda um ingrediente explosivo e antes totalmente fora dos enredos esotéricos ou religiosos de sua obra. Agora, os personagens de Coelho fazem sexo. Ele diz ter se inspirado numa história real para escrever a trajetória de uma prostituta brasileira radicada na Europa. Discussões sobre orgasmo clitoriano ou vaginal, práticas sadomasoquistas e cenas de sexo oral aparecem em algumas páginas em detalhes surpreendentemente ousados para um best seller do seu gênero. ¿Meu compromisso é comigo mesmo¿, avisa o autor, para mostrar que não teme o efeito-bomba entre os leitores fiéis.

Apesar das passagens picantes, Coelho adverte: ¿A história não é sobre sexo, mas sobre a complicada relação entre os sentimentos e o prazer físico.¿ Realmente, o erotismo é apenas um componente na vida de Maria, a personagem principal. Mas o livro certamente ficará marcado pela alta temperatura de alguns trechos e uns arroubos incomuns para pop stars da literatura mundial que vendem livros aos milhões e raramente se arriscam a escandalizar.

¿O homem reage, o sexo começa a crescer em suas mãos e ela aumenta lentamente a pressão, sabendo agora onde deve tocar¿, descreve o narrador. No diário de Maria, é possível encontrar relatos assim: ¿Vi que ficava excitado, e começou a tocar os bicos de meus seios, girando-os como naquela noite de total escuridão, me deixando com vontade de tê-lo de novo entre as minhas pernas...¿

E não são as sequências mais apimentadas. Se já houve alguma surpresa com pequenos trechos sensuais de seu livro de 1998, Veronika decide morrer ¿ a editora inglesa implicou com uma cena rápida de masturbação e uma professora londrina escreveu dizendo que aquele texto traía seu público adolescente ¿, imagine a repercussão de Onze minutos, que será lançado simultaneamente no Brasil, na França e em Portugal. O autor, porém, acha que estudantes e professores não vão ficar chocados, mas incentivados para uma nova postura em relação ao sexo.

A idéia de escrever sobre o tema foi embalada durante oito anos, até que Coelho se encontrou com uma prostituta na Suíça. Bastou que ela contasse sua vida para ele identificar o fio condutor necessário. ¿Vi que aquela mulher deu a volta por cima em uma situação difícil. Não me refiro à prostituição, mas ao desencanto com o sexo¿, explica. Deste momento em diante, o autor conta que levou apenas um mês para colocar as idéias no papel. O título Onze minutos é um contraponto a Sete minutos, best seller dos anos 70 no qual o escritor americano Irving Wallace estimava o tempo de uma relação sexual, descontados o strip-tease e as carícias preliminares. Coelho achou pouco para os padrões brasileiros e resolveu dar uma prorrogação.




No desejo de facilitar e até para proporcionar que voces tenham mais links de blogs legais, e pelos quais sempre que posso dou uma passada por lá, coloquei-os ai na esquerda. No inicio estava colocando figuras aleatórias de fundo, depois é que percebi que se a pessoa dona do Blog já utiliza uma figura é porque ela gosta, e assim usei a própria figura de fundo do link. Com o tempo substituirei as primeiras. Tenham um ótimo fim de semana.

MEU AMIGO DE TELA


Tem uma voz diferente... não combina com o tamanho do corpo que pressupõe um vozeirão. Ainda assim, soa doce e masculina!

Tem um não sei o quê, que as vezes me põe em dúvida. Será que este amigo distante lê meus pensamentos ou conhece detalhes da minha vida? Seria ele mediúnico? Ou apenas um "espião" tipo pau mandado?
Não creio... parece-me íntegro demais para prestar-se a isso.

Por que nunca fala de si? Por que sempre se faz entender pelos textos que manda, quase todos no mesmo diapasão dos meus sentimentos e pensamentos?

Ele me desperta impressões várias e incompatíveis entre si, que vão desde o predador traquejado ... um padre, ou porque não dizer, um amigo com a melhor das intenções.

Parece-me reservado, isto tenho como líquido e certo.

E como a mente voa, surpreendo-me as vezes perguntado:
Seria ele feliz?
Separa real do virtual?
Ou embrenhou-se de tal sorte no virtual que separou-se judicialmente do real?
E se o fez, quais os motivos que o teriam levado a isto?
Que fantasias vive? O que busca? O que quer de mim?

Seria um cidadão politicamente correto ou - como todo o internauta que se preza - seria um sujeito a bater meio fora do bumbo e a marchar ao rítmo de um repique que só ele ouve?
Sei não...sei não!

Talvez seja apenas um homem...apenas um homem!

Mas instintivamente, eu o chamo carinhosamente de "Major"
sem ao menos saber, se ele veste camisa polo, pele de lobo, farda ou batina - talvez todas - e gosto de recebê-lo em minha tela.
Fátima Irene Pinto




Todos voces estão lembrados daquele antigo proverbio, de que se correr o bicho pega e se parar o bicho come. É esta a realidade dos fundistas do FGTS. E se as perdas já são relevantes até gora, imaginem daqui a 35 anos.

Quem tem ação na Justiça deve mantê-la

Quem tem ação na Justiça para receber as diferenças do Fundo de Garantia não pagas nos planos Collor e Verão deve manter o processo e não assinar o acordo oferecido pelo governo. Além do prejuízo com os descontos que o acordo impõe, o trabalhador corre o risco de esperar até 35 anos para receber, por causa da lentidão da Justiça.

A "briga" entre os presidentes da Caixa e do Superior Tribunal de Justiça - um diz que o banco não vai desistir das ações contra ele que o obrigam a pagar as diferenças sem desconto e o outro afirma o contrário - só é importante se, de fato, quem entrou com ação for favorecido pela desistência da Caixa e passar a receber o dinheiro mais rápido. Seriam favorecidos os cerca de 5,3 milhões de trabalhadores que entraram na Justiça para receber as diferenças do FGTS.

Visão - Já quem desistiu e se deixou atrair pela oferta de acordo do governo para receber conforme o cronograma de pagamentos certamente vai-se arrepender: os 564 mil que desistiram da ação e assinaram o formulário azul tinham como principal objetido apressar o recebimento, ainda que de um valor menor, com descontos de 8%, 12% e 15%.

O problema é que quem desistiu da ação e aderiu ao acordo ficou na dependência de uma decisão da Justiça (a homologação do acordo), exatamente da mesma Justiça lenta da qual tentou se livrar. E pior: o acordo impõe a desistência da ação, mas não prevê a desistência pacífica da desistência. Ou seja, quem quiser voltar atrás e prosseguir com a ação na Justiça terá de recorrer a um advogado e entrar com uma nova ação. Assim, volta, mais uma vez, a depender da boa vontade da Justiça, agora, triplamente: pela ação inicial, pela desistência da ação com a adesão ao acordo e, finalmente, para prosseguir com a ação da qual desistira.

Lentidão - Pelo andar da carruagem, alguns trabalhadores que desistiram do processo contra o governo só vão ver a cor do dinheiro do FGTS em 2037. Dos 351 mil formulários azuis de adesão (de quem desistiu da ação) que a Caixa enviou à Justiça em seis meses, apenas 5 mil voltaram já homologados pelo juiz. Se a média de 5 mil homologações por semestre persistir, os últimos formulários entre os 351 mil só retornarão à Caixa daqui a 35 anos, isto se não houver novas adesões.

Além da demora por prazo incerto, quem optou pelo acordo vai amargar perdas. O prejuízo aumenta quanto maior for o saldo a receber. Quem tem acima de R$ 8 mil, por exemplo, já sai perdendo 30,25%. Se o trabalhador entrou na Justiça e vai receber o valor integral, sem descontos e com a correção normal do FGTS, em 2007 - quando se encerra o pagamento - a perda comparativa seria ainda maior, podendo chegar a cerca de 55%.

Os trabalhadores que já moveram ação na Justiça devem fazer as contas e se informar sobre o andamento do caso para decidir se desistem e aderem ao acordo ou mantêm o processo. Além dos descontos de 8%, 12% e 15% a que estão sujeitos os trabalhadores com valores acima de R$ 2.000 a receber, todos estão perdendo com a não correção de 3% ao ano do Fundo. Isto porque desde 11 de julho de 2001, os valores que o governo vai devolver só recebem correção pela TR.

Roberto do Nascimento




FGTS
Sexta, 28 de Março de 2003


Dinheiro do FGTS Vale está liberado


Se você aplicou o dinheiro do Fundo de Garantia nas ações da Vale do Rio Doce durante oferta pública feita pelo governo em 27 de março de 2002, saiba que o período de carência de um ano para os pedidos de retorno dos recursos para a conta vinculada terminou. Assim, desde ontem, você terá maior liberdade para movimentar os recursos do FGTS. As opções dependem da sua necessidade e é só você entrar em contato com o gerente do banco que aplicou o dinheiro e saber como fazer o pedido. Algumas instituções permitem fazer a solicitação via correio eletrônico (e-mail), preenchendo um formulário. Depois disso, os recursos levam de 4 a 5 dias para retornar a conta vinculada.

Quem aplicou recursos do FGTS nas ações da mineradora acumulou um rendimento médio de cerca de 80%, ganho que praticamente se mantém hoje. Um excelente desempenho, se avaliado com o de outra aplicação, principalmente se a comparação for com o rendimento do Fundo de Garantia, de pouco mais de 5% ao ano.

Essa rentabilidade foi conquistada sobretudo pela forte desvalorização do real. Por ser uma empresa exportadora, as ações da companhia dispararam e agora você deve analisar se esse retorno já é suficiente para suas necessidades. As ações chegaram a atingir R$ 110, mas recuaram cerca de 10%, após o início da queda do dólar de R$ 4 para os atuais R$ 3,40. As ações estão cotadas entre R$ 90 e R$ 100.

Possibilidades - A maior parte da alta do preço dessas ações já foi verificada. Logo, você deve analisar sua situação financeira. Se você pretende sacar os recursos do Fundo de Garantia ou usá-los na compra da casa própria nos próximos meses, pense na possibilidade de pedir o resgate dos recursos, para que seus planos não fiquem comprometidos, na hipótese de queda do preço da ação. Os analistas esperam a manutenção do preço da ação nos próximos meses, mas, se você pretende comprometer esse dinheiro, é melhor garantir a ótima rentabilidade conquistada até o momento.

Para aqueles que investiram recursos próprios, o dinheiro já pode ser movimentado livremente sem perda do desconto de 5%, concedido pelo governo na oferta pública (o prazo foi de apenas seis meses). Nesse caso, certamente, tudo dependerá das necessidades do investidor e o que pretende fazer com o dinheiro.

A rentabilidade acumulada é muito boa e você poderia aproveitar as altas taxas de juros oferecidas pelo governo, atualmente, de 26,5% ao ano, transferindo o dinheiro para uma aplicação de renda de preferência num fundo referenciado DI, num CDB DI ou fundo de renda fixa.

Jayme Alves
Da equipe do DiárioNet






Retirada de saldos continua lenta


Nas últimas duas semanas, a Caixa pagou apenas R$ 100 milhões de um total de R$ 1,7 bilhão em contas do FGTS referentes a diferenças dos Planos Collor e Verão. Ainda resta R$ 1,6 bilhão em 30,8 milhões de contas de cerca de 15 milhões de trabalhadores. Segundo Joaquim Lima, diretor do FGTS da Caixa, boa parte das contas ainda não recebidas tem saldo pequeno, que não motiva o trabalhador a ir atrás do dinheiro.

A média dos saldos é superior a R$ 100, mas há muitas casos também de trabalhadores que têm R$ 1.000 para receber. Eles estão às voltas com a burocracia e com os desencontros provocados pela desinformação. Quem desistiu de ações na Justiça, por exemplo, tem de aguardar a homologação dessa desistência pela própria Justiça. Ou seja, desistiu para se livrar da lentidão do Judiciário, mas não foi alertado que estaria sujeito a essa mesma lentidão agora.

Como receber - Quem tem contas do FGTS referentes ao período dos Planos Collor e Verão, com saldos entre R$ 100 e R$ 2.000, e ainda não recebeu crédito (em conta ou saque), deve procurar uma agência da Caixa com carteira de trabalho, RG, PIS e, se tiver, a rescisão dos contratos de trabalho das empresas que fizeram os depósitos no Fundo até abril de 1990 e/ou dezembro de 1988. Para saldos abaixo de R$ 100 é preciso apenas apresentar documento de identidade (RG, CP, PIS).

Quem tiver dúvidas, pode ligar para o Disque-Caixa no 0800.550101. Se estiver na Grande São Paulo e demais localidades com o DDD 11, o número é 4196.6601. O site é o www.caixa.gov.br.




Jose simão
28/03/2003


Boicote! Agora só vou de mortanguela com tubaína!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa. Desde Bagdá! E a manchete do DVD da 'Playboy': 'FOTOS INÉDITAS'. Então é a Sheila vestida! E um leitor me disse que a Sheila Carvalho e a Sheila Mello tão parecendo a Ultragás: semana sim, semana não, elas aparecem. Peladas! A 'Playboy' tá fazendo rodízio de Sheilas! E a Tiazinha achou o filme 'Chicago' muito hollywoodiano. E eu que pensava que 'Chicago' era um filme iraniano.

BBB! Big Bush in Bagdá! Big Mac Caubói x Quibe Cru de Bigode! E sabe qual é a diferença entre o Império Romano e o Império Americano? É que no Império Romano o cargo máximo a que chegou um cavalo foi o de senador. Rarará! E a humanidade se pergunta: será que não vai aparecer nenhuma voluntária pra fazer um 'blow job' no Bush? Salvaria o planeta! Não precisamos de escudo humano, precisamos de chupeta humana. É só ir até o Salão Oral da Casa Branca e salvar o mundo!

E atenção! Esclarecimento Sindical! O Sindicato Único das Prostitutas, Meretrizes e Cafetinas, o Sindiprosti, esclarece à opinião pública que, apesar das afirmações dos manifestantes no mundo inteiro, o cidadão George W. Bush não é filho de nenhuma das associadas!

BOICOTE! Nada de Coca-Cola e Big Mac. Agora eu só vou de sanduíche de mortadela. Mortanguela com tubaína! E a consequência é um fogo amigo. Fogo amigo é soltar pum no elevador. E troca a coca por guaraná. Guaraná Kuat. O quê? KUAIT? Rarará! E sabe por que bombardearam o mercado de Bagdá? Porque os comerciantes estavam vendendo tudo muito caro e os americanos não querem administrar um país com inflação alta!

E continua o FOGO MUY AMIGO! Fogo amigo atinge 35 marines. Se era pra eles ficarem se matando, por que foram tão longe? E as tempestades de areia: o Saddam bota um monte de ventilador no deserto. Operação Lojas Marabrás! Rarará!

E penúltima derradeira fatal do Bestiário Tucanês. É que um amigo foi a uma loja Ortobom para pesquisar preço de colchão e o vendedor passou o cartão: 'Consultor de qualidade do sono'. Tucanaram o vendedor de colchão! Pior, saiu num site de fofocas que o Luciano Szafir estava em reconhecimento amoroso com uma cantora baiana. Reconhecimento amoroso? Tucanaram a rapidinha. Temos de chamar o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês.

Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Fogo amigo': tomar um pileque na casa do Zé Dirceu! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!

Email simao@uol.com.br




Joelmir Beting
Sexta-feira, 28 de março de 2003

Nem só de barris

Consta que o Iraque estoca reservas cambiais em petrodólares ao redor de US$ 10 bilhões. Um rescaldo para um país que, em 1980, chegou a ostentar acumulação acima de US$ 80 bilhões (a dólar de então). Esse rescaldo mal pagaria metade de velhas compras a fiado de empresas da Rússia, da França e da Alemanha. Ao que parece, calote já consumado de US$ 16,3 bilhões.

O curioso é que o pé-de-meia do Iraque está guardado em Nova York. Ou mais precisamente: na casa-forte do BNP Paribas, em Wall Street. Sim, banco francês. E, não menos bizarro, um ativo em dólar convertido para euro, em novembro de 2000. Com alvará da ONU, gestora do embargo iraquiano desde 1991, remoção cirúrgica das botas de Saddam do petróleo do Kuwait.

Por que em Nova York e não em Paris, se o banco de confiança de Bagdá só podia ser francês? Porque Wall Street é a capital do capital sem bandeira. Ela se revelou segura e esperta em logística financeira global, sobre desfrutar de maior porosidade regulatória.

Por que converter a reserva de dólar para euro? Porque Saddam passou a nutrir alergia por dólar, a moeda do mal, desde que a divisa européia se revelou capaz de igualar em poder de compra a divisa americana. Neste primeiro triênio da conversão (2000/2002), Saddam acertou na mosca: o dólar perdeu 22% para o euro.

Na invasão do Iraque, Washington obteve a adesão física de Londres, mas nem sequer uma adesão política de Paris, Berlim ou Moscou (sem contar o nariz torcido da ONU de fachada). A Rússia também tem reservas em euro aplicadas em bancos alemães, suíços, franceses e ingleses. Ela é credora de US$ 8,2 bilhões em vendas a fiado ao Iraque.

Iraque agredido que hoje alarga fraturas políticas na União Européia. Franceses e alemães não falam a mesma língua.

Espanhóis e italianos tentam deixar a posição subalterna de meros coadjuvantes do bloco. E os ingleses, que fazem coalizão com os americanos na invasão do Iraque, não admitem o euro no lugar da libra. Euro que não esconde a ambição de substituir o dólar no papel virtual de moeda universal.

Há muita coisa para além do petróleo na provável ocupação do Iraque por americanos, com ingleses de contrapeso. O gigante China que o diga. Governo comunista petrificado, Pequim prefere ficar em cima da muralha. No discurso, condena a doutrina Bush do direito da força por sobre a força do direito. No recurso, os chineses exibem seu pragmatismo de milênios. Nada de afrontar a hegemonia americana, que eles consideram meramente transitória no vasto compasso da História.

Nas trocas comerciais com os Estados Unidos, a China festeja superávit de US$ 114 bilhões nos últimos 12 meses. Ela lidera o ranking global da receptação de investimentos diretos das empresas transnacionais. Na geopolítica de farda, a China adoraria que os Estados Unidos, por dissuasão do efeito Iraque, puxassem os pavios das bombas atômicas da Coréia do Norte, do Paquistão e da Índia.

SECOS & MOLHADOS

E o Japão? - Gigante econômico em crise e pigmeu político assumido, o Japão renova seu pacifismo estratégico, omitindo-se do debate universal dessa guerra alheia. Na miraculosa ressurreição do pós-guerra, o Japão começou por exportar produtos. Em seguida, deu de exportar fábricas. Doravante, passa a exportar capitais. Precisa estar em paz com todo mundo o tempo todo.

Prioridade - A prioridade diplomática japonesa está na costura de alianças estratégicas. Tóquio tem de estreitar laços com Washington e de instalar laços com Pequim, sem perder simpatias, sinergias e parcerias com o Oriente Médio. De onde recebe dois terços do petróleo que consome.

Escombros - No mais, está todo mundo, Brasil no meio, de olho gordo nos escombros do Iraque. Fala-se em megamercado de reconstrução e ampliação da ordem insana de US$ 115 bilhões. Difícil é remover e consertar os escombros do Direito Internacional nas garras de Estados nacionais moralmente em colapso.




Na saida ontem, fui surpreendido por um aparto de carros de emissoras de televisões e de rádios na posse do novo Presidente e diretores do Banrisul, ali do ladinho da CAIXA. Pelo menos, no discurso, garante-se que o Banco continua público como os demais que sobreviveram, BESC, BRB, e outros.

CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, SEXTA-FEIRA, 28 DE MARÇO DE 2003


Rigotto confirma Banrisul público
Governador empossou ontem a nova diretoria da instituição, que será presidida por Fernando Lemos


O governador Germano Rigotto deu posse ontem à nova diretoria do Banrisul, em solenidade realizada no salão nobre da instituição, garantindo que a instituição permanecerá estatal. O Banrisul tem agora Fernando Lemos na presidência e Antônio Carlos Brites Jaques na vice-presidência. Assumem como diretores Gilberto Capoani, Ricardo Hingel, Ney Michelucci Rodrigues, Urbano Schmidt e Nelson Marchezan Júnior. Em seu discurso, Rigotto tornou a assegurar que o Banrisul permanecerá estatal, ressaltando que a atual administração o quer público, vez mais integrado na vida da comunidade, agindo como prestador de serviços e como um indutor de desenvolvimento.

Fernando Lemos afirmou, em sua manifestação, que são imperativas a modernização permanente do banco, a busca incansável da eficiência, a qualificação constante dos serviços e a disputa incessante pela confiança dos clientes. Lemos anunciou ainda a implantação da arrecadação on-line do ICMS, cuja idéia é o estabelecimento de uma parceria com a Secretaria Estadual da Fazenda, que inclusive aumente e arrecadação do Rio Grande do Sul. Ele antecipou que quer baixar de 65% para 45% o crédito fornecido para médias e grandes empresas, possibilitando maior espaço para os pequenos empreendimentos. Para isso, a gestão aposta na redução dos juros, que, segundo ele, deverá ser promovida pelo governo Lula.

O dirigente garantiu ainda que manterá os produtos criados pelo governo anterior, como a conta cidadania e o microcrédito. Lemos também disse que, no setor público, o banco oferecerá novos serviços especializados, em termos tecnológicos e de atendimento. Eles serão capazes de suprir as necessidades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além das prefeituras municipais.

O presidente do Banrisul disse, por último, que o trabalho da instituição será norteado por três vetores: banco comercial, banco de desenvolvimento e banco social. Lemos confirmou ainda ênfase à prospecção, à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos capazes de agregar valor ao cliente, com melhorias nos canais de atendimento.




David Coimbra
28/03/2003


A menina

Vi a foto da menina iraquiana mutilada. Saiu nos jornais desta semana. Uma menina de oito a 10 anos, não mais. Estava desmaiada. Era carregada por um homem, um iraquiano de turbante e olhar compassivo.

Os pés da menina. Ela tinha o pé direito dilacerado, pendente de um trapo de pele. O esquerdo não se podia divisar com clareza, mas o provável é que também tenha sido decepado.

Aquela linda menina iraquiana perdeu os pés num bombardeio. Vai conviver para sempre com o vilipêndio do próprio corpo.

Há alegações variadas para essa guerra, há justificativas para o ataque e tantas outras há para a resistência, há motivos históricos e práticos e muitos insondáveis. Tudo isso há. Mas nada do que se diga ou se mostre, nada que se argumente, nada que se ganhe, nada, nada vale os pés amputados daquela bela menina iraquiana.

A fé

O mal e a dor não diminuem a fé. Ao contrário, a reforçam. O bem-estar, o progresso, a opulência refinam e amolecem o ser humano. Ele passa a cultivar as artes, ele passa a admirar a ciência, ele sorve os prazeres da carne, ele não precisa mais de Deus.

Os iraquianos precisam. Bem como os muçulmanos todos. Sofridos como são, aviltados e acuados na sua própria terra, esses povos do deserto tendem a se tornar ainda mais apaixonados pela sua fé, ainda mais determinados a fazer vingar a sua causa e, não raro, ainda mais intolerantes.

Essa guerra, antes de combater o terrorismo, pode bem acerbá-lo.

O último tiro

Agora, em território americano a guerra também tem lá suas conseqüências. Em geral, a promiscuidade com a violência e o sangue cala fundo na alma da soldadesca. No Grande Irmão do Norte não é diferente, nunca foi. Lá, vários se convertem em patriotas obstinados e alguns em efusivos libertários, mas uma guerra forja também nacionalistas fanáticos, fascistas de cabelo raspado e tarados que irrompem em lancherias com submetralhadoras em punho e matam 17 só porque foram demitidos pela manhã.

Uma guerra não termina no último tiro.
david.coimbra@zerohora.com.br




Este país é injusto e iníquo com seus filhos unicamente pela estupidez e burrice dos seus dirigentes. Trinta e oito anos tem a mãe entrevistada ontem. Com essa idade, cinco filhinhos e um neto para alimentar, sem ter alimentos. Não está registrado aqui quantos ela gestou destes cinco que permanecem vivos ainda. É contra este tipo de coisa que acredito deveria haver protesos, é contra esta guerra que deveriamos estar preocupados e não com aquela deles de lá. Ou será que já a perdemos, mesmo?




Paulo Sant'ana
28/03/2003


A fome junto de nós

O RBS Notícias de ontem foi um documento sobre a fome no Brasil. A equipe jornalística se deslocou até vilas pobres de Alvorada, aqui juntinho da Capital, onde 31 mil pessoas sobrevivem em condições animalescas.

Há em todas as malocas rústicas de tábuas mal pregadas um cenário de total abandono dos moradores à própria sorte.

A cena da mãe que foi catar no lixão os restos de alimentos às vezes deteriorados para passar para seus filhos acabou tocante.

E ali adiante outra mãe de cinco filhos menores sustenta-os não se sabe como, além de um neto que também lhe sobrou.

Com 38 anos tem cinco criancinhas saídas de seu ventre e mais um neto para sustentar.

O marido está preso e ela não tem um tostão sequer de renda. Quando cessam os donativos de alguma boa alma, as crianças sofrem literalmente a fome naquele barraco.

Há uma incerteza permanentemente trágica naquele barraco e nas centenas de outros dos derredores sobre o que haverá na mesa ao meio-dia ou à noite.

A televisão não pode fugir à comovente e cruel realidade do pranto das mães quando vislumbram os seus filhinhos atirados sobre o catre, sem quintal, sem horizonte, sem escola, sem água corrente, sem higiene, sem sorrisos, à mercê da fome e das doenças.

As mães choram o seu destino de miséria e subnutrição, não há qualquer perspectiva de que aquelas crianças venham a alcançar um lugar digno para morar e a garantia de três refeições diárias. Nunca.

Aqueles tormentos rudes são totalmente ignorados pelo poder público, que finge que não vê, e por um intelectualismo completamente destituído da mínima inteligência, que afirma calamitosamente não existir fome no Brasil.

O RBS Notícias mostrou ontem que existe a fome aqui no perímetro de Porto Alegre, no Estado que é tido como o celeiro do Brasil.

Enquanto isso, as pessoas economicamente ativas contribuem diariamente com uma centena de bilhões de reais anuais no preço excessivo e perverso dos combustíveis, dinheiro esse que vai parar nos cofres federais e estaduais, sem que se repasse um centavo dessa fortuna gigantesca para a fome dos cantões de Alvorada e de todo o Brasil.

Enquanto isso, nem o governo de Collor, nem o de Sarney, nem o de Itamar, nem o de FH e nem o de Lula, nenhum governo de qualquer latitude ideológica, portanto o Brasil inteiro representado por eles, toma sequer uma medida para impedir, pela educação e pela imposição científico-administrativa, que aquelas crianças de olhar vago, torturado e súplice que a televisão mostrou ontem venham a nascer e penetrar neste mundo de pétreo abandono e perpétua miséria.

Erguem-se conselhos, organizam-se fóruns, fingem-se debates, erige-se a utopia do Fome Zero que não sai do papel - e nenhuma voz lúcida, nenhuma cabeça minimamente pensante estimula qualquer ação eficaz e oficial para acabar com a natalidade irresponsável e indesejada no Brasil.

Não tenho mais qualquer dúvida: este país é injusto e iníquo com seus filhos unicamente pela estupidez e burrice dos seus dirigentes. Trinta e oito anos tem a mãe entrevistada ontem. Com essa idade, cinco filhinhos e um neto para alimentar, sem ter alimentos.

Mas não entra na cabeça burra dos pseudo-intelectuais que estas crianças tinham que ter sido impedidas de serem gestadas e nascer?

Não adianta, ontem conversei com três falsos cultos e inteligentes que me disseram que são contra o controle de natalidade.

Se eu tivesse forças, os arrastaria a cabresto até aquelas vilas de Alvorada para que se convençam da sua desanimadora tacanhez.
psantana.colunistas@zerohora.com.br


Reportagem Especial
Guerra de horrores



Tanques dos marines passam pelo corpo de um de muitos soldados iraquianos mortos em uma estrada no centro do Iraque (Cheryl Diaz Meyer, AP/ZH)


Quinta-feira, Março 27, 2003




"A minha inquietação não tem mais nada, nada,
com o mundo geral em que se vive. Apenas

eu mesma com a minha voz armo e desarmo
labirintos de lágrimas e penas.

Eu mesma com mãos de silêncio transformo
protestos, debates, em pedras serenas.

A minha inspiração é um teatro sem povo,
com grandes cortinas por cima das cenas.

É uma espada invisível, que às vezes traspassa
os touros alados de vagas arenas."

Canção, Cecília Meireles




"Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar."

Apesar de você, Chico Buarque





"Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar
Que o amor pode de repente chegar

Quando existe alguém que tem saudade de outro alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar
Mesmo que depois seja imprescindível chorar

Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do amor que ninguém pode explicar
Vem nós dois vamos tentar
Só um novo amor pode a saudade apagar"

Caminhos cruzados, Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça




Horário de trabalho

"Depois das treze poderei sofrer:
antes, não.
Tenho os papéis, tenho os telefonemas,
tenho as obrigações, à hora certa.

Depois irei almoçar vagamente
para sobreviver,
para agüentar o sofrimento.

Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos,
disporei o material da dor
com a ordem necessária

para prestar atenção a cada elemento:
acomodarei no coração meus antigos punhais,
distribuirei minhas cotas de lágrimas.

Terminado esse compromisso,
voltarei ao trabalho habitual."

Cecília Meireles




ME D O

Muitas vêzes, estar feliz, é pura questão de consciência. Se não pararmos para refletir sobre o nosso estado de espírito, nuca saberemos de como estão nossos sentimentos. E para cada um, a felicidade, ás vezes, se resume em possuir algo. Mas eu me questiono seguidamente e por mais que tenha todas as coisas, em muitos momentos, me sinto uma angustia de calça e camisa. Mas em outros, é incrível acreditar, mas efetivamente sinto-me muito feliz. Mesmo depois de dias duros e doloridos que a gente passa, em outros, como hoje posso dizer que me sinto feliz. Tranquilo, animado, esperançoso. Não quero pensar por quanto tempo essa sensação boa vai durar, mas quero mantê-la no coração e na memória.

E, aproveitá-la ao máximo e reforçar, com ela, a certeza de que tudo é mesmo cíclico na vida e que se um dia estamos lá em baixo, nos sentindo a pior das criaturas, no dia seguinte poderemos estar lá em cima, nos píncaros da glória. As razões disso tudo são muitas. Estou feliz com a página, com o curso de inglês novo e comigo. Essas coisas estarem dando certo me deixam bem mais seguro, mais confiante. Ainda que distante de meus objetivos, pelo menos estou conseguindo fazer as coisas que quero. E outra é ter a convicção, de que o amor nunca vai sumir de nossa vida. Mesmo quando não há nenhuma pessoa, ele vai estar se manifestando sempre em outras coisas, e creio sim, que nunca faltará ocasião para que se manifeste.

Descubro, não como desculpas, que amo meu trabalho, meus amigos, minha família, eu mesmo, esta cidade, e este dia de sol de 27 de março. As possibilidades que o mundo coloca na nossa frente, mesmo quando parte dele está em guerra.. É tanta coisa que não temos mesmo, porque reclamar da falta de amor. Mas reflito outra vez que é preciso muita calma e tranqüilidade, até porque é da minha essência isso. Mas acontece que tudo passa mesmo. Sei que inclusive essa calmaria vai passar, e que lágrimas vão chegar um dia de novo, quando estarei só e a esmo. Mas estou convencido de que isso é viver, e já me deixa feliz saber que eu vivo, que faço parte do povo e que posso compartilhar esta alegria por isso, com todos voces meus amigos.

O nó da questão toda e de estar mais ou menos feliz, na maioria das vezes, é o medo decorrer riscos, Quanto arrrependimento por ter não ter realizado alguma coisa. Por não ter falado quando se queria falar. Por não ter-se declarado quando deveria se declarar. E não são raros os livros que incentivam a que se corra riscos para se viver de verdade, e é nisso que ando apostando. Quero correr riscos sempre, de chorar e de rir, de amar mesmo que não seja amado, de me divertir e me entediar, de ter sucesso e fracassar. O medo impede que as coisas más aconteçam, mas também as boas. E é dele que temos que nos livrar! Tomara que hoje voces estejam ótimos também, não deixam aquelas pedrinhas machucarem seus calcanhares e que nada doa no seu físico ou na sua mente. Amém.




Joelmir Beting
Quinta-feira, 27 de março de 2003


Cadê o barril a US$ 50?

O impensável declínio de 30% nas cotações do petróleo, ocorrido na primeira semana da guerra com aviso prévio, jogou areia argilosa nos ventiladores da sinistrose global. Havia vaticínios levados a sério para barris do medo saltando de US$ 35 para US$ 50 ao disparo do primeiro míssil inteligente pero no mucho contra os palácios de Saddam. Pois os mesmos barris adernaram para US$ 25.

O peso do Iraque no mercado global do fedorento fóssil não tem passado de 3% da demanda diária de 78 milhões de barris. A velha plataforma instalada no Iraque tem capacidade para 6 milhões de barris por dia. Mas, por embargos herdados da desastrada invasão do Kuwait, há 12 anos, a oferta iraquiana tem ficado abaixo de 2,5 milhões. Ao lado, a Arábia Saudita escoa 7 milhões e precisa de apenas uma semana para espichar para 10 milhões.

Mercado tipo bolsa, especulativo por natureza e conveniência, o petróleo exala cenários extremamente voláteis. Como se viu no soluço de segunda-feira, as cotações de referência, na Bolsa de Londres, passam a oscilar ao sabor das expectativas de duração do conflito e da proteção ou não dos campos iraquianos contra a sabotagem da queima vingativa de poços, de torres e de oleodutos.

Pelo sim, pelo não, a Opep acaba de decidir em seus tranqüilos gabinetes de Viena que não vai aumentar a produção nem reduzir a própria. Mas não vacilará em rebaixar a oferta diária se a cotação londrina do tipo Brent atrever-se a rodar abaixo de US$ 22.

Resumo da ópera Bush: o que vale não é a posição de mercado do Iraque, mas o potencial do Iraque a futuro. Aí, as lombrigas texanas de Bush e de Cheeney entram em convulsão. O Iraque dispõe de 112 bilhões de barris em reservas comprovadas e de outros 108 bilhões em trapas a dimensionar - a custos irrisórios de prospecção. Óleo bruto tipo leve de boa qualidade, a galope melhor logística de escoamento de todo o Oriente Médio.

Um Iraque pós-guerra, sob ocupação anglo-americana, mas já escovado por sondas francesas, espanholas, russas e chinesas, vai ter de contar com investimentos da ordem de US$ 45 bilhões em quatro anos. Primeira fase: reparação dos estragos ainda imprevisíveis da guerra. Segunda fase: modernização do parque petrolífero de há muito sucateado. Terceira fase: ampliação da capacidade de exploração. Fala-se em tiragem firme de 6 milhões de barris por volta de 2010.

As empresas européias, russas e chinesas infiltraram-se no Iraque por baixo dos panos do embargo endossado pela ONU. Tanto nos negócios do petróleo como nas vendas de "materiais sensíveis". No bagaço econômico e orçamentário desde a longa guerra a troco de nada com o Irã, Saddam comprou no fiado US$ 4,7 bilhões dos franceses, US$ 3,4 bilhões dos alemães e US$ 8,2 bilhões dos russos.

Resultado: Paris, Berlim e Moscou omitiram-se a favor de Bagdá nas últimas escaramuças diplomáticas com Washington e Londres. Um pacifismo orçado em US$ 16,3 bilhões em faturas a receber. Numa virtual ocupação anglo-americana, empresas russas, alemãs e francesas terão de aguardar no fim da fila dos credores. Dos credores do colapso iraquiano.

SECOS & MOLHADOS

Uma fábula - Em sete anos corridos do duplo "oil-shock" do petróleo (1974/1980), o Iraque entesourou petrodólares da ordem de US$ 155 bilhões.

Reciclados em títulos europeus e americanos, esse maná telúrico chegou a faturar ganhos de até 26% ao ano. Em 1980, o Fed chegou a pagar 21%.

Uma tragédia - Já instalado no poder, Saddam Hussein não pensou em construir um paraíso para 22 milhões de patrícios na época. Preferiu torrar a fortuna sacada da areia na matança mútua pactuada com os aiatolás do Irã. Estes, apoiados pela URSS. Saddam, escorado pelo salão oval da Casa Branca de Reagan. Uma guerra fria de marionetes.

Energívoros - Yes, blood for oil. A guerra durou oito anos e empilhou milhões de cadáveres em ambos os lados do Golfo. Nada mudou de lá para cá. Sociedade energívora, os americanos ainda importam 60% do petróleo que consomem sem moderação. E pelo qual não vacilam em promover conflitos sem remorso em solo alheio.




José Sinão
simao@uol.com.br


Buemba! Arma química é o esfirrão da rodoviária!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Desde Bagdá! Big Mac Cowboy x Quibe Cru de Bigode! E a melhor manchete de hoje sobre a guerra é a do 'Jornal do Commercio', de Recife: 'ENTROU AREIA'. Eu já disse que o Saddam ligou um ventilador gigante no deserto. Operação Ventilador do Deserto! E quem nasce em Bagdá o que é? ALVO! E sabe como Bush reza? Em nome do meu pai, do Donald Rumsfeld e do Colin Powell, amém, BOMBA! E o Rumsfeld disse que o bombardeio é pra libertar os iraquianos. Só se for pra libertar desse mundo! E o Marcos Uchôa no videofone tá parecendo o Monstro do Espelho!

E já pensou se os americanos perdem e o Saddam continua? Aí tem que esperar pela quarta degeneração dos Bush! E sabe por que o Bush gosta tanto de bomba? Porque tem um canhão em casa. E diz que as opiniões a respeito do Bush estão divididas: 50% contra ele e os outros 50% contra a mãe dele! E o Bush Exterminador do Futuro tá parecendo mais o Bronco, o Agente 86 ou o Parreira?

IMPÉRIO DOS TRAPALHÕES! E o míssil antiaéreo Patriot? É tão patriota que não aguentou ver um avião britânico voando e foi lá e derrubou. Fogo Muy Amigo! E essa última: 'Caça americano erra e atinge bateria de mísseis americanos'. Canibalismo aéreo!
E a pontaria de bêbado dos americanos? E o piloto americano Mr. Magoo? O Míssil Magoo atingiu mais um alvo estratégico de altíssima precisão: um mercado popular! Então o Míssil Magoo já atingiu vários alvos estratégicos: um ônibus na Síria, um deserto na Turquia, uma choupana no Irã, um jornalista australiano, dez helicópteros britânicos, uma universidade e um mercado popular em Bagdá. Avisa pro Blair que eles vão acabar acertando o Big Ben!

Boicote Urgente! E aquela Força da Coalizão devia se chamar Força de Colisão! E hoje eu continuei com o boicote a Coca-Cola: comi esfirra com tubaína. Esfirrão da rodoviária com tubaína sem gelo! Isso que é arma química: aquele esfirrão da rodoviária! E arma química é aquele monte de Passat brasileiro que roda no Iraque. E sabe como se chama a Heloísa Helena criticando o governo Lula? Fogo Amigo!

E a penúltima derradeira fatal do Bestiário Tucanês. É que a Coelba na Bahia avisa seus usuários que haverá um 'realinhamento de preços'. Tucanaram a facada nos baianos. Rarará. Temos que chamar o Oswaldo Cruz e o Colin Powell pra erradicar o tucanês! Nóis sofre, mas nóis goza. E não se esqueça: em tempo de guerra qualquer buraco vira trincheira.
simao@uol.com.br




E quando acaba a esperança, quando não se tem mais a quem apelar, decreta-se um grave desequilíbrio interno e físico-espiritual nas pessoas, cujas vidas, por perda do horizonte, desmantelam-se. Não há mais razão para continuar e não é isso, penso, que o povo brasileiro merece. Mas enfim, aí está a indignação do nosso amigo Paulo Sant'ana. Melhor então, para uma quinta-feira assim, é curtir a Daniela Cicarelli, abaixo.




Paulo Sant'ana
27/03/2003


Escândalo nos combustíveis

Eu não posso deixar de me referir a isto: só de pessoas que conheço, três se suicidaram nos últimos sete dias.

A guerra completou ontem exatamente sete dias.

Esta guerra fará 1 milhão de vezes mais vítimas no mundo, por depressão e estresse, do que as que tombarão durante os ataques bélicos e as batalhas.

Este amassamento espiritual das pessoas, que se pode notar em qualquer lugar a que se vá ou em que se esteja, deve-se a um fato central: a perda da esperança.

Quando as pessoas notam que não há mais a quem apelar, todas as instâncias de socorro ficam mudas e/ou impotentes, a mente humana tende a desabar.

Se falha a ONU, se falha o Papa, se de nada adianta as multidões saírem às ruas em todas as partes do mundo para protestar contra a guerra, um vazio existencial se instala entre as multidões, que são tomadas por uma grave e perigosa melancolia.

Quando até as notícias boas produzem mau efeito, é porque a guerra está tendo mesmo efeitos nefastos sobre o moral humano.

Vou dar o exemplo de como duas ótimas notícias podem ainda assim desatar o desânimo entre as populações.

Fui talvez o primeiro jornalista brasileiro, em meus espaços de rádio e televisão, a diagnosticar que seria lícito ao povo brasileiro ser agora aquinhoado com uma baixa nos preços da gasolina, do gás de cozinha e dos outros combustíveis.

Pois se os porta-vozes governamentais afirmavam com ênfase que a alta no preço do gás e da gasolina se devia à desvalorização do real perante o dólar e à alta do preço internacional do petróleo, justo é que, agora, com esses dois indicadores sofrendo exatamente o efeito contrário, baixasse nos postos o preço da gasolina e do gás.

Era óbvio que o governo viesse a ser cobrado sobre isso. E ontem, a ministra Dilma Rousseff, das Minas e Energia, expressou o seu duro e inapelável veredicto: "Baixou o preço internacional do petróleo, baixou o dólar no Brasil, mas havia uma defasagem nos preços dos combustíveis e não podemos agora diminuí-lo".

Como é que é, ministra? O petróleo baixou no mundo inteiro 20% nos últimos dias, só este mês o dólar baixou no Brasil mais de 5% e o governo não vai diminuir o preço dos combustíveis para o consumidor?

Isto é um logro colossal. Isto é de um contra-senso monumental. Não há defesa para esta exploração inédita dos consumidores, já escalpelados terrivelmente pelos ataques da inflação.

Eu já não tenho mais dúvida, se o dólar voltar a subir destes R$ 3,38 em que bateu ontem e voltar aos R$ 3,55 do início de março, se o barril do petróleo pular dos US$ 28 de ontem para os US$ 38 que fizeram com que nós pagássemos estes intoleráveis R$ 2,29 pelo litro da gasolina comum (em São Lourenço e outros lugares gaúchos está a inacreditáveis quase R$ 2,70), o governo vai mandar subir novamente o preço dos combustíveis.

Eu não tenho dúvida sobre isso, basta notar a sórdida palavra "defasagem", empregada anteontem pela ministra da Energia.

E aí o governo federal, a Petrobras, os governos estaduais, pelo ICMS, vão lucrar duas vezes por um só aumento.

Isto é trágico. Porque o Brasil inteiro derramou nas urnas os votos para o Lula, esperando que ele fosse a última instância de salvação, como se pensou que pudessem ser a ONU e o Papa, em vão.

E quando acaba a esperança, quando não se tem mais a quem apelar, como neste caso escandaloso do preço dos combustíveis, aliado a esta perversa guerra, decreta-se um grave desequilíbrio interno e físico-espiritual nas pessoas, cujas vidas, por perda do horizonte, desmantelam-se.

Não há mais a quem apelar. É o fim.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Nilson Souza
27/03/2003


Fantasia destruída

Iznogud quer ser califa no lugar do califa.

Ele é o grão-vizir de Bagdá, cidade onde as maravilhas e os magos eram coisas corriqueiras, segundo a divertida história em quadrinhos escrita pelo francês René Goscinny, o mesmo autor das aventuras de Asterix. Ao contrário do califa Harrum ahal Mofadah, que é um sujeito de bom coração, Iznogud esbanja mau caráter. Está sempre maquinando um jeito de derrubar o soberano para assumir o seu lugar. Só que o feitiço sempre se volta contra o feiticeiro. Todas as maldades do infame grão-vizir acabam desabando sobre sua própria cabeça - por obra e graça dos deuses do reino dos tapetes voadores.

Tenho uma coleção inteira de Asterix e vários álbuns de Lucky Luke, mas o meu personagem preferido de HQ sempre foi Iznogud, uma espécie de Dick Vigarista do Médio Oriente. Síntese dos piores sentimentos humanos, ele desperta no leitor a agradável certeza de que o bem triunfará sobre o mal. Sua ambição desmedida, suas mentiras, suas intrigas e artimanhas jamais alcançam êxito, mesmo quando são meticulosamente planejadas. O plano infalível sempre falha, o crime perfeito sempre é descoberto, a verdade sempre aparece e, no final, os bons acabam recompensados.

A Bagdá da historinha merece o título de Cidade da Paz, que recebeu quando foi idealizada para ser a capital do Império Árabe, no século oitavo da Era cristã. Conta a história real que a Mesopotâmia foi o berço da civilização. Naquelas terras históricas, o homem deixou de ser um caçador nômade e se transformou num agricultor caseiro. Teve, então, tempo e engenhosidade para inventar o arado, a escrita e a roda, dando início a uma forma de vida mais cômoda, construtiva e pacífica. Desenvolveu uma cultura, elaborou leis, domesticou a natureza, fundou aldeias e transformou-as em cidades prósperas.

Mas os séculos se passaram e Iznogud, ao que parece, conseguiu o que tanto queria. Califas modernos, possuídos pelo espírito mau do grão-vilão, estão destruindo Bagdá e todas as fantasias que a milenar cidade mágica evoca. Não querem ser apenas califas, querem ser deuses, senhores da consciência, do pensamento, da vida e da morte dos demais seres humanos.

É muito doloroso ver Bagdá banhada em sangue. Será que esta história de prepotência e intolerância ainda dará uma virada para o lado do bem?
nilson.souza@zerohora.com.br




Para quem quiser maiores informações inerentes ao programa o email do Deputado Federal e Professor Universitário, Osvaldo Biolchi é este: osvaldobiolchi@camara.gov.br.



Ana Amélia Lemos
27/03/2003


Crédito educativo

A Caixa Econômica Federal ainda não encontrou a forma de cumprir as determinações da Lei 10.260, que trata do crédito educativo e estabelece normas para a negociação das dívidas dos recém-formados em cursos superiores. Por conta disso, milhares de jovens, em todo o país, enfrentam o dilema de falta de emprego e de condições, portanto, para honrar o débito com a instituição financeira. A maior parte dos relatos que têm chegado a este espaço revela uma situação paradoxal. Os ex-alunos que se formaram com o crédito educativo querem pagar, mas se assustam com os valores cobrados, que são os de mercado, portanto impagáveis.

A Caixa prometeu, até o final deste trimestre, uma solução para o caso, como esta coluna apurou recentemente.

O tema ganha relevo e repercussão. O jovem Daniel Mac-Culloch, do Rio de Janeiro, acompanhou pela Internet o exame do problema neste espaço, mostrando o dilema vivido por outros ex-estudantes gaúchos. Ele informa que a evasão escolar no ensino superior ocorre por causa das dificuldades financeiras dos alunos. Também conta que o Instituto de Defesa do Consumidor de Campinas determinou à Caixa Federal a revisão de contratos, com o recálculo da dívida de alunos que recorreram a essa instância. No Rio Grande do Sul, muitos ex-alunos estão entrando na Justiça para exigir o cumprimento da Lei 10.260. O presidente da UNE, Felipe Maia, indagado pela coluna, informa que a entidade está trabalhando para mudanças no sistema, que não dependem de novas leis, mas de portarias do Ministério da Educação.

Entre as mudanças sugeridas pela UNE para o crédito educativo, estão o fim da exigência de apresentação de renda familiar e avalista para ter acesso ao crédito. Também quer redução dos juros para 4% e ampliação da carência para 24 meses. Felipe Maia disse que na última reunião que teve no MEC ficou acertada a criação de um grupo de trabalho para discutir essas mudanças e a ampliação do número de bolsas. Esse grupo será integrado por representantes do MEC, da UNE e outras entidades. O objetivo é conseguir aumentar o número de vagas já no segundo semestre. O recém-formado Daniel Mac-Culloch decidiu discutir o tema que tanto preocupa os jovens brasileiros através do site www.webmosquito.kit.net. Acredita que, assim como este espaço, pode contribuir para a solução de um problema que atormenta milhares de famílias brasileiras.

Academia - A coluna repara a omissão. Também integra a Academia Brasileira de Letras, além de Carlos Nejar, outro gaúcho: Raymundo Faoro, nascido em Vacaria, que ocupa a cadeira número 6. Moacyr Scliar vai ocupar a cadeira 31, que ficou vaga.
ana.amelia@zerohora.com.br




Luis Fernando Verissimo
27/03/2003


Sandra Bullock

Já caíram mísseis americanos no Irã, na Turquia e na Síria, o que torna difícil acreditar na precisão cirúrgica do bombardeio de Bagdá. Não estão acertando nem o país! E "cirúrgico" não é um termo muito tranqüilizador, como se sabe: há cirurgiões que procuram o apêndice no pé. Mas não posso falar mal. Como os mísseis Tom Cruise e Tom Ahawk, eu também sou filho de Deus, e errei.

Na última crônica chamei o Paul Wolfowitz, um dos neoconservadores responsáveis pela política externa arrasadora do Bush (já arrasou com a aliança atlântica, com as Nações Unidas e com a diplomacia dos Estados Unidos e está em vias de arrasar Bagdá, e isso que recém começou), de segundo homem do Departamento de Estado, como se o Colin Powell não tivesse amarguras suficientes. Wolfowitz é o segundo do Donald Rumsfeld no Departamento de Defesa. E dizem que o primeiro entre os superfalcões responsáveis pelo bombardeio humanitário que, no momento em que escrevo, já conseguiu salvar dezenas de crianças das garras do Saddam Hussein, matando-as.

Nessa questão do boicote a produtos americanos, sei não. Acho bom pensar melhor no assunto. Eu posso muito bem viver sem a Coca Diet - mas e a Sandra Bullock? Não é nem uma questão de procurar substitutos nacionais, ou de estrangeiros aceitáveis. Como saber? Estamos tão dependentes e globalizados que antes de tomar um guaraná seremos obrigados a perguntar ao garçom se ele, por acaso, conhece a composição acionária do fabricante.

E também é preciso lembrar sempre que o Vasco da Gama não é o Eurico Miranda, é a sua história e as suas glórias, incluindo o Aldir Blanc. Para cada lamentável Wolfowitz, os americanos têm um admirável Michael Moore, que, explicando por que preferia os documentários à ficção ao receber seu Oscar, resumiu, numa frase, toda a insanidade do momento: um presidente fictício, fruto de uma eleição fictícia, levando um país para a guerra por razões fictícias.

Moore foi vaiado e aplaudido mas nenhum convidado ou responsável pela festa se preocupou em fazer uma defesa da ação americana equivalente à veemência da sua manifestação. Pelo menos naquele auditório a maioria parecia querer, literalmente, paz. O tipo de birra irreverente e criativa de gente como Moore é um antídoto para o atual desvario americano que pode custar para agir mas da qual não se deve desesperar. E ainda por cima, eles têm a Sandra Bullock.


Reportagem Especial
Comboio gigante desafia EUA perto de Bagdá



Fuzileiro americano carrega soldado iraquiano ferido durante ataque a forças aliadas na região central do Iraque (foto John Makely, AP/ZH)


Quarta-feira, Março 26, 2003




É inegável, que há momentos na vida que ficamos sem saber para onde ir, que nada consegue nos alegrar, motivar ou seduzir e, em compasso de espera, vamos assistindo a fragmentação das nossas estruturas, agora transformadas em quimeras. E eu, em particular, teria tudo para pensar e sentir diferente. Faço o que gosto, Agora mesmo me surpreendi com os 19.000 acessos a esta página de leitores que por alguma razão, ainda que não exposta, prestigiam este trabalho que é feito com amor.

Cada imagem inserida, cada pensamento colocado, tudo é como se fossem as coisas mais importantes de minha vida neste momento. E a recompensa, e basta é o número expressivo de visitas. Só que tudo isso não me faz sentir menos triste. É algo da infância, quem sabe...Ou algum amor que latente existe, sem que eu queira vivenciá-lo.

Fiquem com Deus, muito amor e tenham certeza, agradeço pelo carinho embora não expresso, mas sei que ele existe pela sua presença assinalada ali no contador.


Momentos

Há momentos na vida que temos que abrir mão de tudo que fazia sentido, das nossas verdades e do que reputávamos como sendo os nossos valores. Constatamos que eles se tornaram inúteis ao nosso crescimento, já fazem parte do passado e a vida, não se detém olhando para trás, antes, caminha para a frente, em busca de novos acontecimentos.

Há momentos na vida que todas as vigas mestras que asseguravam a nossa sustentação vêm abaixo e a casa cai, independente da nossa tácita recusa ou inaceitação.

Há momentos na vida que ficamos sem saber para onde ir, que nada consegue nos alegrar, motivar ou seduzir e, em compasso de espera, vamos assistindo a fragmentação das nossas estruturas, agora transformadas em quimeras.

Nestes momentos ( que têm o peso de uma eternidade), nada nem ninguém pode fazer nada por nós ... estamos definitivamente vazios e sós, porque até a Natureza se cala e Deus perde a fala, indiferente ao nosso torpor.

Em meio à dor, esmiuçamos o que sobrou de nós, remexemos entre os escombros e descobrimos que algo ainda não morreu.

Tênue e frágil, lá está uma pequena centelha de esperança, aguardando uma virada do destino, que certamente nos surpreenderá com novas alegrias ... e com tantos outros desatinos.

Momentos ...

Fátima Irene Pinto




Como é quarta-feira, dia internacional do sofá, nada melhor que uma poesia para completar o dia. Ainda escreverei mais, com certeza, mas por enquanto deixo-os com este post, cujo link leva a um site super legal, na minha opinião. Feito assim com muita sensibilidade, com bom gosto e muito carinho, pelo menos menos é a minha percepção.


S E R P O E T A

Ser poeta é sina,
porque há sempre um exalar de perfume
e dor em cada texto que o poeta assina.
É caminhar no fio da navalha,
é às vezes, ser cruelmente
retalhado ao resvalar em cada rima.
É gestar versos indóceis, querendo nascer...
Nascendo são filhos pródigos
que seguem seu rumo,
deixando o poeta vazio,
para que de novo, ele possa "conceber".
Ser poeta é ver as coisas mais simples
pelos olhos de uma abelha, multifacetadas,
e assim, enxergar detalhes mil,
onde os outros não conseguem enxergar nada.
Ser poeta é enfeixar todas
as reverberações de um diamante,
ciente de que ele, será sempre
e tão somente um mero matiz.
Ser poeta é conviver
com uma sensibilidade imensurável,
que exalta e aniquila, que desnivela,
que o eleva ao Reino de Deus e,
simultaneamente o rebaixa
ao Reino de Hades...e,
em meio a estas tempestades,
que fulminariam o mais comum dos mortais,
ser poeta é caminhar sozinho,
implorando ao mundo,
a compreensão de seus ideais!

Fátima Irene Pinto
Descalvado - SP




Este é o editorial do Jornal o Liberal de Belém, e embora os detaques sejam todos para a guerra deles, nós vamos discursando e prometendo muito fazer para acabar com a guerra nossa aqui. Mas enquanto isso, gastam-se os milhões transportando presos de cadeias para serem ouvidos, uns aqui, outros acolá e os que permanecem soltos?

As nossas guerras

Lá, a guerra deles. Aqui, as nossas. A deles chama a atenção e desperta amor e ódio, conforme os humores, os interesses em disputa, as preferências ideológicas ou o matiz político.

As nossas guerras, se não sensibilizam a humanidade, são suficientes para comover e abalar os mundos de cada cidadão, de milhões deles que agora já constatam, entre aterrorizados e impotentes, que as investidas dos bandos organizados começam a ceifar vidas de integrantes do Poder Judiciário.

As histórias dos juízes de Presidente Prudente (SP) e o de Vitória (ES), ambos brutalmente executados em datas muito próximas uma da outra, são muitíssimo parecidas. Ambos exerciam jurisdição na área das execuções penais, eram jovens, destemidos, de honradez acima de quaisquer suspeitas e dispostos a encarar de frente os mecanismos que permitem aos fascínoras agir e depois esquivar-se, para escapar às punições.

Os discursos que sobrevieram aos dois homicídios são, igualmente, parecidíssimos: constatam que foi mais uma agressão ao Poder Judiciário, que o Estado - em suas mais variadas e vistosas instâncias - vai agir concretamente para acabar com o crime organizado, que é preciso rever a legislação penal e processual para deixar a Justiça mais livre para aplicar a lei etc., etc., etc.

E aí? E aí que o Estado pode vir a ganhar, mas quem está em vantagem é o crime organizado, que não depende nem de vontade política, nem tampouco encontra embaraços em formalidades típicas dos poderes institucionalizados. Precisa, apenas, sentir-se ameaçado para reagir como manda o figurino dos fascínoras: eliminando qualquer um que ouse antepor-se como obstáculo às suas pretensões criminosas.

Há muito já se disse que estamos vivendo um clima de conflagração, não plenamente perceptível, porque esparsa. Mas num País em que traficante usa roupa de grife - em vez do uniforme de presidiário - e é tratado como superstar; num País em que a segunda maior cidade do País já foi, por duas vezes, virtualmente paralisada diante do diktat dos bandidos; num País em que juízes começam a ser assassinados por ordem expressa do crime organizado; num País assim, em conclusão, será exagero imaginar que lá, como cá, guerras há?




Joelmir Beting
26/03/2003


O dono do mundo

"Tivemos uma eleição fictícia que elegeu um presidente fictícioque nos leva a uma guerra de verdade por uma causa fictícia."
Michael Moore, cineasta americano

Enquanto o presidente George Bush, o filho, resolve descolar do Congresso um reforço de guerra de quase US$ 80 bilhões (o dobro do PIB do Iraque), sob os aplausos de sete americanos em cada dez, o historiador Arthur Schlesinger Jr., 86 anos, tira o pijama e rasga o verbo: "Agora somos nós, os americanos, que vivemos na infâmia."

Entre aspas: "Ao nos impor essa guerra, a doutrina Bush nada mais faz que abandonar a diplomacia da contenção e da dissuasão, que nos levou a uma vitória pacífica na guerra fria contra um inimigo realmente ameaçador. Essa nova doutrina da defesa antecipada é infamante. Ela nos iguala ao Japão Imperial de Pearl Harbour."

E mais: "Há uma triste suspeita de que estejamos indo à guerra contra o Iraque porque esta é a única guerra que podemos vencer. Não podemos vencer a guerra contra o terrorismo da Al-Qaeda, pois esta ataca das sombras e nas sombras desaparece."

E ainda: "Também não poderíamos vencer uma guerra contra a Coréia do Norte porque esta, sim, dispõe de armas nucleares. O perigo coreano é bem maior e mais claro que o risco iraquiano. Ao atribuir à Coréia do Norte um tratamento favorecido, a doutrina Bush incentiva outros Estados fora-da-lei a desenvolver seus arsenais de destruição em massa."

No mesmo embalo: "A doutrina Bush é uma capitulação ao militarismo e à arrogância. Ela nos transforma em jurados e em carrascos do mundo. Pior: juízes desmemoriados. Se Saddam é um ditador monstruoso, foi com o apoio dos Estados Unidos que ele trocou atrocidades com o Irã numa guerra que durou oito anos."

Arthur Schlesinger Jr. faz dele as palavras do presidente John Kennedy, de quem foi assessor especial para assuntos externos. Disse Kennedy, em outubro de 1962: "Precisamos encarar o fato de que os Estados Unidos não são nem onipotentes nem oniscientes; de que representamos apenas 6% da população mundial e não podemos impor nossa vontade aos outros 94% da humanidade; de que não podemos consertar tudo o que está errado aqui dentro e muito menos lá fora; e de que, portanto, não pode haver uma solução americana para cada problema do mundo."

Bem, o certo é que o bushismo do direito da força por sobre a força do direito nada tem a ver com os valores de uma sociedade politicamente aberta e culturalmente pródiga. Nem mesmo com os humores de uma sociedade economicamente opulenta e estrategicamente hegemônica. A doutrina belicista de George Bush simplesmente leva ao pé da letra que é pouca e da verba que é muita o preceito cínico de George Orwell, em A Revolução dos Bichos: "Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros." Bush sonha ser o "Big Brother" criado pelo próprio Orwell.

Ocorre que não existe um poder multilateral no mundo unipolar da "pax americana" pós-queda de muros, de torres e de pontes. No plano político, a ONU não passa de um elefante branco marmorizado na margem do East River. De resto, também ela na mira da Al-Qaeda.

SECOS & MOLHADOS

Dinheirama - O governo Bush serve-se das dificuldades da invasão do Iraque para fazer do azedo limão militar uma doce limonada orçamentária. Os gastos anuais com a Defesa Nacional em tempos de paz já passam de US$ 410 por ano. Em nome da guerra tópica sob medida e de seus rescaldos rosca sem-fim, Bush exige mais US$ 80 bilhões nas mesas do Pentágono. Já.

Referência - Outro dia, esta coluna destacou um estudo de Jeffrey Sachs, de Harvard. Pela sua tabela, US$ 80 bilhões para a morte na guerra salvariam da morte na doença nada menos de 35 milhões de africanos hoje irremediavelmente condenados pela aids, pela malária, pela cólera e pela tuberculose. Trinta e cinco milhões!

Comilança - Bush assumiu a Casa Branca com superávit fiscal de US$ 557 bilhões, acumulado por Clinton. Em seu primeiro ano fiscal, Bush resvalou do azul para o vermelho: déficit de US$ 158 bilhões. Neste segundo ano fiscal (que vai até outubro), o déficit já está em US$ 307 bilhões. A bordo da guerra, pode passar de US$ 400 bilhões. Ah! Com redução de impostos para grandes empresas e grandes fortunas.




Empresas

Fundação controladora da Varig decide afastar seu presidente
Manuel Guedes vai tratar exclusivamente da fusão com a TAM
Rio


Os dois homens fortes da Varig deixam de exercer seus cargos na companhia aérea. O presidente do conselho de administração da Fundação Ruben Berta Participações (FRB-Par), Yutaka Imagawa, foi destituído ontem da presidência do conselho de administração da FRB-Par, que controla os negócios da fundação, como as empresas aéreas Varig, Rio-Sul, Nordeste e outras. O presidente da empresa, Manuel Guedes, passará a se dedicar exclusivamente à fusão da empresa com a TAM.

A decisão de afastar Imagawa foi tomada por quatro dos sete integrantes do conselho de curadores da FRB. Os outros três não participaram da reunião.

O afastamento de Imagawa abre brecha para futura reestruturação do restante do conselho de administração da FRB-Par. O conselho de curadores registrou também a possibilidade de "recomposição e eventual substituição" de integrantes do atual conselho da holding. A medida poderia acelerar as negociações para a fusão com a TAM. A Varig não se manifestou sobre as mudanças na controladora.

Guedes vai se dedicar exclusivamente ao processo de fusão com a TAM, já em curso. Continuará no cargo, mas sem acumular funções. As decisões operacionais serão tomadas pelo diretor de planejamento da companhia, Alberto Fajerman.

Em comunicado aos funcionários, Guedes informou que teve de se afastar da gestão para poder cuidar das negociações com a TAM.

Com dívida de US$ 800 milhões, a Varig já teve este ano arrestadas duas aeronaves por falta de pagamento de leasing e tem dificuldade em renovar os contratos.

A fundação é administrada por funcionários da companhia por meio do conselho curador. Foi Imagawa quem rejeitou no ano passado o acordo negociado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social com credores, que previa o perdão temporário de dívidas de US$ 117 milhões.




Incrível que logo hoje, existe a noticia de que uma dessas bombas caiu dentro de um mercado desses, matando e ferindo unicamente civis. Com toda a tecnologia e precisão milimétricas de que se fala, acontecem erros grosseiros, como mísseis atingindo aviões amigos, helicópteros se batendo entre si.

Paulo Sant'ana
26/03/2003


A vida continua

A foto da capa de Zero Hora de ontem encantou a todos. Porque todos perceberam por ela que nem uma guerra é capaz de parar uma cidade e seus habitantes.

Ali estão os iraquianos, homens, mulheres e crianças, a oferecer seus hortigranjeiros aos seus fregueses: aparecem os repolhos, os pepinos, os nabos e as vagens, tendo como fundo desta feira livre descontraída os cogumelos dos bombardeios ensombrecendo o horizonte.

E pensar-se que aqui entre nós há homens e mulheres que se atracam há anos num debate feroz sobre se o comércio tem ou não tem que abrir aos domingos!

Pois se nota por essa magistral foto que Bagdá não decreta feriado nas suas feiras populares de abastecimento nem durante a guerra.

A foto é um documento extraordinário. Porque ao fundo há a fumaça negra das bombas e dos mísseis, ali adiante, a poucos quarteirões.

E no primeiro plano os nabos, os repolhos e os pepinos postos à venda entre os transeuntes.

A destruição vinda dos céus é entremeada da criação, que teima em fazer brotar os frutos da terra.

Isto quer dizer que a morte pode rondar a humanidade ou uma cidade, mas continuarão sempre a presidir os atos humanos a vida, a sobrevivência, a civilização.

Pela foto de incrível e paradoxal realidade, a guerra, representada pelos bombardeios lindeiros ao mercado de verduras, é apenas um detalhe, não impeditivo até de alguns sorrisos de feirantes e fregueses.

Este flagrante histórico do cotidiano iraquiano comprova que não há Bush, Saddam, CIA, Baath ou Al Qaeda que impeçam o florescer dos repolhos, das vagens e d