E N T R E L A Ç O S
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Sábado, Maio 24, 2003




Mulheres que amam demais?????

Os grupos Madas (Mulheres que Amam Demais Anônimas) surgiram nos Estados Unidos, inspirados no livro Mulheres que amam demais, da terapeuta de casais Robin Norwood. Atualmente, no Brasil, cerca de 10 mil mulheres participam dessas reuniões de apoio. Funcionam como o AA, mas o objetivo é dar suporte a quem sofre de amor doentio.

No Espírito Santo, não existe mais. E as mulheres que sentem necessidade de apoio procuram os Neuróticos Anônimos. Mas é preciso esclarecer uma coisa: será que o termo Mulheres que Amam Demais se adapta bem à situação?

Para Boechat, essas mulheres, na verdade, não amam em excesso. Mas sofrem de um transtorno obsessivo compulsivo (TOC). É uma neurose. Elas não conseguem manter um relacionamento equilibrado. São extremamente inseguras, não têm amor-próprio. Ela deposita sua felicidade no outro. Há muita angústia e o sofrimento. Perde seu referencial, tornando-se possessiva e ciumenta. Não consegue viver sem o objeto amado.

Lúcia*, 44 anos, que viveu anos nessa obsessão, concorda com o terapeuta. Não é amor. É posse, afirma. Casos assim podem levar a atitudes extremas de violência, avalia Boechat.

Lúcia perdeu as contas das vezes em que agrediu o marido e foi agredida por ele. Mas mantínhamos as aparências. Eu fingia que controlava ele e ele fingia que fazia tudo o que eu queria. Era uma relação doentia, lembra.

Por que as mulheres?

Para os especialistas, a história de submissão e passividade feminina, ao longo dos anos, é um dos fatores que desencadeiam relações problemáticas. Por muito tempo, a mulher foi criada para cuidar do marido e manter o casamento, a todo custo. Isso pode levá-la a exigir do homem a mesma atenção, tornando-se obsessiva. Mas o parceiro nem sempre se rende aos seus caprichos. Fica, então, insegura, e passa a tentar se fazer necessária. Complexo, não?

Fatores sociais e culturais devem ser levados em conta. Mas há a possibilidade de as causas serem psiquiátricas¿, alerta o terapeuta. Para ele, ainda é preciso considerar que as mulheres são muito mais suscetíveis às emoções.

A mulher que sofre desse transtorno quer o homem somente para si. O medo da perda faz com que ela sufoque o marido. Em alguns casos, não quer nem ter filhos, para não precisar dividir a atenção do parceiro ou mesmo não perder a forma e deixar de ser desejada pelo amado.

Será que meu amor é doentio?

Algumas internautas podem estar se perguntando: Sou ou não obsessiva?. Calma! Não precisa ficar desesperada porque, de vez em quando, você faz ceninhas de ciúme ou tem atitudes das quais se arrepende. O fato de ser possessiva não a torna obcecada, doente.

Boechat explica que há algo errado quando a mulher sofre mais do que aproveita a relação. Amor tem de ser sinônimo de alegria e bem-estar. Muitas, porém, demoram a perceber que a relação está doente. O outros acabam percebendo antes¿. Portanto, se os amigos mais próximos ou mesmo a família começarem a comentar, fique atenta.

Lúcia, por exemplo, diz que somente se deu conta de que as coisas iam mal quando a filha de apenas quatro anos falou com alguém: Meu pai é do bem, a mamãe é do mal. Comecei a procurar ajuda. Mas não sabia exatamente o que se passava comigo, recorda.

Outro fator importante é que, geralmente, a mulher que sofre dessa compulsão se relaciona com homens complicados. Não apenas a mulher está doente. O parceiro também. Nesse tipo de relação, um alimenta a neurose do outro, acredita Lúcia.

Para os Madas, a regra principal é: Quando amar é sofrer... Então você provavelmente está amando o homem errado, da maneira errada,
alguém emocionalmente fechado, viciado em trabalho, bebida ou em outras mulheres...
alguém que não pode retribuir seu amor!
Mesmo assim, você insiste, se sacrifica, anula sua personalidade, continua tentando...

Afirmações positivas para quem sofre de amor

Mereço tudo de bom que a vida tem a oferecer.

Hoje estou livre da dor, da raiva e do medo.

Estou superando os pensamentos negativos que me limitam.

Me encontro em perfeita saúde e bem-estar.

Estou me libertando das limitações impostas por meus pais.

Estou disposta a criar idéias novas à respeito de mim mesma e de minha vida.

Todos os problemas e conflitos se vão: estou serena.

Mereço a vida, uma vida boa.

O amor está atuando em mim para me curar e me fortalecer.

A solução para cada problema vem agora. Estou livre e cheia de luz

Mereço a liberdade de ser tudo aquilo que sou capaz de ser.

Estou calma e segura.

Mereço viver comodamente e prosperar.

Esqueço toda dor do passado e saúdo a saúde, a alegria e o sucesso.




Pois é, todos os dias já seria bom, mas não vi nada a respeito de mais de uma vez por dia, se é saudável e se é gostoso, por que não repetir mais vezes num mesmo dia?

Brasileiro quer mais sexo!!!

Quase 70 por cento dos brasileiros, homens e mulheres, "transam quando dá vontade", "deixam rolar" e a relação acontece. Visto assim, pode parecer que o sexo ocorre com muita naturalidade. Não é bem assim. Homens e mulheres têm apenas metade do número de relações semanais que gostariam de ter. A constatação aparece na maior pesquisa sobre a vida sexual do brasileiro já feita no país.

Mesmo entre os jovens adultos, de 26 a 40 anos, em que predominam os casais, as mulheres têm em média 2,6 relações semanais, mas desejariam ter 4,4. Homens têm 3,4, mas gostariam de transar todos os dias. Foram ouvidas sete mil pessoas, entre homens e mulheres de todas as classes sociais, com idade entre 18 e 70 anos, em 13 Estados do país.




Moacyr Scliar
25/05/2003


Os conflitos do asfalto

Foto(s): Arte/ZH

A batalha final não será travada entre as Luzes e as Trevas, ou entre Kofi Annan e George Bush. A batalha final será travada entre carros e pessoas. Vocês estranharão: mas os carros não são dirigidos por pessoas? Não, não são. Embora não pareça, os carros são entidades autônomas. A gente pensa que os dirige, mas são eles que nos controlam, eles é que nos induzem a correr, a fazer mil proezas, a ultrapassar em condições perigosas. Só quando desligamos o motor é que recuperamos nossa completa lucidez. E, quando estamos fora do carro, é que nos damos conta da surrealista situação em nossas cidades.

A faixa de segurança talvez seja o território mais conflagrado nesta surda batalha. Teoricamente, nela o pedestre tem a preferência. Tem mesmo? Quantos são os motoristas que param ao chegar a uma faixa de segurança? Respeitar a faixa de segurança é uma cultura. Uma cultura que, a bem da verdade, o Brasil está tentando adotar. Em Brasília, por exemplo, faixa de segurança é respeitada: a gente pode passar tranqüilo. O que foi o resultado de uma longa e persistente campanha de educação no trânsito, afinal bem-sucedida. Agora vejam a ironia: com isto aumentaram as colisões de automóveis. O cara que vem atrás muitas vezes não consegue frear a tempo e bate no carro que está parado diante da faixa. O que, entre parênteses, não tem muita importância: é parte do processo de aprendizado.

Pedestres também gostam de desafiar automóveis. Há ruas - e a Oswaldo Aranha, no sábado à noite, é ou era um exemplo típico - em que os jovens ficam sentados no cordão da calçada, com as pernas estiradas sobre o asfalto. Não chega a representar um perigo, mas é um recado: o asfalto não é só de vocês, ele também é, ao menos em parte, nosso.

O desafio cresce em intensidade com o skate, esta versão, sobre rodas, da prancha de surfe. Surfar na praia não é para qualquer um: custa alguma grana. Mas a cidade está aqui mesmo, e o asfalto, que os motoristas tanto prezam, é uma pista ideal para os cultores do skate, que assim passam a deslizar entre os automóveis. É também o equivalente brasileiro da tourada, só que os touros aqui são os carros. Perigosíssimo. Tão perigoso quanto fascinante. O esporte radical da avenida.

Uma situação intermediária entre a do pedestre e a do motorista é a do ciclista ou do motoqueiro. O ciclista em geral goza da simpatia do motorista; ali está ele, na sua frágil bicicleta, fazendo um pouco de exercício. O motoqueiro, não. O motoqueiro tripula um veículo motorizado. Que o motor seja de pouca potência não importa: trata-se de concorrente. E de um concorrente ágil, que ultrapassa carros com aquela desenvoltura freqüentemente vista como arrogância. O motoqueiro zomba dos congestionamentos e isto desperta o rancor de muitos motoristas. As queixas são mútuas: vocês, motoqueiros, são imprudentes. Vocês, motoristas, são agressivos.

A esta altura, temos de fazer o elogio do ônibus. Ali está ele, um veículo que é coletivo, e não individual, circulando com a tranqüilidade possível em seu corredor, sem ultrapassar ninguém, sem hostilizar ninguém. A palavra ônibus vem do latim e significa "para todos". Mais que um transporte, é um recado. O mundo, e as ruas, não têm proprietários. São espaços democráticos, onde precisamos aprender a arte da convivência. Fácil, como se viu, não é. Mas é indispensável.
scliar@zerohora.com.br




Paulo Sant'ana
25/05/2003


Pesquisas alarmistas

No início, os estudos médicos publicados pela imprensa indicavam que os óleos animais eram os vilões do colesterol e dos triglicerídios, isto é, os incentivadores das doenças cardíacas. Ou seja, todo mundo passou a evitar a manteiga.

Algum tempo depois, veio outro estudo médico que apontava exatamente o contrário: o que fazia subirem o colesterol e os triglicerídios eram os óleos vegetais.

Ouvi há dois meses, no rádio, inflamados discursos médicos, então contra a margarina.

O ovo também já foi caluniado pelas pesquisas médicas. Da mesma forma a carne vermelha. Os dois foram acusados de fazer subir o colesterol de forma homicida.

Cá para nós, pedir que as pessoas deixem de comer ovo ou carne vermelha, diminuindo-lhes ou fazendo-lhes desaparecer o prazer da mesa, é uma crueldade desses informes.

O que as pessoas têm de entender é que, no espectro multifatorial de causas que incidem no aumento do colesterol e dos triglicerídios, os alimentos se constituem em apenas 20% do caudal de influência.

Agora, nos mais prestigiados e famosos espaços da imprensa escrita e televisionada brasileira, apareceu uma informação aterrorizante: quem tiver pressão arterial no nível 12/8 está no grupo de risco da hipertensão.

Mas pelo amor de Deus, onde é que querem chegar? Sempre ouvi os mais capazes e sensatos cardiologistas e médicos clínicos medirem a pressão dos seus clientes, verificarem que era 12/8 e exclamarem: "Maravilhoso! 12/8, pressão de bebê".

Ou seja, esta informação que circulou a semana passada no Brasil de que é perigosa a pressão de 12/8 é terrorista. Sei que partiu de um congresso médico, de uma comissão ilustre lá dos EUA, mas é terrorista. E não tem fundamento.

Em realidade, 12/8 é pressão normal. Qualquer pessoa que se sinta bem, que não tenha náusea ou tontura, com 12/8 deve ficar completamente tranqüila e não tem por que se assustar com esta notícia mau-caráter.

Esta expressão que usei aí em cima, "mau-caráter", é da minha lavra, mas a opinião de que 12/8 é pressão arterial normal e não procede qualquer alarma sobre ela é de renomados cardiologistas porto-alegrenses a quem recorri depois da infâmia alarmista.

Imaginem se a população brasileira inteira intimidar-se com essa pesquisa e se atirar para os consultórios médicos! Vai ser um deus-nos-acuda e o SUS irá explodir por completo!

Aqui mesmo nesta Redação em que escrevo existem colegas que têm 9/8 de pressão arterial. São saudáveis. Outros há que têm 9/6. Esbanjam saúde.

Ou seja, cada pessoa é uma pessoa. Quem não se sente mal e tem pressão arterial em 13/9 não há que alarmar-se. Como é então que se difunde irresponsavelmente que está no grupo de risco quem tem pressão 12/8?

Eu sou da opinião de que a imprensa terá de em seguida acautelar-se contra esta voragem de pesquisas e informes médicos que varrem o noticiário.

Não pode comer isto, não pode comer aquilo, quase tudo uma tolice sem limites. Fora o açúcar para os diabéticos e o sal para os hipertensos e cardíacos, coma de tudo, rigorosamente coma de tudo, claro que sem exagero.

Agora veio esta estupidez descomunal de aterrorizar-se os que têm pressão arterial 12/8!

Ou seja, chegaram a este ponto máximo do absurdo: também os sadios são doentes.

Estou cada vez mais convencido daquele ditado: "Existem mentiras, mentiras deslavadas e pesquisas".
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Martha Medeiros
25/05/2003


Ainda sobre as mães

Foto(s): Arte/ZH

Gostei muito do que a psicanalista Diana Corso escreveu recentemente aqui em Zero Hora, em sua coluna. Ela desprezou o tom de glorificação nas homenagens às mães, citou Elisabeth Badinter (que escreveu O Mito do Amor Materno) e disse que estava na hora de sermos menos hipócritas, já que ser mãe não é esta maravilha toda. Eu defendo esta mesma idéia, inclusive abordei isso num dos capítulos do meu livro Divã. Acho que ser mãe é ótimo e é uma encrenca, e não há nenhuma frieza nesta constatação, e muito menos falta de amor. É apenas mais uma de nossas ambigüidades.

Estou voltando a este assunto, longe de qualquer data comemorativa, por causa de um comercial de tevê americano. O filme mostra um pai e um filho no supermercado. O filho coloca um pacote de salgadinhos no carrinho. O pai retira, devolvendo-o à prateleira. O garoto, teimoso, pega o pacote e recoloca-o no carrinho. O pai calmamente devolve o pacote para a prateleira.

Aí o garoto começa a chorar. Do choro vai aos gritos. Atira-se no chão. Faz um escândalo. A cena chama a atenção dos outros clientes, que olham para o pai com ares de reprovação. A criança segue aos berros, um inferno. Corta. Entra uma frase no vídeo: Use Camisinha.

O comercial combate, com bom humor, duas coisas. Primeiro, a idéia de que sob hipótese nenhuma devemos questionar a existência dos filhos em nossas vidas. E também combate a impressão de que camisinha só serve para prevenir a Aids, quando ela é na verdade um método contraceptivo. Achei criativo e engraçado. Mas ele seria realmente ousado se a criança estivesse com a mãe.

Ainda não ficamos à vontade para expor publicamente uma das maiores angústias da mulher de hoje: como conciliar vida profissional e amorosa com a maternidade, que é uma glória, porém nos rouba muito em energia e tempo. Como conquistar tudo o que está ao nosso alcance se ainda somos escravizadas pelas exigências domésticas? Como ser livres diante de um, dois ou três filhos que nos requisitam na infância, na adolescência e muitas vezes ainda na idade adulta? Imagine este mesmo comercial, com a mesma cena corriqueira que foi mostrada (corriqueira para quem tem filhos mal-educados, se bem que os nossos, mesmo adoráveis, já fizeram algo parecido um dia). Imagine se depois de todo o escândalo infantil entrasse a frase: Tome Pílula. O Papa se descabelaria, caso ainda tivesse cabelos. E o resto da sociedade iria passar mal do estômago.

Eu adoro ser mãe, mas não as 24 horas do dia. Até mesmo as que contam com um séquito de babás e motoristas fantasiam, de vez em quando, com uma vida sem dependentes. Não é pecado, não somos santas. Larguem-nos sozinhas num supermercado com um garoto histérico; impeçam-nos de trabalhar ou estudar por causa de uma criança; coloquem um bebê chorão sob nossa guarda dia e noite. É aí que a supermulher descobre que é humana.
martha.medeiros@zerohora.com.br




Luis Fernando Verissimo
25/05/2003


Esse Renê

Lilian sentiu que Artur iria deixá-la. Artur já não era o mesmo. Depois de seis meses, seu amor por Lilian parecia estar diminuindo. Parecia estar acabando. Ele não a chamava mais de Lili. Lilian quis provocar ciúme em Artur e fez o seguinte: comprou um buquê de flores, escreveu num cartãozinho "Lilian, diga quando...", assinou - depois de pensar muito num bom nome para amante - "Renê", e mandou entregarem o buquê com o cartãozinho no seu próprio endereço, depois de se certificar de que a entrega seria numa hora em que o Artur estivesse em casa.

Deu certo. Foi o Artur quem recebeu as flores na porta. Disse:

- Flores para você.

Lilian, fingindo surpresa:

- Flores?

- E um cartãozinho.

- Um cartãozinho?

- Posso abrir?

- Não! Deixa que eu...

Mas Artur já estava lendo o cartãozinho.

- Muito bem. Quem é Renê?

- Renê?

- "Lilian, diga quando". Assinado, Renê.

- Eu não tenho a menor...

- "Diga quando" o quê? Hein? Hein? O quê? E quem é esse Renê?

- Eu...

O tapa foi tão forte que Lilian caiu de costas no sofá. Quando se ergueu estava sorrindo. O Artur sentia ciúme. O Artur ainda a amava, afinal. O Artur ainda a amava! Paft. Novo tapa. Do sofá, eufórica, Lilian gritou:

- É uma brincadeira! Fui eu que mandei as flores. Fui eu que escrevi o...

Não pôde terminar porque o Artur começou a sufocá-la com uma almofada do sofá.

O autor precisa entrar neste ponto e explicar que não só a Lilian vivia com Artur há apenas seis meses, tempo insuficiente para se conhecer uma pessoa, como jamais entenderia os homens. Homem não tem ciúme porque ama. Ciúme não é uma questão entre o homem e a pessoa que ama. Ou é, só que a pessoa que ele ama é ele mesmo. Ciúme é sempre entre o homem e ele mesmo. Eu conheço a raça.

- Quem é esse Renê? Hein? Hein?

Súbito, o Artur parou de sufocá-la com a almofada. Levantou-se. Tinha se dado conta de uma coisa. Disse:

- Eu sei quem é esse Renê. Eu conheço esse Renê!

A Lilian ainda tentou chamá-lo de volta.

- Não existe nenhum Renê! Fui eu que inventei!

Mas o Artur já tinha saído de casa, depois de passar no quarto e pegar o revólver da gaveta da mesinha de cabeceira.

Lilian passou o resto do dia rondando pela casa, nervosíssima. Quando ouviu o ruído da chave na fechadura, correu para a porta. O Artur entrou sem olhar para ela.

- Onde você estava? O que aconteceu?

Artur não respondeu. Foi para o quarto trocar de roupa. Lilian foi atrás. Havia respingo de sangue nas calças. O tiro fora de perto. Ele não trouxera o revólver de volta. Provavelmente o jogara em algum matagal.

Lilian:

- O Renê do cartãozinho...

Artur tapou a sua boca com a mão. Disse:

- Não se fala mais nesse nome nesta casa. Nunca mais. Está ouvindo?

E depois:

- Esse aprendeu a não se meter com a mulher dos outros.

Naquela noite, nenhum dos dois dormiu. Lilian pensando "Renê, Renê... Quem é que eu conheço com esse nome? Quem é esse Renê, meu Deus? Ou quem era?"

De madrugada, amaram-se loucamente. O Artur dizendo:

- Viu o que eu faço por você? Viu?

Era a primeira vez que se amavam assim em pelo menos três meses. Ele até a chamou outra vez de Lili. A chama estava reacesa. Artur ficaria.

Durante dias, Lilian procurou nos jornais uma notícia sobre a morte de Renê. Nada no noticiário policial. Nenhum registro de desaparecimento. Nada nos avisos fúnebres. Quem seria aquele Renê? No fim de mais seis meses, Artur anunciou que iria deixar Lilian.

- Não vai, não - disse Lilian.

E disse que no momento em que ele saísse pela porta, ela telefonaria para a polícia. A polícia gostaria de saber do fim de um certo Renê...

- Você faria isso, Lili?

- Experimenta.

Que coisa que é gente, né não?

Publicado no dia 17 de março de 2002. Luis Fernando Verissimo está de férias.


Reportagem Especial
Nas pegadas dos meninos de Soledade



Para reconstituir as 24 horas anteriores ao sumiço dos quatro garotos, ZH visitou os locais por eles freqüentados, como o parquinho (foto Ricardo Chaves/ZH)




ESPECIAL 5 ANOS

Sem perder a ternura

Antes alijadas dos postos de comando nas empresas, as mulheres se firmam como executivas e não se descuidam de seu lado feminino

ELICA ITO


ATITUDE
Ana Lúcia Serra, como várias mulheres, decidiu apostar na vida de empreendedora
Muitos e muitos anos se passaram desde que as primeiras e anônimas mulheres saíram de casa para ocupar espaços que pareciam dedicados apenas aos homens. Apaixonadas, determinadas, incansáveis, criativas e até descabeladas, elas se mantiveram em combate em todas as frentes.

O resultado é que hoje elas quase não têm mais o que conquistar nos países de Primeiro Mundo e também no Brasil. Exagero? Nada disso. Atualmente, dos oito ministros que atuam no Supremo Tribunal Federal, um é mulher. Na última eleição, o número de deputadas federais cresceu de 29 para 42 e o de senadoras de cinco para 12. No Poder Executivo, também houve avanço. O melhor exemplo é o crescimento do número de prefeitas. Em 1992, elas eram 171, hoje somam 317. E detalhe que ninguém pode esquecer: a maior cidade do país e o segundo maior Estado da União são comandados por mulher. Definitivamente, elas chegaram lá. A carioca Ellen Gracie, de 55 anos, a primeira e única mulher na corte masculina do Supremo Tribunal Federal, realizou um sonho de garota e tem muito orgulho de ampliar os horizontes da mulher no Brasil. Separada, com uma filha de 22 anos, Ellen, como tantas outras brasileiras, foi chefe de família e enfrentou o desafio de dar conta de múltiplas tarefas.

Venceu a parada com o jeito mais feminino de lidar com as dificuldades: indo à luta como as primeiras 'desbravadoras'. Segundo a consultora Rosa Bernhoeft, diretora da Alba Consultoria, a mulher tem uma versatilidade toda especial: 'Ela tem consciência de sua independência como realizadora em tempo integral. Porque, se o marido perde o emprego, a mulher faz doces, vende produtos e encontra uma maneira alternativa de trabalhar'.

Para ajudar a compor a renda familiar ou concretizar ambições, as mulheres também vêm se destacando como pequenas e médias empresárias. Elas já representam 42% dos empreendedores brasileiros, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM). No caso de Laís Passarelli, sócia diretora da Passarelli Consultores, o 'grande desafio era ter uma forma de trabalho mais independente. Trabalhando para os outros, me sentia frustrada com a morosidade dos processos. Agora, posso tomar decisões mais rapidamente e assumir riscos'.

Laís age rápido, assume riscos e faz muito sucesso. Sua empresa de recrutamento de executivos está hoje entre as cinco mais lembradas na pesquisa de Top of Mind e todos os seus concorrentes são multinacionais. Com 46 anos, solteira, sem filhos, Laís é uma empreendedora realizada e tem convicção de que a informalidade e a intuição femininas fazem a diferença no relacionamento com os clientes e com a equipe interna.

Daniela Lopes é outra empreendedora que apostou em sua 'voz interior' para mudar de vida. Em 1999, com 17 anos, ela partiu de Januária, no norte de Minas Gerais, para São Paulo. Hoje, cinco anos depois, é dona da clínica de estética Byo L'max, no bairro de Santana (Zona Norte da cidade), na qual emprega 12 pessoas, entre assistentes, médicos e esteticistas, e atende em média 120 clientes por mês. 'Tinha uma intuição que me dizia que eu tinha de sair de lá para crescer, conquistar meus objetivos', ä lembra Daniela. 'E eu sempre ouço minha intuição feminina.'

Ana Lúcia Serra, quase aos 40 anos, casada e com duas filhas, sócia da agência de publicidade age., também acredita que a mulher desenvolveu características especiais que a fazem empreender de forma vitoriosa: 'A mulher tem uma sensibilidade maior, uma grande capacidade de se organizar e pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Em meu caso, consigo sempre ter uma visão geral de tudo sem me perder nos detalhes'.

Independentemente de ser a dona da empresa, a mulher participa decisivamente do sucesso das pequenas e médias empresas. Marília Rocca, diretora-geral do Instituto Empreendedor Endeavor, conta que atualmente as mulheres representam mais da metade do corpo de funcionários de novos empreendimentos. 'Não há como negar que a mulher tem um forte lado empreendedor e agilidade para lidar com as dificuldades. É ela quem sabe fazer muito com pouco, o que é imprescindível para o sucesso de uma nova empresa', diz Marília.

Essa mesma capacidade de empreender pode ser encontrada em várias executivas de grandes empresas. Tome-se o exemplo de Márcia Sulman Gonsales. Pernambucana do Recife, de 36 anos, começou a trabalhar na Avon como trainee na área de finanças há 12 anos e hoje é diretora de planejamento estratégico e inteligência de marketing. Ela acredita que boa parte de seu sucesso se deve ao fato de que a Avon tem uma estratégia voltada para a valorização da mulher - e, de fato, 80% dos funcionários são do sexo feminino. Uma prova disso é que Márcia foi promovida durante a gravidez, mesmo estando no quinto mês de gestação.


VOZ INTERIOR
Daniela empreendeu FORÇA
Laís Passarelli age rápido, assume riscos e faz sucesso

Casada, dois filhos, Márcia busca, como tantas executivas, equilibrar vida profissional e família. Algum segredo? Nada além do bom senso e de uma boa infra-estrutura de apoio em casa. 'Precisamos ser extremamente produtivas para poder conciliar as tarefas profissionais e cuidar dos assuntos pessoais.' Para Márcia, o maior desafio daqui para a frente é a mulher não se masculinizar. 'Temos de ser respeitadas pelo que somos. Delicadas, afetivas, com batom vermelho e salto alto', afirma.

Governadora, ministra, líder, executiva, piloto da aviação civil, dona de empresa e, muitas vezes, o 'homem da casa'. Hoje as mulheres brasileiras comandam 25% das famílias, respondendo por todas as responsabilidades e aprendendo a administrar as contas, driblar saldos negativos, educar os filhos e ainda viver com um salário que corresponde em média a 60% dos salários masculinos. Vontade de pendurar as chuteiras, pedir colo, todas têm. Mas cadê o tempo para a choradeira?

Maria Cláudia Pires de Mello, de 48 anos, chefe de família há sete anos, mãe de três filhas, teve de se dividir em muitas para dar conta de tudo. Artista plástica, hoje atuando como marchande em São Paulo, Maria Cláudia lembra que, depois da separação, foi difícil levantar da cama e enfrentar novas responsabilidades. 'Hoje, não é mais assim. As responsabilidades fazem parte de minha vida e não me assustam mais', diz.

Aceitar a dor e a delícia dessa vida multidisciplinar continua na pauta das mulheres brasileiras, que hoje já são 51% do total de universitários. O futuro promete e vale a pena aguardar os próximos capítulos. As mulheres devem continuar firmes e fortes nas frentes de batalha pela igualdade de tratamento e oportunidades, sempre surpreendendo e mostrando suas garras, e, como diria Rita Lee, sendo mais macho que muito homem.

Fotos: Denise Adams/ ÉPOCA


Que Yoga devo praticar?
Pedro Kupfer

O Yoga é uma das atividades que mais crescem no mundo. Nos Estados Unidos, já são mais de 18 milhões de praticantes e, segundo estimativas recentes, essa tendência de crescimento irá se manter, no mínimo, por mais 10 anos. Aqui no Brasil não é diferente, e esta forma saudável de viver atrai cada vez mais adeptos.

A pergunta que muitos se fazem é qual seria o tipo de Yoga mais adequado para cada um. O conselho editorial deste site recebe freqüentemente consultas com este tipo de questionamento. É muito fácil para o iniciante se perder na miríade de sistemas, nomes sânscritos e ensinamentos disponíveis.

Para esclarecer esse panorama, decidimos publicar este texto com o intuito de orientar àqueles que gostariam de se iniciar nesta prática milenar, fazendo uma breve descrição dos métodos comprovadamente bons que estão disponíveis hoje em dia em nosso país. É preciso esclarecer aqui que esta lista não está completa: ela inclui apenas as modalidades mais conhecidas e praticadas na atualidade.

A verdade é que nem todas as formas de Yoga são boas para todo o mundo. Existem diferentes tipos de prática, que se adaptam às possibilidades e necessidades de cada um. Diferentes formas de Yoga não dão os mesmos resultados com as mesmas pessoas e não há consenso sobre o que deveria ser ensinado em uma aula de Yoga. Portanto, a modalidade de Yoga escolhida deve estar em função das expectativas e necessidades do praticante.

Os efeitos e benefícios do Yoga, não obstante, estão acessíveis para todos, independentemente da idade ou do estado físico de cada um. Basta apenas saber escolher a modalidade que melhor se adapta às necessidades e possibilidades de cada um.

Antes de mais nada, é preciso ter claro o que você quer da prática. Os objetivos mudam de pessoa para pessoa. Você pode querer praticar impelido por uma destas motivações:
1) para melhorar a qualidade de vida ou combater o estresse
2) para se manter em forma usando um método não convencional
3) buscando um treinamento físico rigoroso, exigente e energético
4) para tratamento terapêutico ou por indicação médica
5) procurando um caminho para o auto-conhecimento e a transcendência

É lógico que, quanto maiores forem as suas expectativas, mais fundo você deverá procurar. Se você quiser praticar para manter a forma ou combater o estresse, algumas sessões semanais de ásanas de alongamento e flexibilidade farão o trabalho. Nesse caso, ou se você tiver algum problema de saúde ou ficou parado por um tempo, é aconselhável fazer um exame médico antes de iniciar.

Se estiver procurando uma atividade desafiante e energética, onde possa explorar e extrapolar seus limites físicos através de ásanas mais potentes, o Power Yoga e o Ashtanga Vinyasa Yoga, podem ser extremadamente exigentes, adequadas para atletas e pessoas que gostem de trabalhar o corpo com disciplina e intensidade.

Se você tiver praticado durante um tempo, sentido os benefícios do Yoga e quiser continuar sozinho, é recomendável mesmo assim que, de tempos em tempos, faça um workshop ou aula para corrigir eventuais erros que você mesmo possa não estar percebendo.

Se for o caso de usar yogaterapia por indicação médica, se recomendam uma ou duas sessões diárias de exercícios específicos que incluam ásana, pránáyáma e yoganidrá, bem como aconselhamento alimentar. O professor, nesse caso, precisa ter muito estudo e experiência no assunto. Há professores que prefiram negar os efeitos terapêuticos do Yoga, o que é muito mais fácil que estudá-los.

Hatha Yoga tradicional
A prática de Hatha Yoga tradicional tem um ritmo tranqüilo, que é pautado pelos próprios praticantes. A flexibilidade e a redução das tensões é o foco desta modalidade. O intenso trabalho respiratório e o relaxamento consciente auxiliam no combate ao estresse. Esta é uma ótima opção para iniciantes e pessoas com alguma limitação (problemas de coluna, cardiopatias, etc.), embora não possua finalidade de cura, como é o caso da yogaterapia. As técnicas de relaxamento e meditação também estão presentes, aprimorando o intercâmbio entre corpo, mente e emoções.

Ashtanga Vinyasa YogaEste sistema, oriundo do sul da Índia e ensinado pelo mestre Sri K. Pattabhi Jois, está baseado em seis séries de ásanas progressivamente mais exigentes, nas quais cada praticante trabalha em seu próprio ritmo, através de uma técnica chamada vinyasa, que consiste em coordenar respiração e movimento. O Ashtanga Vinyasa Yoga passa por ser o mais exigente, no plano físico, de todos os métodos que se conhecem hoje em dia. Aconselha-se ter um preparo físico razoável antes de começar. Prepare-se para transpirar.

Power Yoga
O Power Yoga nasceu nos Estados Unidos como uma adaptação mais acessível do Ashtanga Vinyasa Yoga para aqueles que não querem fazer uma prática tão exigente, mas que fosse ainda bem intensa. Através da respiração e da execução de posturas combinadas com movimento, o praticante desenvolve resistência, força, flexibilidade, consciência respiratória, concentração e vitalidade. Alguns professores prefiriram adotar o nome Dynamic Yoga, ministrando uma prática com características similares.

Iyengar Yoga
O Iyengar Yoga é um método altamente preciso e exigente criado por B.K.S. Iyengar, com base nos ensinamentos do seu mestre, Sri T. Krishnamacharya, de Mysore, sul da Índia. Uma das características mais marcantes deste método é o conceito de alinhamento. Desenvolver a intuição de como o alinhamento trabalha pode despertar experiências escondidas no corpo, tornando conscientes os condicionamentos que moldam as nossas estruturas musculares. Nesse plano, o alinhamento funciona para abrir caminhos para que a energia circule. Desta forma, buscar o alinhamento profundo pode comparar-se à tarefa de lapidar um diamante.

Os métodos de Hatha Yoga acima citados incluem não somente a prática das técnicas físicas, chamadas ásanas, mas igualmente exercícios respiratórios e relaxamento (chamados pranayama e yoganidra respectivamente). Alguns professores acrescentam às práticas meditação e o estudo da filosofia do Yoga e do hinduísmo (Samkhya, Vedanta e outras tradições). Os métodos podem ter abordagens diferentes, dependendo de onde cada professor coloca sua ênfase.

Yogaterapia
Desenvolvido nos Estados Unidos por Joseph Lepage, este método coloca a ênfase no processo da cura, trabalhando em todos os níveis do ser humano: físico, mental, emocional e espiritual. Joseph diz que "a cura acontece quando estabelecemos contato com a parte mais profunda de nós mesmos¿. Um exemplo desta abordagem terapêutica é ensinar pessoas com problemas cardíacos a tornarem-se mais conscientes da sua condição em todos os níveis, melhorando a qualidade de vida e usando técnicas respiratórias, exercícios adequados e meditação com foco na cura do coração.

Viniyoga
A palavra viniyoga designa uma aproximação à prática do yoga que privilegia o indivíduo, levando em conta suas aspirações, suas possibilidades, sua saúde, seu entorno, sua forma de vida e sua cultura. a prática de viniyoga respeita o ritmo de evolução de cada um. nas práticas, as posturas físicas são sincronizadas com a respiração em seqüências que são montadas em função das necessidades de cada praticante. este método inspira-se nos ensinamentos dos mestres Sri T. Krishnamacharya e T.K.V. Desikachar.

Kripalu Yoga
Prática em três estágios desenvolvida pelo yogi Amrit Desai, baseada nos ensinamentos do mestre Kripalvananda. Os três estágios do Kripalu incluem: prática firme (com foco no alinhamento, a respiração e a atentividade); entrega (permanência nas posturas, superando limites, aprofundando a concentração e o foco no processo interno de pensamentos e emoções); e meditação em movimento (as tensões internas são completamente eliminadas do corpo, desenvolvendo confiança na sabedoria corpórea necessária para conduzir o praticante ao estado de meditação profunda).

Sivananda Yoga
Trata-se de uma prática de síntese dos principais ramos do Yoga tradicional (Karma, Bhakti, Hatha, Raja e Jñana Yoga), segundo o mestre Swami Sivananda Saraswati. Este método foi elaborado na conhecida Yoga Vedanta Forest Academy de Rishikesh,Índia, uma das primeiras instituições abertas aos praticantes ocidentais. Trazido pela primeira vez ao ocidente em 1957 por Swami Vishnu Devananda - um dos principais discípulos de Sivananda - foi logo adaptado às necessidades da sociedade atual, propondo uma atenção especial aos cinco pontos básicos: 1) Exercícios (Asanas), 2) Respiração (Pranayama), 3) Relaxação (Shavasana), 4) Alimentação (vegetariana), 5) Atitude positiva e Meditação (Dhyana). Estes pontos visam sobretudo a refinar a higiene de vida do praticante, o que resulta em uma melhor consciência do verdadeiro propósito do Yoga. As aulas práticas são estruturadas em uma série de 12 Asanas principais (com variações), precedidos de Surya Namaskar e Pranayama. Há também uma ênfase no aprendizado dos mantras sânscritos tanto em forma de canto (Kirtan) como para suporte à meditação.

Como escolher um bom professor? Usando o bom senso e a capacidade de observação para escolher. Vendo se você se sente confortável na escola de Yoga que visitar. Perguntado ao professor onde ele aprendeu. Vendo se você se identifica com a proposta do trabalho do instrutor ou do tipo de Yoga.

Para encerrar, é preciso frisar que não existe um Yoga superior, mais completo ou melhor que os demais. Cada método se adapta melhor para objetivos diferentes. O melhor Yoga é aquele que funciona para você, que satisfaz suas necessidades e preenche suas expectativas, sejam elas quais forem. É questão de procurar até achar algo que lhe satisfaça. Boas práticas!




Diogo Mainardi
Revista veja


Lula lá ­ na tela do cinema

"Uma biografia de Lula serviu de base para o roteiro de um filme. Não sei quais episódios ele irá mostrar. Eu incluiria até os mais recentes, como o de Lula correndo atrás de um pato na Granja do Torto. O deputado Sigmaringa poderia ser interpretado pelo próprio deputado Sigmaringa"

Estátua, que eu saiba, até agora só ergueram uma para Lula, a do desfile da escola de samba Beija-Flor, no último Carnaval. Em compensação, sua imagem aparecerá em todas as telas de cinema do Brasil. Estão sendo feitos cinco filmes em sua homenagem. O primeiro é dirigido por um de seus maiores cabos eleitorais no meio cinematográfico, Nelson Pereira dos Santos, orador daquele comício que reuniu mais de 2.000 artistas no Canecão. Difícil imaginar que um tiete como Nelson Pereira dos Santos tenha o desprendimento necessário para retratar o presidente com isenção.

Isenção, aliás, é o que ninguém quer. O cinema, no Brasil, está nas mãos do Estado. Os produtores do filme de Nelson Pereira dos Santos são os mesmos que, no passado, para financiar outro projeto, embolsaram tutu do BNDES. Os autores dos demais filmes sobre Lula, João Moreira Salles, Eduardo Coutinho e Eryk Rocha, também têm se beneficiado de dinheiro público, através das leis de patrocínio. De maneira direta ou indireta, portanto, o culto à personalidade do chefe do governo será bancado pelo próprio governo.

O quinto filme sobre o presidente é ainda mais enrolado. O roteiro é de Denise Paraná. Ela trabalhou como assessora de imprensa de Lula e escreveu a mais completa biografia dele, O Filho do Brasil, que serviu de base para o roteiro. Em janeiro deste ano, para comemorar a vitória eleitoral, a Fundação Perseu Abramo relançou o livro, numa edição ampliada. Como a Fundação Perseu Abramo é mantida pelo Estado, quem pagou a conta da encomiástica biografia presidencial foi o contribuinte. Estou curioso para saber se o filme também será financiado com dinheiro público.

O Filho do Brasil é definido por sua autora como "psico-história". É composto por uma série de entrevistas com Lula e seus parentes, entre os quais os irmãos Genival, Frei Chico, Marinete e o cunhado Lambari. Lula conta que, na infância, chegou a passar fome. Não fome de verdade, de não ter o que comer, mas de não poder comprar chiclete e mortadela quando bem entendesse. Lula acha que a miséria não é de todo má. O miserável sertanejo, segundo ele, "anda de cabeça erguida, otimista", enquanto "a classe média urbana é muito borocoxô, está sempre reclamando". Esperemos que seu governo arrume um jeito de levar rapidamente a classe média urbana à miséria. Não sei quais episódios da vida de Lula o filme irá mostrar. Eu incluiria até os mais recentes, como o de Lula correndo atrás de um pato na Granja do Torto. O deputado Sigmaringa poderia ser interpretado pelo próprio deputado Sigmaringa.

Das biografias de Lula, minha predileta é a de seu mentor intelectual, Frei Betto. Se me nomeassem diretor da Eletrobrás, eu daria a ele a função de escrever um roteiro sobre o presidente. Frei Betto também é autor de uma autobiografia, Batismo de Sangue, que o ex-guerrilheiro Helvécio Ratton pretende transformar em filme. Como a única guerrilha que resta no Brasil é para abocanhar verbas públicas, Helvécio Ratton parte com uma certa vantagem. Por acaso ainda não apareceu ninguém propondo uma cinebiografia de, digamos, Gilberto de Carvalho, o secretário particular de Lula? Daria um filmão.




Sabe aquela dúvida atroz, entre qual das duas revistas semanais será melhor? Na dúvida fique com as duas, as capas são estas que ai estão.

El Tiempo No Para
O Tempo Não Pára vira canção de protesto na Argentina


Sérgio Martins

Hino dos caras-pintadas no impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992, a música O Tempo Não Pára, dos roqueiros Cazuza e Arnaldo Brandão, voltou a ser usada como canção de protesto agora na Argentina. Vertida para o espanhol pelo grupo Bersuit Vergarabat, ela foi adotada pelos jovens do país vizinho como forma de reclamar da penúria em que se encontra a nação e também contra o desejo do político Carlos Menem de retornar à Presidência cargo que ele ocupou entre 1989 e 1999.

O candidato de frondosas costeletas acabou renunciando à disputa na semana retrasada, às vésperas do segundo turno das eleições argentinas. Já El Tiempo No Para continua a entusiasmar, inclusive noutras partes do continente: seu clipe é um dos mais executados na MTV latina. Surgido em 1988, o Bersuit Vergarabat é uma mistura de Legião Urbana com Raimundos.

Seu nome não quer dizer nada. "Inventei tentando escrever poesia concreta", explica o vocalista Gustavo Cordera. Quem não está feliz com o sucesso de El Tiempo No Para é Arnaldo Brandão. "Devo ter direito a uns 20.000 reais de direitos autorais, mas até agora não vi um tostão", diz ele, enojado ou melhor, irritado.




Como sempre ai está a capa da Revista Veja deste fim de semana. As reportagens principais estão elencadas abaixo.

Capa: foto de Pedro Rubens

Seções
Carta ao leitor
Entrevista: Suzana Vieira
Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Cartas
Radar
Holofote
Em foco: Gustavo Franco
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
Diogo Mainardi
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

Brasil

Governo: Juros produzem guerra interna no Planalto

Artes e Espetáculos

Livros: A Obsessão Antiamericana, de Jean-François Revel
Livros: Flush, de Virginia Woolf
Cinema: Keanu Reeves
Televisão: Reality show da Globo mistura jogo com ficção
Televisão: Armínio é motorista de táxi do Casseta & Planeta
Televisão: As mulheres espevitadas da novela das 8
Música: Canção de Cazuza vira hino de protesto na Argentina

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

Geral

Dieta: Regime do doutor Atkins é mais eficiente
Tecnologia: Scania monta caminhão como se fosse Lego
Design: A meca dos projetos automobilísticos
Beleza: Sem dinheiro, venezuelana quase sai do Miss Universo
Internet: Tim Sanders, do Yahoo!, apresenta a chave do sucesso
Estilo: Cristais da Swarovski em roupas, sapatos e automóveis
Arqueologia: Como morriam os gladiadores
Evolução: DNA do chimpanzé é semelhante ao do homem
Especial: O poder da mente
Segurança: O avanço do narcotráfico no Brasil
Consumo: Perfumes, um bom negócio
Ginástica: Muita água faz mal durante a atividade física
Família: Pais pagam a detetives para espionar os filhos
Esporte: Donald Trump planeja campo de golfe no Brasil

Guia

Turismo: O inverno nos Andes
Bebidas: Livro tira dúvidas sobre a cerveja
Óculos: A lente escura para cada ocasião
Saúde: Suco de fruta sempre faz bem
Livros: Sebos on-line

O que estou lendo
Pergunte ao Guia





Hospedeiro do vírus

Civeta, um pequeno mamífero comido na China, seria culpado pela superpeneumonia
HONG KONG, CHINA - O coronavírus que deu origem à Sars (síndrome respiratória aguda e severa) foi encontrado na civeta, mamífero carnívoro da Ásia que se parece com um gato, afirmaram ontem pesquisadores da Universidade de Hong Kong.

A civeta é vendida nos mercados do Sul da China e servida como prático exótico nos restaurantes da região. Alguns cientistas já haviam evocado uma possível origem animal da doença porque vários cozinheiros que tiveram contato com animais selvagens figuram entre as primeiras vítimas da doença.

Grupos de defesa dos animais, como o Animals Asia Foundation, pedem o fechamento imediato desses mercados por razões sanitárias e humanitárias.

Segundo Gail Cochrane, veterinário da fundação, a concentração de diferentes espécies em pequenos espaços converte esses mercados em um lugar propício para o aparecimento de novas doenças.

¿Esta descoberta tem conseqüências extremamente importantes para o controle do contágio¿, de acordo com o governo.

Já segundo o astrônomo Chandra Wickramasinghe, o vírus causador da Sars pode ter vindo do espaço. O galês é um cientista respeitado, mas nem por isso a idéia está sendo levada a sério.

Usando como argumento a detecção de bactérias a 41 km de altitude, Wickramasinghe tenta reviver hipótese levantada por ele e Hoyle há duas décadas de que surtos misteriosos de doenças são culpa de organismos espaciais.




Gente
Ganhou na Mega Sena e foi trabalhar
Para realizar o sonho de concluir casa em Caxias do Sul, empregada doméstica recebeu da Caixa R$ 28,4 milhões
FELIPE BOFF/ Agência RBS/Caxias do Sul

Até a última quarta-feira, uma empregada doméstica de 24 anos, casada com um metalúrgico, mãe de uma menina de seis, ganhava R$ 340 e tinha um sonho: terminar de construir sua casa num bairro pobre da zona leste de Caxias do Sul, que estava sendo feita por parentes, em mutirão, com dinheiro emprestado da Caixa Econômica Federal.

Se um dia conseguisse um dinheiro extra, planejava ajudar a avó a mudar-se da precária moradia onde vive. Na sexta-feira, às 11h, a mulher voltou à Caixa. Subiu dois lances de escada, entrou na sala acarpetada da superintendência regional do banco, no Centro, sentou-se e, com uma assinatura, abriu uma poupança de R$ 28.414.544,43, sem sacar um tostão. Depois de um dia de curiosidade geral em Caxias, revelou-se a dona do prêmio principal da Mega Sena, o quinto maior já pago no país e o mais alto já recebido no Estado.

Na véspera, mesmo sabendo-se milionária, a doméstica lavou roupa, limpou o chão, deu banho em dois cachorros e deixou a cama da patroa pronta. Não fosse uma segunda patroa liberá-la do serviço, a manhã de sexta também teria sido preenchida com uma faxina. Ela ainda não pediu demissão aos empregadores.

Jovem pretendia jogar só no sábado

A dona dos R$ 28,4 milhões chegou a circular anônima na Lotérica VMC na quinta-feira, onde havia comprado, com R$ 1, o bilhete premiado. Queria saber quando, onde e como retirar o dinheiro, mas se assustou com o burburinho de clientes, funcionários e repórteres e resolveu ficar quieta. Conseguiu apenas ouvir o consultor de loterias da Caixa, Luiz Carlos Catusso, dar uma entrevista dizendo que o dono do bilhete deveria procurar uma agência do banco.

Deu meia-volta, então, e foi trabalhar pontualmente, às 12h10min, no apartamento de uma família de classe média alta.

- Ela chegou à porta, rindo, e disse que tinha ganho na loteria. Não acreditei. Ela repetiu: "É sério, não estou brincando!" Ela estava tremendo, mas muito serena - conta a patroa, de 75 anos.

Depois do anúncio e alguns minutos de conversa, a milionária foi direto para o batente. Só no fim da tarde, ao preparar o café para a aposentada, falou mais sobre o assunto. Disse que o marido estava pensando em comprar um sítio para morarem, mas que ela era contra, pois a filha pequena já está indo ao colégio. Repetiu a promessa de dar uma casa nova à avó. E lamentou sobre a hipótese de ter de se mudar da cidade, pois "não queria deixar a casinha dela".

Segundo a família que conviveu com a doméstica nos últimos três anos, ela foi criada na lavoura, na região da Serra, e começou a trabalhar antes dos 14 anos. Só com o Ensino Fundamental completo, sonhava retomar os estudos. A milionária é descrita como uma "alegre baixinha, de pele morena, meio gordinha, longos cabelos pretos quase sempre presos num rabo-de-cavalo".

A filha da patroa, companheira de apostas eventuais, lembra do diálogo que teve com a doméstica na quarta-feira, antes de ela comprar o bilhete da loteria:

- Ela me disse que ia deixar para jogar na Mega Sena de sábado, porque estaria mais acumulada. E eu disse pra ela: e se sai o prêmio?

Menos de duas horas antes do encerramento das apostas, a empregada, de passagem pela Avenida Júlio de Castilhos, marcou o volante com seis dezenas, baseando-se nas idades dela e de familiares. Alterou dois números, porque eram redondos - previu que seria impossível serem sorteados juntos - e errou a idade do marido, que ainda não fez aniversário este ano.




David Coimbra
24/05/2003


Salsichão com chucrute

Como tem cidade com nome de Leão. Conheço León, na Espanha, uma beleza de lugar. Pouco mais de 300 mil habitantes, do tamanho assim de Pelotas, talvez, mas com 500 bares de primeira categoria espalhados por toda parte. A noite de León é trepidante. Os espanhóis saem no que chamam la marcha: vão a um bar, tomam um único chope no balcão, pagam, seguem para o próximo. Fazem isso durante horas. Lá pelas três, quatro da manhã, entram nas boates. Há três boates em León que ABREM às 6h da manhã, que côsa.

Também conheço Lyon, na França. A capital gastronômica do mundo, é o que dizem os lioneses. Estive lá em 97, cobrindo o Torneio da França, entre Brasil, França, Itália e Inglaterra. O Professor Ruy deliciava-se com a culinária local. O prato típico deles é uma espécie de salsichão com chucrute, coisa boa mesmo. O Professor enfiava um bocado de chucrute entre os dentes, estalava os lábios e fazia hm:

- Hmmmmm... Notável!

O Pedro Ernesto também estava lá, mas pouco ligava para a sofisticação da comida. Uma noite, depois de um dos jogos do Brasil, terminamos o trabalho, eu pela Zero, eles pela Gaúcha, e fomos jantar. Entramos no carro que havíamos alugado, famintos, o Pedro ao volante. Quem disse que achamos restaurante aberto? Rodávamos por toda a cidade, e nada. De repente, vimos um francês passeando pela rua. Perguntamos onde havia um lugar para comer e ele: só o Pizza Pino, ali adiante.

O Pizza Pino é uma rede de pizzarias de lá, bem popular, nenhum requinte. O Professor torceu o nariz de gourmet:

- Pizza Pino...

Mas o Pedro Ernesto ficou radiante. Gritava, enquanto dirigia:

- Pizza Pino! Que maravilha! Pizza Pino! Pizza Piiiiinoooooo!

O Pedro tinha feito um cursinho de francês para enfrentar aquela viagem. Mas, cá para nós, ele no máximo falava bon jour. Um dia, liguei para o quarto dele e tasquei um sotaque francês:

- Messiê Denarrrdãn, sivupléééé?

Hesitação do outro lado da linha. Segundos de silêncio. Eu podia ouvir as reticências que pingavam da boca do Pedro. Até que ele arriscou, a voz vacilante:

- O... ouí?

Bela viagem, aquela. Lembrei dela porque foi quando vi o Guga nascer como tenista internacional. Ele disputava o Roland Garros, o mesmo Roland Garros que começará a disputar segunda-feira. Poucos o conheciam, em 97. Aí ele começou a ganhar, ganhar, ganhar, e me toquei para Paris. Tomei um TGV, o trem-bala francês e, vzzzuuummm, voei para a cidade-luz. Fui cobrir tênis, em vez de Seleção Brasileira.

Então, tive a sorte de testemunhar a primeira conquista brasileira de um torneio do Grand Slam e a primeira grande vitória da carreira do Guga. Entrevistei-o sozinho, no saguão do pequeno hotel onde ele e Larry Passos se hospedavam, o Larry dormindo no chão. Depois daquele Roland Garros, a vida do Guga mudou. Tornou-se ídolo. E nunca mais pôde ser entrevistado sozinho e nunca mais se registrou em hotéis com menos de cinco estrelas.

Embora não seja um conhecedor de tênis, sentia que o Guga ia ganhar o título. Porque ele parecia muito bem, muito à vontade na primavera parisiense. Hoje, Guga é tricampeão de Roland Garros e, ainda que não esteja em boa fase, chega à França como favorito para vencer o torneio. E acredito que, apesar de tudo, o Guga possa mesmo passar por cima de seus problemas e vencer novamente. Acredito que ele de fato se alimente das luzes de Paris. Algumas pessoas são assim: têm relações especiais com certos lugares, certas cidades. Como o Professor com Lyon, onde ele fazia hns ao saborear salsichas com chucrute. Como o Pedro Ernesto com a Pizza Pino, como o Pedro Ernesto gostava da Pizza Pino.

Nicolinha
Estou preocupado com Nicole. Já passou tanto tempo, e sinto que ela ainda não assimilou bem a separação. Sinto que ainda pensa em Tom. Agora mesmo, no Festival de Cannes, Nicole disse que só poria seus pezinhos número 36 na cidade quando a outra, aquela espanhola nariguda, se fosse. Foi o que aconteceu. A outra saiu, levando junto todo o oxigênio ao redor, e Nicole chegou, hipnotizando a todos com seus olhos azul-Grêmio.

Além disso, Nicole vive a dar declarações amarguradas. Falou que continua esperando por seu grande amor. Ou seja: continua esperando por Tom. Isso me entristece. Queria que Nicole se conformasse com a perda. Que entendesse que Tom não a merece. Que ela é muito, muito melhor que ele. Queria que Nicole, enfim, seguisse a vida. Encontrasse um novo amor. Não será difícil para ela, tão linda, tão linda, não há mulher mais linda que Nicolinha.

É o que está acontecendo com o Inter. O Inter está esquecendo o time dos anos 70. Finalmente. Graças aos novos amores da torcida. Os meninos. Cheios de graça, plenos do otimismo próprio da juventude, invencíveis na sua encantadora inexperiência, estuantes de esperança. Nada como um novo amor. Preciso arrumar um jeito de dizer isso para Nicolinha.
david.coimbra@zerohora.com.br




Ricardo Silvestrin
24/05/2003


Subtropicália

Ganhei de aniversário o CD remasterizado do LP que foi o último dos Almôndegas. Olha o que diz a ficha técnica: "As gravações incluídas neste CD foram extraídas de tapes originais analógicos de ¼" (stereo), pertencentes ao acervo da Universal Music, e remasterizadas no processo digital de alta qualidade técnica do sistema Sonic Solutions". Chique, não? O LP é de 1978, da era analógica. O CD de 2002, da era digital.

Esses dias tive um insight de revalorização das maravilhas do mundo analógico. Por exemplo, a porrada. Sim, quando um equipamento qualquer, um eletrodoméstico, uma TV a válvula emperravam, o que se fazia? Guindava-lhe uma porrada. E tinha o ponto certo, de preferência no lado, na parte de cima. Pronto, a naba voltava a funcionar. Pegava no tranco. Hoje, o mundo digital perdeu esse recurso. De nada adianta se botar no computador. Pifou, só abrindo, chamando o cara que entende, trocando componentes. Imagine uma manivela, das cavernas analógicas, ao lado do bichano pra acelerar quando a memória é pouca ou quando está fazendo o download de um arquivo muito pesado.

Pois o grupo Almôndegas é da era analógica. Foi um dos primeiros trabalhos feitos por jovens misturando sonoridades da música tipicamente gaúcha com o rock, o folk, o country e a MPB. Trouxeram temas folclóricos, como Velha Gaita, Teixeirinha do "mipriguntaram se eu sou gaúcho", Lupicínio do "amigo boleia a perna, puxe o banco e vá sentando", além de composições próprias. Sombra e água fresca e rock no quintal, um country gaúcho alegre, jovem, da melhor qualidade. É a Tropicália aqui, no clima subtropical. Uma subtropicália. Isso de misturar o velho e o novo, o kitsch e o bacana, o brega e o culto, a sonoridade internacional com a brasileira e regional como fizeram os tropicalistas. E também, como a Tropicália, letras inteligentes e bem-humoradas.

Durante um longo período, até 1984 por ali, a maioria dos trabalhos feitos por aqui explorava essas possibilidades estéticas subtropicalistas. Bebeto Alves compôs excelentes milongas. A banda Saracura fez uma fusão de gaita com guitarra, de ritmos, de pique de palco, de ironia que só quem viu, viu. E tinha muitos outros. O próprio Nei Lisboa dialogou com isso tudo, do seu jeito divertido, com o "chichichimarrão crioulo liga como o quê/ chimarrão crioulo melhor que muito gererê". Ou com a "Prenda Minha, mui louca". O Vitor Ramil seguiu inclusive definindo a Estética do Frio - trouxe, entre outras, a sua Ramilonga. E mais recentemente, anos 90, rabeira dos 80, o trabalho da Graforréia Xilarmônica criou várias músicas com sonoridades gaúchas camufladas dentro do rock, ou mais escancaradas como em Amigo Punk.

Mas tudo isso foi feito de maneira analógica. Ou seja, misturando de verdade, tocando um ritmo que soa como outro. Buscando um elemento daqui, outro dali. Hoje, na era digital, basta selecionar o groove, recortar e colar, programar o timbre, selecionar o andamento. Hoje, é muito mais fácil ser um tropicalista ou subtropicalista de computador. Mas é sempre bom ter uma manivela para acelerar a cabeça.

ricardo.silvestrin@zerohora.com.br




Paulo Sant'ana
24/05/2003


Cai um véu do mistério

No jornal carioca O Globo de quarta-feira há uma ilustração muito clara dos tentáculos que o tráfico de drogas fizeram baixar sobre o meio social.

O coronel PM Erir Ribeiro da Costa Filho, que até aquele dia comandava o 4º BPM, com jurisdição sobre o Morro da Mangueira e várias outras favelas ao redor, foi demitido do seu posto.

Ao se despedir da tropa, fez um discurso em que denunciou que não estava sendo demitido por incompetência, sim por influência política.

E mostrou um informe que enviou a seus superiores em 14 de janeiro deste ano.

A seguir foi preso.

Eis o que descreveu no documento o coronel demitido: "No dia de hoje compareceu nesta OPM (unidade da PM) o Exmº senhor deputado estadual e Secretário de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro, 'Chiquinho da Mangueira', acompanhado dos senhores presidentes da Associação de Moradores das localidades conhecidas como Buraco Quente, Vila Miséria e Candelária, todas no Complexo da Mangueira, solicitando uma 'trégua' para o tráfico de drogas, tendo em vista que os traficantes estavam 'acuados' e não estariam 'vendendo nada'.

A autoridade em pauta solicitou que se diminuíssem as incursões policiais no citado complexo, pois o senhor secretário estaria sendo pressionado pelo tráfico por ser o mesmo deputado estadual e ter suas bases eleitorais no Complexo da Mangueira, onde obteve cerca de 7 mil votos e que, segundo o pensamento da marginalidade, provavelmente teria indicado este oficial (o coronel agora demitido) para comandar o 4º BPM.

O senhor Chiquinho da Mangueira informou que, caso este oficial e seus comandados continuassem a patrulhar o Complexo da Mangueira, o aludido secretário teria de abandonar os seus projetos no local por temer por sua vida, indagando do signatário o que poderia fazer para amenizar tal situação, obtendo como resposta que o mesmo deveria comunicar aos traficantes, juntamente com os senhores presidentes das associações de moradores (presentes), que tais marginais deveriam abandonar o Complexo da Mangueira, livrando a comunidade de tal constrangimento".

Este documento e este fato exemplificam de modo bastante ilustrativo o modo como o tráfico de drogas se introduziu nas relações políticas e de Estado, influindo diretamente no poder.

E é muito menos pelo terror do que pelas relações de benemerência e de alcance social que os traficantes prestam às comunidades das favelas que passam eles a exercer um poder paralelo, infundindo por um lado a violência à população, por outro a co-administração dos conglomerados em que atuam, tendo à sua mercê inúmeras autoridades.

É preciso salientar que durante a sua gestão no batalhão em tela, foram obtidos pelos comandados do coronel demitido os melhores e mais notáveis índices de eficiência da ação policial sobre a área territorial da sua competência.

Tal fato atesta ainda que o poder econômico dos traficantes tanto pode corromper policiais quanto manejá-los em seus cargos, erigindo-os quando forem dóceis ou destituindo-os quando forem íntegros.

De tal sorte, que por trás desses acontecimentos trágicos que ocorrem no Rio de Janeiro está uma luta férrea que se trava entre o bem e o mal, no seio das autoridades encarregadas da segurança pública.

O que muitas vezes é diagnosticado como ineficiência policial trata-se em realidade de comprometimento político ou eleitoral de poderes oriundos de mandatos de autoridades com o tráfico de entorpecentes.

Repito o que escrevi na coluna de quinta-feira: é por essa teia de inconfessáveis ligações do poder instituído com os malfeitores que pessoas da mais alta respeitabilidade e de notável conhecimento estão a pregar a legalização das drogas.

É uma tão polêmica quanto instigante proposta.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Lya Luft
24/05/2003


Histórias de bruxa boa

Depois de anos e anos de editoras me pedindo (em vão) histórias infantis, comecei a anotar algumas das que tenho contado aqui em casa, enriquecidas pela fantasia maravilhosa de Isabela. Como vêem, a gente faz muita coisa de que antes duvidava. Acontece que realmente todos somos muitos... Vai aqui uma apresentação, só pra se divertirem comigo.

Bela, a quem todos chamavam Bé, tinha uma avó muito engraçada, alta, grandona. Ela era diferente das outras avós, porque era uma bruxa. Bruxa boa, claro, das que fazem feitiço para proteger as pessoas e assustar as bruxas más.

Essa avó chamava-se Lilibeth. Ela escrevia histórias para gente grande, e contava muitas histórias engraçadas de bruxa boa.

Bé morava no andar de cima da mesma casa, com papai e mamãe e duas maninhas gêmeas. Ninguém acreditou muito quando na escolinha ela contou que sua avó Lilibeth era bruxa.

- Onde já se viu - disseram as meninas - a avó da gente ser bruxa?

- Mas a minha é, é sim - respondia a Bé, já ficando zangada.

Os meninos da turma também duvidavam:

- Não existe bruxa de verdade. E sua avó nem é tão feia, nem tem cara assim de bruxa. A gente não tem medo dela. Ela dirige carro, e bruxa voa montada em vassoura!!!!

- Mas eu já falei que ela é bruxa boa! - explicou Bé de novo, quase chorando.

- E ela faz feitiço?

- Faz, claro que faz!

- Duvido! - gritaram as meninas.

- E como é que ela faz feitiço? - indagaram os meninos.

- Ah - respondeu a Bé -, ela prepara um pó mágico e diz palavras mágicas também. Ela diz assim: - Unidunitê, salamê-mingüê, abracadabra, piftpaft, pum de cobra e espinho de ouriço, está feito meu feitiço.

Estavam todos no pátio da escolinha, no recreio, comendo seus lanches e brincando. Como fazia calor, tinham-se sentado debaixo da figueira grande, com as professoras por perto, e estavam conversando.

A professora daquela turminha, escutando o que as crianças falavam, chegou mais perto e sorriu, achando graça. Os meninos e as meninas ficaram quietos, tentando entender.

Então a menina Bé disse:

- Pois eu vou contar pra vocês umas histórias da minha avó Lilibeth, pra verem que realmente existe bruxa boa, e ela é uma dessas.

(Fica o resto por conta da imaginação de cada um.)





Ana Amélia Lemos
24/05/2003


Dívida estudantil
A Caixa Econômica Federal, o Ministério da Educação e a Secretaria do Tesouro estão estudando medida para resolver as pendências com a inadimplência no crédito educativo. Dos 250 mil contratos totalizando R$ 2,1 bilhões, 190 mil, no valor de R$ 1,5 bilhão, estão com o pagamento das mensalidades atrasado. O valor é sempre maior ou igual ao salário do recém formado quando consegue emprego. Para agilizar a decisão, a medida virá da própria Caixa Federal, explica o vice-líder Beto Albuquerque (PSB), que está cuidando do assunto. No dia 2 de junho será examinada a forma do rescalonamento das dívidas.

Posse
A posse do perito gaúcho Geraldo Bertolo como diretor do Instituto Nacional de Criminalística foi concorridíssima. O diretor do DPF, Paulo Lacerda, fez comovido discurso saudando o novo diretor, que trabalhou em casos como Sulbrasileiro, Nacional, Pasta Rosa, PC Farias e outros casos rumorosos.

Ferrovia
Oliveira (PT), e o deputado Paulo Pimenta (PT) foram convidados especiais da cerimônia de lançamento do plano de reativação das ferrovias, no Palácio do Planalto. Pimenta, neste final de semana, percorre a Serra, defendendo a reforma da Previdência. Em Bento Gonçalves discutirá problemas da vitivinicultura.

Desapropriação
Na tribuna da Câmara dos Deputados, Francisco Appio (PP) repudiou a forma como ocorreu a desapropriação em São Gabriel. Na véspera, na Comissão de Agricultura, deputados gaúchos questionaram o ministro Miguel Rossetto sobre a decisão.



Foto(s): Genaro Joner/ZH - 24/08/1999

A primeira CPI
A CPI que investigará as redes de exploração sexual de crianças no Brasil já tem agenda de trabalho, informa a autora da proposta, deputada Maria do Rosário (PT). Em parceria com o legislativo baiano, começa em Salvador o levantamento das denúncias. Piauí e Ceará serão os próximos. No RS, a Região Metropolitana e a Fronteira Oeste serão as prioridades. Maria do Rosário poderá presidir ou ser a relatora dessa CPI.

Carnes
O ministro Luis Fernando Furlan prometeu ao deputado Francisco Turra (PP) que vai conseguir a retomada da exportação de carne suína das granjas gaúchas para a Rússia. O ex-ministro viu má-fé do Ministério da Agricultura em anunciar o mal de aujeszky, na fronteira do RS com Santa Catarina. A doença foi combatida no início deste ano, conforme as regras da OIE, informa Turra.

Agrária
A renegociação das dívidas dos pequenos agricultores e dos assentados, através da MP 114, foi comemorada pelo deputado Adão Pretto (PT), que ajudou a aprovar a matéria.

Anfitrião
O secretário da Cultura Roque Jacoby revelou-se perfeito anfitrião no churrasco, em Brasília. Foi o primeiro a chegar e o último a sair do CTG Jayme Caetano Braun. Seis deputados compareceram: Darcísio Perondi, Eliseu Padilha e José Ivo Sartori, do PMDB; Pompeo de Mattos (PDT), Henrique Fontana e Tarcísio Zimmermann, do PT.
ana.amelia@zerohora.com.br


Reportagem Especial
Hospital ataca o abandono



Estabelecimentos públicos estão encontrando formas de aumentar o vínculo entre pacientes e familiares (foto Júlio Cordeiro/ZH)


Sexta-feira, Maio 23, 2003




Eu li num livro
Que amar nem sempre é sinônimo de dor
Que a gente deve acreditar no destino seja o que for
E que o sentido da vida é nada mais que o amor

Eu li num livro
Estava escrito nas entrelinhas
Que um erro pode ser consertado
E que uma pessoa não deve ser julgada apenas pelo seu passado

Eu li num livro
Que a esperança é a ultima que morre
Que o covarde é o primeiro que corre
E que um sonho as vezes é só um sonho
Estava escrito em cada linha
Que as vezes a culpa não é sua nem minha
Que uma pessoa pode até viver sozinha
Mas sempre vai precisar de alguém em seu coração

Eu li num livro
As palavras que eu gostaria de ter escrito
Porque o que é belo nem sempre é bonito
E um sussurro dito aos ouvidos
poderá soar como um grito


autor desconhecido




Fim de semana outra vez, sábado e domingo chegando e pelo que a prática está mostrando depois desta chuvarada de agora a noite, será um fim de semana de muito frio mesmo por aqui. Nada que um vinhozinho não resolva. Pinhão cozido ou na chapa e canjica quentinha também serão bem vindos.

E assim, entre uma e outra coisa, vou escrevendo, lendo, elaborando algumas figuras e tentando descobrir uma maneira de fazer com que o fim de semana, não seja apenas mais um fim de semana. Fiquem com os anjinhos e recebam deste que ama a paz, que tem tudo o que um caracteristico capricorniano tem, o abraço afetivo.

A t é




Cálculos de mestre
Estudante do ensino médio é convidada a fazer curso de pós-graduação em matemática


Neila Fontenele



Que tal fazer um curso de pós-graduação antes do vestibular? Esse desafio foi aceito pela estudante potiguar Larissa Cavalcante Queiroz Lima, 17 anos, que cursa o 3º ano do ensino médio em uma escola de Fortaleza (CE) e está matriculada desde março como aluna regular de mestrado de matemática da Universidade Federal do Ceará (UFC). O convite para ocupar uma cadeira no curso veio após a garota ganhar medalha de prata em uma olimpíada de matemática, organizada no ano passado pela International Matematical Union, em Glasgow, na Escócia. Participo dessas competições desde que cursava a sétima série do ensino fundamental, conta ela.

Larissa fez primeiro um curso de verão na UFC destinado a alunos graduados que pretendiam cursar o mestrado da área. Tirou 10 em todas as matérias e foi convidada pelos coordenadores do curso a fazer o mestrado. Pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), esse tipo de situação pode ocorrer. No caso de Larissa, ela terá que prestar vestibular para regularizar sua situação e comprovar os conhecimentos nas disciplinas oferecidas pelo curso de graduação. O chefe do Departamento de Matemática da UFC, professor Fábio Bezerra Montenegro, lembra que já ocorreram casos semelhantes no Rio de Janeiro. Um garoto chegou a receber, no mesmo dia, os diplomas de graduação, mestrado e doutorado no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), diz ele.

Boa aluna desde pequena, Larissa sempre gostou de matemática, história e geografia. As aulas de matemática, entretanto, ganharam um sabor especial depois de a estudante se matricular em turmas especiais que preparam para as olimpíadas sobre a matéria. Ela conta que as aulas eram dadas de forma diferente, instigando o aluno a desenvolver um raciocínio lógico. No colégio, o conteúdo das aulas é dado focando apenas as fórmulas. Não é apresentado como as coisas funcionam. Isso é o mesmo que aprender a ler e não entender o conteúdo, define ela. Engajada como voluntária em projetos de educação, ela acha que todo mundo tem capacidade de aprender: A escola deve ajudar a descobrir esses potenciais, ressalta.

Larissa ainda não sabe se fará vestibular para matemática ou economia, mas já se prepara para outro desafio: trata-se da Global Young Liders Conference, uma das mais importantes olimpíadas mundiais de matemática, a ser realizada em agosto, nos Estados Unidos.




Bem meu povo, está ai a capa da Revista Isto É deste fim de semana. A Revista Veja ainda não divulgou a sua, possivelmente só amanhã. As principais manchetes e matérias abordadas estão abaixo.

Os centros espíritas que oferecem o tratamento estão lotados e os médicos querem que a modalidade seja disciplina do ensino tradicional

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MUNDO

PASSADO NO PRESENTE
Começam julgamentos dos segregacionistas na África do Sul

O ENIGMA DA AL-QAEDA
Rede terrorista estaria se reorganizando para novos ataques

O CASTIGO DA AMÉRICA
Psicólogo diz que arrogância dos EUA será punida pelo terrorismo

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

ALERTA MÁXIMO
Brasil divulga lista de animais ameaçados de extinção

ECONOMIA E NEGÓCIOS

CALOTE NO AR
Pilotos da Varig não aceitam a fusão que anula seus direitos

LEILÃO VICIADO
Desvendado conluio entre Enron
e AES que compraram Eletropaulo

MOTIVO DE CHACOTA
Dólar fraco vira piada de especulador, mas pode ajudar EUA

COMPORTAMENTO

TEMPERO ITALIANO
RS terá primeira escola internacional de gastronomia

RESTRITO A HOMENS
São Paulo ganha megaclínica de estética masculina

BRASIL

GOVERNO X GOVERNO
Discussão sobre juros cria polêmica entre aliados de Lula e de seu vice

SINDICATO DO CRIME
Força-tarefa investiga quadrilha que domina coletivos em SP

FATURA A PRAZO
PMDB ganha cargos para entrar na base de apoio de Lula

AUTO-IMAGEM
Diretor geral da PF diz que policial corrupto é o pior tipo de bandido

MÚSICA

SUCESSO NOS EUA
Alexandre Pires consagra-se no estilo romântico e é eleito o artista latino do ano pela revista Billboard

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Chips e outras traquitanas estão a serviço da segurança privada

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MEDICINA

DURO GOLPE
OMS vai restringir cigarro. Em NY, não se pode fumar em bares. No País, surge campanha anti-tabaco




Minha amiga Ticcia lá do Não Discuto, não contou nada da sua viagem para SATOLEP e nem remarcamos o almoço. E assim outra semana se foi. Quem sabe na próxima!!!

A MULHER
de umas certas metáforas de Borges


Por uma porta espreita uma mulher.

Está ali há muito tempo; os homens e as mulheres a olham; uma vez eu a vi.

Os que a vêem têm de se aproximar; percebe-se que há muito a buscavam; a mão se apressa em roçar a carne que a espera sem remorso; a boca macia e poderosa ri com precisão no rosto sério.

A mulher outra coisa quer.

É mais que um gesto feito de olhares; os homens a pensaram e são pensados por ela e ardem para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterna, a mulher que ontem à noite deixou cheio de assombro aquele homem na rua, e a mulher que nesta noite sorriu para outros homens. Tem sede, quer estragar, abater urgentes quimeras.

Do outro lado de umas portas, entre cheiros e espelhos, infatigavelmente sonha a mulher o seu singelo sonho de salamandra belíssima, e a mão se anima quando a percebe porque a carne se anima, a carne que em cada contato pressente a solidão dos inumeráveis homens e de outras mulheres que a modelaram e se deformaram.

Às vezes, dá-me pena; às vezes, tenho medo. Tanta fé, tanta certeza, tanta impassível ou rígida soberba, e os anos passam, iguais.

Alfredo Braga




Há três mil anos, Deuses, Heróis, Titãs, Ninfas e outros personagens criados pela imaginação fértil dos gregos continuam fascinando o homem moderno. Nada melhor que uma sexta-feira, que ainda não está com temperatura tão baixa, assim como previam, para relembrá-los.

Para os gregos, a natureza tinha vida e oferecia sinais com os quais seria possível conhecer a vontade dos Deuses, lembre alguns abaixo. Era um lugar onde habitavam Sátiros, seres com corpo de homem, dois chifres e patas de bode; Ninfas, donzelas que enchiam os campos de graça e juventude; Centauros, metade homem, metade cavalo; Górgonas, monstros com cabelos de serpentes; Sereias, mulheres-peixes que, com vozes melodiosas, atraíam os marinheiros para o fundo do mar; e Quimeras, misto de cabra e leão que soltavam fogo pelas ventas.

As sacerdotisas, pitonisas, entravam em transe e previam o futuro transmitindo a palavra dos Deuses locais denominados Oráculos.

Deuses Gregos
Passavam a maior parte do tempo na montanha grega, Olimpo, e se reuniam para beber o néctar e comer ambrosia. Conhecendo alguns Deuses:

Zeus - Senhor do Céu, do Trovão e do Relâmpago.
Hades - Deus dos Mortos, do Mundo Subterrâneo e irmão de Zeus.
Poseidon - Deus dos Mares e também irmão de Zeus.
Hera - Deusa dos Casamentos e da Maternidade, esposa e irmã de Zeus.
Apolo - Deus da Luz e das Artes, filho de Zeus e de Leto.
Artemis - Deusa da Caça, irmã gêmea de Apolo.
Ares - Deus da Guerra, filho de Zeus e de Hera.
Afrodite - Deusa do Amor e da Beleza, brotou da espuma do mar.




Se você não viu ainda, quem sabe um bom programa para o fim de semana que vem ai, seja curtir Matrix com todos os seus desdobramentos e buscar os primeiros filmes da série. De todo o jeito PortoAlegre, voltou a ter inverno e a quem anuncie inclusive, neve na serra. Que está muito diferente de ontem, ah com certeza, está. Talvez não seja para o uso de Sobre-tudos e de luvas, mas é bom se precaver e neste momento voltou a escurecer. Tenhamos todos uma ótima sexta-feira.

Prova de fogo
Sem o impacto do primeiro filme mas com efeitos especiais espetaculares, continuação de Matrix estréia hoje com a missão de repetir sucesso do antecessor


Erika Roesler

O ator Harold Perrinau (à frente de Keanu Reeves) é o novo tripulante da nave, juntando-se a Carrie-Anne e Fishburne

Os poderes de Thomas Neo Anderson (Keanu Reeves) estão maiores do que nunca. Ele ressurge em Matrix Reloaded continuação do sucesso Matrix , que estréia hoje, como um Super-Homem que voa e desenvolve dons premonitórios. O herói vive o conflito de que sua missão não deve anular seu livre-arbítrio. E precisará fazer uma difícil escolha para salvar seu amor, Trinity (Carrie-Anne Moss).

No primeiro filme, o hacker Neo descobre que o mundo em que vive é uma simulação de computador a Matrix. As máquinas dominam a Terra e mantêm os humanos vivos em um casulo. Chamado a se libertar da Matrix, Neo opta por tomar uma pílula vermelha e é considerado um messias, o predestinado para libertar a humanidade.

Em Matrix Reloaded, tudo é superlativo. Os inseparáveis irmãos Andy e Larry Wachowski (responsáveis pela direção e roteiro) turbinaram as lutas de kung fu, encheram as telas de tomadas congeladas e mostram, em 360 graus, ações que desafiam as leis da física.

Em uma das primeiras cenas do filme, Trinity salta de costas do topo de um edifício e troca tiros com um agente. Dá para ver a trajetória da bala. Matrix Reloaded tem show de efeitos espetaculares, mas não causa o impacto do primeiro filme. Agora, o público conhecerá Zion, cidade subterrânea e única povoada por seres humanos livres da Matrix. Isso porque Morpheus (Laurence Fishburne), comandante da nave Nabucodonosor, recebeu uma mensagem avisando que robôs descobriram o caminho da cidade e escavam um túnel para atacá-la.

Morpheus acredita que a salvação está em Neo. Mas nem todos compactuam com esta crença e a pergunta que fica no ar é: o homem que transcendeu a realidade de Matrix é o salvador ou seria mais uma artimanha virtual?

O tom sombrio, com cenários noturnos e um quê de pessimismo, continua na tela. Neo tem inimigos poderosos, como os gêmeos albinos (Neil e Adrian Rayment) que têm o poder de se desmaterializar. Mas seu algoz número um continua sendo o agente Smith (Hugo Weaving). Ele ressurge mais perigoso, graças ao poder de se multiplicar. Em seqüência impressionante, Neo luta contra 100 agentes Smith. A luta demorou 27 dias para ser filmada.

Matrix foi concebido como uma trilogia. Mesmo não sendo tão bom quanto o filme de 1999, a segunda parte de Matrix poderá até superar os 460 milhões de dólares faturados no mundo com o primeiro. Reloaded arrecadou 93,2 milhões de dólares só no fim de semana de estréia nos Estados Unidos. Foi filmado junto com o último episódio da saga, Matrix Revolutions. Por isso, não se espante se ficar com a sensação de que o filme foi interrompido no meio de uma cena. Espere acabar os créditos e confira o trailer de Revolutions, que estréia em novembro.




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Radicais lançam Lula Reloaded!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E aí um amigo meu foi pra banca e pediu uma revista de artes gráficas por computador. E o jornaleiro apontou a 'Playboy'! Que de tanto usar computador já tá virando obra de ficção! Ficção pra fricção! Já virou tipo 'Matrix Reloaded'. Sheila Mello reloaded, Sabrina reloaded e peladas reloaded! E um leitor me advertiu que o presidente da Argentina não é vesgo: o olho direito é que não se dá com o olho esquerdo!

BUEMBA 2! Radicais divulgam fita, vídeo e folheto do discurso do Lula em 87. E aí o humorista Ciro Botelho me perguntou se era lançamento multimídia do Só pra Contrariar. E DVD, não tem DVD? Tá vendo como esses radicais são ultrapassados? E eu só vou aderir aos radicais se eles lançarem uma fita com o Zé Dirceu transando com umas guerrilheiras cubanas. Rarará!
E eu quero ver o DVD do Lula barbudão xingando o Sarney. Só que é em 1987. Então deveriam passar em cinemateca, de tão antigo. Deviam ter feito uma versão reloaded; Lula reloaded! E há 16 anos TODO MUNDO xingava o Sarney.

E aí me perguntaram o que eu estava fazendo em 87. Um 69! Rarará! E agora tá na onda falar: o Lula mudou, o Lula mudou. O Lula não mudou: continua barbudo, com língua presa e comendo rabada com polenta. Quem mudou foi a Marisa: que fez plástica e botou botox! E ficou mais esticada que tábua de polenta!

E diz que a Heloisa Helena e a Luciana Genro vão lançar uma grife: Helu! É a Daslu das radicais. Só com roupa fora de moda. Só pra CONTRAriar. E a Heloisa Helena fez uma coisa a favor: tá devendo pro Fisco. Dever pro fisco todo mundo é a favor!

BUEMBA 3! Jumentos enterrados vivos no Ceará. Barbaridade. Estou divulgando isso pra evitar que muita gente vá pra lá e acabe enterrado antes do esperado. E o Ceará não pode fazer essa barbaridade porque, como já cantava o Luís Gonzaga, 'o jumento é nosso irmão'. E já foi amante de muita gente boa lá no Ceará. Tô achando que é queima de arquivo. É mole? É mole, mas sobe!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que o Estatuto do Torcedor diz que 'os ingressos tem de ser numerados apenas nos locais já existentes para assistência em pé'. Tucanaram a GERAL! Socorro! Tá mais fácil acabar com a Sars que com o tucanês! Atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Pungente': flatulência em elevador lotado! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Email simao@uol.com.br




Sexta-feira, 23 de maio de 2003
Joelmir Beting


Zelai por nós


Projeto de lei do Executivo, em gestação no Palácio do Planalto, vai redefinir o conceito de autonomia das agências reguladoras dos serviços públicos sob concessão. A exposição de motivos da nova canetada presidencial já está rascunhada: a) as agências são indispensáveis; b) as agências são aperfeiçoáveis.

■ Ponto de partida: instaladas desde 1997, nas águas mornas e turvas das privatizações desajeitadas, as agências reguladoras já encerraram, com maior ou menor grau de resiliência, o ciclo da transição do modelo estatal monopolista para o mercado privado voluntarista. Algumas, com alvará de autoridades independentes. Outras, com crachá de autarquias especiais.

■ Sem regime único, temos exatamente 30 agências reguladoras em operação no Brasil. Incluídas as agências municipais plugadas no saneamento ambiental.

Representadas, politicamente, pela Associação Brasileira de Agências de Regulação (Abar), o segmento está de garras afiadas para o 3.º Congresso Brasileiro de Regulação de Serviços Públicos, a partir deste domingo, em Gramado, RS.

■ O engenheiro Zevi Kann, presidente da Abar e comissário-geral da agência reguladora de São Paulo para o setor de energia, diz que o encontro de Gramado ganha relevância técnica e política porque ocorre em plena vigília do questionamento público do formato, do conteúdo e da operação das agências no País. Questionamento usinado pelo governo Lula e não pela sociedade brasileira.

■ Em meio mundo, o advento dessas agências foi ovacionado como conquista democrática e não como "terceirização do Estado".

■ Na medida que delega rotundos mercados de serviços públicos a concessionários privados, o Estado moderno abre mão da propriedade, mas não da autoridade sobre esses mesmos mercados.

■ Como o governo concedente não desfruta dos dons divinos da onisciência, da onipotência e da ubiqüidade, o negócio é constituir e delegar agências reguladoras para o monitoramento e a fiscalização dos serviços públicos de concessionárias, permissionárias e autorizatárias.

■ Montado no tripé Executivo, Legislativo, Judiciário, o Estado coloca-se a serviço da cidadania, selecionando prioridades, estabelecendo diretrizes e formulando estatutos - para execução ao pé da letra das respectivas agências reguladoras e fiscalizadoras. Nada a ver com a tal de "terceirização do Estado", no discurso destemperado do PT, buzinado nos ouvidos do presidente Lula.

■ Pelo sim, pelo não, o encontro de Gramado terá exposição e debate de modelos regulatórios made in Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França e Espanha.

SECOS & MOLHADOS

Mancada - Tão zeloso e raivoso em matéria de controle remoto dos serviços públicos privatizados, o governo Lula acabou pisando no tomate. Em nome do superávit primário forçado de 4,25% do PIB, optou, entre outras tesouradas, por um contingenciamento de até 80% dos orçamentos anuais das agências reguladoras federais.

Apagão - Esse apagão operacional das agências sem opção ocorre em plena fervura da transição regulatória. Processo dramatizado pelas cólicas dos mercados da energia e da telefonia e pelos arroubos do setor do petróleo e do gás. Ao ente regulador, o corte linear da verba equivale a poupar munição no auge da batalha.

No desvio - Efeito líquido: essa transição regulatória trapalhona engaveta projetos, congela contratos, protela negócios, amedronta investidores e empurra para o acostamento da estagnação econômica algo parecido com um dos maiores canteiros de obras do mundo.




David Coimbra
23/05/2003


O plastiquinho da ponta do cadarço

Li a matéria sobre os garis que ninguém vê. A Deise Nunes de uniforme laranja, varrendo a rua bem varridinha, e a turma nem bola. Certo. Mas e o cantor de churrascaria? Eis um solitário. Churrascaria lotada, 250 pessoas se lambuzando com salada de maionese, trinchando salsichões. O cantor de churrascaria aciona seu sintetizador. Dedilha um tchéin na guitarra. Ataca de Djavan:

- Fez a Via Láctea, fez os dinossaaauros...

Isso em poderosas caixas de som, a maior estridência. As pessoas no entorno ouvem o cantor de churrascaria, a quadra inteira ouve. Ninguém o vê. Pior: ninguém o escuta. Mal sabem que música ele está cantando. Só que um cantor de churrascaria obviamente tem pretensões artísticas. Imagino-o em casa, deitado de bruços na cama, compondo uma canção com a sua Bic. Ele colocou todo o seu coração naquela música, todas as dores que sofreu por causa de um amor perdido, toda a alegria que sentiu ao encontrar um novo amor, tudo o que vai na alma do cantor de churrascaria está posto ali, na letra singela da sua composição. Mas ele poderá enfim executá-la? Poderá tocá-la na maldita churrascaria? Não! O dono da churrascaria, os freqüentadores, os garçons, eles rejeitam experiências. Aceitam apenas Robertos, Erasmos, Chicos e Caetanos. A música do seu próprio cantor, ah, essa não, essa de jeito nenhum.

Humpf.

E o cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço, então? Já pensou no cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço? Não sei como se chama aquilo. É um canudinho de menos de centímetro, que aperta as pontas dos cadarços. Alguma vez você tentou enfiar os cadarços no sapato sem aquele troço? Impossível. É preciso lamber a ponta do cadarço para afiná-la, um nojo. E às vezes nem funciona. O plastiquinho da ponta do cadarço é indispensável. Mas ninguém jamais pensa no cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço! Pois existe alguém que faz isso, quero informá-lo, prezado e indiferente leitor. Alguém que tem seus medos, suas dores, seus amores, seus sonhos, suas alegrias. E entre elas não está a do reconhecimento, não mesmo - ninguém nunca cogitou agradecer ao cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço pelo seu s