E N T R E L A Ç O S
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Sábado, Maio 24, 2003




Mulheres que amam demais?????

Os grupos Madas (Mulheres que Amam Demais Anônimas) surgiram nos Estados Unidos, inspirados no livro Mulheres que amam demais, da terapeuta de casais Robin Norwood. Atualmente, no Brasil, cerca de 10 mil mulheres participam dessas reuniões de apoio. Funcionam como o AA, mas o objetivo é dar suporte a quem sofre de amor doentio.

No Espírito Santo, não existe mais. E as mulheres que sentem necessidade de apoio procuram os Neuróticos Anônimos. Mas é preciso esclarecer uma coisa: será que o termo Mulheres que Amam Demais se adapta bem à situação?

Para Boechat, essas mulheres, na verdade, não amam em excesso. Mas sofrem de um transtorno obsessivo compulsivo (TOC). É uma neurose. Elas não conseguem manter um relacionamento equilibrado. São extremamente inseguras, não têm amor-próprio. Ela deposita sua felicidade no outro. Há muita angústia e o sofrimento. Perde seu referencial, tornando-se possessiva e ciumenta. Não consegue viver sem o objeto amado.

Lúcia*, 44 anos, que viveu anos nessa obsessão, concorda com o terapeuta. Não é amor. É posse, afirma. Casos assim podem levar a atitudes extremas de violência, avalia Boechat.

Lúcia perdeu as contas das vezes em que agrediu o marido e foi agredida por ele. Mas mantínhamos as aparências. Eu fingia que controlava ele e ele fingia que fazia tudo o que eu queria. Era uma relação doentia, lembra.

Por que as mulheres?

Para os especialistas, a história de submissão e passividade feminina, ao longo dos anos, é um dos fatores que desencadeiam relações problemáticas. Por muito tempo, a mulher foi criada para cuidar do marido e manter o casamento, a todo custo. Isso pode levá-la a exigir do homem a mesma atenção, tornando-se obsessiva. Mas o parceiro nem sempre se rende aos seus caprichos. Fica, então, insegura, e passa a tentar se fazer necessária. Complexo, não?

Fatores sociais e culturais devem ser levados em conta. Mas há a possibilidade de as causas serem psiquiátricas¿, alerta o terapeuta. Para ele, ainda é preciso considerar que as mulheres são muito mais suscetíveis às emoções.

A mulher que sofre desse transtorno quer o homem somente para si. O medo da perda faz com que ela sufoque o marido. Em alguns casos, não quer nem ter filhos, para não precisar dividir a atenção do parceiro ou mesmo não perder a forma e deixar de ser desejada pelo amado.

Será que meu amor é doentio?

Algumas internautas podem estar se perguntando: Sou ou não obsessiva?. Calma! Não precisa ficar desesperada porque, de vez em quando, você faz ceninhas de ciúme ou tem atitudes das quais se arrepende. O fato de ser possessiva não a torna obcecada, doente.

Boechat explica que há algo errado quando a mulher sofre mais do que aproveita a relação. Amor tem de ser sinônimo de alegria e bem-estar. Muitas, porém, demoram a perceber que a relação está doente. O outros acabam percebendo antes¿. Portanto, se os amigos mais próximos ou mesmo a família começarem a comentar, fique atenta.

Lúcia, por exemplo, diz que somente se deu conta de que as coisas iam mal quando a filha de apenas quatro anos falou com alguém: Meu pai é do bem, a mamãe é do mal. Comecei a procurar ajuda. Mas não sabia exatamente o que se passava comigo, recorda.

Outro fator importante é que, geralmente, a mulher que sofre dessa compulsão se relaciona com homens complicados. Não apenas a mulher está doente. O parceiro também. Nesse tipo de relação, um alimenta a neurose do outro, acredita Lúcia.

Para os Madas, a regra principal é: Quando amar é sofrer... Então você provavelmente está amando o homem errado, da maneira errada,
alguém emocionalmente fechado, viciado em trabalho, bebida ou em outras mulheres...
alguém que não pode retribuir seu amor!
Mesmo assim, você insiste, se sacrifica, anula sua personalidade, continua tentando...

Afirmações positivas para quem sofre de amor

Mereço tudo de bom que a vida tem a oferecer.

Hoje estou livre da dor, da raiva e do medo.

Estou superando os pensamentos negativos que me limitam.

Me encontro em perfeita saúde e bem-estar.

Estou me libertando das limitações impostas por meus pais.

Estou disposta a criar idéias novas à respeito de mim mesma e de minha vida.

Todos os problemas e conflitos se vão: estou serena.

Mereço a vida, uma vida boa.

O amor está atuando em mim para me curar e me fortalecer.

A solução para cada problema vem agora. Estou livre e cheia de luz

Mereço a liberdade de ser tudo aquilo que sou capaz de ser.

Estou calma e segura.

Mereço viver comodamente e prosperar.

Esqueço toda dor do passado e saúdo a saúde, a alegria e o sucesso.




Pois é, todos os dias já seria bom, mas não vi nada a respeito de mais de uma vez por dia, se é saudável e se é gostoso, por que não repetir mais vezes num mesmo dia?

Brasileiro quer mais sexo!!!

Quase 70 por cento dos brasileiros, homens e mulheres, "transam quando dá vontade", "deixam rolar" e a relação acontece. Visto assim, pode parecer que o sexo ocorre com muita naturalidade. Não é bem assim. Homens e mulheres têm apenas metade do número de relações semanais que gostariam de ter. A constatação aparece na maior pesquisa sobre a vida sexual do brasileiro já feita no país.

Mesmo entre os jovens adultos, de 26 a 40 anos, em que predominam os casais, as mulheres têm em média 2,6 relações semanais, mas desejariam ter 4,4. Homens têm 3,4, mas gostariam de transar todos os dias. Foram ouvidas sete mil pessoas, entre homens e mulheres de todas as classes sociais, com idade entre 18 e 70 anos, em 13 Estados do país.




Moacyr Scliar
25/05/2003


Os conflitos do asfalto

Foto(s): Arte/ZH

A batalha final não será travada entre as Luzes e as Trevas, ou entre Kofi Annan e George Bush. A batalha final será travada entre carros e pessoas. Vocês estranharão: mas os carros não são dirigidos por pessoas? Não, não são. Embora não pareça, os carros são entidades autônomas. A gente pensa que os dirige, mas são eles que nos controlam, eles é que nos induzem a correr, a fazer mil proezas, a ultrapassar em condições perigosas. Só quando desligamos o motor é que recuperamos nossa completa lucidez. E, quando estamos fora do carro, é que nos damos conta da surrealista situação em nossas cidades.

A faixa de segurança talvez seja o território mais conflagrado nesta surda batalha. Teoricamente, nela o pedestre tem a preferência. Tem mesmo? Quantos são os motoristas que param ao chegar a uma faixa de segurança? Respeitar a faixa de segurança é uma cultura. Uma cultura que, a bem da verdade, o Brasil está tentando adotar. Em Brasília, por exemplo, faixa de segurança é respeitada: a gente pode passar tranqüilo. O que foi o resultado de uma longa e persistente campanha de educação no trânsito, afinal bem-sucedida. Agora vejam a ironia: com isto aumentaram as colisões de automóveis. O cara que vem atrás muitas vezes não consegue frear a tempo e bate no carro que está parado diante da faixa. O que, entre parênteses, não tem muita importância: é parte do processo de aprendizado.

Pedestres também gostam de desafiar automóveis. Há ruas - e a Oswaldo Aranha, no sábado à noite, é ou era um exemplo típico - em que os jovens ficam sentados no cordão da calçada, com as pernas estiradas sobre o asfalto. Não chega a representar um perigo, mas é um recado: o asfalto não é só de vocês, ele também é, ao menos em parte, nosso.

O desafio cresce em intensidade com o skate, esta versão, sobre rodas, da prancha de surfe. Surfar na praia não é para qualquer um: custa alguma grana. Mas a cidade está aqui mesmo, e o asfalto, que os motoristas tanto prezam, é uma pista ideal para os cultores do skate, que assim passam a deslizar entre os automóveis. É também o equivalente brasileiro da tourada, só que os touros aqui são os carros. Perigosíssimo. Tão perigoso quanto fascinante. O esporte radical da avenida.

Uma situação intermediária entre a do pedestre e a do motorista é a do ciclista ou do motoqueiro. O ciclista em geral goza da simpatia do motorista; ali está ele, na sua frágil bicicleta, fazendo um pouco de exercício. O motoqueiro, não. O motoqueiro tripula um veículo motorizado. Que o motor seja de pouca potência não importa: trata-se de concorrente. E de um concorrente ágil, que ultrapassa carros com aquela desenvoltura freqüentemente vista como arrogância. O motoqueiro zomba dos congestionamentos e isto desperta o rancor de muitos motoristas. As queixas são mútuas: vocês, motoqueiros, são imprudentes. Vocês, motoristas, são agressivos.

A esta altura, temos de fazer o elogio do ônibus. Ali está ele, um veículo que é coletivo, e não individual, circulando com a tranqüilidade possível em seu corredor, sem ultrapassar ninguém, sem hostilizar ninguém. A palavra ônibus vem do latim e significa "para todos". Mais que um transporte, é um recado. O mundo, e as ruas, não têm proprietários. São espaços democráticos, onde precisamos aprender a arte da convivência. Fácil, como se viu, não é. Mas é indispensável.
scliar@zerohora.com.br




Paulo Sant'ana
25/05/2003


Pesquisas alarmistas

No início, os estudos médicos publicados pela imprensa indicavam que os óleos animais eram os vilões do colesterol e dos triglicerídios, isto é, os incentivadores das doenças cardíacas. Ou seja, todo mundo passou a evitar a manteiga.

Algum tempo depois, veio outro estudo médico que apontava exatamente o contrário: o que fazia subirem o colesterol e os triglicerídios eram os óleos vegetais.

Ouvi há dois meses, no rádio, inflamados discursos médicos, então contra a margarina.

O ovo também já foi caluniado pelas pesquisas médicas. Da mesma forma a carne vermelha. Os dois foram acusados de fazer subir o colesterol de forma homicida.

Cá para nós, pedir que as pessoas deixem de comer ovo ou carne vermelha, diminuindo-lhes ou fazendo-lhes desaparecer o prazer da mesa, é uma crueldade desses informes.

O que as pessoas têm de entender é que, no espectro multifatorial de causas que incidem no aumento do colesterol e dos triglicerídios, os alimentos se constituem em apenas 20% do caudal de influência.

Agora, nos mais prestigiados e famosos espaços da imprensa escrita e televisionada brasileira, apareceu uma informação aterrorizante: quem tiver pressão arterial no nível 12/8 está no grupo de risco da hipertensão.

Mas pelo amor de Deus, onde é que querem chegar? Sempre ouvi os mais capazes e sensatos cardiologistas e médicos clínicos medirem a pressão dos seus clientes, verificarem que era 12/8 e exclamarem: "Maravilhoso! 12/8, pressão de bebê".

Ou seja, esta informação que circulou a semana passada no Brasil de que é perigosa a pressão de 12/8 é terrorista. Sei que partiu de um congresso médico, de uma comissão ilustre lá dos EUA, mas é terrorista. E não tem fundamento.

Em realidade, 12/8 é pressão normal. Qualquer pessoa que se sinta bem, que não tenha náusea ou tontura, com 12/8 deve ficar completamente tranqüila e não tem por que se assustar com esta notícia mau-caráter.

Esta expressão que usei aí em cima, "mau-caráter", é da minha lavra, mas a opinião de que 12/8 é pressão arterial normal e não procede qualquer alarma sobre ela é de renomados cardiologistas porto-alegrenses a quem recorri depois da infâmia alarmista.

Imaginem se a população brasileira inteira intimidar-se com essa pesquisa e se atirar para os consultórios médicos! Vai ser um deus-nos-acuda e o SUS irá explodir por completo!

Aqui mesmo nesta Redação em que escrevo existem colegas que têm 9/8 de pressão arterial. São saudáveis. Outros há que têm 9/6. Esbanjam saúde.

Ou seja, cada pessoa é uma pessoa. Quem não se sente mal e tem pressão arterial em 13/9 não há que alarmar-se. Como é então que se difunde irresponsavelmente que está no grupo de risco quem tem pressão 12/8?

Eu sou da opinião de que a imprensa terá de em seguida acautelar-se contra esta voragem de pesquisas e informes médicos que varrem o noticiário.

Não pode comer isto, não pode comer aquilo, quase tudo uma tolice sem limites. Fora o açúcar para os diabéticos e o sal para os hipertensos e cardíacos, coma de tudo, rigorosamente coma de tudo, claro que sem exagero.

Agora veio esta estupidez descomunal de aterrorizar-se os que têm pressão arterial 12/8!

Ou seja, chegaram a este ponto máximo do absurdo: também os sadios são doentes.

Estou cada vez mais convencido daquele ditado: "Existem mentiras, mentiras deslavadas e pesquisas".
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Martha Medeiros
25/05/2003


Ainda sobre as mães

Foto(s): Arte/ZH

Gostei muito do que a psicanalista Diana Corso escreveu recentemente aqui em Zero Hora, em sua coluna. Ela desprezou o tom de glorificação nas homenagens às mães, citou Elisabeth Badinter (que escreveu O Mito do Amor Materno) e disse que estava na hora de sermos menos hipócritas, já que ser mãe não é esta maravilha toda. Eu defendo esta mesma idéia, inclusive abordei isso num dos capítulos do meu livro Divã. Acho que ser mãe é ótimo e é uma encrenca, e não há nenhuma frieza nesta constatação, e muito menos falta de amor. É apenas mais uma de nossas ambigüidades.

Estou voltando a este assunto, longe de qualquer data comemorativa, por causa de um comercial de tevê americano. O filme mostra um pai e um filho no supermercado. O filho coloca um pacote de salgadinhos no carrinho. O pai retira, devolvendo-o à prateleira. O garoto, teimoso, pega o pacote e recoloca-o no carrinho. O pai calmamente devolve o pacote para a prateleira.

Aí o garoto começa a chorar. Do choro vai aos gritos. Atira-se no chão. Faz um escândalo. A cena chama a atenção dos outros clientes, que olham para o pai com ares de reprovação. A criança segue aos berros, um inferno. Corta. Entra uma frase no vídeo: Use Camisinha.

O comercial combate, com bom humor, duas coisas. Primeiro, a idéia de que sob hipótese nenhuma devemos questionar a existência dos filhos em nossas vidas. E também combate a impressão de que camisinha só serve para prevenir a Aids, quando ela é na verdade um método contraceptivo. Achei criativo e engraçado. Mas ele seria realmente ousado se a criança estivesse com a mãe.

Ainda não ficamos à vontade para expor publicamente uma das maiores angústias da mulher de hoje: como conciliar vida profissional e amorosa com a maternidade, que é uma glória, porém nos rouba muito em energia e tempo. Como conquistar tudo o que está ao nosso alcance se ainda somos escravizadas pelas exigências domésticas? Como ser livres diante de um, dois ou três filhos que nos requisitam na infância, na adolescência e muitas vezes ainda na idade adulta? Imagine este mesmo comercial, com a mesma cena corriqueira que foi mostrada (corriqueira para quem tem filhos mal-educados, se bem que os nossos, mesmo adoráveis, já fizeram algo parecido um dia). Imagine se depois de todo o escândalo infantil entrasse a frase: Tome Pílula. O Papa se descabelaria, caso ainda tivesse cabelos. E o resto da sociedade iria passar mal do estômago.

Eu adoro ser mãe, mas não as 24 horas do dia. Até mesmo as que contam com um séquito de babás e motoristas fantasiam, de vez em quando, com uma vida sem dependentes. Não é pecado, não somos santas. Larguem-nos sozinhas num supermercado com um garoto histérico; impeçam-nos de trabalhar ou estudar por causa de uma criança; coloquem um bebê chorão sob nossa guarda dia e noite. É aí que a supermulher descobre que é humana.
martha.medeiros@zerohora.com.br




Luis Fernando Verissimo
25/05/2003


Esse Renê

Lilian sentiu que Artur iria deixá-la. Artur já não era o mesmo. Depois de seis meses, seu amor por Lilian parecia estar diminuindo. Parecia estar acabando. Ele não a chamava mais de Lili. Lilian quis provocar ciúme em Artur e fez o seguinte: comprou um buquê de flores, escreveu num cartãozinho "Lilian, diga quando...", assinou - depois de pensar muito num bom nome para amante - "Renê", e mandou entregarem o buquê com o cartãozinho no seu próprio endereço, depois de se certificar de que a entrega seria numa hora em que o Artur estivesse em casa.

Deu certo. Foi o Artur quem recebeu as flores na porta. Disse:

- Flores para você.

Lilian, fingindo surpresa:

- Flores?

- E um cartãozinho.

- Um cartãozinho?

- Posso abrir?

- Não! Deixa que eu...

Mas Artur já estava lendo o cartãozinho.

- Muito bem. Quem é Renê?

- Renê?

- "Lilian, diga quando". Assinado, Renê.

- Eu não tenho a menor...

- "Diga quando" o quê? Hein? Hein? O quê? E quem é esse Renê?

- Eu...

O tapa foi tão forte que Lilian caiu de costas no sofá. Quando se ergueu estava sorrindo. O Artur sentia ciúme. O Artur ainda a amava, afinal. O Artur ainda a amava! Paft. Novo tapa. Do sofá, eufórica, Lilian gritou:

- É uma brincadeira! Fui eu que mandei as flores. Fui eu que escrevi o...

Não pôde terminar porque o Artur começou a sufocá-la com uma almofada do sofá.

O autor precisa entrar neste ponto e explicar que não só a Lilian vivia com Artur há apenas seis meses, tempo insuficiente para se conhecer uma pessoa, como jamais entenderia os homens. Homem não tem ciúme porque ama. Ciúme não é uma questão entre o homem e a pessoa que ama. Ou é, só que a pessoa que ele ama é ele mesmo. Ciúme é sempre entre o homem e ele mesmo. Eu conheço a raça.

- Quem é esse Renê? Hein? Hein?

Súbito, o Artur parou de sufocá-la com a almofada. Levantou-se. Tinha se dado conta de uma coisa. Disse:

- Eu sei quem é esse Renê. Eu conheço esse Renê!

A Lilian ainda tentou chamá-lo de volta.

- Não existe nenhum Renê! Fui eu que inventei!

Mas o Artur já tinha saído de casa, depois de passar no quarto e pegar o revólver da gaveta da mesinha de cabeceira.

Lilian passou o resto do dia rondando pela casa, nervosíssima. Quando ouviu o ruído da chave na fechadura, correu para a porta. O Artur entrou sem olhar para ela.

- Onde você estava? O que aconteceu?

Artur não respondeu. Foi para o quarto trocar de roupa. Lilian foi atrás. Havia respingo de sangue nas calças. O tiro fora de perto. Ele não trouxera o revólver de volta. Provavelmente o jogara em algum matagal.

Lilian:

- O Renê do cartãozinho...

Artur tapou a sua boca com a mão. Disse:

- Não se fala mais nesse nome nesta casa. Nunca mais. Está ouvindo?

E depois:

- Esse aprendeu a não se meter com a mulher dos outros.

Naquela noite, nenhum dos dois dormiu. Lilian pensando "Renê, Renê... Quem é que eu conheço com esse nome? Quem é esse Renê, meu Deus? Ou quem era?"

De madrugada, amaram-se loucamente. O Artur dizendo:

- Viu o que eu faço por você? Viu?

Era a primeira vez que se amavam assim em pelo menos três meses. Ele até a chamou outra vez de Lili. A chama estava reacesa. Artur ficaria.

Durante dias, Lilian procurou nos jornais uma notícia sobre a morte de Renê. Nada no noticiário policial. Nenhum registro de desaparecimento. Nada nos avisos fúnebres. Quem seria aquele Renê? No fim de mais seis meses, Artur anunciou que iria deixar Lilian.

- Não vai, não - disse Lilian.

E disse que no momento em que ele saísse pela porta, ela telefonaria para a polícia. A polícia gostaria de saber do fim de um certo Renê...

- Você faria isso, Lili?

- Experimenta.

Que coisa que é gente, né não?

Publicado no dia 17 de março de 2002. Luis Fernando Verissimo está de férias.


Reportagem Especial
Nas pegadas dos meninos de Soledade



Para reconstituir as 24 horas anteriores ao sumiço dos quatro garotos, ZH visitou os locais por eles freqüentados, como o parquinho (foto Ricardo Chaves/ZH)




ESPECIAL 5 ANOS

Sem perder a ternura

Antes alijadas dos postos de comando nas empresas, as mulheres se firmam como executivas e não se descuidam de seu lado feminino

ELICA ITO


ATITUDE
Ana Lúcia Serra, como várias mulheres, decidiu apostar na vida de empreendedora
Muitos e muitos anos se passaram desde que as primeiras e anônimas mulheres saíram de casa para ocupar espaços que pareciam dedicados apenas aos homens. Apaixonadas, determinadas, incansáveis, criativas e até descabeladas, elas se mantiveram em combate em todas as frentes.

O resultado é que hoje elas quase não têm mais o que conquistar nos países de Primeiro Mundo e também no Brasil. Exagero? Nada disso. Atualmente, dos oito ministros que atuam no Supremo Tribunal Federal, um é mulher. Na última eleição, o número de deputadas federais cresceu de 29 para 42 e o de senadoras de cinco para 12. No Poder Executivo, também houve avanço. O melhor exemplo é o crescimento do número de prefeitas. Em 1992, elas eram 171, hoje somam 317. E detalhe que ninguém pode esquecer: a maior cidade do país e o segundo maior Estado da União são comandados por mulher. Definitivamente, elas chegaram lá. A carioca Ellen Gracie, de 55 anos, a primeira e única mulher na corte masculina do Supremo Tribunal Federal, realizou um sonho de garota e tem muito orgulho de ampliar os horizontes da mulher no Brasil. Separada, com uma filha de 22 anos, Ellen, como tantas outras brasileiras, foi chefe de família e enfrentou o desafio de dar conta de múltiplas tarefas.

Venceu a parada com o jeito mais feminino de lidar com as dificuldades: indo à luta como as primeiras 'desbravadoras'. Segundo a consultora Rosa Bernhoeft, diretora da Alba Consultoria, a mulher tem uma versatilidade toda especial: 'Ela tem consciência de sua independência como realizadora em tempo integral. Porque, se o marido perde o emprego, a mulher faz doces, vende produtos e encontra uma maneira alternativa de trabalhar'.

Para ajudar a compor a renda familiar ou concretizar ambições, as mulheres também vêm se destacando como pequenas e médias empresárias. Elas já representam 42% dos empreendedores brasileiros, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM). No caso de Laís Passarelli, sócia diretora da Passarelli Consultores, o 'grande desafio era ter uma forma de trabalho mais independente. Trabalhando para os outros, me sentia frustrada com a morosidade dos processos. Agora, posso tomar decisões mais rapidamente e assumir riscos'.

Laís age rápido, assume riscos e faz muito sucesso. Sua empresa de recrutamento de executivos está hoje entre as cinco mais lembradas na pesquisa de Top of Mind e todos os seus concorrentes são multinacionais. Com 46 anos, solteira, sem filhos, Laís é uma empreendedora realizada e tem convicção de que a informalidade e a intuição femininas fazem a diferença no relacionamento com os clientes e com a equipe interna.

Daniela Lopes é outra empreendedora que apostou em sua 'voz interior' para mudar de vida. Em 1999, com 17 anos, ela partiu de Januária, no norte de Minas Gerais, para São Paulo. Hoje, cinco anos depois, é dona da clínica de estética Byo L'max, no bairro de Santana (Zona Norte da cidade), na qual emprega 12 pessoas, entre assistentes, médicos e esteticistas, e atende em média 120 clientes por mês. 'Tinha uma intuição que me dizia que eu tinha de sair de lá para crescer, conquistar meus objetivos', ä lembra Daniela. 'E eu sempre ouço minha intuição feminina.'

Ana Lúcia Serra, quase aos 40 anos, casada e com duas filhas, sócia da agência de publicidade age., também acredita que a mulher desenvolveu características especiais que a fazem empreender de forma vitoriosa: 'A mulher tem uma sensibilidade maior, uma grande capacidade de se organizar e pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Em meu caso, consigo sempre ter uma visão geral de tudo sem me perder nos detalhes'.

Independentemente de ser a dona da empresa, a mulher participa decisivamente do sucesso das pequenas e médias empresas. Marília Rocca, diretora-geral do Instituto Empreendedor Endeavor, conta que atualmente as mulheres representam mais da metade do corpo de funcionários de novos empreendimentos. 'Não há como negar que a mulher tem um forte lado empreendedor e agilidade para lidar com as dificuldades. É ela quem sabe fazer muito com pouco, o que é imprescindível para o sucesso de uma nova empresa', diz Marília.

Essa mesma capacidade de empreender pode ser encontrada em várias executivas de grandes empresas. Tome-se o exemplo de Márcia Sulman Gonsales. Pernambucana do Recife, de 36 anos, começou a trabalhar na Avon como trainee na área de finanças há 12 anos e hoje é diretora de planejamento estratégico e inteligência de marketing. Ela acredita que boa parte de seu sucesso se deve ao fato de que a Avon tem uma estratégia voltada para a valorização da mulher - e, de fato, 80% dos funcionários são do sexo feminino. Uma prova disso é que Márcia foi promovida durante a gravidez, mesmo estando no quinto mês de gestação.


VOZ INTERIOR
Daniela empreendeu FORÇA
Laís Passarelli age rápido, assume riscos e faz sucesso

Casada, dois filhos, Márcia busca, como tantas executivas, equilibrar vida profissional e família. Algum segredo? Nada além do bom senso e de uma boa infra-estrutura de apoio em casa. 'Precisamos ser extremamente produtivas para poder conciliar as tarefas profissionais e cuidar dos assuntos pessoais.' Para Márcia, o maior desafio daqui para a frente é a mulher não se masculinizar. 'Temos de ser respeitadas pelo que somos. Delicadas, afetivas, com batom vermelho e salto alto', afirma.

Governadora, ministra, líder, executiva, piloto da aviação civil, dona de empresa e, muitas vezes, o 'homem da casa'. Hoje as mulheres brasileiras comandam 25% das famílias, respondendo por todas as responsabilidades e aprendendo a administrar as contas, driblar saldos negativos, educar os filhos e ainda viver com um salário que corresponde em média a 60% dos salários masculinos. Vontade de pendurar as chuteiras, pedir colo, todas têm. Mas cadê o tempo para a choradeira?

Maria Cláudia Pires de Mello, de 48 anos, chefe de família há sete anos, mãe de três filhas, teve de se dividir em muitas para dar conta de tudo. Artista plástica, hoje atuando como marchande em São Paulo, Maria Cláudia lembra que, depois da separação, foi difícil levantar da cama e enfrentar novas responsabilidades. 'Hoje, não é mais assim. As responsabilidades fazem parte de minha vida e não me assustam mais', diz.

Aceitar a dor e a delícia dessa vida multidisciplinar continua na pauta das mulheres brasileiras, que hoje já são 51% do total de universitários. O futuro promete e vale a pena aguardar os próximos capítulos. As mulheres devem continuar firmes e fortes nas frentes de batalha pela igualdade de tratamento e oportunidades, sempre surpreendendo e mostrando suas garras, e, como diria Rita Lee, sendo mais macho que muito homem.

Fotos: Denise Adams/ ÉPOCA


Que Yoga devo praticar?
Pedro Kupfer

O Yoga é uma das atividades que mais crescem no mundo. Nos Estados Unidos, já são mais de 18 milhões de praticantes e, segundo estimativas recentes, essa tendência de crescimento irá se manter, no mínimo, por mais 10 anos. Aqui no Brasil não é diferente, e esta forma saudável de viver atrai cada vez mais adeptos.

A pergunta que muitos se fazem é qual seria o tipo de Yoga mais adequado para cada um. O conselho editorial deste site recebe freqüentemente consultas com este tipo de questionamento. É muito fácil para o iniciante se perder na miríade de sistemas, nomes sânscritos e ensinamentos disponíveis.

Para esclarecer esse panorama, decidimos publicar este texto com o intuito de orientar àqueles que gostariam de se iniciar nesta prática milenar, fazendo uma breve descrição dos métodos comprovadamente bons que estão disponíveis hoje em dia em nosso país. É preciso esclarecer aqui que esta lista não está completa: ela inclui apenas as modalidades mais conhecidas e praticadas na atualidade.

A verdade é que nem todas as formas de Yoga são boas para todo o mundo. Existem diferentes tipos de prática, que se adaptam às possibilidades e necessidades de cada um. Diferentes formas de Yoga não dão os mesmos resultados com as mesmas pessoas e não há consenso sobre o que deveria ser ensinado em uma aula de Yoga. Portanto, a modalidade de Yoga escolhida deve estar em função das expectativas e necessidades do praticante.

Os efeitos e benefícios do Yoga, não obstante, estão acessíveis para todos, independentemente da idade ou do estado físico de cada um. Basta apenas saber escolher a modalidade que melhor se adapta às necessidades e possibilidades de cada um.

Antes de mais nada, é preciso ter claro o que você quer da prática. Os objetivos mudam de pessoa para pessoa. Você pode querer praticar impelido por uma destas motivações:
1) para melhorar a qualidade de vida ou combater o estresse
2) para se manter em forma usando um método não convencional
3) buscando um treinamento físico rigoroso, exigente e energético
4) para tratamento terapêutico ou por indicação médica
5) procurando um caminho para o auto-conhecimento e a transcendência

É lógico que, quanto maiores forem as suas expectativas, mais fundo você deverá procurar. Se você quiser praticar para manter a forma ou combater o estresse, algumas sessões semanais de ásanas de alongamento e flexibilidade farão o trabalho. Nesse caso, ou se você tiver algum problema de saúde ou ficou parado por um tempo, é aconselhável fazer um exame médico antes de iniciar.

Se estiver procurando uma atividade desafiante e energética, onde possa explorar e extrapolar seus limites físicos através de ásanas mais potentes, o Power Yoga e o Ashtanga Vinyasa Yoga, podem ser extremadamente exigentes, adequadas para atletas e pessoas que gostem de trabalhar o corpo com disciplina e intensidade.

Se você tiver praticado durante um tempo, sentido os benefícios do Yoga e quiser continuar sozinho, é recomendável mesmo assim que, de tempos em tempos, faça um workshop ou aula para corrigir eventuais erros que você mesmo possa não estar percebendo.

Se for o caso de usar yogaterapia por indicação médica, se recomendam uma ou duas sessões diárias de exercícios específicos que incluam ásana, pránáyáma e yoganidrá, bem como aconselhamento alimentar. O professor, nesse caso, precisa ter muito estudo e experiência no assunto. Há professores que prefiram negar os efeitos terapêuticos do Yoga, o que é muito mais fácil que estudá-los.

Hatha Yoga tradicional
A prática de Hatha Yoga tradicional tem um ritmo tranqüilo, que é pautado pelos próprios praticantes. A flexibilidade e a redução das tensões é o foco desta modalidade. O intenso trabalho respiratório e o relaxamento consciente auxiliam no combate ao estresse. Esta é uma ótima opção para iniciantes e pessoas com alguma limitação (problemas de coluna, cardiopatias, etc.), embora não possua finalidade de cura, como é o caso da yogaterapia. As técnicas de relaxamento e meditação também estão presentes, aprimorando o intercâmbio entre corpo, mente e emoções.

Ashtanga Vinyasa YogaEste sistema, oriundo do sul da Índia e ensinado pelo mestre Sri K. Pattabhi Jois, está baseado em seis séries de ásanas progressivamente mais exigentes, nas quais cada praticante trabalha em seu próprio ritmo, através de uma técnica chamada vinyasa, que consiste em coordenar respiração e movimento. O Ashtanga Vinyasa Yoga passa por ser o mais exigente, no plano físico, de todos os métodos que se conhecem hoje em dia. Aconselha-se ter um preparo físico razoável antes de começar. Prepare-se para transpirar.

Power Yoga
O Power Yoga nasceu nos Estados Unidos como uma adaptação mais acessível do Ashtanga Vinyasa Yoga para aqueles que não querem fazer uma prática tão exigente, mas que fosse ainda bem intensa. Através da respiração e da execução de posturas combinadas com movimento, o praticante desenvolve resistência, força, flexibilidade, consciência respiratória, concentração e vitalidade. Alguns professores prefiriram adotar o nome Dynamic Yoga, ministrando uma prática com características similares.

Iyengar Yoga
O Iyengar Yoga é um método altamente preciso e exigente criado por B.K.S. Iyengar, com base nos ensinamentos do seu mestre, Sri T. Krishnamacharya, de Mysore, sul da Índia. Uma das características mais marcantes deste método é o conceito de alinhamento. Desenvolver a intuição de como o alinhamento trabalha pode despertar experiências escondidas no corpo, tornando conscientes os condicionamentos que moldam as nossas estruturas musculares. Nesse plano, o alinhamento funciona para abrir caminhos para que a energia circule. Desta forma, buscar o alinhamento profundo pode comparar-se à tarefa de lapidar um diamante.

Os métodos de Hatha Yoga acima citados incluem não somente a prática das técnicas físicas, chamadas ásanas, mas igualmente exercícios respiratórios e relaxamento (chamados pranayama e yoganidra respectivamente). Alguns professores acrescentam às práticas meditação e o estudo da filosofia do Yoga e do hinduísmo (Samkhya, Vedanta e outras tradições). Os métodos podem ter abordagens diferentes, dependendo de onde cada professor coloca sua ênfase.

Yogaterapia
Desenvolvido nos Estados Unidos por Joseph Lepage, este método coloca a ênfase no processo da cura, trabalhando em todos os níveis do ser humano: físico, mental, emocional e espiritual. Joseph diz que "a cura acontece quando estabelecemos contato com a parte mais profunda de nós mesmos¿. Um exemplo desta abordagem terapêutica é ensinar pessoas com problemas cardíacos a tornarem-se mais conscientes da sua condição em todos os níveis, melhorando a qualidade de vida e usando técnicas respiratórias, exercícios adequados e meditação com foco na cura do coração.

Viniyoga
A palavra viniyoga designa uma aproximação à prática do yoga que privilegia o indivíduo, levando em conta suas aspirações, suas possibilidades, sua saúde, seu entorno, sua forma de vida e sua cultura. a prática de viniyoga respeita o ritmo de evolução de cada um. nas práticas, as posturas físicas são sincronizadas com a respiração em seqüências que são montadas em função das necessidades de cada praticante. este método inspira-se nos ensinamentos dos mestres Sri T. Krishnamacharya e T.K.V. Desikachar.

Kripalu Yoga
Prática em três estágios desenvolvida pelo yogi Amrit Desai, baseada nos ensinamentos do mestre Kripalvananda. Os três estágios do Kripalu incluem: prática firme (com foco no alinhamento, a respiração e a atentividade); entrega (permanência nas posturas, superando limites, aprofundando a concentração e o foco no processo interno de pensamentos e emoções); e meditação em movimento (as tensões internas são completamente eliminadas do corpo, desenvolvendo confiança na sabedoria corpórea necessária para conduzir o praticante ao estado de meditação profunda).

Sivananda Yoga
Trata-se de uma prática de síntese dos principais ramos do Yoga tradicional (Karma, Bhakti, Hatha, Raja e Jñana Yoga), segundo o mestre Swami Sivananda Saraswati. Este método foi elaborado na conhecida Yoga Vedanta Forest Academy de Rishikesh,Índia, uma das primeiras instituições abertas aos praticantes ocidentais. Trazido pela primeira vez ao ocidente em 1957 por Swami Vishnu Devananda - um dos principais discípulos de Sivananda - foi logo adaptado às necessidades da sociedade atual, propondo uma atenção especial aos cinco pontos básicos: 1) Exercícios (Asanas), 2) Respiração (Pranayama), 3) Relaxação (Shavasana), 4) Alimentação (vegetariana), 5) Atitude positiva e Meditação (Dhyana). Estes pontos visam sobretudo a refinar a higiene de vida do praticante, o que resulta em uma melhor consciência do verdadeiro propósito do Yoga. As aulas práticas são estruturadas em uma série de 12 Asanas principais (com variações), precedidos de Surya Namaskar e Pranayama. Há também uma ênfase no aprendizado dos mantras sânscritos tanto em forma de canto (Kirtan) como para suporte à meditação.

Como escolher um bom professor? Usando o bom senso e a capacidade de observação para escolher. Vendo se você se sente confortável na escola de Yoga que visitar. Perguntado ao professor onde ele aprendeu. Vendo se você se identifica com a proposta do trabalho do instrutor ou do tipo de Yoga.

Para encerrar, é preciso frisar que não existe um Yoga superior, mais completo ou melhor que os demais. Cada método se adapta melhor para objetivos diferentes. O melhor Yoga é aquele que funciona para você, que satisfaz suas necessidades e preenche suas expectativas, sejam elas quais forem. É questão de procurar até achar algo que lhe satisfaça. Boas práticas!




Diogo Mainardi
Revista veja


Lula lá ­ na tela do cinema

"Uma biografia de Lula serviu de base para o roteiro de um filme. Não sei quais episódios ele irá mostrar. Eu incluiria até os mais recentes, como o de Lula correndo atrás de um pato na Granja do Torto. O deputado Sigmaringa poderia ser interpretado pelo próprio deputado Sigmaringa"

Estátua, que eu saiba, até agora só ergueram uma para Lula, a do desfile da escola de samba Beija-Flor, no último Carnaval. Em compensação, sua imagem aparecerá em todas as telas de cinema do Brasil. Estão sendo feitos cinco filmes em sua homenagem. O primeiro é dirigido por um de seus maiores cabos eleitorais no meio cinematográfico, Nelson Pereira dos Santos, orador daquele comício que reuniu mais de 2.000 artistas no Canecão. Difícil imaginar que um tiete como Nelson Pereira dos Santos tenha o desprendimento necessário para retratar o presidente com isenção.

Isenção, aliás, é o que ninguém quer. O cinema, no Brasil, está nas mãos do Estado. Os produtores do filme de Nelson Pereira dos Santos são os mesmos que, no passado, para financiar outro projeto, embolsaram tutu do BNDES. Os autores dos demais filmes sobre Lula, João Moreira Salles, Eduardo Coutinho e Eryk Rocha, também têm se beneficiado de dinheiro público, através das leis de patrocínio. De maneira direta ou indireta, portanto, o culto à personalidade do chefe do governo será bancado pelo próprio governo.

O quinto filme sobre o presidente é ainda mais enrolado. O roteiro é de Denise Paraná. Ela trabalhou como assessora de imprensa de Lula e escreveu a mais completa biografia dele, O Filho do Brasil, que serviu de base para o roteiro. Em janeiro deste ano, para comemorar a vitória eleitoral, a Fundação Perseu Abramo relançou o livro, numa edição ampliada. Como a Fundação Perseu Abramo é mantida pelo Estado, quem pagou a conta da encomiástica biografia presidencial foi o contribuinte. Estou curioso para saber se o filme também será financiado com dinheiro público.

O Filho do Brasil é definido por sua autora como "psico-história". É composto por uma série de entrevistas com Lula e seus parentes, entre os quais os irmãos Genival, Frei Chico, Marinete e o cunhado Lambari. Lula conta que, na infância, chegou a passar fome. Não fome de verdade, de não ter o que comer, mas de não poder comprar chiclete e mortadela quando bem entendesse. Lula acha que a miséria não é de todo má. O miserável sertanejo, segundo ele, "anda de cabeça erguida, otimista", enquanto "a classe média urbana é muito borocoxô, está sempre reclamando". Esperemos que seu governo arrume um jeito de levar rapidamente a classe média urbana à miséria. Não sei quais episódios da vida de Lula o filme irá mostrar. Eu incluiria até os mais recentes, como o de Lula correndo atrás de um pato na Granja do Torto. O deputado Sigmaringa poderia ser interpretado pelo próprio deputado Sigmaringa.

Das biografias de Lula, minha predileta é a de seu mentor intelectual, Frei Betto. Se me nomeassem diretor da Eletrobrás, eu daria a ele a função de escrever um roteiro sobre o presidente. Frei Betto também é autor de uma autobiografia, Batismo de Sangue, que o ex-guerrilheiro Helvécio Ratton pretende transformar em filme. Como a única guerrilha que resta no Brasil é para abocanhar verbas públicas, Helvécio Ratton parte com uma certa vantagem. Por acaso ainda não apareceu ninguém propondo uma cinebiografia de, digamos, Gilberto de Carvalho, o secretário particular de Lula? Daria um filmão.




Sabe aquela dúvida atroz, entre qual das duas revistas semanais será melhor? Na dúvida fique com as duas, as capas são estas que ai estão.

El Tiempo No Para
O Tempo Não Pára vira canção de protesto na Argentina


Sérgio Martins

Hino dos caras-pintadas no impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992, a música O Tempo Não Pára, dos roqueiros Cazuza e Arnaldo Brandão, voltou a ser usada como canção de protesto agora na Argentina. Vertida para o espanhol pelo grupo Bersuit Vergarabat, ela foi adotada pelos jovens do país vizinho como forma de reclamar da penúria em que se encontra a nação e também contra o desejo do político Carlos Menem de retornar à Presidência cargo que ele ocupou entre 1989 e 1999.

O candidato de frondosas costeletas acabou renunciando à disputa na semana retrasada, às vésperas do segundo turno das eleições argentinas. Já El Tiempo No Para continua a entusiasmar, inclusive noutras partes do continente: seu clipe é um dos mais executados na MTV latina. Surgido em 1988, o Bersuit Vergarabat é uma mistura de Legião Urbana com Raimundos.

Seu nome não quer dizer nada. "Inventei tentando escrever poesia concreta", explica o vocalista Gustavo Cordera. Quem não está feliz com o sucesso de El Tiempo No Para é Arnaldo Brandão. "Devo ter direito a uns 20.000 reais de direitos autorais, mas até agora não vi um tostão", diz ele, enojado ou melhor, irritado.




Como sempre ai está a capa da Revista Veja deste fim de semana. As reportagens principais estão elencadas abaixo.

Capa: foto de Pedro Rubens

Seções
Carta ao leitor
Entrevista: Suzana Vieira
Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Cartas
Radar
Holofote
Em foco: Gustavo Franco
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
Diogo Mainardi
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

Brasil

Governo: Juros produzem guerra interna no Planalto

Artes e Espetáculos

Livros: A Obsessão Antiamericana, de Jean-François Revel
Livros: Flush, de Virginia Woolf
Cinema: Keanu Reeves
Televisão: Reality show da Globo mistura jogo com ficção
Televisão: Armínio é motorista de táxi do Casseta & Planeta
Televisão: As mulheres espevitadas da novela das 8
Música: Canção de Cazuza vira hino de protesto na Argentina

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

Geral

Dieta: Regime do doutor Atkins é mais eficiente
Tecnologia: Scania monta caminhão como se fosse Lego
Design: A meca dos projetos automobilísticos
Beleza: Sem dinheiro, venezuelana quase sai do Miss Universo
Internet: Tim Sanders, do Yahoo!, apresenta a chave do sucesso
Estilo: Cristais da Swarovski em roupas, sapatos e automóveis
Arqueologia: Como morriam os gladiadores
Evolução: DNA do chimpanzé é semelhante ao do homem
Especial: O poder da mente
Segurança: O avanço do narcotráfico no Brasil
Consumo: Perfumes, um bom negócio
Ginástica: Muita água faz mal durante a atividade física
Família: Pais pagam a detetives para espionar os filhos
Esporte: Donald Trump planeja campo de golfe no Brasil

Guia

Turismo: O inverno nos Andes
Bebidas: Livro tira dúvidas sobre a cerveja
Óculos: A lente escura para cada ocasião
Saúde: Suco de fruta sempre faz bem
Livros: Sebos on-line

O que estou lendo
Pergunte ao Guia





Hospedeiro do vírus

Civeta, um pequeno mamífero comido na China, seria culpado pela superpeneumonia
HONG KONG, CHINA - O coronavírus que deu origem à Sars (síndrome respiratória aguda e severa) foi encontrado na civeta, mamífero carnívoro da Ásia que se parece com um gato, afirmaram ontem pesquisadores da Universidade de Hong Kong.

A civeta é vendida nos mercados do Sul da China e servida como prático exótico nos restaurantes da região. Alguns cientistas já haviam evocado uma possível origem animal da doença porque vários cozinheiros que tiveram contato com animais selvagens figuram entre as primeiras vítimas da doença.

Grupos de defesa dos animais, como o Animals Asia Foundation, pedem o fechamento imediato desses mercados por razões sanitárias e humanitárias.

Segundo Gail Cochrane, veterinário da fundação, a concentração de diferentes espécies em pequenos espaços converte esses mercados em um lugar propício para o aparecimento de novas doenças.

¿Esta descoberta tem conseqüências extremamente importantes para o controle do contágio¿, de acordo com o governo.

Já segundo o astrônomo Chandra Wickramasinghe, o vírus causador da Sars pode ter vindo do espaço. O galês é um cientista respeitado, mas nem por isso a idéia está sendo levada a sério.

Usando como argumento a detecção de bactérias a 41 km de altitude, Wickramasinghe tenta reviver hipótese levantada por ele e Hoyle há duas décadas de que surtos misteriosos de doenças são culpa de organismos espaciais.




Gente
Ganhou na Mega Sena e foi trabalhar
Para realizar o sonho de concluir casa em Caxias do Sul, empregada doméstica recebeu da Caixa R$ 28,4 milhões
FELIPE BOFF/ Agência RBS/Caxias do Sul

Até a última quarta-feira, uma empregada doméstica de 24 anos, casada com um metalúrgico, mãe de uma menina de seis, ganhava R$ 340 e tinha um sonho: terminar de construir sua casa num bairro pobre da zona leste de Caxias do Sul, que estava sendo feita por parentes, em mutirão, com dinheiro emprestado da Caixa Econômica Federal.

Se um dia conseguisse um dinheiro extra, planejava ajudar a avó a mudar-se da precária moradia onde vive. Na sexta-feira, às 11h, a mulher voltou à Caixa. Subiu dois lances de escada, entrou na sala acarpetada da superintendência regional do banco, no Centro, sentou-se e, com uma assinatura, abriu uma poupança de R$ 28.414.544,43, sem sacar um tostão. Depois de um dia de curiosidade geral em Caxias, revelou-se a dona do prêmio principal da Mega Sena, o quinto maior já pago no país e o mais alto já recebido no Estado.

Na véspera, mesmo sabendo-se milionária, a doméstica lavou roupa, limpou o chão, deu banho em dois cachorros e deixou a cama da patroa pronta. Não fosse uma segunda patroa liberá-la do serviço, a manhã de sexta também teria sido preenchida com uma faxina. Ela ainda não pediu demissão aos empregadores.

Jovem pretendia jogar só no sábado

A dona dos R$ 28,4 milhões chegou a circular anônima na Lotérica VMC na quinta-feira, onde havia comprado, com R$ 1, o bilhete premiado. Queria saber quando, onde e como retirar o dinheiro, mas se assustou com o burburinho de clientes, funcionários e repórteres e resolveu ficar quieta. Conseguiu apenas ouvir o consultor de loterias da Caixa, Luiz Carlos Catusso, dar uma entrevista dizendo que o dono do bilhete deveria procurar uma agência do banco.

Deu meia-volta, então, e foi trabalhar pontualmente, às 12h10min, no apartamento de uma família de classe média alta.

- Ela chegou à porta, rindo, e disse que tinha ganho na loteria. Não acreditei. Ela repetiu: "É sério, não estou brincando!" Ela estava tremendo, mas muito serena - conta a patroa, de 75 anos.

Depois do anúncio e alguns minutos de conversa, a milionária foi direto para o batente. Só no fim da tarde, ao preparar o café para a aposentada, falou mais sobre o assunto. Disse que o marido estava pensando em comprar um sítio para morarem, mas que ela era contra, pois a filha pequena já está indo ao colégio. Repetiu a promessa de dar uma casa nova à avó. E lamentou sobre a hipótese de ter de se mudar da cidade, pois "não queria deixar a casinha dela".

Segundo a família que conviveu com a doméstica nos últimos três anos, ela foi criada na lavoura, na região da Serra, e começou a trabalhar antes dos 14 anos. Só com o Ensino Fundamental completo, sonhava retomar os estudos. A milionária é descrita como uma "alegre baixinha, de pele morena, meio gordinha, longos cabelos pretos quase sempre presos num rabo-de-cavalo".

A filha da patroa, companheira de apostas eventuais, lembra do diálogo que teve com a doméstica na quarta-feira, antes de ela comprar o bilhete da loteria:

- Ela me disse que ia deixar para jogar na Mega Sena de sábado, porque estaria mais acumulada. E eu disse pra ela: e se sai o prêmio?

Menos de duas horas antes do encerramento das apostas, a empregada, de passagem pela Avenida Júlio de Castilhos, marcou o volante com seis dezenas, baseando-se nas idades dela e de familiares. Alterou dois números, porque eram redondos - previu que seria impossível serem sorteados juntos - e errou a idade do marido, que ainda não fez aniversário este ano.




David Coimbra
24/05/2003


Salsichão com chucrute

Como tem cidade com nome de Leão. Conheço León, na Espanha, uma beleza de lugar. Pouco mais de 300 mil habitantes, do tamanho assim de Pelotas, talvez, mas com 500 bares de primeira categoria espalhados por toda parte. A noite de León é trepidante. Os espanhóis saem no que chamam la marcha: vão a um bar, tomam um único chope no balcão, pagam, seguem para o próximo. Fazem isso durante horas. Lá pelas três, quatro da manhã, entram nas boates. Há três boates em León que ABREM às 6h da manhã, que côsa.

Também conheço Lyon, na França. A capital gastronômica do mundo, é o que dizem os lioneses. Estive lá em 97, cobrindo o Torneio da França, entre Brasil, França, Itália e Inglaterra. O Professor Ruy deliciava-se com a culinária local. O prato típico deles é uma espécie de salsichão com chucrute, coisa boa mesmo. O Professor enfiava um bocado de chucrute entre os dentes, estalava os lábios e fazia hm:

- Hmmmmm... Notável!

O Pedro Ernesto também estava lá, mas pouco ligava para a sofisticação da comida. Uma noite, depois de um dos jogos do Brasil, terminamos o trabalho, eu pela Zero, eles pela Gaúcha, e fomos jantar. Entramos no carro que havíamos alugado, famintos, o Pedro ao volante. Quem disse que achamos restaurante aberto? Rodávamos por toda a cidade, e nada. De repente, vimos um francês passeando pela rua. Perguntamos onde havia um lugar para comer e ele: só o Pizza Pino, ali adiante.

O Pizza Pino é uma rede de pizzarias de lá, bem popular, nenhum requinte. O Professor torceu o nariz de gourmet:

- Pizza Pino...

Mas o Pedro Ernesto ficou radiante. Gritava, enquanto dirigia:

- Pizza Pino! Que maravilha! Pizza Pino! Pizza Piiiiinoooooo!

O Pedro tinha feito um cursinho de francês para enfrentar aquela viagem. Mas, cá para nós, ele no máximo falava bon jour. Um dia, liguei para o quarto dele e tasquei um sotaque francês:

- Messiê Denarrrdãn, sivupléééé?

Hesitação do outro lado da linha. Segundos de silêncio. Eu podia ouvir as reticências que pingavam da boca do Pedro. Até que ele arriscou, a voz vacilante:

- O... ouí?

Bela viagem, aquela. Lembrei dela porque foi quando vi o Guga nascer como tenista internacional. Ele disputava o Roland Garros, o mesmo Roland Garros que começará a disputar segunda-feira. Poucos o conheciam, em 97. Aí ele começou a ganhar, ganhar, ganhar, e me toquei para Paris. Tomei um TGV, o trem-bala francês e, vzzzuuummm, voei para a cidade-luz. Fui cobrir tênis, em vez de Seleção Brasileira.

Então, tive a sorte de testemunhar a primeira conquista brasileira de um torneio do Grand Slam e a primeira grande vitória da carreira do Guga. Entrevistei-o sozinho, no saguão do pequeno hotel onde ele e Larry Passos se hospedavam, o Larry dormindo no chão. Depois daquele Roland Garros, a vida do Guga mudou. Tornou-se ídolo. E nunca mais pôde ser entrevistado sozinho e nunca mais se registrou em hotéis com menos de cinco estrelas.

Embora não seja um conhecedor de tênis, sentia que o Guga ia ganhar o título. Porque ele parecia muito bem, muito à vontade na primavera parisiense. Hoje, Guga é tricampeão de Roland Garros e, ainda que não esteja em boa fase, chega à França como favorito para vencer o torneio. E acredito que, apesar de tudo, o Guga possa mesmo passar por cima de seus problemas e vencer novamente. Acredito que ele de fato se alimente das luzes de Paris. Algumas pessoas são assim: têm relações especiais com certos lugares, certas cidades. Como o Professor com Lyon, onde ele fazia hns ao saborear salsichas com chucrute. Como o Pedro Ernesto com a Pizza Pino, como o Pedro Ernesto gostava da Pizza Pino.

Nicolinha
Estou preocupado com Nicole. Já passou tanto tempo, e sinto que ela ainda não assimilou bem a separação. Sinto que ainda pensa em Tom. Agora mesmo, no Festival de Cannes, Nicole disse que só poria seus pezinhos número 36 na cidade quando a outra, aquela espanhola nariguda, se fosse. Foi o que aconteceu. A outra saiu, levando junto todo o oxigênio ao redor, e Nicole chegou, hipnotizando a todos com seus olhos azul-Grêmio.

Além disso, Nicole vive a dar declarações amarguradas. Falou que continua esperando por seu grande amor. Ou seja: continua esperando por Tom. Isso me entristece. Queria que Nicole se conformasse com a perda. Que entendesse que Tom não a merece. Que ela é muito, muito melhor que ele. Queria que Nicole, enfim, seguisse a vida. Encontrasse um novo amor. Não será difícil para ela, tão linda, tão linda, não há mulher mais linda que Nicolinha.

É o que está acontecendo com o Inter. O Inter está esquecendo o time dos anos 70. Finalmente. Graças aos novos amores da torcida. Os meninos. Cheios de graça, plenos do otimismo próprio da juventude, invencíveis na sua encantadora inexperiência, estuantes de esperança. Nada como um novo amor. Preciso arrumar um jeito de dizer isso para Nicolinha.
david.coimbra@zerohora.com.br




Ricardo Silvestrin
24/05/2003


Subtropicália

Ganhei de aniversário o CD remasterizado do LP que foi o último dos Almôndegas. Olha o que diz a ficha técnica: "As gravações incluídas neste CD foram extraídas de tapes originais analógicos de ¼" (stereo), pertencentes ao acervo da Universal Music, e remasterizadas no processo digital de alta qualidade técnica do sistema Sonic Solutions". Chique, não? O LP é de 1978, da era analógica. O CD de 2002, da era digital.

Esses dias tive um insight de revalorização das maravilhas do mundo analógico. Por exemplo, a porrada. Sim, quando um equipamento qualquer, um eletrodoméstico, uma TV a válvula emperravam, o que se fazia? Guindava-lhe uma porrada. E tinha o ponto certo, de preferência no lado, na parte de cima. Pronto, a naba voltava a funcionar. Pegava no tranco. Hoje, o mundo digital perdeu esse recurso. De nada adianta se botar no computador. Pifou, só abrindo, chamando o cara que entende, trocando componentes. Imagine uma manivela, das cavernas analógicas, ao lado do bichano pra acelerar quando a memória é pouca ou quando está fazendo o download de um arquivo muito pesado.

Pois o grupo Almôndegas é da era analógica. Foi um dos primeiros trabalhos feitos por jovens misturando sonoridades da música tipicamente gaúcha com o rock, o folk, o country e a MPB. Trouxeram temas folclóricos, como Velha Gaita, Teixeirinha do "mipriguntaram se eu sou gaúcho", Lupicínio do "amigo boleia a perna, puxe o banco e vá sentando", além de composições próprias. Sombra e água fresca e rock no quintal, um country gaúcho alegre, jovem, da melhor qualidade. É a Tropicália aqui, no clima subtropical. Uma subtropicália. Isso de misturar o velho e o novo, o kitsch e o bacana, o brega e o culto, a sonoridade internacional com a brasileira e regional como fizeram os tropicalistas. E também, como a Tropicália, letras inteligentes e bem-humoradas.

Durante um longo período, até 1984 por ali, a maioria dos trabalhos feitos por aqui explorava essas possibilidades estéticas subtropicalistas. Bebeto Alves compôs excelentes milongas. A banda Saracura fez uma fusão de gaita com guitarra, de ritmos, de pique de palco, de ironia que só quem viu, viu. E tinha muitos outros. O próprio Nei Lisboa dialogou com isso tudo, do seu jeito divertido, com o "chichichimarrão crioulo liga como o quê/ chimarrão crioulo melhor que muito gererê". Ou com a "Prenda Minha, mui louca". O Vitor Ramil seguiu inclusive definindo a Estética do Frio - trouxe, entre outras, a sua Ramilonga. E mais recentemente, anos 90, rabeira dos 80, o trabalho da Graforréia Xilarmônica criou várias músicas com sonoridades gaúchas camufladas dentro do rock, ou mais escancaradas como em Amigo Punk.

Mas tudo isso foi feito de maneira analógica. Ou seja, misturando de verdade, tocando um ritmo que soa como outro. Buscando um elemento daqui, outro dali. Hoje, na era digital, basta selecionar o groove, recortar e colar, programar o timbre, selecionar o andamento. Hoje, é muito mais fácil ser um tropicalista ou subtropicalista de computador. Mas é sempre bom ter uma manivela para acelerar a cabeça.

ricardo.silvestrin@zerohora.com.br




Paulo Sant'ana
24/05/2003


Cai um véu do mistério

No jornal carioca O Globo de quarta-feira há uma ilustração muito clara dos tentáculos que o tráfico de drogas fizeram baixar sobre o meio social.

O coronel PM Erir Ribeiro da Costa Filho, que até aquele dia comandava o 4º BPM, com jurisdição sobre o Morro da Mangueira e várias outras favelas ao redor, foi demitido do seu posto.

Ao se despedir da tropa, fez um discurso em que denunciou que não estava sendo demitido por incompetência, sim por influência política.

E mostrou um informe que enviou a seus superiores em 14 de janeiro deste ano.

A seguir foi preso.

Eis o que descreveu no documento o coronel demitido: "No dia de hoje compareceu nesta OPM (unidade da PM) o Exmº senhor deputado estadual e Secretário de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro, 'Chiquinho da Mangueira', acompanhado dos senhores presidentes da Associação de Moradores das localidades conhecidas como Buraco Quente, Vila Miséria e Candelária, todas no Complexo da Mangueira, solicitando uma 'trégua' para o tráfico de drogas, tendo em vista que os traficantes estavam 'acuados' e não estariam 'vendendo nada'.

A autoridade em pauta solicitou que se diminuíssem as incursões policiais no citado complexo, pois o senhor secretário estaria sendo pressionado pelo tráfico por ser o mesmo deputado estadual e ter suas bases eleitorais no Complexo da Mangueira, onde obteve cerca de 7 mil votos e que, segundo o pensamento da marginalidade, provavelmente teria indicado este oficial (o coronel agora demitido) para comandar o 4º BPM.

O senhor Chiquinho da Mangueira informou que, caso este oficial e seus comandados continuassem a patrulhar o Complexo da Mangueira, o aludido secretário teria de abandonar os seus projetos no local por temer por sua vida, indagando do signatário o que poderia fazer para amenizar tal situação, obtendo como resposta que o mesmo deveria comunicar aos traficantes, juntamente com os senhores presidentes das associações de moradores (presentes), que tais marginais deveriam abandonar o Complexo da Mangueira, livrando a comunidade de tal constrangimento".

Este documento e este fato exemplificam de modo bastante ilustrativo o modo como o tráfico de drogas se introduziu nas relações políticas e de Estado, influindo diretamente no poder.

E é muito menos pelo terror do que pelas relações de benemerência e de alcance social que os traficantes prestam às comunidades das favelas que passam eles a exercer um poder paralelo, infundindo por um lado a violência à população, por outro a co-administração dos conglomerados em que atuam, tendo à sua mercê inúmeras autoridades.

É preciso salientar que durante a sua gestão no batalhão em tela, foram obtidos pelos comandados do coronel demitido os melhores e mais notáveis índices de eficiência da ação policial sobre a área territorial da sua competência.

Tal fato atesta ainda que o poder econômico dos traficantes tanto pode corromper policiais quanto manejá-los em seus cargos, erigindo-os quando forem dóceis ou destituindo-os quando forem íntegros.

De tal sorte, que por trás desses acontecimentos trágicos que ocorrem no Rio de Janeiro está uma luta férrea que se trava entre o bem e o mal, no seio das autoridades encarregadas da segurança pública.

O que muitas vezes é diagnosticado como ineficiência policial trata-se em realidade de comprometimento político ou eleitoral de poderes oriundos de mandatos de autoridades com o tráfico de entorpecentes.

Repito o que escrevi na coluna de quinta-feira: é por essa teia de inconfessáveis ligações do poder instituído com os malfeitores que pessoas da mais alta respeitabilidade e de notável conhecimento estão a pregar a legalização das drogas.

É uma tão polêmica quanto instigante proposta.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Lya Luft
24/05/2003


Histórias de bruxa boa

Depois de anos e anos de editoras me pedindo (em vão) histórias infantis, comecei a anotar algumas das que tenho contado aqui em casa, enriquecidas pela fantasia maravilhosa de Isabela. Como vêem, a gente faz muita coisa de que antes duvidava. Acontece que realmente todos somos muitos... Vai aqui uma apresentação, só pra se divertirem comigo.

Bela, a quem todos chamavam Bé, tinha uma avó muito engraçada, alta, grandona. Ela era diferente das outras avós, porque era uma bruxa. Bruxa boa, claro, das que fazem feitiço para proteger as pessoas e assustar as bruxas más.

Essa avó chamava-se Lilibeth. Ela escrevia histórias para gente grande, e contava muitas histórias engraçadas de bruxa boa.

Bé morava no andar de cima da mesma casa, com papai e mamãe e duas maninhas gêmeas. Ninguém acreditou muito quando na escolinha ela contou que sua avó Lilibeth era bruxa.

- Onde já se viu - disseram as meninas - a avó da gente ser bruxa?

- Mas a minha é, é sim - respondia a Bé, já ficando zangada.

Os meninos da turma também duvidavam:

- Não existe bruxa de verdade. E sua avó nem é tão feia, nem tem cara assim de bruxa. A gente não tem medo dela. Ela dirige carro, e bruxa voa montada em vassoura!!!!

- Mas eu já falei que ela é bruxa boa! - explicou Bé de novo, quase chorando.

- E ela faz feitiço?

- Faz, claro que faz!

- Duvido! - gritaram as meninas.

- E como é que ela faz feitiço? - indagaram os meninos.

- Ah - respondeu a Bé -, ela prepara um pó mágico e diz palavras mágicas também. Ela diz assim: - Unidunitê, salamê-mingüê, abracadabra, piftpaft, pum de cobra e espinho de ouriço, está feito meu feitiço.

Estavam todos no pátio da escolinha, no recreio, comendo seus lanches e brincando. Como fazia calor, tinham-se sentado debaixo da figueira grande, com as professoras por perto, e estavam conversando.

A professora daquela turminha, escutando o que as crianças falavam, chegou mais perto e sorriu, achando graça. Os meninos e as meninas ficaram quietos, tentando entender.

Então a menina Bé disse:

- Pois eu vou contar pra vocês umas histórias da minha avó Lilibeth, pra verem que realmente existe bruxa boa, e ela é uma dessas.

(Fica o resto por conta da imaginação de cada um.)





Ana Amélia Lemos
24/05/2003


Dívida estudantil
A Caixa Econômica Federal, o Ministério da Educação e a Secretaria do Tesouro estão estudando medida para resolver as pendências com a inadimplência no crédito educativo. Dos 250 mil contratos totalizando R$ 2,1 bilhões, 190 mil, no valor de R$ 1,5 bilhão, estão com o pagamento das mensalidades atrasado. O valor é sempre maior ou igual ao salário do recém formado quando consegue emprego. Para agilizar a decisão, a medida virá da própria Caixa Federal, explica o vice-líder Beto Albuquerque (PSB), que está cuidando do assunto. No dia 2 de junho será examinada a forma do rescalonamento das dívidas.

Posse
A posse do perito gaúcho Geraldo Bertolo como diretor do Instituto Nacional de Criminalística foi concorridíssima. O diretor do DPF, Paulo Lacerda, fez comovido discurso saudando o novo diretor, que trabalhou em casos como Sulbrasileiro, Nacional, Pasta Rosa, PC Farias e outros casos rumorosos.

Ferrovia
Oliveira (PT), e o deputado Paulo Pimenta (PT) foram convidados especiais da cerimônia de lançamento do plano de reativação das ferrovias, no Palácio do Planalto. Pimenta, neste final de semana, percorre a Serra, defendendo a reforma da Previdência. Em Bento Gonçalves discutirá problemas da vitivinicultura.

Desapropriação
Na tribuna da Câmara dos Deputados, Francisco Appio (PP) repudiou a forma como ocorreu a desapropriação em São Gabriel. Na véspera, na Comissão de Agricultura, deputados gaúchos questionaram o ministro Miguel Rossetto sobre a decisão.



Foto(s): Genaro Joner/ZH - 24/08/1999

A primeira CPI
A CPI que investigará as redes de exploração sexual de crianças no Brasil já tem agenda de trabalho, informa a autora da proposta, deputada Maria do Rosário (PT). Em parceria com o legislativo baiano, começa em Salvador o levantamento das denúncias. Piauí e Ceará serão os próximos. No RS, a Região Metropolitana e a Fronteira Oeste serão as prioridades. Maria do Rosário poderá presidir ou ser a relatora dessa CPI.

Carnes
O ministro Luis Fernando Furlan prometeu ao deputado Francisco Turra (PP) que vai conseguir a retomada da exportação de carne suína das granjas gaúchas para a Rússia. O ex-ministro viu má-fé do Ministério da Agricultura em anunciar o mal de aujeszky, na fronteira do RS com Santa Catarina. A doença foi combatida no início deste ano, conforme as regras da OIE, informa Turra.

Agrária
A renegociação das dívidas dos pequenos agricultores e dos assentados, através da MP 114, foi comemorada pelo deputado Adão Pretto (PT), que ajudou a aprovar a matéria.

Anfitrião
O secretário da Cultura Roque Jacoby revelou-se perfeito anfitrião no churrasco, em Brasília. Foi o primeiro a chegar e o último a sair do CTG Jayme Caetano Braun. Seis deputados compareceram: Darcísio Perondi, Eliseu Padilha e José Ivo Sartori, do PMDB; Pompeo de Mattos (PDT), Henrique Fontana e Tarcísio Zimmermann, do PT.
ana.amelia@zerohora.com.br


Reportagem Especial
Hospital ataca o abandono



Estabelecimentos públicos estão encontrando formas de aumentar o vínculo entre pacientes e familiares (foto Júlio Cordeiro/ZH)


Sexta-feira, Maio 23, 2003




Eu li num livro
Que amar nem sempre é sinônimo de dor
Que a gente deve acreditar no destino seja o que for
E que o sentido da vida é nada mais que o amor

Eu li num livro
Estava escrito nas entrelinhas
Que um erro pode ser consertado
E que uma pessoa não deve ser julgada apenas pelo seu passado

Eu li num livro
Que a esperança é a ultima que morre
Que o covarde é o primeiro que corre
E que um sonho as vezes é só um sonho
Estava escrito em cada linha
Que as vezes a culpa não é sua nem minha
Que uma pessoa pode até viver sozinha
Mas sempre vai precisar de alguém em seu coração

Eu li num livro
As palavras que eu gostaria de ter escrito
Porque o que é belo nem sempre é bonito
E um sussurro dito aos ouvidos
poderá soar como um grito


autor desconhecido




Fim de semana outra vez, sábado e domingo chegando e pelo que a prática está mostrando depois desta chuvarada de agora a noite, será um fim de semana de muito frio mesmo por aqui. Nada que um vinhozinho não resolva. Pinhão cozido ou na chapa e canjica quentinha também serão bem vindos.

E assim, entre uma e outra coisa, vou escrevendo, lendo, elaborando algumas figuras e tentando descobrir uma maneira de fazer com que o fim de semana, não seja apenas mais um fim de semana. Fiquem com os anjinhos e recebam deste que ama a paz, que tem tudo o que um caracteristico capricorniano tem, o abraço afetivo.

A t é




Cálculos de mestre
Estudante do ensino médio é convidada a fazer curso de pós-graduação em matemática


Neila Fontenele



Que tal fazer um curso de pós-graduação antes do vestibular? Esse desafio foi aceito pela estudante potiguar Larissa Cavalcante Queiroz Lima, 17 anos, que cursa o 3º ano do ensino médio em uma escola de Fortaleza (CE) e está matriculada desde março como aluna regular de mestrado de matemática da Universidade Federal do Ceará (UFC). O convite para ocupar uma cadeira no curso veio após a garota ganhar medalha de prata em uma olimpíada de matemática, organizada no ano passado pela International Matematical Union, em Glasgow, na Escócia. Participo dessas competições desde que cursava a sétima série do ensino fundamental, conta ela.

Larissa fez primeiro um curso de verão na UFC destinado a alunos graduados que pretendiam cursar o mestrado da área. Tirou 10 em todas as matérias e foi convidada pelos coordenadores do curso a fazer o mestrado. Pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), esse tipo de situação pode ocorrer. No caso de Larissa, ela terá que prestar vestibular para regularizar sua situação e comprovar os conhecimentos nas disciplinas oferecidas pelo curso de graduação. O chefe do Departamento de Matemática da UFC, professor Fábio Bezerra Montenegro, lembra que já ocorreram casos semelhantes no Rio de Janeiro. Um garoto chegou a receber, no mesmo dia, os diplomas de graduação, mestrado e doutorado no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), diz ele.

Boa aluna desde pequena, Larissa sempre gostou de matemática, história e geografia. As aulas de matemática, entretanto, ganharam um sabor especial depois de a estudante se matricular em turmas especiais que preparam para as olimpíadas sobre a matéria. Ela conta que as aulas eram dadas de forma diferente, instigando o aluno a desenvolver um raciocínio lógico. No colégio, o conteúdo das aulas é dado focando apenas as fórmulas. Não é apresentado como as coisas funcionam. Isso é o mesmo que aprender a ler e não entender o conteúdo, define ela. Engajada como voluntária em projetos de educação, ela acha que todo mundo tem capacidade de aprender: A escola deve ajudar a descobrir esses potenciais, ressalta.

Larissa ainda não sabe se fará vestibular para matemática ou economia, mas já se prepara para outro desafio: trata-se da Global Young Liders Conference, uma das mais importantes olimpíadas mundiais de matemática, a ser realizada em agosto, nos Estados Unidos.




Bem meu povo, está ai a capa da Revista Isto É deste fim de semana. A Revista Veja ainda não divulgou a sua, possivelmente só amanhã. As principais manchetes e matérias abordadas estão abaixo.

Os centros espíritas que oferecem o tratamento estão lotados e os médicos querem que a modalidade seja disciplina do ensino tradicional

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MUNDO

PASSADO NO PRESENTE
Começam julgamentos dos segregacionistas na África do Sul

O ENIGMA DA AL-QAEDA
Rede terrorista estaria se reorganizando para novos ataques

O CASTIGO DA AMÉRICA
Psicólogo diz que arrogância dos EUA será punida pelo terrorismo

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

ALERTA MÁXIMO
Brasil divulga lista de animais ameaçados de extinção

ECONOMIA E NEGÓCIOS

CALOTE NO AR
Pilotos da Varig não aceitam a fusão que anula seus direitos

LEILÃO VICIADO
Desvendado conluio entre Enron
e AES que compraram Eletropaulo

MOTIVO DE CHACOTA
Dólar fraco vira piada de especulador, mas pode ajudar EUA

COMPORTAMENTO

TEMPERO ITALIANO
RS terá primeira escola internacional de gastronomia

RESTRITO A HOMENS
São Paulo ganha megaclínica de estética masculina

BRASIL

GOVERNO X GOVERNO
Discussão sobre juros cria polêmica entre aliados de Lula e de seu vice

SINDICATO DO CRIME
Força-tarefa investiga quadrilha que domina coletivos em SP

FATURA A PRAZO
PMDB ganha cargos para entrar na base de apoio de Lula

AUTO-IMAGEM
Diretor geral da PF diz que policial corrupto é o pior tipo de bandido

MÚSICA

SUCESSO NOS EUA
Alexandre Pires consagra-se no estilo romântico e é eleito o artista latino do ano pela revista Billboard

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Calcule as chances de seu pimpolho, prestes a nascer, puxar pelo pai ou pela mãe

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Chips e outras traquitanas estão a serviço da segurança privada

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MEDICINA

DURO GOLPE
OMS vai restringir cigarro. Em NY, não se pode fumar em bares. No País, surge campanha anti-tabaco




Minha amiga Ticcia lá do Não Discuto, não contou nada da sua viagem para SATOLEP e nem remarcamos o almoço. E assim outra semana se foi. Quem sabe na próxima!!!

A MULHER
de umas certas metáforas de Borges


Por uma porta espreita uma mulher.

Está ali há muito tempo; os homens e as mulheres a olham; uma vez eu a vi.

Os que a vêem têm de se aproximar; percebe-se que há muito a buscavam; a mão se apressa em roçar a carne que a espera sem remorso; a boca macia e poderosa ri com precisão no rosto sério.

A mulher outra coisa quer.

É mais que um gesto feito de olhares; os homens a pensaram e são pensados por ela e ardem para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterna, a mulher que ontem à noite deixou cheio de assombro aquele homem na rua, e a mulher que nesta noite sorriu para outros homens. Tem sede, quer estragar, abater urgentes quimeras.

Do outro lado de umas portas, entre cheiros e espelhos, infatigavelmente sonha a mulher o seu singelo sonho de salamandra belíssima, e a mão se anima quando a percebe porque a carne se anima, a carne que em cada contato pressente a solidão dos inumeráveis homens e de outras mulheres que a modelaram e se deformaram.

Às vezes, dá-me pena; às vezes, tenho medo. Tanta fé, tanta certeza, tanta impassível ou rígida soberba, e os anos passam, iguais.

Alfredo Braga




Há três mil anos, Deuses, Heróis, Titãs, Ninfas e outros personagens criados pela imaginação fértil dos gregos continuam fascinando o homem moderno. Nada melhor que uma sexta-feira, que ainda não está com temperatura tão baixa, assim como previam, para relembrá-los.

Para os gregos, a natureza tinha vida e oferecia sinais com os quais seria possível conhecer a vontade dos Deuses, lembre alguns abaixo. Era um lugar onde habitavam Sátiros, seres com corpo de homem, dois chifres e patas de bode; Ninfas, donzelas que enchiam os campos de graça e juventude; Centauros, metade homem, metade cavalo; Górgonas, monstros com cabelos de serpentes; Sereias, mulheres-peixes que, com vozes melodiosas, atraíam os marinheiros para o fundo do mar; e Quimeras, misto de cabra e leão que soltavam fogo pelas ventas.

As sacerdotisas, pitonisas, entravam em transe e previam o futuro transmitindo a palavra dos Deuses locais denominados Oráculos.

Deuses Gregos
Passavam a maior parte do tempo na montanha grega, Olimpo, e se reuniam para beber o néctar e comer ambrosia. Conhecendo alguns Deuses:

Zeus - Senhor do Céu, do Trovão e do Relâmpago.
Hades - Deus dos Mortos, do Mundo Subterrâneo e irmão de Zeus.
Poseidon - Deus dos Mares e também irmão de Zeus.
Hera - Deusa dos Casamentos e da Maternidade, esposa e irmã de Zeus.
Apolo - Deus da Luz e das Artes, filho de Zeus e de Leto.
Artemis - Deusa da Caça, irmã gêmea de Apolo.
Ares - Deus da Guerra, filho de Zeus e de Hera.
Afrodite - Deusa do Amor e da Beleza, brotou da espuma do mar.




Se você não viu ainda, quem sabe um bom programa para o fim de semana que vem ai, seja curtir Matrix com todos os seus desdobramentos e buscar os primeiros filmes da série. De todo o jeito PortoAlegre, voltou a ter inverno e a quem anuncie inclusive, neve na serra. Que está muito diferente de ontem, ah com certeza, está. Talvez não seja para o uso de Sobre-tudos e de luvas, mas é bom se precaver e neste momento voltou a escurecer. Tenhamos todos uma ótima sexta-feira.

Prova de fogo
Sem o impacto do primeiro filme mas com efeitos especiais espetaculares, continuação de Matrix estréia hoje com a missão de repetir sucesso do antecessor


Erika Roesler

O ator Harold Perrinau (à frente de Keanu Reeves) é o novo tripulante da nave, juntando-se a Carrie-Anne e Fishburne

Os poderes de Thomas Neo Anderson (Keanu Reeves) estão maiores do que nunca. Ele ressurge em Matrix Reloaded continuação do sucesso Matrix , que estréia hoje, como um Super-Homem que voa e desenvolve dons premonitórios. O herói vive o conflito de que sua missão não deve anular seu livre-arbítrio. E precisará fazer uma difícil escolha para salvar seu amor, Trinity (Carrie-Anne Moss).

No primeiro filme, o hacker Neo descobre que o mundo em que vive é uma simulação de computador a Matrix. As máquinas dominam a Terra e mantêm os humanos vivos em um casulo. Chamado a se libertar da Matrix, Neo opta por tomar uma pílula vermelha e é considerado um messias, o predestinado para libertar a humanidade.

Em Matrix Reloaded, tudo é superlativo. Os inseparáveis irmãos Andy e Larry Wachowski (responsáveis pela direção e roteiro) turbinaram as lutas de kung fu, encheram as telas de tomadas congeladas e mostram, em 360 graus, ações que desafiam as leis da física.

Em uma das primeiras cenas do filme, Trinity salta de costas do topo de um edifício e troca tiros com um agente. Dá para ver a trajetória da bala. Matrix Reloaded tem show de efeitos espetaculares, mas não causa o impacto do primeiro filme. Agora, o público conhecerá Zion, cidade subterrânea e única povoada por seres humanos livres da Matrix. Isso porque Morpheus (Laurence Fishburne), comandante da nave Nabucodonosor, recebeu uma mensagem avisando que robôs descobriram o caminho da cidade e escavam um túnel para atacá-la.

Morpheus acredita que a salvação está em Neo. Mas nem todos compactuam com esta crença e a pergunta que fica no ar é: o homem que transcendeu a realidade de Matrix é o salvador ou seria mais uma artimanha virtual?

O tom sombrio, com cenários noturnos e um quê de pessimismo, continua na tela. Neo tem inimigos poderosos, como os gêmeos albinos (Neil e Adrian Rayment) que têm o poder de se desmaterializar. Mas seu algoz número um continua sendo o agente Smith (Hugo Weaving). Ele ressurge mais perigoso, graças ao poder de se multiplicar. Em seqüência impressionante, Neo luta contra 100 agentes Smith. A luta demorou 27 dias para ser filmada.

Matrix foi concebido como uma trilogia. Mesmo não sendo tão bom quanto o filme de 1999, a segunda parte de Matrix poderá até superar os 460 milhões de dólares faturados no mundo com o primeiro. Reloaded arrecadou 93,2 milhões de dólares só no fim de semana de estréia nos Estados Unidos. Foi filmado junto com o último episódio da saga, Matrix Revolutions. Por isso, não se espante se ficar com a sensação de que o filme foi interrompido no meio de uma cena. Espere acabar os créditos e confira o trailer de Revolutions, que estréia em novembro.




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Radicais lançam Lula Reloaded!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E aí um amigo meu foi pra banca e pediu uma revista de artes gráficas por computador. E o jornaleiro apontou a 'Playboy'! Que de tanto usar computador já tá virando obra de ficção! Ficção pra fricção! Já virou tipo 'Matrix Reloaded'. Sheila Mello reloaded, Sabrina reloaded e peladas reloaded! E um leitor me advertiu que o presidente da Argentina não é vesgo: o olho direito é que não se dá com o olho esquerdo!

BUEMBA 2! Radicais divulgam fita, vídeo e folheto do discurso do Lula em 87. E aí o humorista Ciro Botelho me perguntou se era lançamento multimídia do Só pra Contrariar. E DVD, não tem DVD? Tá vendo como esses radicais são ultrapassados? E eu só vou aderir aos radicais se eles lançarem uma fita com o Zé Dirceu transando com umas guerrilheiras cubanas. Rarará!
E eu quero ver o DVD do Lula barbudão xingando o Sarney. Só que é em 1987. Então deveriam passar em cinemateca, de tão antigo. Deviam ter feito uma versão reloaded; Lula reloaded! E há 16 anos TODO MUNDO xingava o Sarney.

E aí me perguntaram o que eu estava fazendo em 87. Um 69! Rarará! E agora tá na onda falar: o Lula mudou, o Lula mudou. O Lula não mudou: continua barbudo, com língua presa e comendo rabada com polenta. Quem mudou foi a Marisa: que fez plástica e botou botox! E ficou mais esticada que tábua de polenta!

E diz que a Heloisa Helena e a Luciana Genro vão lançar uma grife: Helu! É a Daslu das radicais. Só com roupa fora de moda. Só pra CONTRAriar. E a Heloisa Helena fez uma coisa a favor: tá devendo pro Fisco. Dever pro fisco todo mundo é a favor!

BUEMBA 3! Jumentos enterrados vivos no Ceará. Barbaridade. Estou divulgando isso pra evitar que muita gente vá pra lá e acabe enterrado antes do esperado. E o Ceará não pode fazer essa barbaridade porque, como já cantava o Luís Gonzaga, 'o jumento é nosso irmão'. E já foi amante de muita gente boa lá no Ceará. Tô achando que é queima de arquivo. É mole? É mole, mas sobe!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que o Estatuto do Torcedor diz que 'os ingressos tem de ser numerados apenas nos locais já existentes para assistência em pé'. Tucanaram a GERAL! Socorro! Tá mais fácil acabar com a Sars que com o tucanês! Atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Pungente': flatulência em elevador lotado! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Email simao@uol.com.br




Sexta-feira, 23 de maio de 2003
Joelmir Beting


Zelai por nós


Projeto de lei do Executivo, em gestação no Palácio do Planalto, vai redefinir o conceito de autonomia das agências reguladoras dos serviços públicos sob concessão. A exposição de motivos da nova canetada presidencial já está rascunhada: a) as agências são indispensáveis; b) as agências são aperfeiçoáveis.

■ Ponto de partida: instaladas desde 1997, nas águas mornas e turvas das privatizações desajeitadas, as agências reguladoras já encerraram, com maior ou menor grau de resiliência, o ciclo da transição do modelo estatal monopolista para o mercado privado voluntarista. Algumas, com alvará de autoridades independentes. Outras, com crachá de autarquias especiais.

■ Sem regime único, temos exatamente 30 agências reguladoras em operação no Brasil. Incluídas as agências municipais plugadas no saneamento ambiental.

Representadas, politicamente, pela Associação Brasileira de Agências de Regulação (Abar), o segmento está de garras afiadas para o 3.º Congresso Brasileiro de Regulação de Serviços Públicos, a partir deste domingo, em Gramado, RS.

■ O engenheiro Zevi Kann, presidente da Abar e comissário-geral da agência reguladora de São Paulo para o setor de energia, diz que o encontro de Gramado ganha relevância técnica e política porque ocorre em plena vigília do questionamento público do formato, do conteúdo e da operação das agências no País. Questionamento usinado pelo governo Lula e não pela sociedade brasileira.

■ Em meio mundo, o advento dessas agências foi ovacionado como conquista democrática e não como "terceirização do Estado".

■ Na medida que delega rotundos mercados de serviços públicos a concessionários privados, o Estado moderno abre mão da propriedade, mas não da autoridade sobre esses mesmos mercados.

■ Como o governo concedente não desfruta dos dons divinos da onisciência, da onipotência e da ubiqüidade, o negócio é constituir e delegar agências reguladoras para o monitoramento e a fiscalização dos serviços públicos de concessionárias, permissionárias e autorizatárias.

■ Montado no tripé Executivo, Legislativo, Judiciário, o Estado coloca-se a serviço da cidadania, selecionando prioridades, estabelecendo diretrizes e formulando estatutos - para execução ao pé da letra das respectivas agências reguladoras e fiscalizadoras. Nada a ver com a tal de "terceirização do Estado", no discurso destemperado do PT, buzinado nos ouvidos do presidente Lula.

■ Pelo sim, pelo não, o encontro de Gramado terá exposição e debate de modelos regulatórios made in Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França e Espanha.

SECOS & MOLHADOS

Mancada - Tão zeloso e raivoso em matéria de controle remoto dos serviços públicos privatizados, o governo Lula acabou pisando no tomate. Em nome do superávit primário forçado de 4,25% do PIB, optou, entre outras tesouradas, por um contingenciamento de até 80% dos orçamentos anuais das agências reguladoras federais.

Apagão - Esse apagão operacional das agências sem opção ocorre em plena fervura da transição regulatória. Processo dramatizado pelas cólicas dos mercados da energia e da telefonia e pelos arroubos do setor do petróleo e do gás. Ao ente regulador, o corte linear da verba equivale a poupar munição no auge da batalha.

No desvio - Efeito líquido: essa transição regulatória trapalhona engaveta projetos, congela contratos, protela negócios, amedronta investidores e empurra para o acostamento da estagnação econômica algo parecido com um dos maiores canteiros de obras do mundo.




David Coimbra
23/05/2003


O plastiquinho da ponta do cadarço

Li a matéria sobre os garis que ninguém vê. A Deise Nunes de uniforme laranja, varrendo a rua bem varridinha, e a turma nem bola. Certo. Mas e o cantor de churrascaria? Eis um solitário. Churrascaria lotada, 250 pessoas se lambuzando com salada de maionese, trinchando salsichões. O cantor de churrascaria aciona seu sintetizador. Dedilha um tchéin na guitarra. Ataca de Djavan:

- Fez a Via Láctea, fez os dinossaaauros...

Isso em poderosas caixas de som, a maior estridência. As pessoas no entorno ouvem o cantor de churrascaria, a quadra inteira ouve. Ninguém o vê. Pior: ninguém o escuta. Mal sabem que música ele está cantando. Só que um cantor de churrascaria obviamente tem pretensões artísticas. Imagino-o em casa, deitado de bruços na cama, compondo uma canção com a sua Bic. Ele colocou todo o seu coração naquela música, todas as dores que sofreu por causa de um amor perdido, toda a alegria que sentiu ao encontrar um novo amor, tudo o que vai na alma do cantor de churrascaria está posto ali, na letra singela da sua composição. Mas ele poderá enfim executá-la? Poderá tocá-la na maldita churrascaria? Não! O dono da churrascaria, os freqüentadores, os garçons, eles rejeitam experiências. Aceitam apenas Robertos, Erasmos, Chicos e Caetanos. A música do seu próprio cantor, ah, essa não, essa de jeito nenhum.

Humpf.

E o cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço, então? Já pensou no cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço? Não sei como se chama aquilo. É um canudinho de menos de centímetro, que aperta as pontas dos cadarços. Alguma vez você tentou enfiar os cadarços no sapato sem aquele troço? Impossível. É preciso lamber a ponta do cadarço para afiná-la, um nojo. E às vezes nem funciona. O plastiquinho da ponta do cadarço é indispensável. Mas ninguém jamais pensa no cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço! Pois existe alguém que faz isso, quero informá-lo, prezado e indiferente leitor. Alguém que tem seus medos, suas dores, seus amores, seus sonhos, suas alegrias. E entre elas não está a do reconhecimento, não mesmo - ninguém nunca cogitou agradecer ao cara que faz o plastiquinho da ponta do cadarço pelo seu serviço inestimável.

Humpf, humpf.

Poderia encher a página com uma ode aos profissionais esquecidos. O trocador de lâmpadas de poste, o nosso amiguinho taxidermista... Enfim, não é só o gari que sofre. Não, não, não!
david.coimbra@zerohora.com.br




Paulo Sant'ana
23/05/2003


Abuso de liberdade

Uma cena inusitada: o ex-comandante-geral da Brigada Militar, coronel Gérson Pereira, com prisão preventiva decretada pela Justiça Militar, em vez de apresentar-se no pretório, foi asilar-se ontem à tarde na Comissão de Serviços Públicos da Assembléia Legislativa.

Como a comissão é presidida pelo deputado Raul Pont (PT) e o coronel Gérson foi o comandante-geral no governo Olívio Dutra, o incidente processual foi nitidamente politizado.

Na Assembléia Legislativa, para um certo espanto, o coronel dava entrevistas à imprensa. Afinal, como ele estava com sua prisão preventiva decretada pela Justiça, dar entrevistas em local público designava aquilo que se poderia chamar de abuso da liberdade.

Nas entrevistas que concedia, o ex-comandante-geral se perguntava se era um criminoso e se haviam voltado os tempos de ditadura. A resposta cabal era a seguinte: não é um criminoso nem voltaram os tempos de ditadura.

O coronel era apenas um réu revel no processo que responde por prevaricação. E estava sendo apenas alvo de um recurso judicial muito freqüente: quando réus ou testemunhas não comparecem às intimações de Justiça ou as ignoram pela convocação por edital, caso específico do coronel Gérson, decreta-se a prisão por revelia, com o fim único de trazê-lo ao processo.

É uma prisão preventiva amena, completamente desligada do mérito da ação, apenas o último recurso jurisdicional para obter o comparecimento do réu à audiência, o que sob certo aspecto até beneficia o revel, dado que sua presença em juízo compõe fundamentalmente o exercício do amplo e irrestrito direito de defesa.

Logo, não tinham voltado os tempos da ditadura, a democracia é que estava sendo exaltada pelo exercício livre e objetivo da judicatura.

Custodiado por deputados do PT, o coronel foi até a Justiça Militar, onde a caravana solicitou a suspensão da prisão preventiva, obviamente sob a alegação de que o coronel estava à disposição da Justiça para ser interrogado, não havendo necessidade de prendê-lo.

Assim não entendeu o juízo competente e a prisão foi mantida. Acabou cessando o constrangimento do atual comandante-geral da PM, única autoridade competente para prender o coronel Gérson, que por delicadeza e respeito com o Poder Legislativo já não o fizera à tarde na Assembléia. Agora guarnecido por seu sucessor, o coronel Gérson foi recolhido preso a uma unidade da BM.

O episódio foi muito ilustrativo do bom senso que tiveram todos os envolvidos, entre eles os deputados que não deixaram de dar abrigo em uma das suas comissões ao ex-comandante da PM que tinha correligionários no órgão legislativo, que tentaram junto à Justiça Militar a revogação da sua prisão, mas sucumbiram obsequiosamente à decisão judicial de manter o decreto restritivo da liberdade, entregando-o preso ao atual comandante brigadiano.

Agora o coronel será imediatamente ouvido pela Justiça e em seguida libertado. E o incidente revelou afinal um desdobramento feliz, tanto no fiel cumprimento da lei quanto na moderação por todos que o manejaram, apesar da nevrálgica atmosfera de que estava revestido.

Venceu a lei, que permaneceu admiravelmente intocada. E, quando a lei vence, não há vencidos.

Grande e desagradável surpresa foi o Independiente de Medellín. O Grêmio, que antes do jogo estava entregue a sua capacitação, agora fica entregue ao seu destino. Os colombianos encantaram a todos que gostam de futebol.
psantana.colunistas@zerohora.com.br


Libertadores 2003
Fica tudo para Medellín



Grêmio e Independiente empataram em 2 a 2 e decidem na Colômbia a vaga às semifinais da Libertadores (foto Fernando Gomes/ZH)


Quinta-feira, Maio 22, 2003




Para todos aqueles que esperaram e não tiveram como se inscrever no primeiro semestre deste ano no FIES, aí está o calendário para o segundo semestre. Sempre vale se inscrever, mesmo que já esteja no quarto ou quinto semestre do curso. Só o fato de dispender no máximo 30% da mensalidade de hoje já um sacrifico a menos para, todos alunos, pais, avós.

FIES 2003
Confira o calendário do financiamento estudantil

O MEC (Ministério da Educação) já definiu o cronograma do Fies (Programa de Financiamento Estudantil), que ajuda os alunos de instituições privadas a pagar as mensalidades de seus cursos. O MEC também anunciou alterações nas regras de concessão do financiamento.

As instituições deverão aderir ao programa entre os dias 30 de junho e 11 de julho. Os estudantes podem fazer as inscrições de 21 de julho a 22 de agosto no site do Fies. De acordo com o ministério, serão concedidos 70 mil novos financiamentos a partir do segundo semestre deste ano.

Cerca de 40 mil estudantes foram beneficiados com o Fies no segundo semestre de 2002. Clique aqui para ver o resultado.

No segundo semestre de 2002, o programa teve 140 mil inscritos de 1.370 instituições de ensino superior do país. A concorrência foi de 3,70 candidatos por vaga.

Segundo o MEC, o programa beneficiou cerca de 200 mil estudantes desde 1999. A expectativa é de que o MEC ofereça mais 40 mil vagas no primeiro semestre de 2003.

Como funciona o programa

O Fies foi criado para substituir o Creduc (Crédito Educativo), que no seu último ano financiou os estudos de 29,30 mil alunos universitários.

O aluno beneficiado pelo programa é escolhido com base em critérios sócio-econômicos e pode ter sua mensalidade custeada pelo governo em até 70% de seu valor.

O valor financiado -acrescido de juros- deverá ser restituído pelo estudante somente após a conclusão de sua graduação, em prazo que varia de acordo com a duração do curso. No caso de um curso de quatro anos, o estudante terá até seis anos para saldar sua dívida -sempre a partir da obtenção do diploma.

O estudante que consegue obter o financiamento do seu curso universitário pelo programa do Fies tem que cumprir algumas obrigações. Em primeiro lugar, deve estar regularmente matriculado no curso, não podendo afastar-se da faculdade por um período superior a um ano. O Fies exige, também, que o estudante obtenha, após ingressar no programa, um bom desempenho acadêmico com, no mínimo, 75% de aprovação nas disciplinas.

O universitário interessado tem que, em primeiro lugar, se informar se sua universidade aderiu ao Fies. Clique aqui para saber se a instituição de ensino de seu interesse é credenciada pelo programa.

Caso a universidade esteja inscrita, o próximo passo é requerer o financiamento, inscrevendo-se pelo site do MEC. Veja outras dicas no menu ao lado.

As informações foram fornecidas pelo MEC, mas pode haver alterações posteriores. Datas e horários devem ser sempre confirmados no site www.mec.gov.br.




Juventude
Samuel Ullman (1840-1924)


"A juventude não é uma época da vida, e um estado do coração;

Não é uma questão de rostos rosados, lábios vermelhos e flexibilidade nas mãos e pernas;

É uma questão de força ardente, de rica criatividade e ardente paixão.

A juventude é o frescor na fonte profunda da vida;

A juventude é a coragem que suplanta a covardia;

É o espírito de desafio que afasta a tendência à comodidade.

Há casos em que existe mais juventude num homem de sessenta anos do que num jovem de vinte.

O homem não envelhece apenas pela passagem de anos.

Envelhece no momento em que perde os ideais."


economiario.bmp

Nao sei nem se funciona, mas de toda a sorte só queria repartir com voces. Antigamente haviam cinco CAIXAS ECONOMICAS. Hoje remanesce esta e a de São Paulo, chamada NOSSA CAIXA. De todo o jeito parabéns aos economiários que ainda remanescem, proporcionando os lucros relevantes divulgado todos os anos e que vão administando as suas famílias com os recursos cada vez menos elásticos.




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Genérico do Viagra é o milho!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Duas notícias abalaram o planeta. 1) ´Big Brother´ inglês está oferecendo US$ 80 mil pra quem fizer sexo no programa. Por US$ 80 mil eu topo até suruba com a Erundina e o Palófi! E pra inglês fazer sexo tem que oferecer US$ 80 mil. Pra brasileiro fazer sexo é só dar um edredom que eles se enfiam embaixo e trepam durante três meses. De graça! 2) Cientistas querem incluir os chimpanzés na espécie homo. Diz que isso é lobby dos falcões da Casa Branca pra incluir o Bush na categoria!

E diz que a ´Veja´ ofereceu pra Heloísa Helena sair na capa, mas ela recusou. Só aceita a CONTRAcapa. E o Babá vai ser sósia do Pedro de Lara. E um leitor amigo meu mandou esta: ´Sabe o que dá um cruzamento da Heloísa Helena, doutora Havanir e Maria da Conceição Tavares? MINHA SOGRA!´. Rarará!

E o Lula deu dez minutos para que cada ministro relatasse as atividades de sua pasta até agora. E o que eles fizeram com os nove minutos restantes? Rarará! E por causa da pneumonia, a moda agora é usar máscara na cara: é a GRIFE asiática. E diz que a mutação maranhense da SARS é o SARSney! É mole, mas sobe!

E Buemba 2! Agora só não goza quem não quer! Saiu o genérico do Viagra: o Pramil! Um comprimido dá pra mil! E é mais barato. Então é pra quem já tá duro! Rarará! O slogan devia ser: ´Tá duro? Tome Pramil´. Sendo que o verdadeiro genérico do Viagra é o milho: você coloca o milho no umbigo que o pinto sobe pra comer. Rarará. E em Osasco, na frente da fábrica da Pfizer, tem um balão escrito: ´Viagra, seis anos´. Errado. Deviam ter escrito: ´Viagra seis anos! Levantamos o Brasil´! Rarará!

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que em Goiânia está tendo um concurso para ´auxiliar de serviços póstumos´. Tucanaram o coveiro! Pior, uma amiga recebeu um cartão de visitas: ´Analista autônomo de necessidades e soluções financeiras´. Tucanaram o agiota! Socorro. Chama o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês. Que é pior que praga de sogra: a véia morre, e a praga continua

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. ´Psicopata´: veterinário especializado em doenças mentais. Então é o psicanalista da Michele, a cachorrinha do Lula. Que é maravilhosa porque eu já tive um cachorro dessa raça e eu adoro e não admito que falem mal da Michele. Como já tentaram muitas vezes! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! O já famoso Estoura Brasil! UFA!

Email simao@uol.com.br




Pelo menos é gaucho o acertador da Mega, deste meio de semana. Com certeza não fui eu, mas sendo conterraneo o dinherinho já é bem possível, fique por aqui. Como hoje a noite terá futebol, esperamos que o meu time não faça feio e ganhe fácil para que depois no segundo jogo possa até perder por um escore assim rasoável. Que tenhamos todos uma ótima quinta-feira e daqui a pouquinho estarei no WISE UP, revendo meus colegas e a galera toda.

CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 22 DE MAIO DE 2003
MEGA-SENA

Um apostador do Rio Grande do Sul foi o único acertador do concurso número 464, sorteado ontem em Nova Friburgo (RJ), informou o site da Caixa Econômica Federal. Receberá R$ 28,414 milhões. Os números sorteados foram 06, 24, 33, 38, 45 e 50.




Paulo Sant'ana
22/05/2003


O direito à dúvida

Atenta a razão punir-se com qualquer pena os consumidores de drogas. Isso está fora de cogitação. Embora sejam eles os grandes propulsores do fabrico, distribuição e comércio das drogas.

Nesta questão das drogas, é imprescindível examinar-se a natureza humana. Sempre haverá multidões bebendo cerveja e champanha, fumando cigarros, cachimbos ou charutos, tomando café, puxando maconha ou cheirando cocaína.

Sempre haverá.

Se sempre haverá drogados, impossível o seu desaparecimento. Como, então, se torna impossível o desaparecimento das drogas ilícitas.

Se todo o poderio econômico e militar dos Estados Unidos, apesar dos seus esforços e de imensas verbas financeiras que são destinadas a combater o cultivo das drogas e os traficantes, não conseguiu até hoje qualquer êxito, desnecessário será nutrir-se qualquer esperança de que o tráfico de drogas venha a diminuir ou desaparecer no Brasil.

Longe de mim pregar a liberação das drogas, não tenho saúde física nem mental para suportar as cargas de críticas que se derrubariam sobre mim. Nem tenho suporte de conhecimento para sustentar tal tese.

Mas, se o álcool e o cigarro são igualmente produtos químicos que prejudicam vitalmente a saúde, sob certo aspecto não se compreende que os fabricantes de bebidas, seus distribuidores, seus comerciantes estejam totalmente imunes a qualquer punição, enquanto o mesmo não acontece com os que atuam com a maconha e a cocaína.

E espanta também que os usuários de cigarro e álcool sejam tão bem aceitos e compreendidos no meio social, pelo menos moralmente, enquanto os consumidores de maconha e cocaína são punidos com o ultraje e escárnio da sociedade, olhados de soslaio pelos circunstantes, carregando o estigma de seus vícios.

E são todos vícios iguais. E inconvenientes.

E as drogas ilícitas acabaram por tornar ainda mais ilícitas as suas relações com a sociedade. Tanto pelos crimes de violência que acarretam quanto pelos crimes financeiros.

De tal sorte que a segurança pública carioca, já com disseminação pelas dos outros Estados, está seriamente ameaçada, até mesmo com implicações institucionais, pelo narcoterrorismo.

Ou seja, as drogas ilícitas avançam como um poder paralelo, corroendo o tecido social e a ordem pública.

Eu jamais me aventuraria a afirmar que lucrariam mais os países e os povos se as drogas fossem todas descriminadas. Ou seja, que fosse legalizado o seu fabrico e comercialização.

O que sei é que, sendo crime traficar drogas, cada vez mais proliferam as drogas.

Então uma coisa eu arrisco dizer: é instigante essa proposta que cada vez mais vem sendo defendida por pessoas respeitáveis e estudiosas: a liberação das drogas.

Ela aguça a inteligência e excita a sensibilidade social.

Ela contém a tentação intelectual de que se for adotada nada será pior do que antes.

Mas não é uma afirmação minha. É uma dúvida.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Nilson Souza
22/05/2003


A advogada

Minha vizinha famosa faz aniversário nesta quinta-feira. Ela não é atriz de novela, nem cantora de rock, mas tem uma multidão de fãs. Todos os anos vem gente de longe para a sua festa, que dura a semana inteira. O tranqüilo bairro onde moro se transforma completamente: aumenta o movimento de carros, há um constante desfilar de pessoas de todas as idades e forma-se uma verdadeira quermesse nas cercanias de sua casa. Até mesmo floristas acampam nas calçadas para vender rosas - a flor predileta da aniversariante.

A semana festiva começa com uma impressionante procissão, que interrompe o trânsito em várias ruas. Aconteceu na manhã do último domingo, antes da chuva. Hipnotizados pela mesma visão e pelos mesmos pensamentos, homens, mulheres e crianças percorreram a pé e cantando um percurso de muitos quilômetros, para acompanhar a homenageada. Alguns exageram um pouco na idolatria: vestem-se como ela, andam de pés descalços sobre as pedras irregulares e carregam crianças no colo por longos trechos.

Suponho que ela mereça as homenagens. Sem ser íntimo da poderosa senhora, conheço bem a sua sacrificada história e já ouvi falar muito de suas ações. Sei que aquela gente toda que a procura não vai lá apenas para cantar-lhe o parabéns-a-você. A maioria vai para pedir alguma coisa - e coisas difíceis de serem obtidas. Muitos, porém, comparecem à sua presença para agradecer, pois garantem esses que a madrinha jamais lhes nega ajuda. Sobre isso não posso testemunhar. Sou apenas um vizinho curioso que sequer precisou se valer dos seus favores. Mas também não me atrevo a duvidar daqueles que se dizem atendidos. Eles carregam nos olhos a certeza incontestável da crença.

Pois bem, conta a história que minha vizinha aniversariante nasceu na Itália, com o nome de Margarita. Teve uma vida de sofrimentos, perdeu o marido e os filhos, entrou para um mosteiro e dedicou o resto de seus dias aos pobres e às orações. Dizem que ainda hoje, mais de 500 anos depois de seu desaparecimento, ela continua dando atenção a quem tem fé.

Minha vizinha Rita de Cássia, que nasceu e morreu num dia 22 de maio como este, é reconhecida como a advogada das causas impossíveis.
nilson.souza@zerohora.com.br


Segurança
Alerta em Soledade



Enquanto estudantes recebiam dicas de prevenção nas escolas (foto) do município, a polícia
divulgava o laudo sobre a morte por afogamento do adolescente João Marcos Godois (foto Ricardo Chaves/ZH)


Quarta-feira, Maio 21, 2003




Reconciliação pela dor
Sérgio volta a viver com Heloísa depois que a mulher sofre acidente causado por alucinações de ciúme na novela Mulheres Apaixonadas
Marcelle Carvalho

Heloísa não vai se sentir abandonada pelo marido por muito tempo. Depois do acidente que sofre, no qual capota com o carro, ela vai comemorar a volta do marido em Mulheres Apaixonadas. Neste momento, estou escrevendo a reconciliação de Sérgio e Heloísa, por força do desastre que ela sofre, afirma o autor Manoel Carlos. O acidente, previsto para ir ao ar na terça-feira, acontece depois que ela vê Sérgio e Dirce (Lucielle Di Camargo) saindo juntos do hotel. Apesar de a amiga Leila (Xuxa Lopes) explicar que é só uma carona, Heloísa não consegue tirar a imagem dos dois juntos da cabeça. Ela não ouve mais nada e acelera o carro, provocando o acidente. Nele, Leila também se machuca por estar no carro.

As duas vão para a clínica e Heloísa não pára de chamar por Sérgio. Ao saber do acidente, o arquiteto fica arrasado e vai para o hospital. Quando Heloísa abre os olhos, dá de cara com o marido. Chorando, ela pede que Sérgio jure não estar tendo um caso, estende a mão para ele e insiste que ele fale que vai voltar para ela, mas Sérgio pondera que não é hora de conversar sobre a separação.

E pelo menos por enquanto a mudança de visual de Vidinha que obrigou Júlia Almeida a cortar os cabelos e emagrecer cinco quilos não vai fazer o coração de Sérgio bater. Não há nenhum projeto na minha cabeça, por enquanto, para aproximar os dois de forma sentimental, amorosa. Mas Sérgio e Vidinha têm algumas afinidades, comenta Maneco. Vidinha acha Sérgio um homem bonito, tal como Dóris, Dirce e todas as meninas do hotel acham. Ela é um tipo mais sonhador, por isso imagina mais do que as outras, analisa o autor, responsável pela mudança no visual da filha, Júlia. Eu pedi que ela cortasse o cabelo, pois achei que tinha que mexer um pouco com a aparência. Outras mudarão também no decorrer da história, avisa.

E elas cobiçam mesmo o rapaz, a ponto de Vidinha ter dito para Dóris que se Heloísa sumisse, ela poderia cuidar de Sérgio.Toda brincadeira tem fundinho de verdade. Ela sente uma quedinha por ele, é inegável, assegura Júlia Almeida. Vidinha e Dóris acham um desperdício ver Sérgio agüentando Heloísa, se elas estão ali com tanto amor para dar, comenta o autor, que faz questão de repetir: Tanto ela quanto Dóris dão em cima dele, mas é como toda jovem faz com homem bonito. Só que ele é casado e tem uma mulher como Heloisa. Isso afugenta as moças, acredita Maneco.




Olhos de ressaca

Maria Fernanda Cândido enlouquece Marcos Palmeira como Capitu, na versão atualizada para o cinema da obra de Machado de Assis
Ana Lúcia do Vale

Maria Fernanda (ao lado) é Ana, a versão moderna da Capitu de Dom Casmurro, alvo do ciúme de Bento (Marcos Palmeira, ao fundo), que acredita que ela o trai com seu melhor amigo, o diretor de videoclipes Miguel (Bruno Garcia, à esquerda)

Maria Fernanda Cândido se delicia com uma uva durante um teste para um videoclipe do Capital Inicial. Marcos Palmeira aparece no estúdio e não resiste: é tragado pelos olhos de ressaca da atriz e chega ao limiar da paixão. Na cena, Maria é Ana, atriz-bailarina-querendo-fazer-sucesso, mas ainda com os olhos de cigana oblíqua e dissimulada na versão contemporânea da Capitu, saída de Dom Casmurro, de Machado de Assis, que está sendo finalizada e chega aos cinemas em 5 de setembro. No filme Dom, Marcos é o ciumento Bento, que duvida até o fim da fidelidade da amada. Se ela realmente o trai, não saberemos nunca. Mas, no imaginário de Bento, isso acontece com certeza, diz Maria Fernanda.

Lá em 99, o diretor Jayme Monjardim viu marqueteiramente no olhar de Maria um quê de atriz italiana e a lançou em Terra Nostra como a Sophia Loren brasileira. Os olhos verdes também impressionaram o diretor de Dom, Moacyr Góes. Só que agora pela semelhança com a personagem nacional. A marca da Capitu, de Machado, são os olhos de ressaca que fazem o homem se perder. E a Maria Fernanda tem isso, explica Moacyr.

Aos 29 anos que completa hoje , a paranaense que foi a operária Nina, em Esperança, estréia no cinema em Dom. O filme foi rodado em um mês. Achei rápido demais. Estava tão bom filmar, que eu poderia ficar rodando por mais alguns meses, empolga-se Maria Fernanda.

Na adaptação do romance que se passa no século 19, Bento virou um engenheiro que morre de ciúmes do amigo de faculdade Miguel (Bruno Garcia). Ao contrário do retraído Bento, Miguel teve a coragem de largar tudo para ser diretor de videoclipes. Aos machadianos puristas, o diretor Moacyr adverte: Adoro Dom Casmurro, mas é impossível ser fiel ao romance. Essas empreitadas sempre são fracassadas. Lanço um olhar novo. Só Machado pode ser fiel a Machado.

Depois de ler o romance, Maria Fernanda parece não ter entendido bem a característica principal da personagem: a dubiedade. Ana é bem diferente de Capitu. Não tem olhos oblíquos nem dissimulados. É mulher atual, batalhadora, que luta para ser feliz na vida profissional e amorosa.

Na ânsia de ser feliz, se entrega a Bento. Low-profile, Maria Fernanda minimiza ao falar sobre a sensualidade do filme:Talvez tenha um pouco, mas Ana é uma mulher de perfil mais discreto. Se Ana for sensual, certamente será algo muito sutil. Moacyr esclarece: É um romance. Uma paixão forte entre Bento e Ana e amor hoje compreende a paixão sexual. Mas claro que as cenas de envolvimento dos dois estão dentro dos parâmetros da elegância. Ressaca, na certa.




Como está uma quarta-feira de sol em Porto Alegre, e a temperatura você vê ai na página, está mais para outono mesmo do que para inverno. Contudo, a previsão para o fim de semana é de queda e de neve, principalmente na serra. Haja organismo para aguentar essas variações, bruscas, e por isso, nas lotações onde ando é até cômico, pois quando um espirra lá na frente outro responde lá atrás.

Por essa razão proliferam as farmácias, nossa uma do ladinho da outra e pelo jeito o negócio é um dos melhores, talvez só perca mesmo é para os bancos. Aliás, sobre bancos, faz tempo não tenho lido uma noticia sobre a CAIXA, até parece que os jornais do País resolveram de dar um tempo mesmo. Por um lado até é bom se não há noticias boas, pelo menos também não estão falando mal.

Que tenhamos todos uma ótima quarta-feira e que seja hiper produtiva. Alô, alô dona Carla lá do WISE UP, cadê minhas mensagens? Ah a outra garota de quem eu não sabia o nome é Carla também, pode?




Intel vira o jogo

Novos chipsets, processadores com tecnologia hyperthreading e preços mais baixos revertem vantagem da arqui-rival AMD
Paulo Couto


Há pelo menos dois anos temos visto aqui no Brasil uma forte demanda pelos processadores AMD, especialmente o Athlon XP. Eram bons, rápidos e baratos. Nesse período, a demanda pelos produtos Intel foi bastante reduzida no varejo, já que eles eram caros e muitas vezes ofereciam uma performance inferior aos equivalentes da AMD. Mas agora a coisa mudou de figura.

A evolução da freqüência do Athlon XP, limitada por obstáculos técnicos, vem acontecendo através de manipulações questionáveis do índice PR (leia mais sobre o assunto na página ao lado), o que acaba prejudicando os processadores da AMD em comparativos com os modelos da Intel.

Como se não bastasse, aproveitando o momento nebuloso da AMD, a Intel lança hoje os novos modelos Pentium 4 de 2,4, 2,6, 2,8 e 3,0 GHz com barramento de 800 MHz (200 MHz em quatro vias) e com HyperThreading (ou simplesmente HT). Esses lançamentos se sobrepõem aos modelos anteriores entre 2,4 e 3,06 GHz que usavam barramento de 533 MHz e não tinham o HT habilitado.

Comparando rapidamente os chips mais baratos, de 2,4 GHz, o modelo anterior operando com barramento de 533 MHz se comunicava com a memória a uma taxa de 4.200 MB/s, enquanto a nova versão usa uma taxa de 6.400 MB/s, um ganho de 52% que fará muita diferença nas aplicações que usam intensamente a memória.

Os modelos Pentium 4 anteriores usavam o barramento de 533 MHz, com uma taxa de comunicação com a memória de 4.200 MB/s. Só que naquela época as placas-mãe só ofereciam acessos simples aos módulos de memória, como os populares modelos baseados no chipset i845 e seus derivados. Com isso, a melhor taxa possível a ser obtida nas memórias era de 2700 MB/s (placas com o i845PE, com suporte a DDR333), 35% a menos do que o necessário para suprir as necessidades do Pentium 4. Como solucionar esse problema com os novos modelos de barramento 800 MHz? Com os novos chipsets comentados por Gabriel Torres, na página 3.

* Paulo Couto é o criador da revista PC Extreme (http://www.pcextreme.com.br) e consultor da Redes e PCs Especiais





Quarta-feira, 21 de maio de 2003
Joelmir Beting


É o tarifaço, imbecil

Durante almoço com banqueiros, segunda-feira, em São Paulo, a vice-diretora do FMI, Anne Krueger, meteu a mão na caixa dos marimbondos engravatados.

Questionou a overdose do arrocho monetário como proporção do PIB e pediu explicações sobre a elástica estrutura do "spread" bancário - de até 142% ao ano no cheque especial.

Apontada como um dos três nomes mais cotados para a sucessão de Alan Greenspan no comando do Fed (banco central americano), Anne Krueger alinha-se entre os analistas de estofo acadêmico que acalentam uma dúvida de travesseiro: será que o Brasil é o único país do mundo que não tem juízo para respirar com crédito bancário acima de 25% do PIB? Há dezenas de países com crédito acima de 90% do PIB e inflação abaixo de 5% ao ano.

Aqui na economia da anta, a oferta de financiamentos para investimentos fixos e para giro e consumo mal passou de 23% do PIB em março, tempo de guerra alheia. E devem ter reprisado o garrote também em abril e agora em maio, tempo de Sars de baixo na Ásia e de deflação nos dois lados do Atlântico Norte.

Sim, quando a inflação troca o aclive pelo declive, o Copom faz reunião com aviso prévio para sopesar outras condicionantes da Selic no alto. Nesta quarta-feira, a taxa básica leva jeito de permanecer em 26,50% ao ano por pelo menos mais quatro semanas. De nada vale anotar que os juros a futuro do mercado já transitam abaixo da Selic.

A ordem é manter a Selic ulcerando 60% da dívida pública que financia o déficit público. O que produz mais déficit, que agrava a percepção de risco, que realimenta a exigência do juro no alto e em alta. Selic que justifica a usura dos juros de ponta, que inflacionam os custos da produção e as contas do consumo. E desde quando expandir os custos da dívida pública e os custos da economia real é combater inflação de demanda, de resto de há muito reprimida?

Em tom professoral, o monetarismo enrustido, que enriquece os bancos e empobrece a Nação, prefere suspirar fundo, ensinando: 1) é preciso aguardar a maturação de "novos indícios de uma queda verdadeiramente consistente da inflação"; 2) é preciso antecipar-se a eventuais efeitos desestabilizadores importados da pneumonia asiática, da deflação sistêmica do G-7, da desvalorização do dólar no mercado global, dos novos ataques terroristas, do discurso de posse de Kirchner na Casa Rosada de tontura...

Faltou dizer, como lembra o presidente da Abrasca, Alfried Plöger: é preciso aguardar, sobretudo, os novos reajustes tarifários de junho, arbitrados pelo próprio governo. Reajustes que têm a ver com dois terços do núcleo da inflação. Fora do alcance, pois, da espingarda mata-gato do Copom.

SECOS & MOLHADOS

Olha o muque! - Na provável manutenção da Selic medrosa, a autoridade monetária igualmente pretende fazer demonstração de força e de autonomia operacional. Afinal, nunca se viu tamanha pressão de fora para dentro e por dentro do próprio governo por uma distensão no garrote monetário da economia estagnada.

Esqueçam-me - Sim, desata o governo petista, "esqueçam o que eu escrevi, cobrei, exigi e xinguei" nos palanques de 1989, de 1994, de 1998 e de 2002.

Contra o tal de mercado sem bandeira e sem remorso. Em abril de 2002, as empresas pagavam juros anualizados de 36,2% no capital de giro. Em abril de 2003, média de 47,4%.

Extorsão - Há um ano, as famílias pagavam 83,6% no crédito pessoal. Agora, 100,6%. Com a FGV demonstrando que as pessoas físicas (ou cívicas) andam torrando 29,8% da renda mensal nos encargos financeiros diretos e indiretos.

Caso único no mundo.




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! A China clonou o Michael Jackson!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Direto do País da Piada Pronta: início de incêndio numa churrascaria em Ribeirão Preto. E como era o nome da churrascaria? FOGO VIVO! Então não é incidente, é estratégia de marketing. Rarará! E o governo acaba de lançar o Plano Plurianual, o PPA. Só que dizem que o PPA do Lula é Pato, Polenta e Angu. Qual é o seu projeto de governo? Pato, Polenta e Angu!

E o Menem renunciou e foi visitar a família da mulher no Chile. Tá certo, tomar chá com a sogra é melhor que governar a Argentina. E o ministro quer o fim das propagandas de bebida na TV. Aí aparece o Marcos Palmeira gritando: ´Ele não merece uma Kaiser´. Rarará! E a China ameaça com pena de morte quem furar a quarentena da gripe SARS. Como é o nome do filme? ´SARS WAR, o Império Contra Ataca´! E aquelas máscaras? A China clonou o Michael Jackson!

E aí diz que a loira foi ao médico e ele disse: ´Você está com doença de Chagas´. ´E como eu peguei isso?´ ´Através da chupada de um barbeiro.´ ´Desgraçado, ele me garantiu que era advogado´. Rarará!

E a Lucianta foi passar uma semana com o Mick Jagger. Imagine o diálogo. Ele: ´Do you love me?´. E ela: ´Yes, I don´t´. E anta não é a Lucianta, que teve um filho só com o Mick Jagger e ganha pensão de US$ 30 mil. Anta é a minha vizinha que teve três filhos com o ex-marido e ganha R$ 2 mil. E anta é um amigo meu que casou com a vizinha, passou pro apartamento dela e descobriu que ela devia seis meses de condomínio!

E a Heloísa Helena virou cult, obsessão nacional. O Brasil inteiro só fala nela! Eu nunca mais vou dizer que ela é do contra pra ela não ficar CONTRAriada! Mas eu acho que ela devia contra-atacar apresentando contraprovas em contrapartida de ser chamada de contraventora! E um leitor escreveu dizendo que a Heloísa Helena vai ser a nova vocalista do grupo ´Só pra Contrariar´. E um outro ainda me disse que ela devia se inscrever no concurso: ´Quer ser namorada do Latino?´

E a penúltima derradeira final do Bestiário Tucanês. É que um amigo foi com a namorada ao hotel e, na hora de preencher a ficha, ela escreveu: ´designer de interiores´. Tucanaram a decoradora! Socorro. Tá mais fácil acabar com a pneumonia asiática que com o tucanês! E hoje não tem Cartilha do Lula porque ele ficou com a língua plesa no elevador. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Email simao@uol.com.br




Paulo Sant'ana
21/05/2003


A vizinhança com a morte

A terça-feira inteira decorreu com calorosas mensagens dirigidas a este colunista por padres, monsenhores, bispos, católicos de todos os matizes, em face da coluna de ontem, inspirada na meditação metafísica do papa João Paulo II, que num impulso de extraordinária franqueza manifestou uma das maiores aflições dos idosos, o defrontamento próximo e inexorável com a morte.

Impressiona as legiões de pessoas dedicadas à religião, o manancial de consciências dirigidas ao bem, a seguir os preceitos bíblicos de doação, solidariedade, caridade, humanidade.

Consola saber-se, neste mundo de violência e incompreensão, que multidões de pessoas se dedicam ao cumprimento dos princípios cristãos. São pessoas boas, virtuosas, que marcam suas vidas com a retidão de seus atos, atirando-se ao amor aos seus semelhantes.

No turbilhão brutal da vida cotidiana, parece até que elas não existem. Mas elas se constituem silenciosamente no amálgama de resistência aos ostensivos impulsos de maldade da alma humana.

Estas multidões de fiéis e de crentes são a esperança do mundo, só por elas se torna viável e legítima a experiência humana.

É muito confortador para um cronista atarefado com temas quase sempre materialistas e por vezes beirando o profano que tenha causado tanta repercussão nos meios religiosos aquela reflexão de ontem sobre o Papa, voltada para a espiritualidade.

Muito obrigado pelas manifestações de regozijo e de apoio. Eu sempre intuí que o vazio existencial por que sou muitas vezes dominado se deve aos longos períodos de afastamento da fé religiosa, um fundamento que adquiri na infância, inseparável da minha personalidade, com o qual pressinto terei fatalmente um dia de vir a reencontrar-me.

Uma onda legiferante domina o Congresso Nacional e se transmite do governo FH para o de Lula, mediante a qual os legisladores e governantes manejam o poder sobrecarregando ainda mais as pessoas físicas e jurídicas de obrigações e projetando uma assustadora ameaça de redução dos direitos dos cidadãos, além de uma propensão sinistra de aumento indiscriminado de impostos, que se transmite por metástase aos governos municipais e estaduais.

Vão ter de pôr um paradeiro nisso.

Muito bem fizeram a CBF e os clubes em suspender o campeonato nacional, a lei que pretendia proteger os consumidores de futebol atenta contra os costumes e a capacidade do meio futebolístico de cumpri-la, draconiana, burocratista e inaplicável.

Estão brincando de legislar no Planalto e no Congresso.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Martha Medeiros
21/05/2003


Divagações sobre a crítica

Às vezes uso este espaço para elogiar filmes ou livros, mas de vez em quando, ops, escapa algum veneno. Todo cronista faz isso e não se estressa, porque os leitores sabem que não somos críticos profissionais, apenas palpiteiros. O problema é que o que mais existe hoje são palpiteiros. Uns mais, outros menos ferinos, mas todos se sentindo no pleno direito de malhar o próximo.

O escritor Julio Cortázar certa vez disse que os críticos sempre irão encontrar algo que não saiu bem, e terão razão, porque a perfeição não é coisa deste mundo. É verdade. Se a gente quiser procurar um deslize em qualquer coisa, vai encontrar. Há quem ache Gisele Bündchen ossuda demais, e que Woody Allen é repetitivo. Dori Caymmi declarou em recente entrevista que, por ele, os Beatles tinham ficado na Inglaterra, que "essa gente" é que deturpou a cultura do Brasil, e disse mais: que Marisa Monte não é uma cantora brasileira, é apenas uma diva pop.

Rubem Fonseca ganhou semana passada o Prêmio Camões de Literatura e há quem torça o nariz para sua obra, tem gente que se esforça e consegue encontrar algum motivo pra detonar o Caetano, e há aqueles que são pegos pra Cristo. Fernanda Young, coitada, está pagando um preço altíssimo por ter ficado meio desbundada no início da sua carreira. Deu umas entrevistas arrogantes e agora está levando um troco que eu acho exagerado. Ela faz lá a performance dela, é estilosa, e daí? Tem personalidade e já escreveu coisas bem legais. Acerta e erra como todos no planeta. Mas o pessoal perdoa? Perdoa nada.

Detonar é uma maneira de se sentir poderoso e de chamar a atenção, que o diga Diogo Mainardi, mestre da provocação. Tudo muito legítimo, salve a liberdade de imprensa. Mas o prazer que isso provoca em alguns críticos é quase assustador. Alguns textos, se fossem escritos no papel, viriam manchados com a saliva do resenhista. Para o leitor é diversão garantida, mas para quem está na mira é uma paulada. Não tem quem passe batido por uma crítica assumidamente maldosa. Poucas são as críticas "construtivas". Na maioria das vezes, os críticos não constroem nada, eles soterram e depois nem mandam rezar uma missa pro infeliz. São comentários que parecem nascidos de algum ressentimento, mas na maioria das vezes é apenas o "não gosto" se instalando como verdade absoluta.

Eu costumo gostar e desgostar por escrito, e sou gostada e desgostada em contrapartida. É assim com todos cujo ofício é público e não temos que nos perturbar com isso (parece fácil, mas faça um teste: você lembra mais de quem detonou você ou de quem elogiou você? De quem elogiou? Conta outra...). De minha parte, nenhuma reclamação: meus desafetos têm sido discretos, fazem pouco barulho. Mas tem gente que, como Fernanda Young, deve estar relutando em levantar da cama e abrir o jornal. Fazer o quê? Dar uma banana e só chorar quando ninguém estiver olhando.

martha.medeiros@zerohora.com.br




José Fogaça
21/05/2003


Transformação da intimidade

"O assassino, cruamente, enterra uma fina lâmina de 15 cm, repetidas vezes, entre o coração e a genitália da vítima e instala-se numa cadeira com os restos de uma xícara de café... Nem cordões de cortina, nem melodrama: pegando a faca, faz um corte profundo de lado a lado em sua própria garganta." Assassinato e suicídio - o trágico epílogo de uma história de amor. Final de um romance do século 18 ou 19? Não. A cena é absolutamente contemporânea. E é com ela que o sociólogo e cientista político Anthony Giddens inicia A Transformação da Intimidade, complexa análise dos padrões emocionais que modelam as novas formas de comportamento amoroso.

Giddens toma como ponto de partida a leitura de uma novela de Julian Barnes, Before She Met Me, cuja trama envolve uma personagem masculina altamente sofisticada do ponto de vista intelectual. Trata-se de um homem maduro que se casa pela segunda vez e mantém, com sua nova parceira, uma vida em comum não-repressiva e não-autoritária, cujos contornos são incontestavelmente baseados na preservação da autonomia. Os homens com os quais ela viveu ou se relacionou antes do casamento não lhe causam grande preocupação. Até o momento em que ele desconfia que, entre as experiências anteriores, há uma supostamente não revelada: um efêmero mas intenso caso de amor com o melhor amigo dele. A desconfiança cresce. Pouco a pouco, torna-se uma obsessão doentia. E culmina com a lâmina de 15 cm enfiada no ventre do homem que fora seu melhor amigo.

Foi esse o desfecho trágico de mais um banal caso de ciúme? Não. No relacionamento aberto não há ciúme, no sentido tradicional. O que se deu foi a gradual descoberta de uma componente desconhecida, que veio romper um frágil equilíbrio. Desfez-se a transparência, destruiu-se um sensível elemento de estabilidade.

Giddens não escreveu um livro emocionante. Não se trata de ficção, nem psicanálise. Trata-se de uma reflexão metódica, estruturada com a linguagem do sociólogo e o pensamento esquemático do cientista político, sobre um dado elementar do novo mundo: no amor pós-moderno, não há domínio nem controle da intimidade. Por parte de ninguém. Na verdade, estamos vivendo uma nova democracia dos sentimentos, uma nova ética da vida afetiva. Que ainda estamos por compreender.
jose.fogaça@zerohora.com.br




David Coimbra
21/05/2003



A palmilha, essa imbecil

Foto(s): reprodução/ZH

Estava lá, escrito no cartaz da loja de sapatos: aqui, palmilha inteligente.

Palmilha inteligente. Que côsa. Uma palmilha, que eu saiba, ela apenas fica parada entre as solas do pé e do sapato. O que mais faz uma palmilha, além disso? O que mais poderia fazer?
Nada mais, claro que não. Então, alguém aí precisa me dizer: o que torna uma palmilha inteligente e outras tantas burras? Fiz esse questionamento, olhando para o cartaz, e concluí que não pode ser duvido que exista um grau de esperteza no mundo das palmilhas. São todas igualmente estúpidas. Poderia até usar a palmilha para reforçar uma imagem:

Ela é idiota e fria como uma palmilha.

Aí está. A palmilha inteligente é um mito.

Os enfumaçados
Assim como a doença do fumante passivo. E vocês, Lucianas Genros do antitabagismo, não se exaltem. Podem protestar, podem mandar imeils, podem fazer passeata na frente da Zero, podem me chamar de palmilha, não adianta. Não acredito no fumante passivo. Pelo seguinte: o fumante passivo não traga. Por mais fumaça que ele aspire balançando em um ônibus ou trinchando um pernil de carneiro num restaurante, não será equivalente a um único cigarro tragado por inteiro. Agora, me diga: se alguém fumar um cigarro por dia e não tragar, ficará doente? Terá câncer? Enfizema? Essas coisas?

A resposta é: NÃO.

E suponho que fumar um cigarro por dia sem tragar seja mais perigoso do que aspirar eventualmente a fumaça exalada por outrem dentro de um elevador. Logo, o fumante passivo não adoece por causa da nicotina, do alcatrão, de outros troços que por ventura os fabricantes soquem num canudo de cigarro. Ele tosse por causa da fumaça inalada, ele chega em casa com aquele cheiro nauseabundo impregnado na camisa, nos cabelos e nos poros, ele sente os olhos irritados e a garganta seca, mas câncer ele não pega. O fumante passivo, portanto, não existe; ele é no máximo um enfumaçado passivo.

Cris no Canadá
Quem está escrevendo isso é um não-fumante. Jamais fumei, acho cigarro um hábito desagradável. Mas também acho que os fumantes são discriminados em seu triste vício. Sou solidário com eles. Minha amiga Cristina Lac, por exemplo. Ela está fazendo um curso no Canadá. Vai permanecer o resto do ano naquelas lonjuras geladas. Pois dia desses ela me escreveu um imeil desesperado. Dizia estar distante da língua-mãe, dos amigos, do trabalho, do calor brasileiro, dos amores eventuais, do feijão, do chimarrão e do chope cremoso, está distante disso tudo, sim. Mas não se importa. Ela só se importa com a falta do cigarro. Uma carteira de cigarro, no Canadá, custa três dólares. Demais, para um exilado com parcos recursos. A Cris está tendo que se conter. E isso a põe louca!

Alcatrão! é o brado que se ouve da agoniada Cristina, do outro lado do Atlântico. Nicotina! Nicotina!

Claudinho no banheiro
Lembro do Claudinho, que trabalhava comigo na Microfilmagem do Estado. O Claudinho era um tipo único. Magrinho, pouco mais de metro e meio de altura, um bigode desproporcional se contorcendo sempre que ele falava efes, o Claudinho estava sempre alegre, apesar da vida penosa que levava. Penosa mesmo. O Claudinho tinha três empregos, ganhava pouco em todos eles e mesmo com os três salários somados ainda assim seus rendimentos eram irrisórios. Para piorar a situação, ele acumulava duas ou três ex-mulheres que lhe sugavam os recursos e a energia. O Claudinho sobrevivia de expedientes, dinheiro emprestado e explicações para as mulheres. Ainda assim, jamais alguém o viu de mau humor.

O que me salva é essa bomba explicava o Claudinho, acariciando a carteira de cigarros como se ela fosse um recém-nascido.

Só que na Microfilmagem era proibido fumar. Trabalhávamos no 14º andar do edifício do Banrisul, não havia fumódromo. Qual a saída do Claudinho? A contravenção. Trancava-se no banheiro com dois cigarros, um em cada canto da boca, acendia-os aos dois e pitava sofregamente. O exator-chefe divisava o fumo se evolando pelas frestas da porta e ia lá bater, furioso:

Claudinho! Tu estás fumando!

E ele, a voz abafada saindo de dentro do banheiro minúsculo:

Tô defecando, chefe.

Por que não davam ao Claudinho um local para que ele se consumisse em paz, ele e seu cigarro assassino? Porque discriminam os fumantes, esses coitados.

Pobre Sant´Ana
Agora não querem permitir que se fume nos estádios de futebol. Nos estádios! Lugares abertos, o ar circulando à direita, à esquerda, em cima, embaixo, em volta. É perseguição demais. Pense num Paulo Sant´Ana, fumante e torcedor e neurastênico, em tudo isso assumido. Pense no Sant´Ana no Olímpico, durante uma decisão, sem poder fumar. Ele morre!

Mas as pessoas no entorno não aceitariam que ele fumasse na arquibancada, iriam se abanar, torcer o nariz, falar em desrespeito. Não entendem que o fumante também sofre. Que o fumante teve culpa ao se tornar fumante, mas não de ser um. Que ele hoje é só uma vítima, digno de compaixão, compreensão e um lugarzinho arejado onde possa acabar consigo mesmo em paz.
david.coimbra@zerohora.com.br


Porto Alegre
Perigo ronda a Terceira Perimetral



O desrespeito à sinalização, principalmente pelos pedestres, é a principal causa dos nove acidentes com vítimas registrados no cruzamento das avenidas Bento Gonçalves e Coronel Aparício Borges desde o dia 12 de abril (foto Mário Brasil/ZH)


Terça-feira, Maio 20, 2003




Deus e o Carpinteiro.

Sempre dizer a verdade é importante e pensar nas Conseqüências também.

Se você mentir é melhor ter uma excelente razão...

Um dia um carpinteiro buscava madeira cortando o galho de uma árvore ao lado de um rio e seu machado caiu dentro do rio. O infeliz carpinteiro suplica a Deus que lhe aparece e pergunta "Por que você está chorando?". O carpinteiro responde que seu machado havia caído no rio e Deus entra no rio do qual tira um machado de ouro e pergunta "É este seu machado?" O nobre carpinteiro responde "Não Deus, não é esse." Deus entra novamente no rio e desta vez tira um machado de prata "E este é seu?".

"Também não" responde o carpinteiro. Deus volta ao rio e tira um machado de madeira e pergunta "É este teu machado?". "Sim", responde o carpinteiro. Deus estava contente com a sinceridade do carpinteiro e o mandou de volta pra casa dando-lhe os 3 machados de presente.

Um dia, o carpinteiro e sua esposa estavam passeando nos campos quando ela tropeçou e caiu no rio. O infeliz carpinteiro suplica a Deus que aparece e pergunta "Por que você está chorando?" O carpinteiro responde que sua esposa caiu no rio e imediatamente Deus mergulha e tira a Luana Piovani do rio e pergunta "É esta sua esposa?" Sim, sim", responde o carpinteiro e Deus se enfurece. "Mentiroso!!!" exclama.

E o carpinteiro rapidamente se explica "Deus, me perdoe, foi um mal entendido. Se eu dissesse que não, então o Senhor me tiraria a Ana Paula Arósio do rio, depois se eu dissesse que não era ela você tiraria minha mulher e quando eu dissesse 'sim' então você mandaria eu ficar com as 3. Mas eu sou um humilde carpinteiro e não poderia manter as 3, só por isso eu disse 'sim' para a primeira delas".

E Deus o perdoou.

Moral da história:

Os homens só mentem por causas nobres e com boas intenções!!!




Bom meu povo, mais um dia foi-se, 20 de maio está no ocaso e falta menos de uma hora para já chegarmos ao 21. Dormirei mais feliz hoje, pois consegui acertar uns links que não estavam legais e nenhum problema, físico ou lógico aconteceu. Que os anjinhos protejam voces. Coloquei essa imagem ai acima, pois ela parece eu, em algum tempo, passado, presente, futuro,que eu busco ainda ou que já se perdeu... Mas é como se fosse o meu retrato.


O FABRICANTE DE BONECAS

Em um distante lugar viveu um amável velho que fazia bonecas.
Ele gastou toda a longa vida criando bonecas de todos os tipos, fazendo feliz todas as pequenas meninas do mundo.

Ele mantinha as tendências do mundo e tinha feito bonecas que diziam "Mamãe", bonecas que choravam, que andavam e piscavam.
Mas nosso fabricante de bonecas era muito sábio.
Ele sabia que era a hora dele dar uma contribuição especial.
Assim, com resolução no coração, ele fez a sua mais bonita criação.
Deu-lhe cachos marrons que trouxeram beleza ao longo cabelo.
Deu-lhe os mais belos olhos azuis que se poderia contemplar.

Esta boneca especial tinha longas pernas com as quais poderia dançar, correr e brincar, e até mesmo caminhar um bom pedaço.
Deu-lhe mãos bonitas para trabalhar e servir e ensinar todas as outras bonecas.
Os dedos dela eram longos e esbeltos.
Com estes, esperava o velho homem que ela confortasse com carinhos.
Tinha a face bonita.
Vestiu-lhe com um vestido cintilante e suave, e no último dia quando ela estava pronta, ele a ergueu com grande cuidado e a ajustou delicadamente na frente de um grande espelho.

- O que você acha? Ele perguntou - Você não é a boneca mais bonita do mundo?

A boneca olhou entusiasmada.
De repente a bonita face perturbou-se e irritada ela disse:
- Odeio esse cabelo marrom e eu sempre desejei olhos verdes.
Estas não são as cores que eu teria escolhido para mim.
E veja como são magras e longas as minhas pernas!
Como são grandes os meus pés!
Meu vestido é muito ordinário.
Eu não sou uma boneca bonita!

Tal e qual a boneca, nós fomos criados com as mais bonitas qualidades.
Não olhe nos espelhos da vida para desejar ser algo que você não é.

Nós devemos agradecer o grande "fabricante de bonecas" que nos fez...
autor desconhecido




Poetas Virtuais

Poetas

Fascina-me lê-los e em cada poema vejo uma bandeira, uma batalha.
É uma guerra linda e é assim há anos ( que o diga Castro Alves em Navio Negreiro ou Vinícios de Morais em A Bomba Atômica hoje tão atuais ). Tantos amores retratados, tantas mágoas resolvidas, tanto carinho derramado.
São vocês que conduzem nossas almas, enxugam nossas mágoas e afloram nossa alma.

Beijo-lhes a alma que sofre tanto e aos prantos de letras retrata minha dor ou minha alegria que, com tamanha maestria, me acalanta em seu ninho de letras, me nutre, me cura e donde só saio quando forte. Grata pela armadura que me veste, pela arma que empunho e pelas guerras que venci.

Amo-vos Senhores das letras, das línguas e dos sentidos.
O sucesso de vocês é minha paz.

Ismália - Waleska Testa





Beleza exportação

Fernanda Lima roda o mundo para gravar o Mochilão, da MTV, e, apesar de ser apresentadora do Fica Comigo, diz que não sabe se está namorando
Zean Bravo

Fernanda Lima tenta escapar com um vago Estou vivendo da questão sobre o namoro. Essa pergunta nunca se cala, suspira ela. Sincera, a apresentadora prefere não rotular sua relação com o modelo Rodrigo Hilbert, seu último par declarado. Mais adiante, revela: A gente se fala, se gosta, mas não posso ser porta-voz de um relacionamento que nem eu sei bem dar nome. No início do ano tirei férias e fui para a Califórnia (Estados Unidos) estudar inglês. Dei um tempo, conheci gente e aprendi. Como é que vou dizer que estávamos namorando?. Se depender das temporadas fora, fica mesmo difícil. Apresentadora do Fica Comigo e do Mochilão, na MTV, Fernanda está sempre de malas prontas. Esse ano, já gravou novas edições do programa de viagens no Reino Unido e na África do Sul, de onde voltou há duas semanas. Desde ontem, está na Amazônia para outras gravações do Mochilão, que reestréia 22 de junho.

Para falar das aventuras na estrada, Fernanda não economiza detalhes. Meto meu dedinho em tudo e o programa está cada vez melhor. Sugiro lugares, encho o saco para viajarmos para fora. Como tenho conhecimento, acabo ajudando na produção. Ligo para o hotel, consigo apoio, diz. Prática, ela afirma não ter a mínima frescura nas gravações. Faço o que o programa pede. Na África, pulei do maior bungee jump de lá, de 220 metros. É uma coisa que nunca faria se estivesse viajando a lazer. Mas antes de pular, fiz as oito pessoas da equipe irem na minha frente, entrega.


Enquanto na África a adrenalina predominou, no Reino Unido Fernanda caiu na noite. Gostei de Edimburgo (Escócia). É um lugar jovem com muita balada. Em Londres (Inglaterra), quando os caras vinham dar em cima de mim na noite, pedia licença e dizia que estava trabalhando, diverte-se.


Fernanda só mede palavras quando o assunto ronda novamente sua vida pessoal. Não gosto de expor meus sentimentos e os de quem está comigo. Tem mulher que está na revista toda semana avisando que vai casar, engravidar. Talvez, se fizesse assim seria mais conhecida, teria mais Ibope, avalia a apresentadora de 25 anos, que lembra o baque sofrido quando a imprensa descobriu que estava de rolo com o ator Rodrigo Santoro, há dois anos. A gente pode se machucar com esse tipo de invasão. Quando tudo aconteceu, nem fiquei tão chocada quanto ele, que já tinha passado por isso. Serviu de aviso.




Para quem gosta de fotografia ai estão algumas dicas. Cadê meu amigo Simon lá do Porto Imagem?

CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 20 DE MAIO DE 2003


Quatro exposições que registram momentos


Quatro exposições de fotografia podem ser conferidas em diferentes espaços culturais da Capital. Hoje, às 19h30min, abre a mostra 'Tributo CSNZ - Chico Science & Nação Zumbi', na Galeria Santa Catarina/Loja 33 (Voluntários da Pátria, 595). As imagens, de Hans Georg, são um registro do memorável show de Sciense e Nação, em dezembro de 1994, em São Paulo. Visitação em horário comercial. Na quinta será inaugurada 'entre a Terra e o Mar', de Rogério Medeiros, na Bolsa de Arte de Porto Alegre (Quintino Bocaiúva, 1115). Visitação até 14 de junho, de segunda a sexta, das 10h30min às 19h.

Fotos de um mesmo local, do inglês Nick Rands, estão expostas na Fotogaleria (Félix da Cunha, 1169), até dia 28 de maio. A exposição 'Onde o Mar Encontra o Céu' é resultado de uma experiência que começou em 1982, na pequena cidade de Lymington, no sul da Inglaterra. Rands fez 13 caminhadas de quatro horas por uma trilha à beira-mar, sempre aos domingos, a cada 28 dias. De dez em dez minutos, ele tirava uma foto da paisagem, de modo que cada caminhada resultou em 24 imagens. A fotógrafa gaúcha Fernanda Chemale, até 8 de junho, está apresentando 'Face' na Galeria Lunara (João Goulart, 551). Suas 12 fotos em preto e branco são de rostos transfigurados que transitam entre o mundo real e o ficcional. Visitação de terças a domingos, das 10h às 22h.




Uma presença na Bienal

Estande do Sebrae tem 350 livros para empreendedores e empresários

Bem orientado você chega longe. Com este conceito, o Sebrae/RJ (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado do Rio de Janeiro) marca mais uma participação na XI Bienal Internacional do Livro, a maior feira editorial do país. Nas prateleiras do estande de 100 metros quadrados, localizado no pavilhão 3, no Riocentro, o visitante pode encontrar mais de 350 títulos destinados a empreendedores e proprietários de micro e pequenas empresas.

Desde 1993 o Sebrae participa da Bienal. Na última edição da feira no Rio, em 2001, a entidade ofereceu 249 títulos e comercializou 9.203 exemplares. Para este ano, a expectativa é superar os resultados, já que a feira espera receber mais de meio milhão de pessoas até domingo. Os livros são produzidos pelas unidades estaduais do Sistema Sebrae e também por cinco editoras parceiras ¿ Campus, Qualitymark, Record, FGV e Senac.

Quem visitar o estande do Sebrae encontrará publicações a partir de R$ 2, como Dicas de como alugar um imóvel comercial. Da mesma série Administração, encontram-se ainda publicações que ensinam o be-a-bá para quem pretende montar um negócio, entre elas, Como entender o mundo dos negócios e Dicionário básico da pequena empresa, o livro de cabeceira do empresário, que ensina, de A a Z, tudo o que é preciso saber no dia-a-dia da empresa.

Outros destaques são as séries Oportunidades de Negócios, para os empreendedores; Agronegócios; Conservação de Energia; Meio Ambiente; Comércio Exterior; e Marketing. O preço médio dos livros é de R$ 15.

Estande do Sebrae: Pavilhão 3 (azul), Rua N, nº 290

Sebrae/RJ: 0800-782020, http://www.sebraerj.com.br




Com os pés na estrada

Idosos gostam de viajar e representam 40% da clientela de hotéis e agências

Os idosos brasileiros formam um grupo de 15 milhões de consumidores, o que representa 14% da população adulta. Em duas décadas, a expectativa é que o País terá 35 milhões de idosos, a maioria mulheres, com uma renda que soma R$ 7,5 bilhões ao mês, o dobro da média nacional. Junte-se a tudo isso que os idosos têm muito mais poder de influenciar hábitos de consumo nas famílias do que se imagina.

Não é à toa que empresários dos setores de turismo, lazer, alimentação e beleza estão de olho nesse público, que consome muito mais que remédios. De acordo com a Associação Brasileira dos Agentes de Viagens (Abav), os idosos representam até 40% dos clientes ativos dos bancos de dados das operadoras.

Em função disso, muitas agências, como a carioca CR Turismo, por exemplo, já trabalham com pacotes específicos para pessoas da terceira idade.

Além do número crescente de idosos, há outros motivos que colocam a terceira idade como clientela valiosa para as agências de turismo, como o fato de vovós e vovôs terem tempo e renda livre, o que lhes permite garantir ocupação em vôos e hotéis durante a baixa temporada.

O público da terceira idade representa um filão importante dentro do segmento. E são várias as vantagens de se trabalhar com esses clientes. Uma delas é que eles gostam de fazer tanto viagens internas, quanto externas. E ainda por cima, são bastante animados, o que torna a viagem muito mais agradável¿, comenta a empresária Cristina Rocha, da CR Turismo.

Ela conta que começou a criar pacotes especiais para pessoas com mais idade há dois anos e que, de lá para cá, esse público passou a representar 60% de sua carteira de clientes. Cristina lembra que, para os próximos meses, já tem vários pacotes programados para o público da terceira idade.

E existe coisa melhor que colocar o pé na estrada, assim sem destino, com uma muchila nas costas e uma boa companhia? Um dia se Deus quiser chegaremos lá...





Terça-feira, 20 de maio de 2003
Joelmir Beting

Encabrestados & Cabreiros

A estabilidade monetária é o fator condicionante. O crescimento econômico é o fator condicionado. Assinado: Pedro Malocci. Ou por outra: Antonio Palan.

Nada contra as leis pétreas da economia, ciência severa da escassez, da privação e da paciência, diria Carlyle. Não há crescimento econômico sustentável no tempo e no espaço sem a estabilidade monetária e a neutralidade fiscal. Além, claro, das regras claras do jogo econômico e da segurança jurídica dos contratos.

Nada contra. O problema está nos equívocos recorrentes das políticas de estabilização. Equívocos de seleção de medicamentos disponíveis e equívocos de dosagem dos remédios escolhidos. Aí é que mora o perigo do mal desnecessário: a lâmina de celofane que separa o remédio do veneno é simples questão de dosagem.

Pois o arrocho monetário, que se faz acompanhar do garrote tributário, é o maior constrangimento neurológico da economia brasileira. Um e outro sem paralelo lá fora. Em nome da estabilidade monetária? Ora, dezenas de países desenvolvidos e em desenvolvimento desfilam economias estabilizadas sem os cabrestos do crédito curto e caro e sem a cunha fiscal indireta cumulativa, confiscatória e concentradora de renda.

Nos Estados Unidos, a economia ainda na ressaca está com as patas dianteiras na deflação, mesmo com crédito bancário plenamente oferecido e extremamente barato. Não há inflação de demanda nem com essa velha farra de crédito. Nem quando esse mesmo PIB cresceu quase 5% ao ano, sustentadamente, na segunda metade da década passada. No período, o núcleo da inflação não passou de 1,5% ao ano.

Na tigrada asiática retemperada, a economia volta a crescer acima de 5% ao ano - com inflação abaixo de 5%. Na Argentina, nossa companheira na UTI do FMI, a economia encolheu 11% em 2002. Deve ter mergulhado de cabeça numa baita deflação. Certo? Errado. A inflação escapuliu de menos 10% para mais de 30%.

Nem é preciso sair de casa. Aqui mesmo no Brasil, em 2000, quando Armínio Fraga, sem discurso e sem alarde, baixou os juros e soltou homeopaticamente o crédito bancário, o PIB cresceu de 0,7% para 4,4%. Inflacionou? O IPCA retrocedeu de 9% para 6%. Com impulso de banguela, no primeiro trimestre de 2001, para um IPCA de 4% e um PIB de 5,5%. Lembram-se? Antes do apagão...

Tradução: o falso dilema do se parar a recessão pega ou se andar a inflação mata só existe na cachola acadêmica de um monetarismo enrustido que não sabe explicar o Brasil 2000, a Argentina 2002, a Ásia 2000/2003 nem os Estados Unidos 1995/1999.

SECOS & MOLHADOS

Nova economia - O que coloca a inflação anual na jaula de um dígito não é mais a austeridade monetária nem a neutralidade fiscal. Desde os anos 90, a façanha é do tripé competição, modernização, informação. Incluídos os países ricos que já se consideravam de há muito competitivos, modernosos, informados e globalizados.

Outro planeta - Nos emergentes, tal como nos desenvolvidos, a oferta de crédito bancário para produção e consumo transita de 80% a 130% do PIB. No Brasil, abaixo de 25%. Nos emergentes, a carga tributária indireta sobre produção e consumo contenta-se com menos de 15% do PIB. No Brasil, acima de 25%. Um dos dois deve estar quadradamente errado: ou o Brasil ou o mundo.

Ilusionismo - Ontem, dia de retórica do desenvolvimento na reunião ministerial. Hoje, dia de exortação do crescimento no Fórum Nacional. Com as secretárias do lado pagando 196% ao ano no cheque especial.




Terça-feira, 20 de maio de 2003
Arnaldo Jabor


Nunca precisamos tanto de cultura e arte


Sempre falamos em "cultura brasileira", mas não sabemos o que isso quer dizer. Cultura é o quê? Uma senhora grega, de camisola, segurando uma tocha?

Cultura é uma índia negra e portuguesa, de cocar e saiote? Cultura é um museu erudito que rima com "sepultura"? Fazemos boquinha elegante para falar em "cultura", mas sempre sobra um gosto de coisa insignificante, haja vista a baixa verba que tem no orçamento da União.

Em nossa tradição de bacharéis babacas e fazedores de frases, colonizados de cartola e fraque, sempre amamos as "coisas do espírito", "a alma minha gentil", o "ora direis ouvir estrelas" ou o "vai-se a primeira pomba despertada" com que nos embriagávamos nos botequins da República Velha, em meio à febre amarela e à varíola. Nosso atraso endêmico nos levou à supervalorização da "cultura" como substitutivo para a impotência política.

Era nossa ilusão e consolo: "somos pobres, mas com uma cultura rica..." No entanto, tirando alguns momentos ativos como no getulismo, com Capanema e cia., a maioria de nossos "avanços" culturais sempre foi "sem querer", independentemente dos desejos de teóricos ou de mecenas. Muitos progressos culturais vieram como "irrupções" de causas materiais, de mutações industriais e comerciais: cultura do café e o Modernismo, o crash da Bolsa em 29 despertando nossa "identidade" na Revolução de 30, a indústria fonográfica americana e o rádio projetando a música popular dos anos de ouro, a industrialização juscelinista possibilitando a arquitetura, a bossa nova, o cinema, a Phillips e outras gravadoras veiculando a música dos anos 60, a TV, etc.

Na época do jango-populismo até 64, influenciados pela guerra fria, pelo marxismo "fora do lugar" e pela crença de que o presidente faria uma revolução tropical (!), os artistas e intelectuais se convenceram de que o Estado poderia criar uma "cultura brasileira" revolucionária, de modo a tirar o País da "alienação" e salvar, pela arte, os oprimidos. A cultura seria uma política.

O subdesenvolvimento nos dava uma "superioridade" sobre os "falsos problemas europeus", como o absurdismo ou sobre o medíocre comercialismo americano. A pobreza era nossa maior riqueza. Vivíamos na divisão de "centro e periferia", colônia e metrópole, vítimas santificadas do imperialismo.

Nossos defeitos institucionais endêmicos ficavam ocultos, já que a culpa era dos outros. Chegamos a fazer a glamourização da incompetência. Era a poética da precariedade contra a técnica dos países desenvolvidos "decadentes".

Achávamos a miséria até uma nova estética, alimentando o mito de que o tosco, o simples, o pobre e até o burro são ungidos por uma certa "verdade sagrada". O povo, na sua ignorância, seria portador de uma compreensão profunda do óbvio. Essa idéia reacionária rola até hoje.

As tentativas de política cultural nessa época se limitaram à ingênua generosidade dos CPC's e a vagas promessas do novo Estado popular que viria.

O golpe de 64 foi uma porrada na utopia. No entanto, a derrota nos "ajudou" a ver o atraso de nossas certezas esquemáticas. Espantosamente, a ditadura foi até um "incentivo" para a criação. O autoritarismo violento, a censura nos deram uma identidade provisória, de cabeça para baixo. Valíamos pelo que "não" tínhamos, éramos vítimas reais e passamos a ter uma meta: a liberdade.

Nos anos de chumbo, houve um surto de heróica criatividade inesperada:

protesto, tropicalismo, contracultura, cultura de resistência... e até as sobras dos petrodólares que alimentavam o estatismo militar deram para sustentar o cinema dos anos 70, quando chegamos a competir com os filmes americanos. A Embrafilme realizou o paradoxo de financiar até um cinema crítico de esquerda com grana da banca internacional num regime de direita.

Coisas do Brasil...

Até que em 82, com a recessão mundial, fecha-se a torneira da grana internacional e completa-se a falência do Estado militar. A democracia volta - para pagarmos a conta da dívida externa. Tivemos a Lei Sarney que funcionou como um mecanismo provisório, logo exterminado por Collor, em 90, na hora da morte súbita do comunismo, diante dos olhos deslumbrados do capitalismo.

Ficamos sem rumo. Para onde ir? Para o Estado ou para o mercado? O trauma da globalização foi mais profundo que a derrota de 64, só que menos visível, indolor, com um cheiro de "progresso" liberal. Ficamos sem utopia, sem exploradores óbvios, sem inimigos claros, substituídos pelo difuso "capitalismo sem rosto" de hoje.

De um lado, isso provocou o surgimento de um oportunismo de massas, pagodeiro, o alívio da seriedade pela vagabundagem artística. Por outro lado, fez nascer um neonacionalismo rancoroso e feroz, uma ideologia cultural do "bode preto", trabalhando com conceitos superados, um mix de farrapos de esquerda, azedume punk, pálida tristeza, neurose e sociologia simplista, sonhando com um regresso leninista ao Estado. Durante os anos FHC, as sobras da Lei Rouanet de Collor e da Lei do Audiovisual conseguiram avanços, apesar do golpe das inúmeras "fundações" de bancos - principal escândalo atual - usando dinheiro público para marketing próprio.

Hoje, depois que o Osama mudou o Ocidente, estamos sem o velho Estado Nação e sem um nicho no mundo global. Nem centro, nem periferia. Uns sonham com a volta do papai-Estado, outros, com a idealização do mercado. Ao menos, hoje, temos mais clareza entre dirigismo e privatismo. Nesse mundo "bushiano" que se avizinha, que vai desmoralizar os sonhos humanistas da arte e de reflexão, nosso grande desafio cultural é redescobrir nosso lugar crítico, nossa esperança nacional, sem slogans, mas com imaginação, tentando entender este novo tempo a nosso favor. Cultura precisa de dinheiro, mas sem dirigismo; só estímulos. Vivemos nem só de mercado, nem só do Estado. Lula está no meio.




José Simão
simao@uol.com.br


Brasil Urgente! Pato derruba petista!

Buemba! Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Ops, direto do país da piada pronta: sabe como se chama o melhor jogador carioca atualmente? Fábio BALA! O centroavante do Flu! Até no futebol carioca tem bala voando! E olha o adesivo que eu vi no carro de um aposentado: 'oPTei e me ferrei'. Rarará! E aí o Vitor Belfort, campeão de vale-tudo, foi participar do 'Show do Milhão' e a pergunta era: 'A palavra sol é monossílaba, dissílaba, trissílaba ou polissílaba?'. E ele: 'Trissílaba!'. Tá certo: S.O.L., trissílaba. Rarará!

Pior, diz que a loira tava tentando abrir uma tampinha de Coca-Cola, mas não conseguia, e aí o dono do bar disse: 'Você tem que torcer'. E a loira batendo palma: 'Tam-pi-nha! Tam-pi-nha!'. Rarará! E vocês viram o carro do Schumacher pegando fogo no box? É que o Rubinho disse que ia usar uma estratégia diferenciada pra ganhar a corrida: churrasco de alemão. Nem botando fogo no alemão ele consegue ganhar! O alemão quase vira salsicha!

GRANJA DOS TORTOS URGENTE! O fim de semana na Granja do Torto vai ser enquadrado por tentativa de lesões corporais. Primeiro, é aquele monte de perna-de-pau que vai jogar bola e sai tudo machucado. Os macho...cados do PT! E agora um petista foi derrubado por um pato. Levou uma patada!

É que o Lula acordou com vontade de comer o famoso pato com laranja da dona Marisa. E aí foi pegar um pato no quintal, mas o tal do pato desconfiou: 'Estão querendo me fazer de Heloísa Helena' e saiu correndo. E aí o Lula pediu ajuda pros universitários, ops, pro deputado Sigmaringa Seixas. Que caiu, machucou a perna e levou 17 pontos. Eles deviam ter chamado um patologista! Em vez de ortopedista, um patologista! Rarará!

Radical Choca Urgente! A Heloísa Helena foi multada! Pegaram ela andando na CONTRAmão! E diz que ela vai filmar 'O Exorcista 4' e vai pegar o papel de irmão do Hannibal Canibal com focinheira e tudo! E tô adorando o economês da Maria da Conceição Tavares: 'Porra, cacete e que saco!'. Rarará! Economia ortodoxa!

E a penúltima final derradeira do Bestiário Tucanês. É que uma amiga recebeu um cartão: 'Analista independente de necessidades e de soluções financeiras'. Tucanaram o agiota! E, em Jundiaí, teve a '1ª Feira de Produtos de Valor Social'. Tucanaram o artesanato! Socorro. Chama o Oswaldo Cruz pra erradicar o tucanês.

Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. 'Barbicha': companheiro gay! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã.

Email simao@uol.com.br




Paulo Sant'ana
20/05/2003


Rezemos pelo Papa

Mas, se o papa João Paulo II declarou ontem, um dia depois de completar 83 anos, que "está cada vez mais consciente de que está chegando o dia de se apresentar a Deus e prestar conta de toda a sua vida", o que ele deixa para nós, pobres pecadores, que não temos mínima percentagem de suas obras?

É impressionante a humildade do nosso Papa. Eu pensei que ele tinha ligação direta com Deus, que sua atuação como pontífice fosse monitorada lá do céu pelo Criador, que sua vida de renúncia e trabalho fosse o suficiente para usufruir do repouso eterno nos jardins do Senhor.

Mas o Papa declarou ontem que terá de prestar contas a Deus dentro de um breve espaço de tempo. Isso leva todos os católicos e humanos a uma reflexão: o de quanto somos deficitários nessa passagem pela Terra, o de quanto ainda teremos de nos aperfeiçoar para sermos dignos do remanso divino.

Sinceramente, eu me arrepio. Esse pio sacerdote deve ingressar nas paragens celestiais com a glória de um santo.

Mas se ele ainda tem de ter sua conduta terrena examinada por Deus, então é porque os eleitos serão poucos.

E nós temos que revisar os nossos atos e terminar os nossos dias voltados para ações cada vez mais solidárias, mais amorosas, mais caridosas, humanas e generosas.

Que susto me deu essa declaração do Papa.

Nunca nenhum Papa visitou tantos países e levou tanto a sua bênção para todos os cantos do mundo quanto João Paulo II.

Nunca um Papa canonizou tantos santos quanto ele nestes seus 25 anos de pontificado, um dos quatro mais extensos da história da Igreja, entre eles o do primeiro Papa, o pescador Pedro.

Este homem foi baleado por um terrorista em plena Praça de São Pedro. Este homem é paciente do mal de Parkinson.

Este homem tem sofrido nos últimos anos atrozes dores em um joelho, o que suplicia a sua locomoção em seus graves deveres de líder dos católicos romanos e importante vulto da humanidade.

Podia já ter renunciado e se recolhido à serenidade de uma aposentadoria, mas não desfalece e cada vez mais se incumbe de outros misteres relacionados à sua vocação e liderança.

Com 83 anos, vem se submetendo há vários anos a longas sessões diárias de fisioterapia, tentando manter elásticos os membros, o que por si só o caracteriza como um herói, luta corajosamente contra a doença que lhe corrói o corpo e, embora sentado, mostrava ontem bom humor nas escadarias da Basílica de São Pedro, enquanto recebia os fiéis e pregava para eles, depois da grande melhora de sua saúde nos últimos meses.

Este homem é uma rocha. Uma rocha de conservadorismo, mas também uma rocha de simpatia e de defesa da paz.

No dia em que ele dobrou num carro da Avenida Erico Verissimo e passou aqui na Ipiranga defronte a Zero Hora, eu vi que este era um Papa diferente de todos os outros. Quando é que pensei que na minha cidade, no bairro da minha adolescência, junto do estádio do meu clube, ali na rótula da José de Alencar, um Papa fosse rezar uma missa?

E fosse dizer aqui em Porto Alegre que era gaúcho?

E assim por todos os recantos do mundo ele foi oferecer a sua mensagem de fé, de bondade, de compaixão.

Este homem é um campeão. E declarou ontem ao mundo que é um mortal e está próximo o dia da sua morte.

Só pode ser eterno quem for mortal. Essa foi também a sorte do próprio Cristo.

Eu desde ontem passei a amar este Papa. E vou rezar todos os dias por este grande homem.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




O menino que chora, a moça que ri. É a vida, não é? É a vida. Que é feita de choro e de riso. E que exatamente por isso vale a pena ser vivida. Assim que tenhamos todos nós uma ótima terça-feira, pelo menos eu vou ter professora nova às 9:45 na minha aula de inglês. Vou rever a dona Carla nossa secretária e aquela menina linda, da outra turma, aliás nem sequer seu nome eu sei!!!

Moacyr Scliar
20/05/2003


Menino chorando, moça rindo

No espaço de uma quadra da Protásio Alves, tive dois encontros, para dizer o mínimo, insólitos.

Numa esquina havia um menino chorando. Um menino de uns 10 anos, bem vestido, bem nutrido - não era de fome que ele chorava, mas chorava, de qualquer modo. Perguntei o que tinha acontecido. Não quis responder. Insisti, quis saber se podia fazer alguma coisa. Já irritado, pediu que eu o deixasse em paz e seguisse o meu caminho. Foi o que fiz, meio desconcertado, e, na esquina seguinte, lá estava a moça rindo, sozinha. Desta vez era uma moça pobre, malvestida, e o riso mostrava que lhe faltavam vários dentes. Mas a moça ria, mesmo assim. Não lhe perguntei por que estava rindo - já tinha aprendido a minha lição.

Num mundo em que não faltam solitários e pessoas meio estranhas, não é raro surpreender alguém falando sozinho. Às vezes é uma conversa amena, outras vezes uma verdadeira altercação. Ou então resmungo puro e simples, o que explica aquela velha anedota judaica do homem que foi ao médico queixando-se de que falava sozinho. O facultativo ponderou que isto acontecia com muitas pessoas, ao que o homem suspirou: pois é, doutor, mas o senhor não tem idéia de como eu sou chato.

Um menino que chora sozinho e uma moça que ri sozinha podem ser qualquer coisa, menos chatos. O menino nos remete a esta imensa tristeza que acompanha a humanidade desde o seu nascimento e que justifica a expressão vale de lágrimas. Mas a moça, por alguma razão, nos dá esperanças. Se uma criatura pobre, sem dentes, consegue rir, então nem tudo está perdido. Se o Risco Brasil pode cair, nem tudo está perdido. Se o nosso time dá a volta por cima, nem tudo está perdido.

O menino que chora, a moça que ri. É a vida, não é? É a vida. Que é feita de choro e de riso. E que exatamente por isso vale a pena ser vivida.
scliar@zerohora.com.br




Liberato Vieira da Cunha
20/05/2003


Deus e os sabiás

Você conhece o General Cartaxo? Eu também não. E, no entanto, acredite, cem pessoas pronunciam seu nome todo dia: moro na General Cartaxo, passando o bingo.

Você já ouviu falar no Doutor Rigoberto Alceste? Pois nem eu. E contudo dezenas de criaturas invocam sua graça a cada hora: é aqui na Doutor Rigoberto Alceste, ao lado do shopping.

Não sei quantas guerras venceu o General Cartaxo. Suponho que era indômito nos campos de batalha, que os inimigos temiam sua espada e colossais fortalezas renderam-se à mera visão de suas tropas.

Ignoro que prodígios obrou o Doutor Rigoberto Alceste. Imagino que velava, tresnoitado, à cabeceira dos pacientes, que milhares de desenganados beijaram suas mãos, reconhecidos pela cura, que em dispensários do Alto Purus a simples evocação de seu zelo anime doentes terminais.

Não duvido que os habitantes da General Cartaxo mencionem seu patrono com uma pontinha de orgulho marcial; que os residentes na Doutor Rigoberto Alceste citem o seu com um suspiro de admiração.

Eu, porém, torço solenemente o nariz. Nada contra o bravo militar ou o devotado clínico. Minha implicância é com a multidão de quepes e anéis de grau que infesta o mapa de Porto Alegre. Dê uma conferida: são inumeráveis os coronéis, os marechais, os almirantes; incontáveis os advogados e os engenheiros. E já nem falo de outras freguesias, como a dos duques, marqueses, condes e barões. Pense agora em músicos, em pintores, em atores. Consegue lembrar 10, cinco que sejam, entronizados em parques, avenidas, elevadas? Me indique três dançarinos homenageados em um canto de bairro, dois cineastas, um único acrobata.

E os escritores? Erico e Quintana receberam não mais que o justo. Mas por que não temos uma Alameda Mariana Alcoforado, a monja portuguesa que compôs as mais belas cartas de amor da literatura universal? Uma Travessa Junqueira Freire, o frade baiano que criou versos de uma sensualidade desconhecida nas demais línguas do mundo? Ou, se você detesta hábitos e batinas, que tal uma Praça Rubem Braga? O velho Braga era agnóstico, mas Deus nunca se importou com isso.

Acho mesmo que Deus ia descobrir um jeito de driblar São Pedro e visitar a Praça Rubem Braga e ficar por ali, ouvindo os sabiás. E de repente pensar:

- Ainda bem que esta cidade não desgosta dos cronistas.
liberato.vieira@zerohora.com.br


Reportagem Especial
Lula pede a ministros relatórios mensais



Em reunião que durou todo o dia de ontem na Granja do Torto, o presidente cobrou ¿trabalho em equipe¿ de seus colaboradores e ouviu promessas de maior rapidez no andamento dos projetos ministeriais (foto Roosewelt Pinheiro, ABR/ZH)


Segunda-feira, Maio 19, 2003




Gosto da maneira como ele escreve, da maneira como ele pensa e por tudo o que ele é, por isso reparto o texto abaixo do nosso amigo Dennis, cujo link está aí abaixo para aqueles que quiserem usufruir mais.

Modestas Opiniões e Discretas Revelações de Dennis D

Na semana passada, fui procurado por uma jornalista, repórter da famosa revista "X", de circulação nacional (sim, sim, uma daquelas duas). A repórter queria uma entrevista. O tema: "BLOGS". Claro que todos vocês já haviam adivinhado. Vira e mexe saem reportagens a respeito de blogs e blogueiros. Pois bem, a jornalista foi muito simpática comigo, eu coloquei algumas questões relativas a privacidade e ela concordou. Marcamos um horário, tudo ficou acertadinho para o dia seguinte. Eu fiquei a postos, esperando, mas a jornalista teve algum problema, ficou retida na redação... o fato é que não deu certo.

O outro horário possível, que seria ideal para ela, infelizmente seria péssimo para mim. Resultado: a entrevista não aconteceu. Havia prazos a cumprir, fechamento, urgência urgentíssima... vocês sabem como funcionam essas coisas. Juro que não fiquei decepcionado. Penso, inclusive, que há muita gente boa no mundo dos blogs, bem mais indicada do que eu, e que poderia render ótimas entrevistas. Espero que a repórter tenha conseguido colher as opiniões desse pessoal extrovertido e espirituoso (há blogueiros que dariam a alma e todos os furinhos do corpo para aparecer nas páginas daquela revista, eu imagino).
Hoje, acordei com uma pergunta na cabeça: "Afinal, o que eu poderia dizer em uma entrevista?"
Se fosse explicar a minha relação com o Caderno Mágico (relação amor/ódio, não nego), talvez dissesse coisas simples, bobas, coisas que interessariam mais a mim do que aos outros...

Esta minha página nasceu no dia 1 de novembro de 2001. Nas primeiras vinte e quatro horas em que esteve no ar, lembro-me muito bem, ela recebeu apenas 2 visitantes (um deles fui eu mesmo, é óbvio, e o outro... suspeito que tenha sido alguém que estivesse experimentando títulos de blogs no blogspot) Bem... fechada a primeira semana, contabilizei 14 acessos. Ingênuo, já me entusiasmei: "Estão lendo! Estão lendo!" Que ridículo, não?

Hoje, o Caderno Mágico recebe uma média de 3 mil visitantes por semana ¿ quantidade que eu considero assombrosa, mesmo sabendo que grande parte dessas pessoas chega por meio do Google e de outros sistemas de busca, interessada em ver coisinhas singelas como "xoxotas depiladas" ou "negros pelados e bem dotados"! De qualquer modo, essa média de 3 mil visitantes/semana pode ser considerada milagrosa, se considerarmos que o Caderno Mágico não comenta a vida de artistas de TV, nem oferece dicas para vencer no Counter-Strike. Meu blog tem poucas imagens, poucas fotos, quase nada de política... 95% do que se encontra aqui são textos ficcionais.

Foi gratificante descobrir que o Caderno Mágico é acessado lá do Harry's Bar, aquele famoso bar e café de Veneza. Sinto grande satisfação quando me dou conta de que tenho leitores fiéis espalhados por muitos países: Áustria, Portugal, Espanha, França, EUA, Inglaterra, Canadá, Itália, Japão, Argentina, Chile... Imaginem que já recebi emails de um leitor brasileiro que está vivendo na Índia. Não é prazeroso saber que seus textos chegam a lugares tão distantes? Eu acho!

No momento em que se alcança um número expressivo de visitas semanais, como no meu caso, é claro que existe aquela sensação de vitória. Eu poderia até acreditar que fiquei famoso, que sou "importante", e coisa e tal (há gente que se lambuza com bem menos manteiga)... Infelizmente, não tarda e descobrimos que uma putinha marajoara qualquer (nada contra putinhas ou contra marajoaras), dessas que mandam tatuar figurinhas Hello Kitty nas nádegas morenas, montou seu bloguito, encheu a página toda com imbecilidades e ¿ PASMEM! ¿ consegue manter mais de 5 mil acessos/dia. Aí, diante disso, você despenca rapidamente das ilusões de grandeza e percebe que os contadores podem ser uma armadilha para apanhar otários.

Se o blogueiro se deixar levar pelo que indicam os contadores... logo estará paranóico, fazendo gracinhas descabidas, simulando suicídio, ofendendo Nossa Senhora Aparecida, tudo para não perder os sacrossantos visitantes. O triste, para quem pretende fazer do seu blog um trampolim para o sucesso, é que ¿ normalmente ¿ a popularidade de um blogueiro não rende porcaria nenhuma em termos de dinheiro, de emprego ou de oportunidades comerciais concretas. Alguns de vocês podem dizer: "Mas a fulana de tal e o cicraninho estão publicando seus livros e aparecendo na televisão!" Então eu lhes digo: ótimo, parabéns a eles, mas isso realmente é garantia de uma carreira de sucesso? Essas pequenas bolhas de popularidade significam o quê?

Por falar em sucesso, Fernandinho Beira-Mar é tão famoso quanto Lula, não é? Se Fernandinho Beira-Mar escrevesse um livro... vocês têm alguma dúvida quanto ao sucesso imediato que a obra alcançaria? E daí? Paulo Coelho é "imortal" da ABL, ao lado de José Sarney, Ivo Pitanguy... Uma pessoa realmente sensata leva a ABL a sério? Se a pessoa for verdadeiramente sensata, nem se preocupará com popularidade. Proust foi recusado por todos os editores de Paris, jamais conheceu qualquer popularidade, já cansei de dizer isso, meus caros.

O resumo da ópera é: um blog pode ser uma via de expressão maravilhosa, prática, gratificante, e também pode ser uma vitrine destinada a exposição de misérias humanas, tolices, vaidades, ignorâncias que deveriam estar bem escondidas, caso as pessoas tivessem um mínimo de vergonha na cara. Aliás, a mera vaidade e o mero desejo de obter fama não justificam o trabalhão que é manter uma página atualizada na Internet.

Sempre digo que só deveria manter um blog a pessoa que realmente tem algo a dizer. Quem fica desesperado a procurar assuntos para "preencher" o espaço de um post... obviamente não tem nada de significativo a dizer. Então que se aquiete, ora! Vá trepar, vá beber pinga, plantar tomates, tomar cerveja com os amigos, ler a revista Caras, vá fazer qualquer coisa que realmente lhe traga prazer.

Outra pergunta que sempre me faço é: por que essas blogueiras (elas, principalmente elas) adoram de se passar por uma Lady Norah Mary Mac Murlock, com parentes na Casa Real da Escócia, quando são apenas Benedita Pinto, com parentes no Bingo Real de Ceilândia? Pobre tem sempre essa mania de se fazer passar por aristocrata. Desde que o mundo é mundo eles fazem isso. Coisa irritante! Com muitos blogueiros, principalmente com blogueiras, essa doença se potencializa ainda mais. A bosta do ser humano enfermo inventa uma personagem para si mesmo e acaba por acreditar que é aquela personagem. Comportamentos assim despertariam até compaixão, se não causassem tanto nojo. Eu me enojo, vocês não?

Meu blog já foi palco de brigas muito famosas. As batalhas duravam dias e as caixinhas de comentários contabilizavam 120, até 180 mensagens deixadas. Fui atacado por todo tipo de lixo humanóide: invejosos, comunistas irados, gente fracassada, tarados, profanos, religiosos fanáticos... Até um fulano literalmente louco andou por aqui, dizendo asneiras e enviando toneladas de emails insanos, repletos de ameaças explicitas. Ofensas pessoais, então, eu já recebi tantas que até acabaram funcionando como "vacina". Atualmente, juro, só saio do sério se a cavalice for monstruosa. Caso contrário, apenas dou risada desse tipo de ataque gratuito.

Muitas vezes eu desanimo, fico profundamente deprimido, penso em fechar o meu blog, tirar todos os arquivos do ar e sumir para sempre. Geralmente, o que me arrasa são as injustiças que eu vejo por aí. Existe tanta gente de altíssima qualidade, tanta gente jovem e talentosa, e que está fechando seu blog porque não recebe visitantes. Sentem-se tolos, escrevendo para o vento... Por outro lado, há indivíduos sórdidos e burros, estelionatários da palavra, analfabetos funcionais, deitando e rolando na ilusão de que são "celebridades".

Tudo porque recebem milhares de visitantes a cada dia. Ah... se eu tivesse condições, juro que adoraria patrocinar a carreira de todos os blogueiros verdadeiramente talentosos. No fundo, mesmo reclamando, eu sei que tudo está perfeitamente correto. Vejamos: a maioria dos brasileiros e burra, atrasada, tem horror a livros... Essa gente vai procurar que tipo de leitura na Internet? Nem é preciso responder, concordam? Se há tanta oferta de lixo, obviamente há demanda por lixo. Entupam-se, pois!

Muita gente monta blog para fazer dele um trampolim. São pessoas que querem, ou precisam desesperadamente, se tornar conhecidas para obter empregos em jornais, revistas, para tentar publicar livros (geralmente os livros de blogueiros são um porre de pinga ordinária). Não, não acho que esses objetivos sejam condenáveis. Cada um que use seu blog como quiser. No meu caso, o blog já é a concretização do objetivo. No instante em que coloco um texto na página, e sei que ele será lido e (espero em Deus!) compreendido, já me dou por satisfeito. Portanto, meu blog é, simultaneamente, um meio e uma finalidade.

O Caderno Mágico, todos sabem, é um blog de contos, contos originais, todos de minha autoria. É também um blog de crônicas e de opiniões. Como não tenho patrocinadores e nem pretendo conquistar fama, sinto-me absolutamente à vontade para dizer tudo o que penso a respeito de qualquer assunto. Escrevo com total liberdade, controlado apenas pelo meu bom senso pessoal e pelo gosto (bom ou mau) que desenvolvi ao longo da vida. Sou grato, muito grato aos que gostam do que eu escrevo, aos que percebem a honestidade da minha literatura. Quem não gosta do que publico no Caderno Mágico, ou acha que sou dramático demais, ou simplesmente valoriza outros estilos... está no seu direito. Vá procurar quem lhe agrade e vá, também, tomar no cu. Não estou nem aí. Lá-ri-láááá!

As histórias que eu escrevo nunca retratam a vida de pessoas comuns, de pessoas preocupadas com a educação dos filhos ou com as prestações que vencem no final do mês. Crio histórias com personagens estranhas, envolvidas em situações igualmente estranhas. É um barão que se torna amante de uma mulherzinha com 75 cm de altura, ou é uma apresentadora de tv que, durante um programa ao vivo, resolve confessar seus segredos, ou são duas putas brigando na esquina por causa de um gigolozinho meia-boca. Adoro histórias de assassinatos, de loucura, de solidão... Adoro temas bizarros. Sou estranho, pô! Estranho, melancólico, o que não me impede de escrever textos bem humorados.

Por meio do Caderno Mágico eu conheci muitas, muitas pessoas. Parte delas, inclusive romancistas, poetas, jornalistas, gente que se dedica seriamente ao ofício de escrever, ou leitores que se identificam com minha maluquices literárias, acabou fazendo parte do meu mundo pessoal, e eu os tenho como amigos queridos.

Meus leitores, leitores e amigos da Internet, vivem a perguntar quando irei publicar um livro de contos. Pois bem, agora vou revelar algo a meu respeito, algo que nunca revelei, desde que inaugurei este Caderno Mágico: já tenho vários livros publicados! Sim, vários livros, e estão nas prateleiras das principais redes de livrarias: Saraiva, Siciliano, todas elas. Publiquei e publico livros com outro nome, não com o nome Dennis D.. Tenho contrato com editoras, não misturo as coisas. Há livros meus que são adotados em escolas, não quero, não devo e não posso misturar estilos. Mesmo assim, como ainda não publiquei nada com o nome Dennis D., pretendo fazê-lo, sim, até o final deste ano.

Não, não estou procurando novos leitores, outros nichos de mercado... Sei perfeitamente que tudo o que está no Caderno Mágico, todos os contos, são material volátil. Basta o Blogger sofrer uma pane qualquer e meus textos acabam sumindo de vez. Por isso acho importante fixar os contos do Caderno em papel, num veículo físico, tridimensional. Um livro pode durar séculos... ou sumir do mapa em 2 anos, tudo bem ¿ só que não é tão vulnerável quanto esses misteriosos impulsos elétricos que desenham letras em uma tela de computador.

Por favor, não venham agora pedir a lista dos meus livros já publicados. Não darei a lista. Nunca mencionei esses títulos aqui. Seria até interessante divulgar... mas tenho um problema sério: eu estaria dando, ao mesmo tempo, certas informações a meu respeito... Não, não seria bom para mim. Meus livros seriam "expulsos" dos Colégios que os adotam. Assim é a vida. Tudo é um jogo, precisamos conhecer as regras e jogar direitinho.

De certa forma, o fato de eu saber que me é relativamente fácil publicar um livro, no momento em que eu quiser, faz com que eu desfrute uma espécie de tranqüilidade. Meus amigos sabem que já recusei aparecer na TV Globo, que não quis ser entrevistado por um famoso, famosíssimo apresentador. Por que eu iria? Não preciso daquilo, não gosto do tal apresentador, as editoras com as quais trabalho estão vendendo bem os meus títulos. Ah... uma coisa que não quero é ficar me expondo inutilmente. Sou doido? Sou esquisito demais? Sim, pode ser.

Eu sofro, choro, sou um atormentado, cheio de defeitos irritantes, mas... a vaidade não me lambe o cu. Juro, a vaidade não me lambe o cu! Estou cagando para fama, homenagens, reconhecimento público.
Agora, então, depois que vi minha mãe sumir do mundo em menos de 40 dias... Depois que passei a visitar diariamente uma UTI, bem sei quão pouca coisa nesta vida merece ser levada a sério. Vaidade é pinga que não me seduz. Detesto pinga, fiquem sabendo. Detesto até o cheiro que ela tem. Continuando...

Nunca, em toda minha vida, eu lancei qualquer dos meus livros com essas tais noites ou tardes de autógrafos. Nunca pretendo fazer isso, nunquinha. Não gosto desse tipo de coisa, fico muito constrangido... começo a perceber o imenso ridículo da situação, mesmo quando estou na noite de autógrafos de outras pessoas. Só concordo, vez por outra, em falar a estudantes, falar em colégios. Mesmo assim, vou para não causar problemas a uma das editoras. A colocação de títulos nos colégios é sempre muito concorrida, eu compreendo a situação comercial toda.

Não, não estou rico. Qual! Vivo bem, sim, porque mereço. Ou melhor, fiz por merecer. Sempre fui de muito trabalhar, não sou de tirar férias nem de cultivar preguiças. Sou daqueles raros brasileiros que odeiam feriados. Meu trabalho é criar; criar me faz feliz. Reclamo e trabalho, trabalho e reclamo, não há um dia sequer em que eu não resmungue e crie algo. Não sei ficar sem fazer nada, olhando as folhas do coqueiro. Sou paulista defumado na poluição, tenho o vicio do trabalho entranhado nas carnes.

O Caderno Mágico vai continuar até quando? Já me perguntei isso tantas vezes... Não sei. Vou seguindo, enquanto puder, enquanto me fizer bem. Não faço nada por obrigação. Já fiz muito, já me submeti a coisas que até Deus duvida. Já fiquei horas e horas plantado em salas de espera de empresas, com um layout debaixo do braço e um roteiro de argumentos na cabeça.

Por fim, eu era recebido por um empresário tão rico quanto burro, que adorava desmontar minhas idéias... apenas para colocar algo de "seu", sua "marquinha pessoal", sua criatividade de merda. Isso já passou. Uff! Estou na meia idade, minha gente. Não sou rapazinho. Meu saco explode fácil, não devo eu mesmo abusar deste meu sofrido sistema nervoso. Quero ficar no meu canto, criando coisas para meus leitores. Quero provocar riso, lágrimas, espanto, raiva, inquietação, repulsa, compaixão... Não quero nada mais, isso já está de muito bom tamanho.




Como turbinar sua criatividade

Não existe fórmula mágica para inovar, mas há coisas que você pode fazer para facilitar o fluxo de novas idéias

Por Marcos Hashimoto

No artigo anterior apresentei os motivos que levaram Israel a transformar a criatividade do seu povo em bons negócios, segundo uma pesquisa feita pelo grupo Cisneros. As causas deveriam inspirar o Brasil a fazer o mesmo. Aqui, o foco é mais em você. Como fazer para ampliar o espectro da sua criatividade. Conheça alguns atalhos que podem facilitá-lo a ter boas idéias para a vida ou para sua carreira:

Desafie as regras todos nós, sem exceção, somos doutrinados a seguir regras desde a infância. "Não faça isso". "Não suba aí". "Isso é errado". "As pessoas não fazem assim". Cada não que ouvimos é uma espécie de tijolo que colocamos em paredes. Estas paredes formam caixas que nos cercam, nos protegem e permitem que sejamos aceitos socialmente. Ao chegarmos à idade adulta, o fato de estarmos encerrados nestas caixas do pensamento impedem que visualizemos uma realidade fora deste mundo de regras.

Existe um jargão típico entre os consultores de criatividade: "pensar fora da caixa". Na verdade, isso nada mais é que desafiar estas mesmas regras que nos podam o pensamento inovador e imaginar como ficaria cada situação se não houvesse regras, se não estivéssemos presos aos paradigmas sociais e legais que formam os paradigmas do que é certo fazer, do que é correto e aceito pelas pessoas. Pensar fora da caixa é criar situações em que você possa se desvencilhar das convenções e normas e elevar o pensamento para encontrar soluções inovadoras e criativas.

Dê um toc na cuca muitas vezes precisamos que alguma coisa aconteça em nossas vidas para que saiamos do marasmo da rotina e impulsionemos nossa mente para explorar todas as possibilidades para lidar com situações adversas. Um toc na cuca pode ser dado por uma demissão, a perda de um parente próximo, uma viagem inesperada, um assalto, ou uma coisa positiva também, como uma promoção, um elogio vindo de alguém que você não esperava, regando o jardim.

Uma parábola conta como dois monges foram bem recebidos por uma humilde família que repartiu o pouco que tinha para recebê-los e ofereceu sua casa para o pernoite. Ao saber que tudo que eles tinham era graças a uma vaca que lhes dava leite para beber e vender, o monge mais idoso ordenou seu colega que empurrasse a vaca penhasco abaixo no meio da madrugada. Sem entender, o jovem monge obedeceu. Na manhã seguinte, bem cedo, antes de todos acordarem, eles se foram.

Depois de alguns anos, o jovem monge fez o caminho novamente e quis matar a curiosidade sobre o fim que levou aquela família. Qual não foi a sua surpresa ao descobrir que no lugar do casebre havia uma boa casa, crianças saudáveis brincavam no jardim e tudo estava bem cuidado e com sinais de prosperidade. Ao indagar o dono da casa, ele descobriu que sua vida mudou depois que sua vaca morreu. Ele e a família foram obrigados a buscar outro meio de sobreviver e então descobriram tudo o que eles poderiam fazer e assim reverteram suas vidas miseráveis. Tudo graças à morte da vaca que os sustentava. Você se lembra da frase: A necessidade é a mãe da invenção?

Divirta-se - bem, se a necessidade é a mãe da invenção, o divertimento é o pai dela. Minhas melhores idéias surgem quando estou brincando com meus filhos, ou em uma boa conversa em um bar com amigos. Os momentos de descontração aliviam a mente para navegar solta, com as defesas abaixadas, sem bloqueios e sem a preocupação com as exigências e normas a serem seguidas. Na verdade, você não precisa necessariamente se divertir, basta se distrair.

O importante é sair do contexto da situação que você está precisando resolver. Se alguém te perguntar qual é o momento em que você mais precisa ser criativo, com certeza, as principais respostas seriam algo como: "Quando tenho um problema para resolver", "Quando tenho uma necessidade para atender" ou "Quando o prazo está se esgotando". Mas, se te perguntarem qual é o momento que as respostas vêm com mais facilidade, ouve-se algo como: "Quando estou fazendo alguma coisa não relacionada com o problema", "Quando estou só me distraindo" ou "Quando estou relaxado".

Anote tudo talvez você não se dê conta, mas nossa mente trabalha o tempo todo, nunca tira folga, e, justamente nos momentos de descontração ou que se está fora do problema é que ele pode encontrar uma grande solução. Se você estiver focado no problema, com certeza se lembrará da solução depois de algum tempo. Só que nestes momentos, idéias espontâneas surgem, aparentemente do nada, e lamentavelmente a maioria é descartada antes de tomar forma, simplesmente porque forçamos a mente a focar no que é preciso pensar naquele momento.

Como o lado direito do cérebro não sabe respeitar regras, ele insiste em levar seu dono para viajar nos momentos mais impróprios. Não restrinja sua mente de dar as suas viajadas ocasionalmente. Tenha sempre em mão papel e caneta para anotar qualquer coisa nova que surja. Depois, ao reler, pode ser que você simplesmente dê algumas risadas e jogue o papel fora, mas pode ser que ela venha a se tornar uma grande sacada para o seu negócio, sua vida ou seu trabalho.




Desperte sua intuição

Por que você acorda no meio da noite com aquela idéia brilhante na cabeça? Isso é nada mais do que o sexto sentido em ação. Aprenda como estimulá-la

Por Marcelo Aguilar

Alguns leitores comentaram o artigo anterior, sobre os cinco sentidos físicos, e indagaram sobre o nosso ¿sexto¿ sentido: a intuição! Fala-se tanto, atualmente, que um bom profissional é aquele que tem uma boa dose de intuição. Mas como funciona isso exatamente? Podemos começar pelo relato do sonho que levou a uma importante descoberta científica de Friederich Kekulé, um grande bioquímico alemão que viveu no século 19: ¿Virei minha cabeça e adormeci... uma vez mais, os átomos estavam cabriolando diante dos meus olhos. Dessa vez, os grupos menores se mantinham modestamente no fundo. Meu olho mental, que se tornara mais aguçado em virtude de repetidas visões desse tipo, podia agora distinguir estruturas maiores, com múltiplas conformações; longas fileiras, às vezes encaixadas mais firmemente umas às outras; todas dobrando-se e curvando-se, num movimento semelhante ao feito por uma cobra.

Mas, olhe! O que foi aquilo? Uma das serpentes tinha abocanhado a própria cauda, e o conjunto rodopiava zombeteiramente diante dos meus olhos. Acordei como se tivesse sido despertado pela luz de um relâmpago...¿ Esse sonho o ajudou a entender como as moléculas de diversos componentes orgânicos se organizavam em uma estrutura em forma de anel hexagonal, e o tornou famoso.

Intuição é um assunto espinhoso e alguns confundem com misticismo. Sua existência é aceita e comprovada por diversos testes, mas ainda não se conhece todo o seu mecanismo. A definição no dicionário de filosofia nos diz que filosofia "é o poder de obter conhecimento que não se pode adquirir pela inferência ou observação, nem pela razão ou experiência¿. Traduzindo: é algo que surge ninguém sabe de onde, nem como! Isto não parece muito animador mas, apesar desta aparente barreira, sabe-se coisas muito importantes, tais como o que favorece e o que atrapalha a intuição das pessoas.

Vamos usar o caso de Kekulé como exemplo. A ciência identificou que nossa capacidade de percepção aumenta quando as nossas ondas cerebrais diminuem. Estas ondas podem ser medidas por aparelhos de eletro-encefalograma e variam de 1 a 21 ciclos por segundo (Hertz). Existem aparelhos, mais complexos, que medem a freqüência delas em cada parte do nosso cérebro. Algumas pesquisas associaram o aumento de percepção de nossos cinco sentidos à queda da freqüência da onda cerebral na região do cérebro que o controla. Ou seja, vemos, cheiramos, sentimos melhor se nossa freqüência cerebral baixa naquela região do cérebro. A freqüência média não pode baixar demais porque senão dormimos, como aconteceu com o bioquímico alemão.

Nossa freqüência cerebral diminui quando relaxamos. Quando fazemos meditação, introspecção, ioga ou, simplesmente, controlamos nossa respiração. Quando estamos ansiosos, ou participando de uma reunião tensa, a freqüência sobe e prejudica a percepção de nossos sentidos e, principalmente, a utilização de nossos conhecimentos tácitos e adquiridos.

Somente a diminuição da freqüência cerebral melhora nossa intuição sobre as coisas? A resposta é um sonoro: NÃO! Kekulé era estudioso e perseverante. De nada adiantaria que eu caísse no sono e tivesse o mesmo sonho que ele, pois meus conhecimentos de bioquímica são básicos. Acho que cada um de nós já teve sonhos reveladores na vida. Deitamos e acordamos com a solução. Muitas vezes são soluções simples que sempre estiveram na nossa frente, mas não as enxergávamos. Precisa acontecer uma combinação de coisas para que ela surja do fundo desta massa cinzenta dentro de nossa caixa craniana.

É possível melhorar nossa intuição? Sim. Mas, como Kekulé, precisamos das seguintes variáveis:

um objetivo bem definido, e se envolver ¿paixão¿, melhor ainda;

estudar e pesquisar continuamente, pois isto ajuda a aumentar o número de sinapses entre nossos neurônios; e

manter seu nível de freqüência cerebral médio abaixo de 17 Hertz, chamado estado alfa, com exercícios de respiração, ioga, aikido, entre outros

Sem objetivos definidos, nem esforço e perseverança, estamos fadados ao insucesso. Portanto, aprenda a controlar sua respiração, dedique-se com paixão ao que você faz e estude o resto de sua vida. Isto certamente vai aumentar a sua intuição. Aquela intuição do tipo que é aceita cientificamente.




Os normais

Los Hermanos lançam terceiro CD e não fazem questão de posar de roqueiros radicais. Em vez de marra, letras sobre dúvida, amor, alegria, sentimentos comuns a todos
Eusébio Galvão

Diz a letra de Cara Estranho, primeira música do disco novo da banda Los Hermanos, Ventura, a ir para as rádios: Olha ali/ quem está pedindo aprovação/ não sabe nem pra onde ir/ se alguém não aponta a direção. Boa tradução de um certo sentimento de dúvida que todo mundo tem em algum momento da vida. E é, de certa forma, como eles costumam encarar o mundo à sua volta. A gente afirma a lacuna, a possibilidade, explica Marcelo Camelo, guitarrista e vocalista, para troça de Rodrigo Amarante, companheiro de grupo: Que bonito, isso!.

Nem é que eles se sintam desesperados, angustiados, nada. Não é discurso do perdedor, mas de uma pessoa normal. Que ganha e perde. Está triste num dia e feliz no outro, explica o tecladista Bruno Medina. Os Los Hermanos preferem ser como nasceram, em vez de forçar uma pose que poderia fazer deles heróis do rock, porta-vozes de uma geração ou algo que o valha. Nem é que a gente seja super sensível. Só nos sentimos bem com a vida que levamos, diz Amarante, guitarrista e vocalista.

A conversa cai numa certa dificuldade que alguns têm de encaixar a banda no contexto da música jovem nacional. Realmente, a gente não é um grupo que tenha alguém com quem se identifique sempre, faça show. Nosso discurso é diferente, diz Bruno. Por sermos uma das poucas bandas de pop rock que não fazem discurso de afirmação, de virilidade, de poder, ficamos um pouco isolados¿, acredita Camelo.

De fato, são poucas as bandas hoje em dia que cantam letras como a de A Outra, escrita por Camelo sob a ótica de uma mulher traída. Partir de outros pontos de vista é um exercício de percepção. É a chance que você tem de se passar por outra pessoa, conta Camelo. Existe uma coisa no Camelo que é feminina, bota pilha Amarante outra vez.

No fim, o que a banda deseja mesmo é poder ser o que quiser. Nascidos e criados no Rio de Janeiro, são cariocas como qualquer outro, apesar do bronzeado-escritório e das longas barbas. A imagem do carioca pode ser o estereótipo de quem corre na praia, mas há também quem fique aqui do outro lado da calçada, defende Amarante. Assim, eles reivindicam para si o papel de uma banda que não tem a necessidade de vender um milhão de discos, mas de fazer bons álbuns. Alguns ganham disco de ouro e sempre se cobram por outro. Prefiro vender 50 mil, depois 70..., explica Bruno. Caras normais planejam o futuro também.




José Simão
simao@uol.com.br


Buemba! Heloisa Helena vira patricinha!

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! Socorro! Cuidado! Todos para o abrigo! Heloisa Helena vem aí! E eu sou contra a expulsão da Heloisa Helena, vulgo Fogo Amigo! Ela devia pagar prenda. Deviam dar um castigo. O castigo seria ela levar uma vida de patricinha. 1) Cortar aquele rabo-de-cavalo e fazer chapinha. Ia ficar a cara da Fátima Bernardes. 2) Passar o dia no shopping. Porque patricinha é uma idiota com cartão de crédito. 3) Dormir abraçada com um Piu-Piu de pelúcia. 4) Não perder um só capítulo de 'Malhação'!

E nada de ficar lendo 'O Capital', de Marx. Só o pensamento vivo da Ana Maria Braga. Ops, Anameba Brega! E nada dessa história de marxismo cristão, que Jesus era camarada. Ia ter que virar carismática. Fã do padre Marcelo. Rarará! Esse castigo ia ser pior que pena de morte. Pior que cadeira elétrica do Bush! Pior que o paredón do Fidel!

E duvido que qualquer companhia aérea tenha peito de comunicar à Heloisa Helena que ela não pode embarcar porque tá dando overbooking. Ela ia cuspir fogo. Vomitar verde! Ela ia cuspir fogo e vomitar verde! E ela virou performática, multimídia. Ela não está mais dando declaração, está dando show. Ela vai dar uma palestra no Maranhão e o convite é: 'Sarney que se cuide, Heloisa Helena vem aí'. Rarará. E uma amiga minha, quando a neta não quer comer, ameaça: 'Se você não comer tudo, eu chamo a Heloisa Helena'. Rarará.

E a Heloisa Helena virou gíria. É verdade. A gíria é: baixou uma heloisa helena. 'O cara quis folgar comigo, mas aí baixou uma heloisa helena e eu botei ele pra correr.' E aquela amiga minha que achou uma gata na rua e a gata se revelou uma encrenqueira, arranha todo mundo. E aí ela batizou a gata de Heloisa Helena. Rarará. É mole? É mole, mas sobe!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais três verbetes pro óbvio lulante. 'Taxativa': a prefeita Marta. 'Cornucópia': clone de chifrudo. 'Contra-regra': Heloisa Helena. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!




Paulo Sant'ana
19/05/2003


Acumulou-se a esperança

Evidente que tinha de acumular a Mega Sena. Como é que um apostador ia acertar as dezenas 02, 03, 07 ao mesmo tempo. São três dezenas iniciais, pegadinhas umas das outras.

Então para quarta-feira vão ser distribuídos cerca de R$ 30 milhões, o que aguça a cobiça e o sonho das multidões.

É muito dinheiro. Até quem não é dado a apostar fica tentado a fazer a sua fezinha. O imaginário das pessoas fica repleto de fantasias sobre botar a mão numa bolada destas, ajudar a família e os amigos, ficar pelo resto da vida sendo sustentado por rendimentos que vão da ordem de centenas de milhares de reais por mês, só de juros.

É muito dinheiro. E logo se traduz como muita felicidade.

Mas a mim me ocorre imbecilmente que uma fortuna destas pode trazer grandes embaraços a quem a ganhar. Só que todas as pessoas a quem digo isso me respondem que gostariam de ter essa dificuldade.

É a mesma história daquelas pessoas que dizem que gostariam de pagar uma fortuna de imposto de renda por mês, enquanto que os que a pagam choram por serem assim brutalmente tributados.

Faz bem sonhar com a Mega Sena. Enquanto se sonha, esquece-se da pobreza. Só até a próxima extração.

Agora este menino encontrado assassinado dentro de uma vala, na cidade de Soledade. Era apenas um dos quatro outros garotos desaparecidos, teme-se que todos tenham sido mortos pelo mesmo assassino.

Imagine-se a tensão em Soledade. Há muito tempo que a violência deixou de ser monopólio da Grande Porto Alegre. Ela se espalhou por todos os recantos do Rio Grande. Desde o seqüestro até os assaltos a banco, nenhuma cidade pequena, destas que eram antes ilhas paradisíacas de serenidade, nenhuma aldeia gaúcha está livre da brutalidade.

As autoridades e seus agentes se esforçam no combate à violência, mas ela vence todas as amarras e se projeta para além das forças das polícias, superando todas as estatísticas.

Basta que se olhe para as últimas edições de Zero Hora, em que ficou afirmado que, nos últimos dois anos, a população carcerária cresceu 13 vezes mais que a população das ruas.

Não há mais onde se botar tantos detentos. O Presídio Central já abriga 2 mil presos, quando sua capacidade ideal é de 600. Estão amontoados.

Beira um colapso geral.

O futebol ainda é o melhor refúgio de amenidades. Mesmo empatando ontem, o Cruzeiro ameaça disparar na liderança e tornar este campeonato nacional sem graça, antes mesmo de virar para o segundo turno.

O Internacional deixou escapar ontem a chance de igualar-se ao líder, agora terá de enfrentar o Santos e aí pode despegar-se do Cruzeiro e ver um abismo separar o vanguardeiro das outras 23 equipes.

Quanto ao Grêmio, está mesmo destinado a dar uma importância única à Libertadores e com a derrota de ontem meio que se despede da chance de ser campeão brasileiro.

O que é que se vai fazer? Se a Libertadores é mesmo a grande chance do Grêmio de se tornar ilustre no ano do seu centenário, atiremo-nos a ela com todas as forças.

O jogo de quinta-feira contra o Independiente colombiano, no Olímpico, é vital. Se fizer escore, o Grêmio já estará entre os quatro semifinalistas.

É a hora de a torcida encher o estádio e lutar junto com o time para este grande sonho. Viu-se mesmo que é impossível, como o Tite declarou, manter um time interessado em dois campeonatos.

Isso quer dizer que o time está interessado unicamente na Libertadores. Pois então que seja um interesse insuperável.

Ser o primeiro time brasileiro campeão três vezes da Libertadores é uma glória máxima que está ao alcance do Grêmio e da sua torcida.

Quinta-feira é dia para 50 mil gremistas no Olímpico.
psantana.colunistas@zerohora.com.br




Luis Fernando Verissimo
19/05/2003


Cronômetro e literatura

O George Steiner diz que existem dois tipos de filósofos ocidentais, os que, como Platão, Descartes, Spinoza, Pascal e Wittgenstein, entre outros, usam a matemática como referência para entender o mundo e dão mais valor a códigos e padrões do que ao discurso e à especulação, e os que, como Tomás de Aquino, Hegel, Nietzsche, Heidegger e Sartre vão fundo nas motivações humanas e preferem a História e suas surpresas às equações e suas certezas. No fim, o que os diferencia é o modo de encarar o tempo: há o tempo mensurável do matemático, sem o qual a ciência e a tecnologia seriam impossíveis, e há o tempo como durée, ou duração, experimentada pelo ser em constante devir, o passado e o futuro articulados pela memória e pela imaginação, de maneiras que a ciência não explica. O cronômetro contra a literatura.

Os filósofos "matemáticos" não representam a razão sem alma, assim como os outros não partem, necessariamente, de uma premissa metafísica (não se imagina Sartre começando por Deus), mas a oposição ciência/religião era parecida com a oposição cronômetro/literatura. Todas as grandes religiões são construções literárias, narrativas episódicas, histórias de homens santos ou a caminho da santidade e seu devir no mundo. Já a ciência lida com a reincidência, com fenômenos sem história, sem caráter e sem desenlace, com o que é e não com o que acontece. Mas isto mudou com o surgimento da teoria e as subseqüentes experiências com a mecânica quântica, quando a ciência subitamente, fascinantemente, adquiriu características literárias - como, por exemplo, a ironia. Hoje se sabe que certas partículas subatômicas se comportam de um jeito quando são observadas e de outro quando não são. Há partículas imprevisíveis como heróis picarescos e temperamentais como divas. O mundo natural, ai de nós, também tem sua retórica e também pode ser uma narrativa rumo a uma epifania ou mais. Vá entender.

Descobri que quando a gente começa a ficar muito filosófico, é hora de tirar férias. É o que vou fazer, antes que seja tarde. Volto lá por 19 de junho. Tchau, gente.


Domingo, Maio 18, 2003




Mario Prata

Filho É Bom, mas Dura Muito
para Dídia e Alberto

APROVEITA AGORA, porque, depois que o seu filho nascer, você nunca mais vai ter sossego na vida. Você nunca mais vai dormir.

Aproveita agora, que ele ainda não tem cólicas noturnas e ainda mama nas horas certas, porque depois a sua vida se transformará num verdadeiro inferno noturno.

Aproveita agora, que os dentinhos dele não começaram a nascer porque, quando isso acontecer, não vai ter Nenedent que acalme nem ele nem você.

Aproveita agora, enquanto ele não engatinha, porque, quando começar a arrasar a casa e a derrubar cadeiras e bibelôs e lustres e a comer jornal, só vai dar dor de cabeça.

Aproveita agora, antes que ele comece a andar. Aí acaba o sossego. E o perigo dele bater a cabeça nas quinas das mesas, cair e meter a boca no chão, puxar panela no fogão. É um transtorno, filho andando. Ele correndo pela casa e você atrás.

Aproveita agora, enquanto ele ainda não está na fase do "por quê?", porque depois você não vai conseguir ler nem jornal nem livro e nem ver televisão. E vai ter que explicar sempre o inexplicável.

Aproveita agora, que ele ainda não sabe ler e pedir o que quiser no restaurante. A única vantagem dele saber ler é você não precisar ficar traduzindo os filmes para ele.

Aproveita agora, enquanto você programa as férias dele e ele ainda não ouviu falar na Disneyworld, porque você vai ter que pegar filas de duas horas e enfrentar montanhas-russas no escuro.

Aproveita agora, que ele ainda não é tarado por música, porque, quando ele resolver ouvir "música" na sua casa ¿ com ou sem os amigos ¿ até os vizinhos mais simpáticos irão reclamar. E não pense que ele vai tocar aquelas músicas do seu tempo, não.

Aproveita agora, que ele ainda não entrou na adolescência. Pois, quando entrar, você nunca mais vai ter sossego, nunca mais vai dormir. Não se esqueça da íntima relação entre a palavra adolescência e adoecer. Não ele, mas sim você.

Aproveita agora, que ele ainda não está nem fumando maconha e nem acabando com o seu uísque e com aquela cervejinha que você tinha certeza que estava na geladeira te esperando do trabalho.

Aproveita agora, que ele ainda não está andando em más companhias, porque você vai ter que aturar figuras saídas sabe-se lá de onde, com cabelos brincos e tatuagens com que você jamais poderia imaginar um dia conviver.

Aproveita agora, que ele ainda não tomou nenhuma bomba e você ainda acha que ele é tudo que você sonhou, porque, quando ele repetir de ano, você fará ¿ para você mesmo ¿ a eterna pergunta: "meu Deus, onde foi que eu errei?"

Aproveita agora, que ele ainda não decidiu que faculdade cursar, porque a escolha dele não vai nunca coincidir com os planos que você fazia para ele, quando ele ainda engatinhava.

Aproveita agora, que ele ainda não entrou na faculdade, porque, quando entrar, vai pedir um carro para ele ou usar o seu.

Aproveita agora, que ele ainda avisa quando vai dormir fora de casa, e você pode dormir sossegado e não pensar em ligações desagradáveis para a polícia, o hospital e, o pior de tudo, para o IML.

Aproveita agora, que ele ainda não se casou, porque depois ele nunca mais vai te visitar, a não ser para pedir dinheiro emprestado.

Aproveita agora, enquanto ele ainda não tem filhos, porque, quando tiver, é você quem vai tomar conta deles nos fins de semana. Seu sossego chegará ao fim, logo agora que você se aposentou.

Aproveita agora, que ele ainda não se separou da primeira esposa, pois, quando isso acontecer, ele virá morar novamente na sua casa.

Aproveita agora, que ele ainda te ajuda com um dinheirinho, porque a sua aposentadoria não dá para nada, pois a segunda mulher dele vai ser contra a ajuda.

Aproveita agora, porque ele está pensando em te colocar num asilo de velhinhos.

PRATA, Mario. Filho é bom, mas dura muito. São Paulo: Maltese, 1995. p. 62-64.




Paquera pela Web dá, certo?
Ulisses Tavares

Qualquer adolescente com espinhas na cara, calos nos dedos (de tanto digitar, eta povo malicioso!), hormônios em ponto de fervura e uma natural insegurança sobre as garotas vão aceitá-lo assim como está, sabe.

Sabem também os homens (mal) casados que, comparando o brilho das surpresas que podem surgir na telinha do computador, com o brilho morno da luz de cabeceira que ilumina um corpo que eles, já desejaram, mas não querem mais, entram nas salas de bate papo e nos sites de encontro com aquela mistura de excitação e vergonha com que entravam em inferninhos, lupanares e casas de relax.

Mudam os nomes com o tempo, mas a libido e as esperanças são as mesmas. E as encalhadas, estas também sabem muito bem. Quem imaginaria que seu príncipe encantado ou, se a fissura muito grande, desencantado está lá, ao alcance de seus cliques?

Tem pra tudo e tem pra todas na web.

Pra casada entediada que só deseja ficar lubrificada o suficiente para agüentar o sapo que, nesse momento, assiste o jogo na TV enquanto ela tecla.

Para a garota que não é de programa apenas porque ninguém, até hoje pelo menos, se dispôs pagar por seu programa.

Para a mocinha tão romântica, mas tão romântica, que não consegue engatar um romance de verdade, porque romance de verdade envolve a realidade, e realidade é artigo que ela não tem idéia do que ela não consegue suportar.

Tem para o menino que não tem idéia do que fazer. Tem para a menina que assusta com seu coração mole. E para a grande maioria que está teclando para espantar o tédio, a solidão temporária, as taras ocultas e inconfessáveis durante o dia a dia.

E tem, evidentemente, para aquela meia dúzia, a minoria, bem resolvida que apenas quer encontrar sua, ou seu, cara-metade por um sistema de encontros e paquera tão eficiente ou melhor que a vida real.

Quem procura amor, companhia ou sexo pela Internet sabe muito bem ou vai acabar sabendo logo, das três alternativas:

Vai acabar encontrando exatamente o que imaginava ao ligar o computador;

Vai acabar em pizza e risadas;

Vai pagar o mico de comprovar que, na vida off-line, o amor pode ter celulite, mau hálito, temperamento ruim, exigências impossíveis, golpes do baú, chantagens emocionais, ingenuidades, o escambau a quatro. Daí, ou escaneia, deleta ou volta pra frente do computador e começa tudo de novo.

Afinal, você pensou que uma nova ferramenta tecnológica seria capaz de mudar o ser humano? (Tsc, tsc, o burrinho do computador somos todos nós, humanos). Continuaremos sendo de carne, osso e alma.

Continuamos os mesmos, conectados ou não. E a esperança de sermos felizes, sabemos todos, é a última que morre, digo, dá pau. Ou pow.

Ulisses Tavares é escritor e co-autor do livro "Guia do Homem, que a Mulher Também Deve Ler", publicado em parceria com Tettê Schmidt - ambos na foto (Geração Editorial, 166 páginas).




Como não adquiri livros novos. Meu time perdeu mais uma, aliás o admirável seria o inverso. Não fui ao Brique, não ganhei CDs e nem DVDs novos, apenas recebi as revistas semanais e os jornais de domingo, nada melhor que comlementar isso tudo com o Drummond de Andrade. Assim, reparto com voces essa entrevista solta de um tempo atrás, mas que ainda considero válida para os dias atuais.

Entrevista solta

- Qual a mais bela palavra da língua portuguesa?
- Hoje é glicínia. Apesar de leguminosa.
- E amanhã?
- Cada dia escolho uma, conforme o tempo.
- A mais feia?
- Não digo. Podem escutar.
- Acredita em Deus?
- Ele é que não acredita em mim.
- E em Saldanha?
- O cisne ou o outro?
- O outro.
- Até Deus acredita nele.
- Então papamos a taça?
- Na raça.
- E se não paparmos?
- Eu não sou daqui, sou de Niterói.
- Mas tudo é Brasil.
- Para o Imposto de Renda, sim. Para o Imposto de Serviço, são muitos.
- Já fez a declaração.
- Quem faz por mim é um computador de terceira geração.
- Tão complicado assim?
- Ao contrário: a mais simples.
- Parabéns por ter renda.
- Mas eu não tenho. Imagine se tivesse.
- E a Apolo-9?
- O maravilhoso ficou barato. Quero ver aqueles três é guiando fusca no Rio.
- Vai melhorar. Olhe os viadutos.
- Estou olhando. Não vejo é pedestre. Já será efeito da pílula?
- O Papa é contra.
- O Papa nem sempre é Papa.
- Acha que China e U.R.S.S. irão à guerra?
- Não. A guerra é sempre feita entre um que quer e outro que não quer brigar. Quando os dois querem, verificam que estão de acordo, e detestam-se em paz.
- E a crise do teatro?
- Cada um leia a peça em casa.
- Os atores ficarão sem trabalho?
- Escreverão peças para leitura em casa.
- Os teatros estão fechando.
- Mas as cervejarias estão abrindo.
- E o Festival do Filme?
- Genial. Vai mostrar aquilo que não se vê mais nos cinemas: filmes.
- Esquadrão da Morte?
- Calma. Se é para liquidar com os bandidos, acabará fuzilando a si mesmo.
- É pela eleição por distrito?
- Sou radical. Por bairro.
- Seu prato predileto?
- Vontade de comer.
- Cor?
- A do vinho no copo; da luz no mar; dos olhos inteligentes.
- Sua divisa?
- A do meu apartamento. Em condomínio.
- Pretende reservar passagem para a Lua?
- Não aprecio lugares muito freqüentados.
- Que acha do gênero humano?
- Podia ser pior.
- E dos animais?
- Em geral têm muita paciência conosco.
- Que mensagem envia aos telespectadores?
- Que mantenham desligados seus receptores.
- Qual, o senhor é impossível!
- Também acho.

"O poder ultrajovem" - Crônicas em verso e prosa.- Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.




Lira do amor romântico
Ou a eterna repetição

Atirei um limão n'água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n'água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n'água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n'água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n'água
mas perdi a direção
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n'água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n'água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
é dor de quem muito amou.

Atirei um limão n'água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n'água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n'água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n'água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n'água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n'água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh'alma dolorida.

Atirei um limão n'água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n'água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n'água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n'água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado para trás.

Atirei um limão n'água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
Você não ama: tortura.

Atirei um limão n'água
e caí n'água também
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n'água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

Drummond




Numa estrada deserta, em noite fria, deslizavam, tristes, três sombras embuçadas, perdidas em si mesmas.
De quando em quando, entreolhavam-se inquietas, e seguiam a jornada murmurando ininteligíveis expressões.

Numa curva inesperada, num encontro dos caminhos, pararam, perscrutaram e, antes de seguirem diferentes rumos, desvelaram-se.
A primeira, a mais alta e negra, aproximou-se das demais, e gargalhando, esclareceu:
-Sou a Ira. Faço-me de caminho mais para a morte. vivem comigo o desespero e a tragédia. Trajo-me com as sandálias da revolta e arrimo-me no bastão da inquietude. Acompanho o homem desde que o mundo é mundo e pretendo viver com ele eternamente...

E depois de breve pausa:
-Todos me acolhem a qualquer hora, sem indagação, nem exigência. A simples apelo sou recebida com prazer em toda parte.
"Sou feliz! Sigo o meu destino, atraindo o mundo a mim."

A segunda sombra, taciturna e trêmula, após ligeira meditação, falou receosa:
-Chamo-me Medo. Sou porta larga que conduz à loucura. Ando despido. tenho força.
"A Ira - prosseguiu - é vencida pela meditação arrimada na prece sob o pálio do perdão, e suas companheiras desfalecem e morrem ante a humildade.
"Mas eu sou invencível.
"Oculto-me na luz e nas trevas, entre sábios e ignorantes, grandes e pequenos, ricos e pobres. Moro em todo lugar. Como rei, cerco-me de bajuladores fiéis: a dúvida, o receio, a desconfiança, o pavor...

"Não temo a fé, nem a religião. Desdenho-as até. Numa eu mostro a certeza, noutra apresento a suspeita. E sigo o meu caminho.
"Muitos me amam, convocam-me sem cessar..."

No intervalo que se faz, as duas megeras se contemplaram, quase sorriram e, fitando a terceira companheira, indagaram ansiosas:
-Quem és, filha da tristeza?
-Eu? - inquiriu a sombra pesarosa. - Sou vossa irmã.
-Teu nome?
-Quase não o sei. Chamam-me infortúnio uns, outros felicidade e muitos desgraça. Sempre vivi errante, perseguida, odiada. Jamais sorri.

"Um dia - cerrou os olhos como quem recorda inesquecível encontro -, numa estrada como esta, encontrei alguém que sorriu para mim. Era louro e belo, tinha olhos mansos e meiga voz, embora seu rosto refletisse tristeza imensa. Logo depois, fitou-me comovido, e mudo passou...
"Notei que muitos O seguiam, chamando-Lhe Mestre.
"Posteriormente eu soube mais. era noite, e ele orava num horto sombrio. Fitei-o. Reconheceu-me. seu rosto suado aureolou-se de ligeiro sorriso e disse-me: "Não desfaleças, irmã! Segue tua trilha". Não O deixei mais. Acompanhei-O atado a cordas, na multidão, em palácio, na solidão, até o fim..."

Calou-se a sombra, e sob o vento cortante chorou.
-Que sucedeu? - inquiriram as ouvintes.
-...Quando se agitava na Cruz, cercado da multidão encolerizada, fitou-me, já arroxeado, e murmurou só para mim:
"Avança missionária. Longa, difícil e bela é a tua tarefa. Não mais seguirás a ira e o medo. Terás diferente via. Serás minha mensageira ao mundo desatento. Caminharás só, incompreendida, ensinando em silêncio.

"De quando em quando, duas companheiras passarão por ti: a lágrima arrimada à saudade. Mas em teu curso deixarás esperança e paz. Preciso de ti.

"Vai, em meu nome, dor irmã, e ergue as minhas ovelhas. Chama-as a Mim. Fala-lhes da paciência e da resignação, da coragem e do bom ânimo.
"Seguir-te-ei!"
"Eis quem sou."

Houve silêncio. O vento soprou mais forte e, despedindo-se, as três sombras seguiram os seus caminhos.

Pe. Natividade
Enviadopelo meu amigo Orbatiuck


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