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Sábado, Agosto 30, 2003
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9:21 AM
by Cassiano Leonel Drum
Ricardo Silvestrin
30/08/2003
O poeta das Galáxias
Acabamos de perder um dos maiores pensadores e criadores do mundo na área da poesia: Haroldo de Campos. Quem não o leu até hoje e quer entender de verdade a poesia concreta, ou a poesia contemporânea, ou a poesia, deve ler o seu A Arte no Horizonte do Provável. Uma vez mandei de presente o meu livro Bashô um Santo em mim, de haicais, para ele.
Na parte da biografia, eu dizia que, se não desse certo como escritor, era tarde demais para ser jogador de futebol. Haroldo leu o livro e mandou me dizer que eu não precisava ser jogador de futebol porque eu jogava muito bem com as palavras. Sendo assim, deixo aqui um poema meio concretista que fiz agora, em homenagem a um dos seus mais belos livros, Galáxias:
no livro a linha
na linha a palavra
na palavra a idéia
na idéia o homem
no homem o h
no h o haroldo
no haroldo a vida
na vida o tempo
no tempo o espaço
no espaço o infinito
no infinito o infinito
no infinito o infinito
no infinito o infinito
no infinito o infinito
no infinito o infinito
no infinito....
ricardo.silvestrin@zerohora.com.br
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9:17 AM
by Cassiano Leonel Drum
Lya Luft
30/08/2003
Ser uma pessoa
Tem mais de 40 anos. Pela primeira vez viaja para o Exterior, cheia de incertezas. A vontade mesmo era ficar no conforto dos objetos familiares e da vida previsível cujos contornos às vezes pareciam se estreitar inexoravelmente.
Vai num grupo de trabalho, mas no hotel e em algumas atividades está sozinha. Uma tarde vê-se obrigada a atravessar sem companhia a cidade desconhecida: dá os primeiros passos repetindo mentalmente o roteiro, segura a bolsa como se fosse a bússola de sua alma. Ao seu redor fragmentos de frases no idioma estrangeiro que ela entende mais ou menos, os cheiros e cores diferentes. O sol incide sobre todas as coisas de uma forma nova.
Então é tomada de euforia: está num país remoto, numa cidade desconhecida, consegue andar e orientar-se - e não sente medo. É uma alegria inquietante para ela, que nunca imaginou sentir-se tão bem e contente longe da casa e da família. Antes, isso lhe pareceria uma traição. Agora, caminhando no chão do imprevisível, começa a dizer em voz alta: "Eu sou uma pessoa! Eu sou uma pessoa!" E, sentindo-se ridícula, ri de si mesma, lágrimas nos olhos, como se tivesse acabado de nascer. Está só. Está livre, está completa, e, nesse instante, sem nenhuma culpa.
É capaz - sabe disso agora.
Nada a teria impedido de descobrir isso antes, não poderia acusar ninguém de estar querendo podar ou abafar sua personalidade. Eram amarras consentidas que a prendiam, muitas auto-impostas, um confortável papel que aceitara e assumira porque assim esperavam dela.
Mas ali, naquela breve caminhada, libertara em si uma pequena alma transgressora, ainda que de limites tão ínfimos que alguns até achariam graça. Nesse dia compreendeu que amadurecera. Entrou numa joalheria e comprou um anel, um aro muito simples, que nunca mais tirou do dedo: sua aliança consigo mesma e com a sua verdade.
Amadurecer passou a ser então retirar as máscaras e ver no espelho o verdadeiro eu - onde se lia uma severa contabilidade de gastos e lucros, saldos nem sempre tranqüilizadores, pouca ousadia. Quanto de amargura, quanto de bom humor tinha sobrado, quanta capacidade e fervor para se renovar antes que a mesmice e a resignação encobrissem tudo?
Percebeu que não importava tanto o que havia lhe acontecido naqueles 40 anos, mas o que ela estava fazendo com o que eventualmente acontecera. Era uma oportunidade assustadora e maravilhosa: amadurecer não significava estagnar, mas reafirmar - ou reinventar - cada dia aquilo que mesmo inconscientemente ela se propunha como o sentido, o rumo, e o tom de sua vida. (O Rio do Meio, 1996)
lya.luft@zerohora.com.br
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9:13 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
30/08/2003
Fuzilaria na cidade
Os horários preferenciais dos assaltantes são os que antecedem a abertura dos bancos ou os que vêm logo em seguida ao fechamento.
No início da manhã e no fim da tarde todas as áreas que cercam as agências de banco são hoje consideradas de risco, tanto aqui em Porto Alegre quanto no Interior.
A entrega de dinheiro por parte de carros-fortes a agências ou o transporte do dinheiro do movimento do dia da agência são os momentos preferidos dos assaltantes para sua ação.
Ontem, às 8h20min, a movimentadíssima esquina da Avenida Osvaldo Aranha com Rua Felipe Camarão foi palco de uma tentativa de assalto que causou pânico a centenas de pessoas ao redor da área.
Três assaltantes atacaram a guarnição particular de um carro-forte que ia abastecer de dinheiro a agência Unibanco da Osvaldo Aranha.
Atentos e prevenidos, os seguranças do carro-forte reagiram e se instalou um tiroteio infernal por toda a zona.
Era bala e bala cruzando o ar, dezenas de pessoas se deitando no chão, como mandam os manuais, um assaltante caiu baleado e os outros atiravam para cima e para o lado, atingindo janelas e paredes de vidro das lojas, as capotas e laterais dos carros estacionados ou em trânsito sendo perfuradas pelos projéteis.
Quando a polícia chegou, todo o alvoroço no Bom Fim já estava acalmado, restava um assaltante ferido e os outros dois ou três fugindo em um Vectra que tinham deixado de sobreaviso seis quadras depois.
Está de um jeito o clima da segurança pública que ninguém mais está livre de um ataque na cidade. E o principal risco são as balas perdidas nos tiroteios que se tornaram rotineiros.
A ousadia dos assaltantes é impressionante: eles não hesitam em enfrentar pelotões armados de seguranças ou policiais.
Este conselho de atirar-se no chão quando irrompe um tiroteio é o melhor possível, basta ver o número recorde de balas que vão se alojar nas portas e nos capôs dos carros.
A Wizo, organização mundial de mulheres judias, realiza aqui pela sua seção gaúcha, amanhã, a tradicional Feira da Fraternidade.
Será das 11h às 19h, na Hebraica-RS, à Rua João Telles, 580. Este ano a feira beneficiará o Asilo Padre Cacique, a Casa de Apoio Viva Maria e Damas da Caridade.
Comidas típicas judaicas, galeria de arte, mix bazar, recreação infantil e outras atrações cercarão o evento.
A Wizo oferece um sorriso para quem precisa. Sonhe! Ajude! Realize!
A nossa bela e turística Gramado se transformará nos dias 3, 4 e 5 de setembro na capital mundial da ciência.
Da Finlândia, o doutor Cristian Lindqvsit trará o que há de mais novo em biomateriais para ossos fraturados e correções ósseas. O professor americano Kenji Higuchi abordará as mais recentes conquistas sobre implantes dentários e ósseos. E o professor espanhol Cosme Gay Escoda abordará os avanços na cirurgia bucal.
É o 17º Congresso Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial, presidido pelo professor Waldemar Polido.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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9:09 AM
by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
Cidade da Pecuária abre as portas
Expointer terá abertura oficial hoje, às 9h, no Parque de Exposições Assis Brasil, em clima de otimismo (foto Emílio Pedroso/ZH)
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Sexta-feira, Agosto 29, 2003
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7:11 PM
by Cassiano Leonel Drum
A CRIANÇA QUE EU NÃO FUI
Fátima Irene Pinto
A criança que eu não fui aflora agora, após quase meio século de vida.
Eu acreditei que pudesse abafá-la para todo o sempre e nunca levei a sério todos os seus veementes apelos para ressurgir e manifestar-se.
Ocorre que ultimamente ando esbarrando nela a todo instante, do jeitinho que a deixei há quarenta e tantos anos atrás: extremamente tímida, sobressaltada, sem defesas para um mundo que lhe parecia por demais hostil e complicado.
De família numerosa, meus assoberbados pais não tinham tempo para entender a minha interna tragédia, tampouco para resgatarem-me dos dramas que a minha criança resolveu sozinha e resolveu completamente errado.
Incorporei todos os rótulos que me deram nas minhas primeiras tentativas de convivência entre os humanos: desajeitada, limitada, mela-festa, esquisita.
Então a minha criança entendeu que para merecer fazer parte da vida e receber um mínimo de carinho e aceitação, era preciso fazer coisas heróicas e grandiosas. Em cima desta idéia pautei toda a minha existência.
Tenho que dar um salto aqui - não interessa narrar os meus grandiosos e heróicos feitos - mas é preciso ressaltar sim, os desumanos sacrifícios despendidos nesta empreitada e para onde eles me levaram: depressões profundas e síndrome do pânico cujas sequelas ainda hoje se fazem sentir.
As vezes me pergunto porque o "Supremo" não intercedeu por mim naquela época, mandando-me uma angélica criatura para lembrar-me que nada daquilo era preciso e que a despeito das minhas esquisitices, eu era merecedora de amor respeito e aceitação?
Esta narrativa fica pela metade, pois só agora começo a dar-me conta do tamanho e da gravidade do equívoco. Só agora estou disposta a romper a muralha de aço entre o meu eu adulto (e mal resolvido) e aquela criança que não me permiti ser e que agora explode à minha revelia, não aceitando mais o porão escuro onde a trancafiei por tantos anos.
Espero que haja tempo para resgatá-la e deixá-la ser feliz pela primeira vez na vida, sem que nada ela tenha que fazer de sobre-humano, de heróico ou grandioso, de notório ou relevante.
Perdoa-me, minha criança!
Eu joguei duro demais com você por ignorância.
Liberto-a agora!
Esteja feliz!
Esteja em paz!
Descalvado - 27/07/03
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7:06 PM
by Cassiano Leonel Drum
Como estou a mais ou menos quatrocentos quilômetros da capital - gostaria que fosse para a zona sul - mais precisamente SATOLEP - terra da minha amiga Ticcia lá do não discuto - mas é para a zona oeste, escrevo para voces daqui, onde faz um friozinho daqueles. Assim me aproveito da Fatima Irene para trazer para voces, mas alguma coisa de um ser diferente.
UM SER DIFERENTE
Fátima Irene Pinto
O poeta é um ser diferente,
Que sozinho caminha no mundo.
Não se sabe se é um descontente,
Não se sabe se é um vagabundo.
Ardiloso, astuto e profundo,
Toma as cores de toda a gente.
É capaz de chorar, se contente,
E se triste, sorrir loucamente.
É cachorro que tem muitos donos,
Mas que morre de desnutrição.
Pois ao vê-lo, supõem que é sono,
Seu desmaio de atroz solidão.
É qual lua, adorado por todos,
Mas que nunca se entrega a ninguém.
É seu fado viver dos engodos,
E dos sonhos que só ele tem.
Se quiseres o amor de um poeta,
Sejas dele só a inspiração.
Ele foge e toma outra reta,
A um amor que lhe impõe restrição.
Mas é tanto o amor que ele sente,
Que ultrapassa o infinito e o momento.
Quando dá seu adeus para sempre,
Vira estrela lá no firmamento.
Descalvado
Agosto/2003
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8:05 AM
by Cassiano Leonel Drum
Sem tatebitate
É para criança, mas adultos vão se amarrar: filmes, exposições e peças que divertem pais e filhos
Rubia Mazzini e Clarissa Monteagudo
Micaela
Esta matéria é dedicada a todos os pais que, fim de semana sim e outro também, quase enlouquecem quando pensam como vão distrair a criançada sem que eles próprios se entediem. Afinal, não é pecado querer pegar carona num programa infantil e se divertir tanto quanto os pequenos. Por isso o Show & Lazer preparou um roteiro com peças, filmes, exposições e atividades educativas sob medida para a família toda ficar satisfeita.
Hoje começa o Festival Internacional BR de Cinema Infantil, que até dia 11 vai exibir longas e curtas-metragens do mundo inteiro na rede Cinemark. Uma das organizadoras do evento, a cineasta Carla Camurati, mãe do pequeno Antônio, de 4 meses, garante: Quando o filme infantil é bom, qualquer pessoa se delicia. A diretora, que assistiu a mais de 300 títulos para selecionar os 14 programados pela mostra, lembra que o ingresso a R$ 3 não pesa no bolso. Assim, quem sai com duas crianças vai pagar menos do que o valor de um ingresso normal, afirma.
O espevitado João Vitor Cordeiro de Brito, de 9 anos, e o irmão Paulo Henrique, 6, adoram cinema e dizem que não vão perder o festival, mas também se amarram em outros programas, para alívio do pai, Joel Teles de Brito. Dá trabalho sair com eles, mas vale a pena, garante Joel, que levou os meninos para ver a exposição Em Busca dos Dinossauros, no Museu Nacional. Leio tudo sobre dinossauros nas enciclopédias, conta João Vitor, que também adora as múmias do acervo permanente do museu.
O produtor cultural Pedro Ferreira e a filha Alice, 8 anos, não perdem os programas educativos do Centro Cultural Banco do Brasil. As oficinas em que pais e filhos brincam juntos são o máximo, diz ele: É uma ótima oportunidade de ficar em contato com a criança, já que nem sempre podemos sentar pra fazer dever de casa, por exemplo.
Se o assunto é teatro infantil de qualidade, a dica é assistir ao espetáculo Contos, Cantos e Acalantos, em cartaz no Teatro do Jockey, em que José Mauro Brant apresenta cantigas e narrativas populares. Também vale a pena assistir ao elogiado Cyrano de Berinjela, que se despede do palco do Espaço 3 do Teatro Villa-Lobos no domingo.
A floresta mágica
Minões, a mulher gato
Mamãe, virei em peixe
Promoção: Os cinco primeiros leitores que ligarem hoje para 0800-909021, entre 11h15 e 11h30, ganham dois ingressos para o Festival Internacional BR de Cinema Infantil, válidos para qualquer filme de segunda a sexta-feira, com direito a pipoca e refrigerante.
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7:51 AM
by Cassiano Leonel Drum
O amor é lindo não, não há como contestar isso. Bom hoje estarei viajando para a terra do Erico Veríssimo e retornarei no domingo, se Deus quiser. Não sei se conseguirei postar amanhã, mas acredito que sim, de toda a sorte bom fim de semana a todos nós e uma ótima viagem for me. Paisagens de serras e de campos não faltarão, com certeza...
O beijo das louras
O beijo que faltou no Vídeo Music Brasil acabou acontecendo no Vídeo Music Awards, em dose dupla.
Depois de sapecar beijo explícito em Britney Spears (foto), Madonna repetiu a dose com a cantora Cristina Aguillera, durante premiação da MTV americana, ontem à noite.
Na versão brasileira da festa, as atrizes Paula Picarelli e Aline Moraes evitaram a cena para não chocar o público.
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7:46 AM
by Cassiano Leonel Drum
Cinema
Olho de vidro e cara de mau
Estréia hoje o filme "Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra", da Disney
TICIANO OSÓRIO
Deste tipo de pirataria na indústria cinematográfica, só quem pode reclamar são os rivais da Disney. Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl), que estréia hoje no Brasil, é a terceira maior bilheteria do ano nos EUA, com US$ 260 milhões.
Baseado em atração do parque Disney World, o filme é dirigido por Gore Verbinski, do assombroso O Chamado (2002). A história se passa na primeira metade do século 18, nas ilhas do Caribe controladas pela Coroa britânica - e ameaçadas por saqueadores.
Em uma ponta da narrativa está o pirata galhofeiro interpretado por Johnny Depp, Jack Sparrow, vítima de um motim comandado pelo capitão Barbossa (Geoffrey Rush) no navio Pérola Negra. Na outra, o ferreiro Will Turner (Orlando Bloom, o elfo Legolas de O Senhor dos Anéis) sufoca a paixão pela filha do governador de Port Royal, a loira Elizabeth (Keira Knightley), prometida a um sisudo comodoro.
Jack e Will começam como inimigos, mas formam uma aliança quando Barbossa e seus bucaneiros atacam Port Royal e raptam a mocinha, dona de uma jóia que pode salvá-los de uma maldição: à luz da lua, eles se tornam esqueletos vivos.
Pontuado por elementos clássicos do gênero (a caminhada na prancha, os tesouros escondidos em cavernas, o olho de vidro), Piratas do Caribe é um filme com tanta ação que disfarça a excessiva duração (143 minutos). Ainda que alguns combates se mostrem repetitivos, conquista o espectador no acrobático duelo entre Jack e Will na ferraria (com uma improvisada gangorra) e nos confrontos em que os piratas aparecem ora como humanos, ora como esqueletos (os efeitos especiais são da Industrial Light & Magic, de George Lucas).
Mas Piratas do Caribe é, principalmente, bastante divertido. Assumidamente inspirado no guitarrista Keith Richards, da banda Rolling Stones, e no desenho animado de Pepe Legal, Johnny Depp criou um pirata de olhos pintados e trancinhas, com gestos afetados e voz de bêbado. É o dono do filme, secundado pelo cínico Barbossa de Geoffrey Rush, sempre a zombar de Jack e de sua própria condição de pirata amaldiçoado.
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7:42 AM
by Cassiano Leonel Drum
Literatura
O Circo das Letras e do bom humor
CLÁUDIA LAITANO
O tema, A Mulher: De Personagem a Autora, podia sugerir ao espectador mais cético uma tarde modorrenta de discussões rançosas e desfio de queixas. Não foi, de forma alguma, o que a platéia maciçamente feminina do Circo das Letras assistiu ontem. Homens e mulheres presentes à mesa trataram um assunto que já foi pretexto para todo tipo de obviedades e de reforço de estereótipos de uma forma estimulante e bem-humorada.
Do time masculino, os escalados foram o poeta e professor irlandês John Lyons e o escritor mineiro Bartolomeu Campos Queirós. Homenageado da Jornada, Queirós foi chamado na última hora para compor a mesa ("Caí de pára-quedas") e falou sobre sua obra e não sobre o tema proposto, quebrando um pouco o ritmo do debate.
Do time feminino, duas das convidadas fizeram uma abordagem histórica. A escritora gaúcha Valesca de Assis lembrou uma série de citações misóginas ("Aquele a quem uma mulher não é castigo suficiente merece duas", Petrônio) antes de chegar a Clarice Lispector e ao "chamado à transcendência" que homens e mulheres são convidados a atender. A octogenária professora Nelly Novais Coelho falou do papel da Igreja na consolidação de uma imagem distorcida da relação homem e mulher, que teria contaminado toda a cultura ocidental.
A jornalista Mônica Waldvogel, apresentadora do programa Saia Justa, falou sobre o presente, sobre as dúvidas e angústias das mulheres pós-feminismo ("A gente batalhou tanto pra isso?). Essas "mulheres alteradas", segundo Mônica, têm apelado para o humor para expressar na arte a sua perplexidade.
A grande surpresa da tarde foi a fala lúcida e vigorosa da escritora portuguesa Inês Pedrosa. Inês admitiu que ainda é palpável a desigualdade de tratamento para escritores e escritoras, mas considera o discurso da diferença o discurso do gueto. A homens e mulheres cabe se perguntarem, o tempo todo, diz a escritora, se fazem sentido os modelos culturais em que foram educados, inclusive o modelo dos estereótipos dos sexos.
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7:39 AM
by Cassiano Leonel Drum
Rosane de Oliveira
29/08/2003
Confissão
Entenda se for capaz: o governo garante que a reforma não provocará aumento da carga tributária, mas manda para o Congresso uma proposta de Orçamento em que pelo menos R$ 30 bilhões da receita dependem da aprovação das emendas em discussão no Congresso. Aí está incluída a CPMF, que pela lei em vigor cairia no dia 1º de janeiro de 0,38% para 0,08% do valor dos cheques e retiradas de dinheiro. No caso específico da CPMF, não há aumento de carga em relação ao que se paga hoje, mas se quebra a expectativa de redução.
O caso da CPMF é idêntico ao do Imposto de Renda, em que a alíquota máxima (incidente sobre salários superiores a R$ 2.115) deveria cair de 27,5% para 25% em 2004, e que a proposta orçamentária mantém no mesmo patamar. Não se trata de emenda constitucional, mas de uma legislação ordinária que o governo planeja mudar depois da aprovação das reformas, criando alíquota máxima de 35% para os altos salários. Tudo bem se isso significar ampliação da faixa de isenção e alíquotas menores para quem ganha menos, mas até agora só se consegue identificar com clareza quem pagará mais.
Pode ser apenas dificuldade de comunicação, mas o governo não está conseguindo ser convincente na hora de mostrar quem vai ganhar com a reforma. É justo tributar jatinhos e iates com IPVA para desonerar a população de menor renda, mas falta clareza na hora de mostrar como os desfavorecidos que gastam parte substancial do salário com impostos indiretos serão beneficiados.
A garantia de que a reforma vai aumentar a arrecadação sem elevar a carga tributária, graças ao combate à sonegação, não bate com a proposta orçamentária. No bolo da receita condicionada à aprovação das reformas estão recursos referentes a impostos e contribuições que serão criados ou elevados. Lá estão, por exemplo, o aumento da contribuição dos trabalhadores de melhores salários da iniciativa privada para o INSS, a taxação dos inativos do setor público e a tributação de produtos importados com a Cofins.
rosane.oliveira@zerohora.com.br
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7:36 AM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
29/08/2003
Como entender de química
A beleza das mulheres de Bolonha era célebre. Havia professoras na universidade local desde o século 13. E eram tão lindas essas mestras, tão lindas, que tinham de ministrar aulas de máscara, para não distrair os alunos com seus encantos. Li isso e lembrei de algumas professoras que me marcaram.
Íria. Sentia medo da Íria. A turma toda sentia. A maior algazarra, bolinha de papel voando, risada, cadeira arrastando, e a Íria botava as anabelas na porta. Um soco de silêncio. Ela entrava devagar, o meio sorriso sardônico a lhe riscar o rosto, livro de chamada debaixo do braço.
- Agora vamos a um testezinho de matemáááática.
Falava matemática assim: quatro ás. O testezinho era uma comoção geral. Mas, graças ao pavor que a Íria inspirava, aprendi a Fórmula de Báscara. Xis igual a menos bê mais ou menos raiz quadrada de bê ao quadrado menos quatro á cê sobre dois á. Essa belezura jamais sairá da minha memória. Que bom.
A Maria Antonieta eu não temia; adorava-a. Professora de português. Gostava do que eu escrevia, deu-me um pouco mais de atenção. Foi ela quem realmente embutiu a gramática em minh´alma. Aquelas regras, Língua Nacional do Raio X, as malícias da vírgula, as sutilezas do ditongo, os truques todos Maria Antonieta me ensinou.
Uma vez, escrevi as redações de dois amigos, o chileno Ivan e o Édson, campeão de xadrez de Gramado. Na aula seguinte, a Maria Antonieta:
- Sei que dois alunos pediram para um terceiro escrever a redação deles. Sei quem é o terceiro. Espero que não neguem.
Ficamos petrificados, os três falsários. Mas a Maria Antonieta, sábia, me absolveu e concedeu nova chance a eles dois.
Já as aulas de história da Gilda simplesmente me abduziam. A testa ampla da Gilda era enfeitada por uma ruga em forma de ene. Ficava olhando para aquele ene e de tal forma enveredava pelos casos contados por ela que não me distraía nem quando minha colega Janice M vinha de minissaia e cruzava as pernas. Como eram lindas as pernas de Janice M.
Mas o momento que aguardava com maior ansiedade eram as aulas de química. Paula. Morena. Olhos azuis. Oh, Deus, ela falava dos ácidos carboxílicos, de eletrólise, das propriedades coligativas, do ponto de fusão. Falava de tudo isso e isso tudo parecia poesia. Eu olhava para a Paula e suspirava. Olhava. E suspirava.
Nunca aprendi nada de química. Tabela periódica e talicoisa, não há nada disso registrado no meu atormentado cérebro. Mas o azul dos olhos de Paula, ah, lá está o azul, intacto e rebrilhante. Se fosse na velha Bolonha, ela daria aula com o rosto vendado, seus alunos entenderiam as minudências da química, mas a vida deles, puxa, seria uma vida com muito menos emoção.
david.coimbra@zerohora.com.br
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7:34 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
29/08/2003
A opressão oportunista
Penso isso quando assisto a estas duas greves que ultimamente marcaram o cotidiano gaúcho: a dos servidores do INSS e a dos auditores da Receita Federal.
Ambas deflagradas para protestar contra a reforma da Previdência, que vai reduzir drasticamente direitos desses servidores.
O impacto das duas greves, a primeira paralisando completamente o atendimento dos segurados do INSS e a segunda acarretando filas quilométricas nos diversos pontos de passagem da fronteira gaúcha, tinham tudo, num período normal, para sensibilizar o governo.
Mas não sensibilizaram. O governo nem liga para as greves e leva à frente seus planos reformistas sem dar a mínima atenção aos grevistas.
No caso dos auditores fiscais federais e técnicos da Receita, cuja entidade de classe esses dias me convidou para conhecer as suas razões, fiquei sabendo que nestes últimos oito anos eles tiveram apenas 4,5% de reajuste nos seus vencimentos.
São funcionários altamente especializados os auditores, todos com curso superior, alguns com mais de um diploma.
Encaminharam-se para uma carreira que teoricamente lhes recompensaria com vencimentos dignos e aposentadoria integral: é preciso que se diga que esses dois direitos desaparecem já como pó quando passam oito anos praticamente sem qualquer reajuste em seus ganhos.
Muitos deles, disseram-me seus representantes, já não podem hoje custear os estudos de seus filhos em escolas particulares.
Além disso, verão aumentada a idade mínima para aposentadoria, que não será mais integral para a categoria, o que fatalmente diminuirá a qualidade dos seus quadros atuais e futuros, desanimando e oprimindo servidores de uma essencial e especialíssima atividade.
Os funcionários do INSS voltaram ao trabalho sem verem atendidas as reivindicações de sua greve, que durou corajosamente 48 dias.
Quando um concurso para oficial de Justiça do TJE gaúcho, com vencimentos de R$ 3,070 mil, inscreveu 63 mil candidatos esses dias, imaginem o nível de desemprego que grassa no Rio Grande do Sul.
Essa grave situação social e econômica anula todo e qualquer movimento reivindicatório, os governos sabem que mais cedo ou mais tarde os grevistas terão de voltar a trabalhar e adaptar-se à sua situação aflitiva, obrigados ao amassamento do percurso até a miserabilização.
Enquanto isso, nesses anos todos sem reajuste, os funcionários federais e estaduais convivem com uma inflação torpe, que vai de tarifas telefônicas que chegaram a mais de 500% de reajuste até as incessantes remarcações de todos os gêneros que implicam a sobrevivência.
É a surda e colossal agonia de um holocausto. Ao qual se acresce perversamente o escárnio de que a grande e esmagadora maioria dos funcionários públicos, assim com suas vidas, carreiras e vencimentos tão aviltados, é acusada de usufruir de privilégios.
Só se for o privilégio de assistir ao próprio enterro.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:32 AM
by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
Crime contra a História
Caminhão com obras sacras, que podem ter sido furtadas, foi apreendido no Estado (foto Genaro Joner/ZH)
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Quinta-feira, Agosto 28, 2003
Posted
10:16 PM
by Cassiano Leonel Drum
Alma dos Diferentes
Artur da Távola
"... Ah, o diferente, esse ser especial!
Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.
Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção aguçada em : "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois."
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10:12 PM
by Cassiano Leonel Drum
O Dia de Hoje
A felicidade que eu busco
Não está fora, acima ou distante de mim.
Aprendeu, Moisés, no deserto,
A recolher,a cada dia, o maná daquele dia.
Também eu, busco viver
Na certeza tranquila de que,
Assim como a luz se insinua mansamente,
Varrendo do universo a escuridão da noite,
Também para mim, na pauta da vida, o Amor
- O Amor Maior e o Amor de mim mesma -
Executa, harmoniosamente,
A melodia do renascimento
E me presenteia com a alegria e o encanto
Desta e de todas as outras vidas.
Lêda Mello
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10:08 PM
by Cassiano Leonel Drum
A Morte não é Nada
"A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.
Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.
A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?
Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho...
Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi."
Santo Agostinho
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8:26 AM
by Cassiano Leonel Drum
Letícia Wierzchowski
28/08/2003
Gente que brilha
Vou contar de Evandro dos Santos, um cara desses que a gente vê aos montes pelas ruas da cidade. Trabalha como pedreiro, tem 43 anos, é sergipano mas mora no Rio de Janeiro. Aprendeu a ler já adulto, nas páginas da Bíblia. Tá, e aí? Aí é que, além de erguer paredes e sacudir num ônibus de periferia, esse Evandro montou uma biblioteca. Zona Norte do Rio, Vila da Penha, Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, 30 mil livros, além de outros milhares distribuídos em 15 unidades que Evandro criou nos arredores.
Evandro começou a juntar os livros aos poucos. Livros que ninguém queria e que ele ia colhendo pelas ruas. O governo não entrou com nada. Evandro é que entrou com tudo. Com sua alma e com seu brilho. Gente é pra brilhar, já disse Caetano Veloso. E Evandro dos Santos brilha que brilha. Imaginem as crianças da Penha e todos aqueles livros - a sede da biblioteca é na casa de Evandro. Os livros ficam na sala, nos dois quartos e num barracão do jardim, mas tudo é organizado por assunto, autor e data de edição. Todos podem pegar os livros. Devolve quem quer.
"Se alguém deixa de devolver um livro, é porque gostou", diz Evandro. "Então pode ficar que me deixa feliz." Que grande criatura! E não é porque transforma a realidade com livros - que isso já é lindo - é porque tinha tudo para ser um desencantado, e é mais feliz do que a maioria das gentes. Todos na Penha o adoram, e a garotada aprendeu a gostar de ler na casa dele. Evandro faz toda a diferença.
A esposa de Evandro, Maria José, é professora aposentada. Ela estimula o marido e ajuda na biblioteca. No quarto, além da cama e dos livros, não cabe mais nada. É preciso entrar um de cada vez. Há o risco de suceder uma avalanche de volumes e, pelo que eu vi na televisão, a coisa seria feia. Isso é que eu chamo de casar com a literatura, e aqui vai um viva pra dona Maria José. Mas agora o quarto vai desafogar. Evandro já tem projeto para a biblioteca e até para uma universidade comunitária, onde haverá aulas gratuitas para gente que, como ele, não pôde estudar.
O projeto é presente de Oscar Niemeyer. Evandro procurou pessoalmente o arquiteto, e Niemeyer apostou na alma desse sergipano fazedor de sonhos. Pois Evandro do Santos acaba de receber um certificado do Ministério da Cultura que lhe permitirá captar recursos para erguer a obra num terreno da Penha. Ele até já tem parte da soma. O nome de Niemeyer, sem dúvida, vai contribuir para aumentar o caixa. Evandro não é dos Santos à toa. Provou que é um fazedor de milagres.
leticia.wierz@zerohora.com.br
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8:23 AM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
28/08/2003
O discurso heróico
A tentação do discurso heróico é compreensível. O discurso heróico enobrece qualquer causa e dramatiza qualquer reivindicação. Mas tem hora.
Não faz muito li um manifesto de juízes que terminava com "Ainda há juízes no Brasil!", paráfrase de "Ainda há juízes em Berlim", o célebre desafio de um cidadão alemão ao despotismo, feito anos atrás. Como um caso tratava da reação de juízes à ameaça de novos limites às suas aposentadorias pela reforma da Previdência e o outro tratava da reação à arbitrariedade de um poder absoluto, faltou aos autores do manifesto, pelo menos, um senso de proporção.
Grandes proprietários de terra ameaçados pelo MST, no Rio Grande do Sul, invocaram a frase "Esta terra tem dono!", atribuída ao guerreiro guarani Sepé Tiaraju na sua luta em defesa dos povos indígenas das Missões contra exércitos espanhóis e portugueses. Boa frase, mas Sepé deve ter dado alguns pinotes no colo de Tupã ao ouvi-la. Se voltasse à vida, seria para expulsar latifundiários e MST da terra e reclamá-la para seus donos originais, pois todos que vieram depois são invasores. Também não faltaram frases vibrantes sobre "o primado da lei" nas saudações à recente decisão contra os sem-terra gaúchos no Supremo, que baseou-se num detalhe técnico para abonar a ação truculenta dos proprietários que impediram a vistoria das terras em questão pelo governo. O "primado da lei" neste caso legitimou uma ilegalidade e autorizou sua repetição. Mas também é uma boa frase.
Aguardam-se novos discursos heróicos contra as partes dessa reforma tributária que tratam da taxação de grandes fortunas, heranças etc. Ou seja, as que pretendem ao menos começar o que sempre se pregou e nunca se fez, que é distribuir renda pela óbvia via tributária, e que é o mínimo que se espera de um governo de esquerda, já que o máximo ele não quer fazer. Os discursos serão contra o socialismo retrógrado, o atentado à propriedade... Enfim, alguém é até capaz de invocar a integridade da família cristã. As pessoas costumam confundir o fim dos seus privilégios com o fim do mundo.
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8:22 AM
by Cassiano Leonel Drum
Nilson Souza
28/08/2003
Como e por quê
Acabo de ler um livro que talvez seja a mais impressionante reportagem de todos os tempos.
Aprendi nas primeiras aulas de jornalismo que uma notícia tem que responder a seis questões básicas: Quem? Quê? Quando? Onde? Como? e Por quê? De acordo com esta técnica elementar de apurar e redigir, a reportagem a que me refiro poderia ser resumida da seguinte maneira: No dia 6 de agosto de 1945 (quando), os Estados Unidos (quem) lançaram a primeira bomba atômica da História (que) sobre a cidade japonesa de Hiroshima (onde), matando 100 mil pessoas e provocando ferimentos em outras tantas.
O (como) desta história é exatamente o livro Hiro- shima, escrito pelo norte-americano John Hersey e editado no ano passado pela Companhia das Letras, com um posfácio elucidativo do jornalista Matinas Suzuki Jr. Trata-se de um relato objetivo sobre o que aconteceu com os 245 mil habitantes da cidade, com base no depoimento de seis sobreviventes. São 172 páginas perturbadoras, embora o autor da reportagem tenha optado por uma narrativa destituída de emoções.
Por aí já se vê que inexiste no texto qualquer propósito de satanizar os Estados Unidos, até mesmo porque a primeira parte do livro foi publicada originalmente pela revista The New Yorker um ano depois da bomba e ainda com o nacionalismo norte-americano incandescente. Ainda assim, há uma brutal distância entre o relato histórico do episódio que abreviou a II Guerra Mundial, contado pelos vitoriosos, e o depoimento candente dos personagens atingidos pelos horrores da chamada Luz da Manhã. A bomba atômica não provocou uma explosão barulhenta, como se poderia supor. Resumiu-se a um clarão amarelo e silencioso, que transportou instantaneamente milhares de seres humanos do conforto de suas casas e dos seus locais de trabalho para o inferno.
Contado dessa maneira, pode parecer literatura barata ou ficção científica, mas os detalhes relatados pelas pessoas entrevistadas não deixam dúvidas de que nada foi inventado. Tudo é real demais, doloroso demais, desumano demais. E, no entanto, aconteceu. O repórter voltou a Hiroshima 40 anos depois, reencontrou os entrevistados e concluiu o seu trabalho.
Ainda assim, me parece que a maior reportagem de todos os tempos continua incompleta. Falta uma explicação lógica para a principal questão: (Por quê?).
nilson.souza@zerohora.com.br
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8:21 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
28/08/2003
Os receptadores
É impressionante como se furta de tudo no Brasil: há, por exemplo, atualmente um surto de furtos de portas e janelas de alumínio das residências de veraneio nas praias marítimas gaúchas. E a prática já se estende aqui pela Capital, onde muitos prédios têm furtadas as suas portas de alumínio.
Esse e outros materiais de construção são furtados das residências com alarmante insistência entre nós.
Até medidores de consumo de água e placas de bronze dos monumentos das praças e parques encontram receptadores.
Furta-se de tudo e de todos na guerra do cotidiano gaúcho e brasileiro. Há um verdadeiro exército de pessoas empenhado no furto de toda a sorte de objetos e materiais, quando não é pelo roubo, em que se emprega a violência, caso dos milhares de telefones celulares que são arrebatados de seus donos nas ruas.
Respeitáveis cidadãos, estrategicamente enfronhados no meio social, interceptam os produtos desses furtos e roubos, estimulando que os ladrões saiam à luta para consegui-los.
Ou seja, a história da criminalidade no Brasil é meio complicada: muitas vezes os criminosos que saem para a batalha das ruas encontram linha de apoio em pessoas situadas em território social insuspeito, caso dessa imensa legião de receptadores que compra tudo que se arranca à força do alheio.
O mesmo se dá com esta indústria e comércio bilionários das drogas. Para quem são vendidas estas milhares de toneladas de maconha e cocaína que se consomem no Brasil?
Para pessoas respeitáveis e idôneas, os consumidores que jamais serão atingidos pela lei, até mesmo porque não tem sentido reprimir uma pessoa que tem o direito talvez de punir seu corpo com a ingestão de qualquer substância.
E notem a que apuro chegou o tráfico de drogas no país. Em plena Via Dutra, foi apreendido anteontem, por denúncia, um caminhão da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, transportando duas toneladas de maconha.
Não é o primeiro caminhão da ECT que é apreendido com drogas. Os caminhões têm o seguinte letreiro ilustrativo nas carroçarias: Sedex: mandou, chegou.
Desta vez a maconha não chegou, mas a ECT está tonta: investiga há tempo como pode um seu caminhão carioca, com motorista da empresa envolvido, sair do Rio e ir até o Paraguai para trazer drogas?
A engenhosidade dos traficantes não tem limite. As duas toneladas de maconha vinham dentro de caixas de papelão que tinham a seguinte inscrição, característica das correspondências: "Sou útil, trate-me com carinho".
Os traficantes descobriram que pela legislação em vigor a polícia não pode violar correspondência sem autorização judicial. Bolaram então transportar as drogas em caminhões da ECT, que não são revistados nas barreiras.
Há muitas apreensões de drogas. Mas seguramente elas não significam nem 1% do produto que circula impune pelo país.
É que se esconde na sociedade a malha infindável de usuários.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:18 AM
by Cassiano Leonel Drum
Agronegócio
A Cidade da Pecuária se agita
O ritmo de chegada dos animais foi intenso ontem em Esteio. Até as 21h, mais de 1,5 mil exemplares inscritos para a Expointer tinham passado pela inspeção e sido recolhidos aos boxes do Parque de Exposições Assis Brasil (foto Mário Brasil/ZH)
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Quarta-feira, Agosto 27, 2003
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7:35 PM
by Cassiano Leonel Drum
Crescer
Quando eu era menino, os mais
velhos perguntavam:
- Que é que você quer ser quando
crescer?
Hoje não me perguntam mais. Se
me perguntassem, eu diria que
quero ser menino.
Fernando Sabino
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7:28 PM
by Cassiano Leonel Drum
De Gramática e de Linguagem
E havia uma gramática que dizia assim:
"Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta".
Eu gosto das cousas. As cousas sim !...
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante...)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? Não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,
Amigo ou adverso...João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto...
Mario Quintana
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7:25 PM
by Cassiano Leonel Drum
Arte de Amar
Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.
Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.
Thiago de mello
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7:55 AM
by Cassiano Leonel Drum
Se voces abrirem o edital ai no link e multiplicarem o valor da inscrição que foi cobrada pelo número de inscritos terão a arrecadação do TJRS com esse concurso. Tem custos? Sim, mas é um grande fonte de arrecadação, sem dúvida. E imaginem os cursinhos para todo essa gente inscrita... E também as esperanças, pois somente 18 desse expressivo número é que poderão ter seus sonhos realizados. Isso é, 62.856 pessoas continuarão somente com a esperança de um dia chegar lá.
3,49 mil disputam cada vaga no concurso do Tribunal de Justiça
Número de inscrições chega a 62.874
Um número recorde na história do Poder Judiciário - 62.874 pessoas - inscreveu-se para o concurso de Oficial de Justiça. Apenas 18 vagas estão sendo oferecidas no Rio Grande do Sul. Elas serão disputadas por 19.023 candidatos da Capital e 43.851 do Interior. Ou seja, há 3.493 interessados para cada uma das 18 vagas.
O salário varia de R$ 2.570 a 3.070, dependendo da entrância da comarca. O edital com as inscrições homologadas será publicado no dia 9 de outubro no Diário da Justiça. O prazo para os recursos contra a não-homologação de inscrições será de 10 a 14 de outubro.
A prova única - que será dividida em português, legislação e conhecimentos específicos - está programada para o dia 16 de novembro. As listagens e os editais poderão ser encontrados no site do Tribunal de Justiça - www.tj.rs.gov.br - link concursos.
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7:47 AM
by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
27/08/2003
Mulheres apedrejadas
Hoje será julgado o recurso do caso da nigeriana Amina Lawal, condenada à morte por apedrejamento, de acordo com as leis de seu país. O crime de Amina, muçulmana, 31 anos, foi ter dado à luz uma menina após ter se divorciado. Ela só não foi executada ainda por estar amamentando. Se não houver clemência, assim que acabar o período de lactância enterrarão seu corpo no solo, deixando apenas a cabeça de fora, e ela será alvo de pedradas até morrer. Estou escrevendo uma crônica sobre este assunto em pleno ano de 2003, quando todas as noites, às 21h, vai ao ar uma novela no Brasil com os seguintes personagens femininos:
Helena, separada, transa com o namorado da enteada.
Raquel, separada, transa com um aluno mais jovem.
Clara, solteira, transa com Rafaela.
Gracinha, solteira, está grávida do filho dos patrões.
Sílvia, casada, transa com o namorado da sua empregada.
Marina, separada, transa com o namorado da sua ex-sogra.
Dóris, solteira, transa com quem pintar.
Estela, separada, sonha em transar com um padre.
Todo santo dia, no horário do jantar, a gente testemunha um mundo em que homens e mulheres fazem o que bem entendem com o próprio corpo, realizam fantasias, caçam oportunidades de amor e afeto, brigam contra as convenções em busca de uma felicidade possível, agem bem e agem mal, mas são donos de suas vontades. Há quem diga que essa é uma realidade apenas do Leblon. Não é. Em todos os bairros, em todas as cidades, em todas as classes sociais, pessoas cometem burradas, se metem em encrenca, traem, são traídos, perdoam, se arrependem, juram que nunca mais.
O exagero da novela fica por conta de ser uma obra de ficção, mas o autor, Manoel Carlos, não inventou um mundo de faz-de-conta, aquilo não é uma irrealidade. Irreal é uma mulher, no século 21, habitante deste nosso pequeno mundo globalizado e informatizado, ser apedrejada porque teve um filho fora do casamento.
Mas Amina Lawal é mesmo deste mundo? Apesar de ela não usar internet, não ver Sex and the City nem as novelas de Manoel Carlos, sim, ela é deste mundo. Apenas desobedeceu às regras de sua cultura e de sua religião. E, caso não seja absolvida e perdoada, vai deixar claro para todos nós que Helenas, Dóris e Sílvias ainda têm muito o que conquistar.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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7:43 AM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
27/08/2003
Foto(s): Porthus Junior, Agência RBS/ZH
A pergunta de Maria Fernanda
O Roger Lerina desempenhava na pista do Serrano, esse fim de semana. O Roger é um Travolta, um dançarino de mão cheia - no caso, pé cheio. Pois ele estava lá, serpeando feito uma Salomé de costeletas, quando sentiu um suave cutucar no ombro:
- Posso dançar contigo?
Era a Maria Fernanda Cândido, olhos verdes fosforescendo na penumbra da boate. Naquele momento, toda a vida do Roger passou-lhe diante das pestanas, como um filme do Telecine Emotion. Sua já tão distante infância, os discos de rock que fizeram-no gritar urru na adolescência, a esforçada tentativa de ser goleiro de futsal, o dia em que descobriu que estava perdendo cabelo, a vida inteira em um segundo.
Indicadores apontando para o teto, joelhos levemente flexionados, biquinho nos lábios, Roger entendeu: algo definitivo, algo realmente importante estava acontecendo com ele, ali, na chuvosa noite da serra gaúcha. Tudo o que ele tinha vivido, seus relacionamentos, o nascimento da linda filha Pilar, o curso de jornalismo, os livros que lera, os filmes que assistira, as discussões que tivera com o amigo Sérgio Lüdtke, tudo, tudo, tudo, para chegar àquela noite, na pista do Serrano, e ouvir da boca polpuda de Maria Fernanda Cândido a frase primacial:
- Posso dançar contigo?
Poucas pessoas experimentam essa sensação do Absoluto, do Universo se abrindo em compreensão, do Mistério da vida sendo solucionado, enfim. Roger a experimentou. E soube: enfrentava o átimo decisivo. Não podia errar. Não podia nem sequer pensar duas vezes. Roger, que sempre fora goleiro, era agora o centroavante, o homem diante do gol desguarnecido, algo que tantas vezes tem ocorrido com os jogadores da dupla Gre-Nal, nesse campeonato.
- Posso dançar contigo? - perguntou ela, como se fosse uma pergunta comum, e não um questionamento e não A Pergunta.
Então, com exemplar sangue-frio, com raro autocontrole, Roger reuniu todo o seu conhecimento, tudo o que viu e ouviu e sentiu nessa longa estrada da vida, respirou fundo e respondeu:
- Sim.
A resposta certa! ELE DEU A RESPOSTA CERTA!!!
Maria Fernanda Cândido, Fê, para o Roger, foi dançar com ele e dançando com ele ficou, na madrugada gramadense, sabe-se lá por quanto tempo, pois que aí o tempo parou.
Sim, senhor, Roger fez o que tinha de fazer, ao contrário dos jogadores da dupla. Fez. E foi feliz, feliz, feliz.
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7:40 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
27/08/2003
A lógica do terrorismo
Literalmente, a foto que vejo na Folha de S.Paulo está banhada de sangue.
Trata-se da explosão de dois táxis contendo poderosos explosivos que atingiram um mercado de jóias e o Portão da Índia, o principal ponto turístico do país, em Bombaim.
As duas explosões provocaram 46 mortes, ferindo cerca de 160 pessoas.
Ao que tudo indica, o atentado foi perpetrado por grupos islâmicos que querem a independência da Cachemira.
Mas a foto do jornal que ilustra o atentado é brutal. Colorida, é dominada por um vermelho escarlate do sangue das vítimas que aparecem emboladas no leito da rua.
Uns já mortos, outros restando feridos, um homem mostra nitidamente a sua perna inteiramente decepada. Apesar disso, ele está lúcido e a olhar desolado para a sua mutilação.
Mais sangue no chão e em cima dos outros corpos, vivos ou mortos.
Rajo Ghosh se preparava para descansar de um dia agitado na capital financeira da Índia, quando ia tomar o seu chá, ouviu uma explosão ensurdecedora: "Olhei para cima e vi fumaça por toda parte. Ouvi pessoas gritando. Comecei a correr até um táxi que explodira em pedacinhos", contou o gari de 24 anos.
"Vi pessoas se contorcendo no chão. Havia pedaços de carne humana por toda parte, como postas de carne de carneiro. Recolhi 12 corpos com pernas, mãos e cabeças faltando. Minha cabeça girava e eu tremia. Mas continuei a carregar os corpos."
Horas após as explosões, o forte cheiro de carne humana continuava se exalando do ar.
Não me sai da cabeça a foto inundada de sangue exposta no jornal. Fico a imaginar qual é o sentimento de milhões de pessoas que vêem todos os dias nos jornais estas fotografias de morte, dor e destruição nos atentados terroristas e nas guerras.
Antes do progresso das comunicações, havia carnificinas iguais na Terra. Mas só as testemunhas oculares ou de qualquer forma presentes ao centro da destruição sofriam o impacto das cenas macabras.
Hoje, toda a humanidade presencia essas cenas pelo jornal ou pela televisão, brota sangue dos corpos que jazem nas calçadas de Bombaim ou então se vê num hospital de emergência do Iraque um menino sendo atendido numa barraca, com seus dois braços inteiramente mutilados.
Em Tel-Aviv, um ônibus é despedaçado por explosivos e são atingidas diversas crianças que estavam dentro dele: outra foto mostra um bebê coberto de sangue e sendo atendido pelos transeuntes.
Em seguida, desatam-se diversas e sangrentas retaliações de Israel no território palestino, todas também banhadas de sangue.
Será que a nossa reação ao assistir a estas cenas será só de indiferença e passividade?
Não haverá também uma nossa remota culpa por pertencermos à mesma espécie das feras que trucidam?
Afinal, qual é a lógica do terrorismo? O terrorista se sente subjugado pelo inimigo a quem ataca. Mas sabe que não pode destruí-lo.
Então decide causar-lhe profunda dor.
Mas quase sempre o que se vê é o inimigo do terrorista ficar ainda mais forte e mais brutal depois que é atingido por um atentado.
E de vingança em vingança se constata que não há nenhum período da história humana que não tivesse se caracterizado por dominadores e dominados. Por jugo e por sangue.
Apenas nos amassa mais esta verdade porque hoje podemos vê-la inteiramente retratada nas fotos dos jornais e nas imagens da televisão.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:38 AM
by Cassiano Leonel Drum
E a previsão é mesmo de neve, mesmo com o Planeta Marte bem pertinho da terra como estará hoje.
Clima
À espera da neve
Frio de 1,7ºC negativo, que pintou os campos de branco, como os de Vacaria (foto), deve ser mais intenso hoje (foto Jefferson Botega, Agência RBS/ZH)
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Terça-feira, Agosto 26, 2003
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8:37 PM
by Cassiano Leonel Drum
CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 26 DE AGOSTO DE 2003
CEF tem lucro de R$ 860 milhões
São Paulo - A Caixa Econômica Federal (CEF) encerrou o primeiro semestre com lucro líquido de R$ 860 milhões, crescimento de 52% sobre o mesmo período de 2002. O retorno sobre o patrimônio líquido da instituição foi de R$ 34,94%, ante 27,97% em igual período do ano que passou. Os resultados foram atribuídos às operações comerciais na carteira de títulos da CEF e na queda de despesas operacionais. No primeiro semestre, as receitas com intermediação financeira cresceram 77%, saltando de R$ 7,234 bilhões para R$ 12,809 bilhões.
Pois é, multiplique por dois e assim voce terá o lucro do Tesouro nesse ano de 2003, somente com a CAIXA, já que os lucros são repassados ao mesmo.
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8:30 PM
by Cassiano Leonel Drum
Linhas aéreas
TRF da 4ª Região suspende processo de fusão da Varig e TAM
Terça, 26 de Agosto de 2003, 19h31
Fonte: Agência Brasil
O desembargador Luiz Carlos Lugon, do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região no Rio Grande do Sul suspendeu na tarde de hoje o processo de fusão das empresas aéreas Varig e TAM.
O desembargador aceitou a alegação do Ministério Público Federal de que a fusão poderia ser lesiva aos consumidores. Ainda pode haver recurso da decisão no próprio tribunal, mas a tendência é que a proibição da fusão continue até o julgamento do processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
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8:40 AM
by Cassiano Leonel Drum
Quem vai matar Marcos
Atores e espectadores brincam de detetive com a morte do vilão de Mulheres Apaixonadas
Marcelle Justo e Clarissa Monteagudo
Helena Ranaldi. Muitas vezes, a mulher que apanha não denuncia não só por covardia. Ela precisa se sentir valorizada, pensando ¿como sou boa, como eu sofro. Em compensação, Marcos se sente valorizado e poderoso ao agredir, analisa a psicanalista Alice Bittencourt. Apesar do medo de Marcos, Raquel já atirou contra o marido para se defender de um surra.
Pedro Furtado. Para Alice Bittencourt, Fred se apaixonou porque Raquel o fez se sentir importante: Ela quis integrá-lo, mas respeitando o jeito dele. A mãe, não, só quer que Fred a obedeça. Ele se sentiu visto pela Raquel. O rapaz será baleado pelo vilão, cada vez mais violento. A morte de Marcos deixa o caminho livre para conquistar Raquel.
O culpado é o mordomo. O autor Manoel Carlos pode adaptar essa máxima em Mulheres Apaixonadas. Depois de fazer mistério afirmando que um de seus personagens ia morrer, o autor decretou a pena de morte ao vilão Marcos (Dan Stulbach). A fiel escudeira de Raquel (Helena Ranaldi), Yvone, vivida por Arlete Heringer, é apontada pelos telespectadores como uma das principais suspeitas, ao lado de Fred (Pedro Furtado) e da própria Raquel, seguidos por Dóris (Regiane Alves) e Leonora (Joana Medeiros). A cena do assassinato deve ocorrer em duas ou três semanas.
Yvone pode matar em legítima defesa. Ela já disse numa cena que, se um dia ele colocasse o dedo em cima dela, não iria apanhar calada. Ela também pode assassiná-lo para defender a Raquel, especula a atriz Arlete Heringer, que, como os outros atores, ainda não recebeu os capítulos sobre a morte do vilão.
A revolta da empregada de Raquel tem convencido os fãs da novela. Quem vai matar é a Yvone. Mas por impulso, para se defender. Ela não é capaz de cometer um assassinato friamente, analisa a estudante Flávia Magalhães, 26 anos. A Yvone fica muito revoltada com as agressões de Marcos. Se tiver oportunidade, pode matá-lo sim, acredita a universitária Karen Assunção, 25 anos, que parte para a análise psicológica para descartar Raquel da lista de suspeitos. Ela é daquelas mulheres com tendência a se juntar a homens que as maltratem. Raquel se sente merecedora dos tapas, por isso não reage. Já o Fred é menor e a novela não ia pegar pesado, diz.
Para Pedro Furtado, não é impossível que Fred acabe com Marcos. A princípio, ninguém acreditaria que o Fred tenha perfil de assassino. Mas numa situação-limite, ele pode matar. De repente, pode acontecer luta entre os dois, exemplifica o ator.
O estudante Leonardo Bittencourt, 22 anos, assume ares de detetive e concorda com o ator. Fred, como todo adolescente, tem ânimos exaltados. E teoricamente está apaixonado por Raquel. Se for colocado contra a parede, pode explodir, analisa.
O maior interessado, o ator Dan Stulbach, prefere esperar a decisão de Manoel Carlos e não descarta nenhum dos suspeitos. Todas as pessoas têm lado bom e ruim e são capazes de matar, resume. E, quem diria, a autoria do assassinato é cobiçada pela atriz Regiane Alves, que vê uma boa possibilidade de redimir a sua Dóris. ¿Seria o máximo. Ela ia virar heroína. Os avós ainda iriam socorrê-la na prisão¿, sonha a atriz. Ela é explosiva e, num momento de raiva, pode dar o troco, imagina Regiane. Agora é só esperar.
Regiane Alves. Dóris não tem limites, os pais falharam na sua educação. Ela não desenvolveu uma das características mais importantes do amadurecimento, que é a capacidade de tolerância à frustração. Acha que pode tudo, analisa Alice Bittencourt. Ela é amante de Marcos e pode não tolerar uma agressão. Regiane Alves torce para que sua personagem seja culpada.
Arlete Heringer. Mais do que empregada, amiga de Raquel, Yvone é a única pessoa que testemunha as agressões de Marcos desde que o casal vivia em São Paulo. Ela sempre incentivou Raquel a denunciá-lo e já disse que não aceitaria ser agredida. Ela sofre as dores de Raquel e tenta mostrar o que a professora não consegue ver, diz a psicanalista.
Joana Medeiros. É UMA mulher que não está feliz consigo mesma. Separada, sem vida própria, controla Fred como forma de preencher a própria vida, diz Alice Bittencourt. Mesmo sendo contra o romance de Raquel e Fred, Leonora é suspeita da morte de Marcos, pois pode querer proteger o filho, principalmente depois que ele for baleado.
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8:33 AM
by Cassiano Leonel Drum
Prêmio de Cinema Caseiro
Pensaram que não ia rolar neste ano o Prêmio Contracapa de Cinema Caseiro de Gramado, né? Ledo e ivo engano. Atrasamos um dia, mas eis aqui a lista de troféus virtuais (porque não conseguimos ainda quem patrocine essa chalaça...), elaborada pela equipe do Segundo Caderno que passou a semana inteira cobrindo o Festival de Gramado.
- Prêmio "O Preço da Paz" - Para o ministro Gilberto Gil, que em seu discurso acalmou os produtores ansiosos com a possibilidade de fim imediato da LIC.
- Prêmio "Lugares Comunes" - Para o texto da cerimônia de encerramento do festival.
- Prêmio "Cuentos de Hadas para Dormir Cocodrilos" - Para a vinda de Rodrigo Santoro, dada como certa na quarta-feira e não confirmada na quinta.
- Prêmio "Apolônio Brasil, Campeão da Alegria" - Para o ator italiano Nicola Siri, que, animadíssimo, aplaudia empolgado até mesmo a chamada ao palco do deputado Jair Soares no Palácio dos Festivais.
- Prêmio "Amor Só de Mãe" - Para Flor Paes, mãe de Dira Paes, que veio prestigiar a filha e a viu consagrada com o Kikito de atriz coadjuvante.
- Prêmio "O Prisioneiro da Grade de Ferro" - Para os repórteres que não puderam entrar no Palácio dos Festivais até o ministro Gilberto Gil terminar a entrevista que concedeu à MTV, no sábado.
- Prêmio "À Margem da Imagem" - Para alguns atores que passaram incólumes pelos flashes dos fotógrafos.
- Prêmio "No Bar" - Para o bar do Serrano, onde a maioria das celebridades - e anonimidades - do evento ia finalizar a noite.
- Prêmio "Tempo de Ira" - Para o diretor Dennison Ramalho, do curta Amor Só de Mãe, que fez o discurso mais inflamado, provocativo e cheio de nomes feios da semana.
- Prêmio "Corazón de Fuego" - Para a atriz Maria Fernanda Cândido, que incendiou corações por onde passou.
- Prêmio "O Resto É Silêncio" - Para o pito merecido do mestre-de-cerimônias Werner Schünemann aos que insistiam em deixar o celular ligado no cinema.
- Prêmio "De Passagem" - Para Regina Duarte, que surgiu do nada no sábado à noite, apresentou alguns prêmios e se foi.
- Prêmio "A Selva" - Para o calor que fez quase toda a semana em Gramado.
- Prêmio "Dom" - Para Bete Mendes, que tem o dom da simpatia e encantou a todos.
- Prêmio "Concerto Campestre" - Para a bem afinada organização da noite de entrega dos Kikitos.
Contramão
Vou embora e levo o cérebro comigo
(Louise Cardoso, atriz, em uma cena do filme Apolônio Brasil, Campeão da Alegria, na qual os personagens brigam pelo cérebro do protagonista. Que frase inesquecível, hein?)
contracapa@zerohora.com.br
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8:29 AM
by Cassiano Leonel Drum
Liberato Vieira da Cunha
26/08/2003
Visitação da noite
O que mais gosto em minhas visitas ao coração da noite é de um modo de sonhar que dispensei em alguma esquina do irreal. Nunca fui um boêmio clássico, desses que têm mesa fixa, dormem por manhãs baldias, chamam o garçom pelo apelido. Jamais pisei num bar sem a exata noção de minhas posses em metal sonante. E me revejo sempre, a folhas tantas da singradura, consultando o andar do tempo.
Menos nas sextas, quando a melhor parte dos jornais de Porto Alegre transitava das redações para as mesas de chope. Entre uma rodada e outra, havia espaço infinito para conversas a perder de vista, sem rumo nem tema, que de vez em quando fluíam, impressentidas, em direção ao segredo, à confissão, à partilha.
E já que bati nessa praia, devo entregar o que mais me agradava na branda navegação da insônia. É lógico que eu prezava aqueles papos desprovidos de fronteiras. Evidente que não me importava com a fumaça, os chatos habituais, o ruído. Claro que não me afligia a mirada de alguma dama, em particular se terna e sedutora e cúmplice.
Mas nada disso me atraía tanto - com os descontos de preceito - do que a música.
Provindas de um disco de vinil, de uma cantante órfã de orquestra e coro, as melodias que surgiam e morriam a cada madrugada me punham em estado de plenitude.
Que músicas? A escolha é livre. A mim encantavam versos dotados do inimitável balanço da bossa nova. Algo tipo:
"E por falar em paixão, / em razão de viver, / você bem que podia me aparecer, / nesses mesmos lugares, / na noite, nos bares - / onde anda você?"
Não desprezava tangos ornados de passagens como:
"Sus ojos azules muy grandes se abrieron, / mi pena inaudita pronto compreendieron / y con una mueca de mujer vencida / me dijo: 'Es la vida'. Y no la vi más".
Mas receio que sejam coisas idas e arquivadas.
Agora, que sou a sombra do boêmio que não fui, me restam estas visitas distantes ao coração da noite.
Um pouco na voz do vento, um pouco na solidão distraída de mim mesmo, reencontro uns acordes esquecidos, umas palavras esparsas, a vez que entrou, em um pub de Viena, a mais linda mulher do universo.
liberato.vieira@zerohora.com.br
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8:27 AM
by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
26/08/2003
A inteligência das pedras
Ela se chama Amina Lawal, tem 31 anos, e é originária de uma pequena vila da Nigéria. Aos 14 anos casou-se pela primeira vez; o marido abandonou-a, bem como ao filho. Casou-se pela segunda vez; o novo marido queria impedi-la de ver os pais e Amina teve de se separar. Seguiu-se uma ligação com um homem da aldeia; dessa ligação nasceu uma filha, Wasila. E isto, pela lei religiosa seguida naquela região da Nigéria, é um crime grave. Amina Lawal, sem qualquer apoio do ex-companheiro, que inclusive negou a paternidade, foi condenada à morte por apedrejamento.
Esta é uma forma de execução originária do Oriente Médio e muito antiga - figura até na Bíblia. É barata - pedra é coisa que não falta naquela região árida e rochosa - e é particularmente cruel, porque a morte ocorre aos poucos, em meio a um grande sofrimento. Numa época em que a punição tinha de servir de escarmento ao povo, o apedrejamento era, senão justificado, pelo menos explicável. A pergunta é: como um costume destes pôde atravessar os séculos? E a resposta, infelizmente, é óbvia: por causa do fundamentalismo, esta fanática versão de prática religiosa que impõe aos outros uma crença pela força bruta, pela fórmula do crê ou morre. O fundamentalismo que também está atrás dos atos de terror, como aquele que vitimou Sérgio Vieira de Mello.
Amina Lawal recebeu ajuda de advogados, que apelaram da sentença. A sessão do Tribunal de Recursos ocorrerá neste 27 de agosto. Não é, felizmente, a última instância; o presidente da Nigéria pode exercer o seu direito de perdão, uma decisão política, não judicial. Mas isto não é uma questão que dependa da clemência de um mandatário. É uma questão que afeta a todos nós. Trata-se, ao fim e ao cabo, de saber o que prevalecerá em nosso mundo, a racionalidade ou o obscurantismo, diante do qual até as pedras parecem inteligentes.
scliar@zerohora.com.br
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8:25 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
26/08/2003
Tornozeleira luminosa
Soou o alarma: aumenta cada vez mais a população carcerária, cada vez menos os Estados se aparelham para abrigar seus presos.
Com o aumento assustador da demanda criminal e do clamor público por punições penais aos delinqüentes, é necessário que se modernize o cumprimento da pena.
Por isso é que é excelente esta idéia de monitorarem-se os detentos beneficiados com os regimes aberto e semi-aberto, controlando-os eletronicamente, mediante tornozeleiras que indicam os limites da sua liberdade.
Funciona assim: as tornozeleiras emitem sinais eletrônicos enquanto o detento estiver a uma distância não superior a 50 metros da sua base referencial: no caso a sua residência, em se tratando de prisão domiciliar.
No caso em que o apenado é autorizado a trabalhar, as tornozeleiras também se adaptam àquele novo local, levando em conta o tempo que o preso leva para percorrer a distância entre sua residência e o serviço.
Fora dessa área de abrangência, o preso não pode se movimentar.
Desde logo há opiniões de que esta tornozeleira pode ser uma marca infamante contra a pessoa humana.
Não vejo assim, ela é usada discretamente, debaixo das calças. Como pode ser opressora uma marca que não aparece e que redunda em benefício do preso?
O que se trata é de substituir a obrigação que os detentos que trabalham fora têm de pernoitar no estabelecimento penal ou de substituir a pena integral de reclusão no presídio por uma pena de prisão domiciliar, monitorada e controlada pela autoridade penitenciária.
O controle é exercido tanto pelo direito do Estado em reduzir a liberdade do detento, finalidade da pena, quanto pela certeza de que o Estado terá de que o apenado não está novamente delinqüindo, o fato mais comum nos dias que correm.
Quem acha que uma tornozeleira dessas é opressora à pessoa humana tem de entender que ela substituirá o total amassamento moral dos detentos nas condições precárias dos presídios atuais, quando centenas de milhares de presos brasileiros se amontoam em cubículos estreitos e anti-higiênicos, submetidos a toda sorte de agressões e constrangimentos.
Quer dizer então que a tornozeleira eletrônica é infamante à pessoa humana e a degradação total do preso nas penitenciárias não o é?
A tornozeleira visa exatamente a um tratamento mais humano aos presos, dando-lhes o direito de tentar o trabalho e usufruir da companhia de seus familiares durante o cumprimento da pena.
Não pode haver sistema mais humano e que propicie maior chance de regeneração do que este. O abismo pessoal é atingido dentro dos presídios e não fora deles.
Não posso entender por isso qualquer restrição a esse sistema. Ele é rigorosamente ideal para as dificuldades atuais por que passa o nosso parco e cada vez mais afundado sistema penitenciário.
A pena domiciliar, é lógico, implica a exigência de que o detento não se afaste de sua casa, se pudesse deslocar-se para onde bem entendesse não era pena.
Por isso também é que é usada a tornozeleira. Já que, assim como na liberdade condicional, o Estado tem o direito de controlar os movimentos de quem está sob sanção penal.
Nada mais humano e mais razoável perante o objetivo da ressocialização do preso, implícito na pena, do que tirar o apenado da cadeia, onde nos moldes brasileiros ele se animaliza - e remetê-lo para o meio social, sob controle do Estado.
Esta é uma luminosa idéia que necessita ser apoiada por todos e implantada com urgência. Porque os presídios estão lotadíssimos e os criminosos andam soltos pelas ruas, sem tornozeleiras.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:24 AM
by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
Uma cidade apaixonada pelos livros
Em Passo Fundo, lonas de circo abrigam escritores, artistas e milhares de leitores que participam da 10ª Jornada Nacional de Literatura (foto Tadeu Vilani/ZH)
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Segunda-feira, Agosto 25, 2003
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8:01 PM
by Cassiano Leonel Drum
Uma reflexão sobre a vida e o amor
Às vezes as pessoas que amamos nos magoam,
e nada podemos fazer senão continuar nossa jornada
com nosso coração machucado.
Às vezes nos falta esperança,
mas alguém aparece para nos confortar.
Às vezes o amor nos machuca profundamente,
e vamos nos recuperando muito lentamente
dessa ferida tão dolorosa.
Às vezes perdemos nossa fé,
então descobrimos que precisamos acreditar,
tanto quanto precisamos respirar,
é nossa razão de existir.
Às vezes estamos sem rumo,
mas alguém entra em nossa vida,
e se torna o nosso destino.
Às vezes estamos no meio de centenas de pessoas,
e a solidão aperta nosso coração
pela falta de uma única pessoa.
Às vezes a dor nos faz chorar, nos faz sofrer,
nos faz querer parar de viver,
até que algo toque nosso coração,
algo simples como a beleza de um por do sol,
a magnitude de uma noite estrelada,
a simplicidade de uma bris |