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Sábado, Setembro 06, 2003




Martha Medeiros
07/09/2003



Não gostar de quem se gosta

Reparei que nos últimos anos Woody Allen não vem mais fazendo filmes que me agradem 100%. Que saudades de Hannah e Suas Irmãs

Não que eu goste dos filmes do Woody Allen, eu sou maníaca por Woody Allen. Sabe fã número 1? Pois é. Desde sempre. Vi todos os filmes, tenho alguns em casa, coleciono biografias dele. Eu o vi, ao vivo, tocando clarinete num pub em Nova York. O lugar era péssimo, a comida intragável, a conta uma estupidez, mas ele tocava direitinho, ou eu é que não estava muito a fim de ser exigente. Tiete assumida. Daquelas que quase perde o senso crítico.

Quase. Reparei que nos últimos anos ele não vem mais fazendo filmes que me agradam 100% (que saudades de Hannah e Suas Irmãs, Zelig, Crimes e Pecados, Maridos e Esposas), mas nenhum problema. Antes um razoável Woody Allen do que um excelente As Panteras. Aí fui ver Dirigindo no Escuro, que está em cartaz. E achei infantil. O filme se salva pelo final, mas leva-se cerca de duas horas pra chegar ao final de um filme. Foi mais ou menos como assistir Sexto Sentido. I see dead people. Filmes com uma única sacada.

A conclusão a que chego é: como é difícil desapontar-se com quem a gente gosta. Porque gostar, seja do que for, é uma relação de fidelidade. Se adoro Chico Buarque, me custa desgostar de alguma música que ele tenha composto. Se acho Picasso um gênio, me sinto uma idiota se algo feito por ele não me comove. Se venero os Beatles - e venero - fico constrangida com alguns yeah yeah yeah do seu passado em Liverpool. É chato quando nosso gosto - e a gente sempre acha que tem bom gosto - não se realiza. Se Dirigindo no Escuro fosse o primeiro filme de Woody Allen, eu diria: tá, é legal. No máximo. Mas não pode ser apenas legal, é Woody Allen, é grife, é um degrau acima da humanidade. Como pode?

Guardadas todas as proporções, quando alguém me diz "puxa, eu adorava você, mas seu último texto me decepcionou", entendo perfeitamente o tamanho do desgosto que causei. Porque ninguém costuma entregar seu coração facilmente, a gente se dedica a amar um escritor, um músico, um cineasta, uma atriz, e de repente ele falha - ou não atinge nossa expectativa - e isso soa como traição. É muito mais fácil desgostar de quem nunca se gostou, de quem já implicávamos por antecipação. Mas se, ao contrário, havia amor, quanta decepção.

Posto isso, preciso admitir: estarei sentadinha na última fila - a minha preferida nas salas de cinema - em todos os filmes que Woody Allen fizer, até os seus 130 anos, que é o que eu espero que ele viva. Achei bobo Dirigindo no Escuro, mas ele vai ter que se esforçar muito mais pra me perder.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
07/09/2003


Quase loucura

Idéia para uma história. Homem e mulher se conhecem numa sala de espera de médico. Ela grávida, ele esperando a mulher, que consulta com o médico. Ele oferece a Caras que estava folhando:

- Quer dar uma olhada?

Ela:

- Acho que essa eu já vi. É nova?

Ele, depois de consultar a data da revista:

- Bom, é deste século...

Os dois riem. E se apaixonam.

Dessas coisas. Destino, química... Quem explica essas coisas? Se apaixonam, pronto. Mas não caem nos braços um do outro. Mesmo porque a barriga dela, de sete meses, não permitiria. Ficam apenas se olhando, atônitos com o que aconteceu. Pois junto com o amor súbito vem a certeza da sua impossibilidade. Como uma ferida fazendo casca em segundos. E como nenhum dos dois é um monstro de frivolidade, e como a vida não é uma comédia romântica, é uma coisa muito séria, e como eles não podem largar tudo e fugir, trocam informações rápidas, para pelo menos ter mais o que lembrar quando lembrarem aquele momento sem nenhum futuro, aquela quase loucura. Sim, é o primeiro filho dela. Menino. E a mulher dele? Está consultando o médico porque a gestação complicou, o parto talvez precise ser prematuro. Também é o primeiro filho deles. Filha. Menina. Que mais? Que mais? Não há tempo para biografias completas. Gostos, endereços, telefones, nada. A mulher dele sai do consultório. Ele tem que ir embora. Dá um jeito de voltar sozinho e perguntar:

- Como é seu nome?

Ela:

- Maria Alice. E o seu?

Ele:

- Rogério! Rogério!

E sai correndo, para nunca mais se encontrarem.

Mas se encontram. Três anos depois, na sala de espera de um pediatra. Ela chega com uma criança no colo. Ele está lendo uma revista. Talvez a mesma Caras. Os dois se reconhecem instantaneamente.

- Maria Alice!

- Rogério!

Ele pega a mãozinha da criança.

- E este é o...

- Carlos. Caquinho.

- Ele está com algum...

- Não, não. Consulta normal. Ele é saudável até demais. E a de vocês? O parto, afinal...

- Foi bem, foi bem. Ela está ótima. Se chama Gabriela. Só veio fazer um checape. Eu não posso ficar lá dentro porque fico nervoso.

Ele pega a mão dela. Pergunta:

- E você, como vai?

E antes que ela possa responder, declara que não houve dia em que não pensasse nela, e no que poderia ter sido se tivessem saído juntos daquele consultório, anos atrás, e seguido seus instintos, e feito aquela loucura. E ela confessa que ela também pensou muito nele e no que poderia ter sido. E ele está prestes a pedir um telefone, um endereço, um sobrenome para procurar no guia, quando a mulher sai do consultório com a filha deles no colo e ele precisa ir atrás, e só o que consegue é um olhar de despedida, um triste olhar de nunca mais.

Mas se encontram outra vez. Dois anos depois, na sala de espera de um pronto-socorro. Ele com a mulher, ela com o marido. Ele leva um susto ao vê-la.

- O que houve?

- É o Caquinho.

- O quê, meu Deus?

- O cretino conseguiu prender a língua numa lata de Coca.

Ele se emociona. A mulher dele não entende. De onde o marido conhece aquele Caquinho? E de onde aquela mulher conhece a Gabriela?

Ela está perguntando se aconteceu alguma coisa com a Gabriela. Rogério não consegue responder. Ficou arrasado com a notícia da língua presa do Caquinho. Ela responde por ele. Explica que não foi nada, que a Gabriela só bateu com a cabeça na borda da piscina e está levando alguns pontos.

E nem a mulher dele nem o marido dela entendem por que, ao chegar a notícia de que o Caquinho só ficará com a lingua um pouco inchada, os dois se abraçam daquela maneira, tão comovidos.

Depois, voltando para casa, a mulher quer saber por que ele se emocionara daquele jeito, se nem conhecia o tal de Caquinho.

E ele:

- Solidariedade humana, pô.

A idéia era essa, mas a história não precisa terminar aí. Rogério e Maria Alice podem continuar se encontrando, de tempos em tempos, em salas de espera (dentistas, traumatologistas, psicólogos especializados em problemas de adolescentes etc.), até um dia ela sair do quarto de hospital onde está o Caquinho, que teve um acidente de ultra-leve, e avistá-lo na sala de espera da maternidade, e perguntar:

- A Gabriela está tendo bebê?

E ele fazer que sim com a cabeça, com cara de "para onde foram as nossas vidas"?

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Moacyr Scliar
07/09/2003


Cenas do Brasil

Pensei no nosso país olhando um cartaz numa agência dos Correios perto de minha casa. Um cartaz que é também uma imagem brasileira

No último filme de Woody Allen, em cartaz em nossos cinemas, há uma menção ao Brasil. O personagem diz que sua ex-mulher casou com um brasileiro e que mora no Rio. Uma frase absolutamente casual e que é, por isso mesmo, significativa. Porque, nos filmes americanos, representa uma mudança.

Num passado já remoto, Brasil era a terra do samba, do Carnaval; Carmen Miranda, com seus balangandãs era a figura paradigmática. Era a época da II Guerra, e a aliança Brasil-Estados Unidos precisava ser estimulada, tanto que os estúdios Walt Disney chegaram a criar um personagem específico para isto: Zé Carioca, que aparecia como um grande amigo do Pato Donald (mas não do Tio Patinhas; estão aí os juros da dívida externa para comprová-lo).

Mais recentemente, o Brasil passou a ser mencionado num outro contexto. A cena típica mostrava dois gângsters conversando, um dizendo para o outro: "Pegamos o dinheiro, vamos para o Brasil..." . Ou seja: estavam falando do país da impunidade. O que, considerando os escândalos dos últimos anos, não estava tão longe da realidade, tanto que as nossas platéias riam, deliciadas.

Em suma: o Brasil era um paraíso tropical, pitoresco, onde a corrupção (e o sexo desenfreado) campeavam. E isto não era só no cinema. O público leitor (europeu, norte-americano) preferia os livros que falavam de um Brasil exótico - e, no caso dos leitores de esquerda, um Brasil rebelde, militante.

Pensei nisto outro dia, olhando um cartaz numa agência dos Correios perto de minha casa. Um cartaz que é também uma imagem brasileira. A foto mostra uma rua alagada. O que, em nossas cidades, não chega a ser novidade. Temporais costumam paralisar Rio e São Paulo, e às vezes Porto Alegre. Vivemos numa região de clima tropical ou subtropical, em que chove bastante, mas não é essa a razão das inundações. A razão é outra: o asfalto impede que a terra absorva a água, a rede de esgotos pluviais não dá vazão à enxurrada. Ou seja: o progresso chegou a nós de forma parcial. Temos asfalto, mas não temos esgoto. Temos indústria automobilística, mas não temos poder aquisitivo para comprar carros. E assim por diante.

Mas o cartaz não mostra só isso. Mostra um carteiro. Ali está ele, um homem magrinho, com as calças arregaçadas, a água chegando quase até os joelhos. O carteiro leva um menino nas costas. Um menino que ele está ajudando a atravessar a rua e que, por isso mesmo, sorri, divertido.

É claro que o pessoal dos Correios ficou orgulhoso com essa cena. A ECT é das coisas que mais funcionam em nosso país, e as cartas não deixam de ser entregues. Além disto, mostra a foto, o carteiro está indo além dos seus deveres. Está ajudando alguém da população.

Alguém poderia perguntar: mas a função do carteiro não é de entregar correspondência? É. E este carteiro está cumprindo sua função. Está entregando uma mensagem. Uma mensagem de solidariedade, uma mensagem de otimismo frente à adversidade, uma mensagem de confiança.

Este carteiro não é só um carteiro. Ele é o Brasil, ele é o que o nosso país tem de melhor. Ele é o 7 de setembro.

Na semana passada recebi a visita de uma prima que mora há muitos anos no Exterior. No Exterior casou, no Exterior teve filhos e agora netos. E, falando sobre sua vida, ela arrematou com uma frase:

- Apesar de tudo, nunca deixamos de ser brasileiros.

Uma mensagem que o carteiro do cartaz já nos entregou há muito tempo. Antes mesmo que Dom Pedro proclamasse a Independência.
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
07/09/2003


Um Rio Grande sem fronteiras
"Como a aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o 20 de Setembro
O precursor da liberdade.
Mostremos valor, constância,
Nesta ímpia e injusta guerra,
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra (bis)
Entre nós reviva Atenas
Para assombro dos tiranos,
Sejamos gregos na glória
E na virtude romanos.
Mas não basta pra ser livre
Ser forte aguerrido e bravo.
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo."

Estes versos são do Hino Rio-Grandense, autoria de Francisco Pinto da Fontoura (mais conhecido como Chiquinho da Vovó) com música do comendador e maestro Joaquim José de Mendanha.

É um hino belíssimo, tem uma entonação marcial, rememora a Revolução Farroupilha e sua letra e música são desconhecidas talvez de 95% dos gaúchos.

Por isso foi emocionante assistir sexta-feira pela televisão ao hino sendo executado pela Ospa na Expointer, com o presidente Lula da Silva ladeado pelo governador Germano Rigotto e pelo presidente do Uruguai, Jorge Batlle.

Rigotto cantava a letra inteira do hino. Lógico que Lula só escutava. Mas o que causou a surpresa de maior impacto aos que assistiam à cena foi que o presidente do Uruguai cantava com voz potente e grande entusiasmo toda a letra do Hino Rio-Grandense.

Foi emocionante para todos nós e deve ter sido ainda mais para o presidente Lula da Silva que um uruguaio cantasse com desenvoltura igual à do governador gaúcho o hino pampiano.

Isso comprova que a noção de pátria não é de todo ligada ao lugar em que se nasceu e em que se vive. A noção de pátria implica principalmente o lugar que amamos e que nos comove.

Eu já tinha ouvido pelo meio-dia de sexta-feira o presidente uruguaio dizer que se considerava gaúcho. Depois vim a saber que ele viveu no Rio Grande do Sul no período em que esteve exilado.

Mas vê-lo cantando o nosso hino acentua ainda mais em nós a noção pela inexistência entre brasileiros, uruguaios e argentinos de um sentimento de separação e rivalidade extremada.

Pelo contrário, este amor e esta reverência que sentimos pelo tango produz em nós todos uma sensação de unidade territorial e sentimental entre os três povos.

Nós gaúchos, somos brasileiros, mas somos muito mais aproximados do Uruguai e da Argentina do que de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Melhor hão de entender esse aparente absurdo que escrevi todas as pessoas que vivem em Artigas, em Livramento, em Uruguaiana, em Bagé, toda a fronteira gaúcha.

Parece a elas que há um só território a abrigar os três países, uma só língua, uma só mentalidade. Os fronteiriços desconhecem as suas diferenças políticas e se integram na mesma cultura, nos mesmos costumes, nas mesmas tradições, brasileiros casam com uruguaias, argentinas casam com brasileiros, há milhares entre eles que possuem dupla nacionalidade.

E foi lindo de ver o presidente uruguaio cantar com ardência cívica o nosso hino.

Imagino a surpresa do Lula. Ele deve ter tido ontem o melhor ensinamento de que o Mercosul é mais que um tratado, é um liame indestrutível que nos une aos castelhanos, os quais, apesar das incompreensões de esparsas e néscias turbas, são irmãos nossos, unidos a nós pelo valor incomensurável da vizinhança e da interpenetração cultural.

psantana.colunistas@zerohora.com.br


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Gente
Nasce a Nilmania



O atacante colorado Nilmar é o ídolo das tietes, atrai novas torcedoras para o Beira-Rio e ganhou até um fã-clube, o Nilmaravilha (foto José Doval/ZH)

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Mas que vidinha de Rei levam esses vira-latas hein! Bom fim de semana, que aqui no Portinho está uma primavera, mas bem mais para verão.

A doce vida de cachorro

Sorvete e chocolate para os amigos de quatro patas

Doces com o formato de ossos, sorvetes em copinho e até chocolates são guloseimas disponíveis para agradar ao paladar dos cães mais exigentes. Mas especialistas advertem que não se deve dar a eles doces de verdade e sugerem conferir os rótulos dos produtos especiais. "Opte por aqueles que tenham nutrientes na composição", diz o veterinário Dan Wroblewski. Confira ao lado algumas iguarias para seu cãozinho:

Barra de chocolate branco
Dog Milky Mini
Tem 3% de cacau (quantidade não nociva)
5 reais (30 gramas)

Ossos de chocolate
Dog's
Mistura de leite em pó desnatado com farelo e lecitina de soja
6 reais (50 gramas, cinco unidades)

Ovinhos de chocolate
Vipdog
Contêm fósforo, cálcio, proteína. O aspartame substitui o açúcar
4,50 reais (42 gramas, seis unidades)
Pastilhas de chocolate

Milk Choco Drops
Têm sabores de chocolate ao leite e chocolate branco. Contêm vitaminas
A, D e E
6 reais (75 gramas)

Sorvete
Dog Ice
Pode ser consumido gelado ou não.
A fórmula inclui leite integral em pó, peixe, vitaminas B1, B12 e B6 e um suplemento vitamínico e mineral
5,50 reais (cinco unidades, 40 ml cada)

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Milene na Vip: ensaio com pouca roupa, sem avisar Ronaldo

Mostrando o jogo

Paulo Rocha/Vip

Surpresa: fã incondicional das roupas esportivas e do rosto (quase) lavado, Milene Domingues, 24 anos, pôs maquiagem e salto alto e, em trajes mínimos, posou para a capa da edição de outubro da revista Vip. "Só fiquei mais relaxada nas últimas fotos da sessão", confessa Milene, que está no Brasil, treinando com a seleção de futebol feminino e negando boatos sobre o fim de seu casamento.

O marido separa-não-separa, Ronaldo, nem sequer foi consultado sobre a inédita exposição, entre outras coisas, das tatuagens dela (o "rastro" de duas patinhas, logo acima da perna esquerda). "Acho que ele vai gostar", torce Milene.

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Diogo Mainardi
O novo coronelismo

"Ciro Gomes sabe que quem controla a água no sertão nordestino também controla todo o resto. Nenhuma barragem, cisterna ou obra de irrigação poderá ser feita no sertão sem o seu beneplácito. É o retrato do subdesenvolvimento nordestino"

O herdeiro de ACM é Ciro Gomes. Como ACM, Ciro Gomes percebeu que jamais terá uma dimensão nacional. Tratou de consolidar, então, sua hegemonia territorial, apossando-se do Ceará.

Antes de mais nada, Ciro Gomes negociou com Lula uma posição estratégica dentro do governo. Assumiu o Ministério da Integração Nacional. Apesar do nome, o ministério é muito pouco integrado nacionalmente: quase todos os cargos estão nas mãos de cearenses. Ou melhor, nas mãos de sobralenses. Como todos os chefes dinásticos nordestinos, Ciro Gomes prefere cercar-se de gente de sua terra. Em geral, familiares e subalternos.

O Ministério da Integração Nacional é responsável pelo combate à seca. Ciro Gomes sabe que quem controla a água no sertão nordestino também controla todo o resto. Colocou um de seus homens, Hypérides Macedo, na Secretaria da Infra-Estrutura Hídrica. O Departamento Nacional de Obras contra as Secas foi tomado pelo "clã de Sobral", segundo o presidente do sindicato dos funcionários. E a diretora financeira da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco é sua antiga colaboradora. Ou seja, nenhuma barragem, cisterna ou obra de irrigação poderá ser construída no sertão sem o beneplácito de Ciro Gomes. É o retrato do subdesenvolvimento nordestino, do qual nunca iremos nos livrar.

Ciro Gomes tem um partido só dele, o PPS do Ceará. Para lá confluíram muitos caciques locais, como o prefeito de Brejo Santo, Welington Landim, cuja filiação foi comemorada no ginásio esportivo Welingtão. Ao se filiar ao PPS, Welington Landim ganhou, de lambuja, uma diretoria da Funasa. O PPS se prepara para as eleições. O provável candidato do partido ao governo do Ceará é Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes e atual prefeito de Sobral. Cid Gomes deverá ser substituído na prefeitura de Sobral por seu irmão mais novo, Ivo. Para que tudo fique em família.

Dois dos maiores doadores de dinheiro da campanha presidencial de Ciro Gomes foram brindados com cargos no Ministério da Integração Nacional. O primeiro é Márcio Lacerda, dono da Construtel. O segundo é um representante do BicBanco, de propriedade da mais ilustre família de coronéis cearenses.

Outros grandes doadores da campanha de Ciro Gomes foram os grupos Gerdau, Grendene e Vicunha. Todos eles possuem fábricas no Ceará. Todos eles receberam recursos da Sudene. Ciro Gomes foi o maior defensor do retorno da Sudene, apesar da roubalheira que ela sempre estimulou. A nova Sudene, de acordo com Ciro Gomes, será blindada contra a corrupção. Difícil acreditar. Uma coisa, porém, é certa: ela será blindada contra qualquer um que não seja ligado a Ciro Gomes.

Um antigo assessor do ministro, Antônio Balhmann, ocupou-se de inventariá-la. E José Zenóbio Vasconcelos, indicado pelo PPS, foi encarregado de refundá-la. Como se não bastasse, Ciro Gomes também conseguiu enfiar alguns prepostos no Banco do Nordeste, que administra boa parte do dinheiro público investido na região.

Para quem acha que este artigo trata de política, não trata, não. É antropologia cultural: o novo coronelismo nordestino.

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E esta acima é a capa da Revista Veja que já está nas bancas. O link para você chegar la está ai na própria capa, já que ainda não recebi o newsletter da mesma.

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Esta ai acima é a capa da Revista Isto é deste fim de semana. Para você que se interessa por alguma matéria, é só clicar no link ai abaixo.

REPORTAGEM DE CAPA

Capa
O gordo mercado das dietas
Dispostos a perder peso a qualquer custo, milhares de brasileiros seguem as orientações de livros e se rendem aos regimes mais famosos

CAPA
Cheinhas...de charme
Elas estão de bem com a vida e não ligam para a ditadura da magreza

A SEMANA

Mais que um nu artístico
Leia outras notas
Datas ¿ Frases

ARTES & ESPETÁCULOS

Personagem
Peter Pan da madrugada
Com inteligência, muita informação e um jeito todo especial de lidar com a platéia adolescente, Serginho Groisman faz de Altas horas um programa imperdível

Televisão
Bonifácio bilhões
Num dos raros momentos, Boni fala da vida pessoal, diz que ainda sonha em comprar o SBT, mas está feliz coma estréia da sua tevê Vanguarda

Cinema
Receita de aventura
A liga extraordinária reúne
personagens bombásticos

Coluna Em Cartaz

BRASIL

Política
Com a mão no leme
Depois de muita negociação, Lula comemora aprovação da reforma tributária, diz que o País tem comando e antecipa entrega de ministérios ao PMDB, para consolidar maioria no Congresso

Propinoduto
As provas
CPI do Banestado investiga conduta de procurador que apura lavagem

Túnel do tempo
Pequenos Guevaras
Adolescentes idolatram Marx e Trotsky e ainda sonham com a revolução e o fim da burguesia Marketing
Uma vacina para manter a imagem
Jornalista ensina em livro como gerenciar graves crises

Segurança
A lógica ilógica
Juiz autoriza volta de Beira-Mar para o Rio, mas decisão é suspensa

Argentina Confiança de volta
Governador de Córdoba aposta na recuperação econômica e busca investimentos brasileiros

Coluna Fax Brasília

CARTAS

Cartas dos leitores

CIÊNCIA & TECNOLOGIA

Corrida especial
Novos aliados
Enquanto a hipótese de sabotagem ronda a tragédia de Alcântara, o Brasil estreita parceria com a Rússia e a Ucrânia Biotecnologia

Segredos da seda
Cientistas desvendam parte do mistério dos bichos-da-seda e abrem caminho para a produção artificial de fios, tendões
e coletes à prova de bala

Acidente
Homens ao mar
A caminho do desmonte, submarino nuclear russo afunda com nove de seus dez tripulantes

Coluna Século 21

COMPORTAMENTO

Sociedade
Vou de moto
Para fugir do trânsito, a turma da gravata e do salto alto apela para as duas rodas. E, aos 100 anos, a Harley-Davidson
continua a arrebatar fãs
Evento
Foco sobre a metrópole
Bienal de arquitetura, que começa
dia 14 em São Paulo, terá a cidade como tema e quer ficar mais próxima do público leigo

Luxo
Hospedagem com grife
Família Fasano inaugura hotel em São Paulo com a mesma sofisticação que marcou seus restaurantes

Personagem
Modelo de sangue azul
Herdeira dos Orleans e Bragança faz seu primeiro ensaio sensual

Noite
Década musical
O Bourbon Street Music Club, em São Paulo, faz dez anos e anuncia seu festival de jazz

Sociedade
E o palhaço o que é?
Filósofo analisa em livro a vida e a obra dos donos do riso

ECONOMIA & NEGÓCIOS

Automóveis
Você dirige, ele estaciona
O Prius 2004 da Toyota dispensa o motorista na hora de parar o carro
Na água
Digno de 007
Ao toque de um botão, carro vira lancha de 56 km/h

Investimentos
A bola vai rolar
Nos planos para o próximo ano de grandes e médias empresas, a ordem é investir para não recuar

EDITORIAL

O jogo da negociação

ENTREVISTA

Barbara Heliodora
A senhora terrível
Crítica teatral mais importante e temida do País completa 80 anos, carregando a mesma certeza de não ser condescendente com peças ruins

INTERNACIONAL

Chile
Trinta anos daquela noite
A atuação de diplomatas brasileiros no mais violento e ousado golpe militar da América Latina, o 11 de setembro de 1973

MEDICINA

Dependência química
Antidroga em casa
Chega ao País teste que detecta uso sem permissão do usuário Saúde

Ética nas pesquisas
O cientista Volnei Garrafa critica as propostas de flexibilização de critérios de estudos com seres
humanos na América Latina

Dependência química
E na Holanda...
Governo libera venda de maconha nas farmácias Sexo
Mais um contra a impotência
Estudo mostra poder do ginseng coreano

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Sábado, 6 de setembro de 2003.

Poder feminino

Marcas masculinas se rendem ao charme das mulheres e passam a criar roupas e acessórios sob medida para elas consumirem
Tatiana Contreiras

Não são poucas as mulheres que já olharam um armário masculino com inveja ou já tentaram adaptar ao seu corpo calças feitas para homens. Mas muitas marcas voltadas para eles se renderam ao público feminino, que sempre pediu mais espaço nas coleções. Nunca imaginei que venderia calcinhas, brinca Maxime Perelmulter, da British Colony, que está lançando sua primeira coleção só para mulheres. As pecinhas femininas e outras tantas dividem cada vez mais espaço nos cabides com calças e acessórios masculinos, não só na grife de Maxime como também em outras marcas da cidade.

Já tinha vontade de desenvolver uma coleção feminina, mas preferi focar para evoluir no masculino. Neste ano, a gente sentiu falta¿, conta Maxime, que tem na camisaria o carro-chefe. Estamos entrando em todos grupos: jeans, t-shirts silkadas, saias, vestidos... A coleção feminina conversa completamente com a masculina., tenta explicar. As mulheres estavam curtindo usar a marca e a roupa de homem e são consumidoras muito mais ativas, diz Maxime, que criou uma linha muito sexy.

Na Wöllner, o estilo esportivo e ecológico ganhou toques mais femininos, mas sem perder a identidade. Nunca quisemos ficar restritos a uma determinada tribo, conta Lauro Wöllner, proprietário da marca. Quando abrimos a primeira loja, viemos com uma coleção feminina muito tímida, e a mulher brasileira é sensual. Ficávamos restritos a quem faz rafting e ecoturismo, e a gente queria ampliar horizontes, conta Lauro, que se inspirou nas colônias de pescadores para a nova coleção. Fomos polindo esse lado feminino e botando cada vez mais peças contemporâneas e sensuais. Tem esse lado de viagem e ecoturismo, mas de um jeito carioca, com blusinhas, vestidos e transparências, completa.

Para Beto Neves, da Complexo B, a mulher é muito mais impulsiva. Elas vão pelo novo, pelo ineditismo. Querem se diferenciar das outras, e não serem uniformizadas, avalia. A incursão nos armários femininos não é de hoje: Em 1997, foi o estouro da calça de tecido. Elas começaram a se identificar com o conceito, não tinha para mulher e elas sempre questionavam, relembra Beto. A roupa de mulher da Complexo B não tem fru-fru, drapeadinho. Tem essa energia masculina, com coisas mais ousadas. Uma camiseta escrito Cabra Macho, por exemplo, completa.

Já a Mr. Cat, que sempre teve sua linha feminina, está há um mês com uma loja só para mulheres.Todas as lojas têm tudo, mas é uma forma de criar uma diferença, diz Ari Svartsnaider, que também é arquiteto e criou a marca há 22 anos. A loja com espaço exclusivamente feminino valoriza mais os produtos, conta. Além dos mocassins, sandálias multicoloridas invadiram o espaço. O que era muito tradicional deu uma modernizada, explica Ari. Sinal do poder feminino.

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A assessoria do Presidente não está acreditando nas previsões do tempo, ou não está cumprindo bem com o seu papel, já que pela segunda vez ele se equivoca no uso de roupas adequadas para vir ao Sul.

Surpresa com o calor

Ao perceber que o presidente (foto) suava, trajando um terno de lã sob uma temperatura de verão, o deputado federal Paulo Pimenta (PT) questionou se Lula não gostaria de tirar o casaco.

- Pô, Pimentinha, eu nunca acerto quando venho aqui. Estive na Fenadoce e quase morri de frio. Hoje, disse que dessa vez o frio não iria me pegar. Está esse calorão - respondeu Lula, referindo-se a sua presença na abertura da mais tradicional festa da Zona Sul do Estado, em Pelotas, em junho.

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

"Possivelmente eu tenha visitado em oito meses mais feiras de agronegóico do que muitos presidentes visitaram nos últimos anos no nosso país. E fiz isso porque durante muitos anos eu fazia questão de dizer que se enganavam aqueles que entendiam que agricultura não era mais um pilar do desenvolvimento nacional. Houve um tempo até em que se tentava criar uma certa inibição nos homens da agricultura porque não eram modernos."

"Nós vamos adequar o Brasil ao século 21, e não ficar discutindo apenas o que nós tínhamos há um século atrás. Não vamos permitir que privilégio seja tratado como direito, porque o privilégio atende a uma minoria muito pequena, e não a uma maioria que está marginalizada do processo de crescimento e de amadurecimento da sociedade brasileira."

"Comecei a minha vida política negociando. Foi nas derrotas e nas vitórias das negociações que fiz no meu movimento sindical que aprendi a ter paciência, a ceder quando temos de ceder e a ser duro. Mas aprendi, sobretudo, que a democracia não é a supremacia da minha vontade sobre a vontade da sociedade."

"Eu já disse dentro e fora do governo que eu não quero um debate ideológico sobre a questão dos transgênicos, eu quero um debate científico. Vamos discuti-lo com a seriedade que um país do tamanho do Brasil precisa ter. Vamos discuti-lo não pelo grito dos que são a favor e dos que são contra, mas pela capacidade da inteligência brasileira de dizer se nós vamos assumir a responsabilidade, e a partir daí nós vamos ter com base na orientação científica uma diretriz."

Germano Rigotto, governador

"Tenho certeza de que o país reedifica sua imagem, promove o saneamento de suas estruturas e faz a semeadura de uma colheita futura mais produtiva e mais abundante. As reformas melhorarão a genética de nossas instituições, nos posicionarão muito bem no cenário mundial."

"Isso nos leva à necessidade de não prescindirmos da biotecnologia. Tenho certeza de que o senhor levará isso em conta nos próximos dias."

Carlos Sperotto, presidente da Farsul

"Tenho certeza de que o país reedifica sua imagem, promove o saneamento de suas estruturas e faz a semeadura de uma colheita futura mais produtiva e mais abundante. As reformas melhorarão a genética de nossas instituições, nos posicionarão muito bem no cenário mundial."

"Isso nos leva à necessidade de não prescindirmos da biotecnologia. Tenho certeza de que o senhor levará isso em conta nos próximos dias."

"A produtividade não pode ser aferida pela quantidade de animais e sim pela qualidade do produto. O campo não se presta a estoque de mercadorias como para exibi-las em gôndolas de supermercados."

"Queremos um crescimento cuja base seja assentada num chão firme, capaz de nos dar estabilidade, calcado na ordem jurídica e no respeito ao direito de propriedade. Que se estimule a pesquisa. Que se diga sim à biotecnologia e suas conquistas, sem podar a competência da CTNBio. Pensar e agir diferente é estar na contramão da História."

"Nosso país, senhor presidente, necessita com urgência, de forma definitiva, o plantio comercial da soja transgênica. Vossa Excelência recentemente admitiu publicamente ter revisado a sua posição, antes contrária à transgenia. Admitiu que nosso produtor, pequeno, médio ou grande possa acessar esta tecnologia que tantos frutos têm rendido à economia do Estado e do país."

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Lya Luft
06/09/2003


Para não dizer adeus (inédito)
1. TÂNATOS

O coração explode

na dor acumulada e na fadiga:

o morto ensaia novos passos

ao ritmo de sua amante estranha.

Morrer foi mais do que uma escolha:

foi render-se enfim àquela melodia.

Baixa uma cunha de luz

sobre os que velam: enlaçado à sua amada,

o morto espreita atrás da cortina

enquanto se arma o cenário.

Na platéia , silêncio e surdez:

somos os não-iniciados.

Mas alguém conhece o roteiro,

alguém distribui os papéis, alguém

vai pronunciar nossos nomes.

Ninguém será esquecido

no palco que nos aguarda:

seremos vistos, seremos registrados,

também seremos chamados.


2. AQUÁRIO

O tempo não existe

nem dentro nem fora.

Esses peixes de opala

são nomes que nadam na memória:

são rostos são perdas são frutas

são as horas felizes.

O tempo não existe

pois continua aqui, e cresce

como se arredonda uma árvore

pesada de frutos impossíveis

que são peixes que são

nomes de nomes, que são rostos,

presenças caladas,

com máscaras.

O tempo não existe: sou sempre

agora.
lya.luft@zerohora.com.br

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Jorge Furtado
06/09/2003


Crescer e parar de crescer

A Jornada de Literatura de Passo Fundo é um daqueles acontecimentos, como um comício por eleições diretas, uma final de Libertadores ou um show dos Rolling Stones, que você tem que presenciar para saber do que se trata. Contando ninguém acredita. Imagine dezenas de cursos sobre literatura com milhares de estudantes. Imagine centenas de autores reunidos durante uma semana, trocando histórias. Imagine 10 mil pessoas, muitas delas crianças, no meio de uma coxilha gaúcha e sob frio cortante, reunidas pelo prazer da leitura. Imaginou? Não é assim, você precisa ir lá para ver.

A Jornada é um acontecimento tão extraordinário e cresceu tanto que talvez seja a hora de parar de crescer. Claro que ainda há muito para inventar, talvez a próxima jornada tenha também uma sessão de cine-literatura, com filmes e vídeos adaptados de textos e produzidos pelos estudantes, o que seria ótimo. Mas um evento com tamanha projeção, com tantos jornalistas e um público tão grande acaba atraindo pessoas que querem audiência, não importando o assunto.

Foi o caso da participação do senador Eduardo Suplicy, falando do programa de renda mínima num encontro sobre adaptações literárias para o cinema. Suplicy falou por uma hora, declamou letras de rap e explicou em detalhes o sistema de seguridade social do Alasca. O debate não aconteceu. O mico do senador é um detalhe quase sem importância no balanço geral da Jornada, mas pode servir de alerta para evitar a tendência que os grandes eventos têm de crescer demais ou crescer para o lado errado, se afastando do papel de geradores culturais.

Uma vítima do crescimento exagerado é o Festival de Cinema de Gramado, que se esforça em manter o posto de maior do gênero no país mas está se transformando num encontro simpático de estrelas e seus fãs, com pouco ou nenhum significado na carreira dos filmes, uma das funções dos festivais. Os cinco filmes brasileiros mais premiados em Gramado nos últimos anos foram Durval Discos, Memórias Póstumas, Quase Nada, Santo Forte e Amores. Todos tiveram menos de 100 mil espectadores nos cinemas. Espero que De Passagem, o vencedor deste ano, tenha melhor sorte.

Um exemplo claro de acromegalia é o comércio da Rua Padre Chagas, em Porto Alegre. A sucessão de cafés, restaurantes e lojas é um bom sinal e um bom pretexto para ir até lá e caminhar na calçada. Desde, é claro, que você consiga chegar até lá e que seja possível caminhar nas calçadas, inclusive em cadeiras de rodas ou com um carrinho de bebê. E desde que os moradores possam continuar morando e vivendo lá. O projeto de calçadão na Padre Chagas me parece um grave erro urbanístico, capaz de expulsar moradores e, a longo prazo, fregueses e visitantes, como aconteceu na Rua da Praia. Quando há como crescer sem perder energia e saúde, ótimo. Quando não há, o melhor a fazer é se fortalecer e parar de crescer.

jorge.furtado@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
06/09/2003


A pena de morte

A pena de morte, tão reclamada pela opinião pública brasileira, todos os dias tem na rotina policial exemplos demolidores contra si.

O garçom Sabino da Silva, 25 anos, passou 16 dias preso injustamente em Itu. São Paulo, acusado de ter matado o empresário José Nélson Schincariol, proprietário de uma fábrica famosa de cervejas, num assalto frustrado.

Uma testemunha ocular disse à polícia que o garçom Sabino havia participado do homicídio.

Em seguida, os policiais invadiram a casa de Sabino, colocaram uma arma na barriga de sua mãe, outra nas suas costas. Derrubaram e quebraram tudo. Os policiais gritavam para a mulher: "O seu filho é um bandido".

Depois de apanharem Sabino no quarto, ameaçaram sua mãe: "Você não abre a boca. Eu vou furar você e jogar na água".

Levaram Sabino num furgão.

Sabino ficou em poder dos policiais durante 16 dias. O juiz que decretou sua prisão temporária, José Fernando Minhoto, da 2ª Vara Criminal de Itu, justificou a decisão pelo fato de a testemunha ter reconhecido o acusado com segurança e convicção.

Nos 16 dias que ficou preso, Sabino foi torturado pelos policiais. Davam-lhe tapas nos ouvidos e coronhadas nas costas. Sua boca sangrava, enquanto a tática de pressão era diária e inclemente.

Levaram-no para o meio do mato e perguntaram a ele: "Vai abraçar a bronca sozinho?" Sabino não confessava, até mesmo porque não tinha cometido o crime, embora isso não interesse a quem quer a confissão ou a quem quer se livrar da tortura.

Há três dias, foram descobertos e presos os verdadeiros autores do assassinato do empresário. Sabino não os conhecia e nada tinha a ver com o fato.

O juiz que decretou a prisão temporária de Sabino, então, criticou a polícia. Segundo ele, os policiais foram imprudentes, prenderam o garçom ilegalmente, sem mandado judicial.

Só que, mesmo assim, em face do depoimento da testemunha, o mesmo juiz decretou a prisão temporária do garçom. Prisão temporária quer dizer preso entregue à polícia para interrogatório.

A testemunha assim se referiu à injustiça: "Eu errei. Cometi um engano junto com a polícia. Agora sou alvo da vítima".

Dois simples fatos podiam ter condenado a longos anos de prisão o garçom Sabino: bastava que ele tivesse cedido às torturas, confessado o crime e não aparecessem os verdadeiros assassinos.

É evidente que pela falha da justiça humana e pela precariedade policial brasileira, do que a tortura é apenas um dos reflexos, muita gente inocente é condenada no Brasil.

Assim como Sabino.

Como há inocentes que podem por essa forma típica de erro testemunhal, policial e judicial ser condenados à pena de prisão, é impossível aceitar-se que as penas têm de ser aumentadas até o limite da pena de morte.

A pena de morte não pode ser instituída exatamente porque não se pode exigir pena capital, a mais grave, para hipóteses que correm o risco de encerrarem grandes injustiças.

Ou seja, se há risco de injustiça, nem que seja em número mínimo, não se pode torná-la irrevogável pela eliminação física do sentenciado.

O juiz que decretou a prisão temporária do garçom Sabino aconselhou-o a processar o Estado, em busca de indenização.

É o certo. Mas quem vai apagar em Sabino o que ele sentiu na prisão? Como diz a letra do rap que Sabino canta: "Quem já sentiu o frio da cela sempre vai lembrar".
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Porto Alegre em Dança
Ritmo e leveza na Capital



Cerca de 3 mil bailarinos se encontram na PUC, até amanhã, para o Porto Alegre em Dança, que escolherá os melhores do país (foto Adriana Franciosi/ZH)


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Sexta-feira, Setembro 05, 2003




Se você quiser ouvir com o fundo musical é só clicar no link ai abaixo. Um fim de semana gostoso para você é o que desejo.

NÃO IMPORTA

Não me importa o que você faz
para sobreviver.

Quero saber; qual a sua dor
E se você tem coragem de encontrar
o que seu coração anseia.

Quero saber se você se arriscaria
parecer com um louco
por amor pelos seus sonhos e pela aventura de estar vivo

Não me importa saber quais planetas
estão quadrando sua lua.

Quero saber se você tocou o âmago de sua tristeza,
se as traições da vida lhe ensinaram,
ou se você; se omitiu por medo de sofrer.

Quero saber se você consegue sentar-se com as dores; minhas ou suas, sem se mexer para escondê-las, diluí-las ou fixá-las.

Quero saber se você pode conviver com a alegria,
Minha ou sua, se pode dançar com selvageria
e deixar o êxtase preenchê-lo até o limite,
sem lembrar de suas limitações de ser humano.

Não me importa se a estória que você me conta
é verdadeira.

Quero saber se você é capaz de desapontar o outro para ser verdadeiro para si mesmo,
Se pode suportar a acusação da traição
E não trair a sua própria alma.

Quero saber se você pode ser fiel
e conseqüentemente fidedigno

Quero saber se você pode enxergar a beleza
Mesmo que não sejam bonitos todos os dias,
e se pode perceber na sua vida a presença de Deus.

Quero saber se você pode viver com as falhas,
Suas e minhas, e ainda estar de pé na beira do lago
e gritar para o prateado da lua cheia.

Não me importa saber onde você mora
Ou quanto dinheiro tem.

Quero saber se você pode levantar
Depois de uma noite de pesar e desespero, exausto
E fazer o que tem de fazer para as crianças.

Não me importa saber quem você é,
ou como veio parar aqui

Quero saber se você estará ao meu lado
no centro do fogo, sem recuar

Não me importa saber onde o que, ou com quem
você estudou

Quero saber o que sustenta o seu interior
quando todo o resto desaba.

Quero saber se você pode estar só consigo mesmo
e se verdadeiramente gosta da companhia
que carrega em seus momentos vazios.

Mensagem do índio nativo americano, Oriah

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Veja outras mensagens do Edson clicando ai no link abaixo.

Já estamos quase no final do ano

E você continua aí, do mesmo jeito

andando pelas mesmas ruas,

girando as mesmas chaves

para abrir as mesmas portas?


Sentado nas mesmas cadeiras,

ao lado das mesmas mesas,

fazendo sempre as mesmas coisas?


Com os mesmos amigos,

os mesmos amores, a mesma visão do mundo?


Com os mesmos medos e preconceitos?


Beijando as mesmas bocas,

tocando os mesmos corpos

com o mesmo jeito

os mesmos toques, e o mesmo estilo?


A mesma instável estabilidade?


Repetindo a mesma angustiante rotina?


Onde está aquele projeto de Vida?

Onde está a coragem de mudar, a coragem de criar?


Onde está aquele entusiasmo

e aquela ousadia de outrora?


Onde aquela gostosura tão buscada?

Onde estão aqueles sonhos todos?


Reaja: a Vida é uma aventura extraordinária

e existem milhares de caminhos possíveis!

REAJA

Edson Marques

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Balanço é pra quem tem
O segredo das festas de hip hop que tomam conta da cidade é um só: a música que não deixa ninguém parado nas pistas de dança
Eusébio Galvão

A segunda edição da Players, the Hip Hop Festival, tem show do rapper Xis amanhã, no Pier Mauá

O que é o hip hop todo mundo já explicou. Não é só música, tem toda uma ideologia, coisa e tal. Mas filosofia não enche pista. Então, não serve para explicar o aumento em progressão geométrica do número de festas dedicadas ao gênero que pipocam pela cidade. Para quem gosta de dançar, é a dica. Tem hip hop por várias boates cariocas.

As mulheres começaram a gostar. E quando mulher gosta, vai dançar, vai à festa, aí vem todo mundo atrás, defende Plínio Profeta, produtor musical e um dos DJs da Superestéreo, que rola todas as sextas-feiras na Melt. A análise tem coro de outro DJ, Lulinha. O som tem muito suingue e sensualidade. E mulher dança mesmo, gosta de se exibir, diz ele, que toca amanhã na Six.

O que eu mais gosto é que tem ritmo, você não fica parado, é bom. Hip hop sempre me faz dançar, confirma a teoria a estudante de psicologia Camille Ferreira Soler, de 24 anos. E como disse o Profeta, onde tem mulher, está cheio de gente. Vai uma mulherada forte. E elas têm estilo e não são marrentas, comemora o operador de sistema Gilberto Natal da Silva, 22 anos. A aproximação tem que ser na manha. Vai mais na dança. Se ficar parado, não rola. Tem que chegar como quem não quer nada, dançar junto e emendar numa conversa, é assim que funciona, ensina Gilberto. Ele dá a dica: A festa de sexta-feira na Six é a melhor de todas.

A casa, aliás, tem festa dedicada ao gênero hoje e amanhã. No começo era só aos sábados, numa pista menor. Mas a coisa cresceu de tal maneira que hoje rola no fim de semana todo, diz o DJ Juan. Na Superéstereo, na Melt, Plínio Profeta e Lucas Santtana também atacam de black music e testam na pistas as produções que fazem no estúdio caseiro.

É a melhor coisa, porque você nota a reação das pessoas na hora, diz Plínio. Antigamente, o rap só tocava no começo das festas, era o couvert. Agora virou prato principal, comemora o DJ Saddam, que está na Six amanhã. Para alegria de gente como a arquiteta Luciana da Motta Lima, de 30 anos, que curte as batidas não é de hoje: Freqüentei muito a Zoeira, na Lapa, e até hoje saio pra dançar rap. É a melhor coisa.

As 5 mais

1 KHIA My Neck, My Back

2 50 CENT Da Club

3 SNOOP DOGG Beautiful

4 CAMRON Hey Ma

5 PANJABI MC Beware Of The Boys

Promoção: Os 10 primeiros que ligarem hoje, entre 10h e 10h15 para 0800-9021 ganham dois convites para a Six Grooves, hoje, na Six. Os 10 seguintes ganham entradas para a Tribus, amanhã.

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Rosane de Oliveira
05/09/2003


Demonstração de força

Foi uma vitória inquestionável do governo a aprovação do texto básico da reforma tributária na madrugada desta quinta-feira. Poucas horas antes da aprovação, só se ouviam vozes contrárias ao projeto. Os governadores ameaçavam recomendar a suas bancadas o voto contrário, o PSDB e o PFL tentavam impedir a votação na Justiça, os prefeitos vociferavam contra a emenda. No puxa-estica das negociações, o governo virou o jogo e conseguiu 378 votos - 70 além do mínimo necessário.

Como foi possível o milagre? A resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é negociação, coisa que ele aprendeu no sindicalismo. Regra básica: não se pode mostrar todas as cartas no início da conversa, nem apresentar uma proposta sem margem para o recuo. O Planalto deixou para a undécima hora a apresentação das suas concessões a prefeitos e governadores - algumas feitas às custas do contribuinte. Os deputados não tiveram tempo para analisar direito o conteúdo da emenda que alterou o texto aprovado na comissão especial, mas aprovaram assim mesmo. Eventuais correções serão tentadas na votação dos destaques. Ou no Senado, que não se conformará em simplesmente referendar o voto da Câmara.

A aprovação também foi possível porque parte da oposição dos governadores e prefeitos era retórica. O Planalto sabe que governadores e prefeitos estão com a corda no pescoço e precisam de receita extra. Ruim com a reforma tributária, pior sem ela. No mínimo, porque deve dificultar a sonegação de ICMS e a elisão fiscal, mas há outras vantagens para Estados e municípios.

No remanejamento de alíquotas será possível algum crescimento de receita sem o ônus de um projeto de lei aumentando impostos. A compensação pelas perdas com a isenção das exportações deixa de depender do humor do governo, a partilha dos recursos da Cide se transforma em obrigação constitucional e produtos hoje isentos passam a ser tributados - casos do IPVA sobre jatinhos e barcos de lazer. De lambuja, os prefeitos ganham a taxa de iluminação pública sem precisar aprovar projetos específicos nas Câmaras, incluem na Constituição a taxa de lixo calculada pelo valor do imóvel e 6,25% da Cide, coisa que não estava prevista no projeto original.

rosane.oliveira@zerohora.com.br

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David Coimbra
05/09/2003


A beleza da vaca

Meu avô gostava de me levar à Expointer. Aí eu chegava lá e via aquela vaca. Uma vaca de bom tamanho, pêlo lustroso.

¿ Olha que vaca bonita ¿ apontava meu avô. ¿ Premiada. Campeã.

Hm. Estranho. Mesmo com todos os seus lauréis, aquela vaca parecia igual às muitas outras que eu já conhecera. Pois, embora seja porto-alegrense e tenha vivido sempre sobre o árido asfalto da cidade, já vi inúmeras vacas, de variadas pelagens, e ouso dizer que entendo um pouco da psicologia delas: vacas e bois não são animais arrebatados. Não existe paixão na existência deles. Aquela vaca, inclusive, nem o título conquistado na feira era o suficiente para empolgá-la.

Continuávamos andando e logo adiante deparávamos com um porco. Um porco gordo, que mal se locomovia. Comia, apenas. Comia, comia. Bem pertinho, as ovelhas. Quietas, sem balir um mé. Meio distraídas sob a lã densa.

Puxa, eu adorava acompanhar meu avô onde quer que ele fosse, mas a espécie de animais à mostra na Expointer não me entusiasmava. Porque as vacas todas, o que elas fazem o dia inteiro? Pastam. Nunca encontrei uma vaca que não estivesse pastando ou se preparando para pastar. Vacas dormem? Vacas se comunicam umas com as outras? Só se for enquanto pastam. Então, a vida das vacas não chega a ser emocionante. Um programa da National Geographic sobre as vacas duraria 30 segundos. O locutor anunciaria, voz empostada: ¿E agora, a vaca, seus segredos e mistérios¿. Em seguida, apareceria uma malhada mastigando grama. O locutor informaria: ¿A vaca pasta¿. Fim. Anúncio do patrocinador.

E, ainda que o porco e a ovelha não sejam tão... bovinos, também não podem ser considerados, digamos, ativos. Não há ardor na vida dos bichos da Expointer.

Foi o que pensei durante esses anos todos. Até que, dias atrás, falava sobre o assunto e uma moça me disse, com sua voz suave como o afago da mulher amada:

¿ O cavalo é o único animal que é doce sem deixar de ser selvagem.

Parei. Pensei. O cavalo! De fato, há cavalos na Expointer. E essa é uma boa forma de descrevê-los, doces e selvagens ao mesmo tempo. Talvez seja uma boa forma de descrever também a moça que cunhou a frase. Todas as moças, até, pois que as mulheres são assim: às vezes, selvagemente doces; outras, docemente selvagens.

Passei a encarar os animais da Expointer de outra forma. A ovelha, sempre tão resignada, o porco, pura alienação, eles devem ter seu lado... bem... animalesco. E a vaca: pela primeira vez reparei na beleza da vaca. Ela apenas pasta, está certo. Pasta, pasta. Mas com volumosa elegância, com a soberana serenidade de um ser que compreende que a mínima função vital da existência é, enfim, a única realmente importante. Que revelação. Cristo, como passei tanto tempo sem notar como é bela a vaca?

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
05/09/2003


A derrama

É muito simples para os cidadãos calcularem se os impostos aumentaram ou não com a reforma tributária, que começou ontem a ser aprovada no Congresso.

Com esse poder de fogo demonstrado pelo governo federal no plenário da Câmara, conseguindo votos não só da sua base de apoio como entre a oposição, seria inimaginável que fossem diminuir os impostos federais.

Como se diz abertamente que o governo cedeu à pressão dos governadores, é evidente que foram aumentados os impostos estaduais.

E outra não deve ter sido a sorte dos impostos municipais, que são sócios dos impostos estaduais, caso do maior imposto (ICMS).

Se nenhuma das três esferas vai cobrar menos imposto, claramente elas vão cobrar mais imposto depois de ontem, é evidente que vai haver aumento da carga tributária, ou seja, os contribuintes vão pagar mais imposto.

Como é então que figuras respeitáveis da República vêm a público insistentemente declarar que não haverá aumento da carga tributária?

Eu assisti, acordado até a madrugada, aos debates que antecediam a votação da reforma. O relator Virgílio Guimarães (PT-MG) disse várias vezes da tribuna que a carga tributária sobre os mais pobres vai diminuir, baseando-se que para os produtos da cesta básica será cobrada agora alíquota mínima do ICMS, muito menor que a atual.

Mas diminuição da carga tributária sobre os que consomem a cesta básica não quer dizer diminuição da carga tributária.

A carga tributária é medida pela quantia de impostos que todos os brasileiros pagam.

E é claro, sabem todos muito bem, embora muitos finjam que não saibam, que vai aumentar a carga tributária depois da aprovação da reforma.

Logo, o discurso insistente do relator da matéria não passou de uma eufêmica e retórica manifestação em defesa da derrama.

Vão ter de mudar depressa o sentido da palavra reforma depois do que está acontecendo.

Reforma vai ter outros significados no dicionário: aumento de impostos, aumento de ganhos dos governos, diminuição dos direitos dos cidadãos.

E literalmente o que houve ontem na Câmara Federal não foi reforma, foi o farrancho dos políticos de todos os partidos e das três esferas em cima do aumento de arrecadação dos seus respectivos cofres tributários.

E isso tudo é feito incrivelmente em cima da convicção geral do país de que a carga tributária já é exagerada.

Aí se reúne todo o mundo político em Brasília e decide aumentá-la ainda mais.

Seria lícito esperar de uma reforma que ela diminuísse a carga tributária, a canga jogada sobre os contribuintes brasileiros.

Em vez de diminuí-la, aumentam-na, como estão a depor todos os tributaristas e técnicos entendidos da matéria.

Estranha democracia esta em que os eleitores dão seus votos a todos os partidos e estes, acumpliciados, se reúnem na madrugada e votam contra os eleitores.

Deve ter alguma coisa errada no funcionamento desse sistema que denominam democracia.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Expointer 2003
Uma espera de 18 anos



Operários trabalham no pavilhão onde o presidente Lula quebra hoje um jejum iniciado em 1985, quando Sarney visitou Esteio (foto Emílio Pedroso/ZH)


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Quinta-feira, Setembro 04, 2003




Amor ritual

Que haja sempre magia em nosso amor:
que nosso quarto seja sempre, e onde for,
um templo e nosso encontro um ritual.

Que nossos beijos sejam sempre apaixonados
e o calor do desejo em nossos corpos
tão sagrado quanto o fogo que alimenta nossas vidas fundidas na emoção.

Que o teu olhar reflita eternamente
a luz do meu olhar
e em meu coração ecoe para sempre
o teu pulsar.

Que sempre, depois de consumado o rito
e entrelaçados trocamos carinhos com calma, sejam os nossos braços aconchegante
ninho onde repousam, felizes,
as nossas almas.

"Para quem já está está amando.
Mas se você ainda não estiver, não se apresse nem se aflija na busca...
é o amor que nos encontra!"

Marisa Zanirato

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A M I Z A D E

Quanta amizade enganosa
há neste mundo mesquinho;
há mãos que chegam com rosa
p´ra disfarçar seu espinho.

A falsa flor do pecado
você decidiu colher;
voltou machucado,
pois tinha espinho e prazer.

Eis o mais terno carinho
e a versão pura do amor;
entrega-me o teu espinho
que eu te darei uma flor.

Pe. Héber S.de Lima
"A Valsa das Flores"

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Rosane de Oliveira
04/09/2003


Respeito à instituição

Diferenças políticas à parte, amanhã é dia de os gaúchos darem uma demonstração de civilidade na visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Expointer. Nada de virar as costas durante o discurso se algum ponto não agradar a este ou àquele setor. A presença de Lula na solenidade de abertura, depois de 18 anos sem um presidente na tribuna de honra, valoriza a maior feira agropecuária da América Latina.

Seria mais cômodo para Lula alegar problemas de agenda e não vir à Expointer, como fizeram todos os presidentes depois de José Sarney. Mas Lula decidiu vir, atendendo ao convite do governador Germano Rigotto, mesmo sabendo que pisa em terreno delicado. Vem porque reconhece a importância do agronegócio para o futuro do país. Sabe que deve ao campo o bom desempenho das exportações brasileiras neste ano e está empenhado em superar os conlitos.

O presidente tem um motivo adicional para desembarcar amanhã em Esteio: a Expointer não é apenas a vitrina dos grandes produtores. No Parque de Exposições Assis Brasil também há espaço para a agricultura familiar, uma das bandeiras do seu governo. Lula tem marcado presença nas principais feiras agropecuárias do país. Seria difícil explicar a ausência em um Estado que desde 1989 só lhe deu vitórias.

Do presidente da Farsul, Carlos Sperotto, o governador Rigotto e o deputado petista Adão Villaverde receberam garantias de que não haverá hostilidades por parte dos produtores. É certo que Lula frustrará os agricultores se chegar a Esteio sem uma solução para o problema do plantio de transgênicos na próxima safra, mas isso não deve ser pretexto para qualquer tipo de descortesia.

Os grandes produtores não gostam do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, mas só têm elogios para o da Agricultura, Roberto Rodrigues. O bom trânsito de Rodrigues abre caminho para uma recepção amistosa a Lula. Isso não quer dizer que o presidente esteja imune a vaias em sua visita ao Rio Grande do Sul. Servidores públicos indignados com a reforma da Previdência não perdem oportunidade para promover manifestações contra o governo, como fizeram na Fenadoce, em Pelotas, e em diferentes pontos do Brasil.

rosane.oliveira@zerohora.com.br

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Nilson Souza
04/09/2003


A caixa preta

Meu pai comprou-a em 1936, quando tinha apenas 13 anos de idade. Pelo que recorda, custou 21 mil réis à vista, na Casa Masson da Avenida Eduardo, que hoje se chama Presidente Roosevelt. Réis - explico para os mais jovens - era o plural de real, a moeda antiga que precedeu o cruzeiro.

Depois, como todos sabemos, vieram o cruzeiro novo, o cruzeiro novamente, o cruzado, o cruzado novo, o cruzeiro mais uma vez, o cruzeiro real e, finalmente, o real. Pois a máquina fotográfica tipo caixote, da marca alemã AGFA, testemunhou de um ângulo estritamente familiar todas essas mudanças na cara do país - e ainda me deixou de herança algumas imagens da infância, em negativos 6 x 9 arranhados pela saudade.

Lembro-me bem como ela operava. Era uma pequena caixa preta, com dois visores e uma minúscula chave para rodar o filme. O fotógrafo tinha que segurá-la com as duas mãos, na altura do umbigo, cravando o queixo no peito para poder localizar a imagem na parte superior do aparato. Não era fácil enquadrar o alvo.

Bastava desviar um pouquinho para o lado e a imagem sumia do visor, enigmaticamente sempre para o lado contrário do movimento da máquina. São, portanto, perfeitamente explicáveis os parentes mutilados no álbum de fotografias, muitos sem pés, alguns sem partes laterais do corpo e até um indivíduo não identificado com o sorriso congelado na meia cabeça.

Porém, graças ao fotojornalismo familiar, conservo a imagem do meu primeiro carro: um jipe de pedal. Na verdade, eu era um dos sócios na propriedade do veículo, pois na época tinha que compartilhá-lo com dois irmãos - todos nós com menos de sete anos. Eu era o menor dos três. Por isso raramente ganhava o direito de dirigir, já que o motorista tinha também que fazê-lo andar com a força das pernas - e as minhas eram demasiado curtas para a tarefa.

Ainda assim, com um dos pés tocando no chão e lomba abaixo, eu conseguia fazer o jipe rodar por alguns metros. No volante daquele patinete de quatro rodas, eu devia ser uma espécie de Fred Flintstone, mas me imaginava o próprio Catarino Andreatta, que era o nosso ídolo da velocidade na época.

Aquela caixa preta guardou lembranças tão valiosas, que nem todos os cruzeiros, cruzados, reais - e o que mais vier por aí - seriam suficientes para pagá-las.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
04/09/2003


A outra

Pior foi aquela nossa amiga (fictícia, claro) que, apavorada com a perspectiva de envelhecer e o marido trocá-la por uma mais moça, fez plástica atrás de plástica, tantas que hoje tem 50 anos mas um corpo de 20 e um rosto de 30, se você não olhar muito de perto. Alisou e realisou as rugas, tirou daqui, enxertou ali, levantou acolá - o acolá é sempre o primeiro a cair - e conseguiu: não envelheceu. Mas no outro dia nos contou que o marido a trocou por outra. Estava inconsolável, só não podia chorar para não desmanchar a maquiagem.

Tentamos consolá-la assim mesmo, chamando o marido de tudo. Inclusive de cego, pois quem procuraria outra mulher, tendo uma como ela - corpo de 20, rosto de 30 - em casa? Os homens não tinham jeito. Em muitos deles, amadurecer era uma forma de voltar à adolescência. Iam em busca dos hormônios perdidos e só encontravam o ridículo. - Não me façam chorar, não me façam chorar - pedia ela.

As outras mulheres começaram a desenvolver teses sobre o que leva homens mais velhos a procurar mulheres mais moças. Pânico sexual, antes de mais nada. Descontadas, claro, as falhas naturais do caráter masculino, que também se acentuam com a idade. Mas ela que esperasse. Cedo ou tarde, ele se cansaria da mulher mais moça, ou ela se cansaria dele, e...

- Ela não é mais moça - interrompeu a nossa amiga. - Ela é mais velha do que eu! Abriu-se uma clareira de espanto. O quê? Mais velha?! E ela contou que a outra nunca fizera plástica, que a outra nem pintava os cabelos. Era uma senhora grisalha, matronal, exatamente do tipo que ele esperara em vão que ela ficasse, segundo ele mesmo dissera. Sim, porque nossa amiga fora pedir satisfação, pronta, inclusive, a bater na outra. Não só não batera como acabara ouvindo conselhos da outra - num tom maternal! O que mais doera fora o tom maternal.

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Paulo Sant'ana
04/09/2003


Primavera sobre nós

O humor popular, consagrado nos pára-choques dos caminhões, é sempre o mais simples e sibilino: "Mulher é como moeda: quando não é cara, é coroa".

E nada definia melhor o destino daquele homem do que o ponto final da sua biografia: ele vive com sua ex-mulher.

Nunca uma primavera foi tão aguardada, tanto que começam já a ser saudados os seus dons e os seus lavores, antes mesmo que ela derrube suas maravilhas sobre nós.

Os sabiás ensaiam os seus primeiros cânticos alegres nas árvores por toda a cidade, os beija-flores se agitam à espera da grande farra dos polens que os aguarda, ipês e jacarandás já se apressaram em colorir os seus galhos de amarelo e roxo.

A temperatura começa a subir, arrastam-se as últimas feijoadas e os mocotós.

Multidões de adolescentes se reúnem em grupos nas esquinas dos arrabaldes, pressagiando jogos e brincadeiras. Vão desaparecendo como por um milagre as dores lombares e nas articulações.

As pessoas e os cães se preparam para os largos passeios pelos parques e pelas ruas, em tudo se pressente o espetáculo da natureza a amparar o homem na sua faina diária, encerram-se os tormentos de um inverno sólido e castigante, que encheu os hospitais e fez as pessoas se entocarem refugiadas nos cubículos domiciliares.

Há crise de emprego e de dinheiro, mas com a primavera fica muito mais fácil enfrentá-la.

Assiste-se já há mais de dois anos ao espetáculo de recusa do preso Fernandinho Beira-Mar pelos sistemas penitenciários de vários Estados brasileiros.

O Rio de Janeiro, por onde ele é condenado, não quer vê-lo nem vestido de santo, Brasília já o recusou várias vezes, Rio Grande do Sul e Alagoas, consultados sobre se o aceitavam, não quiseram nem conversa, São Paulo, que o abriga desde o início do ano, ameaçou anteontem devolvê-lo ao Rio, mas a decisão judicial sobre isso foi derrubada ontem, às pressas, pelo STJ e ele permaneceu em Presidente Bernardes, embora insistam em se livrar dele e protestem por terem de hospedá-lo.

É o preso mais indesejado da história penal brasileira.

Incrível que com ele se consagre um inédito paradoxo: o bandido é mais perigoso e dá mais trabalho quando está preso do que solto.

A Souza Cruz, maior fabricante brasileira de cigarros vem a público para pedir que os consumidores de seus produtos fumem com moderação, afirmando o perigo que o fumo encerra.

A campanha contra o fumo, geral e irrestrita, atinge agora até o fabricante dos cigarros.

Quando o fabricante de cigarros, no maior contra-senso do capitalismo, diz "não fume", não há realmente maior estupidez que continuar fumando.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Tradicionalismo
A cidade farroupilha



Atividades no acampamento tradicionalista montado no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho começam dia 10 (foto Júlio Cordeiro/ZH)


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Quarta-feira, Setembro 03, 2003




Frieza

Os teus olhos são frios como espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.

Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!

Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
"Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!..."

Florbela Espanca

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Bandido

Fátima Irene Pinto


Se a luz é a outra face da treva,

Se a morte é a contrapartida da vida,

Se o ócio é o oposto da lida,

E triunfo, o outro lado da queda,

Se o riso é a outra face do choro,

Se a tormenta se opõe ao sereno,

Se o vazio é a outra face do pleno,

Se o castigo é a ausência do louro,

É assim que me queres, Bandido,

Na alegria mesclada de dor.

És meu Anjo ou mortal inimigo,

Pois o ódio é a outra face do amor!

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Procura-se um cão

É imprescindível que não tenha nenhum pedigree.
Preferência para focinhos pretos e pelagem de cor indefinida.
Pode ser magro, que de tanto, tenha o contorno do esqueleto exposto sob a pele.

Que seja capaz de encarar todas as pessoas com aquela inocente confiança de cão abandonado, que nunca distingue quem vai lhe dar um osso ou uma porrada... e mesmo assim, continua sendo capaz de olhar amorosamente tanto para os que o alimentam quanto para os que o escorraçam.

É preciso não ser muito preocupado com auto-estima. Vira-latas que se prezam costumam não ter nenhuma... porque são poços profundos de desinteressado amor.

Há que ter um olhar terno quase suplicante, ser capaz de olhar de soslaio e inclinar a cabeça choramingando, toda vez que não entender alguma coisa ou ficar desapontado por um pito que ele nem sabe se mereceu.

Deve ser ruidoso e estridente quando eu estacionar o carro na garagem, em manifestação inconteste de satisfação pela minha chegada e pela minha presença.

Há que saber brincar, esconder chinelos, arrastar tapetes e correr desvairado quando livre na campina ou na praia, por saber-me feliz e redobrar as peraltices, pelo simples fato de notar que eu o observo.

Há que ter senso comunitário e assim, estender a sua lealdade aos demais membros da casa e àqueles que ele sabe que me são caros.

Até hoje eu criei gatos - alguns de raça. Gatos são altivos, oportunistas,
auto-suficientes, apesar de sumamente belos e graciosos.
Tentei (em vão) aprender com eles a lição máxima da auto-estima...
gatos são exímios na arte de se vender caro.

Agora eu procuro um vira-latas - talvez nem tenha que procurar - não só como amigo, mas como instrutor. Quero assumir as virtudes que nele sobejam como a transparência, a ressonância, a espontaneidade e, acima de tudo, a capacidade de amar incondicionalmente, mesmo quando escorraçado.

Fátima Irene Pinto

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Martha Medeiros
03/09/2003


A nova tendência

A primeira crônica que escrevi para Zero Hora, em julho de 1994, era sobre uma reportagem com três jovens atrizes cujo título era: "A virgindade volta à moda". As atrizes anunciavam que pretendiam casar virgens - um direito delas -, mas me pareceu retrocesso divulgar isso como um modismo, como se virgindade fosse uma calça boca-de-sino, que num verão se usa e no seguinte não se usa mais.

Parece que agora há uma nova tendência no ar: o lesbianismo. Curtir mulheres está sendo propagado como algo fashion, assim como uma jaqueta bomber ou uma bolsa de couro metalizado.

Well, well, homossexualidade é assunto sério. Que bom que a sociedade está aprendendo a respeitar as diferenças. Mas uma coisa é possuir esta inclinação sexual, outra é ser maria-vai-com-as-outras. Uma adolescente, hoje, liga a tevê e assiste ao clipe da banda t.A.T.u., cujas vocalistas se acariciam calientemente. Vê Sônia Braga ter um caso com uma loira em Sex and the City. Vê diariamente duas mulheres formarem o par romântico mais sólido da novela das oito.

Vê Sharon Stone dar um amasso numa fã durante um leilão. Vê Madonna e Britney Spears trocarem um beijaço durante o MTV Awards. Vê Preta Gil declarar que já transou com mulher pra ver se incrementa seu currículo. Se a adolescente for meio abobada, pode aderir só por macaquice, pra se sentir moderna.

Quem acompanha meu trabalho sabe que sempre defendi o direito de as pessoas amarem quem quiser, seja de que sexo for. No entanto, este boom não me parece o simples reflexo de uma liberdade conquistada. O lesbianismo está sendo explorado como recurso de marketing. Há quem afirme que as meninas da banda t.A.T.u. não são namoradas coisa nenhuma.

Sex and the City estreou fase nova e precisava de um factóide. Sharon Stone não faz um filme que preste há anos, está se virando pra voltar a ser notícia. Madonna e Britney Spears são superstars cujas carreiras dependem de manter seu nome na mídia. Quanto às garotas da novela, acho um exemplo mais realista, e o autor trata do assunto com pertinência, sem apelação.

Temos conquistado várias vitórias em termos de comportamento, muitas delas ligadas ao mundo feminino e ao sexo. São conquistas, espero, irreversíveis. Mas que sejam consistentes e duradouras, e não "vendidas" como modismo, pois modismos estimulam apenas o consumo, e consumir atitudes nem sempre atende a nossas reais ansiedades, principalmente na adolescência. Ter experiências homossexuais não é a mesma coisa que experimentar a maquiagem da Jade ou usar os mesmos brincos da Edwiges. Ou é? Se for, perdoem esta dinossaura que vos fala.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
03/09/2003


A senda da perdição

Uma vez, estava em dúvida se contratava ou não um repórter. Aí calhou de termos um joguinho de futebol. O cara foi. Terminada a partida, havia me decidido: não queria um tipo daqueles trabalhando comigo. Não que fosse ruim de bola, até nem era. Mas pela forma como jogava. Aquele sujeito devia ter Fanta Uva correndo nas veias. Nenhuma solidariedade o movia, nenhum sentimento coletivo mexia com seus nervos. Ao contrário, procurava se esquivar de qualquer responsabilidade no jogo, a não ser que pudesse extrair dali algum deleite pessoal - o drible, o chute a gol, o tempo a mais com a bola nos pés.

Às vezes, uma partida de futebol revela traços de caráter que não aparecem numa entrevista ou num questionário de RH. Mas meia hora de conversa informal também pode ser bastante esclarecedora. Porque o camarada não está armado, não está esperando a curva que vem depois da pergunta.

Foi uma conversa dessas, breve mas reveladora, que tive com um dos jogadores do Grêmio, meses atrás. Um jogador habilidoso, de reconhecida capacidade técnica. Depois de alguns minutos de charla, entendi um pouco do que ele espera da vida. Vou contar aqui. Sem lhe revelar o nome, até porque faço um julgamento subjetivo, posso estar enganado. Mas acho que não.

Esse jogador, duvido que ele possa acrescentar algo de positivo em qualquer grupo de trabalho. Ficou claro, através de inúmeros sinais, que o tipo está interessado tão-somente em si mesmo, no que pode auferir daquilo que encara não como uma profissão, mas como um reles emprego. Ele é mais do que um individualista ou um egoísta; é um cínico que não acredita no que faz.

Tal indivíduo, engastado no vestiário, é um monumento ao cafajeste bem-sucedido. Mesmo que não boicote ninguém, ainda que não sabote trabalho algum, ele serve de exemplo permanente de que, na vida, vale mesmo é levar vantagem em tudo. Vale o célebre "primeiro o meu". Os jogadores jovens, os que têm pendências com o clube, os que por ventura se julguem injustiçados pela direção, olham para esse jogador e concluem: ele está certo.

Talvez esse jogador não seja o único de tal jaez no grupo do Grêmio. Talvez. Christian, num desabafo de fim de partida, usando a linguagem própria dos jogadores de bola, já alertou a respeito dos que dão "migué". Não entende quem não quer entender. Os dirigentes, porém, garantem que todos ficam até o final de seus contratos. É mais uma leniência de tantas que vêm sendo cometidas desde o começo do ano. Não é à toa que o Grêmio trilha há tanto tempo o caminho das trevas. Não é à toa que já fincou os calcanhares no que as avós chamariam de a senda da perdição.

No trepa-trepa
Daiane dos Santos foi descoberta no trepa-trepa. Contei isso no Bate Bola e o Pelaipe abriu um risinho malicioso. Só que é trepa-trepa mesmo, aquele brinquedo com barras de ferro. Até admito que o nome é meio impróprio, trepa-trepa permite conotações para aquém da nobreza do atletismo. Mas interessa o fato, enfim: ela foi descoberta enquanto se dependurava no trepa-trepa do Cete.

A Claudia Schiffer também foi descoberta. Estava meneando as melenas amarelas numa danceteria de Frankfurt, um agente de modelos a viu e pensou: ela será a número 1. Foi.

Quer dizer: dois talentos de exceção que surgiram por acaso, graças ao olho aguçado de um conhecedor.

Quantas pessoas estão por aí, em boates e trepa-trepas, passeando pelos shoppings e jogando bola nas calçadas, anônimas, inocentes, esperando ser descobertas? Por que não fui descoberto ainda? Por quê??? Estão faltando descobridores, nesse país.

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Paulo Sant'ana
03/09/2003


Foi ao ar, perdeu o lugar
O caso do cantor nativista Paulo Machado, 31 anos, publicado ontem em