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Sexta-feira, Setembro 19, 2003




Aproveite as férias deste Blogger e leia os outros Bloggers do mesmo autor nos endereços Nuvens Brancas e Direito_1983.

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Nossa Amizade

Hoje não mais me bate a solidão ,
pois tenho a ti no mundo virtual ,
na minha tela , no meu coração ,
no nosso encontro sempre tão real .

Se vem tristeza , logo conto tudo
pros teus ouvidos prontos pra me ouvir .
Embora eu chegue por teclado mudo ,
tu , bem de longe , podes me sentir .

E as alegrias que compartilhamos ,
quase morrendo assim de tanto rir ?
E o nervosismo com que deparamos
quando acontece da linha cair ?


A gente vai correndo pro correio ,
justificando a abrupta saída .
E em nosso peito aperta-se o receio
de nos perdermos nos vazios da vida .

Quanta amizade perde quem não tem
esta riqueza , o mundo virtual !
Olhar pro lado e não ver ninguém ,
é enxergar cinzas , morto carnaval .

Só nós sabemos quanto vale isto
que cruza o tempo tão rapidamente .
Eu sei do quanto a cada dia conquisto ,
tu sabes quanto sempre estás presente .

E a nossa vida corre tão segura
neste teclar de tanta lealdade ,
que neste mundo , nem a flor mais pura
mostra o sorriso da nossa Amizade !


Texto de Silvia Schmidt

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David Coimbra
19/09/2003


Eles preferem as loiras

Ela se virou de lado. Assestou a orelha no travesseiro. E miou, sorridente:

- Amanhã é seu aniversário...

Ele apenas sorriu de volta, modesto: era. Ela continuou, rouca:

- Pode pedir o que quiser...

Ele arregalou os olhos.

- O que eu quiser?

Ela, lambendo os lábios, a malícia faiscando nas bordas das pupilas:

- Arran...

Ele sentou na cama, apoiando-se nos cotovelos:

- Tudo mesmo?

- Tudo. Tudinho... - disse: tudjinho, com dê e jota.

Ele olhou para o gesso do teto, sonhador:

- Quero que você seja loira!

Ela arregalou os olhos. Sentou-se também.

- Lo-loira? - gaguejou. - Quer... que pinte o cabelo?

- Isso! - Estava ereto, agora. Esfregava as mãos. - Isso! Sempre quis que você fosse loira. Sempre quis.

Ela deitou a cabeça no travesseiro. Fechou os olhos. De olhos fechados, concordou:

- Tá bem. - E depois de um suspiro: - Tá bem...

Na manhã seguinte, ele saiu de casa saltitante, foi trabalhar assobiando uma música dos Travessos. Ela acordou sentindo uma pedra no peito e uma bola de tênis na garganta. Não conseguia se imaginar loira. Ao contrário: sempre se orgulhara dos cabelos negros, jamais tocados por tintura. Loiras... Sabia bem como eram. Vistosas, é verdade. Tinha de admitir que loiras chamavam a atenção. Porém, eram dissimuladas, orgulhosas. Arrogantes, até. Além do mais, a vida inteira desprezara as falsas loiras e suas raízes de cabelo pretas. Que nojo. Mas havia prometido... Que idéia era aquela, "pode pedir o que quiser"? Bem-feito!

Foi um dia difícil. Um dia de angústia. Por que ele pedira aquilo? Não gostava dela como era? Cobiçava alguma loira? Estava ficando com raiva do desgranido.

À tarde, na hora da transformação, o ódio se desfez em soluços. O cabeleireiro teve de lhe buscar um copo d´água com açúcar. Só se sentiu melhor quando saiu do salão e passou por dois homens de terno. Eles a olharam de um jeito que nunca havia sido olhada antes: com gula. Por que os homens olhavam assim para as loiras?

Em casa, mirou-se no espelho. Não conhecia aquela ali refletida. Vestiu sua lingerie mais ousada, uma que nunca tivera coragem de usar. Ele chegou e tomou um susto.

- Meu Deus, é outra mulher!

Era. Foi uma noite de amor única. Nem na época de namorados tiveram uma noite igual. Pela manhã, ele se levantou cansado, mas satisfeito. Ajeitava a gravata para ir trabalhar, quando ela saiu do quarto. Estava já vestida: saia mínima, decote íngreme.

- Onde você vai assim? - espantou-se ele.

- Ao súper - respondeu ela, já saindo. Saiu. Ele correu para a janela, perplexo, a tempo de vê-la ondulando pela rua. Ondulando. Queria uma loira. Tinha uma loira.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Já estou neste Rio de Janeiro que continua linda, rumo a Lisboa depois Bruxelas na Bélgica, primeira etapa desta caminhada. Temperatura bem diferente da minha Porto Alegre, e a gente começa tirar as peças das roupas, até ficar mais confortável, pelo menos.

Paulo Sant'ana
19/09/2003


A caminho da reeleição

Este empréstimo para trabalhadores que o governo federal instituiu está fadado a ter um sucesso fenomenal.

A idéia é fascinante para os bancos: eles poderão baixar as taxas de juros do empréstimo, uma vez que o preço alto que cobram atualmente pelo dinheiro que emprestam está calcado primordialmente no risco enorme da inadimplência.

Como as prestações do empréstimo terão a garantia de serem descontadas no contracheque dos trabalhadores junto às empresas em que trabalham, certamente que essas operações serão bem mais suaves para os tomadores que os cheques especiais ou o cartão de crédito, por exemplo.

Para descontar em folha, compra-se qualquer coisa neste país, ainda mais agora em cima desta crise infernal. Compra-se qualquer coisa e por qualquer preço.

O que resta saber é se, na burocracia que se instalará para a obtenção do empréstimo, que necessitará três avais, o do banco, o da empresa em que trabalha o tomador do empréstimo e o do seu respectivo sindicato, será permitido que as pessoas que hoje não têm acesso ao cheque especial e ao cartão de crédito, seja por inadimplência, seja por perceberem salários baixos, contraiam esse novo tipo de empréstimo.

Se for permitido, esse empréstimo vai vender mais do que pão quente. Porque o número de pessoas que hoje estão empregadas e são vetadas pelos bancos e pelas financeiras por estarem fichadas no SPC é fenomenal.

Se esse empréstimo significar a anistia para os atuais inadimplentes, não vai haver dinheiro que chegue para as transações que serão solicitadas.

Esse é o lado do sucesso do novo instituto de crédito criado por Lula. O lado que pode ser desfavorável é o de que, se tais empréstimos forem realmente conseguidos sem restrições, podem os trabalhadores brasileiros desde já ficar sabendo que receberão no fim do mês um salário descontado de 30% do seu valor: o desconto do empréstimo.

Não haverá diferença alguma para os trabalhadores que já pagam juros hoje por outras transações de crédito. Mas para os que nunca tiveram direito a qualquer empréstimo, perceber todos os fins de mês que seus contracheques murcharam em 30% pode ser psicologicamente desanimador.

Na verdade, o maior sucesso dessa genial idéia que nasceu no Planalto está localizado em que o empréstimo terá total e estupenda aceitação entre os trabalhadores de baixos salários.

Essa grande massa proletária a que jamais se permitiu sequer que tivesse audiência com um gerente de banco, essa grande turba anônima e desimportante, excluída dos negócios e dos empreendimentos, sentir-se-á imensamente honrada por usufruir ineditamente desse solene e incomparável direito ao crédito, que antes ela pensava fosse um privilégio destinado somente aos bem situados.

Eu acho que o governo do PT deu um golpe de mestre, ao instituir esse tipo de empréstimo, se ele conseguir regulamentá-lo a ponto de propiciar aos trabalhadores de baixos salários que dele se beneficiem.

E porque os que percebem salários mais baixos são a maioria esmagadora dos trabalhadores brasileiros, a instituição desse empréstimo pode ser o maior estratagema eleitoral da história política deste país, capaz de garantir por si só uma reeleição presidencial.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
A força de Isabel na costa americana



Casas destelhadas, postes derrubados e estradas bloqueadas é o saldo da passagem do furacão na região leste dos EUA. Em Avalon (foto), New Jersey, o Atlântico avançou sobre as residências à beira-mar (foto Daniel Hulshizer, AP/ZH)


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Quinta-feira, Setembro 18, 2003




RICARDO FREIRE

Meus feriados de volta!

Trabalho Rodrigo Pereira

Todo ano é a mesma coisa. Em algum momento entre o Carnaval e a Páscoa, ou entre a Páscoa e Tiradentes, ou entre Tiradentes e o 1º de Maio, os jornais estampam manchetes ligando a existência de tantos feriados ao eterno subdesenvolvimento do Brasil. Cada dia perdido de trabalho nos custaria milhões de dólares em produção - e, ainda mais grave, reforçaria nossa índole preguiçosa.

Regozijem-se, pois, os inimigos do descanso suplementar remunerado. Todos os feriados do segundo semestre (com exceção do Natal) caem no fim de semana. A moda começou no domingo passado, 7 de setembro, continua agora no 12 de outubro e se estende ao longo de novembro, em Finados e na Proclamação da República.

Satisfeitos? Então, por favor, providenciem as manchetes positivas. 'Brasil: agora vai!'. Mostrem como a falta de feriados nos tornará laboriosos como os chineses e eficientes feito os alemães. Façam as contas e digam exatamente quanto o Brasil vai ganhar com tantos domingos úteis. (Um domingo que inutiliza um feriado é um domingo útil.)

Caso o espetáculo do crescimento nem assim aconteça, não digam que esta coluna não avisou. O Instituto Xongas de Produtividade no Trabalho tem estudos que demonstram como os feriados, na verdade, aumentam a eficiência de muitos trabalhadores. A minha, por exemplo.

Num escritório, a proximidade de um feriado é um fator decisivo para pôr em dia aquele trabalho que você estava havia séculos empurrando com a barriga. Feriados prolongados, então, funcionam como um verdadeiro doping profissional: você deixa de almoçar e vara noites trabalhando para não perder o supremo privilégio de enforcar a sexta que sucede um feriado na quinta. Acrescente-se a economia de papel, telefone, luz, café e verba de representação do dia não trabalhado, e qualquer pessoa verá que um feriadão pode, sim, ser um bom negócio para a empresa.

Depois de tantos anos ganhando aumento só de trabalho, e não de salário, não é justo que uma entidade fria e sem rosto - o Calendário - nos tire todos os feriados assim, de uma vez só. Não houve sequer negociação. Conversando, a gente poderia até trocar um Corpus Christi ou um Aniversário da Cidade por um 12 de outubro que caísse, excepcionalmente, em 14 de outubro. Feriadão é um benefício trabalhista inalienável: aquele engarrafamento de oito horas na volta da praia é um direito que nenhuma reforma até hoje ousou revogar.

Por que ninguém faz a estatística de quantos carros deixarão de ser vendidos por não haver feriadões? Você tem idéia de como os hotéis vão inflacionar as férias para compensar a falta de movimento do semestre? Mas ainda dá tempo de evitar uma catástrofe. Basta instituir alguns feriados temporários - digamos assim, uns feriados-CPMF. Causas sociais ou religiosas é que não faltam. 13 de setembro, sexta: Dia Internacional de Repúdio às Frentes Frias. 20 de outubro, segunda: Nossa Senhora da Dispensa de Atestado. 11 de novembro, terça: Dia do Fazedor de Pontes!

E-mail para a coluna:
xongas@edglobo.com.br


E como são poucos os feriados nada melhor que tirar férias e por isso estarei até o dia 05 de outubro no dolce farniente como bom brasileiro que sou. E este Blogger, por conseqüência, também estará de férias, após um ano diariamente de plantão.

Perdoem pela ausencia física, mas na volta colocarei algumas fotos interessantes, espero, para voces curtirem também.

Abraços e estejam com Deus na minha falta.

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Quinta, 18 de setembro de 2003.

Melhor de 3
MPB FM festeja terceiro aniversário com Marina Lima, Fernanda Abreu, Ana Carolina,Monobloco e DJ Zé Pedro, hoje, na Marina da Glória



Marina Lima é a primeira atração, com um show cheio de clássicos

Ana Carolina, uma das artistas mais pedidas pelos ouvintes, canta hoje

A música é brasileira, mas a rádio é carioca. Por isso esse vai ser o sotaque predominante na comemoração do terceiro aniversário da MPB FM (90,3 Mhz). Tanto que o lugar escolhido para a festa de hoje foi a Marina da Glória, ponto privilegiado pela vista dos cartões postais da cidade. A partir das 20h30, Marina Lima, Ana Carolina, Fernanda Abreu, Monobloco, DJ Zé Pedro e Toni Garrido e Preta Gil os apresentadores da noite se encontram lá.

Esse é o ano de consolidação da rádio e estamos ampliando o que foi feito nos últimos dois anos. A festa era no Canecão, templo da MPB, agora sentimos necessidade de ir para um lugar maior, novo, com a cara do Rio, diz Mário Reis, superintendente de marketing do Grupo O DIA de Comunicação.

Coordenador artístico da MPB FM, Júlio Biar explica a escalação das estrelas da noite. A gente queria artistas ligados a essa história do Rio, como a Marina Lima. Ana Carolina não é daqui, mas adotou a cidade e é uma das mais pedidas na rádio desde o começo. Fernanda Abreu tinha que ter e o Monobloco encerra a festa com samba carioca, sem ser tão tradicional.

Encarregado de abrir e fechar a festa, além de animar o público nos intervalos dos shows, DJ Zé Pedro está exultante. A MPB FM é um sonho na minha vida. Essa participação confirma o carinho que a rádio e os ouvintes têm por mim. Fico em São Paulo contando os dias de vir ao Rio fazer o programa, diz ele, que vai presentear o público de hoje com dois novos remixes: Sinais de Fogo, de Preta Gil, e Menina Linda, de Laura Finocchiaro.

Um dos idealizadores do Monobloco, Pedro Luís diz que selecionou o mais dançante dos bailes para apresentar na festa de hoje. Mas tem novidade, as versões que a gente fez para Weekend e A Dois Passos do Paraíso, adianta ele, parceiro de Fernanda Abreu, que não descarta uma dobradinha do grupo com a cantora. Achamos que pode haver também uma canja da Preta, já que ela gravou música da Ana Carolina, mas não combinamos nada, quisemos deixar à vontade para ser uma coisa mais tranqüila, com espírito carioca, diz Júlio.

A Marina da Glória fica na Av. Infante Dom Henrique s/nº, Aterro, tel.: 0300-7893350. Os ingressos custam R$ 30 e estão à venda nos postos credenciados BR do Parque dos Patins, na Lagoa, e da Av. Rui Barbosa, no Flamengo; nas lojas Modern Sound (Rua Barata Ribeiro 502, Copacabana) e Fnac (BarraShopping. Av. das Américas 4.666).

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Luis Fernando Verissimo
18/09/2003


Gente fina

A frase mais reveladora do ano - está bem, do mês - foi a do Lula, quando disse que pobre não dá calote. O PT ainda sofre da síndrome do que vão dizer da gente. Ainda precisa mostrar aos que não acreditavam que o PT iria se comportar como gente grande no governo que sabe seguir a etiqueta, que é responsável, que, enfim, não age como a elite imagina que agem os pobres.

Quem esperava que o PT iria cometer a suprema gafe social, que é não pagar suas contas, estava enganado. O PT no governo vai pagar suas contas até mais rápido do que o credor pedia. Para provar que é gente fina.

Pobre não dá calote porque não tem as opções dos ricos para não pagar suas dívidas. Porque vive num universo em que a hierarquia moral é definida pelos credores. E porque se convenceu de que dar calote é coisa de pobre, portanto vergonhoso. A escala de valores que diz ao pobre que não dar calote é mais importante do que alimentar um filho, que não dar calote é o que define sua respeitabilidade, é a mesma do mundo submetido à etiqueta do lucro financeiro acima de tudo, esse estranho manual de boas maneiras que nos impuseram.

O presidente argentino Kirchner disse ao FMI no governo o que o PT dizia fora, que não pagaria a dívida com a fome do povo. Um atentado às regras do comportamento esperado equivalente a assoar o nariz numa toalha de linho da Casa Rosada. O FMI apenas achou pitoresco. Lula não se animou a testar o que diriam da gente se fizesse algo parecido. Em todos os outros aspectos, tem sido um presidente anticonvencional como nunca se viu igual.

Enfrenta sem medo a tênue linha que separa o simpático do ridículo ao vestir todos os chapéus e empunhar todos os instrumentos que lhe oferecem, não se deixou constranger pelas formalidades do cargo. Mas boa parte do seu eleitorado gostaria de vê-lo contrariando as regras que contam, desrespeitando as convenções que nos sufocam. Está bem, calote não. Mas ao menos uma malcriação pra valer.

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Nilson Souza
18/09/2003


A crônica enterrada

Nem tive tempo de preparar uma mensagem mais adequada para a posteridade. Quando fiquei sabendo que o jornal da última quinta-feira seria sepultado nas fundações da nova casa da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, o texto já estava escrito e baixado - o que, na linguagem jornalística, significa estar a caminho da impressão final. Assim, desavisada, minha crônica foi parar numa urna repleta de objetos simbólicos, juntamente com os jornais do dia, um violino bicentenário, programas musicais, um devedê com a história do Rio Grande e um prosaico pergaminho de couro de cabra.

É gratificante saber que aquela caixa ajudará a sustentar as paredes de um templo dedicado aos deuses da música. Mas o que mais mexe com a imaginação da gente é pensar que, daqui a milênios, algum arqueólogo do futuro haverá de devolver à luz o conteúdo da arca e tentará decifrar o nosso estranho legado.

Num primeiro momento, é bem provável que o nosso homem do amanhã examine o pergaminho e pense que éramos todos bárbaros, seguidores de algum deus pagão disfarçado de cabra. Depois, tocará sem querer no violino e ouvirá um som do passado, suficientemente nítido para convencê-lo de que havia vida inteligente na Porto Alegre da sua pré-história. Então lançará um olhar curioso sobre os jornais amarelados e, se entender o nosso código de escrita e as manchetes fizerem sentido, voltará a crer que éramos de fato bárbaros.

Mas prefiro acreditar que seguirá a leitura e se deterá por alguns segundos nesta página. Saberá, então, que um certo escriba gastou o seu tempo para enaltecer as virtudes de um objeto chamado livro, provavelmente uma relíquia desconhecida no mundo da tecnologia em que vive.

Saberá mais: que no dia daquele breve registro homens e mulheres de outro tempo saíram de suas casas com livros debaixo dos braços e presentearam desconhecidos com romances e poesias, unicamente com o propósito de iluminar-lhes o espírito e alegrar-lhes o coração. Talvez, o nosso arqueólogo até reconsidere e conclua que não éramos tão selvagens assim.

E o sepultamento cerimonioso de minha desavisada crônica não terá sido de todo inútil.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
18/09/2003


A reação dos leitores

O Nílson Souza, companheiro que trabalha na mesma sala que eu da Redação, contou-me que, ao fazer seu lanche na loja de conveniência do posto de gasolina ao lado do jornal, encontrou como sempre três executivos que lá estão diariamente à mesma hora.

Sentados a uma mesa, eles dividem a Zero Hora enquanto vão lanchando. Cada um dos três que leu minha coluna de ontem dava gargalhadas e recomendava ao outro que a lesse.

Depois que os três leram, riram desbragadamente e comentavam a história que contei do sujeito que se separou de três esposas, vive com a quarta, mas durante este tempo todo jamais se separou de uma amante.

Não há melhor recompensa para um cronista do que conhecer a reação dos seus leitores ao que escreve.

Sobre esta crônica das quatro esposas e uma amante, recebi vários e-mails ontem que davam conta do mesmo sentimento de que se dominaram homens e mulheres: deram gostosas risadas. Foi exatamente com essa finalidade que escrevi: a de divertir os leitores. Acertei no alvo.

Com a exceção apenas de uma leitora que se manifestou indignada que eu tenha exposto assim no jornal uma história tão machista: a de um homem que mantém uma amante durante 23 anos, enquanto já alternou quatro esposas.

Mas que diabo, a mulher alcançou uma tal independência e até certa supremacia sobre os homens nas últimas décadas que acho já não existe nem mais lugar para o machismo na vida moderna.

A história não é machista: ela atesta, ao contrário, a volubilidade e a fraqueza do homem. Essa história jamais poderia ser contada tendo uma mulher como personagem: uma mulher nunca trocaria tanto de maridos, mantendo um amante. Daria o fora no primeiro marido e se tornaria esposa do amante, os homens é que não têm capacidade para se livrar desse tipo de encrenca.

Mas anteontem foi o dia de eu me reunir com as moças e rapazes que trabalham no call-center da Zero Hora, os que atendem milhares de leitores, assinantes e clientes em potencial do nosso jornal, por dia. Nossos atendentes são em número de 250, ninguém como eles detém melhor e mais detalhadamente o conhecimento do que o leitor pensa e pretende do jornal.

E as histórias que o pessoal do call-center me contou sobre a relação que os leitores mantêm com esta coluna me comoveram e divertiram à beça.

Sabendo de como o leitor gosta ou não gosta do que a gente escreve, sai-se do beco escuro em que se coloca o escrevinhador que manifesta a sua opinião ou interpretação unilateral dos fatos, sem atentar para a repercussão do que exprime, joga-se sobre a relação entre quem escreve e quem lê o facho luminoso da interação silenciosa.

Da minha parte, quando escrevo, conto essencialmente com o perdão e a desculpa dos leitores para os meus deslizes, para as minhas infelicidades ou para a ausência de inspiração em muitas colunas.

De certo modo, no que me toca, noto a indulgência dos leitores para os meus baixios de textos ou de idéias, os leitores toleram os meus rasantes, compreendendo certamente que não posso manter em equilíbrio a qualidade das minhas colunas pela dificuldade e o risco de quem escreve todos os dias, sobressaltado pela pressa, pela constância e pela periodicidade.

Sei que o melhor cronista é o que é aquinhoado com menos perdões.

Mas as colunas mornas e insípidas são recompensadas por aquelas em que se acerta na veia e se estabelece entre o colunista e o leitor um êxtase: o cronista calculando que aquilo que escreveu era exatamente o que gostaria de ler escrito por outra pessoa, o leitor extasiado com o cronista por ter dito exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer.

O pessoal lá do call-center me convenceu de que há ainda muita felicidade e paixão nesse casamento que já dura 31 anos entre esta coluna e os leitores de Zero Hora.

Só que para durar tanto, um casamento assim precisa primordialmente de tolerância. Se eu continuar a obtê-la dos leitores, esta coluna caminha para o seu cinqüentenário.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Ambiente
Festa das baleias em Imbituba



Dezenas de mamíferos se exibem próximo às praias do município catarinense, que está realizando a 8ª Semana Nacional da Baleia Franca (foto Cláudio Silva, Agência RBS/ZH)


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Quarta-feira, Setembro 17, 2003




A Historia de Uma Rosa

Poesia

Ilka Maia

A GRANDE JORNADA


Daqui a muitos anos, junto da lareira
Que será toda enfeitada de rosas,
Decerto uma velhinha há de contar
À maneira
Das velhas histórias,
Uma história breve, porém... Singular !

Os netinhos e as rosas gostarão de ouvi-la,
Porque a velhinha, pálida e tranqüila,
Terá uma voz que sonha, que pensa
Muito longe, enquanto vai contando...
Porque em seus olhos andará boiando
Uma tristeza imensa !...

Gostarão de ouvi-la, as rosas, mais ainda
Porque essa é justamente a história de uma rosa...
E junto da lareira, bem sei
Que ela começará dizendo : "Tinha que ser linda !
Era vermelha ! Eu já contei...
E havia uma escrava
Que amava
O seu rei !

O rei era belo, moreno,
Tinha olhos grandes e negros, de encanto !"
... Um pequeno silencio, um suspiro na sala...
E as rosas notarão cheias de espanto,
Que no rosto sereno
Da avózinha,
Uma lágrima trêmula resvala...

"O rei era moreno...
Tinha...

Ia dizendo: um dia, a escrava enamorada
Colheu uma rosa encarnada,
Deixou-a junto ao trono do cruel senhor.
O rei chegou, logo de entrada
Ficou furioso quando viu a flor !

E castigou a escrava, sem piedade..."
--- Só por causa da rosa ?...
( uma das crianças há de
Perguntar, surpresa, certamente.
E a outra, de repente: )
--- Que rei esquisito !
Como podia ser tão mau, se era tão bonito ?...

A avó nem saberá dizer a resposta !
Muito branca, muito quieta junto a lareira,
O olhar perdido no chão:
"Assim foi... De flor... Nem toda gente gosta...
Fiquem calados ! Então,

Parece por castigo ! No outro dia
E todo dia e muitos dias, a rosa amanhecia
Tão vermelha e fresca no seu vaso,
Tal e qual apanhada no momento !
Com certeza não era por acaso !...
Nunca se viu rosa durar tanto num vaso !...

Ninguém sabe o que foi que passou no pensamento
Do rei ! O rei andava estranho...
A cara mais sombria deste mundo !
E afinal,
Cabisbaixo, iracundo,
Envenenado de rancor tamanho,
Afinal,
Ao primeiro lacaio mandou que destruísse
A flor que lhe fazia tanto mal !..."

Novo silencio, um suspiro na sala
E pétalas tombando da lareira...
"Não ousou tocá-la... Não ousou tocá-la..."
Será como um sussurro, um farfalhar da brisa
Na roseira...
Nem se saberá se a velhinha é quem fala,
Ou teriam falado as rosas da lareira...

Vendo que a avó se queda imóvel, pensativa,
Talvez pergunte o mais novo dos netos,
Porque pôde uma rosa perturbar um rei ...
E a velhinha, escondendo uma lágrima esquiva:
"O coração tem recantos secretos...
O rei guardou segredo para sempre !...
Eu não sei !... Eu não sei..."

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PLANTA DA PEDRA
Ilka Maia


Esta manhã, quando cheguei, na alegria

De te ver, no afã de te falar,

Havia

Silenciosos machucados nos teus grandes olhos,

Mágoas violáceas no teu negro olhar...


E o teu olhar veio se debatendo,

Veio doendo,

Tremulo, quieto, veio assim

Feito o vôo ferido de duas asas

Fraturadas, pousar em mim...


Se eu indagasse a razão de tamanha tristeza,

Nada me responderias, com certeza...

Somente o teu olhar parado, a estremecer,

Todo se alongara num gemido

Imenso, mudo, ansioso,

E se quedara espalmado, distendido

Por dentro do meu ser...


É uma tristeza que não fala... Amanhece

Às vezes, nos teus grandes olhos... Parece

Cousa que tem sabor

De amoras pretas esmagadas,

Latejando de dor !...


E esta manhã, quando voltei, trouxe

Comigo esse olhar penado de ânsias palpitantes...

Ficou-me, assim negro violáceo de maceração...

Como duas asas quentes, gotejantes,

Assentadas, pesando sobre o coração...

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AREIA NA ALMA
Ilka Maia

Lá pelos confins de todo este infinito
Céu, moram os Deuses criadores
De Arte, sonhadores
De beleza...
Eu quero deixar escrito,
Um segredo que sei, uma historia de Deuses,
Lá dos confins deste céu infinito...

Foi assim :
Um Deus idealista
Andava pelo azul, imaginando
Como e do que poderia ser feito
Um verdadeiro coração de artista,
Para conter o amor totalmente perfeito.

Andava imaginando...
Pensou, pensou, e teve uma divina
Inspiração.
Arrancou lascas vermelhas de estrelas,
Escondeu-se atras de uma cortina
De nuvens, e com a própria mão,
Daquelas brasas líricas e ardentes,
Plasmou um luminoso coração !

Fundira toda alma do seu sonho
Nessa obra suprema. Olhos resplandecentes,
Contemplou seu milagre. E dentro da noite quieta,
Chorando, disse o Deus : "Tudo o que é belo, ponho
Em ti. Tens que ser... Um coração de poeta ! "

Nenhum dos Deuses, cousa tão linda,
Jamais criara !
Ele se foi glorioso, deslumbrado, ufano !
E quando amanheceu, lá estava ainda,
Resplendendo no azul, aquela obra rara,
Como um grande rubi de sangue humano !

No entanto, um vagabundo
Dos céus, um Deus perverso, um vilão,
Num gesto bestial, num gesto imundo,
Vendo a forma ideal da Perfeição,
Agarrou-a, enterrou-lhe as garras venenosas !
E ébrio de inveja e ciúme, alçou o braço
E arrojou pelo espaço,
Isso que fôra um maravilhoso coração !...

O céu estremeceu, houve um longo rugido
Por todo o céu !... E em meio à tempestade,
Um coração perdido
Veio rolando, todo deformado,
Para a terra, como um grande pecado !...

Nessa hora, nesse dia,
Eu nascia !...
Caiu-me aqui no peito, o estranho o doloroso,
Coração de outros mundos, todo sangrento
E dolorido, todo defeituoso !...
A mão que o profanou com seus dedos perversos,
Não conseguiu mudar-lhe a essência,
Mas imprimiu-lhe a eterna maldição !
-- E é por isso que eu vou sonhando e resplendendo em versos
E não alcanço nunca, o sonho do meu coração !...

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Bedtime Story para crianças

Madonna volta a surpreender com o lançamento de seu livro infantil As Rosas Inglesas. Primeira incursão da mãe de Lola e Rocco na literatura é elogiada por críticos. Livro, que traz uma "mensagem" para as crianças, inicia série de cinco volumes dedicados aos pequenos

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Site para Budapeste




O iG acaba de lançar um hotsite dedicado ao novo livro de Chico Buarque, Budapeste. O canal traz um áudio de Chico lendo o primeiro capítulo da obra, bem como um vídeo do autor recitando trechos do livro. No site também tem uma promoção que premiará dez usuários com um exemplar do livro. Para participar, o internauta deve enviar um texto contando uma experiência interessante envolvendo uma língua estrangeira.

Em http://www.ig.com.br/paginas/hotsites/chicobuarque.

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Sem biquíni

A nova novela das oito, Celebridade, ainda nem estreou e Deborah Secco já roubou a cena. Pelo menos, nas gravações de ontem na Praia do Arpoador, em Ipanema. Esbanjando boa forma num biquíni (foto), a atriz protagonizou cena de topless, atraindo uma penca de fãs e curiosos, apesar do esquema de segurança montado pela produção. Ela ficou distante do público e cercada de figurantes, mas, mesmo assim, não conseguiu evitar as lentes dos paparazzi.

A cena mostra apenas uma das situações hilárias de sua personagem, Darlene, em busca da fama. Ela se envolve numa briga e acaba tendo a parte de cima do biquíni arrancada. O bombeiro Vladimir (Marcelo Faria), seu namorado na trama, também entra na confusão. Descontraída, Deborah não se incomodou com os assobios e olhares dos marmanjos.

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Diana Corso
17/09/2003


Quem tem medo de teatro

Na peça Hamlet, há uma passagem na qual se encena uma apresentação teatral, ficando seus personagens colocados na função de espectadores. Hamlet providenciou a representação e instruiu os atores para que a cena do assassinato de seu pai fosse reproduzida tal qual o fantasma lhe revelou que havia ocorrido. Para ter certeza de que seu tio e padrasto era realmente o culpado, durante a peça pôs-se a observar o seu comportamento.

A reação violenta deste frente à encenação funcionou para Hamlet como uma confissão do crime, reforçando sua determinação de vingança. Ao criar essa cena, Shakespeare supôs o espectador como personagem do drama, se ele se sentir tocado é porque no palco algo tomou forma. O teatro realiza tudo aquilo que a realidade virtual promete, você dentro da ficção. No teatro, o ator e o personagem estão de corpo presente, não tente comer pipoca ou aproveitar o escurinho para uns amassos, eles estão te vendo.

O ator só poderá trabalhar se conseguir ser um só com seu personagem, acreditar-se nele, como aquele que mente tão bem que acredita no que diz. É uma experiência particular ver surgir diante dos olhos, sem edição nem efeitos especiais, um personagem convincente. Quando o ator entra no palco, ainda não acreditamos em seu personagem, mas minutos após já esquecemos essa duplicidade e embarcamos na sua ilusão.

Fascina-nos a falsa realidade dos reality shows, tanto quanto nos angustia a veracidade da mentira no trabalho dos atores. Se o fingimento deles é tão convincente, onde está então a verdade do que somos?

Quando qualquer um de nós compõe o personagem que encarnará num evento social, de trabalho ou até mesmo familiar, todo o seu desejo, como o de qualquer ator, é de parecer genuíno. Já se disse que a vida é um palco iluminado. Afinal, tem maquiagem, marcação, cenário e figurino. O diretor habita nossa mente e é dos mais exigentes. O teatro evidencia quanto fingimento há na vida comum. Como o tio de Hamlet, temos vontade de fugir ao ver o ator suado, o corpo moldado e a entonação da voz inteiramente entregues ao personagem que lhe coube.

Nesta possessão, vemos retratada a farsa do que somos. Por isso é necessária alguma valentia para estar numa platéia onde se participa deste enredo que é uma peça de teatro. No palco, uma obra de arte nasce a cada apresentação, onde atores e público são protagonistas do fato. Não seja medroso, aproveite o Porto Alegre em Cena, vá ao teatro.

diana.corso@zerohora.com.br

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Martha Medeiros
17/09/2003


O abajur e o microondas

DVD, computadores, telefones sem fio, controles remotos espalhados por todos os cantos. Nossas casas já possuem a parafernália necessária para nos sentirmos parentes da família Jetson. No entanto, a gente nunca fala das invenções que não precisavam existir. Vou citar apenas uma: o forno de microondas.

É uma prosaica opinião e sei que milhares irão discordar, mas vou adiante. Microondas, pra mim, é uma invenção que não deu certo. Se deu certo, foi pra pouca coisa, se levarmos em consideração o espaço que ocupa na cozinha e a sua incrível eficiência para aniquilar com o gosto da comida. Pra que serve, me diga, um micro? Para esquentar mamadeira no meio da noite. Para esquentar um pedaço de pão. Tá, tá, não vou me esquecer: pra fazer pipoca.

E para acabar com a credibilidade de alguns restaurantes. Outro dia fui jantar num lugar elegante e a comida foi trazida exatos três minutos depois de feito o pedido. O prato estava bonito e, admito, gostoso, mas me senti surrupiada na minha confiança. Quero que cozinhem, não que esquentem. Ou que ao menos disfarcem. Me dêem tempo de comer o couvert.

Liquidado o assunto microondas, quero agora prestar uma homenagem para uma das melhores invenções para o conforto do lar: o abajur. Uma casa sem abajur é uma casa sem afeto, sem calor humano, sem atmosfera. Não conheço nada mais essencial que a luz indireta. Tenho pena de quem mora em casas iluminadas apenas com spots no teto ou, horror dos horrores, lâmpadas fluorescentes. Eu sei, eu sei, são mais baratas. A vida não está fácil pra ninguém. Mas reluto em acreditar que alguém possa ser feliz sem uma penumbra, uma meia-luz, uns poucos pontos de destaque, discretos, suaves. Luz não pode gritar.

Lustres, tudo bem, são abajures de teto, funcionam, já que às vezes é preciso enxergar o prato que você está comendo ou o cara com quem você está dançando. Mas o abajur no canto do sofá, na beira da cama... ah, ninguém pode confiscar o valor que eles têm. Nem precisam ser abajures convencionais, uma boa luminária, quieta, dá conta do recado fantasticamente, aquece o ambiente. E dá sabor à vida, ao contrário do microondas.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
17/09/2003


Fuga corajosa

O Fernando tem um olho de vidro. Perdeu o olho, o de verdade, em um acidente. Vivia sofrendo acidentes. É que gostava de sair de carro com um dos nossos amigos, o Careca, e o Careca era um amante da velocidade. Então, o Careca batia com o carro, um Passat da tia dele, mas saía inteirinho, espanando com as mãos a poeira da roupa. O Fernando, não. O Fernando se quebrava todo.

Numa dessas, esmigalhou um osso da perna, teve de botar platina, ficou seis meses na cama, coisa feia mesmo. Quando voltou a caminhar, tinha de ser com um daqueles andadores de metal, coitado.

Isso não o impediu de ir a uma festa do Gondoleiros com a turma. Fomos todos, bebemos umas cervejas e talicoisa. Lá pelo meio da madrugada, decidimos voltar. Éramos seis. Tomamos um ônibus na Farrapos e descemos na Assis Brasil, perto do Zequinha. Dali, íamos a pé. Devagarinho, que o Fernando estava com o tal andador.

Já havíamos vencido um naco razoável do caminho, descíamos lentamente a Industriários, quando, lá adiante, Jesus Cristo!, o que enxergamos lá adiante! Era uma turma. Uma turma, não: uma horda, uma turbamulta. Provavelmente da Frei Caneca, favela que existia nas cercanias. Uns 40 caras. Por Deus, 40! Vinham urrando e rosnando, e quebrando tudo pelo caminho, e atirando pedras e galhos e pedaços de pau nas casas e nas vidraças. Alguns, a impressão é que levavam até tochas nas mãos. TOCHAS! Mãe Santíssima, podiam bem ser os bárbaros que vieram acabar com a civilização ocidental.

Um de nós falou com a voz da sabedoria:

- Vamos correr!

Era o mais sensato no momento, sem dúvida. E o mais corajoso. Devíamos correr bravamente para o mais longe daquela possibilidade de sermos massacrados sem piedade. Sim, porque admitir o nosso pavor e, como diria o Doutor Smith, passar sebo nas canelas, era não apenas inteligente e saudável; era um ato de pura valentia. Poucos seriam tão audazes para disparar sem olhar para trás, pondo toda a força e a alma nas pernas, como estávamos dispostos a fazer. Raríssimos seriam. Estávamos assim decididos, prontos para voar intrépidos nas asas do nosso medo, quando o Fernando anunciou:

- Não vou correr. Não posso correr.

O quê??? Olhamos todos para ele. Então o Fernando queria ser covarde, ficar e enfrentar aquela alcatéia feroz? Onde estava a coragem dele? Por favor!, nós precisávamos fazer tal qual o Grêmio tem de proceder agora: recuar com destemor, defender-se com heroísmo. Pois muitos pensam que o Grêmio, ao jogar fechado, jogará de forma covarde. Não! O Grêmio tem de jogar corajosamente retrancado. Só uma retranca destemida e abnegada será capaz de salvar o Grêmio de ser destruído como nós seríamos, se não fugíssemos.

Porque seríamos destruídos, ah, sim. Por isso, insistíamos com o Fernando, desesperados:

- Vamos correr, pô! Temos que correr! Usa esse andador pra correr!

Mas o Fernando estava resolvido:

- Vão vocês. Me deixem aqui. Prefiro apanhar descansado.

Percebemos que era impossível demovê-lo. Tudo bem, seríamos covardes. Ficaríamos.

- Mas se nós apanharmos desses caras, Fernando, depois tu vais apanhar de nós.

Avançamos, tensos e tesos, caminhando lado a lado os seis, ombro grudado no ombro, grunhindo vamos te matar, Fernando, nós vamos te matar, desgranido! E a horda veio de lá, furibunda, berrando. E aquelas tochas todas, putzgrilla!

Eles vieram. Vieram. Nós cada vez mais espremidinhos, querendo que a terra se abrisse e nos engolisse, querendo sumir, nós só olhando para frente, fixamente, agoniados, e eles ROARRRR!, vindo e vindo e vindo. Quarenta caras! Bá.

Pois passaram por nós. Passaram, sem nem sequer dizer oi. Foram-se Industriários acima, rugindo, demolindo tudo, eles e as tochas.

Suspiramos, aliviados. Mais que todos nós, o Fernando. É assim: jogamos para empatar, acabamos ganhando. Às vezes funciona. Há que se tentar.

Gre-Nal de todos os tempos
As urnas se abrem!

Cerca de 200 leitores votaram, e o Grêmio de todos os tempos ficou assim, em ortodoxo sistema 4-3-3:

Lara (81 votos); Arce (106), Aírton (109), Adilson (81) e Everaldo (93); Valdo (72), Ronaldinho (88) e Gessy (71); Renato (134), Jardel (80) e Éder (92).

Que tal?

Gostei do time. Talvez colocasse Eurico na lateral-direita, talvez incrustasse Calvet na quarta-zaga. Noronha ali como centromédio seria uma homenagem a Foguinho, que tanto o elogiava. Também tenho a convicção de que Alcindo foi maior que Jardel. Mas o time dos leitores é excelente, claro que é. Fico tentado a fazer um Inter de todos os tempos, mesmo que o centenário colorado ainda esteja distante.

Manga, Paulinho, Figueroa, Nena e Oreco; Falcão, Salvador e Carpegiani; Valdomiro, Claudiomiro e Tesourinha. Os colorados aprovam? Respostas para esse imeil.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
17/09/2003


O dia da Amante

Não sei se já lhes contei aqui a história de um amigo meu que já trocou três vezes de mulher, mas nunca trocou de amante.

As titulares se sucedem e se alternam, mas a filial continua firme como uma rocha, sobrevivendo heroicamente a todas as esposas.

Estou me referindo a isso porque no próximo dia 22 de setembro é comemorado o Dia da Amante.

E este meu amigo se encontra com sua amante há 23 anos, todos os dias, ao meio-dia. Há 21 anos que eles assistem ao Jornal do Almoço juntos.

É a única hora que ele tem para sua amante. Bate o ponto religiosamente, às vezes faz sexo, sempre almoça.

É exatamente essa clandestinidade, essa espúria informalidade, que mantém acesa a chama da relação.

Os encontros sazonais formam a base da continuidade do romance, enquanto a convivência do meu amigo com cada uma das suas mulheres de plantão, pelo atrito, pelo choque, pelo cansativo redemoinho da rotina, vão roendo aos poucos as relações com cada uma das suas esposas.

A amante do meu amigo se recusa sabiamente a casar-se com ele. Sabe que no dia em que isso acontecer, tudo em breve estará terminado.

E o meu amigo avança mais ainda em sua clarividência: tem plena consciência de que para que sobreviva a sua ideal relação extraconjugal é necessário que ele esteja casado.

Ou seja, sempre está casado, troca sempre de mulher para poder manter feliz, realizada e permanente a relação com a sua amante.

Se por acaso meu amigo resolvesse não ter mais esposa, a amante perderia totalmente o sentido. Para ele e para a amante.

Ambos estão convictos de que, se um dia se tornassem marido e mulher, o meu amigo arranjaria uma outra amante.

E a hoje amante do meu amigo, então erigida em sua mulher, imediatamente seria trocada por outra.

Em outras palavras, o que meu amigo conserva com paciente esperteza é a sua namorada. Mantém com sua amante um terno e infindável namoro, enquanto casa com as outras.

É que um homem que mantém sempre a mesma esposa e troca várias vezes de amante mostra claramente que ama a sua esposa.

Enquanto que visivelmente o homem, como meu amigo, que troca rotineiramente de esposa e mantém sempre a mesma amante ama para sempre a sua amante.

É isso que o meu amigo explica a sua amante, nem precisaria explicar, ela entende isso tanto quanto ele.

Dentro de dois anos, meu amigo comemorará bodas de prata com sua amante. Com as quatro esposas que já teve, não comemorou boda nenhuma.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Teatro
Catedral em cena



A igreja matriz é o cenário para o espetáculo O Paraíso Perdido, que integra o Porto Alegre Em Cena (foto Júlio Cordeiro/ZH)


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Terça-feira, Setembro 16, 2003




DESPEJO
Silvia Schmidt

Ah! ... poupa-me da tua insanidade,
Mente doente, fraca e mentirosa!
Afasta-te, palavra elogiosa,
Por veneno concebida na maldade!

Tu és um espinho disfarçado em rosa!
Queres manchar a minha integridade,
A mim trazendo falsa santidade,
Com tua lisonja e fala pegajosa?

Quero-te longe do meu pensamento!
Quero habitar o teu esquecimento!
Quero distância das tuas caras todas!

Ah! ... poupa-me da tua insanidade!
Vive tua escolha de infelicidade!
Em outros termos: vai-te ... e que te fodas!

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Sobre a Sexualidade Masculina

Dizem as ferozes feministas norte-americanas que a idéia de um Deus pai, masculino, é invenção dos homens, com o propósito de tornar as mulheres submissas ao fálus. Por isso, trataram de mudar o sexo de Deus. Pra elas Deus não é deus, é deusa, mulher.

Assino embaixo. Acho que elas estão cobertas de razão. Os poderes divinos que decidem os destinos dos homens têm de ser femininos. Se fossem masculinos eles não permitiriam que se fizesse com os homens as maldades que lhes foram feitas. Basta examinar a assimetria existente entre homens e mulheres para se perceber a situação humilhante dos homens.

Os homens, enganados pela fantasia de que eles têm algo que as mulheres não possuem, não se dão conta de sua fragilidade. E vão ao ponto de, numa incompreensível cegueira para os fatos anatômicos e fisiológicos, dizer que eles "comem" as mulheres. Puro engano. Comer é o ato pelo qual uma coisa é colocada dentro da boca, a boca sendo um orifício vazio que extrai do referido objeto, por meio de movimentos rítmicos, a sua substância e sucos. Ora, a anatomia é clara: é a mulher que é orifício vazio que recebe o objeto masculino, que ao final aparece murcho e esgotado.

Mulher é boca; o homem é a fruta. Ao final, só resta bagaço da laranja. Ao final de todo ato sexual, o homem perde o seu pênis. A mulher, ao contrário, come e engorda. A psicanálise usa dizer que as mulheres sofrem de "complexo de castração" porque algo lhes falta. Equívoco total. Quem sofre essa dor é o homem. É ele que sempre perde o pênis ao final do ato sexual. Com o que elas não têm, elas podem ter quantos quiserem do que o homem tem.

Nas palavras de Norman O. Brown, o que acontece com o pênis é coroação seguida de decapitação. A segunda assimetria é outro castigo das deusas. A par da assimetria anátomo-funcional, a Deusa impôs ao homem um castigo de honestidade. Não lhe é possível esconder ou fingir. Ele não pode, por meio de uma decisão racional, dar ordens ao pênis. O pênis tem idéias próprias, não obedece, só faz o que lhe apraz.

Para a mulher é diferente. Ela não corre o risco da humilhação. Por meio de uma decisão racional, ela pode ter uma relação com a pessoa que ama, pode fingir, e o outro nem percebe. Talvez que o maior prazer de uma relação sexual seja o prazer de ser objeto de prazer do outro. "O outro me deseja. Eu posso satisfazer o seu desejo." Babette, cozinheira maravilhosa, tinha prazer não em comer a comida que preparava - ela só provava. O seu prazer estava em dar prazer. Isto, sobre o comer na mesa, vale para o comer na cama. E a mulher é como a Babette. Ela pode dar prazer sempre que desejar. O que não acontece com o homem.

O venerável Santo Agostinho declara, na sua obra De Civitate Dei, que este foi o primeiro castigo que as divindades infligiram sobre o homem: elas separaram o pênis da razão, de sorte que o dito-cujo se pôs a fazer coisas que não devia, nos momentos impróprios, e a não fazer as que devia, nos momentos próprios. Por isso os deuses, com dó dos homens, os cobriram com roupas: para esconder a vergonha.

E haverá coisa mais vergonhosa que um pênis insensível ao desejo de uma mulher? Zorba dizia que esse era o único pecado por que o homem ia para o Inferno. Santo Agostinho arremata que o ideal seria que o órgão masculino funcionasse do mesmo jeito como funciona o dedo, movendo-se, sem nunca desobedecer, por ordem da razão. A que todos os homens nascidos e por nascer respondem: "Amém!"

Depois vem a fantasia de que "ela é areia demais para o meu caminhãozinho". Claro que há sempre o recurso de se fazer duas viagens. Mas a assimetria continua. Dito em linguagem culinária: "minha comida é muito pouca para a fome dela". Dito em linguagem técnica: "eu, como objeto do desejo, sou pequeno demais para o desejo dela". E as mulheres são as primeiras a falar sobre o tamanho enorme do seu desejo. "Para o meu desejo, o mar é uma gota", diz a Adélia. Ah! Então seria preciso que os homens fossem deuses para satisfazer esse desejo oceânico!

Aí os homens começam a ter medo do desejo da mulher. "Melhor uma mulher sem desejo. Pois se ela não tiver desejo, não passarei pela humilhação de não poder satisfazê-lo." Por isso os homens de gerações passadas queriam noivas virgens, não por razões religiosas de pureza, mas para impedir a possibilidade de comparação. O homem não suporta imaginar que o desejo de sua amada, que ele não consegue satisfazer, possa ser satisfeito por outro. Daí o terror da infidelidade da mulher. Não, não se enganem. A ferida não é ficar sem ela, a dor não é a perda dela.

A dor maior, insuportável, é narcísica. Pois "ao me ser infiel e me abandonar ela está proclamando aos quatro ventos a minha incapacidade de satisfazer o seu desejo: ela revela o segredo da minha incompetência". O que vai ser insuportável para o homem não é a ausência da mulher, mas os olhares dos seus pares, homens.

A identidade sexual também se define, "homossexualmente", pela confirmação dos outros do mesmo sexo. "A minha masculinidade deve ser reconhecida não só pela mulher como também pelos meus pares." Saunas não deixam de ser santuários de reconhecimento. Mas se a mulher não tiver desejo, o homem estará protegido deste horrível perigo metafísico. A virgindade, a ablação do clitóris praticada por certas tribos africanas, a indiferença sexual e, no seu ponto extremo, o crime de amor são formas de possuir a mulher através da destruição do seu desejo. "Uma mulher sem desejo será sempre minha."

A aparência bruta, os músculos moldados pelos halteres, as estórias de proezas sexuais, a produção visual de acordo com os padrões masculinos - todos estes são artifícios de um ser amedrontado diante do mistério fascinante da mulher. "Tão fraca, tão frágil - e, no entanto, é diante dela que vou me revelar. Será ela que me revelará se eu sou comida capaz de matar a sua fome."

Os que não sentem ansiedade são aqueles que não entendem, semelhantes aos cachorros: ainda não ouviram a notícia. Dentro em breve a sua carne os surpreenderá com o recado. E daí para frente eles estarão permanentemente perdidos.
Agora me digam: as deusas tinham necessidade de fazer tal maldade com os homens?


ALVES, Rubem. Sobre o tempo e a eterna idade. Campinas: Papirus, 1995.

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Terça, 16 de setembro de 2003.

Para quem estiver no Rio e der uma passadinha pela frente da Central do Brasil nesse horário entre 18 e 19 h poderá aproveitar a festa.

DIA A DIA
Central festeja os 75 anos da Mangueira

Em comemoração aos 75 anos da Estação Primeira de Mangueira, o relógio da Central do Brasil foi iluminado ontem, às 18h, com as cores verde e rosa. A homenagem, que vai até sexta-feira, inclui exposição de fotos, painéis e fantasias na gare da estação. A história da escola está retratada desde a fundação até os projetos sociais desenvolvidos atualmente na comunidade.

Quem passa em frente à Central, também pode aproveitar a festa, com uma animada roda de samba, sempre entre 18h e 19h. Sexta-feira, a homenagem termina em grande estilo, com show da Velha Guarda da Mangueira cantando sambas históricos da verde-e-rosa. O evento tem apoios da SuperVia, governo do Estado e Xerox.

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Liberato Vieira da Cunha
16/09/2003


Fotos antigas

Não é bom ver fotos antigas desta cidade mutante. Sei do que falo: ontem percorri ao acaso um velho álbum por inteiro dedicado à mui leal, miraculosamente salvo das traças e do esquecimento por mãos sensíveis. Ali estava uma Porto Alegre que não conheci, pois anterior ao tempo em que fui apresentado a seu esplendor e magia.

Isso mesmo: esplendor e magia. Para um guri de Cachoeira, eram mágicos os bondes, as sinaleiras, as portas giratórias, os arranha-céus. E era esplêndida a Rua da Praia iluminada a néon, ornada de vitrais, civilizada, elegante, urbana.

Mas dizia que o álbum vinha de antes de meu primeiro encontro com a cidade. O surpreendente é que vinha também de depois. Me explico: o Auditório Araújo Vianna, o Prado Independência, o Grande Hotel, astros especialmente convidados das fotos antigas, continuaram a navegar futuro adentro até serem abatidos em pleno vôo. Ou seja: o passado custava mais a sair de cartaz.

Desconfio que começou a andar mais depressa ali pelos Anos de Chumbo. Uma noite, estou guardando o Corcel na garagem e me volto para o Leste e lá está o Leste, mas onde foi parar o Anchieta? Tinham demolido sem aviso o Colégio Anchieta da Rua Duque, posto abaixo a melhor adolescência que já tive. Uma tarde vou à praia, uma praia que florescia aqui e atendia por Ipanema. Contemplo o rio e o rio é bonito, encrespado pelo vento, e parece haver nele uma ancestral vocação à limpidez. E então dou com uma placa anunciando, oficial e lúgubre, que as águas daquele rio se tinham degradado. Corria um rio na minha frente, mas já era um fluir letal, uma líquida morte.

Não é que desame a Capital.

Não é que cordialmente a deplore.

O que eu queria de Porto Alegre não é que não fosse mutante. Todo mundo é.

Eu só imploraria a Porto Alegre que não fosse tão impiedosamente inconstante e volúvel e cambiante, a cada instante e hora.

Assim, eu ao menos podia digitar aquela tarde dos Anos Dourados em que joguei vôlei em areias roubadas ao Guaíba com uma garota chamada Laura. Uma que tinha cabelos loiros e olhos azuis e uma voz sedutoramente rouca.

Ah, sim. E um invencível saque de esquerda.


liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
16/09/2003


Conexão negra

Na recente e mais uma vez bem-sucedida Jornada de Literatura de Passo Fundo, umas das atrações centrais foi a do coral do Cecune, Centro Ecumênico de Cultura Negra. Lá no centro do palco, vejo a estampa do Juarez Ribeiro, meu amigo, cuja barba já anda branqueando, porque o tempo passa pra todo mundo. A presença do coral ali está relacionada com o tema geral desta edição da Jornada, A Arte da Inclusão. Neste específico caso, incluir os negros, simbolizados ali nas vozes do coral.

Desçamos a um parêntese. Um dos motivos do sucesso da Jornada, além da decantada obstinação de seus produtores - representados com boa razão na Tânia Rösing, mas eles são muitos -, tem a ver com o enraizamento do trabalho. Por trás e por dentro das Jornadas, há uma universidade, que faz questão de pertencer ao mundo real das relações sociais da região. As poucas restrições que tenho à concepção das Jornadas (a maior sendo a estrutura do prêmio de 100 mil dado a apenas uma obra, quando poderia acolher talvez três ou quatro, de gêneros variados) quase somem do cenário, diante dessa disposição de entrosamento comunitário.

O caso da comunidade dos negros sulinos tem a ver com isso, com enraizamento e vida gregária, mas tem acontecido em outras e historicamente piores condições. Para eles, não tem funcionado o charme associativo que costuma estar ligado aos grupos de descendentes de italianos, alemães, judeus, poloneses. E isso num Estado que inclui no repertório de seus orgulhos civilizados o fato de aqui, no remoto ano de 1872, ter sido criada uma sociedade como a Floresta Aurora, ainda viva, a dar depoimento da persistência dos ideais de liberdade e integração social. Num Estado que deveria providenciar homenagens mais seguidas para um poeta como Oliveira Silveira, que com seu jeitão discreto não faz praça de sua importância enorme para o orgulho negro. (Se o senhor quiser comprar um livro do Oliveira, encontra onde?)

Bem, o caso é que não pude falar com o Juarez em Passo Fundo. Mas esses dias cruzo com ele aqui na cidade. Saúdo-o, e ele me passa um exemplar de sua nova empreitada: a bela e competente revista Conexão Negra, cujo número 3 está circulando (telefone (51) 3347-5972, mail cecuners@terra.com.br). Tem matéria de capa com Elza Soares, tem artigo analisando o censo de 2000 quanto à presença negra no sul, tem entrevista com Sueli Carneiro, intelectual com ótima capacidade de formulação, tem resenhas de livros relevantes, tem reportagem sobre quilombos na região sul. E tem um jeito orgulhoso de ser que dá gosto de ver.

fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
16/09/2003


Vida é estímulo

"Auto-sustentável" é uma expressão que idealmente deveria estar associada ao processo de desenvolvimento. Não está, como o mostram as freqüentes crises dos países ditos emergentes. Mas a pobreza é, sim, auto-sustentável. É um sombrio círculo vicioso em que a desnutrição, lesando o cérebro infantil, remete à apatia, que, por sua vez, tende a manter a pobreza e a fome. Para romper um círculo desses é preciso atacá-lo em vários pontos, a começar pela desnutrição, objetivo do Fome Zero.

Mas não é só de alimento que as crianças têm fome. É também de estímulo - intelectual, emocional. Crianças, sobretudo as menores de três anos, precisam ser estimuladas, e estimuladas precocemente, com o objetivo de formar conexões neuroniais e, muito importante, conexões interpessoais, sociais. Vivemos num mundo de redes e estar fora delas é uma forma particularmente deletéria de exclusão.

Este é o tema que empresários estarão debatendo hoje à noite no Grêmio Náutico União. Trata-se de uma proposta do Banco Mundial: a criação de um programa para o desenvolvimento integral da criança, financiado pelo Fundo do Milênio para a Primeira Infância. O próprio Banco Mundial alocará recursos proporcionais àqueles destinados pelo empresariado. O fundo será gerido pela Unesco, órgão das Nações Unidas para a educação, e por um conselho empresarial. A operacionalização do fundo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina ficará a cargo da Fundação Maurício Sirotsky.

Constituído o fundo, o programa será desenvolvido em creches e pré-escolas (comunitárias e filantrópicas) mediante o treinamento dos profissionais e a provisão de material pedagógico e equipamentos. A Secretaria da Saúde, informa o secretário Osmar Terra, participará do programa, recrutando e treinando agentes comunitários que visitarão famílias identificando crianças com o problema e auxiliando na solução do mesmo.

Funcionará? Basta um dado: estudo realizado pelo Ipea sobre o impacto da educação pré-escolar no Brasil demonstra que cada ano de freqüência na pré-escola equivale a um aumento da renda futura da ordem de 6%. Em termos de investimento não poderia se pretender melhor. Nossos empresários, cuja visão e competência tem sido constantemente comprovada, não deixarão de apoiar um programa fundamentado na ciência - e na generosidade.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
16/09/2003


Com mais de 40 anos, não!

Transcrevo, pelo realismo: "Prezado Sant'Ana. Acompanho tua carreira desde os tempos em que apareceu um maluco na televisão envergando a gloriosa camisa tricolor e enfrentando a hipocrisia então vigente de que jornalista não podia ser torcedor. Tua crônica de hoje, 14 de setembro ('A redução dos prazeres', pela qual o colunista recebeu incontáveis cumprimentos de uns e de outros sérias repreensões sobre o pessimismo nela contido), me levou a escrever pela primeira vez na vida a um jornalista, e verás, pelas razões que vêm a seguir, também experimento uma brutal redução dos prazeres, não só por fatores econômicos, mas principalmente pelos psicológicos que advêm do momento que estou passando.

Há tempos venho acompanhando tuas preocupações com as estatísticas sempre crescentes de desemprego, e desde outubro do ano passado faço parte delas.

Tenho 48 anos de idade e 29 de carreira, dentre eles mais de 20 anos de variada atuação gerencial nas áreas administrativa, financeira, comercial, marketing, auditoria, desenvolvimento de projetos, implementação de programas de qualidade e outras.

Pois, Sant'Ana, na maior parte daquele tempo atuei em uma empresa estatal privatizada em 1998, e depois tive o privilégio de continuar na multinacional que assumiu o controle acionário ainda por quase cinco anos. Desde meu desligamento, venho tentando uma nova colocação, sem sucesso.

Mas a melhor (?) de todas as respostas vem a seguir: algumas vezes de forma clara, velada em outras, aparece a justificativa de que minha 'crise de empregabilidade' se deve a ter trabalhado por mais de 20 anos numa estatal que construiu péssima imagem junto à sociedade e isso, a priori, depõe contra o profissional. Sou imediatamente identificado com todos os problemas que a estatal enfrentou, principalmente durante seus últimos anos antes da privatização. Assim, aquilo que já foi um patrimônio profissional inestimável, construído com trabalho, esforço e dedicação, perante as regras atuais de mercado nada vale, e talvez devesse mesmo ser banido de meu passado".

"Recentemente o caderno Empregos da ZH abordou o assunto da contratação de profissionais com mais de 40 anos como atraente alternativa para as empresas. Têm saído na imprensa seguidas matérias sobre profissionais com muitos anos em empresas privadas, e isso é fato de mérito.

Para mim, a simples leitura do currículo e a constatação de um passado nefando me condenam a continuar desempregado, sem sequer a oportunidade de uma entrevista para me dar a conhecer.

Enquanto isso, continuo vasculhando o caderno Empregos e os classificados, os sites das empresas de recolocação e dos head hunters, a disparar currículos por e-mail, pessoalmente ou por carta, na esperança de que alguém não se dê conta, ou releve aquela mácula profissional pregressa.

Hoje, camarão e churrasco são uma agradável lembrança.

Dos prazeres da cama, às vezes nem o sono.

A praia ficou registrada na memória das últimas férias, em fevereiro de 2002.

A reforma previdenciária, nestas alturas, é-me indiferente. A tributária, certamente, agravará a situação financeira já complicada.

Vinho, cerveja e uísque, só se alguém convida.

Como a ti, fugiu-me a juventude, o presente é duro e temo pensar no futuro.

Não há como pensar em danças, bailes, Carnaval, pois falta a alegria.

Ainda não desisti de sair às ruas e caminhar, pois faço exercício e economizo quando possível o da passagem.

O pior é a dúvida: não estarei colhendo os frutos da minha falta de planejamento?

Sant'Ana, não se trata de choramingar no ombro do cronista, nem usá-lo para dar vazão aos sentimentos sombrios que assaltam o íntimo de um chefe de família que dormiu no domingo como trabalhador e na segunda-feira como subproduto da globalização, afinal, tens sido prolífico em reproduzir nas tuas colunas o que sente alguém despojado do maior símbolo de dignidade que um homem pode ter: seu trabalho. Quis apenas te fornecer mais um subsídio para usares na tua luta contra o desemprego que está aí, já que és uma das poucas vozes que se alteiam.

Peço, apenas que não refiras meu nome caso o que escrevi acima seja de algum modo aproveitado em tua coluna. Prefiro o anonimato público, embora não o faça para o colunista. Um abraço. (fone 3335.3749)".

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Grêmio
Uma força centenária



Em noite histórica, ex-presidentes do Grêmio deram-se as mãos: a partir da esquerda, José Alberto Guerreiro, Paulo Odone, Luiz Carlos Silveira Martins, Flávio Obino (atual), Pedro Pereira, Fábio Koff, Oly Fachin (Conselho) e Hélio Dourado. Rafael Bandeira subiu ao palco, mas não aparece na foto (foto Fernanda Davoglio, divulgação/ZH)


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Segunda-feira, Setembro 15, 2003




Reparei que a poeira se misturava às nuvens

Reparei que a poeira se misturava às nuvens,
e, sem pôr o ouvido na terra,
senti a pressa dos que chegavam.

Disse-me de repente: "Eis que o tropel avança".
Mas todos me olhavam como surdos,
e deixavam-me sem responder nada.

Vi as nuvens tornarem-se vermelhas
e reperti: "Eis que os incêndios se aproximam".
(Mas não havia mais interlocutores.)

"Eles vêm, eles não podem deixar de vir",
balbuciei para a solidão, para o ermo.
E já por detrás dos montes subiam chamas altas;
ou eram estandartes ou eram labaredas.

Perguntei: "Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? Ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!

Meu nome está em mim? No passado ou no futuro?
Ninguém responde.
E o fogo avança para meu pequeno enigma".

Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente, como um botão de rosa.
"Death".

DEATH?
Por que me falas nesse idioma?, perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.

O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.

Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.

Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.

A vida é a vigilância da morte,
até que seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Cecília Meireles

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Mil e uma atividades
Para reforçar renda e ter empregabilidade, executivos acumulam uma segunda opção profissional ou negócio
Leila Souza Lima

Não dá mais para, como se diz no popular, colocar o burro na sombra e descansar. O medo do desemprego, o achatamento dos salários e, por que não citar, o aumento da expectativa de vida, levam cada vez mais executivos a procurar uma alternativa de renda, mesmo quando contratados de grandes empresas. A constatação está em um levantamento do Grupo Catho concluído este ano. Dos 41.395 entrevistados, homens e mulheres, 32,15% exerciam alguma atividade paralela ao emprego fixo, uma tendência crescente. A mesma pesquisa no ano passado apontou 21,97%.

Essa opção de vida se torna mais freqüente com o avançar da idade. Entre 56 e 60 anos de idade, 53,16% dos executivos têm uma segunda função profissional. Vice-presidente executiva do Grupo Catho, Silvana Case associa esse movimento à crise de emprego e ao custo de vida. Em geral, as pessoas buscam uma alternativa de renda. Outro fator é que ninguém mais, mesmo grandes executivos, está livre de perder o emprego. Antigamente, o funcionário passava a vida inteira na mesma empresa. Hoje, são cada vez mais raros os que se aposentam sem nunca terem sido demitidos. Então, eles estão se preparando para o futuro, analisa Silvana.

Mas nem sempre a atitude é pública. Segundo Silvana, as empresas ainda resistem em contratar ou manter em seus quadros profissionais envolvidos com outros negócios. As razões para a restrição são várias zelo pela ética nos negócios, medo de quebra de segredo industrial e também altos padrões de exigência, que pedem de funcionários dedicação integral.

Professor universitário é opção de renda

Os tipos de atividades paralelas mais constantes são o negócio próprio ou uma consultoria, para 20,29% dos executivos. Outros 13,81% afirmam que o marido ou mulher é que têm um negócio. Mas, segundo Silvana, muitas vezes eles participam da atividade, e até são o principal envolvido, porém usam o cônjuge para esconder a condição. A amostragem revela que 79,65% de presidentes, vice-presidentes e diretores têm reservas quanto a contratar executivos com negócio próprio, ainda que declarem ser de seus companheiros.

Outro segundo trabalho muito comum é o de professor no horário noturno, função também rejeitada por 26,78% dos empregadores. As universidade estão crescendo e buscam profissionais que tenham vivência executiva e que não sejam só acadêmicos, observa Silvana. A constatação é confirmada pelos estabelecimentos de ensino. Muitos até usam a equipe de executivos como grife, e ressaltam esse fator como vantagem em suas apresentações e anúncios. A atividade é praticada por 9,87% dos profissionais.

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José Pedro Goulart
15/09/2003


A última trapaça de Woody Allen

Woody Allen é um trapaceiro. Resolveu trapacear usando suas neuroses e manias, fazendo delas uma espécie de cortina de fumaça para que suas verdadeiras intenções trafegassem sem problemas. Talvez ele seja um neurótico mesmo, um sujeito cheio de fobias: não entra em elevadores ou túneis, detesta aviões e teme até mesmo os ralos do chuveiro. Mas ao confessar isso, Mr. Allen libertou um personagem que se confunde consigo próprio e fala o que quer, como quer, sem se preocupar se tudo aquilo vai soar pretensioso. Sendo um neurótico, um fóbico e com aquele aspecto físico, Woody ganha um salvo-conduto para ser agudo, mordaz, ferino. É uma espécie de James Bond às avessas, com a mesma licença para matar, só que noutro sentido.

Dirigindo no Escuro é o Woody Allen que está na cidade. Nele o cineasta joga os dados com o seu universo, o universo do cinema. No filme, Woody representa um diretor de filmes autorais que, ao receber uma derradeira chance no cinema convencional, vê-se tomado por uma cegueira momentânea. Mesmo assim, cego que nem uma porta, ele decide continuar. Uma vez finalizado, o filme é alvo de críticas contundentes já que a história não faz qualquer sentido. Quando tudo parece perdido, eis que vem da França uma crítica extremamente favorável, anunciando a obra como uma revolução narrativa.

Até parece óbvio, não é mesmo? São muitas as semelhanças com o próprio Woody Allen, adorado na Europa e despertando cada vez menos interesse nos Estados Unidos. Isso tudo é verdade e aparece no sarcasmo com que o diretor se refere ao cinema de indústria e suas jogadas marqueteiras. Só que Woody Allen é um artista. E dos maiores. Um Beethoven, um Picasso, ou um Cézanne ou um Mahler, para ficar com as preferências dele.

Há algo um pouco mais escondido nas razões do diretor. Tomemos o fato dos franceses gostarem do filme, dirigido por um cego. Serão eles idiotas? O que talvez Woody Allen queira nos dizer é que os filmes, como os dados, não possuem apenas uma face de leitura. Que é preciso aceitar o acaso como possibilidade. Disso é feita a arte também, do aleatório. Woody Allen desmistifica sua obra, como se os próprios filmes não fossem concatenados, inteligentes e profundos.

Mas é no reencontro com o filho excêntrico, cujas tatuagens, piercings ou modo de usar o cabelo causam horror ao pai vivido por Woody Allen, que o filme guarda seu melhor momento. O cineasta coloca a si próprio no banco de réus e anuncia que é preciso olhar para as diferenças com respeito e atenção. Woody Allen renuncia a cegueira da pretensão e com isso trapaceia com o destino, mostrando-se apto a continuar experimentando, isto é, vivendo.

jose.pedro@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
15/09/2003


Leni e Edward no mesmo barco

Leni Riefenstahl e Edward Teller têm pouco em comum, além do fato de morrerem quase ao mesmo tempo, há dias. Ela foi a cineasta alemã que fez, entre outras coisas, dois famosos documentários para os nazistas, um sobre o encontro triunfal do partido em Nuremberg em 1934 e outro sobre a Olimpíada de 1936 em Berlim. Ele foi um físico húngaro que fugiu dos nazistas para os Estados Unidos, participou da construção da bomba atômica e depois foi o principal instigador da construção da bomba de hidrogênio, contra a opinião de muitos dos seus colegas. Mas Leni e Teller tiveram assunto, se suas almas se encontraram no tal barco que leva para o outro lado. Representam uma mesma questão bipartida, a da neutralidade moral ou não da arte e da ciência.

Leni nunca negou que admirava Hitler, mas sempre negou que fosse nazista. Seus dois documentários são considerados obras-primas e valem até hoje como exemplos de filmagem e montagem inovadoras. Mas a qualidade estética não esconde o fato de que são filmes de propaganda de um regime que, desde o começo, deixou claras suas intenções e suas doutrinas raciais.

Leni não podia alegar ignorância, mas podia alegar que um engajamento superior à arte, à boa arte, anula todos os outros, e assim a própria qualidade da sua obra servia como um atestado de neutralidade, ou como justificativa moral. A sua posição colou, na medida em que ela foi presa durante alguns anos depois da guerra, sofreu boicotes e ouviu protestos por muito tempo e nunca mais conseguiu fazer cinema, mas conquistou um bom nome como fotógrafa e morreu com 101 anos, o que não deixa de ser uma absolvição.

Edward Teller morreu com 95. Não teve qualquer crise de consciência depois que as bombas que ajudou a fazer mataram milhares em Hiroshima e Nagasaki, e depôs contra J. Robert Oppenheimer, que liderara o projeto da construção das bombas atômicas mas se opunha à construção de bombas ainda mais mortíferas para espantar os russos, num inquérito que acabou com Oppenheimer afastado do programa nuclear americano como um risco à segurança.

Depois disso, Teller tornou-se o principal cientista a serviço do governo e responsável pelo desenvolvimento da bomba H, e dividiu a comunidade científica, boa parte da qual apoiava o posicionamento moral de Oppenheimer e deplorava o clima de paranóia criado pela Guerra Fria e o macarthismo e o engajamento político de Teller, um falcão convicto.

O que Leni e Edward se disseram no barco? Podem ter concordado que a Arte tem que ser Arte e a Ciência tem que ser Ciência e danem-se as conseqüências. Ou Teller pode ter lamentado que não existe nenhuma justificativa estética possível para armas de destruição em massa como existe para filmes de propaganda, embora estes também possam ser letais. Ou os dois podem apenas ter concluído, juntos: "Que tempos os nossos, né?"

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Paulo Sant'ana
15/09/2003


Cem anos de paixão

Ergam-se e tilintem-se as taças para o brinde emocionante do centenário de um clube que já conquistou todas as glórias que é dado a um clube conquistar.

Parece mentira que pertencemos a uma geração privilegiada que viveu as festas do cinqüentenário em 1953 e as revive hoje, neste 15 de setembro de 2003, comemorando os cem anos de um Grêmio que se arremessa para a eternidade.

São 36.500 dias em que não parou de bater o coração gremista, incendiado por uma paixão misteriosa dos seus torcedores, cada vez mais amorosos com seu clube, que se constitui na maior razão de suas vidas.

Foi tão grande a paixão que deixou de ser restrita a uma elite e se espalhou pelos arrabaldes, pelas vilas, pelas habitações humildes, pelos morros, invadiu os colégios e os presídios, pulsou pelas esquinas e pelos casarios, transformou-se na mais intensa chama de devotamento deste povo que comemora junto com o centenário do Grêmio mais uma Semana Farroupilha.

Vivi intensamente metade destes cem anos do Grêmio. Quase arrebentei de emoção quando empunhei junto com os jogadores e dirigentes gremistas, na pista do Estádio Nacional de Tóquio, a taça de campeão mundial de clubes, em 10 de dezembro de 1983.

Quase não acreditávamos naquele instante mágico que vivíamos lá do outro lado do mundo, o momento em que um clube de arrabalde de um país subdesenvolvido subia o mais alto degrau da glória futebolística.

Dali em diante, foram se multiplicando as turbas de torcedores gremistas, espalhando-se a paixão tricolor incrivelmente por todos os Estados do nosso país, a camiseta tricolor sendo avistada em todo lugar e ocasião em que os brasileiros se reunissem.

E foi crescendo a torcida como uma pirâmide em demanda do infinito, não cabendo mais nos salões da aristocracia e da mediania e se alastrando numa metástase incontrolável para os cantões da pobreza e da exclusão racial.

O Grêmio grupista virou um clube popular, abriu-se para as massas e tornou-se uma das maiores agremiações do mundo.

Ergam-se e tilintem-se as taças para o estupendo brinde do centenário. Comemore-se esta paixão inexplicável que arrebata os corações há 36.500 dias, como foi comemorada anteontem e ontem no Olímpico e no Parcão.

O Grêmio, como as pessoas, vive de triunfos e de reveses. Os seus triunfos são eternos, os reveses passageiros.

Tudo e só o que importa é esta paixão imortal. Perpétua paixão porque nasce na infância.

Eterna paixão porque se transmite pelas gerações.

Basta ser humano para ser gremista.
psantana.colunistas@zerohora.com.br