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Sábado, Outubro 25, 2003
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11:05 PM
by Cassiano Leonel Drum
S H E
(Charles Aznavour/Herbert Kretzmer)
Intérprete: Elvis Costello
She may be the face I can't forget
Ela pode ser o rosto que não consigo esquecer
A trace of pleasure or regret
Um traço de prazer ou arrependimento
May be my treasure or the price I have to pay
Pode seu meu tesouro ou o preço que tenho que pagar
She may be the song the summer sings
Ela pode ser a canção que o verão canta
May be the chill the autumn brings
Pode ser o frio que o outono traz
May be a hundred different things
Pode ser uma centena de coisas diferentes
Within the measure of the day
No espaço de um dia
She may be the beauty or the beast
Ela pode ser a bela ou a fera
May be the famine or the feast
Pode ser a fome ou o banquete
May turn each day into a heaven or a hell
Pode fazer de cada dia um paraíso ou um inferno
She may be the mirror of my dreams
Ela pode ser o espelho de meus sonhos
A smile reflected in a stream
Um sorriso refletido em um rio
She may not be what she may seem
Ela pode não ser do jeito que parece
Inside her shell
Dentro de sua concha
She who always seems so happy in a crowd
Ela, que parece tão alegre na multidão
Whose eyes can be so private and so proud
Cujos olhos podem ser tão secretos e tão orgulhosos
No one's allowed to see them when they cry
Ninguém tem permissão para vê-los quando choram
She may be the love that cannot hope to last
Ela pode ser o amor que não se espera que dure
May come to me from shadows of the past
Pode vir para mim de sombras do passado
That I'll remember till the day I die
Que lembrarei até o dia em que morrer
She may be the reason I survive
Ela pode ser a razão pela qual sobrevivo
The why and wherefore I'm alive
O motivo pelo qual estou vivo
The one I'll care for
A pessoa de quem eu cuidarei
Through the rough and ready years
Através dos bons e maus momentos
Me, I'll take her laughter and her tears
Eu, eu tomarei seu sorriso e suas lágrimas
And make them all my souvenirs
E farei deles minhas lembranças
For where she goes I've got to be
Pois onde ela for eu deverei estar
The meaning of my life is she
A razão de minha vida é ela
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11:00 PM
by Cassiano Leonel Drum
"Silêncio!"
No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...
Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!
Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!
Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...
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10:55 PM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
26/10/2003
O Kadão e o pastel
A vida sem fritura não vale a pena ser vivida. É dos meus ditados preferidos, desculpem-me os comedores de granola. Pensei nisso ao ver aquele pastel. Ainda sorrio, quando lembro dele. Era um pastel bem fornido, do tamanho de uma agenda, o ventre volumoso recheado de delicados nacos de ovo cozido e carne moída com critério. Mas o principal é que a massa fina vinha besuntada de óleo. Emocionei-me.
Havia muito que não encontrava um exemplar daqueles. Os pastéis atuais parecem feitos a máquina de indústria. São secos, quase crocantes. E não têm ovo! Aquele pastel, não. Aquele pastel fora concebido por meio de cálido banho em muito, muito azeite. Era um pastel de verdade, uma vez que a gordura é toda a alma de um pastel.
Olhei para ele repousando ao lado de um irmãozinho no balcão do bar da redação. Pensei: esse pastel será meu. Todo meu.
Nesse momento, o Kadão, editor de foto da Zero, estacou ao meu lado. Também admirava o pastel, logo vi.
Estremeci. Ali estava um homem que sabe apreciar os predicados de um autêntico pastel, que não se intimida com um pouco de óleo nas artérias. Os outros, em volta, esses não constituíam perigo algum - reles comedores de salada verde, de sopas de envelope, de borrachudas barras de cereais. O Kadão, de jeito algum. O Kadão é um gordo.
Alguém aí vai se escandalizar: mas como esse cara chama o outro de gordo desse jeito, em público? Como se gordo fosse xingamento. As pessoas estão assim, agora. Você quer deixar uma mulher feliz? Minta:
- Como você está magra...
O dia dela estará ganho. Para as mulheres: magra = bonita. Mas não é nada disso. Magra quer dizer, apenas, magra. Já uma pessoa gorda não é necessariamente feia. O Kadão, por exemplo, trata-se um gordo que, se deixar de ser gordo, perderá todo o charme. Talvez viesse a se transformar num daqueles magros tristes, eternamente revoltados com suas obrigações dietéticas. Mas felizmente o Kadão não corre tal risco. Assume-se como gordo e quem o conhece tem o prazer de conhecer um gordo alinhado, elegante, inteligente, feliz.
Era esse gordo que cobiçava o pastel, o meu pastel, no bar da redação. Havia motivos para temer, portanto. Mas, puxa, gosto do Kadão, ele é meu amigo, isso me fez hesitar. Valeria arriscar minha amizade com o Kadão por um pastel? Olhei para o Kadão. Olhei para o pastel. Era um lindo e gorduroso e apetitoso pastel. Suspirei. Teria de tomar uma atitude dura. Comecei:
- Lamento, Kadão, mas há momentos na vida em que...
Então, ele me interrompeu. Apontou para o pastel da direita. O irmãozinho.
- Fico com este. Tu com o outro. Feito?
As flores se abriram no canteiro do Arroio Dilúvio, o sol encontrou uma fenda no concreto armado do prédio e aqueceu meus ombros, os passarinhos cantaram nos fios de alta tensão da Avenida Ipiranga.
- Feito! - concordei, entusiasmado.
Daí, pedimos guaranás e passamos a comer nossos pastéis. O guisado caía, arteiro, pelas bordas, a massa estava tão molhada de óleo que se desmanchava, eu e o Kadão ríamos, felizes, enquanto nossos colegas ciosos de suas silhuetas torciam o nariz:
- Que nojo.
Comi tudo, foi tudo muito bem, o único senão ficou para uma gota de azeite que manchou minha camisa azul clarinha de que gosto tanto, sempre ganho um elogio quando visto aquela camisa azul clarinha, alguém aí sabe o que é bom para tirar mancha de óleo de pastel?
Enfim, sabotar as dietas saudáveis pode ser algo realmente divertido. As disciplinas rígidas, as regras, às vezes elas têm de ser quebradas.
Caso do Inter. Se o Inter tivesse sido um pouco mais leniente com o centroavante André, se esse jogador não fosse mandado embora, será que o time não estaria em outra colocação, bem lá em cima, na fresta aberta entre Santos e Cruzeiro? Creio que sim. Mas essas cogitações e minha taxa de colesterol, bem, não adianta pensar em nada disso, a esta altura da vida e do campeonato.
david.coimbra@zerohora.com.br
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10:53 PM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
26/10/2003
Para a Regina
No ¿Muvuca¿, fiz textos para Regina Casé. Num dos programas, ela era uma atriz que falava ¿dublado¿, um desencontro entre os movimentos da sua boca e as palavras que se ouviam
Do baú. O programa se chamava Muvuca, com a Regina Casé, e fiz alguns textos para ela. Num, a Regina era uma atriz americana sendo entrevistada no Brasil. Ela falava "dublado", com um completo desencontro entre os movimentos da sua boca e as palavras que se ouviam.
REPÓRTER - Miss Case, o que você está achando do Brasil?
REGINA (EM PORTUGUÊS PERFEITO, EMBORA SEUS LÁBIOS "FALEM" INGLÊS) - Bem, eu estou aqui para lançar o meu primeiro filme para a tela grande, mas sei que sou muito popular na televisão brasileira, apesar de falar com esta voz que eu não sei de quem é, mas não é a minha, pois não conheço uma palavra em português.
REPÓRTER - E qual é a sua impressão do Brasil?
REGINA - Você vai ter que me desculpar, querido, mas não tenho a mínima idéia do que você está dizendo. Para falar a verdade, não tenho a mínima idéia do que EU estou dizendo. Próxima pergunta.
REPÓRTER - A que você atribui sua popularidade no Brasil?
REGINA - Eu adoro a música brasileira, especialmente Paulo Coelho. (RISADAS) Bem, vejo que disse alguma coisa engraçada, pois todos estão rindo. Eu gostaria de saber o que foi. (REGINA ENUNCIA "SHIT" MAS OUVE-SE:) Droga!
REPÓRTER - É verdade que você pretende filmar com um diretor brasileiro?
REGINA - Oh, não. Eu e Brad Pitt temos apenas uma amizade antiga e ele está felizmente casado com uma boa amiga minha. Engraçado, acabo de ouvir o nome de Brad Pitt e acho que foi dos meus próprios lábios dessincronizados. Meu Deus, o que será que eu estou dizendo para esta gente nesta maldita língua, e com esta maldita voz?
REPÓRTER - Alguma mensagem para o público brasileiro, miss Case?
REGINA ("DIZENDO" SHIT, SHIT, SHIT) - Droga, droga, droga!
REGINA NO MEIO DA TORCIDA NUMA ARQUIBANCADA DE FUTEBOL, GRITANDO PARA UM JOGADOR EM CAMPO
REGINA - Vai, Betão! É tua! Ó Betão! Ó desgraçado! Tu qué me matá? Te coloca, Betão. Olha a bola alta, Betão! O Betão em bola alta... Eu não quero nem olhá ...(VIRA O ROSTO, DEPOIS ESPIA) Ele rebateu? Boa, Betão. Tem que dá chutão mesmo. (PARA AS PESSOAS EM VOLTA:) Esse daí eu conheço desde garoto. Filho da vizinha. Vi ele começar a... Olha o contra-ataque, Betão! Vai nela, animal! Ó Betão! Ó Betão! Sai do chão e vai jogá bola, ruindade! Tu tá enterrando o time! Outra coisa, inconsciente: vê se telefona pra tua mãe de vez em quando! Custa dar um telefonema, pô?
REGINA E OUTRA TORCEDORA SENTADAS NUMA ARQUIBANCADA. O JOGO JÁ ACABOU E É EVIDENTE QUE ACABOU MAL PARA O TIME DELAS. ELAS NÃO PODEM ACREDITAR NO QUE ACONTECEU
REGINA - Mas o que que é isso?
OUTRA - Quatro a zero!
REGINA - O time jogando direitinho, no ataque, e eles vão lá quatro vezes a fazem quatro...
OUTRA - Não dá pra acreditar...
REGINA - Alguma coisa não fechou. Só pode ser.
OUTRA (EXAMINANDO-SE) - Como, não fechou? Está tudo fechadinho. Mesma camiseta, mesma calça, mesma faixa...
REGINA - E os santos?
OUTRA (MOSTRANDO AS CORRENTES NO PESCOÇO, SOB A CAMISETA) - Está tudo aqui. São Jorge, São Judas Tadeu, São Benedito goleador... E você?
REGINA - Tudo fechado, minha filha. (ABRE UM SACO E MOSTRA) Cordão de Santa Efigênia com três nós, colar de 17 conchas, cruz de carvalho amarrada com linha preta... Mesma camiseta, mesma calça, mesma faixa, mesma calcinha...
OUTRA - Mesma calcinha?
AS DUAS FICAM SE OLHANDO POR UM TEMPO
REGINA - Você mudou a calcinha, Araci?
OUTRA - Mudei.
REGINA - Está explicado.
OUTRA - Eu ia ficar com a mesma calcinha, Jandira? Tem dó.
REGINA - Está aí. Mudou a calcinha - quatro a zero. Só podia ser.
OUTRA - Tinha que mudar a calcinha, não é, Jandira?
REGINA - Por quê? A higiene é mais importante do que o time, é? Precisava mudar de calcinha logo na boa fase? Olha aí, pessoal. Tá aqui a culpada. Levamo quatro por causa dela. Ela mudou a calcinha!
OUTRA - Ó Jandira!
REGINA - Culpa da dondoca aqui, ó.
REGINA COMEÇA A BATER NA OUTRA COM O CORDÃO DE SANTA EFIGÊNIA E O COLAR DE CONCHAS
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10:50 PM
by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
26/10/2003
O jogo do empurra
Um adolescente diz que apertou o gatilho, mas não tem culpa. A sociedade é que o agrediu desde o primeiro dia da sua complicada vida
Se tem um jogo que a gente aprende cedo é o jogo do empurra. O garotinho diz que não teve culpa de o gato se afogar, que o gato é que estava muito perto da piscina, e a babá diz que também não teve culpa, ela deixou o garoto sozinho no jardim para abrir a porta (tudo ela, tudo ela!), e a mãe do garoto diz que também não tem culpa, tem que trabalhar, confiava na babá, e o pai do garoto, que trouxe o gato pra casa, pergunta como é que ele ia saber que o gato era suicida? Pobre do gato, vamos todos dormir, ninguém tem culpa.
Tenho escutado o mais recente disco de Jack Johnson, um americano ainda não muito conhecido mas que faz um som totalmente anti-stress, e tem uma música que fala justamente sobre isso, sobre esse jogo do "não tenho nada a ver com isso" que a gente joga quando discute a violência urbana. Um adolescente diz que apertou o gatilho, mas não tem culpa, a sociedade é que sempre o agrediu desde que nasceu.
E o pai do adolescente diz que também não tem culpa, não foi ele que ensinou o filho a usar uma arma, o garoto aprende essas coisas vendo televisão, e o dono da emissora de tevê diz que ele também não pode ser culpado, não foi ele que inventou a violência, ele apenas deixa as câmeras apontadas para o que o povo quer ver, e quem faz a trilha sonora deste programa diz que é tudo entretenimento, não vai deixar a coisa estourar em cima dele.
É uma letra que poderíamos nós mesmos continuar a compor. O povo não tem culpa porque é vítima. O governo não tem culpa porque a população sonega impostos e não há dinheiro em caixa para investir em segurança. Deus tampouco tem culpa, não está envolvido, é apenas um observador, a gente que vá se entender com o demônio que existe dentro de cada um, este sim tem contas a acertar.
A música do Jack Johnson termina dizendo que a culpa é minha e é sua, que não há inocente nesta história, que todas as nossas mãozinhas estão sujas de sangue. Muito fácil dizer "não fui eu, não me culpe". Alguma culpa a gente há de ter: ou por ter sido conivente com algo que estava errado, ou por ter negado ajuda a quem precisava, ou por não ter denunciado um crime, ou por ter usado a violência como mote de uma campanha publicitária, ou por ter dado um revólver de brinquedo a um filho, ou por ter incentivado alguém a revidar, ou simplesmente por ter se abstido: tô fora!
Temos todos alguma coisa a ver com isso. Alguma coisa a ver com o que nos acontece em volta. Está todo mundo dentro.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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10:47 PM
by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
26/10/2003
Os que não gostam de livros
Nada de risos ou ironias. É o caso de se perguntar como o jovem leitor pode encontrar o caminho da emoção literária
Vocês imaginariam que uma publicação chamada The New York Times Book Review, que acontece ser o suplemente literário do influente jornal nova-iorquino, deveria defender o prestígio dos livros. Pois vocês imaginaram errado. Nem sempre essa é a regra. Num dos últimos números, uma articulista chamada Laura Miller dedica-se a nos provar que livro não é o bicho, ao contrário do que todo mundo pensa.
Acusa Laura: "O ato de ler tornou-se uma virtude em si própria, independente do livro lido". Com o que ela não concorda: "Deixar de fumar impedirá que você e as pessoas a seu redor adoeçam; perder peso melhora a suas chances de namorar; mas como, exatamente, a leitura beneficia uma pessoa?".
E continua: "Não vejo evidência de que ler nos faça bem. Alguns dos leitores mais vorazes que conheço são também as pessoas de pensamento mais rígido". E cita Ema Bovary, exemplo de como "a leitura desgasta o apetite pela vida". Poderia, entre parênteses, citar também Dom Quixote, cuja mente foi, segundo Cervantes, perturbada pela leitura dos livros de cavalaria. Ou ainda o Eclesiastes, que resmunga: "De muitos livros, não há fim".
Mas o que são Madame Bovary, Dom Quixote e a Bíblia - senão livros? Em outras palavras, Laura Miller só pôde falar mal dos livros porque ela própria leu livros. Mas não terminam aí as ironias. Na página seguinte à de seu artigo há um anúncio de uma livraria especializada em obras raras. Ali ficamos sabendo que uma segunda edição de Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, custa US$ 7 mil; uma coletânea autografada das obras de Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) vale US$ 16 mil. Ou seja: há pessoas querendo pagar fortunas por esse, em geral, modesto objeto chamado livro. Não sabemos se uma obra de Laura Miller, no futuro, alcançará tão altas cotações - mas, quem sabe?
Numa coisa Laura Miller tem razão. Citando o scholar Harold Bloom, ela nos diz que, ao fim e ao cabo, a principal razão para a leitura deveria ser o prazer. Sim, ler pode ser uma obrigação, sobretudo quando se trata de fazer um trabalho escolar.
Esses dias entrei, por acaso, num site chamado Sapo, especializado em acolher apelos patéticos de jovens que precisam entregar ditos trabalhos, porém mal sabem grafar nomes de autores e livros. Mayra precisa escrever sobre o Sargento de Milícias (sic), Vera quer informações sobre um tal Antero de Quintal (deve ser o quintal em que vive o Antero de Quental), Maísa quer saber mais sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas, acrescentando, "Ah, o autor é o Machado de Assis".
Não é o caso de rir, ou mesmo de sorrir, diante desta aflição. É, sim, o caso de se perguntar como o jovem leitor pode encontrar o caminho da emoção literária. E isto significa rever velhos conceitos e pensar na literatura como aquilo que ela realmente é: uma maneira de encantar, de dar prazer. Neste sentido, aliás, é admirável o trabalho que se faz em escolas do Estado, nas quais o componente prazeroso, lúdico até, da literatura é mobilizado - para alegria dos jovens leitores.
Não podemos ler tudo, não precisamos ler tudo. Francis Bacon, o grande ensaísta inglês do século 16, fazia uma analogia alimentar: "Alguns livros devem apenas ser provados; outros, engolidos de qualquer maneira; mas alguns são para ser saboreados". A vida nos ensina que livros se transformam em pratos preferidos. E, aqui vem o recado, muitos destes livros estarão na Feira que será aberta neste dia 31, tendo como patrono o Walter Galvani. Não tenhamos dúvida de que nossa feira será um banquete cultural com pratos para todos os gostos. É possível não gostar de livros nas páginas do New York Times. Duvido que o mesmo aconteça na Praça da Alfândega de 31 de outubro a 16 de novembro.
scliar@zerohora.com.br
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10:44 PM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
26/10/2003
Um bom hotel
A rede Sheraton de hotéis fez pesquisa entre mil hóspedes norte-americanos sobre os motivos que os levam a voltar ou não a um hotel.
Nada menos que 78% dos entrevistados responderam que os motivos que os levam a preferir um hotel estão relacionados com a cama.
Trinta e três por cento apontaram os travesseiros como a maior atração de um hotel. Já 23% apontaram a qualidade dos travesseiros como a causa principal de sua preferência.
E 22% não tiveram dúvida em escolher os lençóis como o motivo por que retornam a um hotel ou nunca mais aparecem lá.
Não sei qual foi a resposta dos restantes 12%. Mas eu estaria incluído entre eles: o que mais me atrai num hotel não está localizado no leito e sim no banheiro.
O melhor hotel para mim não é o de lençóis alvíssimos, de tecidos macios e suaves, ou de travesseiros de pena de ganso. Nem o de colchão confortável.
Pode ser até de três estrelas o melhor hotel para mim, desde que seu banheiro disponha de dois serviços que considero fundamentais: deve possuir uma banheira onde eu possa estender meu corpo durante umas duas horas, num banho de imersão, enquanto leio e vou distendendo os músculos na condição propícia para ser acometido de sono e só depois disso saltar para a cama.
E o segundo requisito que imponho a um bom hotel é o de que sua ducha seja potente e derrube sobre meu corpo fortes e largas rajadas de água, quase massageantes.
Não foram raras as ocasiões em que, antes de me hospedar, lógico que nas cidades onde havia várias alternativas para minha escolha, pedi à portaria que me permitisse testar a força do jato d'água do chuveiro, depois de obviamente ficar sabendo da existência da banheira.
Depois dessas duas exigências fundamentais, existem outros pequenos detalhes do apartamento ou do serviço que me levam a avaliar o hotel.
O quebra-luz da cabeceira, por exemplo, tem de ter luz abundante e dirigida para que eu possa ler com facilidade.
E o bufê do café da manhã tem de incluir dois itens que considero imprescindíveis: salame italiano e bacon.
Hotel que no desjejum substitui o salame italiano pela mortadela ou por outro salame eu considero de nítida qualidade inferior.
E pela freqüência com que são renovados no bufê os estoques de salame italiano eu desconfio que esta minha preferência é igual em quase todos os hóspedes,
Ah, ia me esquecendo: estão totalmente defasados em seus serviços os hotéis que insistem em servir por seus garçons o café, o leite ou o chocolate com leite.
Os hotéis mais modernos e mais espertos resolveram esta questão prescindindo sabiamente dos garçons só para isso: o hóspede se levanta e se dirige aos enormes bules térmicos de café e de leite, permanentemente aquecidos, que estão à sua disposição.
Com isso, evita-se o maior tormento do café da manhã nos hotéis que ainda insistem nesse obsoletismo: a demora irritante dos garçons em vir servir ou repor nas xícaras o café e o leite e a conseqüência fatal de serem servidos desoladamente frios.
Fora isso, clamaria também para que os tabletes de manteiga não se mostrassem tão petrificados pelo congelamento.
Como esfregar aquele pedaço de rocha no pão?
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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10:43 PM
by Cassiano Leonel Drum
Clima
Porto Alegre sob mau tempo
Uma tormenta tropical, com ventos que chegaram a 93km/h, atingiu a Capital na madrugada de sábado, derrubando árvores, fios elétricos e placas. Na foto, o rastro de destruição na Avenida Cavalhada, na zona sul da cidade (foto Carlinhos Rodrigues/ZH)
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9:57 AM
by Cassiano Leonel Drum
Ponto de vista: Stephen Kanitz
Estimulando a curiosidade
"O objetivo final de uma aula deveria ser formar futuros pesquisadores, e não decoradores da matéria"
Durante a estada de Richard Feynman no Brasil ¿ um dos poucos ganhadores do Prêmio Nobel que o Brasil pôde conhecer de perto ¿, os alunos pediram a ele que desse uma aula sobre nossos métodos de ensino na área da física. Feynman pegou cinco ou seis livros de física adotados pelo MEC naquela época e um mês depois disse que só daria aquela aula no último dia de sua permanência no país.
No dia fatídico, dezenas de professores de física se reuniram para ouvir sua palestra. Essa história é contada por ele no livro Deve Ser Brincadeira, Sr. Feynman.
Começou assim a palestra: "Triboluminescência, diz no livro de vocês, é a propriedade que certas substâncias possuem de emitir luz sob atrito". E mostrou como nossos livros apresentavam a matéria pronta, incentivavam a decoreba, eram essencialmente chatos e confusos. Isso foi escrito há trinta anos, mas, pelas queixas dos alunos, nossos livros de física não melhoraram tanto quanto deveriam.
Ilustração Ale Setti
Segundo Feynman, um livro americano abordaria a questão de forma um pouco diferente. "Pegue um torrão de açúcar e coloque-o no congelador. Acorde às 3 da manhã, vá até a cozinha e abra o congelador. Amasse o torrão de açúcar com um alicate e você verá um clarão azul. Isso se chama triboluminescência."
Não sei se ficou clara a diferença que Feynman tentava demonstrar, nem sei se os livros didáticos americanos continuam os mesmos, mas basicamente nossos métodos de ensino apresentam muita informação e teoria em vez de despertar a curiosidade.
Criamos alunos tão bem informados que no Brasil inteligência virou sinônimo de erudição. Inteligente é quem sabe muito, quem repete as teorias e conclusões dos outros. Um dia ele poderá até ter opinião própria, mas será difícil se ninguém estimular sua curiosidade.
Sem dúvida, toda sociedade precisa de pessoas eruditas, aquelas que sabem os caminhos que já foram percorridos. Erudição não mostra necessariamente inteligência, mas demonstra que a pessoa tem boa memória.
No mundo moderno, em constante mutação, inteligência quer dizer outra coisa. Significa enxergar o que os outros (ainda) não vêem. Isso é próprio de pessoas criativas, pesquisadoras, curiosas, exploradoras, que encontram soluções para os novos problemas que temos de enfrentar.
O método de ensino eficaz, segundo Feynman, deveria formar indivíduos curiosos. O objetivo final de uma aula teria de ser formar futuros pesquisadores, e não decoradores da matéria. O que mais o espantou é que nosso ensino de física e química é muito superior ao americano, algo que todo brasileiro já sabe. Mesmo assim, notou Feynman, o Brasil produz menos físicos e químicos que os Estados Unidos.
A hipótese que ele levanta é o método de ensino. Damos muita teoria e informação, mas ensinamos pouco como usar as informações aprendidas. Por sua vez, os americanos sabem e aprendem muito menos teoria, mas devotam mais tempo aprendendo como usar a informação apresentada, sob todos os ângulos.
Suspeito que essa seja a razão de nosso péssimo desempenho nos testes internacionais administrados pelo Programa Internacional de Avaliação Estudantil (Pisa), em que o Brasil aparece nas últimas colocações, inclusive em física. Os testes do Pisa enfatizam mais o uso da informação do que a lembrança da informação em si, algo em que o aluno brasileiro se destaca.
O certo seria, talvez, escrever livros "didáticos" menos didáticos e mais motivadores, que estimulassem a curiosidade e fossem mais relacionados com a vida futura de nossos alunos. Alguns dos livros que avaliei mal estimulam o aluno a virar a página para o próximo tópico, muito menos poderiam seduzi-lo a se dedicar ao assunto o resto da vida.
Vamos fazer um simples teste entre 1 000 alunos e descobrir quantos jogaram fora seus livros didáticos após a formatura e quantos os guardaram como o primeiro volume de uma grande biblioteca sobre o assunto. Isso nos diria quais os livros didáticos que de fato estimularam nossa curiosidade, o objetivo principal do ensino moderno.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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9:45 AM
by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
A boa surra americana
"O fato mais relevante para os iraquianos é o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor poderia ter acontecido a eles. Até a resistência contra os americanos é boa para o Iraque. É dali que surgirá sua nova classe dirigente"
Os iraquianos tiveram sorte. Só um presidente suicida como Bush poderia ter entrado numa guerra dessas. A guerra foi ruim para os americanos e boa para os iraquianos. Exatamente do mesmo jeito que a Guerra das Malvinas foi boa para os argentinos. Podem falar mal de Bush. Podem falar mal da Thatcher. Porcos imperialistas? Claro. Arrogantes? Certamente. Criminosos? E daí?
O que importa é que os Estados Unidos deram uma surra no Iraque, assim como a Inglaterra deu uma surra na Argentina. E, com a surra, Iraque e Argentina conseguiram enterrar suas sangrentas ditaduras militares. Ponto para Bush. Ponto para a Thatcher. Estátuas para eles. Estátuas em Bagdá e em Buenos Aires, não em Washington ou em Londres.
O argumento é um pouco simplista, concordo. Ignora o sofrimento de quem perdeu seus familiares. Ignora as mentiras de Bush. Ignora os interesses das companhias que financiaram sua campanha eleitoral. Considerando todos os fatores, porém, o fato mais relevante para os iraquianos é o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor poderia ter acontecido a eles. Até a resistência armada contra os americanos é boa para o Iraque. É dali que surgirá sua nova classe dirigente. Como na Argélia.
Cada recruta americano que morre sedimenta um pouco mais a nação. Espero que Bush seja reeleito e cumpra seu dever de reconstruir o que ajudou a destruir, ainda que isso aumente o buraco financeiro americano. O Partido Democrata é bastante ambíguo nesse ponto.
A maioria de seus deputados quer dar um calote no Iraque, embora quase todos tenham apoiado a guerra. Os eleitores não aceitam que o dinheiro de seus impostos seja aplicado em escolas e centrais elétricas de um país estrangeiro. Como assim? Destruíram? Agora reconstruam. Minha previsão é que Bush será reeleito no ano que vem e, por causa do elevado custo da aventura iraquiana, sairá da Casa Branca em 2008 como o presidente mais impopular da história.
É um mau momento para defender a agressão americana contra o Iraque. Fica cada dia mais fácil atacá-la. Don De Lillo é um bom exemplo disso. Ele é tido como um dos maiores escritores americanos da atualidade. Outro dia escreveu um artigo despretensioso em que recorda ter visto Ursula Andress numa rua de Roma, 25 anos atrás.
Lá pela metade do artigo, de passagem, como quem não quer nada, ele menciona a guerra do Iraque. Depois menciona outra vez. Depois menciona uma terceira vez. Não dá uma opinião sobre o assunto. Não estabelece um nexo direto entre os dois temas. Não é necessário. Basta mencionar a guerra do Iraque para seus leitores se sentirem plenamente recompensados.
É uma piscadela de olho para eles. É um truque, uma malandragem para mostrar que De Lillo respeita a seriedade de seus leitores, e que não esquece os grandes conflitos da humanidade mesmo quando trata de algo fútil como Ursula Andress. Pura demagogia literária. Se a guerra do Iraque se presta a esse tipo de recurso barato, é sinal de que Bush não tem mais a menor chance. Ele perdeu a guerra. Nada de estátua para ele. Nem em Bagdá, coitado.
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9:42 AM
by Cassiano Leonel Drum
Caro leitor,
aqui estão os destaques de VEJA desta semana.
Boa leitura e bom fim de semana.
Kátia Perin - VEJA on-line (veja@abril.com.br)
Especial
As pessoas já protestaram contra a vacina, a fluoretação da água, a pasteurização do leite, o bebê de proveta, a pílula anticoncepcional, a globalização e agora é a vez dos transgênicos. Nos últimos seta anos, os grãos geneticamente modificados vêm sendo cultivados em mais de 15 países. O Brasil é um deles, embora ainda não tenha tomado uma decisão oficial sobre o assunto.
Brasil
Há um ano, Lula venceu a eleição com um estilo "paz e amor", mas, nos bastidores, uma equipe do PT trabalhou noite e dia desencavando denúncias, dossiês, e promovendo blefes e negociações sigilosas para enfraquecer seus adversários.
Entrevista
Magoado com acusações de conflito de interesses, o marqueteiro de Lula, Duda Mendonça, anuncia que não renovará seu contrato com o PT.
Inglaterra
Carta guardada por ex-mordomo da princesa revela que ela temia um complô para envolvê-la em um acidente de carro. O motivo seria abrir caminho para Charles casar-se com Camilla Parker-Bowles.
Economia
Mesmo com a inflação domada, a popularidade de Lula e sua equipe caem enquanto a economia não mostra sinais do tão esperado "espetáculo do crescimento".
Mulheres
A Finlândia é o país onde mais mulheres ocupam altos cargos na burocracia interna. Em geral, mulheres em funções de tamanha responsabilidade costumam ser exceção mesmo em países de Primeiro Mundo. Na Finlândia é quase uma regra.
Saúde
Chega ao Brasil uma droga contra a osteoporose capaz de reconstituir parcialmente o tecido ósseo. O remédio chamado Fórteo consegue triplicar a ação das células construtoras dos ossos.
No site: leia mais sobre osteoporose.
Aviação
Com as vendas em baixa, empresa americana lança avião com tecnologia semelhante à da concorrente européia. O novo avião da Boeing é parecido com um modelo lançado pela Airbus em 1998.
No site: outras imagens do avião.
Automóveis
Um símbolo de luxo no passado, a marca Cadillac reencontra sucesso com uma nova geração de carrões esportivos.
No site: galeria de fotos com os novos modelos.
Tabagismo
O governo francês aumentou o preço dos cigarros em 20%. O reajuste é o segundo do ano e faz parte de uma campanha antitabagista no país. No Brasil, Ministério da Saúde lança imagens mais impactantes nos maços de cigarro.
No site: leia mais em VEJA Saúde.
Turismo
Hotéis confortáveis e preços mais baixos aumentam a popularidade do ecoturismo. O número de viajantes que trocam a cidade por uma temporada em ambiente rústico cresce 15% a cada ano desde 1998, o dobro da média do turismo convencional.
Educação
Universidades americanas investem em conforto e lazer para seus alunos. Algumas estão mais parecidas com resorts do que com locais de ensino.
Arquitetura
Com assinatura do arquiteto Frank Gehry e um investimento de 274 milhões de dólares, o Walt Disney Concert Hall é a aposta mais ambiciosa de Los Angeles ¿ musical e urbanística.
Estilo
Costanza Pascolato lança livro com dicas para quem sonha em ser modelo. Segundo ela, bom-humor e bom caráter são fundamentais. Cirurgias plásticas e estrelismo podem pôr tudo a perder.
Livros
A irlandesa Marian Keyes faz sucesso com suas protagonistas tão desestruturadas quanto divertidas. No livro Férias!, a protagonista Raquel é viciada em álcool e drogas e um dia resovle deixar Nova York para voltar à casa dos pais na Irlanda.
No site: leia trechos do livro.
Cinema
Em As Invasões Bárbaras, que estréia sexta-feira no país, o diretor canadense Denys Arcand retoma com brilhantismo os personagens de O Declínio do Império Americano. Os atores são os mesmos de dezessete anos atrás.
No site: assista ao trailer do filme.
Televisão
Delicada, talentosa e bonita, Mariana Ximenes, de 22 anos, alavanca a audiência da novela das seis na Globo, Chocolate com Pimenta.
No site: galeria de fotos com outros personagens da atriz.
Veja São Paulo
O francês imbatível
Laurent Suaudeau reabre seu restaurante, ganha sete prêmios em um mês e consagra-se como grande chef da cidade.
Veja Rio
Um espetáculo!
As coreografias acrobáticas do grupo Momix no Teatro Municipal, a abertura da mostra de decoração Casa Cor e o TIM Festival agitam a semana no Rio.
O conteúdo integral das revistas estará disponível
na internet a partir de sábado pela manhã
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9:17 AM
by Cassiano Leonel Drum
Mina dos manos
A apresentadora Diana Bouth veste a camisa do hip hop e produz festival do ritmo no verão
Clarissa Monteagudo
Estampa de números é mania dos adeptos do hip hop. A blusa decotada de Diana é da Thug 09 (R$ 35). Brincos da Shop 126 (R$ 72). Corrente Doc Dog (R$ 59) e cinto Tritton (R$ 25), na Index. A touca faz parte do guarda-roupa de Diana, que adora o acessório
Moradora do Leblon e apresentadora do canal por assinatura SporTV, Diana Bouth sabe que, se dependesse da certidão de nascimento, estaria mais para patricinha do que para perversa como são chamadas as mais apimentadas freqüentadoras da cena hip hop. Fui criada no iogurte. Não tenho idéia do que é passar fome ou perrengue. Como iria fazer rap?
Mas a adolescência em São Paulo e a amizade com Primo Preto ¿ meio-irmão de seu padrasto, o titã Branco Melo ¿ a levaram aos primeiros redutos do gênero na Rua Augusta, no Centro da capital. Foi hostess (recepcionista de boate) aos 13 anos, organizou prêmios dedicados ao hip hop paulista e, hoje, aos 23 anos, é sócia de Preto em uma produtora especializada no estilo, a RapSoulFunk.
No currículo, direção artística da festa Players, no Cais do Porto; produção do show de Marcelo D2 na Bunker e apresentações dos Racionais em Duque de Caxias e São Gonçalo. Quando o cara que contrata é boy (playboy) corro atrás de dinheiro, afinal o povo não vive de brisa. Mas se é na tangente (na camaradagem), digo pros mano: Cê cola lá na galera, faz uns grafite. Mas é nas quebrada (sem dinheiro). E o pessoal faz na boa, conta, incorporando gírias de rappers, grafiteiros, DJs e b-boys (dançarinos de break), que compõem a cultura hip hop e se apresentam juntos nos eventos do gênero.
Filha da atriz Ângela Figueiredo e ex-namorada do Falcão, do Rappa, Diana recusa o rótulo de executiva do hip hop: Sou da galera. Adoro dançar com os mano se divertindo em volta. E reconhece que seu jeitão gera desconfiança: Em São Paulo, sou a Dianinha, que cresceu no hip hop. Aqui, nêgo tem todo direito de pensar que sou a patricinha da Zona Sul metida a falar de rap.
Nos planos, produzir um festival com atrações internacionais no verão carioca. O hip hop tem história. Não vai ser só modismo, como axé. Diana, que hoje namora o DJ Saci, um dos expoentes do hip hop, admite que sofreu ao chegar ao Rio, em 1997. Vestia calça larga, corrente e boné. Já me apontaram em boate, diz ela, que encontrou sua turma na festa Zoeira, na Lapa, e nos bailes charm, em Marechal Hermes. Se produzisse dance, seria hipócrita. Faço o que me dá tesão, finaliza.
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8:59 AM
by Cassiano Leonel Drum
Lya Luft
25/10/2003
Para não dizer adeus (inédito)
1. Salto sem rede
Tatear no escuro:
novelo de reflexos, indagação
que se responde
e desafia
num espelho baço.
Não é a mim que vejo:
é ao outro, misto de incerteza
e esperança de que não seja
mais um rosto virado,
uma boca cerrada
- mais um desgosto.
Desejo,
sonho e medo,
o amor é salto sem rede
entre a razão e a magia.
2. Pedágio
A esperança me chama
e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas,
opto pelo imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.
Seja como for eu vou,
pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida
ou quase afogada,
mas não desisto.
A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.
lya.luft@zerohora.com.br
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8:57 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
25/10/2003
Desarmando a pobreza
Não resta dúvida de que é também elitista o Estatuto do Desarmamento quando fixa em R$ 300 o preço da taxa de registro da arma e em R$ 600 a taxa para o porte de arma.
Deve ser por um ano este preço. Em lugar algum vi publicado o prazo de valor desta taxa e renovação das licenças.
Para um revólver que custe R$ 600, se cobrará o mesmo preço por um ano de licença para portá-lo.
É o mesmo absurdo que comprar-se um carro por R$ 30 mil e ter-se de pagar os mesmos R$ 30 mil de IPVA.
Ou seja, só se encorajarão em tentar tirar um porte de arma os ricos. Quem for pobre ou de classe média baixa não terá recursos para obter o porte.
O próprio preço da taxa de registro da arma já é exagerado, ainda mais que terá de ser renovado, ao que tudo indica.
Além disso, há uma série de exigências para quem queira apenas manter em casa uma arma para sua segurança, senão concreta, pelo menos psicológica: entre elas o solicitante do registro terá de comprovar habilidade no manuseio da arma.
Ou seja, terá de ter diploma de curso de manejo de arma, o que, se sabe, também é de custo alto.
Isso estimulará que as pessoas tenham em casa armas que não serão adquiridas legalmente, fazendo crescer o comércio clandestino e o contrabando.
Examinando bem o estatuto, ele é uma fábrica de criminosos, ele cria novos tipos de delinqüentes, desde os que vão ter em suas casas ou portar armas ilegais, passando pelos que terão de receptar armas para possuí-las, até os comerciantes clandestinos e contrabandistas de armas.
Mas como o estatuto, em tudo, leva à dificultação das pessoas em terem armas em casa ou as portarem, justificando a expressão "desarmamento", vários estudiosos da segurança pública têm se manifestado no sentido de que aos delinqüentes, de agora em diante, será reduzida a dúvida sobre se há ou não armas nos lares que eventualmente atacarão.
Os bandidos, pela lei das probabilidades, ficarão mais tendentes a atacar as casas, onde os moradores foram tolhidos pela nova lei a adquirirem armas.
A grande finalidade do estatuto é a diminuição dos crimes por armas de fogo. Deus queira que seja atingido esse objetivo, mas o que se nota é que pouca gente acredita nisso.
Hoje à tarde, jogam em Salvador Bahia x Fluminense. Aparentemente, o melhor escore para o Grêmio é o empate. Um deles ou os dois são inimigos figadais do Grêmio no páreo do despencar para o rebaixamento.
Torce-se todo dia, em todo lugar, por todos os times
Que aflição!
Ontem estive em Sebastião do Caí, hoje à tarde estarei na Feira do Livro de Campo Bom, autografando O Melhor de Mim e batendo um papo com o alegre pessoal de lá.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:55 AM
by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
A escola que voltou a sorrir
Colégio Padre Balduíno Rambo, onde uma mãe foi surrada por alunos há um mês, vive clima de paz (foto Ronaldo Bernardi/ZH)
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Sexta-feira, Outubro 24, 2003
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8:17 PM
by Cassiano Leonel Drum
A medicina cria tratamento eficaz contra a doença do mau humor, problema que afeta cerca de 180 milhões de pessoas no mundo
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Frutos de relacionamentos que começaram via internet, eles fazem cinco anos e provam que namoro
virtual pode dar certo
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8:37 AM
by Cassiano Leonel Drum
Adolescentes só querem se divertir. Fato. Universitários fazem de tudo no campus, menos estudar. Fato. Festas regadas a drogas e alcool sempre rendem transas loucas e inconsequentes. Fato. Ter entre 18 e 23 anos em Hollywood é sempre festa, e filmes com este tipo de contexto invadem os cinemas periodicamente, e na maioria das vezes criativos e reflexivos como um copo dágua.
Nem sempre, ainda bem! Regras da Atração chega para detonar esse contexto ao mostrar jovens vazios e inexpressivos, que buscam o amor nas formas mais variadas e claro, só querem se divertir. O que difere este filme dos outros então? Hmmm... A embalagem pop e indie?
O cara-de-bonzinho-eterno-Dawson James Van Der Beek é Sean, o bonitão mais-que-desejado e traficante nas horas vagas que já transou com quase todas as meninas do campus mas nào consegue encontrar aquela ideal. Até começar a receber cartas de uma admiradora secreta e se apaixonar por Lauren (Shannyn Sossamon de Coração de Cavaleiro) imaginando ser ela a autora.
Lauren por sua vez é virgem e sonha se entregar ao cara que considera o mais bacana e sensível, Victor - que na verdade não passa de um mauricinho vazio que mal percebe sua presença. História de adolescente pra dar certo deve ter triângulo amoroso, certo? OK! Fechamos então com Paul, rapaz inteligente, lascivo, cínico e sensual, apaixonado por Sean. E tem a tal admiradora secreta, o professor sedutor, as orgias, festas que parecem nunca ter fim (imagine: há a festa da véspera da festa de sábado!). Todos buscam o amor, mas se entregam às pessoas erradas.
E neste processo se ferem e ferem os que o cercam. Tentando responder à pergunta lá em cima: De inicio, a ótima escolha do elenco seguido dos ótimos truqes de montagem. Para dar um clima mais que excêntrico, a fita é rebobinada lentamente, até que o diretor encaixe os personagens em situações em que possam ser iniciadas suas histórias, quando todos estão no mesmo ambiente. A trilha sonora é um show à parte e outro ponto forte são as cenas que, normalmente, não vimos em filmes comuns - como o mocinho sentado e se limpando na privada, se masturbando ou cutucando o nariz.
E sacadas bacanas recheiam a história com algumas deliciosas surpresinhas. Por exemplo: Num dado momento, quando tudo parece ter dado errado para um personagem, um floco de neve cai em seu rosto e começa a se derreter, simulando uma lágrima.
Noutro, a tela é dividida ao meio para mostrar, sob angulos diferentes, o encontro de dois personagens - a medida em que eles se aproximam a tela vai se abrindo e as imagens se fundem, ficando os dois frente a frente. e há ainda uma das melhores cenas do filme, onde uma viagem de algumas semanas é contada em alguns minutos, transformando a cena praticamente num curta dentro do longa - Fantástico!
Não, ainda não é este o filme que vai derrubar o primeiro lugar ocupado por Trainspotting, tratando-se de filmes pop que envolvem a receita jovens+sexo+festas+drogas, mas ocupa o segundo lugar, deixando para trás similares como Vamos nessa! e Corra Lola, Corra!
O melhor filme do ano, até agora.
Fabriccio Marcio
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8:18 AM
by Cassiano Leonel Drum
Até que é bom ser enganado
Os Vigaristas passa a perna no espectador com classe e ótima interpretação de Nicolas Cage
André Gomes
Obsessivo-compulsivo, agorafóbico, fumante descontrolado e dependente de comprimidos para ter convívio social aceitável, Roy é um personagem perigoso. Pode cair na caricatura dependendo do intérprete. Nas mãos de Nicolas Cage, entretanto, é o que torna Os Vigaristas (Matchstick Men) entretenimento altamente recomendável. Oscar de melhor ator por Despedida em Las Vegas, Cage vinha mesmo merecendo novo tipo que explicitasse seu talento. Recebe-o através de Ridley Scott, que dirige o filme escrito por Ted e Nicholas Griffin. Não vale contar o fim, ok, mas dizer que é filme com surpresa no encerramento não faz mal.
O longa mais um a procurar espaço entre tantas outras histórias de trapaceiros começa mostrando ao espectador o cotidiano sórdido de Roy e Frank (o ótimo Sam Rockwell). Eles ¿vendem¿ sistemas de filtragem de água para pessoas inocentes que pagam 10 vezes o valor do produto graças à promessa de ganhar prêmios.
Entre um e outro negócio, Roy volta e meia sofre com sua mania de limpeza, em cenas que divertem apesar do caráter penoso da doença. Ridley Scott deita e rola ao mostrar com ângulos e cortes engenhosos como o mundo de Roy se distorce pela simples abertura de portas de varanda numa casa alheia. Faz com que a platéia partilhe do olhar apavorado de Roy quando o assunto é sujeira.
O cara vê seu cotidiano mudar quando descobre ter uma filha adolescente (Alison Lohman), garota de esperteza proporcional ao caráter duvidoso. Seguem-se cenas de cotidiano feliz entre pai e filha e o aconchego da vida familiar inédita faz de Roy um sujeito mais animado, capaz até de ensinar truques de picaretagem à tal filha sem, contudo, querer que ela veja em sua carreira um modelo a seguir. Mas o mundo do vigarista profissional será tomado por uma reviravolta que aborrecerá toda a audiência. No fim tem lição de moral, mas nem dá para fazer cara feia. Os Vigaristas passa a perna no espectador e não há mal nenhum nisso.
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8:11 AM
by Cassiano Leonel Drum
Malucos desde o início
Depois de se despedir da TV, série Os Normais estréia no cinema mantendo o humor escrachado
Rubia Mazzini
Foram três temporadas, 71 episódios e uma infinidade de situações hilariantes protagonizadas pelos eternos noivos Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres). Com o fim da carreira televisiva de Os Normais, chegou a hora de os personagens criados por Fernanda Young e Alexandre Machado brilharem no cinema. Os Normais O Filme estréia hoje, trazendo o humor escrachado, picante e politicamente incorreto com o qual a série conquistou uma legião de fãs País afora.
Dirigido por José Alvarenga Jr., o mesmo do programa e de títulos como Os Heróis Trapalhões e Zoando na TV, o longa-metragem encerra o projeto, que já rendeu um livro, dois DVDs e até uma linha de lingerie, com graça competência.
Ainda que não apresente grandes novidades, a produção deve entreter o público, especialmente aquele que acompanhou a trajetória de Os Normais, ao mostrar como o casal se conheceu e se apaixonou em poucas horas. A trama inicia na manhã seguinte aos casamentos de Rui e Marta (Marisa Orth) e de Vani e Sérgio (Evandro Mesquita), na mesma igreja. A essa altura, os protagonistas já descobriram que seus respectivos parceiros não prestam e decidem anular seus matrimônios.
Começa então um miniflashback gigante¿ que levará a platéia de volta à noite anterior. Vani acaba de dizer sim ao malandro-otário Sérgio quando descobre que foi traída. Descontrolada, decide transar com o primeiro homem que encontrar. Está na rua, vestida de noiva, quando chegam os também recém-casados Rui e Marta, que moram no prédio em frente.
A empatia entre Rui e Vani é imediata, mas a tirânica Marta não acha graça quando vê sua casa servir de abrigo para a vizinha. O que acontece daí em diante é uma sucessão de piadas sobre tamanhos de pênis, menstruação e outras escatologias, que culmina com brigas e o inevitável final feliz, pelo menos para Rui e Vani, conhecido de antemão pelo público.
A produção foi rodada em janeiro, com orçamento em torno de R$ 2,2 milhões ¿ o diretor não revela o montante total, já que usou a infra-estrutura da TV Globo e, segundo ele, isso significaria custo zero. A maior parte das cenas foi fabricada nos estúdios da emissora, o que confere ao filme um ar de comédia romântica televisiva e ao mesmo tempo faz lembrar produções americanas antigas. No fim, Os Normais O Filme é diversão das boas, mas supernormal.
RIR É NORMAL
A diversão começa com a música-tema do filme, Crazy Xéven, cantada em inglês embromation por Abdullah. A seqüência que mostra Vani e Sérgio saindo da igreja de carruagem e enfrentando um engarrafamento em pleno centro da cidade rende boas gargalhadas. Rui tem seu primeiro bom momento quando estapeia uma convidada que não pára de chorar, em plena igreja.
Outra boa sacada é a projeção de fotos bem íntimas de Vani, que Sérgio projeta na parede da sala dos vizinhos só para constranger a mulher. Já na reta final da comédia, quando Rui vai em casa buscar um presente para Vani, a idéia de usar carrinhos de brinquedo para mostrar a correria do personagem dá charme extra à produção.
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8:00 AM
by Cassiano Leonel Drum
Jaime Cimenti
24/10/2003
Onze histórias de suspense jurídico
Se, como dizem muitos, todo mundo odeia tanto os advogados, por que será que os livros sobre eles são tão vendidos e os filmes baseados em tais obras fazem tanto sucesso? Advogados tornaram-se assunto de piadas, coberturas jornalísticas e personagens de filmes de grande sucesso como O Cliente, por exemplo. Em Contos Legais, volume organizado pelo romancista William Bernhardt, figuram onze histórias de suspense jurídico, ou, em inglês, legal thrillers.
John Grisham, o papa na matéria, comparece com O Aniversário, um pequeno, mas denso conto de quatro páginas, em que revela qualidades literárias desconhecidas. Jay Brandon, Philip Friedman, Jeremiah Healy, Michael Kahn, Phillip Margolin, Steve Martini, Richard North Patterson, Lisa Scottoline e Grif Stockley são os outro nove coautores da antologia, que conta com um trabalho do organizador.
A leitura das histórias demonstra, através das tramas e das personagens, o mundo de relacionamentos complexos em que vivemos e como as disputas vão sendo dirimidas.
Antigamente as igrejas, as comunidades e as famílias mediavam boa parte dos conflitos. Hoje boa parte das pessoas quer mais é processar e, se possível, ganhar algum dinheiro. As histórias da antologia, como era de se esperar, não colocam a culpa só nos advogados, nos promotores ou nos juízes pelo que acontece por aí. Os casos judiciais nascem e se desenvolvem por múltiplas vontades e por causas diversas.
Dilemas morais, problemas psicológicos, dificuldades pessoais e financeiras e o dia-a-dia, notadamente das grandes cidades, dos escritórios de advogados, certamente fornecem e fornecerão material para muitos romances, contos e crônicas.
Que certamente os leitores gostarão de ler, quando forem bem escritos como os de Contos Legais, 340 páginas, Editora Rocco, fone 3223 7363.
DICA
Acabei de ler Budapeste, de Chico Buarque de Holanda. Já admirava o autor como rimador musical, mas realmente fui surpreendido por sua inventividade autoral, especialmente pelos detalhes que oferece sobre a capital húngara, sem ter conhecido a cidade.
Lançamentos
O Quieto Animal da Esquina, de João Gilberto Noll, é o chamado ¿romance de deformação¿. O protagonista-narrador é um pobre e anônimo poeta, um ¿animal calado¿ que escreve uns versos enquanto procura emprego e um lugar na vida e no mundo. Seu pai abandonou a família e ele vive com a mãe num prédio semi-abandonado do subúrbio de Porto Alegre. Mas aí acontece um crime, a prisão e a adoção por uma família de alemães. E muito mais. 96 páginas, W11 Editores, fone 11-3812-3812.
Palavra de Mulher apresenta entrevistas de Adélia Prado, Lya Luft, Ana Miranda, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Ana Maria Martins, Márcia Denser e outras, concedidas ao jornalista e poeta Álvaro Alves de Faria entre 1998 e 2002. Os depoimentos vão bem além da literatura. 270 páginas, R$ 35,00. Senac-São Paulo, fone 32111445.
A Jangada, de Júlio Verne, é a primeira edição completa e ilustrada do romance ambientado na Amazônia, que foi publicado originalmente em l881. Verne nunca esteve na Amazônia. A história trata da viagem de um próspero fazendeiro de Iquitos. Ele quer chegar em Belém para casar a filha Minha, mas há outras coisas envolvidas, como roubo de diamantes e tal. 372 páginas, Editora Planeta, fone 55-11-5095-7893.
O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, faz parte da Coleção Clássicos de Ouro e narra a conhecida e trágica história da paixão impossível do misterioso padre Cláudio Frollo e do sineiro corcunda Quasímodo pela cigana Esmeralda. Texto integral, sem adaptações. Tradução de Uliano Tevoniuk, 528 páginas, R$ 59,00. Ediouro, fone 3223 6622.
e palavras...
Feira dos Leitores
Em l969 eu estava na quarta série, no Julinho, tinha 15. Uma tarde, no recreio, ao invés do cachorro-quente e do refri, preferi a biblioteca. Peguei um livro, A trilha da caverna esquecida, comecei a ler. Literatura infanto-juvenil, tratava de jovens se aventurando. Me envolvi tanto com a história que, quando me dei conta, o recreio já tinha terminado há horas. Saí voando, os corredores estavam vazios. A professora perguntou sobre o atraso. Disse para ela que estava na biblioteca lendo um ótimo livro. Minha cara de satisfação fez ela apenas dizer que não deveria repetir a façanha.
Lembro dessa historinha quando começa mais uma Feira do Livro, que para mim, este ano e nos próximos, poderia se chamar Feira do Leitor ou Feira da Leitura. Livro sem leitor é tesouro enterrado no fundo do mar. Pode ser rico, bonito, brilhante, mas sem leitor é nada. Está perfeito o lema da Feira: o que seria dos livros sem você. Espero que nesta Feira as mídias impressa, eletrônica, radiofônica e televisada abram mais espaço para os leitores. São eles que compram, acariciam, lêem, comentam e divulgam os livros.
Escritores, editores, distribuidores, professores, jornalistas e livreiros devem figurar, claro, nas coberturas de imprensa da Feira, que, mais uma vez, deverão ser de dimensões oceânicas. Mas quero propor que neste ano a presença do leitor seja maior. Gostaria de saber o que os leitores acham de tudo, gostaria de ouvir histórias de leitura e também de saber o que eles mais apreciam e detestam. Fala leitor!! Parla!! Exercita teus direitos, ajuda a Feira a ser ainda maior, melhor e mais tua.
Como é ímpossível citar os milhões de leitores, quero aqui homenagear um dos maiores deles. Foi um dos fundadores da Feira do Livro e um leitor absolutamente especial: Maurício Rosenblatt. Um dia, na Feira, perguntei se ele era um Dom Quixote. Humilde, bem-humorado, disse que não, que estava mais para Sancho Pança. Grande Seu Maurício!!!
E-mail: jcimenti@zaz.com.br
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7:56 AM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
24/10/2003
O vento norte
Quando sopra o vento norte, alguém vai se matar em Encantado. Ouvi algumas vezes essa frase, quando fui visitar aquela cidade do Vale do Taquari, dias atrás. Pudera. Fatos sinistros têm ocorrido em Encantado. Sobretudo no inverno.
Numa manhã fria porém clara do último inverno, por exemplo, uma agricultora de 55 anos, mãe de cinco filhos, entrou no galpão dos fundos de sua casa levando na mão uma pequena foice de cortar pasto. Mourejava de sol a sol, essa mulher, e na dura lide do campo, típica da pequena localidade rural onde vivia. Naquela manhã, estava sozinha.
Foi em solitário silêncio que cometeu um tipo incomum de suicídio: cortou a garganta de orelha a orelha, e o fez com tanta violência que chocou o médico chamado pela família logo depois. Tamanha a força empregada na própria degola que a cabeça lhe ficou pendente às costas, presa apenas por uma estreita tira de pele da nuca.
Foi o terceiro suicídio registrado no mesmo lugarejo, no mesmo inverno. A freqüência dos suicídios em Encantado preocupa o vice-prefeito Sérgio Goldoni, que também é médico. Ele vai sugerir à Secretaria da Saúde local que faça um estudo científico sobre o assunto.
Quem conhece Encantado custa a crer. As coisas estão todas bem-postas, naquele lugar. Ruas limpas e calmas, casario típico da colonização italiana, Encantado bordeja o bucólico. Ali na esquina há um café do qual a dona vez em quando se ausenta, a freguesia vai entrando, serve-se no balcão. Provei uma torta de avelã que se desmanchava ao contato com o céu da boca, penso nela e a nostalgia faz brotar-me água dos carrinhos.
Os 18 mil habitantes da cidade são netos e bisnetos de italianos, comprazem-se com queijos olorosos, massas tingidas de molho vermelho e vinhos encorpados. O desemprego remonta a quase nada e latrocínio é palavra desconhecida pelo revisor do jornal local.
Por que as pessoas se matam em Encantado? Não será talvez porque naquele pequeno paraíso de origem italiana a vida oferece poucos riscos? Os desafios da vida, seus perigos todos, são eles, afinal, que motivam o homem, não é? O fora da namorada, o emprego perdido, cada vicissitude diária, por dolorosa que seja, é o que movimenta a existência, é o que faz palpitar o coração. Mas, puxa, eu não acharia ruim descansar de toda essa emoção sentado pachorrentamente num café de Encantado, diante de um naco generoso e macio daquela saudosa torta de avelã.
david.coimbra@zerohora.com.br
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Posted
7:54 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
24/10/2003
Crime inventado
Não sou contra nem a favor do Estatuto do Desarmamento. Esta é uma daquelas chatas questões em que os dois lados têm razão.
Mas sou visceralmente contra o principal dispositivo do Estatuto do Desarmamento: o que torna inafiançável o porte de arma ilegal.
Pela simples questão de que uma pessoa anda armada por apenas dois motivos: 1) para praticar crime; 2) para defender-se de criminosos ou agressores.
Quem anda armado para praticar crime é criminoso em potencial. Quem anda armado para defender-se de crime ou de agressão é simplesmente uma pessoa que se aparelha para a eventualidade ou iminência de um acontecimento adverso.
Ao tornar o porte de arma ilegal um crime inafiançável (isto quer dizer que o acusado irá direto para a cadeia), o Estatuto do Desarmamento vai simplesmente igualar os dois tipos que andam armados, a mesma pena sofrerão a pessoa que se arma para cometer crime, presa antes de cometê-lo, e a outra que se arma para se defender.
Isto é uma brutal injustiça. E uma desgraçada desumanidade.
Milhões de brasileiros serão recolhidos imediatamente às celas da prisões, sem direito a fiança, simplesmente por portarem armas sem autorização.
Isto não é crime, isto foi e sempre será, em qualquer sociedade civilizada, um subdelito, o que nós chamamos de contravenção.
Como é então que vai se jogar no fundo da prisão uma pessoa pelo simples fato de que ela está armada?
A grande maioria das pessoas que se arma está tomando esta atitude porque se sente em perigo no seu meio social.
Tornar inafiançável o porte de arma ilegal é o mesmo absurdo que penalizar-se com o mesmo castigo usuários de drogas e traficantes.
Vai se criar um exagero curioso e desumano: aquele cidadão que não for criminoso e tiver sido apanhado com uma arma, sem porte legal, será imediatamente recolhido à cadeia.
Lá na cadeia ele se juntará imediatamente aos outros presos por assaltos e homicídios, exatamente aquele tipo de gente contra o qual pretendia defender-se ao andar armado.
Vai ser um massacre. O mesmo que entregar um gato a um grupo de pitbulls.
Quando a estupidez se torna oficial e estatal, estamos diante do caos intelectual de uma nação.
Além disso, é horripilante a facilidade com que os nossos deputados e senadores criam leis que tornam os crimes inafiançáveis, ou qualificados, ou hediondos.
Aprovam leis sobre leis, criando crimes ou agravando de penas os já existentes.
Em nenhum momento, os nossos legisladores se perguntam se haverá vagas nas cadeias para abrigar os que vão incorrer nos novos ou agravados tipos penais. É por isto exatamente que metade dos assaltantes presos está em liberdade provisória.
Isto é de uma dolorosa e gritante irresponsabilidade.
Nunca foi crime portar arma ilegalmente. Nunca foi. Isso é contravenção, com direito a fiança. Torná-la crime inafiançável é que é crime.
Que sofrimento! Mas no fim outra grande vitória do Grêmio. Já são 11 pontos ganhos em 15 disputados.
Se mantiver esta média, salva-se do rebaixamento.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:52 AM
by Cassiano Leonel Drum
Grêmio
Vitória na raça
Christian abriu o caminho da vitória de 2 a 1 sobre o Juventude, em Caxias, que aumenta a esperança da torcida gremista (foto Valdir Friolin/ZH)
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Quinta-feira, Outubro 23, 2003
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8:12 AM
by Cassiano Leonel Drum
Greve termina e Caixa retoma o atendimento
Funcionários garantem reajuste de 12,6%
As agências da Caixa Econômica Federal retomam hoje o atendimento à população, após nove dias de greve. O fim da paralisação foi decidido ontem à noite, em assembléias pelo País. A greve atingiu 22 capitais e causou prejuízo de pelo menos R$ 200 milhões à Caixa. São Paulo, o único estado a rejeitar a proposta, fará nova assembléia hoje.
O fim do movimento foi possível graças à nova proposta apresentada ontem pela instituição. O banco ofereceu 12,6% de reajuste sobre o salário-base, 10% para cargos técnicos e 5% para as funções gerenciais. Manteve o abono de R$ 1.500, pago em até 10 dias após o acordo, e tíquete-refeição de R$ 11,67 ¿ o mesmo valor dado aos colegas do setor privado. A cesta-alimentação aumentou de R$ 80 para R$ 100, e os empregados terão direito à Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de 80% sobre o salário, mais fixo de R$ 650.
Não é o acordo dos sonhos, mas a Caixa abriu espaço para a negociação de cláusulas específicas, como o plano de cargos, analisou Enilson Nascimento, diretor do Sindicato dos Bancários do Rio. A Caixa garantiu que não vai descontar os dias parados.
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8:04 AM
by Cassiano Leonel Drum
Histórias para contar
Paralamas do Sucesso têm história de 21 anos de banda registrada em livro e preparam DVD com clipes
Eusébio Galvão
São 21 anos de banda completados anteontem e Os Paralamas do Sucesso estão aí. A turnê do álbum Longo Caminho já contabiliza 80 shows, eles preparam um DVD com os clipes da banda e ainda vai rolar um disco ao vivo cheio de convidados. Não bastasse, toda a trajetória virou livro: Os Paralamas do Sucesso: Vamo Batê Lata (Ed. 34, 352 págs., R$ 39, lançamento oficial dia 10 de novembro, no Cais do Oriente), do jornalista Jamari França.
Isto não estava no nosso alcance. No começo, o que a gente queria era tocar no Circo Voador e ter uma música independente no programa do Maurício Valladares, da Fluminense FM. Se ver vinte e poucos anos depois num livro é estranho, admite Herbert Vianna, guitarra e vocal. A gente não esperava nem gravar disco, emenda o baixista Bi Ribeiro.
De certa forma, o livro serve para o próprio trio lembrar de algumas coisas. Não adianta perguntar muito, a pessoa mais indicada para contar é mesmo o Jamari, diz o baterista João Barone. Dá para perceber pelos depoimentos deles ao jornalista, com versões diferentes para alguns casos. Provoca um sorriso malandro na banda o fato de que algumas histórias do passado tenham se tornado públicas, como o Carnaval em que Herbert, um tanto embriagado, pôs-se a correr pelado pelas ruas de Mendes, interior do Estado. Só não sei se as piadas internas terão graça para as pessoas, despista Barone.
Para quem não imaginava gravar um álbum, até que a coisa rendeu. Foram 13 deles e os Paralamas se tornaram uma das maiores bandas do país. Amanhã e depois, fazem, pela primeira vez, shows na Fundição Progresso, vizinha do tão querido Circo Voador. Ali sempre tem um clima bom, a Lapa é ótima, acredita Bi. É o berço do samba e do rock, acrescenta Barone.
No show, tudo chuchu beleza. Depois de quase um ano de estrada, a ficha da volta de Herbert aos palcos caiu de vez. A gente tinha certeza de que ele voltaria, mas realizar isso foi outra coisa, recorda Bi. O primeiro show, na terra do Herbert (João Pessoa, PB) foi especial. E no começo a gente ainda não sabia se ele ia esquecer coisas, admite Barone. Acho que a ansiedade que a gente tinha de ver o público de novo era de mão dupla. O entusiasmo, a intensidade de reação, diz Herbert.
E se havia dúvidas quanto às memórias do cara, essas foram dissipadas. Nos shows, o bis é meio roleta-russa, diz Bi. Geralmente o Herbert desencava umas coisas. Dia desses a gente tocou Vovó Ondina é Gente Fina e Química, continua. Haja memória para lembrar tanta música. A gente combina pelo menos o começo, para não errar. O resto é jazz, diverte-se Barone.
Enquanto planejam o novo ciclo de 20 anos, como diz Herbert, os Paralamas repassam o passado. Dia 14 gravam um show em São Paulo para virar CD e DVD em 2004, com participações de Djavan, Frejat, Gil, Edgar Scandurra, Dado Villa-Lobos, Andreas Kisser e Nando Reis. E o DVD de clipes está quase pronto. Só falta um clipe obscuro de Meu Erro que nós não temos. Pedimos até ajuda aos fãs. No site (http://www.osparalamasdosucesso.com.br) eles descobrem como ajudar, diz Bi.
Músicas novas agora, só a partir do meio do ano. É quando vamos parar. O Herbert tem várias músicas novas, mas ainda não ensaiamos, conta Barone. Não temos nada muito orgânico, diz Herbert. O caminho é longo e ainda continua.
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7:58 AM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
23/10/2003
Uma modesta proposta
O Brasil já fez reforma agrária - dos outros. Muitos dos imigrantes que vieram no século 19 estavam, nos seus países, na mesma situação dos atuais sem-terra no Brasil. Eram os excedentes de uma estrutura fundiária perversa sem uma estrutura industrial que os absorvesse. Itália, Alemanha etc., fizeram a sua reforma com a nossa terra, mas não podemos esperar que nos devolvam o favor. Não existem outros brasis no mundo para receber os sem-terra, já que este está ocupado.
Se houvesse, poderíamos incluí-los na nossa pauta de exportações. Depois dos ciclos do café etc., o ciclo dos desesperados. Só teríamos que cuidar para que este ciclo não repetisse os outros.
Fomos os maiores produtores de açúcar do mundo. Não somos mais. O que sobrou do ciclo do açúcar foram usineiros vivendo até hoje de subsídios, mas não exportando açúcar. Já produzimos borracha como ninguém. Não produzimos mais. Depois veio o café. Abastecíamos o mundo inteiro de café, sem concorrência. Isso também acabou. Depois veio a bossa nova. Dominamos o mercado mundial até os bateristas americanos aprenderem a batida. Hoje não precisam mais de nós.
A lambada parecia que ia nos redimir. Os franceses a encamparam, depois a esqueceram. Hoje exportamos jogadores de futebol, modelos gaúchas e soja. Poderíamos exportar desesperados. A produção não pára de crescer. Mas como não há mercado para eles, deveria pensar-se numa alternativa mais radical.
Há uns 300 anos, o escritor Jonathan Swift sugeriu aos irlandeses que comessem seus bebês. Ajudaria a diminuir a fome e ao mesmo tempo resolveria o problema da superpopulação no país. No mesmo espírito, e já que a nossa estrutura fundiária não só não muda como partiu para o revide com cobertura da Justiça, no campo eles são supérfluos e na cidade eles não têm empregos e não há outra saída, os sem-terra deveriam ser convencidos a se suicidar. O suicídio coletivo seria um gesto patriótico que daria paz aos campos, sossego aos latifundiários e alívio ao governo. E, ainda por cima, um pedaço de terra para cada um.
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7:55 AM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
23/10/2003
Uma modesta proposta
O Brasil já fez reforma agrária - dos outros. Muitos dos imigrantes que vieram no século 19 estavam, nos seus países, na mesma situação dos atuais sem-terra no Brasil. Eram os excedentes de uma estrutura fundiária perversa sem uma estrutura industrial que os absorvesse. Itália, Alemanha etc., fizeram a sua reforma com a nossa terra, mas não podemos esperar que nos devolvam o favor. Não existem outros brasis no mundo para receber os sem-terra, já que este está ocupado. Se houvesse, poderíamos incluí-los na nossa pauta de exportações. Depois dos ciclos do café etc., o ciclo dos desesperados. Só teríamos que cuidar para que este ciclo não repetisse os outros.
Fomos os maiores produtores de açúcar do mundo. Não somos mais. O que sobrou do ciclo do açúcar foram usineiros vivendo até hoje de subsídios, mas não exportando açúcar. Já produzimos borracha como ninguém. Não produzimos mais. Depois veio o café. Abastecíamos o mundo inteiro de café, sem concorrência. Isso também acabou. Depois veio a bossa nova. Dominamos o mercado mundial até os bateristas americanos aprenderem a batida. Hoje não precisam mais de nós. A lambada parecia que ia nos redimir. Os franceses a encamparam, depois a esqueceram. Hoje exportamos jogadores de futebol, modelos gaúchas e soja. Poderíamos exportar desesperados. A produção não pára de crescer. Mas como não há mercado para eles, deveria pensar-se numa alternativa mais radical.
Há uns 300 anos, o escritor Jonathan Swift sugeriu aos irlandeses que comessem seus bebês. Ajudaria a diminuir a fome e ao mesmo tempo resolveria o problema da superpopulação no país. No mesmo espírito, e já que a nossa estrutura fundiária não só não muda como partiu para o revide com cobertura da Justiça, no campo eles são supérfluos e na cidade eles não têm empregos e não há outra saída, os sem-terra deveriam ser convencidos a se suicidar. O suicídio coletivo seria um gesto patriótico que daria paz aos campos, sossego aos latifundiários e alívio ao governo. E, ainda por cima, um pedaço de terra para cada um.
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7:53 AM
by Cassiano Leonel Drum
Nilson Souza
23/10/2003
A mãe do mágico
Um homem passou 44 dias dentro de uma caixa envidraçada, pendurado às margens do Rio Tâmisa, em Londres. A proeza foi realizada pelo ilusionista norte-americano David Blaine, que não se alimentou durante o tempo em que esteve exposto à curiosidade alheia e à cobertura permanente da mídia. Saiu de lá vivo, mas perdeu 20 quilos, ficou desidratado e com problemas de visão. Diante do inusitado fato, uma pergunta se impõe:
- Para quê?
Para aparecer, evidentemente. Blaine, que é hábil com um baralho nas mãos e já andou até levitando diante de uma câmera de televisão, gosta de protagonizar excentricidades. Outro dia passou não sei quantas horas de pé no alto de um poste, para provar sua capacidade de autocontrole. Também ficou 61 horas dentro de um bloco de gelo e uma semana num caixão. O mais curioso é que sempre tem público para vê-lo.
Somos atraídos por maluquices. O livro dos recordes mundiais documenta bem isso. Lá estão os registros de façanhas esportivas e conquistas profissionais que enaltecem o ser humano, mas também aberrações constrangedoras e absurdos, como o da tailandesa que passou 32 dias e 32 noites num cubículo com mais de 3 mil escorpiões. E ainda achamos que os bichos é que são esquisitos!
Tem gente que se destaca por suas virtudes - e nem faz muito esforço para isso. Essas pessoas acabam sendo reconhecidas naturalmente por seus semelhantes. Há também os indivíduos que têm consciência do próprio talento e fazem o possível para mostrá-lo. Esses também ganham aplausos, a não ser quando colocam a vaidade acima da inteligência. O problema é que muitas pessoas, mesmo desprovidas de qualquer dom, não se conformam em ser mais um na multidão. E aí se lançam a extravagâncias, algumas inclusive com riscos para a saúde, que acabam servindo de mau exemplo para os imitadores.
Ah, sim, pois da mesma forma como tem público para tudo, também tem sempre alguém para querer fazer o mesmo. Não duvido de que já tenha algum Blaine brasileiro pensando onde vai pendurar a sua caixa de vidro.
A propósito, li que o mágico norte-americano levou para dentro da sua gaiola envidraçada uma almofada, água e a fotografia da mãe. Talvez esteja aí a explicação psicológica para a ânsia do ser humano de provar que também pode ser alguém especial.
nilson.souza@zerohora.com.br
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7:52 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
23/10/2003
Cadeira de Setúbal
Moacyr Scliar não recebeu posse na Academia Brasileira de Letras ontem.
Recebeu uma coroação. O menininho judeu do bairro Bom Fim não fez outra coisa em sua existência senão dedicar-se à literatura.
As letras são seu hobby, seu estudo, seu trabalho e sua vida. Faz da linguagem e da comunicação a essência da sua existência.
Escreve tanto quanto lê, sempre que saiu de Porto Alegre nas incontáveis viagens que fez pelo Brasil e pelo mundo, o motivo era a literatura.
Foi tomado febrilmente pela sua vocação. Nada mais justo que ontem fosse consagrado na Academia.
E de modo estranho nós todos, gaúchos, tomamos para nós a homenagem, como se a merecêssemos tanto quanto ele, sabedores de que todo o seu mérito foi erguido em nosso meio sedento da cultura dos livros e da informação dos jornais.
A autenticidade da solenidade de posse está localizada principalmente no fato de que ontem a Academia diplomou e entregou a sua espada a um cara do ramo.
Tinha razão o Scliar para estar nervosíssimo durante a posse: a honra é imensa. E ele é inteiramente merecedor dela.
Está muito bem entregue a Scliar e a Carlos Nejar a representação gaúcha na Academia.
Fiquei agradavelmente surpreso ao saber na posse de Scliar que sua cadeira na Academia foi ocupada, em 1935, pelo escritor e poeta paulista Paulo Setúbal, um dos raros autores que preencheram minha adolescência.
Setúbal foi advogado e promotor público. Como grande parte dos literatos brasileiros dos dois séculos passados, atacou-se de tuberculose.
Teve inicialmente uma vida dissoluta, envolvido com mulheres e jogo. Mas depois converteu-se espetacularmente à fé católica.
Dono de um estilo simples e fluente, também jornalista como Scliar, foi o escritor mais lido no Brasil na primeira metade do século 20, seus livros tiveram tiragens excepcionais.
Deve ter morrido em 1937 (nasceu em 1893), quando restou inacabada sua maior obra, Confiteor, em que narrou a sua conversão.
Guardo ainda como uma jóia em minha memória uma magistral quintilha que mandou afixar em uma placa à entrada de seu sítio, tentando restabelecer-se da insidiosa moléstia:
Como um caboclo bem rude
Eu vivo aqui nesta paz
A recobrar a saúde
Que eu esbanjei quanto pude
Nas tonteiras de rapaz.
Em futebol precisa ter sorte também. O árbitro virtualmente inventou um pênalti e o Internacional acabou se vitoriando sobre o Cruzeiro, candidatando-se assim à vaga da Libertadores.
O Grêmio, por exemplo, deu azar na arbitragem sábado passado, assim como ontem quando o Fluminense incrivelmente venceu o Corinthians.
Como acontece em todas as rodadas, o Grêmio joga tudo hoje em Caxias.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:50 AM
by Cassiano Leonel Drum
Brasileirão
¿Foi uma vitória incrível¿
Presidente do Inter comemora o 1 a 0 sobre o líder do Brasileirão
Com gol em um pênalti polêmico, colorado bate o Cruzeiro, volta à luta pela Libertadores e reanima o campeonato (foto Fernando Gomes/ZH)
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Quarta-feira, Outubro 22, 2003
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