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Sábado, Novembro 01, 2003




Diogo Mainardi
O Halloween brasileiro

"O Rio tem uma versão nacional do Halloween: o arrastão de praia. No Halloween, os moleques americanos assustam os adultos com fantasias de bruxa. No arrastão, os moleques brasileiros assustam com pistolas e estiletes. No lugar de doces, pedem carteiras"

Uns patriotas aqui do Rio de Janeiro querem acabar com o Halloween. Espalharam placas pela cidade condenando a festa. Eles acham que os brasileiros devem parar de macaquear os americanos. Devem cultivar apenas o que é genuinamente nacional. O Rio de Janeiro tem uma versão genuinamente nacional do Halloween: é o arrastão de praia. No Halloween, os moleques americanos assustam os adultos com fantasias de bruxa. No arrastão, os moleques brasileiros assustam os adultos com pistolas e estiletes. No lugar dos doces, pedem carteiras.

Os patriotas que se manifestam contra o Halloween pertencem a um grupo chamado MV-Brasil. O mesmo que protestou contra a réplica da Estátua da Liberdade num centro comercial da Barra da Tijuca. O mesmo que cobriu as placas de propaganda eleitoral de José Serra com o epíteto "Traidor da Pátria". Liguei para um representante do grupo, Wagner Vasconcelos.

Comentei que o nome Wagner é estrangeiro, de origem alemã. Ele respondeu que os membros do grupo combatem os Estados Unidos, não a Alemanha. Por isso, querem abolir o Halloween, mas poupam a Oktoberfest. Perguntei se Papai Noel também pode merecer uma campanha. Ele respondeu que o grupo ainda não deliberou sobre o assunto.

Para o MV-Brasil, o Halloween é muito mais do que uma inofensiva caipirice: é o instrumento usado por uma conspiração de mercadores apátridas para dominar o mundo, abolindo as nacionalidades e as religiões monoteístas. Esses mercadores apátridas cultuam o demônio, difundindo a mensagem satânica através de manifestações culturais como o Halloween ou Harry Potter.

Pedi o nome de alguns desses mercadores apátridas. Wagner Vasconcelos citou as famílias Bronfman e Rothschild. Perguntei se ele podia citar algum não-judeu. Ele pensou um pouco e respondeu "a família real britânica". Wagner Vasconcelos garante que seu movimento não tem simpatia pelos nazistas, inclusive porque os nazistas, segundo ele, "cometeram alguns exageros".

Os membros do MV-Brasil só usam produtos brasileiros. Como Policarpo Quaresma. O carro de Wagner Vasconcelos, por exemplo, é um Gurgel. Nas comemorações de 7 de setembro, o grupo estendeu a maior bandeira nacional de todos os tempos na fachada do Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste. A bandeira foi confeccionada com a ajuda logística dos militares e recebeu recursos da Poupex, uma instituição financeira ligada à Fundação Habitacional do Exército.

Wagner Vasconcelos assegura que o MV-Brasil conta com o apoio de muitos oficiais graduados, e que um de seus ideólogos é consultor da Escola Superior de Guerra. A participação dos militares é fundamental para o cumprimento dos planos do MV-Brasil. A meta é construir doze submarinos nucleares nos próximos cinco anos, para poder enfrentar os Estados Unidos de igual para igual em caso de conflito armado.

Comemoremos o arrastão, portanto. Ser assaltado na praia é um dever cívico, um exercício do mais alto patriotismo, uma resposta nacionalista à tentativa de dominação estrangeira através do Halloween. Quanto mais arrastões sofrermos, mais perto estaremos de explodir os Estados Unidos.

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Especial
Você tem medo de quê?

É grande o número de pessoas que sofrem de fobias. A boa notícia é que os tratamentos estão cada vez mais eficientes

Anna Paula Buchalla

Ilustração Anderson Marçal com fotos de Raul Junior, Orípedes Ribeiro, Antonio Milena e Photodisc



O medo é um dos sentimentos que permitiram à espécie humana multiplicar-se e dominar a Terra. Graças a ele, nossos ancestrais escaparam de ataques de animais ferozes e de outras ameaças naturais. Mas, por motivos diversos, muitos dos quais ainda não totalmente esclarecidos pela ciência, algumas pessoas apresentam um medo patológico em relação a situações que estão longe de representar uma ameaça real.

Pode ser de avião, de altura, de elevador, de escuro, de um animal doméstico ou até mesmo de gente. Duas em cada dez pessoas estão predispostas a desenvolver um tipo de fobia ¿ esse é o nome do medo e da aversão doentios ¿ ao longo da vida. As fobias podem ser tratadas no divã do psicanalista, com terapias breves, medicamentos ou hipnose. Não raro, é preciso combinar duas ou mais dessas opções.

Tudo leva a crer que o tratamento que consegue os resultados mais rápidos é a terapia cognitiva comportamental. Ela tem sucesso em até 80% dos casos em cerca de apenas três meses. A jornalista que assina esta reportagem submeteu-se a essa terapia, com o psicólogo José Roberto Leite, professor da Universidade Federal de São Paulo. Seu medo de avião agora está sob controle.

A palavra fobia vem do grego phobos. Phobos era a divindade mitológica capaz de causar nos homens um medo incontrolável. Por esse motivo, os escudos dos soldados gregos muitas vezes traziam estampada a imagem de Phobos ¿ dessa maneira, acreditavam ser mais fácil apavorar seus inimigos. Os americanos criaram um ABC da fobia, que conta com cerca de 500 medos.

Dele constam desde fobias que são velhas conhecidas, como aracnofobia (medo de aranha) e claustrofobia (medo de espaços fechados), até quadros definidos como androfobia (medo de homem), decidofobia (medo de tomar decisões), gamofobia (medo de casamento), eclesiofobia (medo de igreja), afania (medo de perder a capacidade sexual) e por aí vai. É claro que, dependendo das circunstâncias, as pessoas podem exibir reações de medo mais intensas do que de costume.

Um cachorro pode parecer mais assustador do que outro. Uma viagem de avião mais turbulenta pode causar frio na barriga mesmo a um viajante experimentado. Mas isso não significa que se tenha adquirido uma fobia. Antes que você comece a achar que é fóbico, veja o que define exatamente essa patologia:

A fobia é sempre em relação a uma determinada situação, objeto ou bicho.

É irracional. Por exemplo, não faz o menor sentido ter medo de galinhas, já que galinhas não fazem mal a ninguém.

É um medo desproporcional. Quem tem fobia de avião leva mais em conta as insignificantes estatísticas de acidentes aéreos do que a altíssima taxa de sucesso dos vôos.

Interfere nas atividades do cotidiano. É comum que alguém com medo de altura se recuse a trabalhar num andar alto.

Uma fobia pode traduzir-se em reações físicas violentas. Ao deparar com o objeto do medo, o fóbico pode ter sudorese e ser acometido por tonteiras, tremedeiras, taquicardia e dificuldades de respiração. Muitos têm uma sensação de morte iminente.

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COMPORTAMENTO 05/11/2003

Capa

A vez da loira
O mercado brasileiro de cerveja se expande com novas
marcas e soma 8,5 bilhões de litros produzidos por ano. Especialistas afirmam que a bebida traz benefícios à saúde,
mas o consumo precoce ainda precisa ser combatido

Malte de cevada, lúpulo e água. Seis mil anos atrás, ao sul da Mesopotâmia, esses três ingredientes já acompanhavam as refeições dos sumérios. O primeiro porre de cerveja deve ter quase a mesma idade. Se crianças e adolescentes podiam beber ou se a iguaria despertava especulações sobre os benefícios e os males à saúde, não se sabe.

De lá para cá, o hábito de se degustar uma loira gelada ¿ ou uma morena à temperatura ambiente, conforme a tradição ¿ correu o mundo. Hoje, somente a indústria brasileira coloca no mercado 8,5 bilhões de litros de cerveja por ano, o que faz do Brasil o quarto país no ranking mundial de produção, atrás apenas de China, Estados Unidos e Alemanha.

A cifra é louvável. Vale lembrar que a história da cerveja é recente por aqui, com menos de dois séculos: os primeiros barris foram trazidos da Europa pela família real portuguesa em 1808. Apenas em 1953, há exatamente 150 anos, foi inaugurada a primeira cervejaria nacional com produção em escala, a Bohemia.

Fundada em Petrópolis pelo alemão Henrique Kremer, a Bohemia caiu nas graças da corte. Em 1876, foi nomeada Imperial Fábrica de Cerveja Nacional por dom Pedro II e declarada bebida oficial do palácio. Até hoje, é uma das marcas mais apreciadas no País. Esta semana, para comemorar o aniversário, a marca lança a inédita Bohemia Weiss. A cerveja é feita com trigo e vem em uma garrafa especial, com um prático mecanismo de vedação no lugar da tradicional tampinha.

O lançamento coincide com a chegada ao mercado de diversas pequenas marcas, quase sempre preocupadas em oferecer produtos diferenciados a quem busca alternativas às tradicionais cervejas tipo pilsen (loiras claras), hegemônicas no País. Outra novidade foi a inauguração, duas semanas atrás, da Companhia Cervejaria Imperial, um bar em Moema, bairro de São Paulo, inspirado na antiga fábrica. ¿Trouxe de Petrópolis diversos móveis, ferramentas, geladeiras e prêmios recebidos pela Bohemia há mais de um século. O bar virou uma espécie de museu da cerveja¿, resume o proprietário Jorge Ferreira, dono de outros sete estabelecimentos em Brasília.

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Nei Lisboa
Feiras invisíveis

Dizem ser de Marco Polo o relato apócrifo que descreve Porto Alegre como uma cidade de pequeninas casas com extensas janelas frontais e parapeitos abarrotados de livros de todos os gêneros, alinhadas no entorno e através de uma praça por onde os habitantes do lugar circulam incessantemente nas tardes de primavera. Sendo todos ávidos leitores, e muitos propensos ao ofício de escritor, carregam consigo personagens de contos e romances que por vezes lhes escapam pelas alamedas, criando vida própria e pendores pessoais para a literatura.

Ao longo de anos, a repetição desse ciclo inviabilizou a circulação entre as casas, com inusitados engarrafamentos de realidade e ficção. De um lado, descontados os dias de chuva e menor afluência, sequer se avistam os parapeitos e os livros por trás da multidão espremida no trajeto. De outro, já não se sabe mais quem é um habitante original à procura de um autor ou um personagem evadido em busca de um título específico.

O resumo da ópera, conforme sentencia o Marco, é que assim como está não vai dar pra ficar. Mas, digo eu, pelo menos ainda se pode tomar um chopinho com a Claudia Laitano no final de tarde e ouvir dela que a Feira do Livro deveria mudar-se para o cais do porto.

Alegre impasse, vive esta cidade. Se é a paixão de tantos pela literatura que criou um problema, então parece ser um ótimo problema. E com uma solução já bem aclamada, que também esteve o Roque Jacoby a dizer que precisamos caminhar para o porto, ora, pois então, ao porto vamos, pá!

Seria pouco mais que o óbvio honrar a vocação açoriana de mirar horizontes largos, e mais um grande passo para ocupar a alegria que aquele indecoroso muro da Mauá tenta manter invisível. Com o nome que tem, não vejo nada mais exato e poético do que esta cidade chegar ao porto, chegar a si próprio, pelo caminho das palavras. É o que o Marco Polo diria, como bom navegador.

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Martha Medeiros
02/11/2003


Divagações sobre a morte

Quem nunca imaginou o seu próprio enterro? Quem iria, quem não iria, quem choraria de verdade as lágrimas dos verdadeiros amigos?

Hoje é dia de Finados, dia de ressuscitar um pouco aqueles que a gente tanto amou um dia. Quando levamos flores no cemitério ou mandamos rezar uma missa, estamos dando aos nossos mortos um pouco de vida através da nossa memória. Morto, mesmo, está quem não é lembrado.

Visitar cemitérios, em algumas cidades, é passeio turístico, dependendo da suntuosidade dos mausoléus e dos mortos ilustres ali enterrados. É o caso do cemitério de Père-Lachaise, em Paris, e o da Recoleta, em Buenos Aires. Não acho mórbido, mas também não vejo graça.

Aliás, não consigo nem mesmo me emocionar ao visitar as casas onde viveram grandes artistas. Não consigo glorificar o chão onde pisou Mozart ou as canetas que Freud usava para fazer anotações. Não me comove a cama onde dormiu Napoleão ou os vestidos usados pela princesa Diana, a despeito de toda informação histórica recebida. Há pouco tempo, passei em frente à casa onde viveu Hitchcock, em Londres.

Ele saía todo dia por aquela porta, caminhava pela mesma calçada em que eu estava. Mas não senti nem um arrepio, nada que se comparasse às sensações provocadas por seus filmes. Cultuo a obra, as idéias de uma pessoa, suas conquistas, mas não os seus talheres ou escrivaninhas. Diante da enormidade de uma herança emocional, intelectual ou artística, pouco me importam os móveis e utensílios, são curiosidades visitadas, material de estudo, mas não de reverência. Nessas horas é que eu vejo que a morte tem um adversário a altura: a vida. Esta me interessa imensamente, principalmente as que estão em plena vigência de contrato.

Quem nunca imaginou o próprio enterro? Quem iria, quem não iria, quem sentiria de verdade a nossa falta, quem estaria lá só por conveniência social, o que o padre diria, e se o caixão estaria aberto ou fechado. Entendo a necessidade de os parentes e amigos se despedirem, mas, convenhamos, nada pode ser mais invasivo do que nos espiarem quando já não existimos mais.

E que tipo de morte desejamos, se é que cabe aqui empregar o verbo desejar? Nisso somos todos iguais: que demore muito pra acontecer, mas que, chegada a hora, seja breve. Uma morte sem rodeios.
martha.medeiros@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
02/11/2003


Figuras representativas

Poucos sabem que o grande William Shakespeare escreveu a primeira versão do clássico ¿Romeu e Julieta¿ como uma trova gauchesca

Do baú. Estive pesquisando as origens da música sertaneja e concluí que seu início remonta aos tempos medievais e renascentistas. Sim, no medievo, muitas das formas musicais hoje utilizadas no nosso meio rural já eram ouvidas. Num outro contexto, é verdade, mas com evidente precursoriedade.

O mesmo se pode dizer dos tempos elizabetanos. Poucos sabem, por exemplo, que William Shakespeare escreveu a primeira versão de Romeu e Julieta como uma trova gauchesca, o que é estranho pois na época elizabetana não havia gaúchos, salvo um ou outro turista, claro. Na conhecida cena do balcão, Julieta cantava: "Ó Romeu, ó Romeuzinho, sobe aqui devagarinho.

A roseira te agüenta mas cuidado com os espinho. O meu peito arrebenta, pensando no teu carinho. Nosso caso não é mol - eu sou a Lua e tu é o Sol". E o Romeu respondia: "Eu sou o Sol e tu é a Lua, minha paixão é igual à tua. Vou subir nesse balcão, o que que eu faço aqui na rua? Já vou tirando o calção e quero te ver toda nua. Eta nóis, que apocalipse: tu e eu fazendo eclipse!".

Durante minhas pesquisas, gravei interessantes depoimentos de figuras representativas do meio, como este de Argemira das Dores, também chamada Argemira dos Dois:

"Eu sou a mulher da dupla Pixuim e Xoque Xoque. Dos dois, sim senhor. É que ninguém sabe quem é o Pixuim e quem é o Xoque Xoque, entende? Nem eles sabem mais. Assim fica mais prático ser a mulher dos dois. Entendeu? Não tem problema eu ser casada com o Pixuim e o Xoque Xoque porque, como nem eles sabem quem é o Pixuim e quem é o Xoque Xoque, um não se sente traído quando eu estou com o outro, entendeu?

Porque ninguém sabe quem está sendo enganado. Agora se cada um tivesse uma mulher, aí sim ia ficar complicado, porque se o Pixuim não sabe qual dos dois ele é, como é que ele ia saber que a mulher do Xoque Xoque na verdade não era a dele, e vice-versa? Assim fica mais fácil. Mas as pessoas amaliciam muito."

Também entrevistei o Nababo, da dupla Nababo e Triliardário. Ele me recebeu na beira de uma piscina, que me apresentou.

"Esta é a minha piscina. Lá para trás ficam as minhas canchas de tênis, depois o campo de futebol, depois o bosque que vai até aquela montanha, que também é minha. Isto aqui na cidade, porque na minha casa de campo tem muito mais coisa. Como você vê, a piscina tem o formato de uma viola. Tudo que eu tenho tem o formato de uma viola, porque eu devo tudo que tenho à viola.

Você já conheceu minha mulher? Vem cá, Vanusete! Viu só? Ela também tem formato de viola. Não é uma beleza? O mais difícil de encontrar foi o pescoço comprido. Minhas casas têm formato de viola, minha pick-ups, minhas amantes. Tudo que é meu tem formato de viola. Menos a minha viola, que tem formato de bumerangue".

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Moacyr Scliar
02/11/2003


Ah, sim, falando em Finados

Imortalidade não é eternidade. Esta é atributo divino. Deus não é imortal. Deus é o eterno. Para os crentes, Deus sempre existiu e sempre existirá

Guri metido a escritor, eu costumava terminar minhas redações sobre autores famosos com uma frase de estilo, algo como "Monteiro Lobato não morreu: viverá para sempre nas páginas de seus livros".

Péssima frase. E o pior é que eu acreditava piamente nela, em primeiro lugar porque é mais fácil acreditar na imortalidade quando se vive a infância, mas também porque eu estava partilhando um mito comum entre reverentes leitores, sobretudo no Brasil. O mito que inspirou a denominação de "imortais" para os membros da Academia Brasileira de Letras. A bem da verdade, a instituição criada por Machado de Assis não promete a sobrevivência perpétua; seu lema é "Ad Imortalitatem", "Para a imortalidade" ou "Rumo à imortalidade". Não é uma garantia; é, digamos assim, uma imagem-horizonte.

Uma promessa, o que lembra aquela historinha do judeu bíblico que disse, a propósito do anúncio de Moisés sobre a Terra Prometida: "Só prometida? Nada por escrito?". Mas a promessa, mesmo vaga, tem algum fundamento na realidade, fundamento esse representado pela incrível persistência da palavra escrita. Um exemplo é a Bíblia. O Antigo Testamento começou a ser escrito à época do rei Salomão, há cerca de 3 mil anos. No entanto, os textos bíblicos aí estão, impressionando e comovendo, ainda que de maneira diferente, leitores religiosos e leitores literários.

Durabilidade, contudo, não é imortalidade. Um texto imortal não é aquele que vence o teste do tempo, é aquele que simplesmente suprime o tempo. Essa é uma fantasia de muitos escritores. Edna St.Vincent Milay traduziu-a num verso famoso: "Read me, do not let me die", leia-me, não me deixe morrer. Esse verso foi e continua sendo muito lido, mas isso não impediu que a poeta, nascida em 1892, tivesse inexoravelmente morrido em 1950.

Imortalidade também não é eternidade. Esta é atributo divino. Deus não é imortal; Deus é o Eterno. Para os crentes, Deus sempre existiu e sempre existirá; não tem fim, como não teve começo. "Vida" e "morte" são duas palavras que nada têm a ver com eternidade. Imortalidade afasta a morte, mas não a vida. Portanto teoricamente não afasta coisas como dor de dentes, assaltos, juros altos no cartão. Em suma, a imortalidade leva de 10 a zero da eternidade, e isto deve ser mais uma lição de humildade, de saudável ceticismo.

Como lição é o Dia dos Finados: ao mesmo tempo em que lembramos aqueles que já partiram, nos damos conta de que o nosso tempo sobre a terra é limitado. Pensamento sombrio, mas estimulante. Disse o ensaísta inglês Samuel Johnson, a propósito de condenados à morte: nada melhor para concentrar o pensamento do que a lembrança do enforcamento na manhã seguinte.

O grande perigo da imortalidade é acreditar nela, é projetar a existência para um futuro tão glorioso quanto inatingível. Imortalidade como ilusão é ótimo, porque, abrigados pelo diáfano manto da fantasia, podemos suportar um pouco melhor o cruel frio da existência, que, nas noites de insônia, nos penetra até os ossos.

Mas imortalidade como método de vida é um desastre. Viver é viver o nosso tempo. É um truísmo ridículo, este, mas é com o ridículo que temos de conviver, porque o ridículo é um antídoto, ainda que rude, para a embriaguez das ilusões. Sobre as quais podemos lançar um olhar terno, bem-humorado e melancólico, como o olhar que o maduro Moacyr lança sobre o ombro do menino Moacyr absorvido na redação de frases pomposas. Se esse olhar não nos consola, pelo menos nos ensina alguma coisa.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
02/11/2003


A diferença social

Entre os mais rudes tormentos humanos, estão o medo do rico de vir a ser pobre e a aflição do pobre que já foi rico.

Não são a mesma coisa. Um pobre que já foi rico é infinitamente mais atormentado que um pobre que sempre foi pobre.

E o rico que já foi pobre, por ter conhecido as agruras da pobreza, conhece o pesadelo permanente da visão da tragédia que seria voltar à sua origem.

O pobre que sempre foi pobre e um rico que sempre foi rico são pessoas absolutamente iguais, embora economicamente antípodas.

Nem o pobre que sempre foi pobre sente tão intensamente na carne o gigantesco desfavor da sua exclusão - nem o rico que sempre foi rico saboreia intensamente as delícias da fortuna.

O pobre que sempre foi pobre reage perante a vida como a pessoa que já nasceu cega: não conhece a outra face da vida, por isso não a inveja nem a ambiciona.

Já o rico que ficou pobre é como o cego que perdeu a visão depois de adulto: amassa-o a catástrofe de ter sido expulso do Éden. Só pode avaliar a ventura do paraíso quem já a perdeu. Quem nunca esteve no céu não acredita no céu, considera-o uma vaga abstração.

Por que a única atribulação do rico que já foi pobre ou menos rico é a de ficar cada vez mais rico?

É para ganhar mais dinheiro ou amealhar maiores riquezas? Não. É para correr cada vez menos risco de voltar à condição que tinha antes e o amedronta.

Só os sábios têm a coragem de começar tudo de novo.

E só os santos são capazes de se contentar com a pobreza ou de renunciar a todas as suas riquezas.

São inumeráveis os santos pobres da Igreja Católica. Mas o maior santo da cristandade é Francisco de Assis, exatamente por ter sido o homem que mais amou e dignificou a pobreza depois de ter renunciado à sua riqueza.

Largou seu pai, rico comerciante, deixou a família, livrou-se de uma vida suntuosa em que se espanejava no luxo e na ostentação e foi ser miserável junto dos miseráveis, não possuindo sequer qualquer objeto que não fossem suas sandálias e vestes esfarrapadas.

Com isso, nunca nenhum homem teve maior autoridade para pregar o evangelho e a humildade do que ele. Isso se chama legitimidade.

Despojou-se de tal forma dos bens terrenos, cultuando somente a natureza, como os animais, que conta a lenda que ele conversava com os bichos, as feras não o atacavam.

Tem nexo, as feras só atacam os homens porque sabem que eles são piores do que elas.

E o homem, esse bípede inextricável, confirma a colossal confusão que fez na solução para a sua vida quando idiotamente se dividiu em ricos e pobres.

Essa é a principal razão desse atoleiro.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
O Brasil sobre duas rodas



Nunca se vendeu tanta motocicleta no país: em 10 anos, passou de cerca de 68 mil para mais de 792 mil o número de unidades comercializadas por ano. Em 2003, na Capital, a procissão de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e dos motociclistas, reuniu cerca de 10 mil motos, um recorde desde a primeira edição do evento religioso, em 1974 (foto Adriana Franciosi, Banco de Dados/ZH)

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Vou de Bike
Na temporada do ar livre,a bicicleta volta a ser a melhor companheira do carioca
Mariana Salim



Prática. Ana estuda perto de casa

Pedalar ou dar um rolé de bike. O jeito de falar não importa quando o assunto está sobre duas rodas. A bicicleta une uma galera, que está atrás de conveniência e mais tranqüilidade na grande cidade maravilhosa. São 100,7 quilômetros de ciclovia, a mais longa do País. O esporte ganha status de meio de transporte e já virou mania entre os cariocas. Fugir do trânsito, economizar dinheiro e gastar energia são os objetivos dos adeptos. A nossa cidade é perfeita para quem gosta de pedalar, afirma a estilista da loja Farm, Joana Saladini de 26 anos.

A menina, que tem a cara do Rio, é moradora de Ipanema, trabalha em Copacabana e curte um visual bacana. Ir para o trabalho com uma vista dessas é um privilégio, admite. O traje tem que ser bem confortável, de preferência calça, e nos pés tênis ou sandália. Só pego meu carro quando a chuva aperta, conta e ressalta: Indispensável mesmo é um walkman com uma boa música rolando e uma mochila.

A verdade é que nesses tempos modernos o uniforme mais careta de trabalho perde espaço e a roupa casual e descontraída é cada vez mais usada entre os profissionais de diversas áreas como Moda, Cinema, Publicidade e Design. A estudante de Moda Verena Isaac dribla a falta de carro se aventurando pelas ruas montada em sua bike. Faço qualquer coisa pedalando. Vou para a faculdade e para o trabalho. Já sou conhecida na rua como a garota da bicicleta orgulha-se. Muito vaidosa, Verena tem um estilo todo especial: um macacão jeans que permite que seja retirada a parte de baixo da perna da calça. Só retiro a parte que fica do lado da correia, é para não sujar de graxa, dá a dica.

Outro adepto às pedaladas é o empresário Renato Viana, dono da loja de beach wear By The Sea, em Búzios. É uma sensação de liberdade incrível, analisa. Renato, que vive no eixo Rio-Bali, aproveita os compromissos cariocas para curtir a cidade.

Já a estudante de Design, Ana Luisa Lopes, não larga sua bike por trabalhar e estudar perto de casa. Me sinto outra pessoa chegando nos lugares pedalando. Fico muito mais produtiva, acredita.



Zen. Com a bicicleta, o empresário Renato Viana faz de seus compromissos um prazer e ainda aproveita a vista. É uma sensação de liberdade incrível, diz

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O Dia das Bruxas existe há mais de dois mil anos. A festa dos povos celtas comemorava o fim do verão, o início do Ano-Novo e as fartas colheitas. Sua comemoração original chamava-se Samhain, também conhecida como o Dia das Almas, na noite de 31 de outubro.

Segundo a lenda, os mortos no ano anterior regressam e se encarnam nos vivos, podendo cometer atrocidades, colocar mau olhado nas colheitas e ocasionar danos materiais. Outras pessoas garantem que os celtas acreditavam que as almas eram de membros superiores da Igreja Católica e eram inofensivas.

No mundo moderno, o Halloween surgiu no séc. XIX, quando irlandeses implantaram a festa nos Estados Unidos. A data virou uma tradicional festa infantil na qual crianças se fantasiam e pedem doces de casa em casa, dizendo tricks or treats - travessuras ou gostosuras. A animação é tanta que dia 31 de outubro é feriado nos Estados Unidos, e o comércio registra um alto volume de vendas.

Tradição deu origem às máscaras, abóboras, doces e bruxas

A tradição de pedir doces existe porque acreditava-se na cultura celta que para se apaziguar espíritos malignos era necessário deixar comida para eles. Esta prática foi transformada com o tempo, com os mendigos passando a pedir comida em troca de orações por quaisquer membros mortos da família. Uma espécie de chantagem, que daí deu origem ao "travessuras ou doces".

A lanterna feita com uma abóbora recortada em forma de "careta" veio da lenda de um homem notório chamado Jack, a quem foi negada a entrada no céu, por sua maldade, e no inferno, por pregar peças no diabo. Condenado a perambular pela terra como espirito até o dia do juízo final, Jack colocou uma brasa brilhante num grande nabo oco, para iluminar o seu caminho através da noite. Este talismã (que virou abóbora) simbolizava uma alma condenada.

As máscaras têm sido um meio de supersticiosamente afastar espíritos maus ou mudar a personalidade do usuário e também de comunicação com o mundo dos espíritos. Acreditava-se enganar e assustar os espíritos malignos, quando vestidos com máscaras.

Nas celebrações da "Vigília de Samhain" nos dias 31 de outubro, os druidas acreditavam poder ver boas coisas e mal agouros do futuro através do fogo. Nessas ocasiões, os druidas construíam grandes fogueiras com cestas de diversos formatos e queimavam vivos prisioneiros de guerra, criminosos e animais. Observando a posição dos corpos em chama, eles diziam ver o futuro.

As cores usadas no Halloween, o laranja e o preto, também têm sua origem no oculto. Elas estiveram ligadas a missas comemorativas em favor dos mortos, celebradas em novembro. As velas de cera de abelha tinham cor alaranjada, e os esquifes eram cobertos com tecidos pretos.

Acreditava-se que mulheres com poderes de feitiçaria podiam lançar aos seus vizinhos toda espécie de sorte maléficas, como morte de gado, perda de colheita, morte de filhos etc. Segundo a tradição, o poder mais pernicioso de tais bruxas era tornar os maridos cegos a respeito da má conduta de suas esposas e de fazer com que as chamadas feiticeiras gerassem filhos idiotas ou aleijados. A caracterização de bruxas era a de velhas megeras desdentadas com hábitos excêntricos e língua venenosa.

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Artigo
Quem inventa é poeta
CARLOS URBIM/ Escritor e jornalista

Saiba como tudo foi inventado. Quem ensina é o livro que Ricardo Silvestrin lança nesta Feira. Primeira obra do autor publicada pela Ática, É Tudo Invenção leva Silvestrin para todo o Brasil.

Crianças do Rio Grande do Sul já se deliciam com as invenções do poeta, encontráveis, por exemplo, em Pequenas Observações sobre a Vida em Outros Planetas. Incluídos em antologias nacionais, os achados e o fino humor de sempre estarão também em livros de poesia que serão distribuídos nas escolas brasileiras pelo Ministério da Educação.

Leitores de outros Estados e os fãs de carteirinha há mais tempo vão se encantar com o novo livro de Silvestrin, que ganhou ilustrações de Luiz Maia, no mesmo tom de riso e brincadeiras gráficas. Se Observações é um Atlas hilário de um espaço sideral improvável, É Tudo Invenção é a Enciclopédia que mostra como a maioria das coisas foi criada. No caso da invenção da meia, a explicação vem nos mínimos detalhes: "Primeiro fizeram inteira. Quando viram que eram dois pés, dividiram: meia a meia".

Algumas invenções custam a surgir, leva um tempão para cair a ficha de quem inventa: "Mas foi quando juntou / o pé do sapo / e o do pato / que o inventor / chegou ao sapato". Outras nascem para se tornar utilidade pública e ser usadas a qualquer hora: "Assim pensava / o inventor / da piada. / Queria era ver / todo mundo sorrir. / Mais nada". E são muitos os exemplos de inventos que são creditados ao acaso: "Não dizia / nem sim, nem não. / Nessa tal vez, / nasceu o talvez".

Ricardo Silvestrin é para ser lido de alma leve. Tem que chamar as crianças para perto, mostrar os detalhes dos desenhos do Luiz Maia e declamar a alegria que salta de cada página. Quem lê É Tudo Invenção descobre que, quando duas pessoas conversam com sinceridade, está inventada a amizade. Ou que o abraço veio de um laço: "Foi um sucesso / virou moda / e hoje até na hora / do fracasso / se há braço / há abraço".

Fotos da Ticcia lá do Não Discuto

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Meus amigos ontem já senti o gostinho da Feira, caminhando por entre as estandes abarrotadas de livros e sentindo aquele aroma de livro novo, voces sabem bem como é. Não havia muita gente e portanto valeu a pena dar uma xeretada.

Como hoje está chovendo torrencialmente nesta Porto Alegre, não sei como será o movimento, mas com certeza, valerá a pena dar uma olhada, pois que a chuva não será problema por lá. Ótimo fim de semana a todos nós.

Evento
A feira de todos os sonhos
Evento foi inaugurado ontem com a promessa de trazer o ministro da Cultura no ano que vem
LARISSA ROSO

Mesmo sem a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil, a abertura oficial da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre, ontem à tardinha, estava concorrida. Gil cancelou sua participação na véspera, durante visita à Bienal do Mercosul, mas deixou dito que estará presente para as comemorações do cinqüentenário da Feira, em 2004. Promessa.

Lembrada em vários dos discursos, a ausência do ministro não deixou o evento mais importante do calendário cultural do Rio Grande do Sul menos importante. Autoridades e personalidades do meio literário, todos compareceram. Bem mais breve do que em anos anteriores - talvez por causa da chuva que se anunciava -, a solenidade contou com a presença do governador Germano Rigotto, do ministro das Cidades, Olívio Dutra, e do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro Corrêa do Lago, representando o Ministério da Cultura (MinC), uma vez que Gil teve de estar presente a uma reunião em Brasília.

Também participaram da cerimônia Oswaldo Siciliano, presidente da Câmara Brasileira do Livro, e o ator Sérgio Mamberti, secretário de Apoio à Preservação da Identidade Cultural do MinC, de passagem pela Capital para uma audiência pública na Assembléia Legislativa.

- Talvez essa não seja a Feira dos nossos sonhos, mas é a Feira de todos os sonhos - ressaltou o presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Geraldo Huff.

Huff fez uma homenagem especial a Júlio La Porta, o famoso xerife da Feira, que nem estava perfilado ao lado das demais autoridades no palanque montado no centro da Praça. Ao identificar-se como destinatário das palavras elogiosas de Huff, La Porta deixou a platéia para também assumir o lugar de convidado especial.

No discurso de posse como patrono, o jornalista e escritor Walter Galvani, depois de receber as boas-vindas do antecessor, o jornalista Ruy Carlos Ostermann, levou à Praça da Alfândega outros 42 convidados ilustres. Citou nominalmente os 42 patronos da Feira do Livro, a partir de sua 11ª edição, em 1965, destacando as contribuições de cada um à literatura - do português Luís de Camões ao agora imortal Moacyr Scliar.

- E o Quintana, que de tanto sentar-se nessa praça, todos os dias e em todas as feiras, eternizou-se numa estátua que existirá enquanto houver civilização - disse Galvani, relembrando o falecido poeta Mario Quintana, patrono em 1985, na Feira do Livro de número 31.

O governador Rigotto discorreu longamente sobre livros, literatura, leitura. E até arriscou-se em trechos mais líricos.

- Aqui se encontram folhas de livros e folhas de árvores, palavras impressas e palavras ao vento - afirmou, saudando ainda o início da primavera e o florescer da cultura.

Antes do tradicional sinetaço e do passeio do xerife pelas barracas da praça, o músico Luiz Carlos Borges, acompanhado de Vinícius Brum e Maurício Marques, cantou o Hino Rio-Grandense. O mesmo hino que, na véspera, Gilberto Gil citou várias vezes em seu discurso de despedida, ao encerrar a breve visita a Porto Alegre. Mesmo sem ministro, começou a Feira.

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Lya Luft
01/11/2003


Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos se precisar ficar um pouco quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele, não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim nem se aproveite disso.

Que, se eu faço uma bobagem, o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que, se estou apenas cansada, o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade, mas talvez por culpa ou acomodação.

Que, se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo de que é culpa dele, ou que não o amo mais.

Que, se estou numa fase ruim, o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo: "Olha que estou tendo muita paciência com você!"

Que, se me entusiasmo por alguma coisa, o outro não a despreze nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.

Que, quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que, quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: "Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!"

Que, se eu peço um segundo drinque no restaurante, o outro não comente logo: "Poxa, mais um?"

Que, se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que embora às vezes me esforce, não sou nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa, vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa: uma mulher.

lya.luft@zerohora.com.br

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Cláudio Moreno
01/11/2003


Colo

Uma desenhista de jóias que gosta do nosso idioma leu em algum lugar que o colar se chama assim porque foi feito para usar no colo; intrigada, pergunta: "Como isso é possível? O colo não é o lugar onde ficam os bebês?". Minha cara desenhista de jóias, não vais enxergar a relação entre esses dois vocábulos se não souberes que colo serve para designar coisas bem diversas entre si (vou deixar fora da discussão o emprego específico que a Medicina e a Biologia fazem deste termo).

Bluteau, em seu dicionário de 1712, já registrava, com seu estilo peculiarmente retorcido: "Esta palavra de três maneiras se usa no Português. A mais comum é por regaço; a segunda, é pelo lugar que se dá a um menino nos braços, e parece que se chama assim porque o menino, posto nos braços, deixa o braço ao colo de quem o traz; a terceira é o pescoço". Vamos ver cada uma delas.

Regaço - Este malsoante vocábulo provém de regaçar (o mesmo que arregaçar) e designa aquela concavidade que o tecido da saia ou do capote forma entre as coxas de quem está sentado. Eça de Queirós fala de uma rapariga que fazia uma grinalda "com as flores que lhe enchiam o regaço". Machado descreve uma pensativa personagem que, "com os cotovelos no regaço, tinha os olhos encravados na parede".

Alencar mostra uma mulher que cardava "uma porção de algodão cujos flocos alvos e puros caíam sobre uma grande folha que tinha no regaço". Noto que poucos brasileiros deixariam de usar, nesses exemplos, o vocábulo colo - como os próprios escritores mencionados também fizeram, em outras passagens: o Teodorico de Eça encontra Miss Mary "lendo o seu Times, com um gato branco no colo", da mesma forma que Alencar descreve Iracema "sentada com o filho no colo".

Pescoço - é nesse sentido que colo produziu o colar e a coleira (ambos traduzidos, no Francês, por collier), além de colarinho, torcicolo e tiracolo. É assim que aparece nos Lusíadas, de Camões: "O forte escudo, ao colo pendurado", ou "O valeroso Afonso, que por cima / De todos leva o colo alevantado", ou, mais claro ainda, "Vê-lo cá vai cos filhos a entregar-se / A corda ao colo, nu de seda e pano".

No conto O Relógio de Ouro, Machado descreve assim o ímpeto homicida de Luís Negreiros, um Otelo tropical: "O infeliz marido lançou as mãos ao colo da esposa e rugiu: - Responde, demônio, ou morres". Na Pata da Gazela, de Alencar, a heroína tem "uma cintura de sílfide, um colo de cisne". Como podes ver, aqui só se falou de pescoço.

Nem um, nem outro - O terceiro significado é aquele lugar em que se carrega um bebê (que Bluteau, politicamente incorreto, chama de "menino", no masculino): em parte apoiado no peito, em parte na raiz do pescoço. É aí que fica o "colo ofegante" das heroínas de nossa literatura romântica; é este o colo que as damas mostram, com o decote do vestido, nos bailes da Corte. Machado nos dá um exemplo valiosíssimo, em seu A Mão e a Luva, que não deixa margem a dúvidas: "Todo o colo ia coberto até o pescoço".

Que tal? Este colo é definido pelo velho Morais como "o pescoço, a cabeça e os ombros, onde se carregam pesos". Este é o que as crianças pedem aos pais, quando estão cansadas de caminhar; não por acaso, é neste colo que Santo Antônio sustenta o Menino Jesus, nas imagens de igreja.

Não hesito em dizer que o primeiro e o terceiro são os dois sentidos mais presentes em nossa língua atual; o de pescoço é quase desconhecido para o leitor brasileiro, e não admira que não tenhas visto a relação com o colar. Isso acontece com muitos outros vocábulos; quem de nós ainda vê em afogar o sentido de "sufocar"? Quem não estranha quando Camilo diz que o marido "não era homem de afogar a mulher com o travesseiro"?

Os que conhecem a peça de Shakespeare certamente reclamariam se eu dissesse que "Otelo, no auge do ciúme, afogou Desdêmona", já que não havia nenhum líquido por perto; no entanto, todos aceitam que se fale em vestido afogado (por oposição a decotado), onde o antigo significado está bem manifesto. Como dizia Vieira, vemos, mas não enxergamos.

Convido o leitor para a sessão de lançamento, pela L&PM Editores, do meu Guia Prático do Português Correto, segunda-feira, dia 3, às 19 horas, no Pavilhão de Autógrafos da Feira do Livro.


claudio.moreno@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
01/11/2003


O massacre dos golfinhos

Eu vivo dizendo que a maldade humana não tem limites.

Outra não é a conclusão das imagens que trouxeram nesta semana os jornais mostrando em fotografias estarrecedoras uma série de barcos japoneses encurralando inúmeros cardumes de golfinhos numa enseada, matando-os impiedosamente, de tal sorte que toda a maré do oceano se tingiu do vermelho do sangue desses doces animaizinhos, que não têm outra atitude com o homem que não seja a ternura.

Golfinho que salva crianças e homens afogados nas praias é, no Japão, cortado em postas e vendido em latas de conserva nos supermercados.

As fotografias mostradas nos jornais, uma delas com os golfinhos sendo empilhados em um barco de pescadores, sangrando ainda pelas estocadas recebidas, o mar totalmente vermelho pelo sangue dos golfinhos trucidados, me faz pensar que o homem é mesmo a maior fera do universo.

Toda vez que um homem se encontra com um golfinho, recebe deste as maiores amabilidades. O golfinho faz graça para o homem se divertir. É com certeza o mais inteligente de todos os habitantes do mar.

Inofensivo, ele vai mais longe na sua simpatia: adapta-se gentilmente às brincadeiras e jogos dos humanos, parecendo querer conhecer a nossa raça e junto com ela comungar da alegria da vida.

Pois há 400 anos os japoneses matam os golfinhos, eliminação dolorosa para os animais, para comercializá-los como alimento.

Qualquer pessoa lúcida há de perguntar-nos: mas nós também não sacrificamos com a mesma crueldade o gado que comemos, servindo lautos churrascos de picanhas bovinas, costelas de ovelha e lombo de javali?

É verdade, mas nenhum desses animais nos enche tanto de meiguice, de carinho e até de amparo quanto o golfinho.

Além disso, a espécie dos golfinhos corre perigo de extinção, enquanto o gado se multiplica por criação e vai se renovando conforme a sua produção industrial e consumo.

Para nós, ocidentais, matar um golfinho é praticar o mesmo crime que se eliminar um cão poodle ou um papagaio.

Há espécies animais que se identificam tão afetiva e solidariamente com o homem que não imaginamos que vamos ter gosto em consumi-los como carne.

O golfinho é tão amigo do homem, como o cavalo, que por isso não admitimos comê-lo.

Entidades ambientalistas do mundo inteiro estão protestando junto ao governo japonês contra a carnificina.

Em treinamentos para shows, os golfinhos se revelam como animais de extraordinária inteligência. E o que é mais importante: possuem inteligência afetiva, interessam-se por aproximar-se dos homens e têm aguçada curiosidade sobre nossos costumes.

Tanto são animais sensorialmente superdotados que estes pérfidos caçadores japoneses usam de um estratagema para apanhá-los e massacrá-los: batem com as mãos em cima da superfície do mar, os golfinhos perdem o senso de orientação emitido dos seus radares corporais e se deixam encurralar pelos seus matadores em uma enseada, onde são dizimados.

Tudo menos matar golfinhos para enlatá-los. Tenho certeza de que os golfinhos esperavam muito mais da raça humana.

O homem não tem o direito de extinguir uma das melhores criações divinas. Além de afirmar por esse holocausto que a criatura humana não é, nem de longe, uma das melhores criações de Deus.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Crime
Expulsos pela violência



Pai da garota morta por gangue resolveu abandonar Novo Hamburgo e chora ao desmontar o quarto da filha (foto Miro de Souza/ZH)


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Sexta-feira, Outubro 31, 2003




FLUMINENSE
Um drible no Banco Central
Diretoria tricolor só desistiu de vender Carlos Alberto para o Kashiwa Reysol, do Japão, porque o dinheiro da transação seria bloqueado, devido às dívidas do clube
Marluci Martins

A venda dos direitos federativos (antigo passe) de Carlos Alberto para os empresários Paulo Barbosa e Marco Antônio da Purificação resolve dois problemas: a falta de dinheiro e a impossibilidade de uma eventual transação internacional ser feita sem a fiscalização do Banco Central, como queria o Fluminense, para fugir dos credores.

Foi por esse motivo que a negociação com o Kashiwa Reysol, do Japão, não foi fechada. O diretor-geral do clube japonês, Yukihiro Miyamoto, informou ao ATAQUE que Carlos Alberto só não jogará no Kashiwa porque a diretoria tricolor não encontrou um jeito de driblar o Banco Central o dinheiro que viria de fora do País poderia ser bloqueado.

Entre os clubes, já estava tudo certo: o Kashiwa pagaria US$ 3 milhões dos quais, US$ 450 mil seriam de Carlos Alberto e US$ 300 mil de seus procuradores (um deles, Richard Aldo). O jogador receberia US$ 520 mil por ano, além de uma casa para morar, um carro e seis passagens aéreas (classe executiva).

Segundo o dirigente japonês, a diretoria tricolor chegou a fazer-lhe uma proposta considerada indecente: para que a transação não passasse pelo Banco Central, a Hitachi do Brasil, filial da multinacional que patrocina o Kashiwa, serviria como uma espécie de laranja: a empresa receberia o dinheiro do clube japonês, repassando-o logo ao Fluminense.

Por dois motivos, o conselho consultivo da Hitachi vetou a proposta: 1) não teria como explicar por que uma empresa de ar-condicionados compraria um jogador de futebol; 2) uma ação contra o Fisco brasileiro pegaria muito mal para a imagem da empresa, no País desde 1954.

Carlos Alberto também chiou. Segundo Miyamoto, por não confiar no Fluminense, o jogador queria que os 15 por cento a que teria direito na negociação fossem pagos pelo Kashiwa.Após muita conversa, teria concordado com a transferência.

Yukihiro Miyamoto ficou 20 dias no Brasil. Voltou para o Japão certo de que só havia um impasse a travar a negociação: o medo do Fluminense em relação ao Banco Central. Dias depois, telefonou para o filho do presidente do clube, Marcelo Fischel, que lhe informou que o negócio andara para trás e que Carlos Alberto já tinha novo destino.

Num telefonema para o procurador Richard Aldo, o dirigente japonês soube que Marco Antônio da Purificação e Paulo Barbosa eram os novos donos do apoiador. Na quarta-feira, o Kashiwa teria a confirmação: o próprio Carlos Alberto informaria, por telefone, que sua decisão não tinha volta, pois já havia assinado contrato para a transferência.

Procurado pelo ATAQUE, o presidente do Fluminense, David Fischel, não foi encontrado. Ele é o único dirigente autorizado a falar sobre o assunto.

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Horror em dose dupla
Freddy Krueger fala com exclusividade ao DIA sobre o confronto com Jason em filme que estréia hoje no Rio
André Gomes

A sexta-feira é 31, mas basta trocar os números de posição para se chegar ao 13. Há mais indícios macabros na data: é Dia das Bruxas e nos cinemas estréia Freddy x Jason, filme que reúne os dois maiores assassinos dos longas de terror dos anos 80 num aguardado confronto. Intérprete do temido Freddy Krueger, Robert Englund revela na entrevista ao lado o ator por baixo da maquiagem do monstro. São duas décadas na pele do matador de Elm Street. Quer entender como Jason foi parar lá? Calma, que é fácil explicar.

Começa o filme e logo o espectador fica sabendo que Freddy está preso no inferno há 10 anos. O mestre dos pesadelos não consegue invadir o sono dos habitantes de Springwood porque vítimas potenciais foram medicadas para serem impedidas de sonhar. Ele resolve ressuscitar Jason Voorhees (Ken Kirzinger), para que o psicopata de Sexta-Feira 13 espalhe o medo pela vizinhança. O temor ajudará Freddy a voltar triunfante aos sonhos alheios.

O plano do assassino de A Hora do Pesadelo é ameaçado quando ele percebe que Jason não está disposto a aposentar o facão para Freddy agir. Ponto de partida para Krueger se voltar contra Jason em duelos orquestrados pelo diretor Ronny Yu. Ele apresenta um filme escuro, sinistro e fiel às séries. As vítimas, claro, são adolescentes, e a heroína se chama Lori (Monica Keena). Horror em dose dupla, indicado a fãs do gênero.

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Ueba! Lucianta não é transgênica, é antagênica!

Buemba! Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! O Robinho levou um Peru! Aliás, sabe por que o Santos perdeu do Peru? Porque eles tem um jogador chamado Caciete! Caciete do Peru. Tradução: o Santos levou um caciete do Peru. Rarará! E eles esperavam o quê? Que o Peru jogasse encolhido? E o meu São Paulo, lá na Bolívia, ganhou de quatro a um do "The Strongest". Que virou "De Quatro"!

Festival Lucianta Gimenez! A minha morenanta preferida. É que ela disse que não é burra, é espontânea. Espontânea com xis. É que ela estava apresentando o caso do vocalista do Twister, preso por porte de drogas, e num rasgo de espontaneidade chamou a 78º DP de sétima oitava. "Quero agradecer ao senhor Joaquim da Silva da sétima oitava delegacia." Tá vendo no que dá espontâneo querer falar difícil?

E aí ela estava entrevistando a Ângela Maria quando teve um outro ataque de espontaneidade: "Você era conhecida como a SAPÓTI brasileira". Sapoti virou sapóti? A sapóti da sétima oitava! Depois dizem que eu implico. E ela disse que quando criança fez um teste de QI. E deu QI de quatro? Ao contrário, diz que deu QI de gênio. Antagênico!

Ela não é transgênica, é antagênica!
Mas como disse um leitor: "Ela é anta, mas é gostosa". Corpo de sereia e QI de minhoca. Eu tô falando tudo isso porque ela comemorou aniversário no programa. E sabe o que ela ganhou do Alexandre Frota? Um filhote de pitbull. Socorro! Não falo mais nada!

A ciência caiu na gandaia! Essa deu na CNN: sexo oral diminui risco de câncer nas mulheres. O quê? Já falaram que pizza evitava câncer no estômago, cerveja fazia bem pros ossos e agora sexo oral evita câncer. O trio da alegria: Pizza, cerveja e chupeta! E mais esta agora: vinho evita infecção pulmonar. Sendo que já tinham anunciado que masturbação fazia bem para a próstata. Então ficamos assim: você come uma pizza, bate uma, bebe umas loiras geladas, pratica sexo oral e toma um garrafão de Sangue de Boi. Ou seja, HAJA SAÚDE!

Antitucanês, a Missão! Continuo na minha cruzada Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais dois exemplos irados de antitucanês. É que em Campinas tem um time de futebol da terceira idade chamado Real Matismo! E, em Itapema, Santa Catarina, tem aquela empresa A Pílula Falhou Confecção Infantil. Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Agregado": companheiro metido a grego. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!

simao@uol.com.br

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David Coimbra
31/10/2003


O seio direito

Ele sempre começava pegando no seio direito dela. Sempre. Depois, fazia tudo igual, todas as vezes. A seqüência jamais variava: seio direito, beijo na boca, dois gemidos, sexo civilizado. Nos primeiros dias, ela até gostava. Não que fosse arrebatador, mas era agradável. Mais tarde, passou a se impacientar. Será que ele nunca faria nada diferente?

Não. Nunca fazia. Seio direito, beijo na boca, dois gemidos... Tudo igual. Um dia, ela se irritou:

- Vem cá, tu nunca vai fazer nada diferente?

- Ahn? - ele sempre respondia ahn.

- É sempre seio direito, seio direito, seio direito. E, depois, a mesma seqüência. Quero algo diferente!

Ele coçou a cabeça, constrangido. Prometeu mudar.

À noite, na cama, estava nervoso. Os dois deitados, ele se aproxima, e se aproxima com a mão esquerda espalmada na direção do seio... direito! Ela entesa, deitada de costas. Arregala os olhos. De novo??? Ele pára. A mão fica suspensa no ar. Estaria em dúvida? A mão treme. Com esforço, com comovente esforço, ele começa a deslocar a mão do território do seio direito, devagar, devagar... Ele está suando. Morde o lábio inferior. Geme baixinho. Ele sofre. A mão trêmula agora paira acima do seio esquerdo, feito um helicóptero. Enfim, ele a abaixa, abaixa lentamente, muito lentamente e... pega no seio esquerdo!

Ela tem a respiração presa. Não se move, expectante. A mão dele está paralisada naquele seio esquerdo. É com hesitação que os dedos finalmente se mexem, cobrinhas ansiosas, e ele passa a afagá-la de leve. O suor lhe despenca em bagas pelo rosto, seus olhos estão esbugalhados, ele fala, primeiro num sussurro:

- Que loucura!

Depois mais alto:

- Loucura! Loucura!

Enfim grita:

- Loucura! Loucura! Loucura!

O resto é igual a sempre. E nos dias seguintes tudo continua igual, com exceção da mão no seio esquerdo. Passadas algumas semanas, ela se impacienta outra vez:

- Seio esquerdo, seio esquerdo! Tu não muda nunca?

Ele se sobressalta:

- Pede pra eu fazer diferente e agora quer tudo igual de novo?!?

Ela, boquiaberta, não responde. Ele olha para o teto. Parece refletir. Sorri:

- Louca! Tu és uma louca! Loucaloucaloucalouca!

E pega no seio direito, repetindo:

- Louca! Louca!

Ela ia protestar, mas não. Olha para ele: alucinado. Ela sorri. E sente orgulho de toda a aventura que, afinal, é capaz de proporcionar.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
31/10/2003


A dor do apagão

Livrai-nos, Deus, aqui em Porto Alegre, de um apagão como este sofrido por Florianópolis.

Só quem perde de repente a energia elétrica é que pode avaliar o quanto de vital ela significa para a civilização moderna.

Em Florianópolis foi atingida a educação, com os colégios suspendendo suas atividades.

Foi atingida a saúde, com os hospitais transferindo as cirurgias eletivas e transtornando as consultas e até os atendimentos ambulatoriais.

Foi atingida a segurança pública, com as tropas policiais postas em alerta para evitar saques e assaltos, sem falar na mais completa balbúrdia do trânsito, pela ausência das sinaleiras.

E é atingido principalmente o abastecimento de água, o que culmina a catástrofe.

Tudo é atingido, tudo entra em colapso.

E só é colapso quando dura apenas um dia. Se durar mais que isso, vira tragédia. Porque o pânico se instala na população, que desabastecida pelo fechamento do comércio passa a saquear os supermercados em busca de alimentos e artigos de higiene, as farmácias para conseguir medicamentos.

Cinco dias sem energia elétrica em qualquer agrupamento de mais de 50 mil pessoas vira guerra civil.

Eu, por exemplo, moro no 12º andar, como milhares de pessoas em Florianópolis.

Quem mora em andares altos, num apagão, é obrigado a descer e subir as imensas escadarias diversas vezes por dia.

Além disso, tem de carregar o peso das latas d'água pelas escadas, além dos outros gêneros necessários à sobrevivência.

Fiquei pensando nas toneladas de peixes e frutos do mar que são consumidos em Florianópolis, aquele mercado público tem uma banca desses produtos que faz inveja a nós, distantes do oceano. Com as câmaras frigoríficas paralisadas pela falta de energia, a solução seria o gelo.

Mas para fabricar gelo também é preciso energia elétrica.

Que problema.

Nada funciona dentro de uma casa sem energia elétrica. Talvez só o fogão, mas como acioná-lo sem o complemento indispensável do refrigerador?

Mas entre as grandes perdas humanas no apagão há que se salientar a televisão: as pessoas ficam aturdidas sem televisão, estão de tal forma viciadas na telinha que a vida perde o sentido para elas.

E logo em seguida, o gás que alimenta o liquinho para a iluminação, que move o chuveiro e o fogão, começa a ter problemas de abastecimento.

É nessas horas que a gente é obrigado a concordar em que os tempos modernos são muito mais confortáveis e felizes do que os antigos, uma discussão que sempre estabelecemos quando confrontamos as épocas primitivas, o homem em contato íntimo com a natureza, com os dias de hoje, quando fomos confinados a esses cubículos estreitos denominados de apartamentos, no centro de uma selva de pedra e de violência.

Pois num apagão destes é que se pode avaliar o quanto a vida dos dias de hoje é bem melhor.

O apagão torna o ser humano um errante.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Visita
A arte de Gil na Bienal do Mercosul



Numa visita relâmpago à Capital, o ministro dançou com as voluntárias de uma performance no Cais do Porto (foto Adriana Franciosi/ZH)


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Quinta-feira, Outubro 30, 2003




MANHA DO AMOR IGNORADO

Ontem era a inconsciência,
O tumulto de emoções estranhas,
Uma sucessão de momentos mágicos,
Mil vezes revividos depois,
Nas horas solitárias

Então, simples intervalos que precediam
A deliciosa ansiedade da espera.

Ontem havia música em cada ruído banal
E uma vibração intensa de vida em tudo...

Ontem havia você.

Hoje há em mim um silêncio profundo,
Uma grande imobilidade

E a certeza amarga de que você passou.

Você é agora algo insólito, intangível,
No entanto, estranhamente real,

Como um sonho, uma estrela,
Uma nuvem que oculta o sol.

Agora o que fazer
Das palavras de amor que nunca lhe disse?
O que fazer dessas carícias,
Paralisadas em minhas mãos?
O que fazer de tanta ternura inútil,

Tão inútil quanto um jardim que floresceu
Quando ninguém mais morava por perto?...

Você agora é pouco mais que uma saudade...
E eu lamento que seja assim...

Mas o que eu lamento, na verdade,
Não é você ter passado...

O que lamento é não ter acordado
Antes que você passasse,
Antes que você fosse apenas

Pouco mais que uma saudade.

Virgínia Vendramini

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ACALANTO INÚTIL PARA A TRISTEZA

Andei por aí de madrugada
Entre copos, risos, canções,
Brincando de ser contente,
Falando coisas banais.

Da mesa simples de um bar,
Fiz um berço
Pra este tédio impertinente,
Dormir ou me deixar.

E,

Pra acalentar a tristeza,
Cantei samba e fiz piada.

Mas,

Quando o dia chegou,
Fechando os olhos da noite,
Minha tristeza acordou
E me sorriu uma lágrima,
Dizendo:

Oi, amiga, bom dia!
"Que saudade de você"

Virgínia Vendramini

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Lucianta adverte: fumar causa asfixia de neurônio!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O braço armado da gandaia nacional. Direto da República da Língua Plesa! E diz que a indústria cresceu 6%. Só se for a indústria da aviação, de tanto que os ministros andam viajando. E depois do ataque das galinhas no Romário, o Fluminense mudou o nome do Estádio das Laranjeiras pra Galinheiras. Estádio das Galinheiras. E agora direto do país da piada pronta: sabe como se chama o goleiro de futebol de areia do Rio? MÃO!

E o site Kibeloco está sugerindo imagens mais chocantes para os maços de cigarro. Em foto do Maradona fumando, Ministério da Saúde adverte: fumar causa argentinismo. E uma foto da Monica Chupinsky: fumar o charuto errado causa perda do estágio e obesidade. Rarará! E uma foto do Bob Marley fumando maconha: fumar causa... causa... causa o que, mesmo? E eu sugiro que coloquem uma foto da Lucianta Gimenez: fumar causa asfixia dos neurônios. Aliás, diz que perguntaram pra Lucianta: "Como é o nome do seu pai e o nome da sua mãe". "Uma pergunta por vez, por favor."

E o diálogo do Zé Dirceu com a Benedita. Zé Dirceu: "A senhora anda muito avoada". "Mas eu só avoei pra Argentina e pra levar as palavras do filho de Deus." E o Zé: "Não bota o meu filho no meio". E a Benê: "Estou pensando em fazer uma viagem para Veneza". "Chega! Basta, A senhora vai é pro inferno." "Buenos Aires de novo?" Rarará! E sabe como já estão chamando o espetáculo do crescimento? Vara Zero! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

Ataque das Loiras. É que no Debate Bola a Renata Fan disse que o São Paulo vai jogar na Bolívia contra o The Strongest, que quer dizer "o mais forte" no idioma local. Sendo que o idioma local da Bolívia é língua indígena. E não são indígenas norte-americanos. Longe disso! É mole? É mole, mas sobe!

Antitucanês, a Missão. Continuo na minha cruzada Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais dois furiosos exemplos de antitucanês. É que em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, tem um motel chamando "Ninguém é de Ninguém". E em Cabedelo, na Paraíba, tem um bar sem sanitário chamado Bar do Mijo. Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais dois verbetes pro óbvio lulante. "Antagonismo": agonia de uma anta. "Testosterona": texto pra macho. Rarará! O lulês é mais fácil do que o inglês!

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! No pingolim!
Pra ver se bate no teto!
UFA!

simao@uol.com.br

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Nilson Souza
30/10/2003


Além da mesa

Era domingo, tinha sol, e as flores da primavera explodiam no arvoredo da rua.

Ninguém deveria ter pressa num dia assim, mas a moto surgiu de repente pela direita, saindo daquele ponto cego da lateral do carro que nenhum retrovisor sintoniza. Levei um susto, mas o piloto nem se deu conta. Seguiu célere e ruidoso, com a sua carga de quatro queijos e muzzarela, furando sinais e atravessando pedaços de calçada para chegar logo ao seu destino - e voltar ainda mais rapidamente para pegar outra encomenda.

Pensei: fast-food é isso. Comida rápida, vida rápida. Ou vida urgente, como sugere o meritório movimento dos Gonzagas, no seu quase quixotesco, mas maravilhoso, trabalho de conscientizar os jovens da noite.

Pois em contraposição ao fast-food apareceu na Europa o Slow Food, um movimento cultural que parte da idéia de comer devagar e envolve comportamento, filosofia de vida, posicionamento diante do mundo. A proposta é fascinante: comer e beber devagar, saboreando os alimentos e o convívio dos familiares e amigos, estendendo esta atitude para a atividade profissional. E não se trata de uma apologia à preguiça, nem do ócio criativo do sociólogo italiano aquele.

É muito mais uma decisão pela sensatez, baseada no questionamento da "pressa" e da "loucura" geradas pela globalização, pelo apelo à "quantidade do ter" em contraposição à qualidade de vida ou à "qualidade do ser".

O tema foi abordado pela edição européia da revista Business Week, com argumentos convincentes. Um deles é o de que os trabalhadores franceses, embora trabalhem por um período menor de tempo (35 horas por semana), são mais produtivos que americanos e ingleses. Também conta que os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer em 20%.

Em resumo, agir sem pressa não significa fazer menos, nem ser menos produtivo. Significa - de acordo com as informações que recebi sobre a Slow Food International Association - fazer bem as coisas, trabalhar com mais qualidade, dar atenção aos detalhes e reduzir o estresse. Significa, também, retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das coisas simples, do local em contraposição ao global. Significa ainda a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé.

Se aquele motoqueiro soubesse de tudo isso, aposto que desacelerava.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
30/10/2003


O futuro não é mais o que era

Se todas as previsões feitas no passado sobre como seria a vida no começo do século 21 dessem certo, cada um de nós teria um helicóptero - ou coisa parecida - na garagem, e para viagens mais longas só usaríamos aviões supersônicos. Os Volkswagens voadores não vieram, para não falar nas megalópoles superorganizadas com calçadas rolantes e no mundo em paz permanente e sem pragas, mas o Concorde parecia ser um sinal de que pelo menos parte da visão se cumpriria, mesmo com atraso. Era um protótipo que, com o tempo, se aperfeiçoaria e democratizaria. Seus defeitos eram desculpáveis, tratando-se de um protótipo.

Fora as críticas irrelevantes (sim, querida, o caviar é Béluga, mas com a granulação errada), o pior que se dizia de uma viagem no estreito Concorde, com suas poltronas apertadas, era parecido com o que aquele inglês disse do ato sexual: o prazer é fugaz e a posição é ridícula. Tudo isso seria corrigido com o tempo, inclusive o seu maior defeito, o preço das passagens, só acessível a quem distingue grão de caviar.

Mas o Concorde acabou antes de poder ficar viável. E o que se chora não é o fim de uma máquina muito cara e talvez desnecessária, mas de um sonho: o que a vida poderia ser se todas as possibilidades abertas pela ciência e a tecnologia depois da I Guerra Mundial tivessem dado em outro mundo. As idílicas previsões dos anos 20 e 30 pressupunham um progresso da mentalidade humana comparável ao da sua técnica.

Não aconteceu. Não por acaso a decisão final sobre a impossibilidade do Concorde coincide com uma desilusão terminal com o papel da ONU, que também frustrou expectativas antigas. No fim, do que a gente mais sente falta, do passado, é o seu futuro. O Concorde podia ser só uma extravagância feita para quem quisesse almoçar em Paris e almoçar de novo em Nova York. Mas morreu com a dignidade de um símbolo, no caso do fim prematuro de um século que só ficou na imaginação.

Mas, enfim, o futuro imaginado no passado não incluía uma palavra, uma pista, uma sugestão que fosse da grande revolução da informática que viria e ninguém previu. Quer dizer, já era um futuro obsoleto.

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Paulo Sant'ana
30/10/2003


SEC arrasa diretora

Lembram-se daquela polêmica travada aqui na coluna sobre a autonomia que as direções de escolas públicas têm - ou não têm - para punir seus alunos?

Aos fartos arrazoados sobre a competência nítida das direções das escolas para advertir, suspender ou expulsar alunos, várias professoras e diretoras de escolas mandaram dizer que não era bem assim.

Alegavam que as decisões disciplinares das diretoras das escolas eram desautorizadas pela Secretaria Estadual da Educação, pelos conselhos tutelares e pelos Juizados da Infância e da Juventude.

Na ocasião, afirmou aqui por esta coluna o juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude, bel. Breno Beutler Junior, que "em nenhum ponto do Estatuto da Criança e do Adolescente há determinação de impedimento por parte das escolas de advertir, suspender ou até expulsar os seus alunos. O que deve haver, especialmente quanto à expulsão, é comedimento, por tratar-se de medida extrema. Essas providências contudo, são da competência das direções das escolas, nos casos disciplinares".

Pois bem, agora o mesmo magistrado, juiz Breno, manda correspondência a esta coluna dizendo que anteontem recebeu um telefonema de uma educadora dando conta de que a direção de sua escola havia suspenso um aluno por indisciplina. E que logo em seguida a diretora da escola foi convocada a comparecer à Secretaria Estadual da Educação, onde lhe foi determinado que voltasse atrás na suspensão e, mais ainda, que comunicasse a família do aluno, por telefone, da sua nova decisão. A fundamentação para a medida de volta às aulas do aluno foi simplesmente a "de que não pode o aluno ser suspenso ou expulso".

Escreve para a coluna o juiz: "Fiquei pasmo, por dois motivos. Pelas razões da reforma da decisão e pela humilhação a que foi submetida a diretora, encarregada de dar a notícia da revogação da medida aos interessados. Imagina esse rapaz retornando para a escola, hoje, chamado pela própria direção da escola. Estará esse rapaz investido de um incomensurável poder. Nem a autoridade administrativa e disciplinar máxima, ali, terá poderes sobre ele. Ele, ao contrário, estará acima dessa autoridade... Sem coerção, não há limites, sem limites não há educação. Sem educação, não há futuro, para ele e para os que o cercam, para a sociedade a que ele pertence".

Por isso é que é bom o debate. Muitas professoras e diretoras alegaram nesta coluna que suas decisões disciplinares eram revogadas pela SEC, pelos conselhos tutelares e pelos Juizados da Infância e Juventude. Com isso, elas se desmoralizavam quando puniam os alunos e ficavam impotentes para coibir a disciplina, virando o ambiente escolar um império da desordem.

O próprio juiz da Infância e Juventude que me escreveu ontem admitiu: "Quero te informar, ainda, que já revisei decisões de expulsões, por entender desproporcionais às infrações que lhes deram causa. E mantive outras, quando me afiguraram adequadas. Digo isso apenas para que percebas que não estou teorizando sobre este tema. Peço que me perdoes a extensão desta manifestação, mas não consigo calar frente a um quadro destes".

Como se vê, tinham razão as professoras que reclamavam de falta de autonomia para punir os alunos por indisciplina.

Admite-se até que os atos punitivos sejam revisados pela Justiça, é constitucional o exame jurisdicional de qualquer lesão a direito.

Mas se a SEC se investe também da autoridade de derrubar decisões disciplinares das escolas, certamente os conselhos tutelares vão no mesmo caminho.

E as pobres das professoras e diretoras que estão lá nas escolas lidando no cotidiano com os desordeiros e indisciplinados de toda ordem que se ralem e se desmoralizem.

Muito se entende melhor, agora, a insolência e atrevimento reinantes dos alunos violentos e desordeiros.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Energia
Florianópolis sofre seu maior blecaute



Luzes iluminam a parte continental da capital catarinense e metade da ponte Hercílio Luz depois que explosão danificou cabos e interrompeu energia da ilha (foto Ulisses Job, Agência RBS/ZH)


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Quarta-feira, Outubro 29, 2003




PARA ONDE VÃO OS VERSOS

Para onde é que vão os versos
que às vezes passam por mim
como pássaros libertos?.

Deixo-os passar sem captura,
vejo-os seguirem pelo ar
- um outro ai, de outros jardins...

Aonde irão? A que criaturas
se destinam, que os alcançam
para os possuir e amestrar?

De onde vêm? Quem os projeta
como translúcidas setas?

E eu, por que os deixo passar,
como alheias esperanças?

Cecilia Meireles

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R E T R A T O

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecilia meireles

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Destino

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
Por uma campina desamparada

Que não principia e também não termina,
Onde nunca é noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vós tendes sossego,
Que olhais para o sol e encontrais direção.

Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
Não há quem me explique meu vário rebanho.

Perdida atrás dele na planície aérea,
Não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.

(Pastores da terra, que saltais abismos,
Nunca entendereis a minha condição.

Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, cada luz colore
Meu canto e meu gado de tintas diversas.

Por todos os lados o vento revolve
Os velos instáveis das reses dispersas.

(Pastores da terra, de certeiros olhos,
Como é tão serena a vossa ocupação!

Tendes sempre o indício da sombra que foge...
Eu, não.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
Do dono das reses, do dono do prado.

E às vezes parece que dizem meu nome,
Que me andam seguindo, não sei por que lado.

(Pastores da terra, que vedes pessoas
Sem serem apenas de imaginação,

Podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
Sigo atrás de formas com feitios falsos,

Queimando vigílias na planície eterna
Que gira debaixo dos meus pés descalços.

(Pastores da terra, tereis um salário,
E andará por bailes vosso coração.

Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)

Cecília Meireles

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Muita vontade de viver
Vítimas de acidentes, jogador de futebol que perdeu a perna esquerda e professora que ficou sem as duas mostram determinação e otimismo



Orlando(C) levou os filhos Orlando Neto e Letícia para visitar a mãe, Andrea: o reencontro após a tragédia

Os sonhos foram interrompidos, mas a vontade de viver não. Vítimas de acidentes que os deixaram mutilados, a professora Andrea Lisboa Salgado, 33 anos, e o jovem Leonardo Rodrigues da Silva, 19, dão exemplo de força e determinação e já fazem planos para o futuro.

A professora, que teve as pernas amputadas em conseqüência de um atropelamento de lancha, em Itacuruçá, sábado, disse ontem aos filhos, Orlando Neto, 7, e Letícia, 4, no primeiro encontro após a tragédia, que sua vida não iria mudar e que apenas ganharia novas pernas. O acidente com o barco deixou um morto, o estudante Gabriel Borges Soares Silva, 16.

Já Leonardo, atropelado há dez dias com outras cinco pessoas em Nova Iguaçu por um Tempra desgovernado, descobre que a perda de uma perna lhe roubou a chance de jogar futebol, mas não o convívio com a bola. Ele, agora, quer ser técnico.

O jovem teve a perna esquerda amputada às vésperas de fazer um teste para jogar no América. Eu ia conseguir. Sou bom jogador. Agora, quero ser técnico, diz Leonardo, que calçou as chuteiras pela última vez, no dia do acidente. Ele estava a 500 metros de casa quando o Tempra desgovernardo esmagou sua perna. O acidente provocou a morte de uma criança e mutilações em outras três vítimas. O motorista dirigia sem habilitação.

Andrea e Leonardo sabem que vão levar um tempo para voltar a ter uma rotina normal. Mas procuram não esmorecer. Ontem, ela já dizia ao filho, durante visita da família ao hospital em que está internada, em Jacarepaguá, que não deixaria de levá-lo à escola e nem à natação. Segundo o marido da professora, Orlando Costa Salgado Júnior, 36, ela falou para os parentes não ficarem preocupados.

Vocês estão se prendendo ao que eu perdi. Põe na tua cabeça o seguinte: eu ganhei uma vida nova e estou feliz por estar viva. Se você tiver dinheiro para comprar as próteses que o médico já conversou comigo, eu vou aprender a andar e a gente vai cuidar dos nossos filhos e da casa¿, disse ela ao marido.

Após revelar o diálogo com a mulher no programa da apresentadora Ana Maria Braga, na manhã de ontem, Orlando recebeu a solidariedade do empresário paulista Nelson Nolet, que ofereceu as próteses. Segundo o marido, Andrea ficou mais forte ao ver os filhos. Ela está feliz por ter ganho outra vida e sua força segura toda a família, contou, lemb