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Sábado, Janeiro 03, 2004




Das três formas de amor: Eros

Em 1986, enquanto fazia o caminho de Santiago com Petrus, o meu guia, passamos pela cidade de Logrono enquanto se realizava um casamento. Pedimos dois copos de vinho, preparei um prato de canapés, e Petrus descobriu uma mesa onde pudéssemos sentar junto com outros convidados.

O casal de noivos cortou um imenso bolo.

Eles devem se amar ¿ pensei em voz alta.

É claro que eles se amam ¿ disse um senhor de terno escuro que estava sentado na mesa. Você já viu alguém casar por outro motivo?

Mas Petrus não deixou passar a pergunta:

A que tipo de amor o senhor se refere: Eros, Philos ou Ágape?

O senhor olhou sem entender nada.

Existem três palavras gregas para designar o amor ¿ disse ele. ¿ Hoje você está vendo a manifestação de Eros, aquele sentimento entre duas pessoas.

Os noivos sorriam para os flashes e recebiam cumprimentos.

Parece que os dois se amam. Dentro de pouco tempo estarão lutando sozinhos pela vida, vão montar uma casa, e vão participar da mesma aventura: isto engrandece e torna digno o amor. Ele vai seguir sua carreira, ela deve saber cozinhar e será uma excelente dona-de-casa, porque foi educada desde criança para isto. Vai acompanhá-lo, terão filhos, e se conseguirem construir alguma coisa juntos, serão realmente felizes para sempre.

¿De repente, entretanto, esta história pode acontecer de maneira inversa. Ele vai começar a sentir que não é livre o suficiente para manifestar todo o Eros, todo o amor que tem por outras mulheres. Ela pode começar a sentir que sacrificou uma carreira e uma vida brilhante para acompanhar o marido. Então, ao invés da criação conjunta, cada um irá sentir-se roubado em sua maneira de amar. Eros, o espírito que os une, irá começar a mostrar apenas seu lado mau. E aquilo que Deus havia destinado ao homem como seu mais nobre sentimento, passará a ser fonte de ódio e destruição.

Olhei em volta. Eros estava presente em vários casais. Mas eu podia sentir a presença de Eros Bom e Eros Mau, exatamente como Petrus havia descrito.

Repare como é curioso ¿ continuou meu guia. Apesar de ser bom ou ser mau, a face de Eros nunca é a mesma em cada pessoa.

A banda começou a tocar uma valsa. As pessoas foram para um pequeno espaço de cimento em frente ao coreto para dançar. O álcool começava a subir e todos estavam mais suados e mais alegres. Notei uma menina vestida de azul, que deve ter esperado este casamento apenas para que chegasse o momento da valsa, porque queria dançar com alguém com quem sonhava estar abraçada desde que entrou na adolescência. Seus olhos seguiam os movimentos de um rapaz bem vestido, de terno claro, que estava numa roda de amigos. Eles conversavam alegremente, não haviam percebido que a valsa tinha começado, não notavam que a alguns metros de distância uma menina de azul olhava insistentemente para um deles.

Pensei nas cidades pequenas, nos casamentos sonhados desde a infância com o rapaz escolhido.

A menina de azul reparou meu olhar e saiu de perto. E como se todo o movimento estivesse combinado, foi a vez do rapaz procurá-la com os olhos. Ao descobrir que ela estava perto de outras garotas, voltou a conversar animadamente com os amigos.

Chamei a atenção de Petrus para os dois. Ele acompanhou durante algum tempo o jogo de olhares, e depois voltou ao seu copo de vinho.

Agem como se fosse uma vergonha demonstrar que se amam ¿ foi seu único comentário.

Outra menina olhava fixamente para nós dois: devia ter metade de nossa idade. Petrus levantou o copo de vinho, fez um brinde, a garota riu encabulada, e fez um gesto apontando para os pais, quase se desculpando por não chegar mais perto.

Este é o lado belo do amor ¿ disse. O amor que desafia, o amor por dois estranhos mais velhos que vieram de longe, e amanhã já partiram por um caminho que ela também gostaria de percorrer. O amor que prefere a aventura.
(na próxima semana: Philos e Ágape)

Publicado em 04 de janeiro de 2004 Versão impressa

Paulo Coelho
autor@paulocoelho.com.br

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Por que as resoluções de Ano Novo não funcionam?

"A vida não muda com a virada de uma folha de calendário. A única maneira de mudar a vida é mudarmos." (George Christoph, escritor alemão)

Cada ano que se aproxima do final nos leva à prática de um antigo ritual, as famosas resoluções de final de ano. Na semana entre o Natal e o Ano Novo, fazemos sérias considerações sobre como ser uma pessoa melhor e tratamos de fazer algumas anotações. Se somos realmente pessoas sérias, produzimos uma longa lista de coisas a serem realizadas no ano seguinte.

O processo mental por trás desse fenômeno parece assim: o dia de Ano Novo não é só o início de um novo calendário, como também nos faz lembrar da importância dos novos começos.

O nascimento de uma criança, o primeiro automóvel, a paixão intensa de um novo relacionamento - tudo isso insufla em nós uma corrente de ar fresco. Começos vêm sempre acompanhados de uma grande variedade de emoções. Está sempre presente um elemento de excitação e de surpresa. O desconhecido envolve um certo aspecto de mistério. Na novidade há também um toque de medo e de apreensão. É como navegar por mares nunca d antes navegados.

São muitos os que fazem propósitos de Ano Novo. Prometem a si mesmos que essa ano será diferente. "Eu realmente vou começar a economizar para a minha aposentadoria. Eu realmente vou perder peso e vou manter a forma. Eu vou ficar mais tempo com minha família. Eu vou tirar trinta dias de férias. Eu vou pagar todas as minhas dívidas. Eu vou... eu vou...". E, é lógico, tudo isso psicologicamente direcionado com muitíssimo prazer no primeiro dia do Ano Novo. Mas, ah, como se acaba facilmente todo esse fervor!

Você tenta avaliar o que realizou no ano que passou e é obrigado a enxergar a dura realidade. O tempo passou e você, mais uma vez, desperdiçou as oportunidades que lhe foram dadas para encontrar a sua felicidade. Compromissos e mais compromissos lhe trazem uma carga de responsabilidade que você havia subestimado.

Na contabilidade de suas ações, encontra uma série de atividades rotineiras e que expressa uma dimensão puramente quantitativa de sua vida; trabalhou tantos dias, dormiu tantas horas, foi tantas vezes a tal lugar, foi promovido, foi tantas vezes à igreja, poupou tanto...

Mas difícil é verificar que os filhos cresceram e você não tece tempo para acompanhá-los em sua vida. Estava muito ocupado com sua carreira, e agora tudo é mais difícil, pois eles também não têm tempo para você. Orientados por seu sonhos, buscam seus momentos de alegria que se afastam dos seus. E você vê neles o você de ontem.

Planos
Adiou mais uma vez aquele plano, pois lhe pareceu egoísmo demais pensar em você. O que os outros iriam pensar se, de repente, o "pegassem" pensando em sua própria felicidade? Quanto egoísmo, não é?

Viu companheiros sendo promovidos enquanto amargava a estagnação, pois não teve tempo (ou interesse!) para se desenvolver.

E lá se vão mais sonhos para povoar o fundo do baú.

Na hora em que você deitar sua cabeça no travesseiro, eles o cobrarão, bem despertos. Afinal, eles só existem porque você existem porque você existe. E só existem para você.

As horas que você perdeu ontem não retornarão jamais. São como os raios de sol que bafejam na sua face por breves instantes e depois se recolhem por trás dos montes levando com eles a seiva da vida.

Entre o quantitativo e o qualitativo, a pessoa influenciada pelas resoluções de Ano Novo só lembra do fazer e não do ser. Leva a vida como uma incessante repetição de atividades rotineiras pelos seus papéis: pai, mãe, executivo, filho, aluno, professor.

Acorda no mesmo horário todos os dias, veste o seu traje padronizado, marca a sua presença no local de trabalho como autômato pré-programado. Sai percorrendo os mesmos roteiros: janta, lê (quando lê), assiste televisão, dorme e acorda no mesmo horário. Tudo certinho!

A sua volta, as oportunidades afloram e são negligenciadas. Você diz: a partir de agora será diferente... vou..., planos e planos. O que lhe falta? Porque estas resoluções tão positivas não se convertem em mudanças efetivas?

A felicidade não é gerada por um ano, é gerada por homens e mulheres. A vida não muda com a virada de uma folha do calendário. A única maneira de mudarmos a vida é mudarmos a nós mesmos.

Por que você desiste antes mesmo de ter dado os primeiros passos?

Eu gostaria de sugerir uma nova frase que podemos usar para nos saudarmos o Ano Novo: "Feliz você novo!".

Daniel Luz é bacharel em Filosofia, autor do livro "Insight" (editora Vida e Consciência).

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No ano que está nascendo...

Agora tudo volta ao normal. A euforia das festas passou e, neste ano que está nascendo, vem com ele também a esperança renovada, a vontade de que tudo dê realmente certo pra todo mundo, seja no amor, no trabalho, na vida familiar, enfim. A garotinha que escolhemos para abrilhantar a capa de hoje reflete bem esse nosso desejo - meu e de toda a equipe do MULHER, de que a esperança, o sorriso, a alegria de viver invada todos os seus dias.

Por aqui, a expectativa é de um ano ótimo. Voltamos com as idéias renovadas, muitos a projetos a realizar para o nosso caderno MULHER. Que bom! Temos a sensação de que temos ainda muito a explorar, a desbravar, a enfrentar. E que possamos fazê-lo sempre com a alegria que tão bem um rosto de criança expressa, com a sinceridade e a transparência que só os pequenos têm, com a coragem, a alegria e esperteza da garotada. E claro, com o apoio dos nossos leitores, dos nossos amigos, dos nossos familiares, que sempre nos empurram pra frente, porque é assim que a vida tem de ser.

E como a música move a minha vida e as letras do Guilherme Arantes são todas inspiradoras, reproduzo nesta página a letra da canção "Cuide-se Bem". Leia, reflita, cante, dance e seja feliz!

Marta Vicentin

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NOTAS ESPARSAS

Fátima Irene Pinto

- Aquilo que realmente é, salta aos olhos.
Não é preciso que se diga ou que se alardeie.

- Amigo é aquela pessoa para quem você conta seus sucessos sem sentir-se cabotino e seus fracassos sem sentir-se miserável.

- O melhor remédio para um ego inflado e soberbo ainda é a humilhação.

- Quando se pratica a oração e a gratidão com todas as forças da Alma, o Universo vibra!

- Não se pode esperar coerência e retidão de uma pessoa acuada.

- A ironia é quase sempre a resposta dos que não têm respostas.

- Filhos são as mais preciosas ferramentas de auto-aprimoramento que recebemos da vida.

- O silêncio é uma forma branda porém letal de tortura e violência.

- Para além do nosso livre arbítrio há um destino que se cumpre inexoravelmente.

- Bom temperamento não é sinônimo de bondade.Mau temperamento não é sinônimo de maldade.

- O pior inimigo não é o que pôe em risco a tua vida, nem o que esvazia o teu bolso, nem o que macula a tua reputação.
O pior inimigo é aquele que te faz desacreditar de Deus e aniquila a tua fé.

- A mais bela obra de arte, a mais comovente sinfonia, o mais perfeito poema, não são certidões do carater ilibado de seus autores.

- A melhor maneira de saber quem você é, é observar como são as pessoas que estão com você ha pelo menos 10 anos.

- Quem faz sucesso é a minoria que ousa sair da área de conforto.
Estudam mais, dedicam-se mais, arriscam-se mais e sobretudo, aprendem a suportar o peso do sucesso com humildade.

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Mudanças Internas

Fátima Irene Pinto

Antes eu esperava ter amor por mim mesma para depois dá-lo a outrem.
Tenho observado que, dando o amor que não tenho, surpreendo-me plena do amor que me falta.

Antes eu esperava possuir bens ( materiais, culturais, espirituais) para reparti-los com meu próximo. Tenho percebido que o pouco que reparto com generosidade, me enquadra dentro de uma lei universal - é dando que se recebe.

Antes eu esperava estar centrada e bem resolvida para exercer o otimismo e distribuir palavras de esperança e fé.
Tenho verificado que quando eu o faço, ainda que dentro de mim haja uma tempestade, o meu inconsciente registra e grava estas impressões e,
sem que eu perceba, minha harmonia interior é reconquistada.

Antes eu esperava passar o furor da mágoa e do ressentimento para perdoar. Tenho notado que repetindo diversas vezes a palavra Perdão,
ainda que sem muita convicção, os sentimentos de mágoa e ressentimento perdem completamente a força e minha alma sente-se abrandada.

Antes, se adoentada, eu esperava a saúde voltar para botar as mãos na massa. Tenho constatado que, mesmo dentro de algumas limitações físicas,há algo que se pode fazer.
Por pouco que seja, devolve-me a abençoada sensação de ser útil,
tocando o instrumento que me compete na grande sinfonia da vida e isto é metade da cura, senão toda ela.

Antes eu esperava estar feliz para distribuir sorrisos.
Descobri que sorrindo, mesmo com uma lágrima pendurada no canto do olho, nos sorrisos que recebo de volta, eu encontro forças para enxugar as minhas próprias lágrimas.

Antes eu esperava receber um benefício para agradecer.
Hoje eu agradeço por antecipação, agradeço tudo: as pessoas, a família,
o trabalho, as circunstâncias. Agradeço até mesmo os revezes e os ventos contrários e descubro que só assim, eu mantenho abertos os canais por onde fluem o infinito amor de Deus e as bênçãos universais.

Bretagne-SP
Setembro 2003

Dedicado a Sally e Dirce Krasovick

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Diogo Mainardi
Abacaxi com caroço

"Quando alguém quer provar que o Brasil tem saída, sempre menciona Machado de Assis, como se um único escritor resgatasse séculos de falta de talento. Ele virou um álibi para o nosso fracasso"

Caetano Veloso me chamou de abacaxi com caroço. Foi numa entrevista coletiva para promover o lançamento de um DVD. Ele passou metade da entrevista falando mal de mim e de Paulo Francis. Como falar mal de nós não ajuda a vender DVD, acredito que tenha sido apenas uma maneira dissimulada de bajular o governo.

Para Caetano Veloso, represento a parte deteriorada da cultura brasileira. Um derrotista, um entreguista, um colaboracionista, pronto a acolher o usurpador estrangeiro. Junto com Paulo Francis, de quem sou um mero subproduto, formo o time dos traidores da pátria. Do lado oposto, defendendo o escrete canarinho, Caetano Veloso, imodestamente, escalou a si mesmo, em companhia de Machado de Assis, Glauber Rocha e Chico Buarque. Encontram-se aí, segundo ele, as duas correntes contrapostas do pensamento nacional: os americanófilos que condenam o Brasil a uma posição de eterno servilismo e os artistas que, com suas obras, colocam o país no centro do mundo.

Caetano Veloso está certo, claro. Meu maléfico plano é derrubar o presidente e transformar o Brasil num protetorado americano. Quanto mais dependente, melhor. Em minha empreitada, tiro de letra o próprio Caetano Veloso, Glauber Rocha e Chico Buarque. Difícil é enfrentar Machado de Assis. Quando alguém quer provar que o Brasil tem saída, sempre menciona seu nome. Como se um único escritor resgatasse cinco séculos de falta de talento. De geração em geração, Machado de Assis renova a crença em nossas capacidades, como se suas conquistas individuais, isoladas, pudessem indicar atributos coletivos. Ele virou um álibi para o nosso fracasso.

Eu nunca havia considerado Machado de Assis como um inimigo. Ingenuamente, aliás, eu supunha que ele estivesse do nosso lado, comandando o nosso time, na qualidade de o maior e o mais prestigioso abacaxi com caroço do Brasil. Basta ver a maneira impiedosa como ele retrata nossos compatriotas em seus últimos livros. Uma gente mesquinha, boçal, parasitária, que combina pieguice com selvageria. Ninguém trabalha, exceto os escravos, que só aparecem como moeda de troca. Os ideais que circulam nos meios intelectuais são um pastiche grotesco daquilo que os europeus enterraram no século anterior.

Machado de Assis jamais demonstrou grande fé no futuro do Brasil. Na verdade, ele era de um ceticismo que beirava o reacionarismo. Desconfiou de todas as transformações ocorridas em sua época, como a abolição da escravatura e a proclamação da República. Nunca se deixou contaminar pelo otimismo panglossiano dos brasileiros, evitando aquela euforia irracional que, ao longo de nossa história, sempre resultou em alguma forma de abuso.

Como se sabe, existe outro Machado de Assis: o politiqueiro e conchavista da Academia Brasileira de Letras, entranhado fisiologicamente nas instituições do Estado, acovardado diante do poder político. Esse Machado de Assis brejeiro não me interessa. Caetano Veloso pode ficar com ele.

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O ano do fim das ilusões

"Em 2004 os desafios do governo serão ainda mais formidáveis que em 2003. O crescimento vai depender do investimento privado e caberá ao governo praticar políticas pró iniciativa privada"

O ano de 2003 foi de enlouquecer os que vivem de fazer previsões. Há paradoxos, surpresas e desafios de interpretação por toda a sua superfície. Foi horrível em matéria de crescimento, talvez mesmo negativo, mas termina com um aroma de otimismo meio inexplicável, talvez cansaço, ou torcida, não tanto por indicadores objetivos. E o que vale mesmo é a sensação, não a estatística.

A balança comercial foi o espetáculo, e graças à impressionante, e não menos preocupante, desvalorização cambial ocorrida a partir de meados do ano passado. Sim, é bom ter superávit comercial quando a conta de capitais parece um deserto, mas não se pode esquecer que, em dosagens maiores que a ideal, a desvalorização é recessiva, comprime os salários, piora a distribuição de renda e enfraquece os incentivos empresariais para a busca de maior produtividade, pois seus efeitos são em tudo idênticos aos de uma tarifa protecionista.

Ilustração Ale Setti

A explosão do câmbio não foi obra do acaso, tampouco do Banco Central: teve a ver com uma espécie de "bolha negativa" que se armava em meados de 2002 em razão das terríveis expectativas que existiam sobre o que seria a política econômica do PT. Essa "bolha" começou a inchar meses antes de abertas as urnas, e atingiu seu ápice no colo de FHC, que nada podia fazer, pois todo o problema era com o medo de piruetas heterodoxas por parte do PT. Só mesmo o próprio PT para furar essa "bolha", o que acabou sendo feito de forma diligente e determinada a partir do acordo com o FMI em 2002, e ao longo de 2003 através da adoção surpreendentemente convicta do que os radicais do PSDB (para não falar dos petistas) chamavam de "fernando-malanismo". Quem poderia esperar que o ex-prefeito de Ribeirão Preto, médico de profissão, formasse uma equipe tão "ortodoxa" e estranha ao PT?

O fato é que o ano de 2003 termina com o governo embriagado com o aplauso do mercado à manutenção de políticas de responsabilidade fiscal e disciplina monetária que, como bem sabemos, foram depredadas de forma impiedosa e oportunista pelos economistas do PT nos últimos anos. Quem se importa? O presidente repete orgulhoso que a inflação foi dominada, o risco Brasil caiu de 24% para 5% e as linhas comerciais externas voltaram. É verdade, mas seria hipócrita dizer que essas vitórias têm a ver com idéias petistas, ou com "mudanças" introduzidas pelo novo governo diante da falência do anterior. Antes pelo contrário, os mercados foram pacificados porque o PT se despiu de seu passado, abandonou sua coerência e renegou tudo o que disse da política econômica do governo passado.

Foi um ano de ouro para o mercado financeiro, inclusive e principalmente porque ninguém esperava. O C-Bond quase dobrou de preço, beirando seu valor de face, e a bolsa triplicou de valor em dólares. É verdade que as condições internacionais favoreceram essa volta à normalidade dos preços dos ativos brasileiros, mas papel fundamental coube à surpreendente continuidade de políticas macroeconômicas convencionais e ao também inesperado avanço das mesmas reformas que o PT combateu tenazmente nos últimos anos.

Em 2004 os desafios serão ainda mais formidáveis. Se em 2003 o governo enfrentou a senadora Heloísa Helena, em 2004 será a vez da professora Maria da Conceição Tavares. Em 2004 o crescimento só virá se for cumprida uma extensa agenda que tem sido chamada de "microeconômica". Trocando em miúdos, como não há dinheiro para investimentos públicos, o crescimento vai depender do investimento privado. Trata-se, portanto, de praticar políticas pró iniciativa privada no varejo, em todos os setores e esferas regulatórios. Se queremos formação de capital, temos de agradar ao capital, um desafio monumental para um partido de embocadura estatista, avessa ao mercado e à globalização. Será, como em 2003, mudar ou perder o trem, deixar-se atropelar pela decepção dos mercados, que pode ser tão devastadora quanto foi irresistível a aclamação em 2003.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central gfranco@palavra.com www.gfranco.com.br

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A volta do balanço
Nem música eletrônica, nem house. A balada de 2004 será no ritmo da black music

Laura Ancona Lopez
Colaborou: Thiago Asmar, do Rio


Fernanda e Priscila curtem a pista do Ibiza, em São Paulo, enquanto a modelo Juliana ouve o som do DJ Mau, do Macao: ritmo contagiante

O público brasileiro que frequenta casas noturnas vê o crescimento de um estilo musical que agita as noites européias e americanas há cerca de três anos: a black music. Até há pouquíssimo tempo, o que imperava na maior parte das pistas de dança do País era o bate-estaca da música eletrônica. Não que o movimento esteja em decadência ainda há muitas casas que dão preferência ao techno, mas cada vez mais o ritmo do rap, vindo do hip hop, por exemplo, conquista adeptos por aqui.

Tanto que os proprietários do ramo de entretenimento apostam no som como a promessa para 2004. Em São Paulo, são raras as boates que não têm uma noite dedicada à black music. Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte, entre outras capitais, também se renderam ao ritmo contagiante do hip hop verdadeiro estilo de vida que surgiu em meados da década de 70 nos guetos de Los Angeles e Nova York.

O hip hop é composto por quatro elementos: o MC ou rapper, aquele que entoa as canções, o DJ, que define a batida da música, o break, uma dança sensual cadenciada, e o grafite, a expressão visual. Surgiu na periferia como forma de protesto às péssimas condições sociais, mas logo se popularizou e caiu no gosto também das classes média e alta. Antigamente, os proprietários de casas noturnas não queriam abrir suas portas para a música dos guetos. Hoje em dia, isso está tão invertido que quem não abrir fica por fora, conta o cineasta Felipe Briso, autor do documentário Agosto Negro 2003 hip hop salva.

A casa noturna Ibiza, em São Paulo, dedica sua noite de quarta-feira à música black. O projeto teve início em dezembro de 2003, com enorme sucesso: quase duas mil pessoas lotam as três pistas de dança, comandadas por DJs das rádios Transamérica, Jovem Pan e 97 FM. Tudo sob a tutela do produtor musical Primo Preto, um dos precursores em trazer o estilo musical para a noite brasileira, há quase dez anos.

Além da Ibiza, ele também promove o hip hop em outras casas noturnas paulistanas e cariocas, como o Urbano e até o Lov.e, reduto absoluto da música eletrônica em São Paulo que se rendeu à moda da vez. O estilo chegou para ficar. Não é só na noite que a onda pegou: nas rádios, nas ruas, na maneira de se vestir... O black está em toda parte, afirma Primo Preto.

Nas pistas da Ibiza, artistas que vendem milhões de discos, como Beyoncé Knowles, Jennifer Lopez, Jay-Z, Alicia Keys, Outkast, Ja Rule, 50 Cent, e os brasileiros Racionais MC¿s e Xis, fazem os frequentadores ferver. Os casais dançam junto, rebolam e inventam coreografias. Fernando Miceli, proprietário da casa, explica o sucesso. É impossível não dançar com a batida do hip hop. É contagiante e sensual, tudo a ver com o Brasil.

Os pedidos são tantos que, além de uma noite exclusiva, temos uma pista que toca black todos os dias da semana¿, diz. A estudante Priscila Oiamada, 20 anos, e a digitadora Fernanda Helena, 26, fazem coro. As duas não perdem uma noitada de quarta-feira. Depois que começamos a ir a baladas de black music, paramos de ir às outras, afirma Priscila.

No Rio, a badalada casa noturna Baronetti, em Ipanema, frequentada por famosos como Luana Piovani e Eric Marmo, entre outros, ampliou o investimento no hip hop. Diante da grande expansão do ritmo, o promoter Bruno Vilardi afirmou que não tinha como não realizar um evento específico. Assim, as quintas-feiras dia nobre foram bloqueadas para o evento. Dois DJs especializados no som comandam as pistas de dança, sempre lotadas, apesar dos preços salgados R$ 55 para homens e R$ 25 para mulheres.

O DJ residente Calbuque defende o gênero musical, às vezes atacado como violento e pesado. O hip hop prega o discurso de união e camaradagem, diz. Já o DJ Mau, da casa noturna Macao, em São Paulo, viu as boates lotarem nas quintas-feiras depois que começou a tocar black music, há seis meses. Comecei quase por acaso, quando a DJ do dia faltou.

O ritmo contagiou a galera e, na semana seguinte, o público pediu a minha presença novamente¿, lembra. O sucesso foi tanto que, para evitar as enormes filas na porta e a superlotação, o Macao passou a tocar hip hop também às quartas-feiras. A modelo Juliana Bahia, 22 anos, é frequentadora assídua. Conheci a noite black quando morei em Paris, há dois anos. Agora que está pegando no Brasil, posso curtir o som aqui, diz. O promoter Cadu Madocks, da produtora Chocolate Crew, também colhe os louros do sucesso das baladas de terça-feira na Lucky, em São Paulo. Nossas noites são as mais cheias da casa noturna. 2004 vai ser excelente para o hip hop, garante. Alguém duvida?

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Eu bebo sim
Mulheres perdem o medo e admitem, com orgulho, seu apreço pela mais brasileira das bebidas: a cachaça
Flávia Motta

Branca, envelhecida, com infusão de ervas, gelada ou ao natural. As mulheres estão aprendendo cada vez mais a apreciar o sabor da cachaça. À frente da produção, comercialização ou apenas como simples consumidoras, elas têm chamado atenção como apreciadoras da bebida. E, embora volta e meia sintam o preconceito rondar, assumem com orgulho a admiração pela mais brasileira das bebidas.

Criada em Lorena, interior de São Paulo, Marion Brasil, 26 anos, cresceu vendo o pai, médico, beber as cachaças que recebia de presente. Sempre foi uma coisa normal para mim. Não gosto de cerveja e bebo cachaça pura. Mas não é só o sabor que conta, cada marca é cheia de histórias, diz ela, conhecedora de uns 70 tipos diferentes. Trabalhando há nove meses como cachacier o equivalente a sommelier, especialista em vinhos do Giuseppe Grill, Marion conta que ainda percebe alguns olhares estranhos quando diz sua profissão.

Tem o machismo e o fato de as pessoas associarem cachaça ao bêbado do boteco, lamenta ela. Cachaceira assumida mas do bem, que fique claro , Marion conta que quase sempre é a bebida que embala as reuniões em casa com as amigas e até na sua bolsa há resquícios de seu gosto: o gloss é sabor caipirinha.

Também cachacier aliás, ela e Marion são as únicas no Brasil , Fernanda Nepomuceno, 41 anos, quando pequena fazia a travessura de lamber a biquinha do alambique escondida. Designer, ela abandonou a profissão há menos de um mês para se dedicar ao ofício de indicar cachaça para os freqüentadores do bar Mangue Seco, onde trabalha. Quando viajo, sempre vou em busca da cachaça do lugar e nunca sofri preconceito. E olha que vou a muito pé-sujo, admite ela, que já provou umas cem marcas. No trabalho, tem colocado muita gente para beber. No outro dia uma senhora finérrima disse que essa história de cachacier é très chic, diverte-se.

Dona da Academia da Cachaça há 18 anos ao lado de Edméia Falcão e um sócio Renata Quinderé, 42 anos, passou por situações engraçadas quando seus filhos eram pequenos. Quando perguntavam o que a mãe dele fazia, diziam que eu era cachaceira, lembra, sem se incomodar com o rótulo. Eu curto, gosto, bebo e vejo que a mulher perdeu o medo de provar cachaça, diz, sem perder o pé na realidade. Ainda hoje se saio com meu marido e pedimos uma cachaça e um refrigerante, o garçom sempre serve a cachaça para ele.

Dona da Academia da Cachaça há 18 anos ao lado de Edméia Falcão e um sócio Renata Quinderé, 42 anos, passou por situações engraçadas quando seus filhos eram pequenos. Quando perguntavam o que a mãe dele fazia, diziam que eu era cachaceira, lembra, sem se incomodar com o rótulo. Eu curto, gosto, bebo e vejo que a mulher perdeu o medo de provar cachaça, diz, sem perder o pé na realidade. Ainda hoje se saio com meu marido e pedimos uma cachaça e um refrigerante, o garçom sempre serve a cachaça para ele.

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Descanso incentivado
Banco do Brasil abre inscrições para programa de aposentadoria antecipada. Idade mínima é 50 anos
Neylor Toscan

O Banco do Brasil abriu ontem inscrições para funcionários que queiram antecipar a aposentadoria, com uma série de incentivos. O trabalhador precisa ter no mínimo 50 anos de idade e 15 de banco. O período de adesão vai até o fim do mês e beneficia seis mil empregados. Destes, a expectativa do BB é que 70% peçam para sair.

Atualmente, o funcionário do banco já tem direito a receber benefício do fundo de pensão da empresa (Previ), ao completar 50 anos de idade. Mas o valor, calculado atuarialmente a partir do tempo e do montante de contribuição, costuma ser insuficiente para manter o padrão salarial do empregado, que acaba não optando pelo incentivo.

Pela proposta feita agora à Comissão de Empresa dos Funcionários, o BB vai complementar o valor depositado pela Previ, em até R$ 1.308 (54,5% do teto do INSS, de R$ 2.400), até a data de aposentadoria pelo sistema público. Com isso, o patamar de ganhos do empregado, até se aposentar pelo INSS também, seria bem mais alto.

Segundo o presidente da Confederação Nacional dos Bancários (CNB), Vagner Freitas de Moraes, a Proposta de Aposentadoria Incentivada (PAI-50 o número é referência à idade mínima para a adesão) vai ao encontro de reivindicação antiga do funcionalismo. Mas Vagner criticou a forma unilateral de montagem da proposta pelo banco, que não teria ouvido os funcionários. Queremos discutir o formato do PAI-50, pois defendemos alterações, como o rebaixamento da idade mínima para 45 anos, destacou o presidente da CNB.

Executivos e gerentes não poderão aderir ao PAI-50

Outra crítica dos bancários é a limitação da abrangência do benefício aos funcionários detentores de cargos mais baixos, como escriturários, caixas e os que recebem pequenas comissões. Para incentivar ainda mais as adesões, o banco também pagará bônus de dois salários brutos a quem embarcar no plano. As inscrições terminam no dia 30 e os desligamentos serão feitos a partir do mês que vem.

O gerente-geral da Unidade de Relações com Funcionários do BB, Juraci Masiero, informou que a instituição estuda propostas feitas pela CNB ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e que dará resposta em reunião marcada para segunda-feira.

Além da redução da idade de adesão para 45 anos e a ampliação do programa para todos os cargos, a CNB quer a extensão do PAI-50 para quem já tem tempo de aposentadoria pelo INSS, aumento do prazo de adesão, solução que permita o saque do Fundo de Garantia e alteração no cálculo do benefício, para aumentar o complemento da Previ.

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O Sábio e o Messias
VOLTAIRE SCHILLING/ Historiador

"A sua condição de seres supra-históricos os converteu em eternos contemporâneos."
Karl Jaspers - Die Grossen Philosophen, 1960

Ambos vieram de famílias humildes. A mãe de Sócrates era parteira; o pai de Jesus Cristo, um marceneiro. Ofícios que modelaram a atuação pública deles. O grego Sócrates, explicou no diálogo Teeteto, chamava o seu método de ensino de maiêutica, a arte da parteira: mais ou menos como extrair com habilidade o conhecimento de dentro do próprio indivíduo. Era assim, pela dialegesthai, a conversação, que alguém podia alcançar a ilustração, isto é, pensar por si mesmo.

Jesus de Nazaré, por sua vez, auxiliando o pai, com quem aprendeu a carpintaria, convenceu-se da eficácia da repetição, bater e bater os pregos. O mesmo procedimento, o da pregação, que ele adotou. Falar repetidamente por horas e horas para convencer os incréus da iminente chegada do Reino dos Céus.

Separados quatro séculos um do outro, eles atuaram nas cidades mais importantes da cultura em que nasceram. O palco de Sócrates foi as ruas de Atenas, capital do helenismo e sítio do Pártenon; o de Jesus foi as vielas de Jerusalém e o pátio do Beit Hamikdash, o templo sagrado do judaísmo. Cidades, diga-se, em que nenhum dos dois foi muito popular. Sócrates era um impertinente que levava a maioria dos que o cercavam à exasperação. Com pouca paciência para com a ignorância e a pose presunçosa, como a dos sofistas seus rivais, os seus questionamentos e indagações, feitos em logradouros públicos ou em banquetes, agiam como um cortante bisturi expondo os seus contraditores à mofa.

Jesus, por sua vez, além de detestar os fariseus, os hipócritas, brigara com meio mundo na entrada do templo, expulsando com seu cajado os vendilhões que, negociando ali, conspurcavam aquele local sagrado. Mas afinal, como ele mesmo disse, "não há profeta sem honra, exceto em sua pátria e em sua casa" (Mateus, 13).

Apesar de os dois ouvirem vozes (Sócrates as chamou de dáimon, Jesus de espírito), diferiam, porém, nos objetivos pretendidos. O grego procurava formar homens públicos, cidadãos que atuassem com seriedade e correção nos assuntos comunitários. O galileu queria convertidos, inocentes como crianças, para conduzi-los para o alto, ao Reino do Deus Pai.

Se Sócrates teve discípulos que o honraram, como Platão ou Xenofonte, Jesus teve em Pedro a sua rocha. Mas também foram seus seguidores quem os decepcionaram e os traíram. Sócrates foi parar no Areópago, o tribunal de Atenas, para responder pelo comportamento indigno de Alcibíades e de Crítias, seus admiradores, acusado de "corromper a juventude".

Jesus, traído por Judas, acusado de blasfêmia e de desrespeito à religião oficial, teve que apresentar-se no Sinédrio para responder a Caifás e depois a Pilatos, governador romano da Judéia que o entregou à cruz. O público de Sócrates era geralmente muito instruído, o que o exercitou na dialética do techne logon, a arte do discurso racional. Bem ao contrário daqueles a quem Jesus se dirigia, a multidão dos infelizes da terra, massa iletrada, o que fez dele um gênio no uso da parábola.

Sentenciado a beber cicuta, em 399 a.C., o veneno com que se eliminava o condenado em Atenas, Sócrates passou seu últimos momentos com seus discípulos Críton, Fédon, Apolidoro, Cebes e Símias, conversando até o fim, até o momento em que o seu corpo esfriava. Ironicamente recordou-se de que devia sacrificar um galo a Esculápio, o deus da medicina (Fédon - epílogo). Antes da prisão e crucificação, no ano de 33, Jesus fez sua derradeira ceia com seus apóstolos no Getsêmani, ao pé do Monte das Oliveiras, e igualmente lembrou-se de um galo, prevendo que Pedro, "antes que o galo cante", o negaria três vezes (Mateus - 26).

Sócrates e Jesus, o Sábio e o Messias, a luz para um era o saber, o conhecimento, para o outro foi a fé e a salvação da alma. Um gerou academias e liceus, o outro mosteiros e seminários. Educadores da humanidade.

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Lya Luft
03/01/2004


Um primeiro ano

(Falta de originalidade: há um ano comecei esta coluna com o texto abaixo. Ainda não fui despedida, Mafalda já não me espera para o nosso uísque, mas as coisas boas, as coisas belas, nunca morrem. Até esta primeira crônica, nem bela nem boa, retorna.)

Que coisa, Luis Fernando, quem diria. Quando Marcelo Rech me telefonou, menos de duas semanas atrás, fiquei olhando pela janela enquanto ele falava, num misto de pena e alegria. Pena, porque agora a gente só vai te ler aqui no jornal duas vezes por semana, e eu ainda nem te perdoei a falta das Cobras. Alegria porque você merece descansar um pouco, conheço suas intermináveis horas encerrado no escritório (que Erico já chamava "a minha toca") elaborando textos inigualáveis. E, afinal, pelo menos dois dias por semana a gente ainda vai ter Verissimo aqui.

Mas fazer parte da prata da casa, Scliar, Martha e Coimbra, que vão ocupar esta página outros três dias da semana, e ficar eu com o sábado? Vontade de dizer "não, nada disso, eu"? Desisti da crônica há séculos. Depois de mais de 15 anos botando a cara na janela, me escondi na ficção. E agora esta mulher vaga que divaga vai voltar ao jornal? No lugar do Verissimo? Sempre fui um pouco doida, mas... tanto?

Porém fui tentada pelo demônio do desafio, mais forte do que a sensatez. Ser inteligente uma vez por semana, com dia marcado - que tentação. (A serpente escondida baixa as pálpebras com seu sorriso matreiro.) Como romancista posso ser burra um ano inteiro e de repente fingir de inteligente... mesmo se não sai livro, não tem problema. Mas agora, como faço?

Bom, estou fazendo, mais uma vez. Mudou o mundo, mudei eu, mudaram minhas crônicas. Todo sábado estarei aqui, dá pra escrever qualquer coisa que eu quiser, me diz o Marcelo, tranqüilizando. Espero nesta janela ter mais simpatia do que reclamações, "mas o que é que essa mulher está pensando, ela, do que entende"? Só não gritem "vai pras panelas", porque nessas eu nunca nem tentei.

Então neste primeiro sábado nosso me assusta ocupar o teu lugar, Luis Fernando. Se eu for ruim demais, não vou ter coragem de tomar o uísque com a comadre Mafalda aí na sala dela. Se for razoável, será um orgulho fazer parte da equipe da ZH. E tenho dito.

lya.luft@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
03/01/2004


A dor de Saddam

Não consigo tirar o pensamento de Saddam Hussein e sinto que milhões de pessoas em todo o mundo pensam o mesmo, em razão do forte noticiário que tateia nos jornais sobre como viveu o ex-ditador durante os oito meses em que esteve foragido.

É simplesmente patético que um homem acostumado ao poder, que se hospedava em palácios de tetos altos e arabescos nas paredes, tenha descido tanto em seu status, a ponto de ter sido capturado em um buraco estreito, onde quase não podia se mover, como um animal acuado.

Um tão alto governante é certo que não se deixa apanhar pelo inimigo ao fim de uma batalha - ou se suicida ou viaja para um outro país à procura de refúgio ou talvez esconderijo.

Saddam no entanto decidiu que ficaria no Iraque, como um clandestino em seu próprio país, assistindo de perto ao jugo do país que o derrotou na sua própria pátria.

Sentiu na carne a mesma miséria humana que curtiram os milhares de perseguidos pelo seu governo sanguinário, embarafustando-se por trilhas e lugares onde pudesse subterfugir da caça incessante que lhe moviam os norte-americanos ocupadores.

Durante esses oito meses de degredo em seu próprio país, declaram agora os líderes das tropas invasoras, Saddam ficou se deslocando furtivamente entre 20 ou 30 refúgios indistintos da região sunita, no norte do país, onde uma rede estreita de famílias e clãs o protegia e o mantinha informado dos acontecimentos do pós-desfecho da guerra.

Ele se mudava de um lugar para outro, fazendo-se acompanhar por não mais de três seguidores por estradas secundárias ou em prosaicas embarcações incipientes pelo Rio Tibre, às vezes de táxi, de carro ou camioneta, com a finalidade de não vir a ser apanhado.

Não dormia mais que duas noites no mesmo lugar e sua principal adversidade era a recompensa de US$ 25 milhões oferecida por sua cabeça, o que fazia com que ele desconfiasse de todos que lhe ofereciam guarida ou que por qualquer forma tinham conhecimento do seu paradeiro ou percurso.

Uma vida de cão para quem tinha sido cão para os seus opositores no Iraque.

Até 22 de julho ainda teve a companhia esporádica de seus dois filhos, Uday e Qusay, com quem combinava atos de resistência e sabotagem, depois que eles foram mortos pelas tropas de ocupação não restou qualquer laço familiar direto de Saddam com seus acobertadores.

Os seus dois genros ele próprio tinha assassinado, sua filha e seus netos viajaram para o estrangeiro, restava só ele, Saddam, no território pátrio, um cadáver ambulante à espera da captura.

Como ele havia saqueado vários bancos do país antes de empreender a fuga, custou uma fortuna manter-se na clandestinidade, cada ajuda era paga com milhares de dólares, que foram escasseando até restarem US$ 750 mil que encontraram em seu poder na toca de Ad Dawr, onde depois de ser denunciado por alguém muito próximo foi encontrado por uma patrulha.

É assombroso o fim de Saddam. Ele agora se encontra numa cela onde sequer tem a possibilidade de conversar com algum compatriota.

Seu destino é tão torpe que talvez a pena de morte seja aquilo que mais deseje para pôr fim ao pesadelo que assalta um homem que era cercado de poder e luxo por todos os lados e que de repente é jogado num cárcere sem horizonte.

Mas corre o perigo de que não lhe condenem à morte e ele tenha de suportar ainda durante muitos anos o escárnio de ser atração mundial como o mais ilustre cativo de guerra da moderna história da civilização.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Feriadão
Dia útil, 18h, em Capão da Canoa e em Porto Alegre

A sexta-feira ferveu de gente no Litoral, enquanto avenidas como a Goethe, na Capital, tiveram movimento típico de feriado (Fotos Emílio Pedroso/ZH e Paulo Franken/ZH)


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Sexta-feira, Janeiro 02, 2004




Para você ganhar um belíssimo Ano Novo,
cor de arco-íris ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo tempo já vivido
(mal vivido ou sem sentido)...

Para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)...

Novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha ...

Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagem ? manda telegramas ?)...

Não precisa fazer lista de boas
intenções para arquivá-la na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas,
nem parvamente acreditar

que por decreto da esperança,
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você
que o ANO NOVO cochila
e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade - Recebido de meu brother Miron

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Bom este são os presentes pós-Natal, a energia elétrica mais cara, o gaz de cozinha mais caro e como uma coisa pucha a outra, lá vamos nós, pagando mais por tudo, inclusive para trabalhar. Resta o consolo de pelo menos ter o emprego...

Carro e som mais caros

Alta de preços do aço e componentes eletrônicos vai pesar no orçamento dos brasileiros este mês
RIO E SÃO PAULO. Os consumidores devem preparar o bolso para os novos reajustes de preços que já estão a caminho. Fabricantes de bens duráveis, como aparelhos de imagem e som, por exemplo, pretendem aplicar aumentos de 6% a 8%, a partir deste mês. A indústria automobilística também promete reajustes entre 3% e 5%, em média.

São inúmeros os aumentos que tornam inviável manter preços dos aparelhos de imagem e som¿, diz Paulo Saab, presidente da Eletros, associação que reúne a indústria eletroeletrônica. Como justificativa, ele cita o dissídio dos trabalhadores, os custos de energia elétrica e de componentes eletrônicos, além da nova alíquota de 7,6% da Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social).

Siderúrgicas querem aumentos de até 15%

Alegando aumento dos custos, as siderúrgicas CSN e Usiminas já comunicaram aos clientes que vão reajustar entre 10% e 15% os preços de vários tipos de aço para os fabricantes de eletroeletrônicos e para a indústria automobilística.

As montadoras tentam barrar o aumento do aço e preparam documento conjunto com outros setores para mostrar ao Governo federal o impacto na produção industrial. Não vamos pedir a intervenção direta do Governo, pois os preços estão livres, mas esperamos bom senso por parte das siderúrgicas, afirma Ricardo Carvalho, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

As montadoras têm programado para este mês reajustes médios entre 3% e 5% para os carros. No entanto, se tiverem de pagar mais 10% a 15% às siderúrgicas, o índice será maior.

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Samba com tradição
Personalidades do ritmo animam concorridas noites em casas do Centro e atraem público cativo
Clarissa Monteagudo

Camisa azul, calça de linho de alfaiate e sapatos também feitos sob medida. A elegância e as cores denunciam: o assunto é samba com a grife de peso Oswaldo Cruz e Madureira. Importado do subúrbio, o batuque tradicional tem tomado conta do Centro da Cidade. No Centro Cultural Memórias do Rio, restaurante e antiquário na Rua Gomes Freire, o anfitrião é Noca da Portela. Além do vasto repertório são 360 músicas gravadas , o compositor abre espaço para canjas de músicos que pintam por lá.

Pastora da azul e branco de Madureira, Tia Doca também mostra que o vigor do samba não diminui com o tempo. Aos 71 anos, mesma idade de Noca, Julçaria Cruz Costa reúne mil pessoas por noite no Cordão da Bola Preta e já planeja o segundo CD com músicas do seu famoso pagode, capitaneado pelo filho, o cantor e instrumentista Nem. Melhor viver de samba do que pensar em bobagem.

Não dá para ficar rico, mas a gente se diverte, paga os músicos e dá oportunidade de trabalho para um monte de gente¿, discursa Tia Doca, com discurso riquíssimo de filosofia popular. O negócio é não ter inveja, cada um tem o que Deus dá. Por isso, estou sempre rindo, ensina. Ela e o público, que samba a noite toda ao som de clássicos do Fundo de Quintal, Martinho da Vila, Almir Guineto e outros bambas.

No Centro Cultural Memórias do Rio, entre objetos antigos e fotos históricas, o cineasta Christian Fischgold, 26 anos, caiu no samba a noite toda com amigos. Essa é a verdadeira história da MPB. Á gente tem que respeitar. Eu vou onde as Velhas Guardas estão, é maravilhoso.

Cantando perto do público, Noca cultiva o clima de intimidade típico do samba. Sempre trago convidados, essa é uma forma de abrir espaço para o samba. O público daqui é excelente, entende de música, tem bom gosto, elogia o compositor. A reverência à Velha Guarda não está restrita ao público. Os mais novos sambistas também mostram que cultivam a tradição.

Hoje, no Carioca da Gema, a cantora Ana Costa, do grupo feminino O Roda, canta clássicos de Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Zé Kétti, Nei Lopes, com a Banda Chapéu de Palha. Já no Centro Cultural Carioca, Nilze Carvalho e o grupo Sururu na Roda vão do samba de raiz ao choro às marchinhas de Carnaval. Quem não quer sair da gandaia ainda pode correr para a quadra da Mangueira amanhã. É para tudo recomeçar na segunda-feira

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Dez pensamentos
LUIZ CARLOS CORRÊA DA SILVA/ Médico e professor universitário

Costumamos receber da imprensa as mais diversas manifestações e formamos nossa opinião também por meio dela. Ninguém duvida que o compromisso dos meios de comunicação é muito grande e muito forte. Da mesma forma que os médicos têm grande compromisso ao cuidar dos seus pacientes, tendo em vista os efeitos colaterais tanto com remédios quanto com palavras, também os comunicadores têm enorme responsabilidade.

Com esta visão, escrevi esta mensagem com o propósito de expressar sentimentos positivos para que, em 2004, se faça mais, se viva melhor e a vida tenha mais sentido. Assim, poderei estar me redimindo do que não fiz em 2003! Por outro lado, confesso que, neste final de ano, a palavra inspiração está mais relacionada com a entrada de ar nos pulmões do que com poesia e fantasias.

Mas, de qualquer maneira, nestes períodos de festas, de euforia, e de reuniões com familiares e amigos, as ilusões voltam a ocupar espaço e sempre há o que pensar e o que comunicar. Reuni 10 pensamentos para esta ocasião em que chega um novo ano e muitas coisas boas poderão acontecer - para isto, muito depende de cada um. As palavras e as idéias passarão a ser do próprio leitor, desde que diga para si mesmo que em 2004:

1 - Deixarei de lado a rotina pesada, o que me cansa, e o que se opõe ao que mais almejo, pelo menos por instantes, para que eu me reforce, tome fôlego e possa continuar meu caminho.

2 - Pensarei sempre positivo, pois o contrário nada adianta.

3 - A cada dia, dedicarei pelo menos alguns instantes para mim mesmo e para quem mais amo.

4 - Não deixarei para depois o que posso fazer já.

5 - Farei 10 pedidos. Se realizar os 10, será um sonho! Mas, vou me prometer que se conseguir um já será o bastante e ficarei muito feliz.

6 - Quando alguém tentar me atingir de maneira indevida, se eu conseguir manter a calma, procurar entender a situação e seus motivos, e só depois tomar uma iniciativa, estarei demonstrando uma grande maturidade.

7 - Cumprirei deveres e exigirei direitos, pois ambos têm a mesma importância e se complementam.

8 - Melhorando condições para outros, no presente, poderei estar melhorando condições para mim mesmo, no futuro.

9 - Buscarei em cada dia um novo desafio, um novo estímulo, ainda que a rotina se mantenha.

10 - Na viagem da vida, curtirei mais o percurso, onde passo a maior parte do tempo; seja qual for o destino final, curtirei também. Assim, poderei ser feliz sempre!

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Luis Fernando Verissimo
02/01/2004


Meu fantasma do Goya

O crítico de arte Robert Hughes atribui a freqüentes visitas que recebeu do fantasma de Goya enquando convalescia de um acidente de carro a decisão de escrever seu atual livro sobre o pintor espanhol. Também recorri ao fantasma de Goya, sem necessidade de acidente, para escrever sobre ele, modestamente, num livro chamado Traçando Madri, parte de uma série sobre viagens feitas com o artista plástico Joaquim da Fonseca. No livro, o fantasma de Goya nos acompanha numa visita à capital espanhola. Passando pelo velho restaurante Sobrinos de Botin, perto da Plaza Mayor, conto ao fantasma que, em outra visita a Madri, Lúcia e eu sentamos perto de uma muito decotada Ursula Andress, numa mesa do Botin.

Goya se interessa, um seio leva a outro e, quando vemos, estamos falando sobre a Duquesa de Alba e a especulação de que ela e o pintor teriam sido amantes. "Fomos apenas bons amigos", diz Goya, e chama de ridícula a tese de que sua famosa Maja retratada duas vezes, vestida e nua, era na verdade a duquesa. As pinturas eram de Pepita Tudó, feitas para o seu amante Manuel Godoy, alta figura na corte de Carlos IV, e que teve problemas com a Inquisição, quando as Majas foram consideradas obscenas, apreendidas com seus outros bens e quase destruídas.

Com o distanciamento filosófico só permitido a alguém depois da sua morte, Goya me diz que os inquisidores tinham razão. A sua Maja nua era mesmo um escândalo sem precedentes. Não era mitológica, como a Vênus de Velazquez. Não era alegórica, como os nus italianos. Sua nudez não representava nada além dela mesma. Goya gosta quando lhe conto que um crítico moderno a definiu como o primeiro nu feminino em tamanho natural totalmente profano da arte ocidental. "É isso!" diz o fantasma, com um sorriso largo. "Eu sei disso. E mais: ela sabe disso.

Veja o seu olhar. Ela sabe que é a primeira mulher nua, sem rodeios, ornamentos ou dissimulação, da história da arte. Seu olhar desafia a nossa reprovação ao mesmo tempo que nos convida a admirá-la. Ela não é um nu. É uma mulher despida, o que é diferente. Eu a pintei primeiro vestida para que isso ficasse claro. Ela tirou a roupa para você. Ou você tirou a roupa dela. Isso nunca tinha sido visto antes". Goya enlaça meu braço, me puxa na direção da Plaza Mayor e pede: "Me fale mais dessa Ursula".

Na belíssima Plaza Mayor, Goya conta que era ali que a Inquisição celebrava seus Autos da Fé e que certa vez 110 réus tinham sido julgados no mesmo dia e 21 queimados vivos. Lembro dos "Caprichos" e dos "Desastres de la Guerra", suas séries de gravuras sobre a estupidez humana. Como a nudez feminina, nossa crueldade nunca tinha sido retratada exatamente assim antes de Goya. Seu fantasma faz um gesto que abrange toda a praça iluminada e diz: "Se não fosse por artistas como eu, a desumanidade da História não deixaria vestígios. Deixaria só belos monumentos como este."

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Paulo Sant'ana
02/01/2004


Amar é preciso

Se eu tivesse algo a desejar aos meus leitores neste ano que se está iniciando, seria que conseguissem alcançar um grande amor.

Não desejaria que não fossem mais atingidos por este caudal de novos impostos e maiores alíquotas, nem que as tarifas de água, luz, gás, pedágio, telefone etc deixassem de subir duas ou três vezes mais que a inflação, este saque que vai esgotando o orçamento das pessoas até o empobrecimento e o desespero. Isso parece inútil desejar, tal a fúria tributária e a desumana fome tarifária.

Eu desejaria aos meus leitores que procurassem e encontrassem um grande amor.

Os que já têm um grande amor, não se preocupem, o meu desejo não implica necessariamente um homem ou uma mulher.

O meu desejo implica um grande "chamego". Uma admiração profunda, uma amizade estreita por algo ou por alguém.

Pode ser um amigo, pode ser o gosto por alguma coisa, um tipo de música ou de cantor, pode ser encontrar um cão de qualquer raça por quem se nutra uma devoção de companheirismo, pode ser a criação de um cavalo, pode ser - e se for será o máximo da realização - adotar uma criança.

Todas essas coisas significam amor. Se for - para quem ainda não o possui - um amor por um homem ou por uma mulher, melhor ainda, que não existe bênção maior na vida que amar alguém de outro sexo. Talvez só a supere o amor pelo profeta religioso e seus ensinamentos.

E digo isso porque um dos fenômenos mais marcantes que noto em meu tempo é o brilho faiscante nos olhos dos crentes, apaixonados por Jesus.

Mas basicamente tem de ser um ano em que a gente consagre para amar alguém ou algo, para a gente se entregar e para a gente receber uma entrega.

Alguma coisa ou alguém de quem se passe a sentir tamanha falta quanto a fizermos para ele.

O que desejo para os meus leitores é que surja na vida deles uma pessoa, um hábito, um estudo, uma arte, um animal, uma pessoa ou uma causa que os encha de entusiasmo e felicidade.

E encha as suas vidas de sentido.

Algo ou alguém que lhes arrebate. Por que ou por quem lutem e não desistam nunca de tê-lo junto de si.

E lhes desejo isso porque não há nenhuma chance de qualquer pessoa ser feliz ou realizar-se se não se encontrar com um grande amor.

Pode ser uma pessoa, pode ser um animalzinho, pode ser uma instituição, pode ser uma religião, pode ser qualquer causa que lhes tome o tempo e os cuidados, que as apaixone, que as embriague, que lhes infunda a vontade obstinada de viver em honra deste grande amor.

Sem amar alguém ou algo ou sem ser amado, não existe pesadelo maior do que a vida.

Se pudesse retribuir a atenção constante dos meus leitores, desejaria que neste ano que se iniciou amem alguém ou algo e de tal forma se dediquem a isso que venham também a ser amados pelo objeto do seu sentimento ou reverenciados pelos seus circunstantes pelo comovente espetáculo de humanidade que irá se desprender deste seu caso de amor.

Essa barra pesada toda que estamos atravessando nestes tempos não tem como ser transposta sem amor.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Ano-novo
Bem-vindo, 2004



Festas, música e luzes saudaram a chegada do novo ano no mundo. No Estado, milhares de pessoas viram os fogos de artifício iluminarem a praia de Torres (E) e a Usina do Gasômetro, em Porto Alegre (D) (Fotos Emílio Pedroso/ZH e Robinson Estrásulas/ZH)


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Quinta-feira, Janeiro 01, 2004




01 JAN 2004 - Dia Mundial da Paz

Dirijo-me a vós, Chefes das nações, que tendes o dever de promover a paz!

A vós, Juristas, empenhados em traçar caminhos de pacífico entendimento, preparando convenções e tratados que reforçam a legalidade internacional!

A vós, Educadores da juventude, que em cada continente trabalhais incansavelmente para formar as consciências no caminho da compreensão e do diálogo!

E dirijo-me também a vós, homens e mulheres que vos sentis tentados a recorrer ao inadmissível instrumento do terrorismo, comprometendo assim pela raiz a causa pela qual combateis!

Escutai todos o apelo humilde do sucessor de Pedro, que clama: Hoje, no início do novo ano 2004, a paz continua ainda possível. E, se é possível, então a paz é um dever!

Neste dia mundial da Paz que ela ela esteja com você e com todos os que o rodeiam.

Para ler mais a respeito clique no link acima.

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Turistas elogiam segurança e limpeza nas praias durante o réveillon


RIO - Depois da chuva fina na noite do réveillon, um 'tímido' sol deu as caras no primeiro dia do ano, para a alegria de quem amanheceu nas areias da orla.

Enquanto os garis retiravam toneladas de lixo das areias de Copacabana e os catadores de latas faziam a festa com as milhares de unidades apuradas, alguns aproveitavam as primeiras horas de 2004 apenas para descansar.

Já os hotéis comemoravam a lotação máxima, comprovada pelos salões cheios de turistas no café da manhã. "Esse é o maior espetáculo humano do mundo. E o Rio está maravilhoso e me surpreendeu pela maior segurança e limpeza", disse o empresário português Francisco Ruivo, 52, que há oito vem pelo menos duas vezes por ano ao Brasil.

Outro que promete voltar é o empresário baiano Oto Carli Machado, 50, que, acompanhado da namorada, passou o réveillon no Rio pela primeira vez. "Apesar do desejo de passar o fim de ano no Rio, estávamos preocupados com a violência. Mas a festa foi maravilhosa e com certeza vou voltar e recomendar aos amigos", avisou, enquanto tomava café da manhã no Hotel Luxor Regente, em Copacabana.

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Uma capivara só não faz verão

Na semana passada, vários leitores tiveram a gentileza de escrever para me garantir que sim, há gente que lê jornal no dia de Natal. Agradeço de coração: foi uma surpresa que me deixou contente e animada para escrever a coluna de hoje, outra data capciosa para cronistas.

Afinal, é sempre complicado encarar as datas obrigatórias, tanto pessoalmente quanto por escrito. A crônica, no fundo, não passa de uma redação, como aquelas que a gente fazia no colégio com a diferença que acaba publicada em jornal. Quando o tema é livre, a gente canta como o Zeca Pagodinho; quando é obrigatório, tudo se complica.

Eu prefiro tema obrigatório, disse o Xexéo, quando comentei o assunto com ele.

Prefere?! Você gostaria de escrever sobre o Ano Novo?!

Não, claro que não. Não dou a menor pelota para datas. Estou falando em temas auto-obrigatórios. Quando me imponho um tema, escrevo melhor do que quando deixo a crônica me levar.

Ah, mas um tema auto-obrigatório, na minha cabeça, é um tema livre. Estou falando dos temas obrigatórios-obrigatórios, dos quais não há como fugir.

Como não há? Você pode escrever sobre o que bem entender, ora.

Não posso não. Fico pensando no mundo lá fora, totalmente antenado na data, e eu aqui, alheia...

A quantas coisas fiquei alheia aqui durante o ano? Fiquei alheia, por exemplo, a (quase) tudo o que aconteceu em Brasília para não falar em tantos e tão variados destinos turísticos percorridos pelo presidente. Não escrever não significa, é claro, não sentir, não ter uma opinião. E, se eu fosse petista, estaria, a essa altura, profundamente desapontada. Como não sou, estou apenas pessimista.

Há algo errado demais com um governo supostamente humanitário e teoricamente preocupado com o lado mais fraco da corda quando presidentes de banco dizem que este foi um ano bom para o sistema financeiro. Caramba! Há quantos anos a gente ouve isso?! Não estava na hora de inverter a equação, fazendo com que o setor produtivo se queixe menos e o setor financeiro se queixe mais?!

Também fiquei alheia ao que está acontecendo no Rio. Aqui, confesso, o nojo me paralisa. Não consigo mais nem me indignar. Fico quieta, sem me mexer, de olhos fechados, como uma criança que vive um pesadelo, uma dor ou um sentimento ruim, torcendo para que tudo tenha desaparecido quando abra os olhos.

Assim passei o ano em relação a esse casal Garotinho, virando a cabeça, evitando o olhar, esperando que, por um passe de mágica, ambos tenham misteriosamente sumido no ar quando afinal eu me vire para ver. Pode ser uma infantilidade, uma forma escapista de lidar com a situação, mas foi a única que encontrei, como carioca apaixonada pela minha cidade, para não morrer envenenada de desgosto e amargura.

Ano Novo... que bobagem! exclamou o Xexéo. Por que você não escreve sobre as capivaras? Diga aos leitores que, apesar da data, decidiu escrever sobre as capivaras, e pronto, qual é o problema?

Ah, as capivaras... Eu amo as capivaras. Para mim, sua presença foi, indiscutivelmente, um dos pontos altos do ano, uma felicidade linda e inesperada. Ambas apareceram na Lagoa, filhotinhas, no começo de 2003. Foram separadas pela perseguição que lhes moveu um contingente de bombeiros, que tentou, em vão, capturá-las para o zoológico.

Hoje vivem afastadas, a fêmea perto do Vasco, o macho ali pelo Cantagalo, ignorantes, ao que se saiba, da existência uma da outra. Estão gordas e saudáveis, mas não podem estar felizes. Capivaras são animais que vivem em bando, em grupos de dez a quinze indivíduos; uma capivara só não faz verão. Nem capivarinhas.

No outro dia, uns palhaços andaram tentando caçar a fêmea. Foram gentilmente dissuadidos disso pelos bravos pescadores da colônia, que gostam das bichinhas e zelam pelo seu bem-estar, para alegria geral dos freqüentadores da Lagoa.

Um dos meus desejos mais ardentes para este 2004 recém-nascido é que as capivaras voltem a se encontrar. Ou que, por algum acaso inexplicável, outras capivaras venham dar à Lagoa, para lhes fazer companhia e aumentar o nosso encanto.

Fica aqui, portanto, o meu apelo a quem, porventura, tenha uma capivara sobrando em casa: faça uma boa ação e leve-a para a Lagoa! Se for macho, solte-a perto do Vasco; se for fêmea, no Parque do Cantagalo. Duas capivaras solitárias e incontáveis cariocas ficarão muito agradecidos.

A foto da coluna, feita há alguns dias em Copacabana, é uma espécie de exorcismo para a chuva. É sempre assim, vocês sabem: quando a gente tem que adiantar uma edição, como a de hoje, e publica uma foto de sol, é certo que vai chover no dia anterior.

Pois eu estou apostando no vice-versa.

cronai@oglobo.com.br

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Sobre a intolerância

Os dois deuses

Existem dois deuses.O deus que nossos professores nos ensinaram, e o Deus que nos ensina.O deus sobre o qual as pessoas costumam conversar, e o Deus que conversa conosco.

O deus que aprendemos a temer, e o Deus que nos fala de misericórdia.

O deus que está nas alturas, e o Deus que participa de nossa vida diária.

O deus que nos cobra, e o Deus que perdoa nossas dívidas.

O deus que nos ameaça com os castigos do inferno, e o Deus que nos mostra o melhor caminho.

Existem dois deuses.

Um deus que nos afasta por nossas culpas, e um Deus que nos chama com Seu amor.

Quem deseja ir para o céu?

Um padre que via o diabo nos prazeres da vida foi até o bar da cidade, e pediu a todos que comparecessem à igreja naquela tarde. Todos obedeceram. Com a igreja cheia, o padre bradou:

Acabem com tanta bebida! Quem quer ir para o céu, levante a mão direita!

A igreja inteira levantou o braço menos Manoel, que era considerado um homem digno, cumpridor de seus deveres.

Surpreso, o padre perguntou:

E você, Manoel, não quer ir para o céu quando morrer?

Claro que quero. Mas ainda não experimentei a vida que Deus me deu, e o senhor está querendo me levar agora!

Nenhuma fé

Jesus resolve assistir o grande jogo de futebol entre católicos e protestantes. Chegam torcidas de todas as partes do mundo, com suas Bíblias, cores e convicções.

O jogo começa. No final do primeiro tempo, um católico pega a bola na área e marca um gol. A torcida urra, Jesus levanta-se, e comemora.

No início do segundo tempo, os protestantes empatam a partida. A outra torcida comemora com gritos entusiasmados e agradecimentos aos céus. Jesus torna a levantar-se, e comemora, porque todos os seus filhos estão contentes.

Quem é você, que comemorou os dois gols? pergunta um torcedor.

Estou vendo um belo espetáculo responde Jesus. E estou me divertindo muito!

Já vi tudo conclui o torcedor. Você não deve respeitar nenhuma fé.

O combustível

Mestre, o que é a fé?

O mestre pediu que o discípulo acendesse uma fogueira. Os dois sentaram-se frente a ela, e ficaram contemplando o fogo.

Eis a fé disse o mestre. É a lenha da fogueira. O combustível que mantém acesa a chama de Deus em nosso coração.

Mas a lenha precisa de uma centelha para transformar-se em luz.

Existem várias centelhas; a mais comum chama-se Vontade. Basta querer ter fé, e ela aparece em nosso caminho.

Mesmo quando passamos uma vida inteira sem acreditar em nada?

Sempre acreditamos, mesmo sem reconhecer ou aceitar, e por isso é tão fácil despertar a centelha. E além do mais, quanto mais vivemos, mais próximos estamos de Deus: a lenha velha queima sempre com mais facilidade.

autor@paulocoelho.com.br


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Quarta-feira, Dezembro 31, 2003




Celebridades do ano
Gente que namorou, badalou, trabalhou e principalmente apareceu muito por causa disso
Zean Bravo

Capas de revista, namoro novo com alguém famoso, casamento, separação ou um barraco daqueles. Tudo faz uma celebridade. Trabalho também soma. Ganhar destaque em novela ou filme, gravar disco e ter programa na TV são combustíveis para a fama. Em 2003, ano em que celebridade virou até título de novela, não faltou quem se enquadrasse em muitos desses quesitos.

Carolina Dieckmann, por exemplo, viveu o melhor ano da carreira estrelou novela das oito, faturou com publicidade ¿ e separou. Juliana Paes também rendeu. Brilha em Celebridade e será madrinha da bateria da Viradouro no Carnaval. Foi um ano de amadurecimento em todos os sentidos: profissional, pessoal e amoroso, lista a bela das oito, que encerra 2003 solteira.

Gente de todo tipo fez e aconteceu. O jogador de pólo Ricardinho Mansur, que até poucos dias namorava Luana Piovani ela é outro nome certo nessa lista, passou a dar até autógrafo depois de ficar conhecido como namorado de beldades. As conquistas de Rico, como ele agora prefere ser chamado, incluem até Gisele Bündchen. Isso só agregou valores, mas não foi o que me deu visibilidade, prefere acreditar. Não importa. Ficar em evidência não é fácil. Pergunte também a Rodrigo Santoro, Angélica, Preta Gil, Wanessa Camargo, Dado Dolabella e Daniella Cicarelli.

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Assim sendo...
CÂNDIDO NORBERTO/ Jornalista

Não restam mais do que algumas poucas horas para que o tempo - esse químico invisível que a tudo modifica e consome - mude de rótulo. Só de rótulo. Na essência, sei muito bem, continuará o mesmo, fazendo das suas, ora boas, ora más. Já vivi muitas de suas mudanças, o suficiente para não lhes atribuir maior importância. Somos conhecidos de longa data, o suficiente para não nos tratarmos com muitas cerimônias. Pessoalmente, não lhe atribuo significados especiais.

Ele conhece meus estreitos limites, tanto quanto não ignoro suas manhas. De mim certamente não espera nada, enquanto eu dele aguardo tudo - menos, é claro e lamentável, que me garanta viver por muitíssimos outros anos, além dos que são consentidos pela fragilidade da natureza humana. Tudo isso é pouco, bem o sei. Não basta, porém, para impedir que, a cada vez que ele mude de placa, eu não entre no seu jogo e finja acreditar que com nova numeração ele poderá ser muito melhor do que foi antes. Como a maioria dos viventes, valho-me de seu velho truque e faço de conta que estou renovando meu estoque de esperanças e de ilusões. E com esses ingredientes recolho, transmito e esparramo o maior número possível de votos de feliz ano novo. E sigo em frente, como estou fazendo ainda agora. É o jeito.

Pecado (o que é mesmo pecado?) que não cometo é o de amaldiçoar os anos que já passaram. Ao contrário, costumo abençoá-los, ainda que com algumas reservas. No geral, costumo considerá-los como bem vividos. Tal o caso, por exemplo, deste agonizante 2003. Não figura entre os melhores que já atravessei, mas pelo menos me permitiu que o percorresse de ponta a ponta, e isso já me parece um ganho. Verdade - tristíssima verdade - é que, em seus primórdios, ele me impôs a pesada perda de uma queridíssima e inesquecível figura - a do doutor João Batista Fernandes, que, mais do que ter sido, ao longo de muitíssimos anos, o médico de minha devoção, soube ser um amigo, confidente e conselheiro de todas as horas.

Não obstante essa perda, não dou a este ano moribundo a mesma acachapante nota zero que lhe foi conferida pelo genial Luis Fernando Verissimo de todos nós. Sobre o inigualável cronista levei a vantagem (?!) de nele não haver alimentado as esperanças que ele tão honrada e valentemente depositou no que politicamente esperava no terceiro ano deste já conturbado século 21. Afinal, como ensinou Martín Fierro, "más sabe el diablo por viejo do que por diablo"...

Freando a tentação de ir mais longe no trato de mais esta passagem de ano - tema perpétuo para intermináveis especulações - rendo-me aos costumes e reitero a todos meus melhores votos de um Feliz Ano Novo.

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Martha Medeiros
31/12/2003


Sugestões de resoluções

Fim de ano. Hora de passar uma borracha no passado e decretar que 2004 será o ano das nossas virtudes. Para isso, nada como uma boa listinha. Mas faça uma lista plausível, com resoluções que você consiga cumprir.

1. Dizer que vai parar de fumar é perda de tempo. Se você quisesse mesmo, já teria parado. Mas se você não fuma, sugiro que determine: este ano não vou começar a fumar. Essa é uma meta muito mais realizável. Evitar um vício é bem mais fácil do que abandoná-lo.

2. Emagrecer. Quantas vezes você já se propôs a fazer isso? Esqueça. Esqueça a balança, esqueça seus quilos, esqueça a comida. Resolva simplesmente ser menos preguiçoso: levante do sofá para desligar a tevê, faça a pé certos trajetos, suba pela escada se você mora num andar baixo, dance nas festas, escolha um esporte pra praticar, qualquer um. Menos xadrez, que engorda.

3. É inacreditável, mas ainda há gente que joga coisas pela janela do carro, do táxi, do ônibus. Se você conhece alguém que cultiva esse hábito primitivo, segure-o pelo braço, interrompa o gesto e lembre-o de que o destino das embalagens de salgadinho, das latas de refrigerante e das cascas de fruta é a lata de lixo. Aponte uma, caso ele não conheça.

4. Uma resolução boa para todo mundo: baixar a cota de drama. Não continuar achando que estão todos contra você. Não se levar tão a sério. Você é só mais um, eu também, o mundo não vai parar por nossa causa. Relaxe. Ninguém é tão visado quanto pensa. As pessoas não estão tão interessadas em você como parece. Pare de se descabelar, reclamar, rogar pragas: economize suas energias para algo mais produtivo.

5. Mas continue sentimental. Cultive as boas emoções, aquelas que nascem dentro, que não precisam de ornamento. Não tenha vergonha de dizer que ama, que sofre, que deseja. Seja aberto, sem abrir mão de ser discreto. Como? Escolhendo com cuidado quem merece te ouvir.

6. Última resolução: não vá atrás da angústia dos outros. Só pra implicar, pra ser do contra, este ano seja feliz.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
31/12/2003


Para ler no altar

O leitor Mateus (mgrazzito@pop.com.br) quer uma cópia de uma coluna minha escrita há dois anos: "Considerando a beleza de um texto de uma coluna sua, após a leitura do mesmo elegi-o como o que eu leria para minha futura esposa no dia de meu casamento. Pois vou casar-me agora em janeiro e a cerimônia será incompleta se eu não ler aquela sua coluna para ela. Perdi a coluna recortada. Falava em tocar o coração de uma mulher. Mande-me, que vou ler para ela no altar".

Aí abaixo está a coluna, diminuída apenas em um parágrafo, Mateus. Feliz casamento!

"Eu nunca fui amado tanto. Só existe uma forma de andar pelos lugares todos que percorro com essa sensação tremenda de imprescindibilidade: só pode ser amado assim um homem que tenha dado tudo de si, que tenha se aberto todo em chagas e sonhos diante de quem só poderia então vir a amá-lo também perdidamente.

Não há nada mais impenetrável que o coração de uma mulher. A única forma de uma mulher dobrar os seus joelhos e atirar-se submissa e promissora diante de um homem é tocar no coração dela.

Não há nada mais difícil nem raro que tocar no coração de uma mulher. E eu tenho sido amado tanto que só posso ter tocado no coração desta mulher.

Não me acodem a lembrança nem o momento nem a forma como toquei no coração desta mulher.

Foram tantas as coisas que lhe disse, sem jamais sequer segurar na sua mão, que não consigo me aperceber por que verdade minha ela possa ter se sentido violentamente atraída.

Será que foi aquela vez em que poeticamente e por brincadeira lhe sussurrei que, fosse ela minha um dia, eu daria um jeito de todas as manhãs caminhar de mãos dadas e pés descalços com ela numa grama molhada?

Ou será que foi naquela outra vez em que lhe disse que, se a natureza e a arte dessem suas mãos em sua inspiração e engenho, ainda assim não poderiam imitar a obra-prima do brilho dos seus olhos disparando o seu sorriso tímido, porém encantador?

Como pude tocar no coração desta mulher que ei-la aqui encantada e atônita de tanto amor, desaparecida nos meus braços?

Que fiz eu que possa estar merecendo tal ventura? A única coisa que asseguro é que sou capaz, sim, de seduzir, apenas com palavras e gestos, esta grande e insuperável mulher.

Só não sei como pude. Com que palavras e com quais gestos? E também não sei como e nem quando, em que momento mágico, supremo, decisivo, eu conquistei esta mulher?

Ah, mas eu sei a arma que usei para tê-la aqui, agora, inebriada ao lado meu! Uma mulher desta espessura só se conquista como eu conquistei: com ternura.

Eu nunca fui amado tanto. Nunca me foi dado tanto. Mas deve ter sido por nunca assim ter merecido tanto.

Agora mesmo ela está absorta a fitar pela janela o horizonte, que nos olhos dela é inseparável de mim.

(...) Poxa, eu já devia ter tocado no coração desta mulher. Devia estar só faltando, para que ela se apaixonasse, o acabamento.

E no dia decisivo eu devo ter sido cândido e puro como nunca ninguém com ela jamais houvera sido.

E devo ter expressado como eu era capaz de fazê-la feliz, tanto ou mais do que eu já era só por havê-la conhecido.

E eis-me aqui agora a receber dos olhos dela, dos lábios dela, das mãos dela, do coração dela o prêmio merecido.

Eu sou finalmente um homem. Porque finalmente toquei no coração de uma mulher."
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Litoral
Rumo ao Ano-Novo



No penúltimo dia de 2003, gaúchos tomaram a estrada para virar o ano sob a bênção do mar (foto Ricardo Duarte/ZH)


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Terça-feira, Dezembro 30, 2003




FELIZ ANO NOVO

Para te dar de presente,
tirei um pedacinho do céu
com sorriso de estrelas
e canto da lua cheia.

Num barquinho de esperança,
já me aventurei no mar,
toquei o mistério das ondas
e feitiço de sereias.

Em um raio de sol,
acorrentei o ciclo dos dias,
as sete cores da vida
e a alegria de mais uma
loura e louca manhã.

No canto branco
da meia-noite
de mandingas e Iemanjá,
baixinho,
no teu ouvido,
quero apenas dizer:
TE AMO!!!!

FELIZ ANO NOVO,
com direito a sorriso de estrelas,
e canto de lua cheia!!!

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Oração de Ano Novo

Senhor Deus, dono do tempo e da eternidade,
teu é o hoje e o amanhã, o passado e o futuro.

Ao iniciar mais um ano, paro minha vida diante
de teu calendário que ainda não comecei,
e te apresento estes dias,
que somente tu sabes se chegarei a vivê-los.

Hoje, te peço para mim e para todos
os meus parentes e amigos, a paz e a alegria,
a fortaleza e a prudência, a lucidez e a sabedoria.

Quero viver cada dia com otimismo e bondade,
levando por toda parte
um coração cheio de compreensão e paz.

Que meu espírito seja repleto somente de bênçãos,
para que derrame por onde eu passar.

Enche-me de bondade e alegria, para que
todas as pessoas que eu encontrar no meu caminho
possam descobrir em mim um pouquinho de ti.

Dá-me um ano feliz, e ensina-me a repartir felicidade.

Amém!

Angela Moura

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2004 - tempo da paz

Eu acredito que em 2004 teremos mais tempo,
tempo para aprender tudo o que o
homem fez no passado,
tempo para ensinar o que de bom aprendemos,
tempo para refletirmos em nossos erros,
tempo para fortalecermos nossos acertos,
tempo para restabelecer laços que se romperam,
tempo para estreitar amizades que conquistamos,
tempo para falar de nossos sonhos,
ouvir um pouco dos sonhos do próximo.
Tempo para trabalhar muito mais,
atingir metas, objetivos,
tempo para espreguiçar gostoso, se divertir,
ou simplesmente não fazer nada.
tempo para cuidar da mente,
do corpo, da saúde,
tempo para Deus, para cuidar do espiritual.
Eu acredito que 2004 será um tempo de colheita,
jogaremos fora as sementes ruins que não germinaram,
adubaremos com amor as sementes
que começam a florescer.
Sobretudo, 2004 é um ano de plantar novos sonhos,
novos programas,
restabelecer aquele sorriso quase infantil,
aqueles sonhos mais simples,
andar descalço na areia fofa,
correr feito criança para os braços dos pais,
chorar pelos que se foram,
plantar uma árvore e recomeçar...
A vida recomeça a cada dia e bendito seja
o Criador da vida
que nos dá a oportunidade de recomeçar sempre,
Eu acredito que 2004 será muito melhor,
principalmente porque eu acredito em você,
e você é o principal motivo do mundo acreditar na paz.
Feliz 2004, feliz você,
feliz o mundo que pode contar com você,
eu acredito em você, sempre!

Paulo Roberto Gaefke - Recebi hoje de minha amiga Angela Moura

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Farejando novidades
Pet shops apresentam produtos para cães e gatos lançados pela indústria neste verão
Silvana Caminiti

Dados do Ibope revelam que 59% da população brasileira têm um animal de estimação dentro de casa, sendo que o número de cães e gatos no País cresceu 17,6% nos últimos quatro anos, chegando a 40 milhões de pequenos animais. Hoje, o Brasil é o segundo país do mundo com a maior população de animais de estimação. Esses são alguns dos muitos e atrativos motivos pelos quais o mercado de produtos e serviços voltados aos pequenos animais de estimação, os pets, vem crescendo nos últimos anos sem sequer sentir os efeitos das recentes crises econômicas.

Segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), o mercado veterinário brasileiro faturou este ano R$ 2,20 bilhões, sendo que o setor de pet representa 9,4% desse mercado. Já para o mercado de nutrição de pequenos animais, ou pet food, há uma projeção de crescimento de 5% para este ano. Outro dado importante sobre o setor é quanto ao consumo de alimentos industrializados para pequenos animais, que cresceu 400% de 1995 até agora.

Mas, apesar de bastante atraente, o mercado de pet shop é bem concorrido, e para garantir bons negócios nada melhor do que estar de olho nas novidades criadas pelas indústrias. Para este verão, duas das novidades são as bolsas e necéssaires, que podem tanto ser usadas para transportar cães e gatos em viagens, quanto em passeios e idas à praia.

São produtos de qualidade e com acabamento final de primeira. Muitos donos de bichinhos vão querer usar a bolsa até para colocar coisas suas, diz o empresário Luiz Pereira, dono da franquia Pet From Ipanema, uma das maiores redes de lojas do ramo do mercado carioca. Pereira lembra que a indústria também lançou uma nova coleção de roupas para cães para a estação, que está fazendo grande sucesso. As peças provam que o comércio de produtos para cães ganha cada vez mais sofisticação e espaço no mercado, diz o empresário.

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Portinari 100 anos
Exposições e documentário comemoram centenário de um dos maiores pintores do País
Flávia Motta

O aniversário de nascimento é hoje, mas o centenário de Candido Portinari vem sendo comemorado desde o início do ano, com uma série de eventos. Teve o balé Baile na Roça, inspirado em tela homônima do pintor; publicação de catálogo com toda sua obra; exposições e até a inauguração de hotel com seu nome. Apesar de tanta agitação, a festa para o pintor nascido em Brodósqui, São Paulo, e que ganhou o mundo tem mural seu até na sede da ONU, em Nova Iorque hoje é em tom solene, com missas em várias igrejas no Brasil. O movimento começou na Basílica Nossa Senhora de Lourdes, em Vila Isabel, onde a celebração acontece às 10h.

Mas 2004 promete mais. Para o ano que chega estão programadas duas mostras, programa educativo e documentário. A obra de Portinari é como uma imensa carta que o pintor dirige ao povo brasileiro. A grande missão do Centenário Portinari é entregar esta carta a cada brasileiro, onde quer que ele esteja, diz João Cândido Portinari, filho do artista e diretor-geral do Projeto.

O maior dos eventos é a Grande Exposição Retrospectiva, a mais completa mostra já feita sobre a obra de Portinari. Serão ocupados três espaços com 400 trabalhos do artista. O Museu Nacional de Belas Artes concentrará 200 obras, da primeira, Retrato de Carlos Gomes, à última e inacabada Carajá. Ao mesmo tempo, na Academia Brasileira de Letras, estarão reunidos retratos de personalidades literárias contemporâneas a Portinari.

Registros de Mário de Andrade, Jorge Amado, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, entre outros, darão as boas-vindas no ciclo de conferências no auditório. Já no Palácio Gustavo Capanema, que tem 21 obras de Portinari, serão expostos 80 trabalhos, entre esboços, estudos, desenhos para transporte e maquetes para os murais, painéis e azulejos executados para o prédio.

A segunda parte da comemoração do centenário traz Visões Múltiplas Portinari Revisitado, com obras de 30 artistas contemporâneos a partir da tela O Lavrador de Café. Entre os convidados, o designer de jóias Antonio Bernardo, o estilista Fause Haten, o cineasta João Moreira Salles, a carnavalesca Rosa Magalhães e o cartunista Ziraldo.

Na pauta do Projeto para o ano que vem ainda estão o lançamento do documentário e DVD Portinari ¿ O Pintor do Brasil, dirigido por Belisário França e Bebeto Abrantes. Com uma hora, o filme apresenta a vida e obra do pintor. Também para entender melhor a biografia do artista, 500 escolas públicas de Ensino Fundamental em todo o País vão receber o Bauzinho de Portinari, material didático com réplicas de quadros, dois vídeos, seis jogos e sete livros relacionados ao pintor.

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Liberato Vieira da Cunha
30/12/2003


Uma câimbra na memória

Dizem que não há tempos melhores do que outros - e não sou ninguém para discordar. Suspeito no entanto de que existam tempos diferentes, e não foi outro o pensamento que me veio ao subir, dia desses, ao abandonado salão de festas de um prédio da Zona Oeste. Palavra que na hora me bateu uma câimbra na memória. Eu tinha conhecido aquele espaço numa época em que ele era sinônimo de juventude e de romance e o revia agora imerso em poeira e esquecimento.

Pela altura dos Anos Dourados, poucos edifícios de Porto Alegre dispunham de salões de festas, hoje corriqueiros como as churrasqueiras de sacada ou as câmeras de insegurança. Você falar que morava em um prédio aparelhado daquele sedutor equipamento equivalia a revelar que seu pai era estancieiro, industrial, financista, que sua mãe se vestia com Dona Mary, e os dois iam lhe dar um Gordini de Natal.

Sabe uns 500 rapazes e garotas, eles de topete e de terno de nycron, elas de laquê e perfume Toque de Amor, todos rodopiando em azul profundo ao som de um twist e da voz de Chubby Checker? Era um panorama comum nos enormes salões do Edifício Esplanada. Sabe a Lua debruçada sobre o rio lá fora e ali dentro um long play do The Platters triturando uma legião de corações com a melodia de My Pray? Era a paisagem habitual do salão de festas do Edifício Vista Alegre aos sábados à noite. Sabe a música a que chamam Al di là, sabe seu doce, estranho poder de colar a face sobre a face, de sintonizar mentes e desejos? Não era uma cena rara no amplo, alado salão de festas do Edifício Ada.

Não há tempos melhores nem piores. Há tempos diferentes. Mas, nesse entardecer em que contemplei a tristura e o desamparo de um salão de festas num prédio da Zona Oeste e depois saí e fui pegar meu carro e na esquina um marmanjo acabava de derrubar uma senhora e de bater nela e de roubar sua bolsa, palavra que me pegou uma pontinha de saudade dos Anos Dourados.

Daquela era ancestral, quando esta cidade, nos fins de semana, era uma imensa reunião dançante e você nem precisava ter medo de sua própria sombra.
liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
30/12/2003


Invasões Bárbaras?

Fui ao cinema cheio de expectativas para conferir o Invasões Bárbaras, espécie de returno do Declínio do Império Americano, filme de anos atrás, de que me lembro como uma experiência impactante de representação de cinismo misturado com anomia, tudo mergulhado num clima de desilusão com os sonhos libertários dos anos 60, e erguido contra o fundo onipresente de uma megaculpa católica a reinar soberana sobre o conjunto. Agora, eu imaginava que a coisa ia mais fundo em reflexão. Tanta gente falando tão bem do filme, só podia ser bom.

Mas nada disso. Ali onde eu esperava mais profundidade, encontrei mais clichê. O filme não é ruim, mas definitivamente me pende mais para o sentimental e o piegas do que para o reflexivo. Vamos fixar duas ou três coisas: uma, a dimensão social do conflito, que no começo parece ser central; outra, a dimensão cultural, cifrada nas leituras e nas referências da geração que ali se representa; outra ainda, o nome, que é uma banalidade mas não devia ser.

Começo pelo fim: de que bárbaros se trata? A sugestão poderia ser os povos não-brancos, ou não-europeus, que de fato ocupam a Europa, os Estados Unidos e também o Canadá, sede física e espiritual do filme. Nesse caso, o título coroaria um filme de direita, que estaria metendo o dedo na cara de alguém (na do diretor, talvez) com a acusação de que a coisa degringolou com a chegada dessa gente escura e pobre. Mas não é isso que o filme pretende, em sua correção política de aspecto autocrítico, embora seja essa uma leitura cabível.

A dimensão social do conflito, que abre o filme naquele movimento angustiante de câmera que passeia por corredores terceiro-mundistas de hospital canadense - um espanto para a platéia local -, em seguida se dissipa. Embora o protagonista faça lá sua bravata de querer pagar o preço por seus sonhos de juventude, alegando que agüenta no osso do peito as más condições do atendimento da medicina socializada, em seguida se conforma e, pior ainda, o filme abandona a questão.

Nas entrelinhas, o que ler? Que a pequena corrupção é a saída, na opinião daquele grupo? Acho que o diretor e o roteirista é que não souberam ir mais fundo na questão que eles próprios detectaram, algo como a sucessão do sindicalismo pela associação mafiosa.

Finalmente, o que me parece ser a chave da fragilidade do filme, a dimensão cultural. O tempo todo os protagonistas, a partir do moribundo professor de História, se regozijam no reconhecimento de suas referências formativas, chegando mesmo a uma seqüência beirando o ridículo, em que desfiam um rosário de nomes - Camus, Sartre, marxismo, estruturalismo, desconstrucionismo, etc. -, como a dizer "Ah, que saudades dos meus 18 anos".

Aqui o problema é de enfoque: o grupo de protagonistas é tolo, ou cínico, ao desconsiderar as posições relativas entre centro e periferia, entre quem faz a moda (intelectual) e quem meramente a segue, misturando num mesmo saco coisas assim desiguais - de resto, como vários intelectuais da periferia, canadense ou brasileira, sempre atônitos a perseguir a última moda, o melhor "ismo" de todos os tempos da última semana. O resultado é um filme imobilista e apelativo, que nos dá uma colherzinha de chá em forma de sentimentalismo onde poderia oferecer crítica.

fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
30/12/2003


A pessoa do ano
Há três quartos de século, a revista Time vem escolhendo a personalidade de destaque do ano que passou. De início, a publicação falava no "Homem do ano"; depois, como esta denominação ficou politicamente incorreta, mudou para "Pessoa do ano", homem ou mulher. Este ano, o título foi para o soldado americano.

Se o pessoal da Time estava pensando no soldado que, vestido de Papai Noel, distribuiu presentes às crianças iraquianas, acertou. Mas se estava pensando nos guerreiros que, armados até os dentes, invadiram o Iraque em busca de armas que até hoje não foram encontradas, pode ter agradado ao presidente Bush, mas certamente cometeu um erro, prestigiando uma guerra que é, no mínimo, objeto de controvérsia no mundo inteiro.

E, aqui no Brasil, quem seria a pessoa do ano? Lula deu uma dica. Num de seus últimos compromissos, visitou um grupo de papeleiros, quando, aliás, se comoveu até as lágrimas, coisa que, comparada com a gelada arrogância de um Collor pode parecer estranha, mas que mostra que o país mudou (para melhor, no meu entender).

Os papeleiros são figuras novas no cenário brasileiro. Correspondem, de um lado, ao crescente desemprego, mas de outra parte mostram que é possível, sim, transformar o limão em limonada. Aquilo que no passado era considerado lixo, agora é matéria-prima. E muitos grupos de papeleiros, como aquele que Lula visitou, têm dado um admirável exemplo de organização.

De vez em quando observo, em minha rua, um grupo desses. São várias pessoas, homens, mulheres e crianças, que percorrem os prédios, recolhendo papel (e há muito papel num bairro de classe média). Chama-me a atenção uma menina magrinha, que não terá mais de 10 anos. Enquanto os outros vão recolher o material, ela fica sentada na rua, ao lado da pilha de revistas e de jornais. E o que faz? Ela lê. Aquilo que qualquer um de nós consideraria sem serventia (nada é mais velho que o jornal de ontem) é, para ela, fonte de informação e talvez de encanto. A informação e o encanto de que pode dispor, em sua extrema carência.

Proponho, para pessoa do ano no Brasil, esta pequena papeleira. Ela não tem armas sofisticadas, ela não têm mísseis, ela não pilota um avião de combate. Mas é uma lutadora, sim. Não porta fuzis nem granadas, mas é uma lutadora. E um dia, como este país, ganhará a guerra contra a miséria.
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
30/12/2003


Uma lei draconiana
O novo Código Brasileiro de Justiça Desportiva vai trazer um rigor jamais visto para os protagonistas principais do futebol.

As agressões de jogadores contra outros jogadores (cabeçadas fora de disputa da bola, socos, pontapés) vão resultar agora em suspensão de 120 a 540 dias.

Antes, o afastamento era de no máximo 180 dias. Quinhentos e quarenta dias me parece uma suspensão por demais draconiana. Ficar quase dois anos suspenso, por exemplo, por participar de uma rixa que envolve diversos jogadores, tão comum no futebol, soa como uma demasia que atenta contra o direito do atleta de trabalhar.

Se a agressão causar lesão grave no adversário ou em árbitro ou bandeirinha, o atleta poderá ficar 720 dias suspenso. Ou então restará suspenso enquanto a sua vítima não tiver voltado às competições em razão da lesão causada por dolo.

Para mostrar que o novo código exagera nas punições, basta que se diga que estabelece que os treinadores que ultrapassarem a área técnica que lhes é reservada à beira dos gramados ficarão sujeitos a suspensão de 30 a 120 dias.

Mesmo que o treinador saia daquela sua área técnica com o objetivo de afastar seus jogadores de um conflito generalizado, fato comum em vários jogos, estará sujeito à punição: "Não pode sair daquele local em nenhuma situação, a não ser que se sente no banco ou vá para o vestiário", firma energicamente o presidente do STJD, Luiz Sveiter.

Um rigor militar para ser aplicado numa disputa esportiva. Um absurdo.

Os treinadores que estiverem suspensos não poderão passar instruções aos seus substitutos que ficarem à beira do gramado, nem por telefone celular. Não poderão ficar em nenhum lugar privado do estádio. "Se ele quiser, que compre um ingresso de arquibancada ou de cadeira. Mas acabou o privilégio de ficar em cabina, reservada ou não, para dar instruções à equipe."

Se o treinador violar esta norma, pagará multa de R$ 50 mil a R$ 500 mil.

Outra multa que pode atingir R$ 500 mil é para os clubes que tentarem se beneficiar de "laranjas" na Justiça comum, com a finalidade de anular ou coibir decisões da Justiça Desportiva.

O dinheiro das multas será destinado às entidades administrativas do esporte.

Os clubes estão passando por sérias dificuldades financeiras, justamente agora é que as multas por uma só infração vão se constituir em uma fortuna. É demais.

As suspensões por doping poderão atingir até um ano, quando se sabe que muitos atletas são enquadrados em doping quando inadvertidamente tomam remédios para problemas de saúde que contêm substâncias proibidas.

Ou seja, as punições serão derrubadas sobre os infratores como uma desgraça, da qual dificilmente se recuperarão.

O futebol é um esporte emocional, muitas vezes implica reações violentas, que certamente terão de ser punidas, mas não com a pena da estragar com a vida dos infratores. Ou para agravar até o drama a situação financeira dos clubes.

Este novo Código do Futebol se enquadra na tendência atual brasileira de exacerbar as punições, só se fala em pena de morte, em antecipação da idade penal, em aumento das penas para os crimes.

Punir, punir, punir. Tudo bem, desde que não seja para destruir os punidos.

E o futebol afinal não escapou da sede de implacabilidade que domina emocionalmente a opinião pública nacional.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Cidadania
Gari da esperança



Ex-interna da Febem e semi-analfabeta, Rozeli da Silva construiu e mantém uma creche para 184 crianças, entre sete e 14 anos, em Porto Alegre (foto Mauro Vieira/ZH)


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Segunda-feira, Dezembro 29, 2003




"13 Linhas para Viver"

Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo.

Nenhuma pessoa merece tuas lágrimas e quem as merece não te fará chorar

Só porque alguém não te ama como tu desejas, não significa que não te ame com todo seu ser.

Um verdadeiro amigo é quem te pega a mão e te toca o coração.

A pior forma de sentir falta de alguém é estar sentado a seu lado e saber que nunca o poderá ter.

Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estais triste, porque nunca sabes quem poderá enamorar-se de teu sorriso.

Podes ser somente uma pessoa para o mundo mas, para alguma pessoa tu és o mundo.

Não passes o tempo com alguém que não esteja disposto a passá-lo contigo.

Quem sabe Deus queira que conheças muita gente enganada antes que conheças a pessoa adequada para que, quando no fim a conheças, saibas estar agradecido.

Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.

Sempre haverá gente que te machuque. Assim, o que tens de fazer é seguir confiando e só ser mais cuidadoso em quem confias, duas vezes.

Converte-te em uma melhor pessoa e assegura-te de saber quem és antes de conhecer mais alguém e esperar que essa pessoa saiba quem és.

Não te esforces tanto, as melhores coisas acontecem quando menos esperas.

Envia esta mensagem às pessoas que por alguma razão são tuas amigas, mesmo que não as veja sempre, mesmo que não fales sempre com elas, pois lembra-te: "TUDO QUE ACONTECE, SUCEDE POR ALGUMA RAZÃO"

Gabriel García Marquez

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NO ANO QUE VEM
José Geraldo Martinez

Rompe a tarde , chega a noite .
No peito , a esperança que vem ...
Do recomeçar diferente ,
no mudar da gente ...
Para o ano que vem !
O peito se enche de sonhos ,
abrem-se todos os caminhos ...
Juntamos todos os tropeços que encontramos ribeirinhos .
Levamos a experiência ,
nossa bagagem valiosa !
Abandonamos os espinhos , sonhamos com a linda rosa ...
Termina uma etapa , outra logo vem .
Somos pura esperança para o ano que vem !
Um amor novo ?
Uma viagem ?
Uma mudança radical de vida ?
Notícias de alguém ?
Quantos sonhos e vida ...para o ano que vem !
Terminar a faculdade ?
Curar-se de uma enfermidade ?
Reconciliar o amor desfeito ?
Chorar de felicidade ?
Doar-se um pouco mais do que tem ?
Quantos sonhos e vida para o ano que vem !
Pedir o perdão finalmente ?
Escutar o amigo de sempre ?
Fazer tudo diferente ?
Saber esperar ?
Parar de fumar ?
Quando o ano que vem chegar !
Fazer regime ?
A sorte arriscar ?
No jogo do azar ?
Quantos sonhos ! Quanta vida !
O velho ano é como se fosse deixado todos os nossos problemas .
Ano novo , tempo de recomeçar ...
Até que velho fique !
Doce ilusão ...
Velho estaremos também ...
Só no ano que vem !

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Contas que tiram o sono

Faturas de Natal, IPTU, IPVA e matrícula escolar pedem planejamento, para ano não começar no vermelho
O acúmulo de contas, como IPVA, IPTU e faturas de Natal, pede planejamento para o consumidor não entrar o ano negativo. Tradicionalmente, janeiro é o mês mais apertado para os brasileiros. Na temporada, vencem parcelas de cheques pré-datados e cartões de crédito junto com pagamento das mensalidades escolares, cobrança de impostos e compra de uniformes e material escolar.

Para começar, motoristas que optarem pelo pagamento à vista do IPVA terão direito a desconto de 10% sobre o valor do tributo devido. O imposto poderá ser parcelado em três vezes. O contribuinte deve prestar atenção à data da primeira parcela, que coincide com o pagamento da cota única. A primeira placa que vence é a de final 0, no dia 16. O calendário de IPVA deste ano vai até 19 de maio, quando vencerá a última prestação dos veículos com placa de final 9.

Além do IPVA, outra obrigação tira o sono no início do ano: o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). A Prefeitura do Rio dará 10% de desconto a quem pagar à vista, mas o tributo poderá ser pago em 10 vezes. Os carnês, que este ano virão reajustados em 9,86%, chegam até dia 15.

Na escola, quem adiantou a pré-matrícula deve cobrar o débito do valor pago em novembro ou dezembro da mensalidade de janeiro. O casal Mauro Távora, 51 anos, e Solange Barboza, 39, planejou os gastos de início de ano, como matrículas dos filhos de 11 e 13 anos. Todo mundo se aperta nesta época, mas as despesas já estavam previstas e acho que não vamos nos surpreender. Reservamos dinheiro para cobrir esses gastos, conta Mauro, que gastou R$ 2.700 em compras de Natal, incluindo um computador para a família.

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2003 ao vivo
Em um ano com poucas novidades e muita pirataria, CDs acústico e com platéia salvam a pátria musical
Mauro Ferreira



Los Hermanos (E) provaram a genialidade com o CD Ventura. Jota Quest e Kid Abelha (C) faturaram alto com discos da MTV, enquanto Skank inovou numa mistura de Beatles com Lô Borges e ficou nos 100 mil

Em um mercado fonográfico corroído em 60 % pela pirataria de CDs e pela prática de baixar músicas na internet, já um hábito entre o público jovem, a MTV foi o pronto-socorro que acudiu cantores e grupos em busca das vendas perdidas. Na música de 2003, a ordem foi, como em 2002, gravar discos ao vivo de caráter retrospectivo, com uma ou duas inéditas para tirar o cheiro de mofo. Alguns dos artistas mais bem-sucedidos deste ano (Jota Quest, Charlie Brown Jr., Zeca Pagodinho, Kid Abelha) apostaram na fórmula e tiveram em seus discos o carimbo da emissora. Ivete Sangalo foi a última, em megashow que reuniu na Bahia o Ministro da Cultura Gilberto Gil e a dupla Sandy & Junior.

Outros nem com a receita conseguiram se reerguer, casos de Marina e de Daniela Mercury. Mas a estrela de 2003 foi uma cantora novata que parece saída do túnel do tempo. A reboque de sua incrível semelhança vocal com a mãe, uma tal de Elis Regina, Maria Rita foi o fenônemo do ano com sua MPB de sotaque tradicional e sai de 2003 com mais de 500 mil cópias vendidas de seu CD de estréia, sem falar nos 50 mil exemplares de seu primeiro e precoce DVD. O marketing em torno da moça foi forte, mas não tanto quanto a saudade de Elis, a verdadeira responsável pelo estouro da filha.

De quebra, Maria Rita ainda tirou o hermano Marcelo Camelo do circuito cult. Ao gravar três músicas do compositor em seu disco, a cantora mostrou o que muita gente que ouve pop nacional já sabia: que o cara é até estranho com aquela barba longa, mas é muito bom. O terceiro disco do grupo Los Hermanos, Ventura, já tinha confirmado que a genialidade do segundo, Bloco do Eu Sozinho, não foi obra do acaso. Páreo para Los Hermanos, só o Skank, com sua refinada mistura de BritPop, Beatles e Clube da Esquina no Cosmotron, que vendeu 100 mil cópias bom para tempos de crise.

Se as gravadoras multinacionais agonizam, dispensando artistas e funcionários, o mercado independente respira com certa tranqüilidade. Gal Costa migrou para a pequena Indie Records e, depois de um bate-boca público por causa de dinheiro, cancelou show e fez em estúdio um de seus melhores discos. Milton Nascimento preferiu sair da Warner para se dedicar ao seu selo, Nascimento. Já a Biscoito Fino entregou a Maria Bethânia seu primeiro Disco de Ouro. E foi dela, Bethânia, um dos discos mais elogiados do ano, Brasileirinho, culto às formações indígena e negra do País. Foi por lá também que Miúcha reverenciou Vinicius de Moraes em disco que reúne músicas e letras do poeta.

Por seus 90 anos, completados em 19 de outubro, Vinicius foi um dos dois grandes homenageados do ano. O outro foi Ary Barroso, saudado em discos e shows pelo seu centenário.

Num ano de poucas atrações internacionais em palcos cariocas, como o grupo britânico Coldplay, o DJ Marlboro foi a estrela do Tim Festival, sacudindo com seu balanço funk o evento que trouxe White Stripes e Peaches, entre outros nomes.

Lá fora, a situação também não anda nada boa. Madonna, em queda livre no mercado com seu morno CD American Life, apelou novamente, beijando Britney Spears na boca no VMA para garantir mídia. Terminou o ano lançando requentado disco com remixes, faixas ao vivo e sobras de estúdio. Já Michael Jackson corre o risco de ir para a cadeia por conta de suposto abuso sexual de menores.

O outrora rei do pop nem teve tempo de saborear o lançamento de Number Ones. Por aqui, Belo também amarga problemas com a Lei, condenado a cumprir oito anos de prisão por associação com o tráfico. E Leonardo poderá ser indiciado por homicídio culposo num acidente de carro que vitimou seu amigo. Notas desafinadas de um ano musical que correu em harmonia, apesar da morte anunciada do CD.

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Luis Fernando Verissimo
29/12/2003


Novo nome

O ex-PT está com um problema: como deve se chamar o partido, depois que se desligou de Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá etc? PSD do B, como foi sugerido, soa como se a dissidência fosse com o PSDB e não com o PT de verdade, e esta é a última impressão que eles querem dar. Pelo contrário: o ex-PT preocupa-se cada vez mais em se parecer com o PSDB, tanto que antes de sair de casa o Lula costuma perguntar à Marisa "Como é que eu estou?", e ela, ajeitando a sua gravata: "PSDBíssimo".

Mas PSDBíssimo também não é um bom nome para o novo partido - a sigla ocuparia muito espaço nas cédulas. Pela mesma razão foi rejeitado PSDBérrimo. Também foram cogitados e descartados PTRC (PT Revisto e Cooptado), PTQPT (PT, Que PT?) e PTMNT (PT Mas Não Tanto). Outras siglas sugeridas: PPG (Partido Paciência Gente, ou Peraí Galera), PPF (Partido do Palocci Forever), PZZ (Partido Zé com Zé, ou do Dirceu e do Genoino), e PQD (Partido Quem Diria). O problema continua.

Sou um mau retrospectivista. Não consigo me lembrar de metade do que aconteceu no ano e quando me lembro fico na dúvida: isto foi mesmo este ano? O jeito é selecionar os extremos, o melhor e o pior e desistir do médio, pois no fim tudo se relativiza. O melhor do ano foi a Maria Rita, o pior do ano foi aqueles dois alemães sentando para comer o pênis de um deles, antes de um matar o outro para comer o resto. Até que ponto os extremos se relacionam e se compensam? Budapeste, o livro do Chico, anula quantas atrocidades de guerra, o Botafogo voltando à primeira divisão consola por quanta miséria humana, e como é possível conciliar a taxa de juros com a Luana Piovani no filme do Jorge?

Foi um ano de perdas pessoais e bons momentos, de alegrias e horrores, e só não se pode dizer "como todos os anos" porque depois do 11/9/01 os anos têm sido diferentes, vivemos na expectativa de horrores inéditos. Seguindo a doutrina Bush de contra-atacar antes do ataque, estou até pensando em fazer agora uma retrospectiva preventiva de 2004, para tentar evitar o pior. O que também eliminaria o problema da falta de memória.

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Paulo Sant'ana
29/12/2003


Santo do pau oco

A gente fala e não sabe o que fala. Eu, por exemplo, cansei durante toda a vida de pronunciar três expressões com a maior naturalidade, sem me dar conta do seu original significado.

Uma delas é "ir para as cucuias". Só agora é que fui buscar a origem dessa expressão, que ao que parece se refere ao Cemitério da Cacuia, existente antigamente na Ilha do Governador, Rio de Janeiro.

De "cacuia" passou para "cucuias", querendo dizer morrer, ir para o beleléu. Bem, beleléu, já tem outra origem, que, embora tivesse me esforçado, não consegui descobrir.

Outra expressão que sempre usei foi "casa da mãe Joana". Tinha idéia de que se referia a uma bagunça, a um lugar sem direção e organização, mas desconhecia a origem.

Agora vim a saber que a expressão teria tido origem por volta do ano de 1350, quando Joana, rainha de Nápoles, assinou um decreto regulamentando o funcionamento de bordéis na região de Avignon. A lei impedia qualquer forma de repressão aos freqüentadores. Uma casa de todos, sentenciou a rainha.

E assim casa da mãe Joana quer dizer um lugar em que todos podem entrar sem prestar contas a ninguém.

E a terceira expressão que sempre usei sem atinar para sua origem é "santo do pau oco".

A pesquisa diz que tratou-se de uma invenção tipicamente brasileira, que constituía em fabricarem-se imagens de santos de madeira, preparadas cuidadosamente para ocultar em seu interior ouro, diamantes e outras pedras preciosas, que eram assim escondidos dos fiscais da Coroa portuguesa, servindo ao contrabando e à sonegação de impostos.

Usa-se então santo do pau oco para caracterizar qualquer pessoa que tenha na vida um comportamento que sua aparência não indica.

Qualquer coisa assim como uma mulher ou homem com aparência virtuosa, que no entanto se entregam à devassidão.

Ou como diz um quinteto célebre: "Criança bonita e meiga/ para os pais anjo celeste/ Para mim é uma peste/ que emporcalha de manteiga/ as calças que a gente veste".

É inacreditável que a nova lei que regerá os planos de saúde privados esteja a marginalizar por pressão financeira irresistível os idosos.

Os preços para as mensalidades dos planos de saúde podem oscilar em até 500%, conforme a faixa etária do segurado, sendo que o teto etário será fixado em 59 anos.

Isto quer dizer que já aos 59 anos de idade o segurado deverá pagar seis vezes mais do que pagam os jovens.

Fica proibido assim em matéria de saúde ser velho no Brasil.

De tal forma se pressionarão os idosos na nova lei engendrada pelo governo, que a grande maioria deles terá de se submeter ao SUS, engrossando ainda mais as multidões que se enfileiram nos postos de saúde e hospitais à procura de atendimento.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
Água quente salvou o feriadão



A temperatura de 26,8ºC do mar estimulou o banho em Capão e amenizou o vento à beira-mar (foto Emílio Pedroso/ZH)


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Domingo, Dezembro 28, 2003




Quem sabe parte desses vinte bilhões não é sua...Vale a pena conferir. uma ótima semana.

Fortuna no fundo do baú

Três milhões de brasileiros esqueceram R$ 20 bilhões em ações, dinheiro que viria em boa hora para pagar contas de início de ano
Wallace Faria

Sabe aquele dinheiro que você está esperando cair do céu para pagar uma dívida, os pré-datados do Natal ou as contas de início de ano? Ele pode estar no fundo do baú, na forma de ações de empresas, na maioria estatais ou ex-estatais, que você nem sabe que tem. Há 3 milhões de pessoas nessa situação no Brasil, detendo a pequena fortuna de R$ 20 bilhões ¿ em média, pouco menos de R$ 7 mil para cada um. Algumas corretoras, estão recomprando os papéis para que voltem ao mercado.

O caso mais comum é o das ações da antiga Telebrás, que eram distribuídas quando o consumidor comprava uma linha telefônica. Com a privatização e a divisão regional do mercado de telecomunicações, um papel antigo se transformou hoje em 35 tipos de ações de até 14 empresas diferentes.

Esse foi o caso do engenheiro Renato Silva e Silva, 53 anos, que deu procuração a uma corretora para pesquisar as ações que recebeu nos planos de expansão de 1975 e 1993. O resultado foi um cheque de R$ 1.900, já descontando a comissão da corretora. ¿Não tinha interesse em especular com esses papéis. Eles só me davam trabalho para declarar o Imposto de Renda¿, disse.

Outro caso comum é o da Petrobras. Uma taxa compulsória sobre os carros novos formou o capital inicial da empresa, há 50 anos. Ao pagá-la, o consumidor ganhava obrigações, que poderiam depois se transformar em ações. Já a Eletrobrás distribuiu títulos para quem economizava energia nos anos 70, numa tentativa de driblar um apagão.


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