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E N T R E L A Ç O S

Sábado, Janeiro 10, 2004





Nos momentos de maior desânimo...


O mundo está cheio de fracassados cultos, talentosos frustrados, perdedores inteligentes e pessoas com excesso de capacidade para fazer o que fazem. Todos nós conhecemos alguém que se enquadra em uma dessas categorias. São indivíduos que passam pela vida sem alcançar um mínimo de sucesso, até nas tarefas ou atividades mais simples. Poderia se pensar que a posse de tais atributos - o talento, a educação, a inteligência, a força, a agressividade, a sabedoria - assegurariam a essas pessoas o sucesso automático: mas não é assim.

Por quê? Porque nem todos os que estabeleceram objetivos fizeram planos e agiram com perseverança até triunfar. Por isso, as suas oportunidades de realizarem o objetivo foram limitadas. São pessoas que mudam de rumo quando não deviam, ou facilmente se dão por vencidas, ou perdem a confiança e o entusiasmo: e como sempre, encontram um motivo para não perseverar, simplesmente abandonam tudo! E isso, é claro, tem efeitos desastrosos. Os planos que realmente valem a pena devem ser seguidos até o fim.

Perseverar quer dizer manter um curso fixo, não considerando os atrasos, as dúvidas, ou as dificuldades: quer dizer não se dar jamais por vencido. É a habilidade que separa os ganhadores dos perdedores. A característica mais típica e comum dos que triunfam é a perseverança. Isso dá certo nos esportes, nos negócios, na ciência , nas artes e em qualquer outro empreendimento orientado por metas.

Trajeto
Perseverança é a habilidade de percorrer todo o trajeto. É o que em última instância significa cruzar, ou não, a linha de chegada. Este compromisso de "terminar a corrida" nunca é fácil. Há épocas em que somos tentados a ir atrás de interesses que nos dão prazer imediato, negligenciando as prioridades a longo prazo.

Recordar
Vamos relembrar os dez últimos anos de nossa vida. O que foi que abandonamos e do que agora nos arrependemos?

Gostaria de ter terminado o segundo grau, a faculdade, ou um curso de pós-graduação? Queria ter continuado as aulas de canto, de dança, de piano, de outro idioma? Desejaria ter permanecido naquele emprego simples, que mais tarde lhe apresentaria uma oportunidade de promoção? Gostaria de ter se empenhado mais para manter um relacionamento ou uma amizade antiga, que terminou quando surgiram momentos difíceis?

Muitos carregam cicatrizes ou feridas profundas por terem desistido de algo ou de alguém. Muitos são os que olham para seu passado, meneiam a cabeça e perguntam-se: "Por que desisti com tanta facilidade? "A resposta é simples; é infinitamente mais fácil desistir do que perseverar.

História
Quando você achar que é difícil prosseguir, deve lembrar-se da história de um caçador de diamantes da Venezuela, chamado Rafael Solano. Ele era um dos muitos nativos pobres que buscavam enriquecer. Certo dia, ele foi peneirar as pedras de um banco de areia de um rio seco onde se dizia haver diamantes na areia. Um por um, aqueles que chegavam e partiam do local tinham seus sonhos despedaçados e seus corpos exauridos. Desanimado e exausto, Solano acabara de decidir que chegara a hora de desistir também. Ele não tinha nada para mostrar após meses de trabalho.

Solano, então, abaixou-se para peneirar mais um punhado de pedregulhos, para que ao menos pudesse dizer que tinha inspecionado cada pedregulho na sua propriedade. Dos pedregulhos na sua mão, ele pegou um que parecia um pouco diferente. Ele o pesou na outra mão. Parecia realmente mais pesado. Ele o mediu e o pesou numa balança . Poderia ser o que pensava? Exatamente: Solano encontrava um diamante bruto! O joalheiro nova iorquino Harry Winston pagou 200 mil dólares só por aquela pedra. Quando o diamante foi polido e lapidado, ficou conhecido como libertador, e é considerado o maior e mais puro diamante não-minado do mundo.

Concluindo
Talvez você esteja atolado num trabalho por semanas, meses ou até anos, sem ver muito resultado. Hoje pode ser o dia. Não desista! Quando perseguimos um objetivo, às vezes encontramos reveses. Há muitos homens e mulheres, através da história, que conseguiram enorme sucesso somente depois de terem tentado, e tentado novamente. E você pode fazer o mesmo.

Daniel C. Luz é escritor e palestrante de temas motivacionais, autor do livro "Insight 2" (editora DVS).

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Com a cara do verão!

No verão, as pessoas ficam mais soltas, dá vontade de ficar na rua o dia todo, de jogar conversa fora com os vizinhos na calçada de casa. Um colorido especial invade as vitrines, com peças pinks, amarelas, verdes, azuis, vermelhas, tudo muito lindo. Só de caminhar por aí, a palidez no rosto dá lugar a um leve bronzeado. O verão é a época em que todos os fantasmas que assombram nossa vaidade se revelam. As roupas, a praia, a piscina, tudo é motivo para botar pra fora aquilo que desejamos deixar no mais absoluto sigilo - pneus, celulites, flacidez e corremos atrás de uma silhueta em forma, temos mais ânimo e vontade para cuidar da gente.

Mas também é o momento certo para juntar a falta de fome, devido ao calor, com a vontade de não comer, para evitar uma iminente reprovação no teste da areia. Embora o sol não tenha brilhado com tanta freqüência nos últimos dias, mesmo assim as energias do verão habitam nossos olhares, nosso coração, nossos gestos, nossos pensamentos no dia a dia.

Há duas semanas o caderno MULHER investe em temas de verão. Hoje, por exemplo, o leitor poderá conferir um editorial de moda sobre os cem anos do maiô, traje que, nos anos 20, cobria o corpo do pescoço até o joelho; a quantidade de pano era proporcional ao recato exigido na época; hoje, o maiô revela formas. De olho na moda verão, a repórter Lana Camargo pegou carona nas bolsas das personagens Darlene e Jaqueline Joy, da novela "Celebridade", e pesquisou 15 modelos incríveis de bolsas artesanais, que estão em alta nesta temporada.

Neste época do ano, é preciso ficar atento à limpeza do ar condicionado e também à conservação dos alimentos. A gestante também merece cuidados especiais. Agora, ponha a rede à sombra, deite-se bem à vontade e boa leitura!

Marta Vicentin

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Perdoem o meu desabafo

"Deduzindo o imposto na fonte e a amortização inflacionária, o custo da dívida interna chega a 3% do PIB, e não aos 10% noticiados por aí"

Eu já não entendo mais nada. Há mais de vinte anos estou escrevendo artigos sobre um erro monumental que tem aumentado a percepção do risco Brasil à toa, elevando os nossos juros à toa, e a impressão que tenho é que ninguém lê. Ou então eu tenho a impressão de estar escrevendo bobagens nesses anos todos e ninguém tem a coragem de me dizer.

O governo e a imprensa acabam de divulgar que o "custo dos juros no governo Lula foi de nada menos que 150 bilhões de reais em 2003, quase 10% do PIB". Mais uma vez repetem esse erro contábil de sérias conseqüências econômicas, um erro para mim tão óbvio e banal, daí minha aflição.

A inflação embutida nos juros não é um custo, como afirmam, e sim uma receita! Todo mundo sabe que inflação beneficia o devedor. A mesma inflação que aumenta os juros, um custo, também corrói a dívida, portanto uma receita que anula esse "custo" alardeado aos quatro cantos do planeta.

Críticos foram rápidos em apontar que Lula aumentou os juros para combater a inflação, mas ninguém saiu a público para lembrar que essa mesma inflação "corroeu" a dívida nos mesmos 9% da inflação, uma receita para o governo de aproximadamente 70 bilhões de reais. Ou seja, o "custo" dos juros cai à metade.

Essa dívida, na verdade, nem foi "corroída" como acabo de afirmar. Na realidade, Lula pagou efetivamente 9% da dívida interna, com esses 150 bilhões chamados erroneamente de "custo". Por isso esses 150 bilhões estão tão elevados: eles incluem uma parcela de amortização ou redução da dívida. Só que reduzir dívida não é custo, é somente uma devolução.

Vocês que estão com medo de um calote ou espalhando por aí que o calote é inevitável esquecem que o governo Lula pagou nada menos que 9% da dívida interna em 2003. Nesse ritmo, em dez anos a dívida acaba, mas isso não vira notícia.

A dívida interna não cai como porcentagem do PIB porque os investidores sabem que esses 9% não são renda e eles não são bobos em gastar o que é simples "ilusão monetária". Por isso, recompram títulos do governo em vez de torrar sua poupança em consumo e divertimento.

Em 1981 escrevi mais de cinqüenta artigos mostrando esse mesmíssimo erro, naquela época referente à dívida externa. A inflação americana subira para 12%, elevando os juros para 16,5% ao ano, os mesmos juros de hoje no Brasil e pela mesma razão.

Infelizmente, um dos mais importantes economistas de então saiu alardeando que a dívida externa era impagável e pregou a moratória. Só que estávamos pagando a dívida via inflação embutida nos juros. E os juros reais em 1981 nunca ultrapassaram 4% ao ano, algo que todos sonham em ver aqui de novo. Ou seja, estávamos pagando uma dívida que alguns diziam impagável.

O problema era mais contábil que financeiro, só que ao alardear uma informação errada e assustadora aumentaram o risco Brasil. Minha proposta na época era simplesmente indexar a dívida externa, e assim a inflação americana embutida nos juros deixaria de ser devida no ato, aliviando nossa balança de pagamentos. Mesmo o governo americano adota hoje essa idéia com seus inflation protected securities, mas o governo brasileiro não se convenceu disso até hoje.

Mas existe outro custo que não é custo. Todo mundo sabe que dos 16,5% dos juros é deduzido no ato o imposto de renda na fonte e que no fundo o governo paga 13,2% de juros, e não os 16,5% publicados nos jornais.

Ou seja, dos 150 bilhões apresentados ao Senado pelo próprio governo como "pagamento de juros", nada menos que 30 bilhões são retidos imediatamente como imposto de renda na fonte. Ou seja, o custo líquido para o governo é bem menor.

Deduzindo o imposto na fonte e a amortização inflacionária, o custo da dívida é de somente 40 bilhões a 50 bilhões. A conta é bem mais complicada que essa simplificação didática, mas chega a 3% do PIB, e não aos 10% noticiados por aí. Continua um valor elevado, mas agora sabemos por quê.

O que me aflige é pensar que durante todos esses anos eu não me expliquei direito. Então, que alguém me explique, porque eu já não entendo mais nada.


Stephen Kanitz é administrador por Harvard
www.kanitz.com.br

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Diogo Mainardi

Abraão e os brasileiros

"Lula apostou na fé. Não por acaso, insistiu tanto no lema da esperança. No primeiro ano de seu governo, a esperança de fato venceu o medo. Pena. A gente é menos ludibriado quando tem medo"

O bispo Macedo, da Igreja Universal, discorrendo sobre a fé de Abraão, comparou Deus a He-Man. Eu nunca acreditei em Deus e Ele nunca acreditou em mim. Mas se o bispo Macedo está certo, e Deus realmente é igual ao desenho animado de He-Man, sou obrigado a rever todos os meus conceitos. Estou pronto para o batismo. Pelos poderes de Greyskull: eu tenho a força! Uma dúvida: se Deus é He-Man, quem é Orko? Quem é Teela? Quem é o Leão maricas?

Os pastores da Igreja Universal promovem neste mês uma Fogueira Santa no Monte Moriá, em Jerusalém. Segundo a Bíblia, Moriá foi onde Abraão ofereceu seu filho Isaque em sacrifício. A Fogueira Santa da Igreja Universal também impõe um sacrifício. Para provar sua fé em Deus, o devoto oferece à Igreja Universal o que tem de mais valioso, como um salário, um carro ou uma casa. Depois escreve um pedido num pedaço de papel, que é levado a Jerusalém e queimado numa fogueira no Monte Moriá.

O pastor Clodomir parte para Israel na próxima terça-feira. Não perca. Faça logo o seu pedido. Veja o testemunho do doutor Affonso. Numa Fogueira Santa precedente, no Monte Sinai, ele desenhou a planta da casa de seus sonhos e, em pouco tempo, ela se tornou realidade. Não sei o que o doutor Affonso teve de sacrificar para obter a graça divina. Não sei qual foi o seu Isaque, para usar o jargão da Igreja Universal. O pastor Clodomir garante, porém, que, quanto maior o sacrifício, maior a recompensa.

O mito de Abraão é muito apropriado para o Brasil. Entre nós, a fé sempre implicou alguma forma de sacrifício. Quando acreditamos em algo, acabamos por perder o salário, o carro, a casa. O pico de popularidade do presidente José Sarney foi durante o congelamento de preços. Os brasileiros acreditaram que era a melhor receita para acabar com a inflação. Quando José Sarney entregou o poder, a inflação tendencial estava em 80% ao mês.

Com Fernando Collor foi igual. O Congresso Nacional, o Judiciário e a imprensa apoiaram com entusiasmo o confisco financeiro. Dois meses mais tarde, de acordo com as pesquisas de opinião, 69% da população ainda acreditava no presidente, apesar do sacrifício de todo o seu dinheiro. Na história mais recente, Fernando Henrique Cardoso foi reeleito porque o eleitor acreditou na paridade cambial. Como se sabe, ela estourou imediatamente depois da posse.

Lula também apostou na fé dos brasileiros. Não por acaso, insistiu tanto no lema da esperança. Como Abraão e o doutor Affonso, estamos dispostos a praticar qualquer sacrifício, inclusive o de nossos filhos, desde que nos prometam uma futura e impalpável recompensa. Em 2003, o Brasil teve o sétimo pior crescimento da história. Despencou para o 15° lugar entre as maiores economias do mundo. Mas continuamos a esperar. Até o Hino Nacional trata o Brasil como a terra da esperança, como um sonho intenso. No primeiro ano de governo Lula, a esperança de fato venceu o medo. Pena. A gente é menos ludibriado quando tem medo.

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Razão e intuição ainda são as armas para fazer escolhas.

Como decidir num mundo que produz cada vez mais informação mas dá às pessoas cada vez menos tempo para pensar sobre os caminhos a seguir

Sandra Brasil

As pessoas são chamadas diariamente a tomar um número elevado de pequenas decisões. Resolvemos o que comer no almoço, a que amigos telefonar, se começamos o trabalho do dia por uma ou outra tarefa, a cor do vestido, da camisa e da gravata, a hora de levantar da cadeira para tomar cafezinho. Tomamos decisões dessa natureza de forma tão automática que muitas vezes nem parecem escolhas. Mas são. Na década de 1970, ia-se à padaria comprar ou leite integral ou desnatado.

Agora, pode-se voltar com um entre dezenove tipos de leite: com mais cálcio, semidesnatado, com ômega 3, à base de soja, de arroz. No supermercado, uma família de classe média adquire, habitualmente, cerca de 200 produtos por mês. E tem a sua disposição um sortimento de 45.000 itens expostos nas boas lojas. Entre eles, estão trinta tipos de maionese e mais de 100 qualidades de iogurte. Para selecionar é preciso ler as letrinhas impressas na embalagem, e comparar preços. Quer um aparelho de DVD? Há setenta tipos. Vai comprar um celular? Duzentas possibilidades.

Em busca de um computador pessoal? São 400. E os carros? Há 300 modelos de dezesseis fabricantes, em cinqüenta cores e quatro qualidades de combustível. Convive-se com aquilo que o escritor americano Jack Trout, especializado em marketing, definiu como indústria da escolha. Infelizmente, a necessidade de fazer opções regulares não se restringe a parar diante da prateleira impressionado com a quantidade de rótulos. Os dilemas cotidianos provocados pela profusão de marcas constituem apenas a manifestação mais evidente de uma transformação que atinge profundamente a vida profissional e sentimental das pessoas.

Em um mundo cada vez mais complexo, com excesso de informação, pressão por desempenho e repleto de alternativas, as pessoas precisam tomar decisões também a respeito de assuntos delicados. E devem fazer isso sem ter muito tempo para pensar. Cada vez mais, o sucesso e a satisfação pessoal dependem da habilidade de fazer escolhas adequadas.

Com freqüência, as pessoas são instadas a tomar uma decisão que pode modificar sua vida pessoal. Devo ou não me casar? Que tal só morarmos juntos? Devo ou não me separar? Corremos o risco dessa gravidez tardia? Vamos adotar uma criança? Em que escola matricular nosso filho? Aliás, ele vai ganhar carro aos 18 anos ou sairá à noite de carona com os malucos dos amigos dele? É certo comprar aquela casa maior e contrair um financiamento a perder de vista? No trabalho, acontece a mesma coisa. Devo dar uma resposta dura àquela provocação feita pelo chefe?

Peço ou não peço aumento? Posso ou não baixar os preços dos produtos que vendo de forma a aumentar a saída? Que tal largar tudo e abrir aquela pousada na praia? Psicólogos americanos que estudaram a vida de gerentes empregados em grandes companhias descobriram que eles chegam a tomar uma decisão a cada nove minutos. São mais de 10.000 decisões por ano ¿ 10.000 possibilidades de acertar, ou de errar. Não há como fugir. Ou você decide, ou alguém decide em seu lugar.

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Brasil: o sétimo mercado de consumo

O Brasil tem o sétimo mercado consumidor do mundo. Mas só 33% da população participam dessa sociedade, segundo o relatório State of the World 2004 (Estado do Mundo 2004), do WorldWatch Institute, com sede em Washington (EUA). O documento define como consumidor quem recebe pelo menos US$ 7 mil por ano, quase R$ 20 mil.

De acordo com esse critério, o Brasil tem 57,8 milhões de consumidores. O primeiro lugar é dos EUA, com 242,5 milhões, o equivalente a 84% da sua população. A China está em segundo, com 239,8 milhões, mas somente 19% dos habitantes, e a Índia em terceiro (121,9 milhões, 12%). Entre os 10 maiores mercados, o Japão tem a parcela mais significativa da população na sociedade de consumo: 95% (120,7 milhões).

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Rita incendeia Canecão

Sem papas na língua, Rita Lee por pouco não falou mais do que cantou na estréia do novo show, Balacobaco, quinta-feira, no Canecão. Ao ver a classe artística em peso na apresentação, sobrou polêmica até para seu estado natal, São Paulo: Lá não tem artista. Só a Hebe Camargo e olhe lá. Aqui tem a Fernanda Montenegro, a Luana Piovani, que é linda, parece um pêssego¿. Na hora do bis, Luana teve seu pedido da música Amor e Sexo aceito, o que irritou a platéia pois a canção já havia sido executada...

Mas o ponto alto da desbocada Lee foi a encenação de telefonema de uma apresentadora infantil. Você deveria parar de expor sua filha na mídia. Porque não vai para o Caribe procurar um negão?, sugeriu a debochada cantora. Depois, os famosos rumaram ao camarim, onde ela, incensada ao lado do marido, Roberto de Carvalho, passou mão-boba no seio de Marília Pêra (1), que revidou a brincadeira. A irreverência continuou com Piovani, que levou lambida, e Bibi Ferreira, bitoca.

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Bela estréia

Destaque da moda carioca em 2003, Isabela Capeto apresenta suas criações no Fashion Rio pela primeira vez
Flávia Motta

Isabela Capeto foi o mais falado entre os novos nomes da moda carioca no ano passado. Com sua grife Ibô estrelando editoriais e peças comercializadas em lojas européias ao lado de criações de grandes estilistas, como Marc Jacobs, Isabela, no entanto, lembra que não é novata no mundo fashion. As pessoas acham que foi rápido, mas trabalho há 13 anos. Estudei estilismo em Florença (Itália) e trabalhei na Maria Bonita e na Lenny, ressalta ela, que, aos 33 anos, debuta no Fashion Rio, no Museu de Arte Moderna, dia 23.
Já participei de vários desfiles e é sempre preocupante, mas esse é meu. Estou dando a cara a tapa, preocupa-se Isabela, que precisou ser convencida por Eloysa Simão, coordenadora do evento, a participar. Não queria fazer desfile, tinha um pouco de medo. Eloysa botou pilha e agora estou enlouquecida preparando as peças, conta a estilista, que não dá detalhes da coleção para não estragar a surpresa. Isabela tem essa insegurança de estreante, mas é talentosíssima, ousada e tem humor, acredita Eloysa.

Dona de um estilo chamado pelos estrangeiros de contemporâneo brasileiro, Isabela faz peças artesanais, em tecidos naturais, com muitos bordados. Costumava fazer bonecas e costurava roupas incríveis para elas. O que faço hoje é uma reprodução do que fiz durante muito tempo nas bonecas. Querida dos consultores de moda, Isabela veste a Laura (Cláudia Abreu) de Celebridade. Todas as camisolinhas são dela. Isabela tem um gosto refinadíssimo, é engraçada, e seu desenho é deslumbrante, enumera a figurinista da trama, Marília Carneiro.

Carioca, Isabela fez a primeira venda em outubro de 2002 para o consultor de moda inglês Robert Forrest, que levou algumas jaquetas para casa. Agora, depois de oito meses à frente de seu ateliê, vende numa multimarcas em São Paulo e em lojas européias. A venda para o mercado internacional a obriga a ser mais independente. A coleção que está à venda aqui agora é a que vai para a Europa em março. Então não dá para chupar muito das coleções deles.

É o maior mico. Tenho que apostar em algumas coisas, numas cores, pondera ela, que se diz num momento azul. A originalidade de Isabela é um dos pontos altos para a amiga Marina Person. Ela tem um superbom gosto e é corajosa. O trabalho é singelo, romântico, elogia a VJ da MTV, que desfila pela grife no Fashion Rio.

Cautelosa, Isabela não pensa em abrir loja própria agora. Estou totalmente começando. Tenho contas a pagar e não posso me arriscar, justifica, garantindo não ter obrigações no mundinho fashion. Não tenho compromisso com tendências. Sou dona do meu nariz, esnoba.

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Moacyr Scliar
10/01/2004


Terreno minado

A passagem do ano é uma época de prognósticos. O que vai acontecer agora? Qual será a taxa de juros? A economia vai crescer ou encolher? Quem vencerá as próximas eleições? Na maior parte das vezes, essas questões correspondem a um exercício de futurologia, que muitas pessoas preferem evitar achando que o futuro, como diz o provérbio, a Deus pertence.

Mas há uma situação em que a pergunta "o que vai acontecer agora?" ganha significado transcendente. E esta situação é o prognóstico de uma doença. Trata-se de uma das tarefas mais difíceis e complicadas da prática médica, um verdadeiro terreno minado, em que passos em falso podem levar a desastre.

Sob muitos aspectos, é mais difícil estabelecer o prognóstico do que o diagnóstico. O diagnóstico, afinal, baseia-se na constatação de coisas que já ocorreram no organismo, e que têm expressão objetiva. O prognóstico, não.

Ele é, antes de mais nada, probabilístico. O médico pode falar nos desfechos mais prováveis de acordo com a experiência já acumulada, mas isso inevitavelmente envolverá exceções. "Sempre" ou "nunca" são palavras proibidas na medicina, como na vida em geral.

Muitos estudos mostram que os médicos sentem-se desconfortáveis fazendo prognóstico. Os pacientes também. Uma recente pesquisa mostra que praticamente 100% dos enfermos exigem de seus médicos honestidade; mas 91% querem também otimismo. Ora, realismo e otimismo nem sempre são conciliáveis.

Particularmente difícil é a questão da expectativa de vida em doenças letais. Semana passada, um documentário de TV sobre a falecida atriz Audrey Hepburn mostrava uma manchete de jornal anunciando que ela estava enferma e tinha só três meses de vida. Imaginem como se sentiu a pobre Audrey lendo esse jornal (esperemos que isso não tenha acontecido).

De outra parte, os estudos mostram que a questão do prognóstico é difícil não apenas para o paciente, como também para sua família.

O prognóstico está dentro do processo geral de comunicação que, não raro, é o calcanhar de Aquiles na relação médico-paciente. Estamos aqui diante de algo que em medicina se constitui como uma arte, que pode, no entanto, ser aprendida.

O paciente precisa entender o que está acontecendo com ele, mas o quanto quer entender dependerá de sua própria decisão. Mesmo porque, devidamente informada, a pessoa muito provavelmente já terá uma idéia realista sobre seu próprio prognóstico, mesmo que o médico não entre em detalhes a respeito.

Existe um mecanismo de defesa psicológico que se chama negação, e que não raro tem efeitos benéficos, como mostram os estudos. O médico tem de ser claro e verídico na resposta às indagações; mas é preciso também levar em conta aquilo que Shakespeare sintetizou numa magnífica linha de Hamlet: o resto é silêncio. Silêncio que, adicionado de dimensão humana, é mais eloqüente do que convencionais palavras.

scliar@zerohora.com.br

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Lya Luft
10/01/2004


História dos sentimentos

Esta me mandou Martha Herzberg, terapeuta fantástica e amada amiga. Na dúvida, traduzindo e adaptando um pouco, digo o que me foi dito por ela: o autor inicial era "anônimo", mas desconfio de que ela é a autora desta delícia.

Os Sentimentos Humanos certo dia se reuniram para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes porque a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.

O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e a Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém, pois a idéia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: "Ah, gente, vamos deixar tudo como está", e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.

A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris e a Inveja se ocultou junto com a Hipocrisia, que, sorrindo fingidamente atrás de uma árvore, estava odiando tudo aquilo.

A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo, a Timidez ficou paralisada, pois já estava mais do que escondida em si mesma, a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem fingida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.

A Mentira disse para a Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada; a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estavam fazendo ali.

Depois de contar até 99, a Loucura começou a procurar. Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, que tivera os olhos furados pelos espinhos da audácia e do fervor. A Loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando sua luz pelo mundo.

Desde então, é preciso um grão de loucura para merecer o amor - e um pouco de cegueira para o enxergar no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses da melancolia e da acomodação.

lya.luft@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
10/01/2004


Jaz um herói na calçada

Espanta o pouco valor da vida humana nos dias que correm. O PM Adriano Pereira da Silva, com 25 anos, teve ontem a sua atenção chamada para um assalto que ocorria em plena luz do dia a uma casa de venda de colchões na Avenida Azenha.

Correu para tentar debelar o ataque. A arma do assaltante caiu na calçada. O bandido dizia ao PM que era arma de brinquedo. Não se sabe se o PM Adriano acreditou ou não no assaltante.

O que se sabe é que o ladrão apanhou a arma no chão e atirou três vezes contra o PM, que ferido de morte ainda baleou o assaltante.

O PM Adriano morreu ao chegar ao hospital.

A vida e a missão deste PM. Ganhando cerca de R$ 600 por mês, há anos sem reajuste nos seus vencimentos, tinha mulher e filho no Interior, foi transferido para a Capital.

Fazia horas extras para tentar mandar um dinheiro a mais para seu filho e sua mulher no Interior, morava no quartel por não poder pagar aluguel, uma vida de cão, em que não sobram nem uns trocados para divertir-se ou ir a um restaurante.

Aí acontece o assalto de ontem à tarde na Azenha. Os policiais munem-se de um dever intrínseco à sua profissão, são obrigados a enfrentar o perigo onde quer que ele lhes surja à frente.

As outras pessoas todas podem deixar de socorrer quem está sendo atacado. Para um policial é ultrajante não enfrentar um assaltante que está agindo ao seu alcance.

O PM Adriano foi cumprir com o seu dever, se ele não fosse atender aquele assalto as pessoas circunstantes haveriam de reclamar que havia um brigadiano ali por perto e nem tinha ligado para a ocorrência, como quase sempre acontece nessas ocasiões.

Convocado pelo seu múnus de policial e alvo da expectativa dos transeuntes que assistiam alarmados ao assalto, o PM Adriano foi digno do seu dever profissional, da sua família distante, da sua corporação e enfrentou o assaltante.

Tombou com três balas no corpo, a fatal atingiu-lhe as imediações da têmpora e do olho. Evitou o assalto, feriu o assaltante mas deixou uma viúva e um filho menor órfão, pessoas que vão vagar aflitas pela vida, herdando do marido e do pai um legado de dificuldades e se pode dizer de miséria.

É uma onda de violência que tomou conta das ruas, que vai ceifando vidas, que vai deixando pessoas mutiladas física e moralmente, que vai impondo um medo coletivo que faz perder a graça da vida, desconfia-se de tudo e de todos, anda-se apressado pelas calçadas, foge-se depressa para dentro de casa, acabou como num transe o prazer de andar pelas ruas e apreciar a paisagem urbana, um deleite extinto dos que moram nas cidades grandes.

Morreu o Adriano Pereira da Silva, com 25 anos, um rapaz que apenas tentava sobreviver com o que a vida lhe permitia, um emprego público mal remunerado, longe do filho e da mulher, a quem alcançava as misérias salariais para irem driblando as dificuldades, a sorte de milhões de pessoas deserdadas que contam os tostões para continuarem respirando a condição de pobres e trabalhadores.

Mas morreu digno, morreu em defesa da sociedade, como morrem tantos policiais.

Sua mulher e seu filho vão continuar a batalha dura da vida. Mas pelo menos terão o consolo de que o marido e o pai não fugiu ao seu dever diante do perigo.

Vai lhes acalentar a memória de um marido e de um pai que honrou a família ao tornar-se um herói.

Os transeuntes que o viram morrer banhado de sangue na calçada silenciosamente agradeceram a seu valente defensor.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Competição
Arte e garra rumo a Atenas



Diego (D) comemora com Robinho o primeiro gol da vitória de 3 a 0 contra o Paraguai pelo pré-olímpico (Marcelo Hernandez, AP/ZH)


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Sexta-feira, Janeiro 09, 2004




Clitóris ou clítoris?
Não é apenas o nome das partes da genitália feminina que é desconhecido. Falar sobre a anatomia da mulher continua um tabu

Rita Moraes

Aconchego O Parador da Casa da Montanha e os Aparados da Serra (à dir.): frio e neblina Até mesmo Charlotte, uma das personagens modernas de Sex and the city, admitiu em um dos episódios da série que não conhecia bem suas partes íntimas ou, melhor dizendo e adotando logo um caminho libertário sua vagina. Essa peculiar dificuldade feminina é também retratada no texto Os monólogos da vagina, de Eve Ensler, adaptado e dirigido no Brasil por Miguel Falabella.

O que a autora registrou informalmente como conversa solitária poderia muito bem ter inspirado a pesquisa Os diálogos da vagina, realizada sob o patrocínio da Organon. O laboratório, no entanto, queria mesmo era medir a resistência das mulheres a adotar o Nuvaring, um anel vaginal contraceptivo com menos efeitos colaterais que a pílula, lançado no Brasil no início do ano passado. Mas tanto a comicidade do palco quanto o método científico comprovaram a mesma tese: a liberação sexual não habilitou a mulher a explorar e conhecer as particularidades de seu próprio corpo. Nem a referir-se a elas sem pudores.

Percepção A pesquisa, divulgada no XVII Congresso da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia Figo 2003, realizado em Santiago, no Chile, foi feita nos Estados Unidos com 1.117 mulheres de 18 a 44 anos, de várias etnias. O estudo examinou a percepção que as mulheres têm de sua vagina e a atitude em relação a ela. Apesar de 75% delas acharem que as mulheres, hoje, são capazes de falar a palavra vagina de forma mais livre, 47% consideram que qualquer discussão sobre ela deve ser feita de forma privada. Ainda assim, 35% se sentem desconfortáveis em fazer isso. Quase a metade das entrevistadas 46% acha que o órgão genital feminino é a parte do corpo sobre a qual elas têm menos informação e 24% não se sentem à vontade para tocá-lo. Sem falar que 49% nunca fizeram um exame pessoal da região.

O conceito feminino da vagina também deixa muito a desejar. Apenas 36% das mulheres ouvidas no estudo a descrevem positivamente, enquanto, ao serem perguntadas sobre como os parceiros se refeririam à parte íntima delas, 79% mencionam palavras de valorização. Segundo 37% delas, seus parceiros a qualificariam de sexy e para 24%, de bonita (apenas 9% delas usariam os mesmos termos). Somos induzidas a pensar que a vagina é algo sujo, feio e pouco agradável. A sociedade vende a idéia de que temos que estar sempre secas e frescas ou cheirando a rosas. As mulheres têm que se sentir bem com o odor natural, defende a sexóloga belga Goedele Liekens, autora do livro 69 perguntas sobre sexo e a responsável por apresentar a pesquisa no congresso.

A especialista também considera um absurdo que a ditadura da beleza tenha chegado aos genitais. Muitas mulheres querem fazer plástica nos grandes lábios porque se comparam a modelos que aparecem nas revistas masculinas. Elas não se dão conta de que a maioria dessas imagens é alterada por computador, afirma ela. Goedele conhece bem o poder da mídia. Antes de sexóloga, foi Miss Bélgica e por muito tempo apresentou programas de televisão em seu país e na Holanda. Mãe de duas meninas, ela afirma que a mudança de conceitos deve começar em casa. Ainda há mulheres liberadas, cheias de piercing e tatuadas, que não conseguem desenhar uma vagina. A menina deve aprender a conhecer seu corpo, diz ela.

O anel delas: o Nuvaring é um produto contraceptivo colocado no canal vaginal apenas uma vez por mês pela mulher. Apresenta doses mais baixas de progestagênio e estrogênio que, ao serem absorvidas pela mucosa vaginal, passam direto para a corrente sanguínea, minimizando efeitos colaterais como enjôo, dor de cabeça e aumento de peso. Depois de três semanas, o anel deve ser retirado para que ocorra a menstruação e descartado Liberal À primeira vista, pode parecer que o resultado do estudo não se aplica à realidade nacional, mas o mais provável é que no País a descontração seja apenas um rótulo, quando a questão é a sexualidade feminina.

A mulher brasileira é mais liberal na expressão, mostra o corpo, se solta socialmente, mas na intimidade continua retraída. Ainda não cresceu eroticamente. A maioria não se toca, não se masturba e fantasia pouco, diz Gerson Lopes, presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Um levantamento feito pelo Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com mulheres de todo o Brasil dá conta de que 43% delas relatam alguma queixa sexual, ou seja, não se sentem satisfeitas com a sua vida na cama.

Para melhorar esse quadro, uma boa medida, como sugerem a sexóloga belga e as amigas liberadas de Charlotte, pode ser uma lição de anatomia na frente do espelho. E também (por que não?) uma breve consulta ao dicionário para tirar a dúvida de fonética que embaraça até mesmo os ginecologistas: clítoris ou clitóris? Quem tentar vai ver que a ordem dos acentos não altera a importância da descoberta.

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Inflação define gastos
Alta do custo de vida fez brasileiro desembolsar mais com comida e tarifa e cortar saúde e lazer
Ana Maria Pessôa

A inflação fez os brasileiros gastarem mais com alimentos e tarifas públicas nos últimos dois anos e cortarem despesas com lazer, saúde e automóvel, em comparação com 1999 e 2000. A despesa média das famílias com alimentação subiu de R$ 25,12 por cada R$ 100 gastos, para R$ 27,48. Com o telefone fixo, o desembolso passou de R$ 2,81 para R$ 3,67. Já com energia elétrica pulou de R$ 3,93 para R$ 4,40. Os dados são da Pesquisa sobre Orçamentos Familiares (POF) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Segundo o economista André Braz, a queda na renda dos trabalhadores e a pressão da inflação nos preços dos alimentos, principalmente nos atrelados ao dólar, fizeram os brasileiros usarem a maior parte do orçamento para comprar comida. Entretanto, à medida em que um País se desenvolve, a proporção dos gastos com alimentos tende a cair. Não houve um retrocesso. Foi um problema pontual devido à inflação, afirmou Braz.

Custos de serviços essenciais dispararam

O maior desembolso com tarifas públicas foi provocado pela disparada dos custos de serviços essenciais, sempre atrelados à inflação. De 1999 a 2003, o IPC ficou em 52,27%. No entanto, a eletricidade subiu 136,01%, o gás de botijão, 220,62% e o telefone fixo, 75,35%.

Com a elevação dessas despesas, os brasileiros cortaram em leitura, recreação e saúde. Os gastos com medicamentos caíram de R$ 2,80 a cada R$ 100 para R$ 2,19, também influenciado pelo controle de preços imposto pelo Governo e a concorrência dos genéricos. Os planos de saúde, que levavam R$ 3,29, passaram a ficar com R$ 2,46 de cada R$ 100. Os gastos com leitura encolheram de R$ 0,57 para R$ 0,43 e com recreação caíram de R$ 3 para R$ 2,55.

Mara Castro, 51 anos, foi uma consumidora que reestruturou o orçamento. As contas de telefone, luz e água subiram e tive que diminuir o lazer. Ou vou ao cinema, ou janto fora.

No grupo transporte, o transporte público urbano (ônibus) foi o único que apresentou alta, passando de R$ 3,52 para R$ 4,75. Gastos com carros próprios caíram de R$ 2,52 para R$ 0,61.

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jcimenti@zaz.com.br
9/1/2004


Os demônios do poder

Depois das revoluções inglesa, francesa e americana, ocorridas nos séculos 17 e 18 e, após a generosa mensagem do socialismo, da segunda metade do século XIX, a maior parte das pessoas sonhava com a conclusão do processo de transformação democrática da sociedade e com tempos mais solidários. As conquistas da ciência, da tecnologia e das comunicações animavam os humanos. Todavia, tais avanços e acontecimentos desembocaram no século XX, caracterizado pelo advento das ditaduras moderníssimas. Grandes ditadores, homens de personalidade ambígua e cruel, oradores brilhantes, com grande capacidade de liderança, mestres na arte da propaganda e da mentira, impiedosos em relação aos inimigos e, não raro, em relação aos próprios amigos, os tiranos marcaram o século.

O que levou Hitler, Stalin, Mao Tse-Tung, Mussolini, Franco, Pol Pot e Pinochet a se tornarem figuras emblemáticas? O que eles têm em comum? Por que gozaram do apoio, da cumplicidade e do afeto dos povos que dominaram? Tentando responder estas questões, o jornalista e escritor italiano Antonio Ghirelli releu a história e desenhou uma inquietante galeria de retratos desses ¿demônios do poder, em Tiranos - De Hitler a Pol Pot: Os homens que ensangüentaram o século 20, obra lançada há poucos dias no Brasil.
Segundo o autor, que foi porta-voz do presidente italiano Sandro Pertini e que escreveu a obra de modo claro, jornalístico, o elenco de tiranos não se reduz aos sete que figuram no livro. Entre a Indonésia e os Bálcãs, o Japão do micado e a Argentina dos generais, a África do Sul dos racistas brancos e a África dos alucinados Napoleões negros, seria possível listar mais dezenas de tiranos. O autor optou, todavia, pelos nomes mais simbólicos da direita e da esquerda.

Ghirelli mostra que, ideologias e resultados à parte, os métodos das ditaduras são bem semelhantes. Infelizmente, o livro demonstra que as crenças em ideologias, raças ou nações superiores ainda estão bem vivas por aí, mesmo sob cores diversas, mais sofisticadas e refinadas. 322 páginas, R$ 39,00. Tradução de Giuseppe DAngelo e Maria Helena Kühner, Difel, telefone 3323 7363.

DICA

Leio o maravilhoso romance A canção de Tróia, de Colleen McCullough, publicado pela Bertrand. A narrativa recria a trágica guerra de Tróia, ocorrida há três mil anos na Grécia, com seus amores, ódios, vinganças e traições e sacrifícios. Recomendo.

Rolf Madaleno, advogado e professor

Lançamentos

Santos Populares do Brasil é a coleção que a Editora Planeta, fone 55-11-3088-2588, acaba de lançar. Nossa Senhora de Aparecida, Santa Luzia, São Sebastião, Santos Reis e Santo Expedito são os primeiros títulos, cada com 48 páginas, ilustrações em cores e preço individual de R$ 14,90. A caixa com os cinco sai por R$ 64,90. Os próximos volumes são São Jorge, Santa Edwiges e Santo Antônio.

Desembarcando o Sedentarismo, do médico Fernando Lucchese, pretende orientar e motivar os leitores a se exercitarem com segurança, escolhendo os exercícios adequados, após as avaliações necessárias. Mitos sobre abdominais, caminhadas, musculação e outros são desvendados. 162 páginas, R$ 11,00. L&PM Editores, fone 3225.5777.

Você quer o que deseja?, do psicanalista Jorge Forbes, reúne crônicas, artigos e seminários que analisam o dia-a-dia de uma sociedade ¿desbussolada¿. Aluno de Lacan, Forbes fala da violência do desejo no cotidiano, paralisante para a maioria; do novo vínculo social ditado pela globalização e sobre a psicanálise do século XXI para analistas e leitores em geral. 208 páginas, R$ 29,00. Best Seller, fone 32236622.

Uma Educação à Italiana - Um inglês descobre como se faz um italiano, do escritor e tradutor inglês Tim Parks, narra, com elegância e ironia, sobre criação de filhos e outros hábitos da cultura italiana. Tim é casado com uma italiana e tem dois filhos nascidos na terra de Pavarotti. O volume é um gostoso diário de família com jeitão de livro de viagem. Leis locais, crendices e outras italianices estão presentes. Tradução Carlos Mendes Rosa. 428 páginas, Publifolha, fone 32245288.

Confraria do silêncio

Confrarias existem há séculos, milênios, de repente. As associações, irmandades, sociedades, entidades religiosas ou não e corporações de profissionais do mesmo ofício fazem parte da natureza humana. Idéias, religiões, gostos, qualquer coisa em comum geravam e geram confrarias. Estão na moda - ou nunca saíram dela - as confrarias. Aqui no Estado há várias: do cordeiro, do champanha, do charuto, dos gourmets, da cerveja, do jazz e há pouco soube que umas moças criaram a confraria das Panteras, que se reunirá no Botequim das Letras, o simpático café-livraria do final da rua Félix da Cunha.

Mas quero propor a criação de uma confraria diferente. Trata-se da Confraria do Silêncio. Qualquer pessoa, a qualquer hora do dia ou da noite, pode participar dela, sem inscrição ou convite e sem pagar nada. E pode participar sozinha ou não. É só fechar a boca e os olhos, procurar um canto razoável e curtir o silêncio. Nesse mundinho barulhento, cheio de ruídos, palavras, gritos, sons, imagens, pessoas tagarelas-monologantes, intermináveis e horríveis ritmos bate-estaca e techno, nada mal parar um pouco e sentir o som da vida, das árvores, dos pássaros, do mar e, tanto quanto possível, o som do silêncio.

Não aqueles sons do silêncio da linda música do Paul Simon, mas o som do silêncio, assim, bem no singular. Cinco, dez minutos numa igreja vazia, na praça Província de Shiga, num recanto da Redenção, ou mesmo num banheiro confortável darão ao integrante da Confraria do Silêncio o direito de sentir-se melhor. Não, não há regras sobre tempo, local, muito menos ordens para o que pensar ou deixar de pensar. A Confraria do Silêncio é livre, anárquica, democrática e criativa.

É só entrar e ouvir o seu próprio silêncio, do jeito que quiser, por quanto tempo e onde achar melhor. A Confraria é ótima para aqueles momentos em que não temos nada a falar ou que, simplesmente, lembramos que em boca fechada não entra mosca. Depois do silêncio, bom, aí é sair matraqueando por aí. Como disse o grande pensador do século XX Aberlardo Barbosa, quem não se comunica se trumbica. (Jaime Cimenti)

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David Coimbra
09/01/2004


Os que vão morrer

A Confraria da Caveira se reúne todos os meses. Mas nenhum encontro tem tanta importância quanto o último do ano. Nele são escolhidos "Os Que Vão Morrer". Trata-se de um mecanismo simples: cada confrade elabora uma lista com 10 nomes de gaúchos ou residentes no Estado. Se ocorrer o passamento de um dos listados, o confrade ganha um ponto. O que somar mais pontos ao longo do ano é o campeão, terá direito a loas, não pagará o jantar do dezembro seguinte.

O Paulo Sant´Ana foi votado durante 10 anos. Sobreviveu. Resultado: foi convidado para integrar a Confraria, da qual faz parte há quatro anos. Uma das tantas regras reza que um confrade não pode ser votado, a não ser que não esteja presente. O Wianey Carlet faltou à reunião de dezembro. Recebeu seis votos. Há pouco, o Wianey sentiu-se mal, foi hospitalizado. Os confrades se rejubilaram - marcar um ponto logo em janeiro seria a glória. Mas o Wianey se recuperou, está bem e forte, plantando alfaces gigantes em Viamão. Será preciso esperar que outros candidatos se decidam.

Importante ressaltar que o voto surpreendente é o mais apreciado. Um confrade cita o nome de alguém que, na aparência, goza de plena saúde, não está envolvido com mulher casada, não pratica esportes radicais e não tem viagem marcada para o Iraque. O voto chama a atenção da mesa. Alguns balançam a cabeça, em admiração. Outros murmuram ós de espanto. Há quem comente:

- Vai ver ele tem informação privilegiada...

O patrono da Confraria é o Evaldo Gonçalves. Velho lobo da imprensa, o Evaldo às vezes passa a noite sem proferir uma frase. Apenas sorri, condescendente com o desvario dos demais. Mas, quando fala, são pepitas de ouro entre vírgulas. Como a imortal sentença que emitiu em 99, repetida depois durante todo o ano:

- Que fim de século...

Na reunião deste dezembro, o Evaldo falou novamente. Estávamos à mesa, quando o dono da churrascaria, o Português, chegou e ofereceu:

- Pessoal, vocês querem uma saladinha? Temos saladinhas ótimas!

Silêncio. Os confrades se entreolharam, como se não entendessem o que o Português falava. Percebi que cada um se imaginava, naquele instante, mastigando um pé de chicória. E a ninguém, logo vi, a idéia agradou. Foi aí que o Evaldo interpretou nosso sentimento:

- E alguém aqui é homem de comer saladinha, ô, Português???

Foi uma ovação. Partimos para a picanha gorda. Questão de princípios. Mas, puxa, começo a temer que, com esses hábitos alimentares, muitos dos confrades se converterão em candidatos antes do planejado.
david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
09/01/2004


Covardia inqualificável

O assassino (ou assassinos) dos 12 meninos usava de um expediente canalha para atraí-los para a morte: sempre oferecia aos garotos uma vantagem maior do que as obtidas por eles em suas perambulações.

O garoto que vendia picolés, por exemplo, leva tempo para vender um picolé. O assassino então encomendou 55 picolés ao garoto, que não vacilou em ir até o lugar fatídico para entregar a encomenda.

Entre tantas torpezas que envolvem os assassinatos dos garotos, a mais relevante é de que o assassino encontrou a maneira mais fácil de ludibriar os meninos: oferecia-lhes vantagens materiais irrecusáveis.

Encontrava-os por acaso na rua, desde logo ficava sabendo qual era sua atividade, se de pedinte ou de vendedor de quinquilharias - e oferecia a eles uma proposta tentadora.

Crianças inocentes enganadas por um astuto adulto.

A minha tese é a de que o sofrimento desses garotos e de seus familiares foi e é profundo e indescritível.

Mas também de que a ação homicida do autor (ou autores?) dos assassinatos atinge também os milhões de pessoas que tomaram conhecimento dos fatos pelos jornais, pelas rádios e pelas televisões.

É verdade que em menor escala, mas o sofrimento dos familiares das vítimas ataca toda a sociedade que toma conhecimento por qualquer forma desses hediondos acontecimentos.

Passa uma imensa náusea por todos os espíritos. Todos sofrem com essas crueldades, sofremos todos principalmente pela estupefação: por mais que tentem explicar os psiquiatras, os desígnios que levam esses assassinos a matarem suas vítimas são um dos grandes mistérios que cercam a mente humana.

Não tem explicação. Nem nunca haverá qualquer explicação.

O modo como Adriano da Silva, o assassino confesso, relatou as 12 mortes é desconcertante: ele revelava naturalidade, como se se desincumbisse de uma tarefa profissional ao cometer os crimes, algo que pertencia à sua rotina e obrigação, de que ele não podia se recusar, pois fazia parte do seu caráter e natureza pessoais.

Os que presenciaram a confissão relatam que Adriano revelava um certo orgulho por ter tido êxito na sua sanha assassina, quando na verdade demonstrou uma covardia inqualificável ao massacrar 12 crianças inocentes, desavisadas e indefesas.

Natural, pois, que a primeira hipótese que passa pelas cabeças de todos é a da desforra, da vingança: tinha de haver a pena de morte para esses casos.

Já se viu no entanto que o modo como os humanos se desincumbem da justiça é muitas vezes falho.

Agora mesmo há outras pessoas que confessaram ou foram robustamente acusadas dos mesmos crimes que Adriano da Silva atribui para si.

Antes que Adriano confessasse, não teriam que ter sido executados os que também confessaram e agora eventualmente são considerados inocentes?

Nem a cadeia, nem a execução pagam os crimes cometidos, este é o pior dos sofrimentos de todos que assistem a esses fatos.

O leitor Hervé Haddad, residente em Lille, França, manda dizer que na coluna do dia 3 de janeiro passado, em vez de "Tigre" foi escrito "Tibre" para designar o rio que banha Bagdá.

Eu tenho consciência de que escrevi Tigre. Mas sou humano e erro, seu Haddad.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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A nova majestade dos oceanos



O Queen Mary 2, maior navio de cruzeiros do mundo, foi batizado ontem pela rainha Elizabeth II, na Inglaterra (foto Chris Ison, AP/ZH)


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Quinta-feira, Janeiro 08, 2004




Surpresa no amor? Só para quem se arrisca

Há uns anos, conheci uma mulher que me atraiu muito. Desde o início, ela demonstrou interesse em mim. Eu nunca fui de ficar fácil com ninguém. Gosto de criar laços afetivos duradouros. Eu a vejo de forma esporádica, mas sempre ela se insinua para mim. O problema é que ela teve decepções amorosas e se envolve com homens negando afeto a eles. São só encontros físicos. Ela é muito atraente e acha que pode conquistar o homem que quiser. Sempre teve tudo que quis, é muito imatura.

Tem um comportamento dominador e eu não acredito nesse tipo de relacionamento. Ela não demonstra gostar de mim. Só quer me conquistar. Pela forma, pela intensidade e pela freqüência com que ela fala sobre sexo, acho que tem problema nessa área. Até porque, para a mulher, o normal é que sexo se ligue ao sentimento. Eu gosto dela, mas me afastei. Já pensei em abrir o jogo com ela. Sua personalidade, porém, pode atrapalhar.

Posso assustá-la com meu jeito romântico de ser. E tudo depende da escolha dela, de acreditar em mim e não ter medo de se envolver afetivamente. Não consigo me aproximar nem me afastar de vez. Gostaria de ter uma conversa honesta, sincera, verdadeira com ela, mas acho que não está preparada. Se não tentar, não ganho nada; mas se tentar da forma errada, posso perdê-la de vez LUIS, Rio de Janeiro, RJ

Outro janeiro. As últimas semanas como todos os anos foram bastante exigentes. Para meus amigos e para mim, será difícil cumprir a lista de promessas de final de ano: Deixarei de fumar, Começarei meu regime, Sem falta, farei ginástica, etc. Fato é que faremos todo o possível para sermos melhores neste Ano Novo.

Luís se descreve como um homem diferente. Não admite ficar com uma mulher. Considera esta uma atitude adolescente e, como homem maduro, o que pretende é uma relação estável. Em franca contradição a estes princípios, ele se interessa por Ana, mulher bela e independente, que se declara contrária a compromissos sérios. São duas pessoas, duas histórias e, apesar das diferenças, têm em comum circular na contramão das tendências atuais.

Imagino que não há tantas mulheres bonitas com disposição exclusiva para uma noite de sexo e ainda menos homens que tenham como precondição que seus relacionamentos sejam sérios ou definitivos. O destino fez com que Ana e Luís se cruzassem socialmente, que seus olhares se encontrassem nos salões e, ainda que seja timidamente, é evidente que se interessam um pelo outro.

Um observador atento notaria que, sem se proporem a isso, esboçam uma sutil dança amorosa, apesar de ambos saberem que, por suas ideologias diferentes, seria difícil estabelecer uma relação. Luís é um romântico, suas emoções o fazem voar como um passarinho. Ana, em contrapartida, é realista ao extremo e caminha com os pés na terra. É possível um encontro? Bem, já se encontraram.

Das alturas, Luís acompanha as prudentes aproximações de Ana na sua direção. Ela, por sua vez, levanta a vista e vigia os vôos de Luis, em círculos e a baixa altitude. Ana caminha com fingida indiferença, parece não prestar atenção ao homem que a observa à distância. Não há dúvidas de que atraem um ao outro. Luis desejaria convencê-la das vantagens do amor estável; para Ana, o ideal seria a relação de puro sexo, sem história. Ela só quer presente, ele só quer futuro. Por isso, ambos estão paralisados, num curioso impasse.

Para que sofrer decepções? Por que assinar um contrato extenso, que quase sempre fracassa?, dirá Ana.

Sem esperanças, não é possível amar; sem profundidade tudo é supérfluo e inútil, responderá Luís.

São duas estratégias opostas, uma no ar e a outra solidamente instalada no cimento.

É hora de lembrar às pessoas que fizeram promessas de fim de ano que nem sempre é útil cumpri-las. Não se deve deixar de fumar ou fazer ginástica porque há um compromisso prévio, mas porque não fazê-lo é prejudicial para a saúde. As promessas são relativas e com freqüência dificultam a vida. Luís se comprometeu a jamais ficar com uma mulher, mas se desta vez se desligar do compromisso, poderá aceitar a proposta de um relacionamento breve com Ana, que por sua vez, depois de tê-lo conhecido, escutando com sinceridade seus sentimentos, também poderá rever sua promessa de nunca se comprometer afetivamente. É possível que estando juntos venham a descobrir que estão enganados: Luís só pode amar com garantias, Ana acredita que o amor é impossível.

É provável que ambos estejam sós por este simples motivo. Se o Luis não puder ficar com uma mulher, nunca saberá como é estar com a Ana; e se ela não abrir seu coração, jamais será enganada, mas nunca escutará que um homem a ama de verdade. Ambos se enganam por permanecerem presos às suas promessas. Ambos terão uma surpresa deixando de fumar, fazendo ginástica, ficando e amando para sempre.

ALBERTO GOLDIN é psicanalista e autor de Amores freudianos (Nova Fronteira) e Histórias de amor e sexo (Objetiva)

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De novo em evidência

Priscila Guilayn

Em 1992, Barcelona atraiu a atenção internacional quando foi a sede dos Jogos Olímpicos. Doze anos depois, a capital da Catalunha volta à evidência. Durante 141 dias reunirá pessoas de todas as partes do mundo em um mega-encontro cultural. O Fórum Universal das Culturas ou Fórum Barcelona 2004 apresentará uma oferta artístico-solidária-intelectual que vai de mesas redondas, debates e conferências a exposições e espetáculos.

Esta maratona cultural começa no dia 9 de maio, o Dia da Europa, e se estende até 26 de setembro. O ministro de Cultura, Gilberto Gil, já confirmou sua presença como músico: estrelará um show inaugural. Assim como Carlinhos Brown que, com seu trio elétrico, recriará o carnaval de Salvador. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é outra figura esperada. Ele encabeçará debates sobre a pobreza.

O fórum é um novo acontecimento internacional para que pessoas de todas as procedências e culturas se encontrem, dialoguem e sugiram soluções para os principais problemas do nosso planeta sintetiza Jaume Pagés, conselheiro-delegado do Fórum Barcelona 2004.

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Rio, 08 de janeiro de 2004 Versão impressa

Confira as melhores atrações do Fórum Mundial das Artes

Exposição Vozes: Pretende mostrar visualmente a diversidade lingüística com uma montagem que alcança cinco mil idiomas.

Exposição Os Guerreiros de Xi'an: Uma reflexão sobre a imortalidade através da arte funerária chinesa das dinastias Qin (221-207a.C.) e Han (206a.C.-220d.C.).

Exposição Habitar o mundo: A mostra explica a limitação de recursos do planeta, causa de diferentes conflitos, através da resposta a três perguntas: como os humanos se instalaram na Terra, como se relacionam com o planeta e o porquê dos problemas socio-ambientais.

Exposição Cidades-Esquinas: Um elogio às cidades como ambiente onde se cruzam culturas e formas de comunicação.

Exposição Picasso Guerra e Paz: Os estragos provocados pela Guerra Civil espanhola através da obra de Pablo Picasso, a partir da encomenda recebida pelo artista para pintar Guernica.

Espetáculo A árvore da memória: Manifesto em defesa do meio ambiente, exaltando seus poderes mágicos, produzido pelo grupo catalão Comediants.

Espetáculo O gigante dos sete mares: Uma reflexão sobre a conservação dos habitats naturais através das reações de agressividade e ternura de um monstro marinho de 12 metros de altura.

Espetáculo Fantótems: Marionetes gigantes feitas de bambu respondem a perguntas das crianças sobre a vida, o planeta e as pessoas.

Espetáculo Higroma: Pelas ruas, um desfile de gigantescos insetos pretende estimular a reflexão dos pedestres sobre como e onde pisam.

Espetáculo Sonhos de umas noites de verão: Pelas ruas, improvisações de grande impacto visual encenarão a solução para conflitos.

Cabaré: Um espaço art nouveau desenhado para momentos de relaxamento. Ideal para se tomar um café e assistir a espetáculos.

Espetáculo Naumon: O grupo La Fura dels Baus inicia uma viagem pelo mundo num navio chamado Naumon, tripulado por artistas-marinheiros. Atracam em Barcelona aspirando incitar um debate sobre a relação entre as duas margens do Mediterrâneo.

Circo Les Arts Sauts: Ola Kala: Um espetáculo no céu de Barcelona. Vinte trapezistas e dez músicos farão acrobacias aéreas.

Música, teatro e dança: Manu Dibango, Ray Lema, Youssou NDour, Daniel Barenboim, Bob Dylan, Enrique e Estrella Morente, Carlinhos Brown, Gilberto Gil, Ute Lemper, Bob Wilson, Pina Bausch, Willem Dafoe, Peter Brook, Mikhail Baryshnikov e Nacho Duato.

Conferencistas: Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Baltasar Garzón, Enrique Iglesias, José Saramago, Joseph Stiglitz, Alain Touraine, Mikhail Gorbachev, Jacques Delors, Peter Eigen, Stanley Fischer, Paul Krugman, Federico Mayor Zaragoza, José Antonio Ocampo, Anna Politkovskaya, Nawal El Saadawi e Jorge Seprún.

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Será só mais este ano

Romário anuncia que vai pendurar as chuteiras em dezembro e, depois, virar empresário de futebol para fazer um pé de meia
Mauro Leão

O atacante Romário, que completará 38 anos no dia 25, vai pendurar as chuteiras em dezembro. Mas não vai se aposentar ou mesmo abandonar o futebol. Ontem, em entrevista exclusiva ao ATAQUE, o artilheiro garantiu que pára com a bola para se dedicar à carreira de empresário. Chegou a hora de eu ganhar um dinheirinho, fazer o meu pé-de-meia, brincou o atacante do Fluminense.

Apesar de lamentar o veto à contratação de Euller (o atacante está com estiramento muscular grau 2 no adutor da coxa esquerda) e da não-aquisição de Marcelinho Carioca e Ramon, Romário garante que cumprirá o seu contrato até o fim. Acredito no projeto da Unimed, que nos está patrocinando. Se não vierem grandes nomes, virão nomes fortes. Sinto muito pelo Euller, que estava entusiasmado e querendo muito atuar no Fluminense, disse o Baixinho.

Sem Euller, o Tricolor corre em busca de um companheiro de ataque para Romário. Até o nome de Edmundo está sendo cogitado. O clube continua tentando a contratação de Ramon, para o meio-campo, e o veterano Zinho, campeão pelo Cruzeiro, poderá seu uma das opções para compor o setor.

Romário afirmou que não se envolve em contratações. Ele chega a se irritar quando se comenta que ele teria indicado este ou aquele jogador. Não existe isso. Não existe time de amigos do Romário. Se fosse assim, eu chamava meus parceiros Piloto, Tocão e até mesmo o meu irmão, Ronaldo, para jogar, desabafou.

Segundo o Baixinho, o que aconteceu foi uma espécie de aconselhamento. Os dirigentes me perguntaram sobre o Marcelinho Carioca, o Euller, o Leonardo Moura, o Gilberto. Como eu já havia jogado com eles, aprovei seus nomes, assegurou.

Só a possibilidade real dos mil gols o faria mudar de idéia

Entusiasmado com o projeto tricolor, Romário deixou claro que nome não ganha jogo. Todos nós já vimos times cheios de craques fracassarem nos campeonatos e torneios, e equipes formadas por jogadores valentes, de nível médio, surpreenderem, comentou.

Caso o Tricolor não consiga outros reforços de peso, Romário não teme que mais uma vez toda a responsabilidade dos fracassos da equipe caiam sobre as suas costas. Há um engano nisso. O clube já contratou três grandes jogadores. Aposto no futebol de Juan, Juca e Leonardo Moura, defendeu. Referência por onde passa, Romário sabe que canaliza o bem e o mal: Também tem isso. Se o time for bem, eu estarei na boa.

Questionado se o amor pela bola não poderia fazer com que mude de idéia e adie a sua despedida, o jogador foi incisivo. Tenho certeza de que vou parar no fim deste ano. A não ser que aconteça o extraordinário, mas não impossível, provocou. Desvende logo o mistério, pediu o repórter.É simples, rebateu o Baixinho. Estou com 890 gols. Se eu arrebentar na temporada e ficar perto dos 1.000 gols, tentarei realizar meu sonho. Caso contrário, vou ser empresário e fazer o meu pé-de-meia, concluiu.

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Leticia Wierzchowski
08/01/2004


Aqueles velhos verões
Sempre resta dentro de nós alguma coisa da criança que já fomos. Nem que seja uma lembrança, uma sensação ou um medo. Esses pequenos retalhos do nosso passado talvez sejam o que de mais genuíno nos acompanha e, por genuíno, mágico.

Com o verão, uma parte importante da menina que eu fui ressurge, feito uma flor que tem época para florescer. Talvez os melhores momentos da minha infância se tenham passado na praia, na longínqua cidadezinha de veraneio que eu freqüentava com meus pais e que hoje somente existe, cálida e perfeita, no mais recôndito do meu eu. Uma velha Cidreira onde as águas não eram poluídas, nem as famílias tinham seus carros arrombados enquanto tomavam seu banho de mar. Naquele tempo, aliás, ninguém ia de carro à praia. O carro saía da garagem para o supermercado. A padaria era, no final de cada tarde, tarefa das crianças e, portanto, vencida a pé. O pão de meio quilo, lembram?, chegava invariavelmente sem o bico. Quentinho, o velho pão da padaria Nivi era comido pelo caminho, naqueles tempos em que os caminhos não ofereciam mais perigo às crianças do que qualquer brincadeira no quintal.

Faz muito que deixei a praia de Cidreira, e assim ela tornou-se indestrutível na minha memória mais festejada. O velho chalé de madeira azul que meu avô Jan construiu nos primórdios do balneário, e que certa vez quase foi levado pelos ares durante um temporal, vive, lindo e impecável, na minha alma - e talvez seja essa a existência mais sublime que se possa almejar.

As bandeiras eram uma euforia à parte. Muitas bandeiras vermelhas para duas ou três amarelas, devidamente festejadas em longas horas de banho. Bandeira branca, essa só na velha marchinha de carnaval, e nas histórias da minha tia-avó, que dizia ter visto muitas bandeiras brancas nos seus áureos tempos, quando ir à praia no sul do sul do Brasil era aventura para poucos.

Houve uma vez um verão e suas histórias. Seus baldinhos de praia, suas forminhas de plástico, e aquele eterno vento lambendo as orelhas da gente... Naquele tempo, uma bruxa vivia no sótão da casa, e a pior coisa que podia acontecer era uma certa vontade de fazer pipi no meio da noite. Quando sucedia tal inconveniência, a solidariedade instalava-se: todos os primos iam juntos ao banheiro, e sempre alguém ficava de vigia na porta. A tal bruxa do sótão nunca ousou aparecer. Mas também, naquele tempo, até as bruxas eram boazinhas.

leticia.wierz@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
08/01/2004


Atingindo o alvo
Hoje em dia, paranóia é outro nome para realismo. Terrorismo sempre existiu, a novidade - que não começou em 11/9/01, mas universalizou-se espetacularmente com o ataque às torres - é o terrorista suicida. O que mergulha com o avião ou explode com a bomba. O disposto a morrer junto.

O mundo conviveu razoavelmente com o terror convencional, que desafiava autoridades e exércitos mas não atentava contra a sanidade de nações inteiras. A Itália agüentou os seus anos de terror sem sacrificar muito da sua estabilidade institucional, ou o que passa por estabilidade institucional na Itália. Separatistas irlandeses e bascos ainda assustam ingleses e espanhóis, mas não transformaram seus países em reféns do medo.

Mas primeiro em Israel, onde fez seu aprendizado sangrento, e agora nos Estados Unidos depois do 11/9, o terror suicida abalou tradições e costumes, transformou medo em política nacional e paranóia em sinônimo de avaliação criteriosa. O terrorismo já tinha ajudado a mudar a história do mundo e afetado, radicalmente, a história de suas vítimas, mas nunca tinha atingido um alvo deste tamanho: o espírito de uma época, os hábitos e as expectativas de toda uma civilização.

Há anos Israel vive o dilema de como lidar com o terror insurgente disposto a morrer junto sem recorrer ao terror de Estado. Com uma extrema direita dura e intransigente no poder, não está conseguindo. Nos Estados Unidos, teme-se por direitos constitucionais que ainda podem cair na luta contra o terror - além dos que já estão cambaleando - e aumentam os choques entre uma histórica rotina judicial de proteção do indivíduo contra desmandos do Estado e as medidas de emergência de um Estado em pânico. Não ajuda o fato de que, mesmo antes de 11/9, o arquiconservador homem da Justiça do governo Bush, John Ashcroft, não era exatamente um paladino dos direitos civis.

A pior novidade trazida pelo terrorista suicida é que mudou o conceito de emergência. Como qualquer mártir ou maluco hoje tem os meios para se explodir em qualquer lugar por qualquer causa, entramos no assustador novo mundo da emergência permanente - onde a menor das nossas preocupações é ter que esperar muito numa fila de aeroporto.

E perdeu todo sentido a frase "Onde é que isso vai acabar?" Não acaba. Ou, para não sucumbir ao fatalismo terminal, ainda mais num começo de verão, não acaba tão cedo. Ou só acaba quando não houver mais mártires e malucos com causa, ou causas com mártires e malucos. E um feliz 2004 para você também.

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Nilson Souza
08/01/2004


Elis vive!

Ganhei no Natal um DVD de Maria Rita e reservei uma madrugada dessas para assistir, sozinho e compenetrado, ao show da badalada moça. Na medida em que ela cantava, os fantasmas dos anos 70 iam sentando ao meu lado no sofá. Quando a música silenciou, virei-me para Tetelo, um amigo de infância que já partiu para outra dimensão num rabo de foguete, e exclamamos juntos:

- Elis vive!

Sei que estou chegando tarde a esta conclusão, pois o público que viu Maria Rita no Teatro do Sesi outro dia saiu deslumbrado com as semelhanças da cantora com sua mãe. Voz, sorriso, trejeitos, tudo lembra Elis. Menos o repertório e a coreografia. Elis, que chegou a ganhar o apelido de Hélice Regina, vibrava mais no palco. Maria Rita vai soltando sua voz bonita devagarinho, controladamente, como se estivesse cuidando para não acordar a Elis que carrega no peito. Mas deixa escapar uma careta e Elis aparece inteira, feliz e emocionada por estar novamente diante do público.

Tetelo, que era ponta-esquerda do meu time de adolescentes, foi quem me ensinou a gostar de Elis Regina. Estudamos juntos no ginásio e ele vivia cantando baixinho as músicas da Pimentinha. De tanto ouvi-lo, passei a prestar atenção nas letras e quando me dei conta já tinha uma foto de Elis na parede do meu quarto de estudante compenetrado, cuja única transgressão visual era um enigmático recorte de jornal com a seguinte pergunta:

- Qual é o teu mundo, bicho?

Coisa dos tempos da Jovem Guarda, que acompanhei de uma distância prudente. Mas Elis me fascinava porque sua voz inconfundível também transmitia mensagens contagiantes de inspirados compositores: "Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz...". Elis deixou um recado para todas as Marias, inclusive para Maria Rita: "Mas é preciso ter manha. É preciso ter graça. É preciso ter sonho, sempre..."

Com manha e com graça, Maria Rita me fez recordar do meu amigo Tetelo e tornou verdadeira aquela frase pichada nos muros porto-alegrenses pelos fãs inconformados, quando a cantora partiu na década de 80, deixando outra mensagem premonitória: "A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar..."

O show continua com Maria, Maria Rita.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
08/01/2004


A dúvida é sempre soberana

É tão cheia de detalhes a confissão de Adriano da Silva, 25 anos, que se acredita ter sido ele mesmo o autor das 12 mortes dos meninos na região norte do Estado.

Presenciaram a confissão, que durou 12 horas, quatro delegados, dois promotores e um advogado, o que não deixa qualquer dúvida sobre a pureza da solenidade.

Ao primeiro impulso, muitas das pessoas que ficam sabendo da crueldade empregada pelo confesso para com suas vítimas pensam logo que o único castigo justo para esta série impressionante de crimes, que está abalando a opinião pública nacional, seria a pena de morte.

No entanto, há uma outra face destes escabrosos 12 assassinatos: existem outros 15 acusados desses mesmos crimes indiciados em inquéritos, muitos deles, quase uma dezena, ainda presos por terem presumivelmente cometido vários desses mesmos crimes.

Ou seja, a pressão da imprensa e da opinião pública sobre as autoridades policiais da Região Norte fê-las pedir a prisão temporária ou preventiva de outros suspeitos, concedida pela Justiça.

A pergunta que fica no ar é a seguinte: se Adriano da Silva não tivesse confessado o assassinato dos 12 meninos, esses outros suspeitos que estão presos não seriam responsabilizados pelos crimes?

Entre esses seis ou sete que estão presos pela suposta autoria dos crimes confessados por Adriano existe algum ou alguns suspeitos que também o confessaram?

Este é o típico caso que desaconselha definitivamente a pena de morte.

Segundo o noticiário, se Adriano foi realmente o assassino dos 12 garotos, como sua minuciosa confissão leva a acreditar, estão completamente inocentes os 15 indiciados pelos mesmos crimes, metade deles presos ainda.

A dúvida sobre a inocência ou culpabilidade de um réu às vezes sobrevive até às maiores evidências.

Adriano da Silva, em sua confissão de anteontem, revelava detalhes ricos sobre suas prováveis vítimas: as roupas que vestiam, o que tinham nos bolsos, os lugares em que as apanhou.

Mas houve um delegado ou uma promotora que levantou a seguinte possibilidade ontem: e se ele leu nos jornais estes detalhes e agora os está relembrando para legitimar uma confissão de crimes que não cometeu?

Eu não me esqueço que há meses foi preso um suspeito de ser o autor de diversas destas 12 mortes de meninos.

Ele é vendedor comercial e percorria em périplo profissional diversas cidades em que os meninos foram assassinados.

Na ocasião, foram divulgados diversos indícios veementes de que este representante comercial era o autor dos homicídios.

Se for confirmada pelas investigações a confissão de Adriano da Silva, o viajante comercial restará completamente inocente.

No entanto, havia uma teia consistente de indícios que apontavam o viajante comercial como o assassino de vários dos menores.

Ainda bem que a polícia teve a cautela brilhante de não divulgar o nome do viajante comercial, até hoje ainda preso.

Ou seja, os caminhos que levam um inocente a ser condenado ou um culpado a vir a ser julgado inocente são muito largos.

Esse erro humano a que as investigações, inquéritos e processos podem levar são indicativos de que se torna muito temerária a adoção da pena de morte.

Este caso, a par da tristeza e desolação que encerra, presta-nos no entanto uma admirável lição: há sempre a possibilidade de que um evidente culpado seja inocente e vice-versa.

É um não enérgico à pena de morte.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Roubo
Carro-forte é atacado na Serra



Criminosos jogaram caminhão e incendiaram o blindado na BR-116 em Nova Petrópolis, levando malotes com dinheiro. Dois seguranças se feriram (foto Jefferson Botega, Agência RBS/ZH)


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Quarta-feira, Janeiro 07, 2004




Diga com quem andas...
...e eu te direi quem és. O site Meetup.com promove encontros reais de grupos com um mesmo interesse
Alessandra Carneiro



Meetaup.com: quase um milhão de pessoas a fim de se conhecer

Evento com aquele pessoal que conheceu pela Internet logo sugere uma espécie de blind date ou encontro amoroso, certo? Nada disso se você é adepto do Meetup (http://www.meetup.com), um site que garante a diversão com nada mais que um chopp gelado, uma boa conversa com pessoas com um mesmo interesse e novas amizades.

No Brasil, o serviço do Meetup que pode ser pago ou não começa a ficar conhecido pelas reuniões do Fotolog. Os fotologger meetups são tão concorridos e freqüentes que muita gente até confunde um serviço com outro. Até mesmo quem se cadastrou para receber informações sobre esses encontros não sabe que o que está por trás é um serviço que junta fãs dos mais variados interesses, não apenas de fotos digitais.

Até há pouco não sabia que era um serviço que ia além dos encontros dos fotologgers. Estou cadastrada no site, tenho perfil lá e subi foto, mas não fazia idéia desses outros grupos¿, admite a atriz Fernanda Barone, 26, mais conhecida como Gwen por seu fotolog http://www.fotolog.net/gwenn.

Só no Rio de Janeiro existem grupos com os mais variados gostos. É um grupo com fãs de Linux aqui, de adoradores do Elvis acolá e por aí vai. De certa forma, o Meetup pode ser comparado a um grupo de discussão. Ou aos sites de círculos de amizades como Friendster. Ou a um fórum. E, na verdade, lembra também as salas do mIrc ou dos antigos BBS e seus encontros sobre os tópicos das chat rooms.



Os dois maiores grupos do Rio: Fotolog e Linux expõem fotos de reuniões

Mas o Meetup pode ser considerado tudo isso e um pouco mais. Só que abraçando com vontade os encontros reais. Quem entra para esses grupos não quer discussões apenas virtuais. Quer amigos de verdade, com alguma coisa em comum.

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Contadora de história


Luana Piovani diz que fala demais, desdenha do cinema internacional e jura que não liga para dinheiro
Ana Lúcia do Vale

Ela fala demais, mas tenta tirar vantagem transformando em marketing pessoal o que seria demérito para muitos. Sete anos de terapia, hoje em sessões esporádicas, a atriz Luana Piovani, 27 anos, diz estar aprendendo a se apegar menos ao que não dá certo. Se ano passado bradava respeito se mostra com trabalho reestréia o infantil Alice no País das Maravilhas, no sábado, faz novo filme de Bruno Barreto e será Maria Madalena na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém (PE) , este ano acrescentou: Quero desatar os nós da minha vida.

Entre os nós, uma escorregada na língua. Minha mãe diz que falo demais. Meu terapeuta também. Mas sou assim mesmo, resigna-se ela, que declarou a um jornal universitário que fumava maconha. Arrependeu-se, disse e desdisse depois, quando o Ministério Público ameaçou fazer balbúrdia. Dei um prato cheio e extrapolaram. Sou exemplo de cidadã. Deviam se preocupar é com os meninos dos sinais, que vão virar aviões do tráfico de drogas quando crescerem, discursa.

Dizendo-se sonhadora e criativa, como sua Alice, no infantil que reestréia sábado, às 17h, no Teatro Odylo Costa Filho, da Uerj, sabe que ¿tem que aprender a ser gentil com todos. Julgo muito. Mas estou aqui para melhorar como ser humano, filosofa Luana, que ralou pelos patrocinadores da produção de 1 milhão de reais. Mas não ficou rica com a peça. Não ganhei um tostão como produtora. Só tenho o salário de atriz. Minha realização não está no dinheiro. Senão faria Playboy, novela das oito ou comercial de cerveja, justifica. Sou contadora de histórias. Ela até já sabe qual será seu próximo infantil: O Pequeno Príncipe.

Sobre um embrião de carreira internacional no cinema será protagonista de O Casamento de Romeu e Julieta, sobre famílias rivais de torcedores de futebol, dirigido por Bruno Barreto faz ar blasé. Diz que nunca almejou isso, nem acompanha de perto a trajetória do ex Rodrigo Santoro. Meu sonho é um palco falando em português, não uma superprodução, desdenha. Não viu As Panteras, nem Simplesmente Amor. Nem sabia que Rodrigo beija a musa Nicole Kidman em comercial de Chanel nº 5.

Tomara que ele resolva o problema dela, brinca, ácida, mas se retrata: Eu já falava oh Rodrigo muito antes de todo mundo que faz oh Rodrigo agora. A gente era prati