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Sábado, Fevereiro 07, 2004
Posted
7:28 PM
by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
08/02/2004
Mal-estar na civilização
Quase tudo na vida urbana nos empurra de volta para a selva
Uma coisa eu aprendi com os homens: a maneira mais rápida de conhecer o caráter de um sujeito é ver como ele se comporta numa quadra. Pelo que eu entendi, funciona mais ou menos assim. O cara é um doce no trabalho, parece se dar bem com todo mundo, nunca foi visto discutindo. Mas no futebol de salão é um gladiador, parte para cima das canelas alheias, não poupa nem o melhor amigo. O rapaz é aparentemente um cuca-fresca, um boa-praça, mas no campo perde a esportiva, é uma pilha de nervos. A lista de tipos não pára, se você tiver paciência e interesse antropológico suficientes - o canalha oculto, o fominha, o que se acha. Futebol é uma caixinha de surpresas humanas.
Uma coisa eu aprendi com quem dirige: no trânsito nada é azulzinho. Em nenhum lugar as pessoas sentem-se tão à vontade para o vale-tudo, para o primeiro-eu. A moça que é capaz de esperar 10 minutos pacientemente na fila do caixa de uma butique grã-fina não perde 30 segundos para dar passagem para outro carro. O executivo viajado, cheio de carimbos no passaporte, é capaz de bater boca com um velhinho por uma vaga no estacionamento - e ainda ir para casa achando que estava coberto de razão. Não há espaço para a gentileza, para a cordialidade. É um território livre para a barbárie e, às vezes, para a pura falta de bom senso: quantas pessoas você conhece que abrem mão de beber quando vão dirigir?
Uma coisa eu aprendi na Internet: e-mails são um atalho assustador nas relações humanas. Antes você conhecia a pessoa, falava com ela pessoalmente algumas vezes, outras tantas pelo telefone e a menos que um de vocês mudasse de cidade ou fosse o último amante epistolar do planeta a chance de se comunicarem por escrito era rara. Casais se conheceram, tiveram filhos, se separaram sem nunca trocar uma carta. Agora é pá-pum-email - ou, mais comum ainda, email-pá-pum.
Etapas são queimadas. Pois bastam meia dúzia de linhas, não mais que isso, para que se perceba o quanto a pessoa lê ou não, se tem senso de humor, se articula o pensamento com alguma lógica. Não são raros os casos de internautas que revelam pelo e-mail um lado surpreendentemente tosco. Protegidos pela distância do interlocutor, dizem coisas que não teriam coragem de dizer pessoalmente. É o valentão virtual, a modalidade mais recente de um gênero imemorial.
Uma coisa eu aprendi com a observação da espécie: não é moleza ser civilizado. Quase tudo na vida urbana nos empurra de volta para a selva, para os instintos básicos de sobrevivência e ataque, para a guerra tribal. Em situações-limite, educação e traquejo social nem sempre impedem que o ogro que todos trazemos em estado de maior ou menor repouso se manifeste. Civilização é o contrário da nossa natureza. Por isso dá tanto trabalho e exige tanta vigilância.
Interina: Cláudia Laitano
martha.medeiros@zerohora.com.br
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7:25 PM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
08/02/2004
Mais histórias de verão
Gilmar, Marialva, Marcão e outras 12 pessoas, seis da família Viera, outras seis da família Farias, são alguns personagens que ajudam a enriquecer as nossas curtas férias. Dá para rir e passar adiante
VIDÃO
Havia mar nos seus nomes, os dois eram jovens e livres, e a vida era curta. Que outras razões faltavam para Marialva aceitar o convite de Gilmar e dar um passeio noturno na sua lancha, só os dois, as estrelas e o Marcão (outro com mar no nome!), um capixaba discreto, segundo Gilmar, para servir o champanha?
Marialva hesitou. Mal conhecia Gilmar, e já tinha sido avisada no clube: "Não saia de barco com aquele ali". Mas Gilmar era atraente, apesar de pequeno, pois o que lhe faltava em altura sobrava em dinheiro, e Marialva aceitou, e os três zarparam num fim de tarde, em meio a um crepúsculo de folhinha ("Encomendei para você!", gritou Gilmar, entre risadas das gaivotas. E depois, fazendo um gesto que englobava tudo, eles, o barco, o mar e o céu coloridos: "Vidão!").
Marcão, além de servir o champanhe, o patê e as ostras e cuidar do som (barroco italiano), pilotava a grande lancha, que balançava suavemente nas ondas tingidas de lilás, e teve que vir correndo quando o Gilmar levantou-se de onde estava deitado, com a cabeça pousada nas coxas nuas também tingidas de lilás de Marialva, e precipitou-se para a amurada do barco.
Marcão chegou a tempo de segurar a sua testa enquanto ele vomitava. Depois Gilmar falou:
- Não adianta. Vamos voltar.
Na volta, enquanto Gilmar repousava na cabine, Marialva ouviu de Marcão a história do seu desafortunado patrão. Era sempre assim. Ele enjoava até com mar calmo. Às vezes nem dava tempo de chegar à amurada, era em cima da mesa mesmo. Uma vez a moça que estava com ele, indignada com os respingos, o agredira com o balde de gelo. Acontecia todas as vezes. Ele começava a enjoar e tinha que interromper o passeio. Mas não desistia.
- Por quê? - quis saber Marialva.
- Porque é pra isso que ele comprou o barco. Porque é essa a vida que ele quer. Ou, como ele sempre diz, o "Vidão!"
- Mas por que não mudam pelo menos o cardápio?
- O quê? E servir chá com torradas? Não seria um vidão.
Dias depois, Marialva ouviu Gilmar falando com uma bela mulher no bar do clube. Dizendo:
- Ostras. Champanha. Vivaldi. Só nós dois. E o mar. E se você quiser, providenciarei uma lua cheia. Hein? Hein?
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7:23 PM
by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
08/02/2004
Dilemas caninos
A batalha final ainda não foi anunciada, nem será do bem contra o mal. Eu desconfio que a luta será travada entre os que gostam de cachorros e os que não gostam
A batalha final não será travada entre o Bem e o Mal ou entre os identificadores nos aeroportos brasileiros e americanos. A batalha final será travada entre os que gostam e os que não gostam de cachorros. Pelo menos é o que deduzo de avisos que estão sendo colocados nos postes de iluminação nas ruas do meu bairro. Um deles adverte severamente os donos de cães que devem andar com um saquinho plástico, a fim de recolher o cocô dos bichos. Outro, na rua São Manoel, remete ao que deve ser um problema mais sério. Diz que cães estão sendo envenenados e adverte que esse procedimento pode ter conseqüências sérias, inclusive para crianças.
Cada vez há mais gente criando cachorros, o que se constata, inclusive, pela proliferação das Pet Shops (já são quase em número igual ao das farmácias). Era previsível; estamos seguindo o modelo europeu e americano. À medida que baixa a taxa de natalidade aumentam os animais de estimação. Os europeus, inclusive, não hesitam em dizer que substituíram as crianças pelos cachorros, que, segundo eles, dão menos trabalho e são menos ingratos; e dão, podemos acrescentar, testemunho de um egoísmo que não é pequeno. Por outro lado, cães tem seus inimigos. Em primeiro lugar pela óbvia razão de que alguns animais são agressivos e mesmo perigosos (claro: foram treinados para isso). Perguntem aos carteiros e aos entregadores de pizza o que acham do cachorro que, do portão, ladra ameaçador.
Existe aí uma questão até filosófica, com conotações surrealistas. No ano passado surgiu nos Estados Unidos um curioso livro sustentando a tese de que não fomos nós que domesticamos os cães, eles é que nos domesticaram. Ensinaram-nos a cuidar deles, a providenciar sua alimentação, em troca de muito pouco.
Como é fácil imaginar, nesta briga os cachorros são apenas cavalo (ou cão, melhor dizendo) de batalha. A disputa é, na verdade, entre pessoas. E não precisa existir. A convivência pode, sim, ser pacífica. Criar cães é uma coisa afetiva. Nesta época de vidas solitárias todo canal que permita comunicação de afetos é válido. É melhor gostar de cachorros do que não gostar de criatura alguma.
Alguém dirá que há muito garoto de rua esperando por afeto, e é verdade. No ano passado, foram gastos mais de um milhão de dólares para salvar uma baleia encalhada. Um milhão de dólares poderia salvar muitas crianças brasileiras, só que, elas, infelizmente não estão encalhadas no gelo, estão encalhadas nas ruas das grandes cidades, entre o crime, a violência, o tráfico de drogas, o desemprego. E não são um espécime em extinção, como alguns queriam que fossem. Uma coisa, porém, não elimina a outra. Nada impede que as pessoas interessadas na preservação de baleias cuidem de crianças; aliás, freqüentemente é o que acontece, porque quem tem consciência para uma coisa, tem consciência para muitas coisas.
A casa dos afetos tem muitas portas. E algumas delas têm, à sua frente, um cachorrinho abanando o rabo.
scliar@zerohora.com.br
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7:21 PM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
08/02/2004
A predadora
As mulheres raramente confiam seus fundamentais segredos aos homens.
Só o contubérnio etílico do Bar do Pirata, na Praia Brava, sul da ilha de Florianópolis, poderia ter ensejado que algumas mulheres tivessem dito uma verdade pétrea ao David Coimbra: as mulheres se mostram muito mais de biquíni do que nuas.
As mulheres bonitas aguardam o verão com a ansiedade das cigarras. É o tempo de elas se mostrarem, até ali ficaram camufladas pelo estratagema da moda, dissimulavam sua beleza na insinuação dos decotes e das calças e saias apertadas.
Muitas enganaram nas outras três estações, escondidas atrás das roupas. No verão é impossível ludibriar os incautos, é a hora da verdade, mulher que tem beleza para mostrar só pode fazê-lo realmente no verão.
Há mulheres que se preparam com dietas para o verão. Dezembro vai se aproximando e elas malharam durante todo o resto do ano e evitaram as gorduras e os carboidratos para se mostrarem impávidas na passarela das praias.
Há outras mulheres que odeiam o verão, exatamente porque é o cenário desfavorável para as suas mazelas físicas, escondem-se sob as saídas-de-banho e as bermudas e submetem-se ao terror de ter de expor-se rapidamente de maiô e tanga, o tempo que der para chegar às ondas e voltar até a cadeira de praia, embarafustando-se novamente nas toalhas acobertadoras.
Já as mulheres bonitas vão cedo para a praia e toda a coletividade litorânea fica conhecendo seus atributos.
Mulher bonita não pára na praia, percorre toda a extensão da areia, de preferência em companhia de outra mulher bonita, para não perder o jeito, mesmo porque jamais se verá na praia uma mulher bonita acompanhada por uma feia, a última não resiste ao terror da comparação.
Uma mulher realmente bonita não se cansa de caminhar de biquíni na praia, quer mostrar para todos a sua superioridade, tornando explícita e popular a sua sensualidade, é capaz de percorrer toda a inteira extensão da Praia do Cassino, dita a maior de todo o Brasil.
Ela caminha sob a onda dos olhares da multidão, não indo a lugar nenhum, mas como se tivesse um destino, que outro não é que os confins da sua justa vaidade.
Têm razão as mulheres que confiaram ao David Coimbra que a mulher se desnuda mais de biquíni do que nua.
Nua a mulher é de um só homem, que adquiriu o direito de vê-la nua, o chamado direito adquirido.
De biquíni, a mulher é alvo do olhar desejante de todos, que se munem do que se chama de expectativa de direito.
A mulher nua já é coisa do passado, não faz mais parte do mercado romântico, é uma presa. Enquanto que a mulher de biquíni é uma predadora que saiu de manhã para a praia a caçar os olhares aturdidos dos admiradores.
A mulher nua é um mero objeto de conquista.
A mulher de biquíni é um sublime objeto de desejo.
Nua, a mulher é protagonista do fim da história.
De biquíni, a mulher está forjando a história.
Nua, a mulher é um ser particular.
De biquíni, a mulher é um ser universal.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:18 PM
by Cassiano Leonel Drum
Cidadania
Prostituição mirim à luz do dia
Meninas de 13 a 15 anos oferecem o corpo em uma das principais avenidas da Capital diante da omissão dos órgãos encarregados de proteger crianças e adolescentes (foto José Doval/ZH)
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7:09 PM
by Cassiano Leonel Drum
Banho de sentidos
O que faz cada ingrediente dos sabonetes artesanais
A sofisticação das ultraperfumadas lojas de sabonetes artesanais levou para o banho ingredientes antes improváveis, como canela e café. Cada produto pode ter propriedades calmantes, energizantes, hidratantes ou até afrodisíacas, segundo os fabricantes. Alguns casos têm base científica. "O chocolate é considerado hidratante por ter gordura e não ressecar a pele", explica Elcio de Souza, químico consultor da Associação Brasileira de Cosmetologia. Ele lembra que um sabonete nunca deve ser considerado substituto para um tratamento médico. Conheça a ação de cada ingrediente.
Revigorantes ou regeneradores: alecrim, aloe vera, cítricos (laranja, limão, tangerina), eucalipto, hortelã, menta, própolis.
Relaxantes: baunilha, calêndula, camomila, erva-cidreira, germe de trigo, hamamélis, lavanda, melissa, pepino, rosas.
Hidratantes: abacate, amêndoa doce, aveia, banana, chocolate, leite de cabra, macadâmia, manga, rosas brancas.
Afrodisíacos: canela, cravo, gengibre, ilangue-ilangue, jasmim, rosas.
Fonte: Nei Naiff, consultor de aromaterapia
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3:30 PM
by Cassiano Leonel Drum
Um tapinha não dói
Boa surpresa em Celebridade: a desenvoltura com que Márcio Garcia interpreta Marcos
Ricardo Valladares
Rafael Campos
Cláudia Abreu e Márcio Garcia: ela é a "cachorra" e alguns sopapos são para valer
O desempenho do ator Márcio Garcia é uma das poucas boas surpresas da novela Celebridade. Ele está perfeitamente à vontade no papel do aproveitador Marcos, que protagoniza cenas de alta voltagem com a vilã Laura, interpretada por Cláudia Abreu (Cláudia também está excelente em seu papel, mas isso já era esperado). Marcos e Laura são cúmplices na cafajestice e no amor. Os dois tramam seus golpes juntos e comemoram suas vitórias com sessões animadas de sexo, que têm um toque sadomasoquista. Ele a chama carinhosamente de "cachorra", e não é incomum que ambos troquem uns sopapinhos.
"Eu já dei uns tapas nele de verdade e as pegadas dele são fortes. A gente se diverte e tem uma sintonia muito boa", diz Cláudia. O fino ajuste entre os dois fez com que os improvisos passassem a ser constantes. Semanas atrás, uma cena pedia que o casal se despedisse e Marcos partisse de carro. Na hora da partida, o carro falhou, o que não estava no script. "Empurra aí, cachorra", disse Márcio. E lá foi Cláudia, rindo, empurrar. "O Márcio é muito rápido, cria brincadeiras na hora", diz a atriz.
A carreira do carioca Márcio Garcia, de 33 anos, começou por acaso, em 1992, quando ele foi apanhar uma namorada na agência Elite. O pessoal gostou da estampa do rapagão e o convidou para ser modelo. Márcio interrompeu o curso de administração de empresas no primeiro ano e foi à luta. Das campanhas publicitárias saltou para a televisão. Assumiu a apresentação de um show esportivo na MTV e, em 1994, fez sua primeira aparição de sucesso na Rede Globo, como o pescador Cassiano na novela Tropicaliente. Além de atuar em novelas, Márcio já apresentou o programa infantil Gente Inocente, que ia ao ar nas manhãs de domingo. Com seu estilo "garotão saúde", ele tem boa aceitação entre os espectadores jovens de ambos os sexos. Isso faz de Márcio um curinga dentro da emissora.
Nos últimos anos, ele também se tornou um empresário bem-sucedido. Ele representa uma grife inglesa de relógios na América Latina e tem um escritório de mídia. Está casado com a publicitária Andréa Santa Rosa, de 25 anos, com quem teve um filho, Pedro. O casal vive numa casa de 600 metros quadrados no bairro do Joá, no Rio de Janeiro. A casa tem quadra de esportes, academia, piscina e um canil com doze cães.
Antes do casamento, Márcio construiu um bom currículo de namorador. Teve um caso-relâmpago com a apresentadora Angélica e um noivado de dois anos com a modelo Daniella Sarahyba. Ao romper com a moça, Márcio pediu de volta um colar de 10 000 dólares que havia lhe dado. Daniella resolveu doar a jóia à Casa dos Artistas.
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3:07 PM
by Cassiano Leonel Drum
Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Ao cruel ritmo da natureza
O governo Lula antes estava na barriga da mãe. Agora aprende a andar. Onde estará aos oito anos?
Não se subestime jamais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo dos primeiros meses do governo, ele cansou de repetir a imagem dos nove meses de gravidez. Dizia, bem ao seu modo de recorrer a uma história pessoal, ou suposta história pessoal, para dar força à argumentação, que quando casou queria ter logo um filho de imediato, no dia seguinte. Teve de submeter-se, porém, à implacabilidade da lei natural que exige um período de nove meses para esse tipo de evento. Da mesma forma, esta era a moral da história, devia-se ter paciência com um governo que mal começava.
A imagem foi boa enquanto o bebê permaneceu na barriga da Presidência e de seus 35 nutridos ministérios. Mas e depois? Passados os nove primeiros meses, o bebê governamental nasceu. A imagem, em conseqüência, teve seu prazo de validade esgotado. Enganou-se, porém, quem imaginava que Lula ia se apertar por isso.
Na semana passada, ao fazer um balanço do programa Fome Zero, e admitir que houve percalços, ele disse: "A coisa que eu mais queria na vida era que meu filho aprendesse a andar sem cair, sem levar nenhum tombo, mas ele teve muitos tombos até aprender a andar". Eureca! Agora o bebê está aprendendo a andar! Saiu da barriga, e ensaia seus primeiros e cambaleantes passos. Lula conseguiu a proeza de renovar sua imagética sem sair do mote do ritmo do desenvolvimento humano.
A frase é puro Lula, e merece ser apreciada aos bocados. O começo é desconcertante: "A coisa que eu mais queria na vida..." Para o comum das pessoas, o que "mais queriam na vida" seria sorte no amor, sucesso na profissão, fortuna, saúde, ver os filhos crescer saudáveis e felizes. Não o presidente. O que "mais queria na vida" era... que o filho andasse sem dar tombos. Suponha-se que o gênio da lâmpada se apresentasse diante dele, um gênio da lâmpada no rigor da moda dos de sua espécie, turbante enrolado na cabeça, anéis nos dedos, roupas coloridas sobrando no peito, os braços cruzados, as pernas dissolvidas na fumaça que ainda as liga à lâmpada. "Vossa excelência pode ordenar.
Qual seu maior desejo?" O que se esperaria é que dissesse que queria ser presidente (a história se passa antes de ter atingido tal desiderato) ou, alçando-se às alturas de estadista, que a justiça e a eqüidade se estendessem pelo mundo, que não houvesse mais fome, que não houvesse mais guerras. Puxando para o nosso lado, o que não seria mau, poderia pedir que o Brasil fosse contemplado com o dobro do PIB dos Estados Unidos.
Já que se está diante de um gênio, impõe-se esticar ao máximo a corda das possibilidades. Não. Ele diria: "Queria que meu filho já começasse a andar sem cair". É muito pouco. É alarmantemente pouco. Seria desperdiçar absurdamente a oferta do gênio. Acalentar um desejo desses é baratear muito além do razoável o estoque de "maiores desejos na vida".
O ponto seguinte a ressaltar na frase presidencial é o papel de apressadinho que, nela, Lula se atribui. Nos tempos da imagem da gravidez já era assim. Ele queria que o filho nascesse já, de imediato, sem demora. Imagine-se a cena. Casa-se, vive-se a primeira noite, e no dia seguinte o marido põe-se a reclamar: "Não vai nascer? Por que ainda não nasceu? Por que essa demora?" Na imagem do filho aprendendo a andar, o pai reclama: "Por que essas pernas moles? Vamos, de pé". E, com desalento, diante do novo tropeço: "Oh, caiu de novo!?" O que resulta é o retrato de um homem de estranha sensibilidade, nervoso, inadaptado, e portador de tal desconhecimento do mundo que chega a ignorar os ritmos da natureza.
Tais torneios na imagética presidencial são apenas detalhes, no entanto, diante do principal. E o principal é a vitória que, como um mágico que tira o coelho da cartola, Lula obteve ao manter-se no fio da meada das demoras no desenvolvimento humano para justificar os atrasos e percalços do governo. Antes era a demora para nascer. Agora, a demora para aprender a andar. Mais adiante, e a continuar a bater na mesma tecla, Lula poderá dizer que "o que mais queria na vida", quando o filho fez três anos, é que ele já soubesse ler e escrever. Depois, dirá que o que mais queria é que aos quatro anos o filho jogasse futebol como Ronaldinho, que aos cinco compusesse sinfonias como Beethoven, que aos seis conhecesse a física como Einstein... O problema...
O problema é que o máximo a que o presidente pode aspirar na Presidência são oito anos. Se continuar a medir o grau de maturidade e capacidade de realização do governo pela escala da existência humana, esbarrará com o fato de que, aos oito anos, o ser humano ainda exibe notórias insuficiências. Não poderá dizer: "Aos oito anos, queria que meu filho já fosse crescido, preparado, maduro e estivesse no auge de sua capacidade física e mental, mas..." Não poderá dizer que, por ter só oito anos, seu governo é ainda baixinho, despreparado, imaturo e está longe do auge da capacidade física e mental. Ele terá de se conformar com a dura realidade de que governo é governo, e desenvolvimento humano é desenvolvimento humano.
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8:58 AM
by Cassiano Leonel Drum
Quatro horas de estudo por dia
Conheça a vida e a rotina de estudos do paulista Raul Celestrino Teixeira, que apareceu nas listas de vestibular como o primeiro colocado na Universidade de São Paulo e também na Universidade de Campinas
Camila Antunes
Os especialistas em educação costumam dizer que cada estudante deve procurar a própria fórmula para se dar bem nos exames vestibulares. Mas mesmo assim é útil e muito interessante conhecer um pouco da estratégia adotada por um dos campeões das provas deste ano. O vencedor em questão é o paulista Raul Celestrino Teixeira, 17 anos, que na semana passada se acostumava à idéia de ver fotos suas estampadas nos jornais. O telefone não parava de tocar na casa dos pais, que fica na cidade de Adamantina, município com apenas 33.000 habitantes localizado a 600 quilômetros de São Paulo.
Ao saírem as listas de aprovação no vestibular, Raul apareceu em primeiro lugar entre todos os classificados na Universidade de São Paulo e também na Universidade Estadual de Campinas, duas das mais disputadas instituições brasileiras. O estudante, que vai cursar física, escolheu matricular-se no campus da USP na cidade paulista de São Carlos. "Antes que me perguntem, já aviso que não sou nerd, que gosto de passear com os amigos, de dançar e de brincar. Sou um sujeito normal", afirma Raul.
No ano que antecedeu as provas, Raul desenvolveu algumas rotinas que o ajudaram no desempenho final. Estabeleceu um horário mais ou menos regular de estudos, à noite, e uma carga máxima, quase sempre em torno de quatro horas diárias. Também definiu um lugar para estudar, sempre numa edícula da casa, para onde levou uma escrivaninha. O estudante aprendeu ao longo dos anos que é improdutivo estudar muitas disciplinas dedicando a cada uma delas um tempo reduzido. Em função disso, preferiu debruçar-se apenas sobre duas matérias por dia. A maratona era mantida nos sábados e domingos, e Raul não parava para tirar cochilos. "O vestibular exige alguns sacrifícios, sim", afirma.
Desde cedo, Raul se acostumou aos testes. Com 12 anos, voltou de uma olimpíada estadual de matemática com uma medalha de bronze no peito. Passou a freqüentar anualmente essas olimpíadas e a dedicar-se para valer a assuntos que outros estudantes têm horror só de ouvir falar: física quântica, astronomia, química. A mais importante das competições a que se submeteu ocorreu na Suécia. Era uma prova mundial de astronomia. Raul e quatro outros jovens representavam o Brasil. Ficou em segundo lugar. Em 2002, Raul já havia prestado o vestibular da Universidade de São Paulo na condição de "treineiro", como são chamados os que se submetem ao teste antes da hora. Cursava na ocasião o segundo ano do ensino médio. Raul ficou em primeiro lugar entre os "treineiros" e atingiu pontuação suficiente para ingressar em qualquer curso da universidade, até mesmo no de medicina, o mais concorrido deles.
O pai do campeão nos vestibulares, também chamado Raul, economizou um bom dinheiro graças ao desempenho escolar do filho. Nos últimos seis anos, o rapaz vem recebendo da escola onde estuda algum desconto na mensalidade. Para o orçamento doméstico, as bolsas são bem-vindas. A família de quatro pessoas vive com renda de 2.000 reais, valor do salário do pai no Banco do Brasil. A mãe, Liderci, é dona-de-casa. Como mora numa cidade pequena, Raul não tem acesso a uma programação cultural agitada. Para compensar o fato de Adamantina possuir apenas uma sala de cinema, no ano passado, a família comprou um aparelho de DVD. "Foi o melhor investimento dos últimos tempos", conta Raul, que passou a freqüentar as locadoras da região.
Quase 5 milhões de jovens brasileiros disputaram o vestibular em 2003. Em jogo, havia 1,7 milhão de vagas em 1.600 instituições de ensino superior. Na média geral, para cada um que entrou, dois ficaram de fora. Quando se contabiliza a concorrência nas universidades públicas, onde a disputa é mais feroz, a proporção aumenta. Dependendo do curso, a disputa chegou a mais de 100.
Pesquisas realizadas entre jovens como Raul, que alcançam o sucesso e chegam às primeiras colocações, mostram que eles possuem algumas características em comum. A maioria vem de lares em que os pais possuem diploma de ensino superior e dão apoio à vida cultural dos filhos. No caso do campeão deste ano, o pai é formado em direito e a mãe concluiu o ensino médio. Especialistas consideram a influência familiar decisiva no desenvolvimento de hábitos de leitura, no aprendizado de línguas estrangeiras e no acesso à informação sobre os assuntos da atualidade.
Também chama atenção no perfil desses estudantes o fato de não se enquadrarem no estereótipo do jovem que passa dias inteiros enfurnado em casa, mergulhado na leitura de livros técnicos e que só vê a luz do dia quando sai para o cursinho pré-vestibular. Uma pesquisa feita com base nos dados do Ministério da Educação mostra que os jovens com melhor resultado na sala de aula lêem pelo menos seis livros sem conteúdo técnico num ano e obtêm informações por meio de jornais e revistas no lugar da televisão, como faz a maioria. Definitivamente, não são os estudantes classificados como bitolados que chegam ao topo do ranking no vestibular, mas, sim, aqueles que acumularam conhecimento no curso da vida acadêmica.
O ministro Tarso Genro, recém-empossado na Pasta da Educação, manifestou seu desagrado em relação ao sistema de vestibular e anunciou a intenção de extingui-lo gradativamente nas universidades federais. O argumento é que se trata de um sistema "instituidor de privilégios". Quem sobrevive ao funil são os alunos das classes de renda mais altas. Isso é parcialmente verdade. Os últimos números divulgados sobre o assunto mostram que de três anos para cá cresceu em 40% o número de estudantes vindos de famílias pobres.
Claro que muitos jovens egressos das classes mais pobres não conseguem vencer a etapa do vestibular e outros acabam aprovados apenas em faculdades menos concorridas. Apesar disso, os especialistas consideram que, enquanto a qualidade do ensino médio não melhorar, o sistema brasileiro permanece como uma opção das mais democráticas ¿ bem mais do que a dos Estados Unidos e de países europeus, onde o desempenho dos alunos na escola é decisivo para definir onde se irá estudar. Aplicada no Brasil de hoje, a experiência estrangeira reforçaria a diferença de oportunidades entre os mais pobres e os mais ricos.
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8:33 AM
by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
Coliformes acrobatas
"Marta Suplicy ergueu uma fonte luminosa num lago do Ibirapuera para comemorar o aniversário de São Paulo. O lago é um acúmulo de lodo e esgoto. Nada mais paulistano do que uma fonte que borrifa lodo e esgoto"
Bernini ergueu uma fonte em Roma para glorificar o papa Urbano VIII. Hittorff ergueu uma fonte na Praça da Concórdia para celebrar o poder de Paris. A prefeita Marta Suplicy ergueu uma fonte luminosa e multimídia num lago do Ibirapuera para comemorar o aniversário de São Paulo. O lago do Ibirapuera é um acúmulo de lodo e esgoto. Nada mais exemplarmente paulistano do que uma fonte que borrifa lodo e esgoto. O aspecto multimídia é garantido pelas acrobacias aquáticas dos coliformes fecais.
Entusiasmada com o sucesso da fonte no Ibirapuera, Marta Suplicy viu sua idéia ser estendida para outras áreas da cidade. Na última semana, São Paulo inteira foi transformada numa imensa fonte, com as enchentes provocadas pelo transbordamento do Tiquatira, do Pirajussara, do Tamanduateí, do Aricanduva. Corre esgoto por esses pitorescos rios. Daí a coloração multimídia do alagamento. A gigantesca fonte paulistana apresentou o admirável espetáculo de pessoas ilhadas no teto de veículos submersos, miseráveis que perderam todos os seus bens nas favelas ribeirinhas e congestionamentos com mais de 100 quilômetros de extensão. Bernini e Hittorff jamais poderiam imaginar algo tão grandioso.
Para provar que a gripe aviária não tinha atingido seu país, o primeiro-ministro da Tailândia apareceu na televisão comendo um frango no espeto. Dias depois, duas crianças morreram da doença. Marta Suplicy deveria ter feito o mesmo. Teria sido curioso vê-la imersa na Radial Leste, na tentativa de demonstrar que suas obras contra as enchentes obtiveram o resultado esperado. O problema é que Marta Suplicy não estava em São Paulo na semana passada. Estava em Londres, ensinando os ingleses a combater a Aids. A principal estratégia de combate à Aids da prefeitura de São Paulo é contratar os parentes do coordenador do programa contra a Aids para trabalhar na própria prefeitura. Quer programa melhor?
A distribuição de cargos a parentes e amigos foi a maior conquista dos governantes do PT. Eles prometem abrir 41.000 novas vagas neste ano. O governo federal pretende também acelerar a distribuição de esmolas nas grandes cidades. Ou seja, o contrário do que foi feito até agora. O ex-ministro José Graziano queria dar as esmolas aos nordestinos, para tentar diminuir a violência nas grandes cidades. Depois de um ano, ele foi demitido e Patrus Ananias tomou seu lugar no combate à fome. De acordo com o novo ministro, as esmolas devem ser distribuídas nas metrópoles, porque "é lá que está o desafio da violência". O Brasil nunca teve uma classe dirigente tão obtusa e despreparada. Em duas décadas de oposição, o PT nem ao menos conseguiu descobrir onde estão os famintos e onde estão os bandidos.
A barganha de cargos e esmolas, somada aos gastos escandalosos em propaganda e a uma política desavergonhada de aliança, garantirá a vitória dos petistas nas próximas eleições municipais, inclusive em São Paulo. Sempre foi assim no Brasil. Emprego em troca de voto. Fubá em troca de voto. Fonte multimídia em troca de voto.
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8:17 AM
by Cassiano Leonel Drum
Fresco nas Canelas
Funcionários comemoram decreto que libera bermuda para servidores públicos, motoristas de ônibus e de táxi
Alicia Uchôa
Junto com a estação, um decreto do prefeito Cesar Maia chegou para liberar o uso de bermudas entre funcionários públicos municipais, motoristas de ônibus e táxis do município. Mas a moda, que veste homens e mulheres nas horas de lazer, ainda é tímida quando se fala de local de trabalho. Boa parte das cooperativas de táxis e empresas de ônibus ainda não aderiu ao modelito em seus uniformes. Mas, ao que tudo indica, é só uma questão de tempo e o Caderno D dá dicas de como usar, sem errar
Já utilizada por alguns policiais, carteiros e garis, a peça está cada vez mais incorporada ao nosso dia-a-dia. Arquitetos, publicitários e outros grupos formadores de opinião ajudam a lançar as tendências usando isso. Mas tem que ter liberdade. A bermuda não pode ser obrigatória. Se usada com cuidado, não intimida nem causa repulsa, ensina Napoleão Fonyat, dono da Sandpiper.
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8:11 AM
by Cassiano Leonel Drum
Coragem
SERGIO LEWIN/ Advogado e diretor do Instituto Liberal/RS
O prometido espetáculo do crescimento ainda não aconteceu. Em compensação, o presidente brinda a nação com o espetáculo do destempero verbal. Vem ele agora acusar os antecessores de covardia por não terem realizado as reformas. Ora, somos um povo sem memória, mas não a ponto de já ter esquecido que o maior opositor das reformas foi o partido capitaneado por ele mesmo.
Seu partido bloqueou iniciativas de modernização e, dependesse dele, talvez estivéssemos hoje vivendo em uma economia de comando, nos moldes das que ruíram nos países do Leste Europeu. O Plano Real, as privatizações, a Lei de Responsabilidade Fiscal, nada disso teria avançado se o PT não tivesse sido derrotado nas votações no Congresso Nacional. Ter coragem de mudar, acima de tudo, implica a capacidade de agir em conformidade com as demandas do seu tempo, sem preconceitos e dogmas ideológicos. A postura pouco construtiva do PT durante os governos anteriores se explica justamente pela incapacidade de se desvencilhar das suas velhas bandeiras e atavismos. E o fato, este sim grave - porque indicativo das dificuldades que enfrentará daqui para frente, na gestão das reformas -, é que tal incapacidade se mantém ainda hoje presente no partido e no próprio pensamento do presidente.
As mudanças na filosofia e nos valores do governo ocorreram de forma muito rápida e inconsistente. E o resultado é que ele se encontra sem um norte definido. Nas primeiras oportunidades de levar a efeito reformas importantes, como a previdenciária e a tributária, nem mesmo o incontrastável poder no Congresso e a grande legitimidade eleitoral foram capazes de produzir resultados além de pífios.
Em relação à nossa inserção na Alca, ao estabelecimento de marcos regulatórios para atrair novos investimentos e à questão dos transgênicos, o governo vem titubeando, sem sinalizar claramente sua posição. Nesse contexto, é sintomático que o presidente fale da falta de coragem dos seus antecessores. Assim talvez não precise enfrentar a falta de rumos do seu governo. O PT tem a sorte de não enfrentar na oposição um partido intransigente como o seu, o que torna mais simples as mudanças prometidas. Mas as facilidades conjunturais e todo o apoio do eleitorado não serão suficientes. Para realizar mudanças e andar para a frente, Lula precisa superar as suas ambivalências e as de seu partido. Em suma, para mudar o país, terá de ter a maior de todas as coragens, a de solidificar as mudanças já iniciadas mas ainda não concluídas em si próprio.
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8:07 AM
by Cassiano Leonel Drum
Lya Luft
07/02/2004
Carta a Lou Borghetti
Amadíssima: você na sua generosidade aceitou que uma vez por semana eu fosse ao seu ateliê e você tentasse me ensinar a lidar com qualquer coisa; desenho, aquarela, tinta.
Para desestressar a cabeça, descansar a alma, soltar as asas, trocar o computador por outra ferramenta de vôo, sei lá. Depois de olhar e ler alguns livros belíssimos que você me emprestou, e escutar pouco atentamente suas explicações, arranjei um canto na minha casa onde passo algumas horas ouvindo Callas ou Mozart e fazendo algumas estranhíssimas aquarelas. Tudo errado, é claro, tudo fora de esquadro, e fora de qualquer mínima noção de técnica mais fundamental.
Mas esta esculhambada escritora decidiu que não quer aprender mais nada na vida, ou antes quer desaprender quase tudo. Aliás com literatura foi assim. Quando decidi não aprender nada, e desaprender o pouco que sabia, comecei a escrever. Claro que com pintura não vai ser assim, de modo que jamais pintarei de verdade. Mas estou brincando de fazer umas aquarelas horrendas, cujos títulos, no verso, são lindos. Penso fazer um dia uma exposição: Versos de Aquarelas de Lya Luft - todas viradas pra parede. As pessoas vão passar e ler apenas os títulos: Flores perplexas ao sol; Neurose vegetal; Rosas ou couves; Ascensão azul.
Estou adorando assim. Minha filha acha que sou louca, "Mas, mãe, não vais aprender nenhuma técnica, nada?" Nada. Um dia, quem sabe. De momento estou cansada demais, vazia demais. Porém a vida está andando, passei um lindo fim de semana em Gramado, minhas netas gêmeas ainda me chamam de Fofó porque o "V" está difícil, a capa de meu livro novo sai num tom de vermelho bonito que me alegrou a alma, e penso em algum fim de semana em Torres, que apesar do barulho de que todo mundo se queixa pra mim jamais perderá a magia daquele mar visto do alto do Farol.
Qualquer dia eu ligo e passo a manhã aí, porque sua vitalidade, sua generosidade, e o clima ao seu redor são para mim como aquele "gole de água fresca bebido no escuro" (era assim mesmo, e é do Mario Quintana?). E ouvirei suas explicações, mas possivelmente meio desatenta, porque estarei, como sempre, fixada em algum daqueles seus maravilhosos quadros espalhados pelo seu ateliê, um dos quais, aliás, ilumina aqui a minha sala.
lya.luft@zerohora.com.br
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8:05 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
07/02/2004
Um filho do povo
Às vezes fico pensando que o presidente Lula da Silva não precisa fazer bom governo para se reeleger.
A própria condição de egresso da fome e da miséria (Lula veio de pau-de-arara para São Paulo e foi morador de uma favela em Santos) garante-lhe uma imunidade eleitoral que está acima do seu desempenho na Presidência da República para decidir se será ou não reeleito.
Há uma sensação velada no povo de que, sendo Lula originário do seu seio, isso só lhe dá uma credencial definitiva para ser governante, independentemente de como está se conduzindo no mais alto cargo da República.
Onde vai e tem contato com o povo, os seus ouvintes escutam-no com um silêncio reverencial.
Reparem no que disse Lula quarta-feira em Teresina, capital do Piauí, depois de ter visitado outras duas cidades atingidas pelas inundações no Nordeste, relembrando seus tempos de retirante: "Quando saí de Santos para São Paulo, morei na Vila Carioca, onde qualquer chuva que dava enchia de água. Tomei três enchentes nas costas. Tinha de levantar à meia-noite para tirar a mãe, tirar fogão, tirar colchão, tirar a cama. Estou dizendo tudo isso para mostrar que não sou um estranho na situação".
Qual o político brasileiro que tem autoridade para discursar em público e declarar que já levou "três enchentes pelas costas"?
Qual? Nenhum. Ou então raríssimos. Mas qual o político brasileiro que já levou três enchentes pelas costas e assumiu depois disso a Presidência da República? Nunca aconteceu nem vai acontecer nada igual.
Então os brasileiros não enxergam Lula pelo viés da Presidência. O público que o escuta o vê como uma vítima de todos os governos e não como um governante. As pessoas se identificam com Lula, achando que ele é um integrante do povo, que nada tem a ver com o sistema, ocasionalmente está ocupando um cargo importante, mas sempre será um queixoso, um reivindicante, não passou para o outro lado, continua do lado do povo.
Se os necessitados brasileiros encarassem Lula como presidente, iriam concluir que ele os havia traído, tinha passado para o lado dos dominadores.
E Lula explora bem essa sua condição de ex-favelado, olhem o que ele disse ainda em Teresina: "Estou vindo aqui, primeiro, para dizer que vocês, como outros tantos milhões de brasileiros, são vítimas do descaso que o poder público tem com o povo pobre. Os problemas se acumularam de tal ordem que não tem milagre que a gente possa fazer, que a gente possa dizer que, num toque de mágica, pode resolver. E vocês sabem disso".
É inédito. Um presidente da República vai corajosamente diante do público pobre e flagelado e se confessa impotente para corrigir os erros históricos dos governos passados, dizendo que não é milagreiro.
E ataca os outros governos como se fosse ainda de oposição. Por isso é que concluo que Lula será reeleito, mesmo que não venha circunstancialmente a fazer bom governo.
É que o cerca uma excêntrica prestidigitação psicológica, inversa totalmente à que cercava os presidentes anteriores, que foram responsabilizados por tudo que de bom ou mau ocorria no país.
Com Lula é diferente: por uma estranha magia, ele é responsável só pelo que de bom acontece.
O que ocorre de errado é culpa dos outros governos.
Lula é o primeiro presidente da República que permaneceu na oposição.
E na oposição será fácil reeleger-se.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:02 AM
by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
Planeta de cores e emoções
O sol iluminava Atlântida quando foi aberto o maior festival de música do sul do país (foto Adriana Franciosi/ZH)
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Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
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9:05 PM
by Cassiano Leonel Drum
Os superpais
A exemplo do personagem de Alexandre Borges em Celebridade, é cada vez maior o número de homens que cuidam dos filhos sem ajuda feminina
Chico Silva e Greice Rodrigues
Diálogo: ao se separar da VJ Soninha, Azzari quis ficar com as filhas, Raquel e Sarah: Sinto orgulho deste relacionamento
Eles começam a ser mais notados nas ante-salas dos consultórios médicos, nas reuniões de escola e nos parquinhos. Invadiram até o horário nobre da tevê. Em Celebridade, o ator Alexandre Borges, que na trama vive o jornalista Cristiano, interpreta um papel cada vez mais assumido pelos homens brasileiros: o de pai sozinho. Em 1991, o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que 503.986 deles chefiavam famílias sem o auxílio de esposas ou companheiras.
Em 2000, 762.871 estavam à frente da criação dos filhos e das obrigações da casa. Ainda é uma marca modesta, se comparada ao número de mulheres que assumem a dupla função 5.459.992 , mas acusa um surpreendente acréscimo de mais de 50%. De qualquer forma, os números mostram que cuidar dos filhos não é mais um enigma indecifrável para os homens.
Na literatura, o tema também ganha importância com o relato dos que se arriscaram a encarar o desafio. Eleito o livro do ano pela crítica inglesa em 2001, Pai e filho (Sextante, R$ 26), de Tony Parsons, conta a história de um jovem pai que se vê forçado a criar sozinho o filho de cinco anos e Pai místico, místico pai (Rocco, R$ 26,50), do americano David Spangler, fala sobre a força do diálogo. O jornalista e professor de literatura brasileira Juva Batella resolveu brincar com os assombros, acertos e desacertos de sua história em Confissões de um pai doméstico (Planeta, R$ 27).
Harmonia: Di Filippi com Paula e Bruno: Queria fazer o melhor
São muitos os motivos apontados para essa mudança de comportamento. O aumento de divórcios e separações é o mais visível. Atualmente, um número maior de mulheres parte para outra relação, deixando os filhos no colo do ex-marido. Há também os viúvos e os novos pais, que lutam e até vão à Justiça pelo direito de cuidar da prole. O bancário Roberto Azzari, 43 anos, não precisou recorrer a advogados e tribunais.
No entanto, ao se separar da comentarista esportiva e ex-VJ da MTV Sonia Francine, a Soninha, levou consigo as duas filhas do casal, Raquel e Sarah, à época com seis e quatro anos, e hoje com 19 e 17. Azzari temia que as meninas não recebessem a atenção necessária da mãe, que estava muito envolvida com projetos de teatro. Queria que elas tivessem uma vida regrada, normal. Mas a decisão de elas morarem comigo foi tomada em conjunto, sem brigas, diz.
O início foi complicado. O que ajudou foi o fato de ele sempre ter sido um pai participativo, do tipo que fazia mamadeira e trocava fraldas. Ele não ficou livre, porém, de situações inusitadas. Na reunião da escola, eu era o único homem. Arrumar namorada, então, era difícil. As meninas estavam acima de tudo e, muitas vezes, tinha que desmarcar os encontros porque uma delas estava com febre. Azzari vive harmoniosamente com as garotas e procura conversar com elas sobre temas delicados, como sexo e drogas. No meu tempo era difícil falar sobre esses assuntos. E às vezes ainda é. Mas sinto orgulho desse relacionamento, diz ele.
Levar e buscar na balada, dar bronca quando a nota abaixa e procurar saber por onde e com quem os rebentos andam, entre outras preocupações, talvez nem sejam os maiores obstáculos nesse caminho. A maior barreira ainda pode ser a cultural. Apesar de ter evoluído, o homem não foi preparado para assumir trabalho, cozinha, filhos, escola, roupas. Muitos correm para encontrar uma parceira para ajudá-los, diz Tai Castilho, terapeuta do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo.
Não foi o que fez o empresário Antônio Carlos Di Filippi, 50 anos, que nunca hesitou em interromper uma reunião de trabalho para atender a um telefonema de um dos seus dois filhos, que, depois de sua separação, foram morar com ele. Na época, a filha mais velha, Paula, tinha dez anos e o filho, Bruno, oito. Foi essa relação que permitiu que a nova fase na vida dos três fosse um sucesso. Quando vieram morar comigo, não tive medo, mas senti o peso da responsabilidade. Queria fazer o melhor.
Informação: livros voltados para pais: relatos e histórias
A preservação dos papéis da mãe e do pai é muito importante, mas a mistura deles não é tão desastrosa quanto pode parecer, segundo atesta Lino de Macedo, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Esses papéis são complementares. O desafio é não anular ou reduzir um deles. Na nossa sociedade, geralmente, o pai é quem impõe as regras, normas. Já a mãe é quem cuida e estabelece o canal de diálogo. No entanto, é perfeitamente possível um homem assumir os dois papéis. Ser pai e mãe ao mesmo tempo não é novidade para o motorista paulista Celso Fernandes de Lima, 38 anos.
Em 1994, foi dele a iniciativa de pedir à ex-mulher, com quem viveu por 13 anos, para ficar com as crianças, Daiana e David, ela com sete anos e ele com apenas seis meses. Visitava-os sempre, mas ainda assim sentia muita saudade, lembra Lima. O malabarismo para cuidar deles foi grande. Mas ele deu um jeito. Com a ajuda do pediatra, fiz uma lista das tarefas e colei na geladeira e na cabeceira da cama. Há quatro anos, Lima se casou novamente. Agora, além dos três filhos, legítimos, ainda cria outros três da atual esposa, Thais Amaral de Lima, 27 anos. A revolução sexual iniciada nos anos 60 continua produzindo pequenos milagres.
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8:51 PM
by Cassiano Leonel Drum
Mercados: Indicadores animam investidor e Bovespa ganha 4,15%
20:33 06/02
Valor Online
SÃO PAULO - A sexta-feira terminou com forte recuperação na bolsa paulista. A chance de retomada dos cortes na taxa Selic e, ao mesmo tempo, a perspectiva de estabilidade do juro nos Estados Unidos garantiram o salto de 4,15% do principal índice da bolsa paulista. No câmbio, em mais um pregão sem o Banco Central da ponta compradora, as cotações terminaram praticamente estáveis.
Após a manhã volátil, o mercado repercutiu positivamente dois indicadores econômicos e os ativos passaram a melhorar. O primeiro número, doméstico, apontou incremento de 2,9% na produção industrial brasileira em dezembro ante o mesmo mês de 2002. O desempenho ficou abaixo das apostas que citavam alta próxima de 3,5%. Já nos Estados Unidos, o governo anunciou a criação de 112 mil postos de trabalho em janeiro, mas economistas acreditavam que cerca de 165 mil novas vagas seriam anunciadas.
A análise conjunta dos dois números reanimou o mercado. Para uma boa parte dos analistas, a produção em baixa no Brasil sustenta a aposta de que a queda da taxa Selic deve ser retomada o mais rápido possível. Ao mesmo tempo, os dados de emprego nos EUA sugerem que o juro no país pode permanecer no atual patamar por mais tempo.
"Os números, que foram bons para o investidor brasileiro, sustentaram a recuperação das ações após o tombo dos últimos dias", citou um operador paulista. Para ele, mesmo com os rumores de atrito entre o Banco Central e o restante do governo, um número expressivo de investidores está "observando que os fundamentos não mudaram e não há motivo para nervosismo".
O bom humor da bolsa paulista foi ainda fortalecido com um relatório da Merrill Lynch dirigido aos clientes. No documento, analistas destacam que, após a expressiva queda dos últimos dias, o Brasil volta a se destacar pela atratividade das ações. Um exemplo é a Usiminas. No relatório, o banco de investimento elevou o preço alvo da ação da siderúrgica de R$ 30 para R$ 45. Os papéis, observa o relatório, se mostram uma "grande oportunidade de compra". Hoje, as ações da companhia saltaram 7,59% e fecharam a R$ 29,70.
No câmbio, a firme recuperação dos papéis da dívida brasileira no exterior fortaleceu a moeda brasileira ante a divisa norte-americana. A trajetória foi ainda reforçada com nova ausência do Banco Central na ponta compradora do mercado.
Bovespa fecha na máxima do dia
Dessa maneira, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo saltou 4,15% e terminou o dia aos 21.968 pontos, na máxima da sessão, com giro de R$ 1,331 bilhão. Este é a maior alta desde 5 de janeiro, quando o Ibovespa saltou 4,84%. Já o dólar fechou o dia praticamente estável, com leve valorização de 0,06%, a R$ 2,9320 na compra e a R$ 2,9340 na venda.
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8:33 PM
by Cassiano Leonel Drum
Novo desembargador toma posse no TRF
Advogado João Batista Pinto Silveira assina termo de posse
O advogado João Batista Pinto Silveira tomou posse hoje (6/2) como desembargador do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região. O novo integrante da corte foi nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no início de janeiro, para assumir a vaga aberta com a promoção de Teori Albino Zavascki a ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A cerimônia foi coordenada pelo presidente do TRF, desembargador federal Vladimir Passos de Freitas. O novo membro do tribunal foi conduzido ao Plenário pelo integrante mais antigo em atividade e pelo mais novo, respectivamente os desembargadores federais Fábio Bittencourt da Rosa e Victor Luiz dos Santos Laus.
A vice-presidente do TRF, desembargadora federal Marga Barth Tessler, falou em nome da instituição. Ela afirmou que é com grande satisfação que o tribunal recebe um advogado integrante do setor jurídico da Caixa Econômica Federal (CEF), órgão que reconhecidamente tem a melhor advocacia pública do Brasil, testada no enfrentamento do maior número de demandas em andamento na Justiça Federal. Silveira traz uma rica experiência, destacou a magistrada. O novo desembargador praticou na chefia do jurídico regional da CEF uma gestão participativa, mantendo um ambiente pacífico e de amigável convivência, lembrou Marga.
Para a desembargadora, que trabalhou com Silveira quando era juíza da 9ª Vara Federal de Porto Alegre (responsável pelo julgamento de ações do Sistema Financeiro de Habitação), nada falta a ele para chegar à magistratura. Marga destacou o bom humor e a serenidade de Silveira diante dos problemas. Posiciona-se com segurança, mas sem alterar o seu estado de ânimo, absorve as derrotas e sempre renova bons argumentos na defesa de suas idéias, é corajoso e persistente sem deixar de ser discreto, ressaltou.
Julgar bem e julgar rápido
Em seu discurso de posse, Silveira afirmou que o momento era de forte emoção e que passa a integrar o TRF com o firme propósito de trazer sua experiência de vida e de advogado para servir à sociedade. O novo desembargador disse querer contribuir para a celeridade da prestação jurisdicional, que é um dos maiores anseios da população no que tange ao Judiciário. Com uma trajetória profissional vinculada até então à advocacia pública, Silveira lembrou que o justo requer muito mais do seu aplicador do que o puro e simples conhecimento técnico, científico, frio e dissociado do contexto em que se insere.
Para Silveira, talvez nunca como nestes tempos atuais o Judiciário no Brasil esteja sendo tão rápido e buscando com tanta ênfase, força e determinação a agilização da prestação de seus serviços. No entanto, lembrou, o descomunal volume de processos torna o trabalho quase invencível, fazendo com que a sociedade moderna, cada vez mais, exija do juiz uma dupla função: julgar bem, com imparcialidade e isenção, mas julgar rápido.
O desafio, afirmou o novo desembargador, é tornar a Justiça brasileira mais ágil. Sempre estive e continuarei engajado nessa luta, que é de todos nós. Agora, com a responsabilidade de ser um juiz oriundo da advocacia, cuja nomeação foi precedida de um processo democrático e legítimo, onde tive a honra de disputar com nobres, competentes e honrados colegas, declarou.
A honra de passar a pertencer ao TRF, ressaltou Silveira, talvez só não seja maior do que a de suceder, na vaga destinada aos advogados, ao ministro Teori Zavascki, homem que aprendi a admirar, tanto como magistrado quanto como pessoa, exemplar modelo a ser seguido e homenageado.
Árvore-da-felicidade
Os advogados da CEF prestaram uma homenagem aos desembargadores do TRF, entregando a cada um deles uma muda de árvore-da-felicidade. O presidente do tribunal revelou que aquelas mudas foram retiradas de uma árvore que Silveira cultiva em sua casa. Como se vê, o doutor João Batista Silveira já é um ambientalista convicto, brincou Freitas, que é especialista em direito ambiental. Ele destacou que o modo como o empossando foi ovacionado demonstra o seu prestígio. Isso nos enche de júbilo e mostra como é querido o novo colega, precisamos de juízes compreensivos, que sejam pessoas boas e, acima de tudo, cheias de vontade de trabalhar, concluiu Freitas.
Participaram do evento o ministro Zavascki, a procuradora-geral do Estado do Rio Grande do Sul, Maria Helena Coelho, os presidentes do Tribunal de Justiça e do Tribunal Regional Eleitoral do RS, respectivamente os desembargadores Osvaldo Stefanello e Alfredo Guilherme Englert, e o procurador-geral do INSS, João Ernesto Aragonés Vianna, entre outras autoridades. Desembargadores federais aposentados do TRF e juízes federais dos três estados do Sul também estiveram presentes.
Natural de Jaguarão (RS), o novo desembargador formou-se em 1979 pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. Em 1975, foi aprovado em concurso público da CEF. Em 1986, ingressou na carreira de advogado da mesma instituição. Desde 1991, o novo desembargador vinha atuando como gerente do Órgão Jurídico Regional da CEF no RS. Gaúcho de 48 anos, foi um dos escolhidos pelo Pleno do TRF, em outubro do ano passado, para compor a lista tríplice enviada ao presidente da República para escolha do novo integrante do seu quadro de magistrados.
Pelo chamado quinto constitucional, a vaga é destinada a um membro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da qual Zavascki também era proveniente. Por isso, a eleição no Pleno do tribunal ocorreu entre os que integravam uma lista de seis nomes indicados pela Ordem.
Novo integrante da corte é cumprimentado pelo presidente Vladimir Freitas
Meus parabéns ao pessoal de informática do TRF4, pois sai dessa posse às 19:30 hs e já está ai na página deles o que aconteceu lá. Não adianta ter as ferramentas adequadas, é preciso saber utlizá-las e o TRF4 está dando exemplo de que as utiliza sabiamente. E parabéns mais uma vez ao novo Desembargador.
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6:54 AM
by Cassiano Leonel Drum
É com esse que eu vou
Votação do Tamborim de Ouro começa hoje e blocos, que concorrem pela primeira vez, animam a cidade
Rubia Mazzini
Zé do Tamborim está de olho nos ensaios e desfiles dos blocos e bandas da cidade
Vai começar a eleição mais animada do ano. A partir de hoje, os leitores-foliões do DIA podem escolher o melhor bloco do carnaval de rua do Rio votando através de cupons que serão publicados diariamente no jornal ou formulário abaixo. O mais votado ganhará o Troféu Tamborim de Ouro do DIA, o primeiro a criar uma premiação específica para blocos.
Para votar com consciência, a dica é aproveitar ao máximo o roteiro dos ensaios, bailes e desfiles que já tomam conta da cidade. Não importa o número de pessoas. Valem a animação, a ginga, o resgate do espírito do verdadeiro carnaval de rua, avisa Zé do Tamborim, personagem encarnado pelo repórter Alexandre Neiva, que, até o fim da festa de Momo, se desdobra para informar aos leitores do DIA tudo sobre os blocos da cidade.
Vamos ganhar o troféu, aposta Jorge Sápia, presidente do Meu Bem, Volto Já, enumerando as qualidades do bloco do Leme. Nossos desfiles sempre são superdivertidos, familiares, nosso samba é da melhor qualidade.
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6:46 AM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
06/02/2004
O vendedor
Era um homem já de uns 60 anos, talvez mais. Negro tisnado, forte, os braços musculosos carregando duas caixas de isopor. Vendia água mineral na Praia Brava. Meu amigo Degô o chamou, uma mineral, por favor, quanto é? Um real. Degô levou a mão ao bolsinho da bermuda e, ué?, cadê o dinheiro? Procura, procura. Nada. Eu já estava catando minha trouxinha de notas do estojo do rayban, quando o vendedor apontou para uma coxilha de areia fervente:
- Seu dinheiro não é aquele que está rolando ali?
O Degô olhou. Era.
Fiquei encantado: o homem bem podia ter silenciado a fim de colher o dinheiro para ele mesmo, depois de fazer a venda. O Degô também se impressionou. Tomou sua garrafinha d´água e disse ao vendedor:
- Vou lhe dar dois reais, porque o senhor me avisou do dinheiro.
O vendedor:
- Não, obrigado.
O Degô, surpreso:
- Mas o senhor merece, por sua honestidade.
- Não, obrigado. Se o senhor quiser, leve duas águas.
O Degô topou. Pagou dois reais. Deu-me uma garrafinha d´água. Ficamos observando o vendedor se afastar, encurvado pelo peso das caixas de isopor. Ali estava a essência da ética: em nome de um valor impalpável, a sua própria honra, ele recusou uma vantagem que lhe era oferecida sem contrapartida, algo de que ele provavelmente precisava. Ali estava um homem com estofo moral. Algo que não nasceu com ele, isso é certo - foi-lhe ensinado.
Os pais desse velho senhor, se vivos estiverem, devem ser pessoas realizadas. Porque não legaram, ao filho, uma sólida poupança, uma casa onde morar, nem mesmo uma profissão. Mas lhe deram dignidade. Pois aí está tudo que importa: não é preciso contracheque para se ter, ou se dar, dignidade.
Na Brava, os homens revelam a totalidade de suas almas, as mulheres revelam a totalidade de seus corpos. Foi bem isso que me disseram algumas mulheres, entre um e outro torpedinho de siri do Pirata: uma mulher de biquíni mostra muito mais do que uma mulher nua. Parece espantoso; não é. Sucede que, quando nua, geralmente a mulher está protegida pela penumbra e, o mais importante, perto demais para que se lhe repare o que há em excesso ou em falta. Fascinante as artimanhas da mulher, não?
Note como é fundamental o distanciamento crítico para se fazer qualquer avaliação. Distanciamento crítico. Só assim para julgar os governos, os times de futebol, as mulheres.
A Brava. Fica-se mais sábio, por lá. E ainda se ganha água mineral de graça.
david.coimbra@zerohora.com.br
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6:44 AM
by Cassiano Leonel Drum
As razões dos Racionais
6h - Os Racionais MCs deixam o palco. Foi um bom show. Um por amor, dois pelo dinheiro, vida louca capão de fé sou guerreiro.
6h40 - Entro no camarim dos caras. Preparo câmera para entrevista. Atenção! Ed Rock pergunta em que emissora trabalho. Digo RBS TV e ele diz: "É Globo, mano? Não gravo". Argumento que já vi entrevistas deles na MTV e no cabo. Pergunto: quem tem cabo? Onde pega a MTV? Só bacana é quem tem cabo. Se eles querem falar para o povo, o povão mesmo, tem que ser a TV aberta. Falo da minha história no Estado sempre apoiando não só o hip hop, mas todas as manifestações artísticas e culturais. Falo que tem quase 1 milhão de pessoas que assistem ao Patrola e que gostariam de ouvir o que eles têm para dizer. Não rola. Eles dizem que não é por mim, é pelo sistema. Penso: como mudar o sistema de dentro ou de fora dele? Se todos sabem as letras, se a música toca em quase todas as rádios, estão fora do sistema? Mas admiro e aceito a postura deles.
6h55 - Mano Brown falou sobre a guerra do Paraguai no show. Já li sobre isso. Genocídio. Podia ser um bom papo, não deu. Eles não falam. Mas sou guerreiro. Tento de novo. Peço para bater uma foto e vou embora.
7h - Estou exausto. Caminho sobre as poças, choveu, e meu câmera André não agüenta mais. Estamos deixando o Planeta Atlântida de Floripa. Ando chateado, cuido para não molhar os tênis, vem outra bomba d'água e só me resta sorrir.
gabriel@rbstv.com.br
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6:41 AM
by Cassiano Leonel Drum
Mauren Motta
06/02/2004
Fashion Week ou Fashion Freak?
De seis em seis meses, minha vida vira uma corrida só: temporada de desfiles. É uma delícia e uma trabalheira. São Paulo, Rio, Sampa de novo... Tempo de trabalho, informação, amigos semestrais, festas interessantes. Muitas pautas pra fazer e histórias pra contar.
Mas o povinho fashion... Tem gente temática, que se leva a sério demais e mergulha na passarela de cabeça. Alguns ficam inventando produções esdrúxulas pra chamar a atenção da mídia nos eventos de moda. Aí, fica aquele bando de gente ridícula pelos corredores, até parece uma festa á fantasia. Não sou contra a produção, veja bem. Sou a favor da essência das coisas, das atitudes fundamentadas. Então, alto lá com o delírio hype!
Fico feliz quando conheço pessoas criativas de verdade, que realmente estão pensando além. Estão surgindo grupos legais, como o As Four, de Nova York, a Cooperativa da Combi paulista e O Estúdio carioca. Criação coletiva é a onda do momento. Jovens talentosos, que trabalham interferindo na criação de cada integrante do grupo. Não é só roupa: é conceito, arte e opinião.
O As Four, que conheci em setembro passado na trienal de design em Nova York, são dois homens e duas mulheres de diferentes países, que moram juntos, dormem juntos e outras coisinhas mais. O trabalho deles é colorido, classudo e tem forte influência do carnaval brasileiro. Pode? Nem preciso dizer que eu AMEI.
Agora em janeiro, encontrei o grupo no café da manhã do Hotel Glória, no Rio. Figuraças - roupas costumizadas, cabelos esquisitos, tudo isso às 9h30min da manhã e sem nenhum fotógrafo por perto. O que eles estavam fazendo aqui? Vieram pra abertura de uma exposição chamada Carnaval, que rola lá no CCBB carioca.
Tá vendo? Se a gente olha pra eles, acha meio over. Mas conhecendo a história, percebe-se que tudo na produção do As Four tem coerência.
Beijolas no coração... fui!
mauren@rbstv.com.br
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6:39 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
06/02/2004
Os órfãos de assistência
Volta e meia aparecem na imprensa policiais civis ou militares que foram feridos em trabalho, principalmente na luta contra delinqüentes, reclamando da assistência médica ou de falta de medicamentos.
Somam-se às centenas os policiais que restaram mutilados, aleijados, foram aposentados, depois de serem baleados, esfaqueados ou atropelados em serviço.
Deveriam ter do Estado a melhor assistência, afinal foram inutilizados no cumprimento do dever legal e a serviço da sociedade.
Mas, como se sabe, o Estado luta com dificuldades e infelizmente essa falta de recursos acaba atingindo esses mártires da segurança pública.
Dia 28 de janeiro passado, dois assaltantes invadiram um ônibus entre a Tristeza e a Cavalhada e passaram ao assalto de seus passageiros.
O PM Paulo Rogério Contreira Madeira, do 9º BPM, se encontrava no ônibus e reagiu ao assalto, em defesa dos passageiros.
Na luta contra os assaltantes, o PM caiu pela porta agarrado a um dos bandidos, que já havia baleado o policial em uma das pernas.
Na confusão, com o motorista tentando segurar o veículo, foi invadida uma calçada da Avenida Wenceslau Escobar e terminou o ônibus passando por cima do corpo do PM, amassando-lhe as duas pernas e o abdômen.
Em suma, um PM corajosamente evitou um assalto e acabou com o corpo amassado pelo ônibus.
O PM encontra-se até hoje em estado grave no Pronto Socorro, correndo o risco de amputação das pernas e com sério comprometimento nos rins.
Em breve, se Deus ajudar, o PM Rogério sairá do Pronto Socorro, mas terá de ter acompanhamento médico especializado para a restauração de sua saúde e funcionalidade corporal.
Aí é que está a coisa. A família do PM teme que o Hospital da Brigada Militar não seja suficientemente aparelhado para a sofisticada tarefa de recuperar o esmigalhamento do corpo do nosso herói. Certamente não o é.
Então a família do PM procurou a empresa Trevo para desde já buscar auxílio no tratamento do paciente.
Na empresa, um funcionário disse aos familiares do PM que infelizmente nada se poderia fazer porque o seguro que a empresa tem junto à entidade de classe dos transportadores não poderia cobrir o evento, que aconteceu fora do ônibus. Ou seja, o seguro só cobre fatos ocorridos dentro do ônibus.
É muita coisa, o PM estava dentro do ônibus quando ocorreu o assalto, saiu em defesa dos passageiros, foi arremessado em luta com um assaltante para fora do ônibus, acabou atropelado pelo próprio ônibus e esse sinistro não é coberto pela seguradora? Mas o que é isso? O evento é visceralmente ligado ao ônibus!
Mostrem esta coluna na seguradora e duvido que ela não cubra esse acontecimento.
Outra coisa: as empresas de transporte de passageiros de Porto Alegre têm tradição de prestar ajuda às vítimas de acidentes com danos pessoais ou materiais a seus passageiros e a terceiros envolvidos.
Ainda esses dias fui testemunha de pronto e solícito atendimento da empresa Estoril.
Então estou fazendo um apelo à empresa Trevo para que se perfile junto à família do PM vitimado e seja prestado a ele todo o atendimento médico que será necessário.
Tenho certeza de que é isso que acontecerá.
Quanto à necessidade do PM e de sua família, infelizmente a coisa funciona assim: a família do PM procurou o major Calixto, comandante do batalhão, que, comovido, apelou para este colunista, que, comovido, está apelando para a empresa Trevo.
E eu tenho certeza de que esse apelo será atendido. A sociedade tem o dever de ajudar os policiais que tombam em sua defesa. E vai ajudar.
Muito obrigado.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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6:19 AM
by Cassiano Leonel Drum
Festa no Litoral
À espera dos planetários
Nona edição do Planeta Atlântida deverá reunir 80 mil pessoas em torno de mais de 50 atrações, hoje e amanhã, na sede da Saba (foto Tadeu Vilani/ZH)
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Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
Posted
8:23 PM
by Cassiano Leonel Drum
MEMÓRIA-Morre, em Campinas, a escritora e poeta Hilda Hilst
Adeus à obscena senhora H.
Autora estava internada desde o dia 2 de janeiro, depois de uma queda
Hilda Hilst iniciou "fase ponográfica" para tornar-se mais conhecida e vender livros. (AE)
Morreu aos 74 anos, na madrugada de ontem, a escritora Hilda Hilst. Ela havia sofrido uma queda, quebrou uma das pernas e estava internada no Hospital Universitário da Unicamp, em Campinas (estado de São Paulo) desde o dia 2 de janeiro. Houve complicações no estado clínico e Hilda não resistiu a uma infecção.
Hilda foi a autora de 41 livros. A maior parte das obras da escritora que nasceu em Jaú, no interior de São Paulo, mas morava há 40 anos em Campinas é formada por poesias, mas ela também assinou um número considerável de textos teatrais, romances e contos. Na década de 90, havia se despedido da literatura séria e abraçado uma escritura pornográfica, de início repudiada pelos críticos e editores.
Biografia
Hilda Hilst nasceu na cidade de Jaú, interior do Estado de São Paulo, no dia 21 de abril de 1930, filha única do fazendeiro, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst e de Bedecilda Vaz Cardoso. Com pouco tempo de vida, seus pais se separaram, o que motivou sua mudança, com a mãe, para a cidade de Santos, no litoral paulista. Seu pai, que sofria de esquizofrenia, foi internado num sanatório em Campinas (SP), tendo, nessa época, 35 anos de idade. Até sua morte, passou longos períodos em sanatórios para doentes mentais.
Hilda foi para o colégio interno, Santa Marcelina, na cidade de São Paulo, em 1937, onde estudou por oito anos. No ano de 1945, matricula-se no curso clássico da Escola Mackenzie, também naquela cidade. Morava, nessa época, num apartamento na Alameda Santos, com uma governanta de nome Marta.
Em 1946, pela primeira vez, visitou o pai na sua fazenda em sua cidade natal, Jaú. Em apenas três dias, no pouco tempo que passou com ele, perturbou-se com sua loucura. Em Carta ao Pai diz a biografada:
"Só três noites de amor, só três noites de amor", implorava o pai, sim, o pai, ele nunca fizera uma coisa como essa, sim, era Jaú, interior de São Paulo, um dia qualquer de 1946, sim, a filha deslumbrante, tremendo em seus 16 anos, sim, o pai a confundia com a mãe, a mão dele fechada sobre a dela, sim, o pai a confundia com a mãe, a confundia, sim?..."
Aconselhada pela mãe, em 1948 inicia seus estudos de Direito na Faculdade do Largo do São Francisco. A partir de então, levaria uma vida boêmia que se prolongou até 1963.Moça de rara beleza, Hilda comportava-se de maneira muito avançada, escandalizando a alta sociedade paulista. Despertou paixões em empresários, poetas (inclusive Vinicius de Moraes) e artistas em geral.
Em 1949 é escolhida para saudar, entre os alunos de Direito, a escritora Lygia Fagundes Telles, por ocasião do lançamento de seu livro de contos O Cacto Vermelho.
Hilda lança, nos dois anos seguintes, seus primeiros livros: Presságio (1950) e Balada de Alzira (1951).
Conclui o curso de Direito em 1952. Três anos depois, publica Balada do Festival.
No ano de 1957, viaja pela Europa por sete meses (junho a dezembro). Namora com o ator americano Dean Martin e, fazendo-se passar por jornalista, assedia, sem sucesso, Marlon Brando, outro galã de Hollywood.
Em 1959, publica o livro de poesia Roteiro do Silêncio e Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor. José Antônio de Almeida Prado, primo da escritora, inspira-se em poemas desse último livro e compõe a "Canção para Soprano e Piano". Em outras oportunidades, voltou a basear-se em textos de Hilda para compor alguns de seus trabalhos mais significativos. Os compositores Adoniran Barbosa ("Quando Te Achei") e Gilberto Mendes ("Trovas"), entre outros, também se inspiraram em textos da autora.
Ode Fragmentária é lançado em 1961. Seu livro Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor é reeditado por Massao Ohno.
É agraciada com o Prêmio Pen Club de São Paulo pelo livro Sete Cantos do Poeta para o Anjo, em 1962. Passa a morar na Fazenda São José, a 11 quilômetros de Campinas (SP), de propriedade de sua mãe. Abre mão da intensa vida de convívio social para se dedicar exclusivamente à literatura. Tal mudança foi influenciada pela leitura de Carta a El Greco, do escritor grego Nikos Kazantzakis. Entre outras teses, defende o escritor a necessidade do isolamento do mundo para tornar possível o conhecimento do ser humano.
Muda-se para a Casa do Sol, construída na fazenda, onde passa a viver com o escultor Dante Casarini, em 1966. Morre seu pai.
Em 1967, redige A Possessa e O Rato no Muro, iniciando uma série de oito peças teatrais que escreveria até 1969. Lança Poesia (1959 1967).
Por imposição da mãe, internada no mesmo sanatório em Campinas onde estivera seu pai, casa-se com Dante Casarini, em 1968. Escreve as peças O Visitante, Auto da Barca de Camiri, O Novo Sistema e As Aves da Noite. O Visitante e O Rato no Muro são encenadas no Teatro Anchieta, em São Paulo, para exame dos alunos da Escola de Arte Dramática, sob direção de Terezinha Aguiar.
Em 1969, escreve O Verdugo e A Morte do Patriarca. A primeira recebe o Prêmio Anchieta. A montagem de O Rato no Muro, sob a direção de Terezinha Aguiar, é apresentada no Festival de Teatro de Manizales, na Colômbia. Em 2003, o texto seria levado aos palcos de Curitiba, pelo diretor Maurício Vogue.
Fluxo-poema, sua primeira obra em prosa, é lançada em 1970. A peça O Novo Sistema é encenada em São Paulo, no Teatro Veredas, pelos Grupo Experimental Mauá (Gema), sob a direção de Terezinha Aguiar. Baseando-se nos experimentos do pesquisador sueco Friedrich Juergenson relatados no livro Telefone para o Além, Hilda Hilst iria se dedicar, ao longo desta década que se iniciava, à gravação, através de ondas radiofônicas, de vozes que, assegurava, seriam de pessoas mortas. No mesmo período anunciou a visita de discos voadores à sua fazenda. O Verdugo é editado em livro, e é, até hoje, a única que não é inédita. Morre sua mãe, Bedecilda.
Em 1972, o Grupo de Teatro Núcleo, da Universidade Estadual de Londrina, sob a direção de Nitis Jacon (atual diretora do Teatro Guaíra), encena a peça O Verdugo. O mesmo texto é montado no Teatro Oficina, em São Paulo, sob a direção de Rofran Fernandes, no ano seguinte, época em que foi lançado seu novo livro, Qadós.
Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão é lançado em 1974.
No ano de 1977, é publicado o livro Ficções, que recebe o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), como Melhor Livro do Ano.
Três anos depois, saem os livros Poesia (1959 1979), Da Morte, Odes Mínimas e Tu Não Te Moves de Ti. Recebe da APCA o prêmio pelo conjunto da obra. Estréia a montagem de As Aves da Noite, no Teatro Ruth Escobar, com direção de Antônio do Valle. Divorcia-se de Dante Casarini, mas o ex-marido continua morando na Casa do Sol.
Hilda Hilst passa a fazer parte do Programa do Artista Residente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1982. Lança A Obscena Senhora D. No ano seguinte, publica Cantares de Perda e Predileção, que recebe os prêmios Jabuti (da Câmara Brasileira do Livro) e Cassiano Ricardo (do Clube de Poesia de São Paulo).
Em 1984, saem os Poemas Malditos, Gozosos e Devotos. Dois anos depois, em 1986, publica os livros Sobre a Tua Grande Face e Com Meus Olhos de Cão e Outras Novelas. 1989 marca o lançamento de Amavisse.
Fase pornográfica
Com O Caderno Rosa de Lori Lamby, livro que consagra sua fase pornográfica (iniciada em A Obscena Senhora D), a escritora anuncia o "adeus à literatura séria" (1990). Justifica essa medida radical como uma tentativa de vender mais e assim conquistar o reconhecimento do público. A obra provoca "espanto e indignação" em seus amigos e na crítica. O editor Caio Graco Prado se recusa a publicá-la e o artista plástico Wesley Duke Lee a considera "um lixo". Lança Contos descárnio & Textos Grotescos e Alcoólicos.
O quarto livro de sua fase pornográfica, Cartas de um Sedutor, é lançado em 1991. O livro O Caderno Rosa de Lori Lamby é traduzido para o italiano. Estréia, em São Paulo, a peça Maria Matamoros, adaptação do texto Matamoros, que se encontra no livro Tu Não Te Moves de Ti.
Em 1992, lança a antologia poética Do Desejo e Bufólicas, livro de poesias pornográficas. Passa a colaborar com o Correio Popular, jornal diário de Campinas (SP), escrevendo crônicas semanais; o trabalho se estenderia até 1995.
No ano seguinte publica Rútilo Nada, num livro que também continha A Obscena Senhora D e Qadós. Rútilo Nada recebe o Prêmio Jabuti na categoria contos.
Em 1994, Contos descárnio & Textos Grotescos é traduzido para o francês.
No ano seguinte, sai o volume Cantares do Sem Nome e de Partidas. O Centro de Documentação Alexandre Eulálio, da Unicamp, adquire seu arquivo pessoal. A escritora sofre isquemia cerebral.
Em 1997, lança Estar Sendo. Ter Sido. Seus poemas são lidos em Quebec, Canadá, juntamente com textos de Safo, Gabriela Mistral e Marguerite Yourcenar, entre outras autoras, no recital Le Féminin du Feu, durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher.
A edição bilíngüe (português francês) do livro Da Morte. Odes Mínimas é publicada em 1998. Publica também Cascos & Carícias: Crônicas Reunidas (1992 1995), volume de textos que saíram no jornal Correio Popular. Volta a se dedicar a questões sobrenaturais: afirma acreditar no contato dos mortos com a Terra através de mensagens enviadas via fax. Reafirma o desej |