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Sábado, Março 27, 2004
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7:30 PM
by Cassiano Leonel Drum
Um novo homem
Caio Blat conta que é vaidoso e que até aprendeu a avaliar maquiagem com o Abelardo de Da Cor do PecadoZean Bravo
Caio Blat vem observando as mulheres na TV e nas páginas das revistas com outro olhar, desde que começou a viver o maquiador Abelardo em Da Cor do Pecado. Hoje, reparo quem erra no tom da sombra ou não sabe combiná-la com o gloss. Boa maquiagem valoriza a expressão, ensina o ator. Ele conta até que treinou em casa algumas das excêntricas invenções do personagem. Abelardo não suporta maquiagem corretiva, gosta da decorativa. Só que no meio daquela família bagunçada, é ele quem usa cabelo penteado. Ele quer ser moderno, mas está sempre com um pezinho na breguice dos Sardinha, diverte-se Caio.
Ao contrário do personagem, o interesse por blush e brilhos labiais não faz de Caio um metrossexual expressão da moda, usada pelo ator para definir Abelardo, que junta as palavras metropolitano e heterossexual. Metrossexual é o homem hetero que tem comportamento de homossexual. Abelardo é homem, do jeito dele, e não se dá ao luxo de sair se explicando¿, diz o ator, que gostaria de manter a desconfiança dos Sardinha sobre a sexualidade do maquiador. Ele só deve arrumar namorada no fim da novela. Os irmãos já encontraram bilhetinhos e camisinhas nas coisas dele. Esse preconceito é ultrapassado.
Hoje, os tempos são outros. Até machos mais ortodoxos estão assumindo certos cuidados com a estampa. Para gravar, Caio faz escova e usa maquiagem. Fora da TV, ele lida de maneira tranqüila com a vaidade. Se é para fazer estilo bagunçado com o cabelo, é para ficar milimetricamente desfeito. Só não chego a fazer unha, limita Caio, que pensa o que vai vestir. Gosto de ter meu estilo, usar roupa combinando, com bom caimento, e uma sandália legal, completa o ator.
Com seu jeitão sossegado, Caio desfaz rótulos. Deve ser horrível o ator ficar marcado por um tipo, não fugir dele mesmo. Consegui ser versátil. Fui mocinho romântico, sedutor, vilão e o esquisito da casa, lista. Se Abelardo fosse gay, seria simples. Ele tem afetação, pose e tenho que ficar atento a cada cena.
Na novela, Abelardo sofre com preconceito
Movido a trabalho, Caio discorre com o mesmo entusiasmo sobre o personagem da TV, seu grupo teatral em São Paulo e os planos de encenar Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski. Não sou ator cabeça nem galã. Caí para o lado dramático, denso e agora descobri que faço comédia.
Caio se diz impulsivo e apaixonado Minha mãe fica de cabelo em pé, diz que sempre quero dar o passo maior que a perna e preza a liberdade. Tenho dois lados. O independente, que gosta de ensaiar a peça a noite toda. O outro sabe que tem a mulher que ama em casa cuidando do neném, conta, referindo-se à mulher, Ana Ariel, e ao filho adotivo, Antônio, de um ano, que moram num sítio em Campinas. Não sou de saudade. Quando estou fora, não fico remoendo. Mas lá é meu porto seguro, tem cheiro de cafezinho de casa. Eu me alimento muito dessa vida dupla.
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7:22 PM
by Cassiano Leonel Drum
Papo de mulher
Hip hop ganha versão mais bonita e não menos engajada com a adesão cada vez maior de moças
Clarissa Monteagudo
As irmãs Cláudia (E) e Denise (à frente), Fernanda (esquerda), Malizi e Quênia: Anastácias só reclamam da azaração no Rio
Aos 20 anos, Patrícia La Scalea Santos Vieira não se arrepende de ter trocado a faculdade de Direito pelas carrapetas e sua maior paixão: o hip hop. Residente da boate Nova, membro da equipe que acompanha os percussionistas do AfroRio e, a partir do dia 13, anfitriã de evento de uma festa de hip hop às terças-feiras no Ballroom, a DJ tornou seu nome artístico uma provocação: Typá, o contrário do apelido habitual, Paty. Eu sou mesmo o oposto das patricinhas. Ganho hoje mais do que se estivesse formada. E me sustento, deixa claro.
Typá é exemplo do quanto as mulheres têm deixado sua marca no antes machista ambiente do hip hop. Elas devolvem com firmeza e sem desmanchar o penteado as provocações masculinas das letras de rap.
Atração do último Prêmio Hutús por conta do rap Mulheres Heroínas, as meninas do grupo gaúcho Anastácias mudaram radicalmente quando conheceram as rodas de break de Porto Alegre. Escravas de alisantes, elas agora ostentam belas cabeleiras modeladas por permanente afro ou trancinhas rastafári.Mas tentam não cair nos lugares-comuns. Rapper não tem que chorar o tempo todo. Muita gente do hip hop também julga por aparência, diz Malizi altura, corpão e cabelos que lhe dão estampa de modelo. Se você se produz, é a Pati do rap, debocha.
As garotas do hip hop, como as cariocas do Negaativa e N.R.C., não poupam sola de sapato. A agenda de shows inclui comunidades de toda a cidade. A gente procura passar mensagens políticas, de igualdade racial, conta Negra Rô, do N.R.C.. Apesar do discurso sério, elas recebem mesmo muita cantada. Canto até um rap sobre o assédio Esse Caô Ninguém Merece, da minha parceira de grupo Marcia 2Pac. Um cara já me chamou para o cantinho para conversar sobre a carreira dele no rap.
Outro me pediu que levasse um CD demo na casa dele. Ninguém merece, conta Negra Rô. A dançarina do Grupo de Break Consciente da Rocinha, Val, chama atenção nas rodas de break pela excelente forma. Mas a moça não quer ser apontada por isso: Não é justo aplaudir porque é mulher. Eu encaro qualquer homem na pista. Duvida?
Val: aulas para crianças carentes na Fundição Progresso e viagem à França
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7:17 PM
by Cassiano Leonel Drum
A Crise dos Pais Imperfeitos
"Talvez seja a hora de propormos a volta da família real e a criação do parlamentarismo, para o bem de todos"
Todo adolescente passa por uma crise muito pouco diagnosticada. Vou chamá-la de "Crise dos Pais Imperfeitos", que surge quando o adolescente descobre que o pai e a mãe não são as pessoas perfeitas que eles imaginavam.
Embora muitos pais nunca tenham insinuado nada nesse sentido, os próprios filhos os idealizam como perfeitos. Como a maioria não o é, mais dia menos dia ocorre a grande decepção.
Muitos pais pioram a situação dando a entender que nunca erram, que sabem tudo e que são, em suma, o máximo. Até o dia em que o mundo desaba, e a verdade nua e crua aparece: ninguém é perfeito.
A maioria dos jovens sonha em ter pais perfeitos para sempre, um governo perfeito a cada eleição, em criar um mundo perfeito sem injustiças, onde até os grandes planos de governo funcionam porque serão sempre perfeitos.
Essa crise traz também uma enorme insegurança pessoal. A redoma de vidro do pai herói e da mãe heroína se desfaz. Uma crise dessas mal resolvida pode se agravar e se transformar em desilusão, desânimo, o que pode levar à exclusão social e à perda de ambição. Pode também levar à depressão, às drogas e, finalmente, ao crime, já que o mundo não é mais perfeito. Pode gerar desobediência à autoridade paterna, contestação e revolta contra os pais e as instituições que eles representam. Um perigo para a democracia.
É uma revolta injusta contra os pais, já que ninguém é perfeito, e que se manifesta como uma recusa de fazer parte da sociedade de forma construtiva e incentiva a inserção social de forma destrutiva e violenta. Jovens se recusam a participar desta sociedade de várias maneiras, que prefiro não enumerar. Um dos sintomas é exagerar no intento de "ser diferente", quando o normal é se inserir na sociedade sendo inovador e criativo.
Por isso uma separação na família é tão devastadora para a maioria das crianças, não por causa da separação em si, mas porque antecipa em muitos anos a "Crise dos Pais Imperfeitos". Quando ouvem o anúncio da separação, os filhos acabam tendo de lidar com duas crises ao mesmo tempo, e muitas crianças ainda são novas demais para aceitar a crise da imperfeição. Elas ainda precisam daquela imagem dos pais unidos na perfeição.
Muitos brasileiros, se não a maioria, na fase adulta, projetam esse desejo de perfeição no mandatário de seu país. Muitas vezes projetamos nos nossos governantes uma imagem do pai perfeito. Isso ocorreu em relação a Getúlio Vargas.
Novamente exigimos uma perfeição que não é justo exigir. A crise política pela qual estamos passando tem alguns contornos dessa "Crise do Pai Imperfeito". Exigimos uma perfeição do governo que Lula nunca prometeu, e ficamos profundamente decepcionados e desiludidos com o primeiro deslize que aparece.
Por isso, alguns países sabiamente mantiveram as suas monarquias. O monarca encarna aquela figura do pai perfeito, e, como ele não faz absolutamente nada, não pode causar a menor decepção. É uma figura preservada, todo mundo se sente seguro e feliz, e o país cresce. Segundo a revista Economist, monarquias pagam muito menos juros e são economias bem mais estáveis que outros regimes. O Brasil está parado economicamente desde 1998, devido às sucessivas crises políticas envolvendo importantes membros do governo.
Não estou defendendo a monarquia para o Brasil, mas, se essas crises políticas continuarem a paralisar a economia, talvez seja a hora de propormos a volta da família real e a criação do parlamentarismo, para o bem de todos. Assim, teremos estabilidade sem juros altos e a volta do crescimento econômico, a um custo bem menor.
Diga aos seus filhos que você, os políticos, o governo e nossos presidentes não são perfeitos. Eu sei que a maioria dos pais adora mostrar o contrário, adora ganhar do filho num drible de futebol, com medo de que descubram a verdade. Posso garantir que eles já o achavam perfeito muito antes de você se mostrar. O que eles precisam aprender é a verdade.
Portanto, mostre aos seus filhos que você não é perfeito. Ensine que não há utopias perfeitas, somente imperfeições a serem corrigidas. Comece de preferência nesta semana, aos poucos, para não assustá-los.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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9:35 AM
by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
A solução para o crime
"Não há por que manter o monopólio do Estado sobre a segurança pública. Sobretudo quando o Estado presta um serviço deplorável como o nosso. Chegamos ao ponto em que mercenários estrangeiros poderiam ser mais confiáveis do que a polícia"
Os mercenários responsáveis pelo policiamento civil no Iraque pertencem à Dyncorp. Mil homens. Cuidam do recrutamento de policiais, da reforma do Judiciário e da montagem de cadeias. É gente altamente qualificada. Cada mercenário possui um mínimo de dez anos de experiência investigativa nos Estados Unidos. Para ser contratado, precisa superar uma corrida de obstáculos, arrastar um boneco de 84 quilos e subir uma escada de 6 metros de altura com uma arma na mão. Custo? Cinqüenta milhões de dólares por ano. Ou seja, nada. Vamos trazê-los para cá.
A Dyncorp é empregada no policiamento de outros países estrangeiros. Recebe dinheiro da ONU para manter a ordem na Bósnia, em Kosovo e no Timor. Recebe também dos Estados Unidos para defender a vida do presidente afegão Karzai e para combater o tráfico de drogas na Colômbia. Uma das críticas recorrentes a George W. Bush é que ele privatizou o Exército americano, estimulando o crescimento de companhias de mercenários como a Dyncorp. Bom para nós. Assim como a Ford fabrica carros no Brasil, porque não sabemos fabricar carros, a Dyncorp pode vir policiar nossas cidades, porque não sabemos policiar.
Os pacifistas não gostam dessas companhias de mercenários. Vão logo lembrando que homens da Dyncorp derrubaram um avião de missionários no Peru e aliciaram prostitutas na ex-Iugoslávia. É verdade. Mas o paradoxo está justamente aí: nenhuma atrocidade que os mercenários internacionais possam ter cometido se compara à brutalidade cotidiana da polícia brasileira. Se os Estados Unidos terceirizaram o Exército, o Brasil estatizou o Esquadrão da Morte. Nossa polícia fracassou dos dois lados: aliou a mais absoluta truculência à mais absoluta incompetência. Nenhum país do mundo pode suportar mais de 40.000 homicídios por ano. O triângulo sunita é pouca coisa perto de nós. Num caso extremo como o nosso, é preciso reconhecer que a polícia é irreformável. É preciso partir do zero.
Estima-se que a criminalidade custe mais de 30 bilhões de dólares por ano ao Brasil. Dinheiro para contratar os mercenários não falta, portanto. Poderíamos colocar a Dyncorp para policiar as ruas. Os Gurkhas nepaleses para vigiar as cadeias. A MPRI nas fronteiras. A Vinnell nas estradas. A Custer Battles nas favelas. A CSC no rastreamento do dinheiro sujo. O resultado imediato dessa medida seria acabar com os velhos esquemas de caixinha da nossa polícia. Não há por que manter o monopólio do Estado sobre a segurança pública. Sobretudo quando o Estado presta um serviço deplorável como o nosso. Chegamos ao ponto em que mercenários estrangeiros poderiam ser mais confiáveis do que a polícia. Poderiam nos proteger melhor. Com uma vantagem adicional. Além de agir contra os bandidos, a Dyncorp se prepara para oferecer a seus clientes um escudo espacial contra meteoros. No Brasil, a morte vem até do céu.
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9:21 AM
by Cassiano Leonel Drum
Garotada é prestigiada
Edmundo dificilmente terá condições de jogar e Gomes mantém Antônio Carlos e Alan no Flu
Marluci Martins
Ricardo Gomes esperava escalar Edmundo e Romário, mas o Animal voltou a sentir cansaço muscular
Edmundo não entra em campo desde o dia 21 de fevereiro. E tudo indica que ainda não será desta vez, contra o Americano, que ele vai voltar. Depois de Edmundo ter sido confirmado na equipe, pelo técnico Ricardo Gomes, ele amanheceu ontem sentindo dores musculares. Nem conseguiu participar do treino, com o grupo. Triste, não quis dar a entrevista coletiva, prometida na véspera.
Vamos esperar mais 24 horas¿, disse Ricardo Gomes, mas sem demonstrar muita esperança em contar com o atacante no jogo de hoje. Ele estava tão ansioso, vinha treinando tão bem, que eu até pensei em lançá-lo no jogo de quarta-feira, contra o Juventude.
Artilheiro da equipe, com nove gols na temporada, Marcelo aproveitou bem a nova chance que lhe foi dada de presente. No coletivo de apenas 18 minutos, marcou o gol de empate (1 a 1) com os reservas Júnior César fez contra e ainda acertou a trave.
O zagueiro Antônio Carlos, autor de um dos gols da vitória (2 a 1) sobre o Juventude, ganhou mesmo uma vaga na zaga. Assim, Rodolfo terá de sair do time. Alan, o apoiador que fez o outro gol no jogo de quarta-feira, também deverá ser mantido na equipe. Ele disputa uma vaga com Arouca, de apenas 17 anos.
Tantas modificações deixam Ricardo Gomes ainda mais preocupado:
Nosso time ainda está em formação, e vamos enfrentar uma equipe que já está armada há dois anos.
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9:11 AM
by Cassiano Leonel Drum
Fantástica
Débora Bloch se renova aos 40 anos: casa de papel passado com Olivier Anquier e volta à TV depois de quatro anos
Marcelle Justo
Débora e Olivier: casamento formal após 13 anos de união
Às vezes, os rituais são mais importantes do que a gente julga. De repente, é legal você celebrar uma coisa que é bacana na sua vida. É por isso que, depois de 13 anos de união e dois filhos Júlia, de 10, e Hugo, de 6 , Débora Bloch resolveu selar o casamento com o francês Olivier Anquier, dono de padaria que virou apresentador de TV. A cerimônia, só no civil, foi sábado passado, na casa deles, no Jardim Botânico, sem que ela revelasse detalhes sobre a festa. Pelo simples fato de não querer holofotes sobre a união. Deixa isso para as pessoas que gostam, como a Luma, brinca a atriz, que estréia amanhã, no Fantástico, o quadro As 50 Leis do Amor.
Aos 40 anos, Débora não precisa mesmo apelar para conseguir seus momentos de destaque. Garota-propaganda de duas marcas fortíssimas um banco e uma linha de cosméticos , ela credita muito dos convites à sorte, mas sabe que imagem conta. Tenho um trabalho sério e persistente também fora da televisão. Encaro minha profissão com seriedade. E os convites são resultado da minha história, diz. Quando fui chamada pela LOréal, perguntei ao meu agente se eles não tinham se enganado de Débora. Foi o público que escolheu, numa pesquisa feita pela empresa, gaba-se a atriz, que minimiza a própria beleza.
Estou enganando bem, diverte-se a gulosa assumida, casada com um gourmet. É difícil fazer dieta com o Olivier. Tento ter alimentação equilibrada. Vida só com alface é muito chata, admite. Não sou escrava da vaidade, garante. Mas depois dos 30, quem não se cuida embroaca, decreta a atriz, que garante ter se afastado das novelas por iniciativa própria e não por falta de convites.
É difícil fazer dieta com o Olivier. Vida só com alface é muito chata
Com temperamento família, hoje Débora privilegia a rotina carioca ao lado do marido e dos filhos. Novela toma todo o tempo. Fico sem vida fora dali. Acordo, gravo, decoro, durmo. Com duas crianças, é duro. Reunião de escola, apresentação do balé, deveres de casa, pode esquecer. Não dá para participar da vida delas, lamenta a atriz, que diz se esforçar para ser uma mãe legal. Minha família tem um peso importante. Quero aproveitar meus filhos, curti-los bastante porque eles crescem rápido. Sempre que posso, faço programas: vou à praia, ao cinema, enumera.
Débora é estrela da LOréal
Na volta à TV, depois de quatro anos, Débora será Bia no novo quadro do Fantástico, ao lado do inseparável Diogo Villela e da também amiga Andréa Beltrão. Em cena, os três formam um curioso triângulo amoroso: ela trabalha junto com o ex-marido e a atual mulher dele num programa de televisão. Nos bastidores, os três saem no tapa. Está sendo uma delícia. O texto é do Alexandre Machado e da Fernanda Young, com direção de José Alvarenga Jr. (mesmo trio de Os Normais).
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8:55 AM
by Cassiano Leonel Drum
Lya Luft
27/03/2004
Mutações versus tédio
Às vezes, quem sabe por falta de assunto, perguntam por que mudei, por que em lugar de romances de repente escrevi essa prosa do Perdas & Ganhos, ou do Pensar é Transgredir.
Não sei se indagariam a um pintor por que tem fase rosa, azul, cubista, figurativa, ou faz cerâmica, ou passa a esculpir. Mas pra escritor, perguntam. Como perguntam se ele acha que existe literatura feminina e masculina, mas duvido que questionem se há diferenças entre a pintura de Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Como dificilmente perguntariam a Yourcenar ou Lispector se um livro delas que começasse a vender muito não seria algo menor, mas a esta escritora alguém menos ilustrado de vez em quando ainda pergunta, sem pudor de revelar a própria ignorância.
Bom, então para me divertir aviso que ainda vou mudar muito mais: um livro infantil no segundo semestre, um de poemas no fim do ano, um muito misterioso no ano que vem, um romance em dois anos talvez, mais crônicas não sei quando, mais ensaios como os do Perdas em uns 10 anos, mais romance em 15, quem sabe humor em 20. Viva as mudanças: mas eu, sempre a mesma. Sem tédio, porque graças aos deuses, mudo.
Infância
Névoa encostada na janela,
qualquer coisa roçando o telhado,
e o medo que me contorna
- talvez simplesmente o vento.
A escada de sombra, a aventura
dos degraus, na curva de madeira
os passos de quem não vem
ou de um coração atento.
Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos;
alguém arranha a parede
- ou são apenas lembranças.
Algo sempre em movimento:
a vida arrasta as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?
(de Para não Dizer Adeus, inédito)
lya.luft@zerohora.com.br
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8:53 AM
by Cassiano Leonel Drum
Ricardo Silvestrin
27/03/2004
Obviedades
Você já foi ver o filme tal? Repare no já foi ver. Como se fosse uma imposição. Algo a que todos estariam destinados a assistir mais cedo ou mais tarde. É só uma questão de tempo. E normalmente o filme tal é o mais engana bobo possível. Pois não fui e normalmente não irei. Mas uso aqui esse ar de obviedade, espanto e imposição da pergunta. Você já leu o Lero Lero, livro do Cacaso? Certo, quem é o Cacaso? Foi um dos poetas legais que publicaram seus livros no Brasil de 1967 a 1985. Começou a escrever numa fase em que todos sonhavam em ser o João Cabral de Melo Neto. Isso ali nos anos 60. Depois, já para o meio da década de 70, aparecem seus textos que, junto com outros poetas dessa década, ficaram conhecidos como poesia marginal.
Tirando o rótulo e bebendo a cerveja sem propaganda, essa poesia do Cacaso traz hoje um ar muito bom de respirar. Tem toda uma alegria de escrever, de ousar, de buscar um pouco da simplicidade de um Manuel Bandeira, por exemplo. Mas num contexto de outra juventude, com outros valores, outra sexualidade. Poesia com vida. Com reflexão rápida e precisa. Só com as palavras que se fazem necessárias.
Como naquela canção do desenho do Mogli: "necessário / somente o necessário / o extraordinário é demais". Um exemplo do Cacaso no seu poema Livre-arbítrio: "Todo mundo é toureiro / Cada um escolhe o / touro que quiser na vida / O toureiro escolheu o / próprio / touro". Maravilha. Universal. Pode ser traduzido para qualquer língua. Em qualquer lugar do planeta, basta ser um ser humano para ter que enfrentar as suas broncas, os seus touros.
Um outro poema, bem curtinho: "Outro amor? Não caio mais". Mais um com o mesmo tema: "Muitas mulheres na minha vida / Eu é que sei o quanto dói". São poemas-bombas, de efeito instantâneo. Condensam os significados em uma ou duas linhas. Mas abrem para o leitor uma série de ressonâncias, como uma pedra atirada ao lago. Cada um que encaixe seus amores desfeitos, que deixe o poema ecoar lá no fundo de tudo que estava só esperando a pedrada. Para os que adoram contexto histórico, tomem este: "Meu coração / de mil novecentos e setenta e dois / já não palpita fagueiro / sabe que há morcegos de pesadas olheiras / que há cabras malignas que já / cardumes de hienas infiltradas / no vão da unha na alma / um porco belicoso de radar / e que sangra e ri / e que sangra e ri / a vida anoitece provisória / centuriões sentinelas / do Oiapoque ao Chuí".
Ditadura, 1972, antes da distensão, as hienas infiltradas, os centuriões. Tem tudo isso e mais um pouco nesse livro que reuniu toda a poesia o Cacaso. Edição caprichada da Cosac & Naify com a 7 Letras. Leia e saia perguntando por aí com ar de obviedade.
ricardo.silvestrin@zerohora.com.br
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8:51 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
27/03/2004
Os últimos baluartes
A questão da segurança pública gira também em torno do mercado.
Quanto maior a aglomeração humana, maior a incidência dos roubos e dos furtos.
O único contrafluxo dessa regra é o que se verifica atualmente nas praias do Litoral, quanto menos pessoas habitarem as casas de veraneio, mais ladrões haverá para saqueá-las, constituindo-se num verdadeiro pesadelo o que ocorre nos dias de hoje: praticamente todas as pessoas que deixam suas casas vazias durante o inverno são roubadas em seus pertences.
Gramado e Canela se constituíam em ilhas de tranqüilidade para seus visitantes e moradores.
Lenta e perigosamente começam a ser atacadas pela cultura do assalto, dos roubos e dos furtos.
De uns dias para cá, fui tomando conhecimento de vários ataques de assaltantes em Gramado.
A nossa principal estância turística começa a ser ameaçada pela ação permanente dos ladrões, sendo essencial que a Secretaria da Segurança desenvolva profundos esforços no sentido de conter essa assustadora tendência.
Preocupo-me assim com Canela e Gramado na questão da segurança pública porque um dos principais atrativos turísticos na América do Sul é a segurança dos visitantes.
Perguntados sobre o que os atraía para visitar Punta del Este, o elegante balneário uruguaio, 40 turistas responderam a um jornal de lá assim: 1) a arquitetura, a beleza dos prédios; 2) a paisagem física da cidade, com as águas azuis ou verdes do Oceano e do Rio da Prata se debruçando sobre a península; 3) os restaurantes, lancherias e lojas; 4) a segurança pública, onde não havia notícia de nenhum atentado contra as pessoas nas ruas, com os pais deixando seus filhos nas boates e nos bares pela noite e madrugada, sem temerem nunca pela sua sorte, a par da ausência completa de mendigos e pedintes.
E deixaram claro os turistas que essa tranqüilidade quanto à segurança que os visitantes de Punta del Este gozam é exatamente inversa ao clima de medo que sentem nas cidades onde moram e de onde se originam.
Sem se aperceber, as pessoas que possuem casas e apartamentos em Gramado e Canela são e foram para lá atraídos justamente por essa atmosfera de segurança, de casas sem muros e cercas a separá-las, da absoluta despreocupação das pessoas em andarem à noite pela rua.
Mas quinta-feira mesmo Zero Hora publicou uma notícia de um assalto à mão armada sofrido por cinco turistas cearenses no centro de Gramado. Despojados das bolsas, das carteiras, máquina fotográfica, filmadora, cheques, cartões de crédito e documentos, os turistas prometeram não voltar mais à cidade.
E amiudemente me chegam notícias de assaltos na Serra. Por enquanto, ainda pode se afirmar que são fatos isolados, tanto que os turistas cearenses assaltados receberam no seu hotel de Gramado a garantia de que poderiam passear à noite sem problemas.
Só que começam a aparecer os assaltos por lá. E se constituem em alarmas consistentes, principalmente para as prefeituras da Serra, que devem se mobilizar para a parceria com a Polícia Civil e a Brigada Militar com medidas que visem a pôr cobro à ação dos assaltantes.
Não deixem que caiam a última cidadela segura do Estado, as estância serranas. O nosso maior e mais famoso pólo turístico não pode ser manchado pela insegurança nas ruas.
Se não sabem canelenses e gramadenses, a maior atração de suas cidades era justamente a segurança. Se ela decair, as cidades soçobram.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:48 AM
by Cassiano Leonel Drum
Clima
Sem sinal de chuva no céu do Rio Grande
Um Ximango voa ao entardecer em Porto Alegre, em mais um dia da seca que castiga o Estado (foto Mauro Vieira/ZH)
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Sexta-feira, Março 26, 2004
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9:29 PM
by Cassiano Leonel Drum
O nó da soja
Problemas climáticos, greve e praga prejudicam a produção do grão
João Paulo Nucci
Chuvas em excesso no Mato Grosso, seca no Rio Grande do Sul, porto paralisado no Paraná, praga em vários Estados. A soja, principal produto agrícola do País, vive seus dias de ressaca do crescimento. Depois de anos e anos de recordes, 2004 vai registrar um breque na produção. Os 52 milhões de toneladas de 2003 não serão superados. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima um resultado final de 51,5 milhões de toneladas ao final da colheita, em abril. Em janeiro, quando os problemas listados acima ainda não haviam dado as caras, esperava-se uma safra recorde de 60 milhões de toneladas.
Perdas fazem parte do jogo da agricultura, mas a magnitude do problema mais de oito milhões de toneladas perdidos assustou os especialistas. O plantio havia sido bom, o desenvolvimento inicial também. Os problemas vieram de repente, diz o analista de mercado e agrônomo da Agência Rural, Fernando Muraro. O governo já admitiu o prejuízo. O ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, disse que, apesar da quebra da safra, os altos preços do grão deverão compensar os produtores. Há 16 anos a soja não custava tão caro no mercado internacional. Culpa dos problemas enfrentados na lavoura dos Estados Unidos, o maior produtor do mundo, e do próprio Brasil, segundo no ranking.
A soja é o produto que mais traz divisas ao Brasil e permanecerá sendo em 2004, apesar das perdas na produção. No ano passado, as exportações atingiram US$ 8,1 bilhões o petróleo e seus derivados, a título de comparação, renderam US$ 4,9 bilhões. A previsão inicial era de que o grão e seus produtos o farelo e o óleo atingissem US$ 11,2 bilhões em vendas externas. Agora, a CNA fala em US$ 10 bilhões. Há uma perda em relação à previsão inicial, não na comparação com 2003, atesta o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.
Resultado à parte, Castro faz coro com os produtores na hora de reclamar das deficiências da infra-estrutura do País. O governo tem consciência dos problemas, mas a execução dos projetos é fundamental, afirma. A agricultura cresceu mais do que nossa infra-estrutura suporta, diz Getúlio Pernambuco, diretor do Departamento Econômico da CNA.
No Mato Grosso, Estado onde o próprio governador, Blairo Maggi, é produtor (e dos grandes), os fazendeiros resolveram arregaçar as mangas e construir eles próprios as estradas. As chuvas em excesso em algumas regiões do País terminaram de depauperar as frágeis estradas brasileiras. Já no Paraná, a situação se agravou com a greve dos operadores do porto de Paranaguá, iniciada há duas semanas e não completamente resolvida até a quinta-feira 25. A fila de caminhões parados superou 80 quilômetros. Por dia, 20 mil toneladas de soja deixaram de ser embarcadas no porto paranaense.
Câmbio O grão dourado que o brasileiro pouco consome, a não ser em formato de óleo, virou nosso principal produto agrícola no decorrer dos anos 90. Em 1996, quando a Lei Kandir isentou de impostos as exportações agrícolas, a produção deu seu primeiro grande salto. Três anos depois, no princípio de 1999, o real se desvalorizaria após cinco anos valendo o equivalente a US$ 1.
A soja virou ouro e criou pólos produtivos em lugares antes inóspitos, como o cerrado, o oeste baiano e o sul piauiense. Em pouco mais de uma década, nos transformamos no segundo maior produtor do mundo e, confirmadas as previsões para 2004, agora também no maior exportador. A lavoura do grão continua crescendo, inclusive em direção à Floresta Amazônica, para desespero dos ambientalistas. E os altos preços da atualidade devem continuar incentivando o plantio, apesar dos problemas de 2004.
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8:19 PM
by Cassiano Leonel Drum
autor@paulocoelho.com.br
Da importância da solidariedade
O melhor produto da região
O fazendeiro conseguia ganhar todas as medalhas do Ministério da Agricultura, porque seu milho era de excelente qualidade. Intrigado, um jornalista resolveu ir até o lugar onde ele morava, pensando em escrever uma grande matéria sobre o segredo de tamanho sucesso.
Ali chegando, perguntou o que fazia para sempre produzir o melhor produto da região.
Muito simples respondeu o fazendeiro. No final da colheita, separo uma boa parte dos grãos, e distribuo entre todos os meus vizinhos.
O Jornalista ficou surpreso:
Distribuir aquilo que colheu? Será que o senhor não entende que os seus vizinhos também são seus concorrentes, e estão querendo produzir mais?
Será que o senhor não compreende que tudo é uma coisa só? Na primavera, o vento traz o pólen, e espalha por todo o lugar. Se meus vizinhos plantarem algo ruim, minha colheita será também afetada. Para ter o melhor produto da região, preciso fazer com que os campos ao lado mantenham a mesma qualidade.
Não posso fazer nada de bom na vida, se não estimular os outros a fazerem o mesmo.
No campo de concentração
O psiquiatra alemão Viktor Frank descreve sua experiência num campo de concentração nazista:
... no meio do castigo humilhante, um preso disse: Ah, se nossas mulheres nos vissem assim!.
O comentário me fez lembrar o rosto de minha esposa e, no mesmo instante, me jogou para fora daquele inferno. A vontade de viver retornou, me dizendo que a salvação do homem é por e pelo amor. Ali estava eu, no meio do suplício, e ainda assim capaz de entender Deus, porque podia contemplar mentalmente a face de minha amada.
O guarda mandou que todos parassem, mas não obedeci porque não estava no Inferno naquele momento. Embora não tivesse como descobrir se minha mulher estava viva ou morta, isto não mudava nada: contemplar mentalmente sua imagem me devolvia a dignidade e a força.
Mesmo quando retiram tudo de um homem, ele ainda tem a bem-aventurança de lembrar-se do rosto de quem ama e isto o salva.
O menino e a traição
O religioso gritava na rua: Não somos todos filhos do mesmo Pai Eterno? E se é assim, por que traímos nosso irmão?.
Um garoto que assistia, perguntou ao pai: o que é trair?
É enganar o seu companheiro para conseguir determinada vantagem, explicou o pai.
E por que traímos nosso companheiro?
Porque, no passado, alguém começou isto. Desde então, ninguém soube como parar a roda: estamos sempre traindo ou sendo traídos.
Então não trairei ninguém, disse o garoto.
E assim fez. Cresceu, apanhou muito da vida, mas manteve sua promessa.
Seus filhos sofreram menos e apanharam menos.
Seus netos nada sofreram.
A torre de Babel
As palavras são de Rufus Jones (1863-1468):
Não estou interessado em construir novas Torres de Babel, usando como desculpa a idéia de que preciso chegar até Deus. Estas torres são abomináveis; algumas são feitas de cimento e tijolos; outras são feitas com pilhas de textos sagrados. Algumas foram construídas com velhos rituais, e muitas são erigidas com as novas provas científicas da existência de Deus.
Todas estas torres, que nos obrigam a escalá-las desde uma base escura e solitária, podem nos dar uma visão da Terra mas não nos conduzem ao Céu. Tudo que conseguimos é a mesma e velha confusão de línguas e emoções.
As pontes para Deus são a fé, o amor, a alegria e a oração.
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8:10 PM
by Cassiano Leonel Drum
Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
Arnaldo Jabor
Minha profissão é ver o mal do mundo. Um dia, a depressão bate. Não agüento mais ver a cara do Bush ostentando rugas na testa de preocupação com o nosso destino (que ele azedou), não agüento mais o Lula de boné dançando xaxado, não agüento ver o Sarney feliz, mandando no país, guardando o PT no bolso do jaquetão, enquanto os petistas, comunistas, tucanistas e fascistas discutem para ver quem é mais de esquerda ou de direita.
Enquanto o país afunda em violência e miséria, com o Estado sendo loteado entre esquerdistas sem emprego; não dá mais para ouvir que há transgênicos de esquerda ou de direita, principalmente quando ninguém consegue impedir as queimadas na Amazônia; passo mal também quando vejo a cara dos oportunistas do MST, com a bênção da Pastoral da Terra, liderando pobres diabos para a revolução contra o capitalismo, não agüento secretários de Segurança falando em forças-tarefa, em presídios perfeitos que não conseguem nem bloquear celulares, não suporto ver que o Exército se recusa a ajudar na repressão ao crime, com generais tão eficazes para arrasar a guerrilha urbana nos anos 70.
Não suporto a polêmica desenvolvimento x austeridade, planos B, C e D, tenho horror do Fome Zero, tenho enjôo com vagabundos inúteis falando em utopias, bispos dizendo bobagens sobre economia, acadêmicos rancorosos decepcionados com Lula, não agüento mais ver a República tratada no passado, nostalgias de tortura, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhuma idéia para nosso futuro, não tolero mais a falta de imaginação política, a retórica da impossibilidade sem saídas pontuais e originais, e vejo que a única coisa que acontece é que não acontece nada e que os juros baixos não acontecem nunca e penso: ¿Ahh... se os homens de bem tivessem a imaginação dos canalhas!¿.
Não aturo mais essa dúvida ridícula que assola a reflexão política: paciência x voluntarismo, processo x solução, continuidade x ruptura. Passo mal vendo político pedindo CPI para se lavar, deprimo quando vejo a militância dos ignorantes, a burrice com fome de sentido, o vice Alencar no bordão da queda dos juros, e o Palocci dizendo que não dá pé. Tenho engulhos ao ver essa liberdade fetichizada que rola por aí, produto de mercado, ao ver êxtases volúveis de clubbers e punks de boutique, livres dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas, querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas.
Odeio recordes sexuais, próteses de silicone, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja fazendo competição entre louras burras e Zeca Pagodinho jogado numa cilada, detesto bingo, pitbulls, balas perdidas, suspense sobre espetáculo de crescimento, abomino a excessiva sexualização de tudo, com bombeiros sexy engatados em mulheres divididas entre a piranhagem e a peruíce, o sexo como competição de eficiência. Onde está a sutileza calma dos erotismos delicados?
Onde, o refinamento poético do êxtase? Repugna-me ver sorrisos luminosos de celebridades bregas, passo-de-ganso de manequim, saber quem come quem na ¿Caras¿, mulher pensando feito homem, caçando namorados semanais, com essa liberdade vagabunda para nada, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo, como crianças brincando num shopping, enquanto os homens-bomba explodem no Oriente e no Ocidente, não agüento mais cadáveres na Faixa de Gaza e em Ramos, ônibus em fogo no Jacarezinho e trens sangrando em Madri, museu de Bilbao, museus evocando retorcidos bombardeios, sem arte alguma para botar dentro, a não ser sinistras instalações com sangue de porco ou latinhas de cocô do artista.
Não agüento mais chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, gente afogada na Nove de Julho, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro dos pobres e destrói a religião negra da Bahia, enquanto formigueiros de fiéis bárbaros no Islã rezam com os rabos para cima. Não agüento mais ver xiitas sangrando, dançando e batendo na cabeça no tão esperado século XXI, enquanto Bush reza na Casa Branca e o Dick Cheney, sujo de petróleo, fala em democracia no Iraque.
Não agüento mais ver que a pior violência é o acostumamento com a violência, pois o mal se banaliza e o bem vira um luxo burguês. Não admito mais ouvir falar de globalização, enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo com bolinhas de tênis nos sinais de trânsito do Rio. Não suporto o sorriso de Blair, a cara constrangida de Colin Powell, as pernas lindas de Condoleeza Rice, que me excita ao pensá-la em sinistras sacanagens na noite de Washington. Não agüento cariocas de porre falando de política, festas de celebridades com cascata de camarão, matéria paga com casais em bodas-de-prata, evangélicos intocados pela lei, novas forças-tarefa, Lula com outro boné, políticos se defendendo de roubalheira falando em honra ilibada, conselhos de notáveis para estudar problemas sem solução, anúncios de celular que faz de tudo, até boquete.
Dá-me repulsa e lágrimas ver mulheres-bomba tirando foto com os filhinhos antes de explodir e subir aos céus dos imbecis, odeio Sharon e Arafat, a cara de sábia estupidez dos aiatolás, o efeito estufa, o derretimento das calotas polares, casamento gay, pedofilia perdoada na Igreja, Chavez e seus referendos, Maluf negando, Pitta negando, o Sombra negando, enquanto juízes corruptos reclamam do controle do Judiciário, e o Papa rezando contra a violência sem querer morrer jamais.
Não agüento mais Cúpulas do G7, lamentando a miséria para nada, e tenho medo que o Kerry, que tem uma cara duvidosa de ponto de interrogação, com aquele queixo de caju, perca a eleição, entregando o mundo à gangue do Mal. Tenho medo de tudo, inclusive da minha antiga e endêmica depressão, essa minha vã esperança iluminista. E tenho medo, acima de tudo, que as pessoas não agüentem mais a democracia e joguem o país de vez no buraco. Daí a dúvida: tomo cianureto no champanhe ou formicida com guaraná?
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6:56 AM
by Cassiano Leonel Drum
Sorria, você está no Baixo
Concentração de bares na Avenida Armando Lombardi agita a noite da Barra e mostra que a diversão no bairro ultrapassa os limites de shoppings e condomínios
Clarissa Monteagudo
Baleiro, bate-papo na calçada, namoro entre os carros estacionados na rua. Comuns na Zona Sul e no subúrbio, essas cenas agora fazem parte do cotidiano da Avenida Armando Lombardi, na Barra, bairro mais conhecido pela combinação praia-shopping-condomínio. O movimento que chega a congestionar o trecho nos fins de semana, por volta das 23h vai do Quiosque do Crepe ao Shenanigans Irish Pub que, no formato dos bares da Irlanda, tem até competição informal de dardos. No Baixo Barra, as opções vão desde o som jovem e gostosa comida mexicana do Guapo Loco à tradicional pizza do Raul. Outros nomes famosos na noite já farejaram o potencial do lugar: dois casarões estão em obras para abrigar filiais da boate Bombar e do bar Devassa, ambos nascidos no Baixo que deu origem à série, o do Leblon.
Sócio do Quiosque do Crepe um simpático restaurante a alguns passos da Nuth , Peter Andrew, 33 anos, não se arrepende de ter assumido o negócio em abril do ano passado. A pré-noite é aqui. Até as 22h, vêm as famílias. Depois é a garotada, até as 3h, conta Peter. O forte da casa é o rodízio de crepes: em uma noite, o restaurante chega a vender 1.500 unidades. A gente vem pelo menos uma vez por semana. Aqui tem sabores exclusivos, explica o produtor de eventos Leonardo Piagiani, 22 anos, fã do de brigadeiro e do provençal steak (queijo, molho de tomate e filé).
Boa parte do burburinho do Baixo se deve à fila da Nuth, que fornece freqüentadores cansados da espera de horas a outras casas. Enquanto as meninas se equilibram nos saltos agulha e os homens fazem a primeira prospecção no terreno, formam-se mil teorias para o fenômeno na boate. Para mulher é mais fácil entrar, diz a dentista Graziele Machado, 22 anos. O tempo de espera varia de um minuto a uma hora e meia, explica a relações-públicas Cláudia Costa, 23. Passe livre, só com carteira de sócio. A social do lado de fora faz parte. Tem gente interessante aqui, completa Cláudia. E cheia de disposição.
Cerveja: No Shenanigans Irish Pub (Avenida Armando Lombardi 333, tel.: 2492-2798), o público varia entre 20 e 35 anos. O advogado Guilherme Borges, 32, e o administrador Leandro Belchior (foto), 28, reúnem amigos para jogar dardo e sinuca. O chope da Brahma é o mais pedido (R$ 3). A cerveja Guiness (R$ 15,50) também é vedete. Sextas e sábados, depois das 22h, é cobrada entrada de R$ 11 (mulher) e R$ 21 (homem) com bônus de R$ 10 (mulher) e R$ 20 (homem). Em outros horários, só se paga a consumação.
Badalação: Para garantir a entrada na Nuth (Avenida Armando Lombardi 999, tel.: 3153-8595), é bom ter um canal (conhecer um sócio da boate) ou disputar uma carteirinha com o gerente de marketing da casa. Sexta-feira, costuma haver shows de grupos pop da Barra da Tijuca antes de o DJ Bernard de Casteja (ex da Calígola) assumir as carrapetas. O hip hop é o ritmo preferido nas pistas. No segundo andar, tem restaurante e sinuca. Hoje R$ 30 (homem) e R$ 20 (mulher). Amanhã, R$ 50 (homem) e R$ 20 (mulher).
Crepes: O rodízio é a grande atração do Quiosque do Crepe (Av. Armando Lombardi 633, tel.: 2491-3281), endereço preferido do casal Vanessa Penna, 21, e Leonardo Piagiani, 22. Há duas opções: normal, com 29 sabores de crepes (R$ 15,90 de sexta a domingo e R$ 13,90 de segunda a quinta) e golden (R$ 18,90 de sexta a domingo e R$ 16,90 de segunda a quinta), que inclui o cobiçado recheio de nutella ¿ um delicioso creme de chocolate com avelãs.
Mexicano: Tequila, pista animada e comida mexicana. Esse é o Guapo Loco (Av. Armando Lombardi 493, tel.: 2491-5427, R$ 15, mulher, e R$ 30, homem). A freqüência é de universitários como Marcos Gomes (E) e Juarez Fialho. Se o cliente consumir mais do que a entrada, só paga a conta do bar. Domingo, a partir das 19h, tem promoção: ao pedir um prato, o cliente ganha um tíquete para repetir a dose de graça no domingo ou segunda-feira seguintes.
Pizza: Tradicional desde a fundação da primeira casa, há 30 anos, a pizzaria do Raul (Av. Armando Lombardi 583, tel.: 2493-2286) é freqüentada por gente de toda a cidade e jovens cansados das filas das boates. O pizzaiolo José Messias é o mesmo há 27 anos. Entre as novas criações do dono, Raul Madeira de Lei, 69, a pizza de queijo brie com damasco (R$ 29). Boa dica é dividi-la com a picante suprema, de pepperone (R$ 24).
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6:46 AM
by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
26/03/2004
Seus donos de hamster
Sempre me recusei a correr em esteiras de academia. Porque as pessoas que correm em esteiras de academia me lembram os hamsters. Passo diante das vitrines das academias, vejo as pessoas se esfalfando na esteira, dá vontade de apontar:
- Um hamster gigante!
Acontece que considero o hamster um animal estúpido. Passa a vida correndo naqueles globos de arame, sem ir a lugar algum. Além disso, ele não serve para nada. Não interage. Não é de comer. Nem sequer reconhece o dono da mão que o alimenta.
No entanto, há muita gente que tem hamster por aí. Por quê? Respondo: para ter com o que se preocupar. O hamster é um tamagoshi peludo. Seu dono fica ali, cuidando dele, limpando suas fezes, sem jamais receber algo em troca, nem mesmo um olhar de agradecimento. Aí, o hamster morre e seu dono fica abatido. Enterra-o no fundo do quintal com uma lágrima pingente dos cílios.
Mas aquilo não é amor. É apenas preocupação sublimada. Pois às vezes a preocupação leva ao afeto, e não o contrário. A pessoa se preocupa tanto com um objeto, tanto, que, para justificar sua angústia, passa a amá-lo.
Assim o automóvel. Verdade, os automóveis são mais úteis do que os hamsters, mas a paixão dos motoristas por seus carros supera em muito a dimensão utilitária. É que o automóvel dá o que pensar. Ele é espaçoso, precisa ser colocado em algum lugar. Ele exige horas de preparação do motorista para manejá-lo. Ele há de ser abastecido, banhado e lubrificado como se fosse um recém-nascido. Então, o automóvel passa a valer mais do que valeria um mero meio de transporte. E, dentro dele, o motorista se sente um ser superior. Ele domina aquele objeto precioso. Ele tem o poder.
Esta semana, um patrulheiro sacrificou dois cavalos que troteavam por uma rodovia. A maioria dos motoristas aplaudiu. Não por acaso. Porque aquele gesto representou mais do que uma ação em nome da segurança no trânsito. Representou a vitória cabal do automóvel sobre o meio de transporte do qual foi sucedâneo. Representou a admissão de que o motorista pertence a uma casta superior, privilegiada, prenhe de necessidades sempre prioritárias. Os motoristas, suas auto-estradas, seus viadutos, sua pressa. Não passam de donos de hamsters.
david.coimbra@zerohora.com.br
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6:45 AM
by Cassiano Leonel Drum
Gabriel Moojen
26/03/2004
Eu na Costa Brava
Foto(s): Arquivo Pessoal/ZH
Conquista
Um dia a coisa vira e o que era sonho se transforma em realidade. Foi assim em toda a minha vida. Persistência e paciência. Anos plantando e meses colhendo frutos. Desde o tempo da TVE. Anos ali, e veio o Patrola, a RBS. Cinco anos no ar e muito sucesso na nossa aldeia. Então a novidade. Dia 7 de maio o Patrola estréia como nacional, no canal Multishow. Na terça, fomos na coletiva de lançamento no Jockey Club do Rio. Apresentados à imprensa nacional ao lado de Paulinho Vilhena, Danielle Suzuki, Lorena Calábria e as outras estrelas.
Foi uma boa conquista. Não só para nós, mas para todo mundo que faz alguma coisa aqui no Sul. Porque o Patrola não é um programa meu ou da Mauren ou de quem quer que seja. Esse programa é do Sul, de você, do seu vizinho, de sua banda preferida, seu artista predileto. É nisso que está o nosso mérito. O que a gente faz aqui, eu, você, todo mundo, vai ter alguma repercussão nacional. Sempre eu me perguntava, será que o Brasil nunca vai saber dessa história que estamos fazendo? Agora vai. Vamos.
Na real, nossa vida não vai mudar muito. Eu vou continuar andando de bicicleta pela cidade, indo para Rainha do Mar, ao Ossip, ou seja, não vou precisar ir embora desse lugar que eu moro e nasci para fazer algo um pouco maior. Porque o Patrola já é grande e não é por isso. É para tentar fazer as pessoas acreditarem que sonhos acontecem. Que o caminho é longo e a vida pequena, que com força, coragem, determinação, ousadia a coisa anda. Como diria o Chico Science, um passo para frente e não estamos no mesmo lugar.
Assim me sinto. Feliz por mais um capítulo virado. Mas o que mais me dá coragem é saber que essa história não termina aqui. Que nessa conquista se resume apenas um fim de um ciclo e o começo de outro. Que sempre, por mais que a gente faça, por mais que a gente ande, tudo é um eterno recomeçar. Quando a gente pensa que acabou, tá só no começo. E tenho a mais absoluta certeza que vai ser sempre assim. Como diria o velho ditado, o caminho se faz caminhando. Não existe nada pronto e sim exemplos. Que sirva nossa façanha de modelo a toda terra.
Hoje mando um obrigado em especial. A você que me lê. Que me assiste. Que acompanha essa trajetória. De maio para frente nossa turma será maior. E espero que você traga mais gente para fazer parte dessa história chamada vida. Geração hoje. Que briga, se arrebenta, conquista e deixa marcado o porquê de se fazer arte cultura moda música poema comportamento aventura no século 21. Fui e me escrevam.
gabriel@rbstv.com.br
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6:40 AM
by Cassiano Leonel Drum
Mauren Motta
26/03/2004
Foto(s): Júlio Cordeiro/ZH
Fora dos padrões
Domingão de sol, almoço com amigos no Barranco. No clássico restaurante, polenta, picanha e salada do carrinho não podem faltar. Agora imaginem que na mesa ao lado uma pessoa fala de uma cirurgia recém feita e mostra as cicatrizes. Plástica no rosto e silicone. Tudo bem, as pessoas estão cada vez mais enlouquecidas atrás da beleza ideal. Mas acho que tem hora e lugar para esse assunto. Discrição é a alma do negócio. É ótimo querer melhorar e ficar mais bonita. Agora, ficar o tempo todo falando de regime, botox e contando calorias é chato demais! Não adianta nada ser linda sem cérebro.
Semana passada, fui jurada de um concurso de beleza em Erechim. Por sinal, a estrada, nessa época, é uma das mais das lindas. Parece uma pintura de Van Gogh. Sentado ao meu lado, Werner Schünemann comparava gaúchas e cariocas: "No Rio todo mundo tem peitão por conta da onda do silicone e corpo malhado por causa da praia. Aqui a beleza das gurias é diferente, todo mundo tem rostinho de princesa e corpo ainda natural". Ainda bem, porque não é fácil ser conterrânea da Gisele. Morar em um lugar onde tem tanta mulher bonita é um paraíso para os homens e um pesadelo para as mulheres. A gente vive concorrendo umas com as outras. Os homens nem precisam fazer muito esforço. É comum ver uma garota tri gata ao lado de um carinha bem meia-boca. Já o contrário é difícil!
Acho que pra ser feliz a gente não deve acreditar em tudo o que vê na tela, na passarela ou estampado nas revistas. Esse povo é exceção, não regra. Sempre fui gordinha, desde pequena esse assunto me incomodou. Entretanto nunca deixei de curtir a vida. Na adolescência, era aquele clássico engorda-emagrece. Depois dos 27 anos, cheguei ao meu limite, até que uma cirurgia de redução de estômago mudou minha história.
Claro que ainda falta perder peso, que não estou como gostaria de estar... Mas já deu uma melhorada. Por outro lado, acho que a gente tem que buscar a beleza dentro dos nossos padrões, não nos dos outros. Se esconder, ficar em casa só por causa de um quilinho a mais não tá com nada. Essa vida é curtinha e o tempo, precioso. Se não, a gente fica frustrada e muito infeliz! Beijocas light.
mauren@rbstv.com.br
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6:37 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
26/03/2004
Uma eterna guerra
Um menino palestino de 14 anos foi detido anteontem numa barreira militar israelense na Cisjordânia.
Debaixo de uma larga japona, tinha amarrado no peito e nas costas um colete de alto poder explosivo, que seria acionado perto dos soldados da barreira ou junto a uma base militar próxima.
Neste mesmo posto de controle, na semana passada, um outro menor palestino, com 10 anos de idade, foi detido quando portava uma bomba de 10 quilos.
Desde o início desta última Intifada, setembro de 2000, 29 palestinos menores de 18 anos já cometeram atentados suicidas.
Esse fato dá uma idéia do trágico confronto em que estão envolvidos palestinos e israelenses nos últimos dias, agravando-se cada vez mais a relação entre os dois povos, às vésperas da retirada de Israel da Faixa de Gaza.
Há um sentimento de ódio e de vingança disseminado pelos corações de ambos os lados.
A execução extrajudicial por Israel do líder espiritual do grupo radical Hamas, Ahmed Yassin, atingido por mísseis de helicópteros israelenses à saída de uma mesquita, exacerbou os ânimos palestinos, que juram vingança e ameaçam fazer jorrar o sangue dentro do território inimigo.
Em Israel, há quatro dias, a segurança é reforçada e as ruas estão desertas, há uma certeza de que a qualquer momento haverá a retaliação.
Ocorre que os atentados suicidas tornam vulneráveis todos os lugares. Mesmo que as fronteiras estejam fechadas e elevada a vigilância nas representações diplomáticas no Exterior, há um sentimento agudo de que em alguma parte surgirá o terror.
Imagine-se como vivem os israelenses, tensos, evitando os lugares públicos e privados com aglomerações, reféns em suas casas e no trabalho de um medo permanente.
Do outro lado, entre os palestinos, não é outra a atmosfera, a qualquer momento Israel pode atacar.
Quando se pensava que a morte do xeque palestino fosse impor a Israel uma atitude defensiva, há três dias a cúpula militar e da segurança de Israel anunciou que todos os dirigentes do Hamas e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, estão na mira para serem também eliminados.
Como Arafat vive cercado em Ramalah pelas tropas israelenses, seu assassinato depende apenas de uma decisão do governo israelense, com o que o mundo pararia em transe se isso acontecesse.
Por outra parte, anteontem os palestinos anunciaram que sua meta é a eliminação do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, o que afunda esta guerra no mais sério impasse entre as duas partes, desde que após a Guerra dos Seis Dias uma carnificina brutal de atentados e bombardeios se instalou no Oriente Médio.
O conflito é mediado muitas vezes pelas nações mais importantes da Terra, mas nada convence a rivalidade.
Não há acordo, só ódio e vingança, as vítimas vão se empilhando e nos enterros delas há gritos furiosos por vingança no lado palestino, providências prontas de revide sangrento no lado israelense.
O confronto Israel-Palestina é a síntese desanimadora de que a história humana é inseparável da guerra e da destruição.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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6:34 AM
by Cassiano Leonel Drum
Saúde
Peregrinação por atendimento médico
Em carros da BM e ambulâncias, Êmila, de sete anos (foto), percorreu 271 quilômetros por postos de saúde e hospitais do Litoral Norte em busca de atendimento para o braço fraturado, mas só conseguiu ser atendida na Capital (Mário Brasil/ZH)
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Quinta-feira, Março 25, 2004
Posted
11:22 AM
by Cassiano Leonel Drum
25/03/2004
Planalto cogita afastar vice-presidente da Caixa
09h01 - Para se proteger de novos escândalos que dêem sobrevida ao caso Waldomiro, o governo está disposto a afastar do cargo o vice-presidente de Logística da Caixa Econômica Federal, Paulo Bretas. Ele foi o principal negociador da renovação, por 25 meses e a um custo de R$ 650 milhões, do contrato do banco com a GTech para a gestão e operação do sistema de loterias do país.
O negócio está sendo investigado pelo Ministério Público Federal em procedimento cujo foco é a atuação da atual diretoria da Caixa e de três personagens: o ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz, o empresário de jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e o consultor Rogério Buratti.
A diretoria da Caixa tenta manter uma postura orgânica, de atuação em equipe, diante da possibilidade de o governo levar adiante sua estratégia de demitir para evitar problemas futuros. Essa, aliás, é a recomendação à investigação conduzida pela PF para apurar eventuais ilícitos praticados por Waldomiro: alertar para qualquer evidência de algo que possa vir a se transformar em crise, surpreendendo o governo.
Em depoimento à Polícia Federal, os executivos Antonio Carlos Lino da Rocha e Marcelo Rovai, respectivamente ex-presidente e diretor de marketing da GTech, disseram que Bretas telefonou para Rovai em 30 de março de 2003.
Na ligação, conforme o depoimento de Rocha, Bretas disse que "havia um problema, sem especificá-lo, para a assinatura do contrato, mas que o doutor Enrico Gianelli [advogado da GTech] teria conhecimento do mesmo".
Consultado pelos executivos, o advogado teria informado que seria necessário contratar os serviços do consultor Buratti para que fosse selada a renovação do negócio com a Caixa. Essa condição teria sido posta por Waldomiro Diniz em conversa com os executivos. A renovação aconteceu no dia 8 de abril de 2003, mas a GTech nega ter assinado qualquer contrato com Buratti.. À PF, Bretas disse que as pendências a que se referiu eram burocráticas e que só conheceu Buratti em setembro de 2003.
A vice-presidência de Logística é uma das mais importantes entre as nove que a Caixa possui. O governo chegou a acenar com a possibilidade de dividi-la em duas, dando uma ao PL. Com a crise gerada pelo caso Waldomiro, o fracionamento pode ser acelerado.
Da FolhaNews
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6:52 AM
by Cassiano Leonel Drum
Reservas classificam Tricolor
Zagueiro Antônio Carlos e meia Alan marcaram gols que deram ao Fluminense a vitória sobre o Juventude e a vaga na Copa do Brasil
Marluci Martins
Roger ajudou o Fluminense a chegar a virada em cima do Juventude
O Fluminense dependia apenas do empate contra o Juventude, ontem, no Macaranã, para continuar na Copa do Brasil. O resultado de 2 a 2, no jogo de ida, em Caxias do Sul, deu a falsa impressão que, em casa, a classificação seria fácil. Ela até que veio, mas de maneira sofrível e, ao mesmo tempo, emocionante. Geufer abriu a contagem, aos 33 do segundo tempo. A torcida já vaiava o time, quando, Antônio Carlos, aos 42, e Alan, aos 45, viraram o jogo. O próximo adversário do Tricolor é o Grêmio.
Foi um primeiro tempo equilibrado. O Fluminense, reforçado de Romário, começou pressionando a equipe gaúcha, mas sem conseguir furar o bloqueio de uma defesa que atua com três zagueiros. Poucos lances despertaram a interesse do torcedor tricolor presente ao Maracanã. Num deles, Roger, de falta, quase balançou a rede. Eduardo salvou de tapinha.
Como só a vitória ou empate a partir de 3 a 3 lhe garantia a vaga, o Juventude mudou de tática. Ainda que na base do contra-ataque, os visitantes passaram a gostar da partida. Da metade da primeira etapa em diante, ditaram o ritmo.
Na saída para o intervalo, Romário, que pouco apareceu, analisou assim a atuação tricolor: O jogo está difícil. Eles estão atrás, explorando os contra-ataques. Temos de acertar, disse o Baixinho. Roger fez o mesmo diagnóstico. Mas não adianta se expor para sofrer contra-ataque, advertiu.
Na prática, quando a bola rolou no segundo tempo, não houve tática que desse jeito. Com Romário apagado e Roger errando passes, o Juventude ganhou espaços. Inconformados, alguns torcedores pegaram no pé até do Baixinho.
Aos 15 minutos, a casa quase caiu, com Donizete Amorim, que carimbou a trave. Ricardo Gomes trocou Juca por Alan. O Flu voltou a ganhar volume no meio-de-campo e mais opção de jogada. Mesmo assim, foi o Juventude que continuou a levar perigo.
De tanto insistir, o gol acabou saindo. Aos 33, Geufer concluiu, de cabeça, cruzamento da direita, no fundo da rede. Quando ninguém acreditava, só mesmo o canto pedindo a bênção João de Deus para clarear os caminhos tricolores. Eis que Antônio Carlos, substituto de Rodolfo (suspenso), surge, aos 42, para empatar. O alívio só veio no último minuto, através de Alan, que entrou no lugar de Juca: um golaço, com direito a drible no goleiro. Romário, no fim, deu razão à torcida. Ela estava certa em vaiar o time.
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6:45 AM
by Cassiano Leonel Drum
Os homens nus
Beldades seguem exemplo de Juliana Paes e sugerem galãs para estrelar ensaios sensuais
Ana Lúcia do Vale
Se pudesse escolher, quando chegasse às bancas em maio, na capa da Playboy, Juliana Paes não estaria sozinha. Em entrevista à colunista Lu Lacerda, a Jaqueline Joy de Celebridade disse que sonhava com Marcello Antony, o Rodolfo de Um Só Coração, mostrando curvas numa revista para mulheres e dividindo espaço com ela nas bancas. Tradicional quando se trata de beldades que eles querem ver, Juliana iniciou o ranking dos pelados que elas cobiçam.
Recordista de capas da revista Sexy fez cinco, contando o novo ensaio, para abril , Viviane Araújo, 28 anos, também sabe quem gostaria de ver: Ricky Martin. A prostituta Eglantine, de Um Só Coração, que planeja virar cantora pop-dance em breve Tenho voz forte. Faço um estilo Jennifer Lopez aposta na latinidade do cantor. Sou fã do Ricky. Só meu marido, Belo, é que eu não queria ver pelado por aí, brinca, ciumenta.
Como Viviane, a apresentadora do Rolé, do Sportv (Net), Lívia Lemos, 20 anos, também descarta de cara o namorado Ronaldo da lista. Ele não, dispara. Lívia elege Rodrigo Santoro para o topo do ranking. Ele podia fazer as fotos numa praia, em Fernando de Noronha. Não precisava ser todo nu, mas ter uma prancha debaixo do braço, sugere Lívia, que é a capa de abril da Playboy justamente em fotos nas areias. Fiz uma praia chique, em Recife. Deu nervoso, porque não sou modelo. Mas faria de novo, diz ela, que espera a aprovação do namorado: Tomara que o Ronaldo goste.
Rodrigo Santoro também é o número um na lista da argentina Antonela Avelaneda, 21 anos, eliminada do Big Brother que já mostrou curvas duas vezes na Playboy. A mulherada toda gosta dele. Não precisava de nu frontal, porque perde a graça. Insinuado é melhor, ressalta. Motorizado nas fotos, Santoro seria melhor. Adoro homem de carro e moto. O Santoro faz esse estilo, suspira ela que, ao contrário de Juliana, jamais colocaria Antony em sua lista. Não acho o Antony o ó, cada um tem seu gosto. Mas o Santoro é muito mais sexy, acredita a argentina, que também compraria revistas com Marcos Pasquim e Ricardinho Mansur.
Poderiam colocar o Zulu como um americano, coberto de jóia e cheio de mulher - Tatiana, ex-Big Brother
O lutador Zulu, também eliminado do Big Brother, deixou saudade e tem fãs: ele foi lembrado pela também ex-participante Tatiana Giordano, 21 anos, que fez ensaio selvagem para a Sexy, numa fazenda. Quase não se vê um negão bonitão e charmoso por aí, elogia ela, que não hesita ao fantasiar o tema do ensaio dele. Poderiam colocá-lo como um negão americano, coberto de jóia e cheio de mulher em volta, diverte-se.
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6:39 AM
by Cassiano Leonel Drum
Coisa de cinema
Regiane Alves fala da nudez em seu primeiro filme e da volta à TV, agora como moça sofredora
Zean Bravo
A garota de programa feita por Regiane seduz Rafa (Tiago Moraes) no filme
Uma ruiva nua nas dunas de Fortaleza tira do eixo os personagens de Juca de Oliveira e Tiago Moraes em Onde Anda Você, longa de Sérgio Rezende, dia 9 nos cinemas. Miragem? Segundo Regiane Alves, a ruiva em questão, essa é a idéia. Queria passar isso de miragem. Apareço como se estivesse sendo fotografada, quase como uma pintura. Mas fiquei um pouco assustada quando vi o filme. A tela dá outra dimensão, explica a atriz, que encarou sem neuras a primeira cena de nudez rodada antes de Mulheres Apaixonadas e do sofisticado ensaio da Playboy. Discuto a cena antes, penso nos detalhes. Na hora é tudo ok.
Em sua estréia no cinema, Regiane é a garota de programa Estela da Luz. Ela não explica porque entra nem porque sai. A cena da duna mostra isso. Estela é como o vento, simplesmente passa, diz a atriz, que poderá mostrar duas faces diferentes depois da consagração como Dóris. Começaram a me ver com outros olhos. Será bom aparecer como garota de programa no cinema e Julieta na TV.
Em maio, Regiane volta às novelas, no horário das seis, como Belinha, na nova versão de Cabocla. Como toda boa mocinha, ela vai padecer com o amor impossível que nutre pelo herdeiro da família rival à sua, interpretado por Danton Mello. Para mim é um momento perigoso. Todo mundo ainda tem a Dóris na cabeça. Vou ter que reconquistar o público, acredita.
Com cabelos alongados por megahair, Regiane adquiriu um ar romântico. As vilãs falam o que as pessoas não tem coragem. Foi bom fazer porque na vida real não sou assim. Mas será ótimo falar de amor nos tempos de hoje. Belinha vive meio um conto de fadas, destaca a atriz, que fez aulas de piano, caligrafia e equitação para a novela.
Aos 25 anos, Regiane é discreta fora do ar. Casada há mais de três anos com o diretor de TV André Binder, ela gosta de passar batida quando não está trabalhando. Não gosto muito de sair, sou caseira. Gosto de ler, ouvir música e ver DVD. Tornar minha casa pública não dá, reclama a atriz, que usa óculos de grau e prefere deixar a vaidade para suas personagens. Se andar sempre de escova, vou marcar muito minha figura. Uso tênis e calça jeans. É engraçado quando as pessoas me param na rua e dizem que pareço a fulana da TV, ri.
Frases
Queria que a cena de nu ficasse como uma pintura, mas me assustei quando vi o filme pela primeira vez. A tela dá outra dimensão
Nosso mundo é tão plastificado e mostrei que posso ter o peito daquele jeito, aquela barriga
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6:32 AM
by Cassiano Leonel Drum
Agora é o Vitória
A festa gaúcha em Cascavel terminou em classificação. O Inter venceu o Prudentópolis por 2 a 0 ontem à noite e garantiu vaga nas oitavas-de-final da Copa do Brasil. Enfrentará o Vitória-BA, que ontem venceu o Sampaio Corrêa por 3 a 1 e teve Vampeta expulso. O confronto será nos dias 14 de abril e 5 de maio.
A classificação do Inter aconteceu em atuação irregular diante de adversário limitado. O time errou passes demais e Élder Granja se equivocou enquanto esteve em campo. Marabá, Wellington e Cleiton Xavier demoraram a engrenar. Em compensação, Chiquinho esteve inspirado. Acertou todas as jogadas e cruzamentos.
Os mais de 18,5 mil torcedores de todas as partes do Paraná que lotaram o Estádio Olímpico, saudosos do time, souberam esperar o gol. Ele aconteceu aos 42. Chiquinho cruzou com precisão. Nilmar, entre os zagueiros, pulou e marcou com o ombro e foi comemorado diante dos amigos na tela.
Logo aos dois minutos, Nilmar marcou o segundo. Chiquinho lançou Xavier pela esquerda. O meia cruzou para Nilmar, livre, no meio da área, pisou na bola e marcou o 2 a 0. Nilmar ainda acertou o poste aos 12 e completou a festa dos torcedores.
Élder Granja, a quem Lori Sandri havia pedido maior movimentação no intervalo, continuou errando. Irritou o técnico e foi trocado por Ederson. Só que o Inter realxou e se desarticulou.
Outro pênalti de Alexandre Lopes
Mais uma vez, Alexandre Lopes se precipitou e cometeu pênalti na área. Desta vez, porém, o juiz deixou passar. Aos 21 minutos, ao ser vencido por Edmílson no lado da área, empurrou o centroavante com o braço.
Com as dificuldades, Lori chamou Rafael Sobis, o herói de sábado. Entrou no lugar de Oséas. Quem brilhou desta vez foi André. Ele tomou o lugar de Clemer, com lesão no tornozelo. Na reestréia no Inter, André garantiu a classificação.
Aos 45 minutos, o centroavante Edmílson entrou a dribles na área e só não marcou o gol por causa de André. Edmílson quase estraga a festa dos colorados paranaenses.
Agora, o Inter volta a atenção para o Juventude. No domingo, pode perder por um gol até o 3 a 2 que passa às semifinais do Gauchão.
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6:29 AM
by Cassiano Leonel Drum
Nilson Souza
25/03/2004
Mas não se matam cavalos?
Esta pergunta foi título de um romance que virou filme famoso no final da década de 60, traduzido por aqui como A Noite dos Desesperados. Jane Fonda, exuberante, é a personagem principal de uma maratona de dança pelo prêmio de mil dólares. Trágico e perturbador, foi um dos filmes mais marcantes da minha juventude. Pois me lembrei dele esta semana, ao ler a notícia sobre o patrulheiro rodoviário que atirou em dois cavalos na BR-116, próximo a Camaquã.
O que mais me chocou no episódio foi a quantidade de pessoas que deram apoio ao atirador. Sob o pretexto de que animais soltos representam risco para os motoristas, acharam que o soldado fez muito bem em meter bala neles. E o argumento do policial foi contundente: entre matar um animal e salvar uma vida humana, optou pela segunda alternativa. Tudo muito lógico, muito racional. Mas será que não tinha outro jeito?
Animais realmente podem causar acidentes fatais. Como não conhecem as leis do trânsito, andam na contramão e atravessam as rodovias fora da faixa de segurança. As estatísticas, porém, mostram que motoristas bêbados, distraídos ou imprudentes provocam muito mais acidentes com mortos e feridos do que cavalos e vacas. Com o agravante de conhecerem as leis do trânsito. Bala neles?
É um sofisma, reconheço, mas continuo achando inacreditável que a execução de um animal indefeso seja encarada com tanta normalidade num Estado conhecido pela relação quase fraterna entre o gaúcho e o cavalo. Também é sofisma afirmar, sem qualquer restrição, que o dilema do patrulheiro era decidir entre a vida dos animais e vidas humanas. Quem garante que haveria acidente? Os carros não têm freios? Esta é a mesma lógica de quem mata outra pessoa na presunção de que poderá ser atacado por ela. Ou dos países poderosos que precisam exercitar suas máquinas de guerra.
Entre um animal e um ser humano, também fico com o ser humano. Mas prefiro que ele não porte armas, porque aí se torna demasiado onipotente e pouco humano.
No filme, um menino vê um cavalo ser sacrificado com um tiro. Mais tarde, já adulto, participa da tal maratona de dança com uma parceira desesperançada e autodestrutiva. Era a época da Grande Depressão, o mundo estava cinzento e a moça vinha acumulando reveses. Desiludida, mas sem coragem para abreviar uma vida que julgava sem sentido, ela entrega uma arma ao rapaz e pede que ele retire os cavalos da estrada...
Respeito opiniões divergentes, especialmente de quem já sofreu acidente por causa de animais soltos, mas não tenho dúvidas de que só uma sociedade brutalizada resolve suas pendências a tiros.
nilson.souza@zerohora.com.br
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6:27 AM
by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
25/03/2004
O estrangeiro
O pintor Glauco Rodrigues era de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, perto do Uruguai. Morava no Rio desde 1948, com um intervalo de três anos em Roma a partir de 62. De vez em quando voltava a pintar as tranqüilas paisagens da fronteira gaúcha e cenas dos campos de Bagé, no local ou de memória, e eram breves recreios pastorais da sua produção principal, que não podia ser mais cosmopolita.
Mas também eram uma maneira do Glauco reiterar sua condição de estrangeiro no desvario carioca e na colorida opulência brasileira, que ele retratava como ninguém, mas com um olho de quem não era bem dali, um olho bajeense e não-tropical. O próprio rigor técnico da pintura de Glauco era uma forma de não se entregar à loucura, por mais surrealistas que fossem as suas alegorias, e manter um certo recato gaúcho diante do Brasil.
Quando voltou de Roma, onde experimentara com o abstracionismo, Glauco encontrou o país em plena ditadura, e usou o distanciamento crítico como uma forma de retratá-lo. Comentei esta fase num livro da Salamandra sobre a obra do Glauco, que saiu em 1989. Sua volta ao figurativo coincidiu com a sua volta ao Brasil e ele reencontrou o figurativo e encarou o Brasil pós-64 através da metáfora, que é a arte do distanciamento. A metáfora era uma imposição das restrições da época, em que você precisava cuidar como dizia as coisas, mas era também um olho estrangeiro posto sobre os descaminhos da república. Quando se podia escrever pouco sobre a insensatez dominante, Glauco a botou nos seus quadros.
Nossa vocação autofágica reafirmada e ao mesmo tempo satirizada, com citações de quadros antigos e a evocação de toda uma memória gráfica nacional. Nosso passado e nosso presente juntos sob o mesmo olhar definidor. A convivência de brasis irreconciliáveis, PMs circulando entre os índios e pelas praias do Rio, todos sob a mesma luz, antes de Cabral.
Ninguém pintava, como o Glauco, a luz brasileira, o modo como ela fica difusa e branca na praia, a alta definição que proporciona às cenas da nossa loucura, ou ilumina os contornos de mulheres e frutas. Mas o olho preza a sua independência crítica acima de todos os prazeres do abandono. Não se entrega à luxúria brasileira, prefere a lucidez à luz. Afinal, a luz é culpada por grande parte do que somos. É a luz do paraíso, e aqui não é o paraíso.
Depois desta, vieram outras épocas. Há os famosos retratos que fizeram a sua reputação maior. As gravuras, as serigrafias, as moldagens em acrílico. Já se pode escolher uma época favorita do Glauco. Ele morreu na semana passada. Sua obra agora está completa.
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6:26 AM
by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
25/03/2004
Hora de decisão
Muito triste e muito grave a crise que explodiu ontem em Brasília, com a base aliada ao governo de Lula rebelando-se e exigindo claramente cargos e verbas para aprovar a medida provisória que fechou os bingos.
Aproveitando-se de uma séria letargia do governo, que não deslancha depois do escândalo Waldomiro, PMDB, PTB, PP e PL entraram em pé de guerra e estão uns a impor um peditório fisiológico e outros a exigir mudanças na política econômica.
Essa ofensiva tonitruante da base aliada se reveste da maior gravidade, tanto porque rói os alicerces do ministro Antonio Palocci quanto porque por trás da rebelião há uma espécie de súplica para que seja afastado do cargo o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
Nos meios parlamentares de Brasília ontem, era insistente o boato de que poderia cair o ministro José Dirceu.
Numa prova de que os aliados estão a minar a posição de José Dirceu, o líder do PP, deputado Pedro Henry, chegou ao cúmulo de em conversas reservadas afirmar que tinha "saudade do Waldomiro", insinuando que o ex-assessor que foi protagonista principal do escândalo da propina era mais competente para "relacionar-se" com as bancadas aliadas do que o ministro José Dirceu.
"Saudade do Waldomiro" incrivelmente é uma metáfora que define a crise política em que o país está envolvido, elegendo o fisiologismo como vetor da aliança que sustenta Lula no parlamento.
Com Lula decepcionado por não ter sido apreciada a MP dos bingos, logo em seguida o presidente ficou sabendo que no almoço realizado na casa do presidente do PL, o deputado Valdemar Costa Neto (SP), os membros de PP, PTB e PL colocaram claramente que queriam cargos e verbas.
O líder do PTB, José Múcio, para colorir ainda mais de chumbo a crise, deixou escapar à imprensa: "Aqui só se fala na saída do Zé Dirceu. Considero que seria uma perda, mas a situação beira a insustentabilidade. (...) Entramos em uma crise política há quase 40 dias e não conseguimos sair dela".
O trágico é que se pretende sair da crise extorquindo do governo cargos e verbas.
Ou o presidente cede às exigências dos aliados ou vira a mesa e o país pode mergulhar numa crise institucional, a célebre história de que "com esse Congresso não se pode governar", uma teórica desculpa histórica de Jânio Quadros para a sua renúncia.
O mais provável é que o presidente libere as verbas e os cargos exigidos pela base aliada, mas então ficará ainda mais reforçada uma idéia que se tinha já sobre o atual contexto: Lula é refém do Congresso e não pode mover uma palha sem satisfazer a ânsia fisiológica de seus aliados.
Cá para nós, está faltando atitude firme do presidente, ele pre |