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Sábado, Março 27, 2004




Um novo homem

Caio Blat conta que é vaidoso e que até aprendeu a avaliar maquiagem com o Abelardo de Da Cor do PecadoZean Bravo



Caio Blat vem observando as mulheres na TV e nas páginas das revistas com outro olhar, desde que começou a viver o maquiador Abelardo em Da Cor do Pecado. Hoje, reparo quem erra no tom da sombra ou não sabe combiná-la com o gloss. Boa maquiagem valoriza a expressão, ensina o ator. Ele conta até que treinou em casa algumas das excêntricas invenções do personagem. Abelardo não suporta maquiagem corretiva, gosta da decorativa. Só que no meio daquela família bagunçada, é ele quem usa cabelo penteado. Ele quer ser moderno, mas está sempre com um pezinho na breguice dos Sardinha, diverte-se Caio.

Ao contrário do personagem, o interesse por blush e brilhos labiais não faz de Caio um metrossexual expressão da moda, usada pelo ator para definir Abelardo, que junta as palavras metropolitano e heterossexual. Metrossexual é o homem hetero que tem comportamento de homossexual. Abelardo é homem, do jeito dele, e não se dá ao luxo de sair se explicando¿, diz o ator, que gostaria de manter a desconfiança dos Sardinha sobre a sexualidade do maquiador. Ele só deve arrumar namorada no fim da novela. Os irmãos já encontraram bilhetinhos e camisinhas nas coisas dele. Esse preconceito é ultrapassado.

Hoje, os tempos são outros. Até machos mais ortodoxos estão assumindo certos cuidados com a estampa. Para gravar, Caio faz escova e usa maquiagem. Fora da TV, ele lida de maneira tranqüila com a vaidade. Se é para fazer estilo bagunçado com o cabelo, é para ficar milimetricamente desfeito. Só não chego a fazer unha, limita Caio, que pensa o que vai vestir. Gosto de ter meu estilo, usar roupa combinando, com bom caimento, e uma sandália legal, completa o ator.

Com seu jeitão sossegado, Caio desfaz rótulos. Deve ser horrível o ator ficar marcado por um tipo, não fugir dele mesmo. Consegui ser versátil. Fui mocinho romântico, sedutor, vilão e o esquisito da casa, lista. Se Abelardo fosse gay, seria simples. Ele tem afetação, pose e tenho que ficar atento a cada cena.



Na novela, Abelardo sofre com preconceito

Movido a trabalho, Caio discorre com o mesmo entusiasmo sobre o personagem da TV, seu grupo teatral em São Paulo e os planos de encenar Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski. Não sou ator cabeça nem galã. Caí para o lado dramático, denso e agora descobri que faço comédia.

Caio se diz impulsivo e apaixonado Minha mãe fica de cabelo em pé, diz que sempre quero dar o passo maior que a perna e preza a liberdade. Tenho dois lados. O independente, que gosta de ensaiar a peça a noite toda. O outro sabe que tem a mulher que ama em casa cuidando do neném, conta, referindo-se à mulher, Ana Ariel, e ao filho adotivo, Antônio, de um ano, que moram num sítio em Campinas. Não sou de saudade. Quando estou fora, não fico remoendo. Mas lá é meu porto seguro, tem cheiro de cafezinho de casa. Eu me alimento muito dessa vida dupla.

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Papo de mulher

Hip hop ganha versão mais bonita e não menos engajada com a adesão cada vez maior de moças
Clarissa Monteagudo



As irmãs Cláudia (E) e Denise (à frente), Fernanda (esquerda), Malizi e Quênia: Anastácias só reclamam da azaração no Rio

Aos 20 anos, Patrícia La Scalea Santos Vieira não se arrepende de ter trocado a faculdade de Direito pelas carrapetas e sua maior paixão: o hip hop. Residente da boate Nova, membro da equipe que acompanha os percussionistas do AfroRio e, a partir do dia 13, anfitriã de evento de uma festa de hip hop às terças-feiras no Ballroom, a DJ tornou seu nome artístico uma provocação: Typá, o contrário do apelido habitual, Paty. Eu sou mesmo o oposto das patricinhas. Ganho hoje mais do que se estivesse formada. E me sustento, deixa claro.

Typá é exemplo do quanto as mulheres têm deixado sua marca no antes machista ambiente do hip hop. Elas devolvem com firmeza e sem desmanchar o penteado as provocações masculinas das letras de rap.

Atração do último Prêmio Hutús por conta do rap Mulheres Heroínas, as meninas do grupo gaúcho Anastácias mudaram radicalmente quando conheceram as rodas de break de Porto Alegre. Escravas de alisantes, elas agora ostentam belas cabeleiras modeladas por permanente afro ou trancinhas rastafári.Mas tentam não cair nos lugares-comuns. Rapper não tem que chorar o tempo todo. Muita gente do hip hop também julga por aparência, diz Malizi altura, corpão e cabelos que lhe dão estampa de modelo. Se você se produz, é a Pati do rap, debocha.

As garotas do hip hop, como as cariocas do Negaativa e N.R.C., não poupam sola de sapato. A agenda de shows inclui comunidades de toda a cidade. A gente procura passar mensagens políticas, de igualdade racial, conta Negra Rô, do N.R.C.. Apesar do discurso sério, elas recebem mesmo muita cantada. Canto até um rap sobre o assédio Esse Caô Ninguém Merece, da minha parceira de grupo Marcia 2Pac. Um cara já me chamou para o cantinho para conversar sobre a carreira dele no rap.

Outro me pediu que levasse um CD demo na casa dele. Ninguém merece, conta Negra Rô. A dançarina do Grupo de Break Consciente da Rocinha, Val, chama atenção nas rodas de break pela excelente forma. Mas a moça não quer ser apontada por isso: Não é justo aplaudir porque é mulher. Eu encaro qualquer homem na pista. Duvida?



Val: aulas para crianças carentes na Fundição Progresso e viagem à França

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A Crise dos Pais Imperfeitos

"Talvez seja a hora de propormos a volta da família real e a criação do parlamentarismo, para o bem de todos"

Todo adolescente passa por uma crise muito pouco diagnosticada. Vou chamá-la de "Crise dos Pais Imperfeitos", que surge quando o adolescente descobre que o pai e a mãe não são as pessoas perfeitas que eles imaginavam.

Embora muitos pais nunca tenham insinuado nada nesse sentido, os próprios filhos os idealizam como perfeitos. Como a maioria não o é, mais dia menos dia ocorre a grande decepção.

Muitos pais pioram a situação dando a entender que nunca erram, que sabem tudo e que são, em suma, o máximo. Até o dia em que o mundo desaba, e a verdade nua e crua aparece: ninguém é perfeito.

A maioria dos jovens sonha em ter pais perfeitos para sempre, um governo perfeito a cada eleição, em criar um mundo perfeito sem injustiças, onde até os grandes planos de governo funcionam porque serão sempre perfeitos.

Essa crise traz também uma enorme insegurança pessoal. A redoma de vidro do pai herói e da mãe heroína se desfaz. Uma crise dessas mal resolvida pode se agravar e se transformar em desilusão, desânimo, o que pode levar à exclusão social e à perda de ambição. Pode também levar à depressão, às drogas e, finalmente, ao crime, já que o mundo não é mais perfeito. Pode gerar desobediência à autoridade paterna, contestação e revolta contra os pais e as instituições que eles representam. Um perigo para a democracia.

É uma revolta injusta contra os pais, já que ninguém é perfeito, e que se manifesta como uma recusa de fazer parte da sociedade de forma construtiva e incentiva a inserção social de forma destrutiva e violenta. Jovens se recusam a participar desta sociedade de várias maneiras, que prefiro não enumerar. Um dos sintomas é exagerar no intento de "ser diferente", quando o normal é se inserir na sociedade sendo inovador e criativo.

Por isso uma separação na família é tão devastadora para a maioria das crianças, não por causa da separação em si, mas porque antecipa em muitos anos a "Crise dos Pais Imperfeitos". Quando ouvem o anúncio da separação, os filhos acabam tendo de lidar com duas crises ao mesmo tempo, e muitas crianças ainda são novas demais para aceitar a crise da imperfeição. Elas ainda precisam daquela imagem dos pais unidos na perfeição.

Muitos brasileiros, se não a maioria, na fase adulta, projetam esse desejo de perfeição no mandatário de seu país. Muitas vezes projetamos nos nossos governantes uma imagem do pai perfeito. Isso ocorreu em relação a Getúlio Vargas.

Novamente exigimos uma perfeição que não é justo exigir. A crise política pela qual estamos passando tem alguns contornos dessa "Crise do Pai Imperfeito". Exigimos uma perfeição do governo que Lula nunca prometeu, e ficamos profundamente decepcionados e desiludidos com o primeiro deslize que aparece.

Por isso, alguns países sabiamente mantiveram as suas monarquias. O monarca encarna aquela figura do pai perfeito, e, como ele não faz absolutamente nada, não pode causar a menor decepção. É uma figura preservada, todo mundo se sente seguro e feliz, e o país cresce. Segundo a revista Economist, monarquias pagam muito menos juros e são economias bem mais estáveis que outros regimes. O Brasil está parado economicamente desde 1998, devido às sucessivas crises políticas envolvendo importantes membros do governo.

Não estou defendendo a monarquia para o Brasil, mas, se essas crises políticas continuarem a paralisar a economia, talvez seja a hora de propormos a volta da família real e a criação do parlamentarismo, para o bem de todos. Assim, teremos estabilidade sem juros altos e a volta do crescimento econômico, a um custo bem menor.

Diga aos seus filhos que você, os políticos, o governo e nossos presidentes não são perfeitos. Eu sei que a maioria dos pais adora mostrar o contrário, adora ganhar do filho num drible de futebol, com medo de que descubram a verdade. Posso garantir que eles já o achavam perfeito muito antes de você se mostrar. O que eles precisam aprender é a verdade.

Portanto, mostre aos seus filhos que você não é perfeito. Ensine que não há utopias perfeitas, somente imperfeições a serem corrigidas. Comece de preferência nesta semana, aos poucos, para não assustá-los.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)

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Diogo Mainardi
A solução para o crime

"Não há por que manter o monopólio do Estado sobre a segurança pública. Sobretudo quando o Estado presta um serviço deplorável como o nosso. Chegamos ao ponto em que mercenários estrangeiros poderiam ser mais confiáveis do que a polícia"

Os mercenários responsáveis pelo policiamento civil no Iraque pertencem à Dyncorp. Mil homens. Cuidam do recrutamento de policiais, da reforma do Judiciário e da montagem de cadeias. É gente altamente qualificada. Cada mercenário possui um mínimo de dez anos de experiência investigativa nos Estados Unidos. Para ser contratado, precisa superar uma corrida de obstáculos, arrastar um boneco de 84 quilos e subir uma escada de 6 metros de altura com uma arma na mão. Custo? Cinqüenta milhões de dólares por ano. Ou seja, nada. Vamos trazê-los para cá.

A Dyncorp é empregada no policiamento de outros países estrangeiros. Recebe dinheiro da ONU para manter a ordem na Bósnia, em Kosovo e no Timor. Recebe também dos Estados Unidos para defender a vida do presidente afegão Karzai e para combater o tráfico de drogas na Colômbia. Uma das críticas recorrentes a George W. Bush é que ele privatizou o Exército americano, estimulando o crescimento de companhias de mercenários como a Dyncorp. Bom para nós. Assim como a Ford fabrica carros no Brasil, porque não sabemos fabricar carros, a Dyncorp pode vir policiar nossas cidades, porque não sabemos policiar.

Os pacifistas não gostam dessas companhias de mercenários. Vão logo lembrando que homens da Dyncorp derrubaram um avião de missionários no Peru e aliciaram prostitutas na ex-Iugoslávia. É verdade. Mas o paradoxo está justamente aí: nenhuma atrocidade que os mercenários internacionais possam ter cometido se compara à brutalidade cotidiana da polícia brasileira. Se os Estados Unidos terceirizaram o Exército, o Brasil estatizou o Esquadrão da Morte. Nossa polícia fracassou dos dois lados: aliou a mais absoluta truculência à mais absoluta incompetência. Nenhum país do mundo pode suportar mais de 40.000 homicídios por ano. O triângulo sunita é pouca coisa perto de nós. Num caso extremo como o nosso, é preciso reconhecer que a polícia é irreformável. É preciso partir do zero.

Estima-se que a criminalidade custe mais de 30 bilhões de dólares por ano ao Brasil. Dinheiro para contratar os mercenários não falta, portanto. Poderíamos colocar a Dyncorp para policiar as ruas. Os Gurkhas nepaleses para vigiar as cadeias. A MPRI nas fronteiras. A Vinnell nas estradas. A Custer Battles nas favelas. A CSC no rastreamento do dinheiro sujo. O resultado imediato dessa medida seria acabar com os velhos esquemas de caixinha da nossa polícia. Não há por que manter o monopólio do Estado sobre a segurança pública. Sobretudo quando o Estado presta um serviço deplorável como o nosso. Chegamos ao ponto em que mercenários estrangeiros poderiam ser mais confiáveis do que a polícia. Poderiam nos proteger melhor. Com uma vantagem adicional. Além de agir contra os bandidos, a Dyncorp se prepara para oferecer a seus clientes um escudo espacial contra meteoros. No Brasil, a morte vem até do céu.

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Garotada é prestigiada

Edmundo dificilmente terá condições de jogar e Gomes mantém Antônio Carlos e Alan no Flu
Marluci Martins



Ricardo Gomes esperava escalar Edmundo e Romário, mas o Animal voltou a sentir cansaço muscular

Edmundo não entra em campo desde o dia 21 de fevereiro. E tudo indica que ainda não será desta vez, contra o Americano, que ele vai voltar. Depois de Edmundo ter sido confirmado na equipe, pelo técnico Ricardo Gomes, ele amanheceu ontem sentindo dores musculares. Nem conseguiu participar do treino, com o grupo. Triste, não quis dar a entrevista coletiva, prometida na véspera.

Vamos esperar mais 24 horas¿, disse Ricardo Gomes, mas sem demonstrar muita esperança em contar com o atacante no jogo de hoje. Ele estava tão ansioso, vinha treinando tão bem, que eu até pensei em lançá-lo no jogo de quarta-feira, contra o Juventude.

Artilheiro da equipe, com nove gols na temporada, Marcelo aproveitou bem a nova chance que lhe foi dada de presente. No coletivo de apenas 18 minutos, marcou o gol de empate (1 a 1) com os reservas Júnior César fez contra e ainda acertou a trave.

O zagueiro Antônio Carlos, autor de um dos gols da vitória (2 a 1) sobre o Juventude, ganhou mesmo uma vaga na zaga. Assim, Rodolfo terá de sair do time. Alan, o apoiador que fez o outro gol no jogo de quarta-feira, também deverá ser mantido na equipe. Ele disputa uma vaga com Arouca, de apenas 17 anos.

Tantas modificações deixam Ricardo Gomes ainda mais preocupado:

Nosso time ainda está em formação, e vamos enfrentar uma equipe que já está armada há dois anos.

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Fantástica

Débora Bloch se renova aos 40 anos: casa de papel passado com Olivier Anquier e volta à TV depois de quatro anos
Marcelle Justo



Débora e Olivier: casamento formal após 13 anos de união

Às vezes, os rituais são mais importantes do que a gente julga. De repente, é legal você celebrar uma coisa que é bacana na sua vida. É por isso que, depois de 13 anos de união e dois filhos Júlia, de 10, e Hugo, de 6 , Débora Bloch resolveu selar o casamento com o francês Olivier Anquier, dono de padaria que virou apresentador de TV. A cerimônia, só no civil, foi sábado passado, na casa deles, no Jardim Botânico, sem que ela revelasse detalhes sobre a festa. Pelo simples fato de não querer holofotes sobre a união. Deixa isso para as pessoas que gostam, como a Luma, brinca a atriz, que estréia amanhã, no Fantástico, o quadro As 50 Leis do Amor.

Aos 40 anos, Débora não precisa mesmo apelar para conseguir seus momentos de destaque. Garota-propaganda de duas marcas fortíssimas um banco e uma linha de cosméticos , ela credita muito dos convites à sorte, mas sabe que imagem conta. Tenho um trabalho sério e persistente também fora da televisão. Encaro minha profissão com seriedade. E os convites são resultado da minha história, diz. Quando fui chamada pela LOréal, perguntei ao meu agente se eles não tinham se enganado de Débora. Foi o público que escolheu, numa pesquisa feita pela empresa, gaba-se a atriz, que minimiza a própria beleza.

Estou enganando bem, diverte-se a gulosa assumida, casada com um gourmet. É difícil fazer dieta com o Olivier. Tento ter alimentação equilibrada. Vida só com alface é muito chata, admite. Não sou escrava da vaidade, garante. Mas depois dos 30, quem não se cuida embroaca, decreta a atriz, que garante ter se afastado das novelas por iniciativa própria e não por falta de convites.

É difícil fazer dieta com o Olivier. Vida só com alface é muito chata

Com temperamento família, hoje Débora privilegia a rotina carioca ao lado do marido e dos filhos. Novela toma todo o tempo. Fico sem vida fora dali. Acordo, gravo, decoro, durmo. Com duas crianças, é duro. Reunião de escola, apresentação do balé, deveres de casa, pode esquecer. Não dá para participar da vida delas, lamenta a atriz, que diz se esforçar para ser uma mãe legal. Minha família tem um peso importante. Quero aproveitar meus filhos, curti-los bastante porque eles crescem rápido. Sempre que posso, faço programas: vou à praia, ao cinema, enumera.



Débora é estrela da LOréal

Na volta à TV, depois de quatro anos, Débora será Bia no novo quadro do Fantástico, ao lado do inseparável Diogo Villela e da também amiga Andréa Beltrão. Em cena, os três formam um curioso triângulo amoroso: ela trabalha junto com o ex-marido e a atual mulher dele num programa de televisão. Nos bastidores, os três saem no tapa. Está sendo uma delícia. O texto é do Alexandre Machado e da Fernanda Young, com direção de José Alvarenga Jr. (mesmo trio de Os Normais).

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Lya Luft
27/03/2004


Mutações versus tédio

Às vezes, quem sabe por falta de assunto, perguntam por que mudei, por que em lugar de romances de repente escrevi essa prosa do Perdas & Ganhos, ou do Pensar é Transgredir.

Não sei se indagariam a um pintor por que tem fase rosa, azul, cubista, figurativa, ou faz cerâmica, ou passa a esculpir. Mas pra escritor, perguntam. Como perguntam se ele acha que existe literatura feminina e masculina, mas duvido que questionem se há diferenças entre a pintura de Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Como dificilmente perguntariam a Yourcenar ou Lispector se um livro delas que começasse a vender muito não seria algo menor, mas a esta escritora alguém menos ilustrado de vez em quando ainda pergunta, sem pudor de revelar a própria ignorância.

Bom, então para me divertir aviso que ainda vou mudar muito mais: um livro infantil no segundo semestre, um de poemas no fim do ano, um muito misterioso no ano que vem, um romance em dois anos talvez, mais crônicas não sei quando, mais ensaios como os do Perdas em uns 10 anos, mais romance em 15, quem sabe humor em 20. Viva as mudanças: mas eu, sempre a mesma. Sem tédio, porque graças aos deuses, mudo.

Infância

Névoa encostada na janela,
qualquer coisa roçando o telhado,
e o medo que me contorna
- talvez simplesmente o vento.

A escada de sombra, a aventura
dos degraus, na curva de madeira
os passos de quem não vem
ou de um coração atento.

Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos;
alguém arranha a parede
- ou são apenas lembranças.

Algo sempre em movimento:
a vida arrasta as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?

(de Para não Dizer Adeus, inédito)


lya.luft@zerohora.com.br

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Ricardo Silvestrin
27/03/2004


Obviedades

Você já foi ver o filme tal? Repare no já foi ver. Como se fosse uma imposição. Algo a que todos estariam destinados a assistir mais cedo ou mais tarde. É só uma questão de tempo. E normalmente o filme tal é o mais engana bobo possível. Pois não fui e normalmente não irei. Mas uso aqui esse ar de obviedade, espanto e imposição da pergunta. Você já leu o Lero Lero, livro do Cacaso? Certo, quem é o Cacaso? Foi um dos poetas legais que publicaram seus livros no Brasil de 1967 a 1985. Começou a escrever numa fase em que todos sonhavam em ser o João Cabral de Melo Neto. Isso ali nos anos 60. Depois, já para o meio da década de 70, aparecem seus textos que, junto com outros poetas dessa década, ficaram conhecidos como poesia marginal.

Tirando o rótulo e bebendo a cerveja sem propaganda, essa poesia do Cacaso traz hoje um ar muito bom de respirar. Tem toda uma alegria de escrever, de ousar, de buscar um pouco da simplicidade de um Manuel Bandeira, por exemplo. Mas num contexto de outra juventude, com outros valores, outra sexualidade. Poesia com vida. Com reflexão rápida e precisa. Só com as palavras que se fazem necessárias.

Como naquela canção do desenho do Mogli: "necessário / somente o necessário / o extraordinário é demais". Um exemplo do Cacaso no seu poema Livre-arbítrio: "Todo mundo é toureiro / Cada um escolhe o / touro que quiser na vida / O toureiro escolheu o / próprio / touro". Maravilha. Universal. Pode ser traduzido para qualquer língua. Em qualquer lugar do planeta, basta ser um ser humano para ter que enfrentar as suas broncas, os seus touros.

Um outro poema, bem curtinho: "Outro amor? Não caio mais". Mais um com o mesmo tema: "Muitas mulheres na minha vida / Eu é que sei o quanto dói". São poemas-bombas, de efeito instantâneo. Condensam os significados em uma ou duas linhas. Mas abrem para o leitor uma série de ressonâncias, como uma pedra atirada ao lago. Cada um que encaixe seus amores desfeitos, que deixe o poema ecoar lá no fundo de tudo que estava só esperando a pedrada. Para os que adoram contexto histórico, tomem este: "Meu coração / de mil novecentos e setenta e dois / já não palpita fagueiro / sabe que há morcegos de pesadas olheiras / que há cabras malignas que já / cardumes de hienas infiltradas / no vão da unha na alma / um porco belicoso de radar / e que sangra e ri / e que sangra e ri / a vida anoitece provisória / centuriões sentinelas / do Oiapoque ao Chuí".

Ditadura, 1972, antes da distensão, as hienas infiltradas, os centuriões. Tem tudo isso e mais um pouco nesse livro que reuniu toda a poesia o Cacaso. Edição caprichada da Cosac & Naify com a 7 Letras. Leia e saia perguntando por aí com ar de obviedade.

ricardo.silvestrin@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
27/03/2004


Os últimos baluartes

A questão da segurança pública gira também em torno do mercado.

Quanto maior a aglomeração humana, maior a incidência dos roubos e dos furtos.

O único contrafluxo dessa regra é o que se verifica atualmente nas praias do Litoral, quanto menos pessoas habitarem as casas de veraneio, mais ladrões haverá para saqueá-las, constituindo-se num verdadeiro pesadelo o que ocorre nos dias de hoje: praticamente todas as pessoas que deixam suas casas vazias durante o inverno são roubadas em seus pertences.

Gramado e Canela se constituíam em ilhas de tranqüilidade para seus visitantes e moradores.

Lenta e perigosamente começam a ser atacadas pela cultura do assalto, dos roubos e dos furtos.

De uns dias para cá, fui tomando conhecimento de vários ataques de assaltantes em Gramado.

A nossa principal estância turística começa a ser ameaçada pela ação permanente dos ladrões, sendo essencial que a Secretaria da Segurança desenvolva profundos esforços no sentido de conter essa assustadora tendência.

Preocupo-me assim com Canela e Gramado na questão da segurança pública porque um dos principais atrativos turísticos na América do Sul é a segurança dos visitantes.

Perguntados sobre o que os atraía para visitar Punta del Este, o elegante balneário uruguaio, 40 turistas responderam a um jornal de lá assim: 1) a arquitetura, a beleza dos prédios; 2) a paisagem física da cidade, com as águas azuis ou verdes do Oceano e do Rio da Prata se debruçando sobre a península; 3) os restaurantes, lancherias e lojas; 4) a segurança pública, onde não havia notícia de nenhum atentado contra as pessoas nas ruas, com os pais deixando seus filhos nas boates e nos bares pela noite e madrugada, sem temerem nunca pela sua sorte, a par da ausência completa de mendigos e pedintes.

E deixaram claro os turistas que essa tranqüilidade quanto à segurança que os visitantes de Punta del Este gozam é exatamente inversa ao clima de medo que sentem nas cidades onde moram e de onde se originam.

Sem se aperceber, as pessoas que possuem casas e apartamentos em Gramado e Canela são e foram para lá atraídos justamente por essa atmosfera de segurança, de casas sem muros e cercas a separá-las, da absoluta despreocupação das pessoas em andarem à noite pela rua.

Mas quinta-feira mesmo Zero Hora publicou uma notícia de um assalto à mão armada sofrido por cinco turistas cearenses no centro de Gramado. Despojados das bolsas, das carteiras, máquina fotográfica, filmadora, cheques, cartões de crédito e documentos, os turistas prometeram não voltar mais à cidade.

E amiudemente me chegam notícias de assaltos na Serra. Por enquanto, ainda pode se afirmar que são fatos isolados, tanto que os turistas cearenses assaltados receberam no seu hotel de Gramado a garantia de que poderiam passear à noite sem problemas.

Só que começam a aparecer os assaltos por lá. E se constituem em alarmas consistentes, principalmente para as prefeituras da Serra, que devem se mobilizar para a parceria com a Polícia Civil e a Brigada Militar com medidas que visem a pôr cobro à ação dos assaltantes.

Não deixem que caiam a última cidadela segura do Estado, as estância serranas. O nosso maior e mais famoso pólo turístico não pode ser manchado pela insegurança nas ruas.

Se não sabem canelenses e gramadenses, a maior atração de suas cidades era justamente a segurança. Se ela decair, as cidades soçobram.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Sem sinal de chuva no céu do Rio Grande



Um Ximango voa ao entardecer em Porto Alegre, em mais um dia da seca que castiga o Estado (foto Mauro Vieira/ZH)


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Sexta-feira, Março 26, 2004




O nó da soja

Problemas climáticos, greve e praga prejudicam a produção do grão

João Paulo Nucci

Chuvas em excesso no Mato Grosso, seca no Rio Grande do Sul, porto paralisado no Paraná, praga em vários Estados. A soja, principal produto agrícola do País, vive seus dias de ressaca do crescimento. Depois de anos e anos de recordes, 2004 vai registrar um breque na produção. Os 52 milhões de toneladas de 2003 não serão superados. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima um resultado final de 51,5 milhões de toneladas ao final da colheita, em abril. Em janeiro, quando os problemas listados acima ainda não haviam dado as caras, esperava-se uma safra recorde de 60 milhões de toneladas.

Perdas fazem parte do jogo da agricultura, mas a magnitude do problema mais de oito milhões de toneladas perdidos assustou os especialistas. O plantio havia sido bom, o desenvolvimento inicial também. Os problemas vieram de repente, diz o analista de mercado e agrônomo da Agência Rural, Fernando Muraro. O governo já admitiu o prejuízo. O ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, disse que, apesar da quebra da safra, os altos preços do grão deverão compensar os produtores. Há 16 anos a soja não custava tão caro no mercado internacional. Culpa dos problemas enfrentados na lavoura dos Estados Unidos, o maior produtor do mundo, e do próprio Brasil, segundo no ranking.

A soja é o produto que mais traz divisas ao Brasil e permanecerá sendo em 2004, apesar das perdas na produção. No ano passado, as exportações atingiram US$ 8,1 bilhões o petróleo e seus derivados, a título de comparação, renderam US$ 4,9 bilhões. A previsão inicial era de que o grão e seus produtos o farelo e o óleo atingissem US$ 11,2 bilhões em vendas externas. Agora, a CNA fala em US$ 10 bilhões. Há uma perda em relação à previsão inicial, não na comparação com 2003, atesta o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Resultado à parte, Castro faz coro com os produtores na hora de reclamar das deficiências da infra-estrutura do País. O governo tem consciência dos problemas, mas a execução dos projetos é fundamental, afirma. A agricultura cresceu mais do que nossa infra-estrutura suporta, diz Getúlio Pernambuco, diretor do Departamento Econômico da CNA.

No Mato Grosso, Estado onde o próprio governador, Blairo Maggi, é produtor (e dos grandes), os fazendeiros resolveram arregaçar as mangas e construir eles próprios as estradas. As chuvas em excesso em algumas regiões do País terminaram de depauperar as frágeis estradas brasileiras. Já no Paraná, a situação se agravou com a greve dos operadores do porto de Paranaguá, iniciada há duas semanas e não completamente resolvida até a quinta-feira 25. A fila de caminhões parados superou 80 quilômetros. Por dia, 20 mil toneladas de soja deixaram de ser embarcadas no porto paranaense.

Câmbio O grão dourado que o brasileiro pouco consome, a não ser em formato de óleo, virou nosso principal produto agrícola no decorrer dos anos 90. Em 1996, quando a Lei Kandir isentou de impostos as exportações agrícolas, a produção deu seu primeiro grande salto. Três anos depois, no princípio de 1999, o real se desvalorizaria após cinco anos valendo o equivalente a US$ 1.

A soja virou ouro e criou pólos produtivos em lugares antes inóspitos, como o cerrado, o oeste baiano e o sul piauiense. Em pouco mais de uma década, nos transformamos no segundo maior produtor do mundo e, confirmadas as previsões para 2004, agora também no maior exportador. A lavoura do grão continua crescendo, inclusive em direção à Floresta Amazônica, para desespero dos ambientalistas. E os altos preços da atualidade devem continuar incentivando o plantio, apesar dos problemas de 2004.

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autor@paulocoelho.com.br

Da importância da solidariedade

O melhor produto da região

O fazendeiro conseguia ganhar todas as medalhas do Ministério da Agricultura, porque seu milho era de excelente qualidade. Intrigado, um jornalista resolveu ir até o lugar onde ele morava, pensando em escrever uma grande matéria sobre o segredo de tamanho sucesso.

Ali chegando, perguntou o que fazia para sempre produzir o melhor produto da região.

Muito simples respondeu o fazendeiro. No final da colheita, separo uma boa parte dos grãos, e distribuo entre todos os meus vizinhos.

O Jornalista ficou surpreso:

Distribuir aquilo que colheu? Será que o senhor não entende que os seus vizinhos também são seus concorrentes, e estão querendo produzir mais?

Será que o senhor não compreende que tudo é uma coisa só? Na primavera, o vento traz o pólen, e espalha por todo o lugar. Se meus vizinhos plantarem algo ruim, minha colheita será também afetada. Para ter o melhor produto da região, preciso fazer com que os campos ao lado mantenham a mesma qualidade.

Não posso fazer nada de bom na vida, se não estimular os outros a fazerem o mesmo.

No campo de concentração

O psiquiatra alemão Viktor Frank descreve sua experiência num campo de concentração nazista:

... no meio do castigo humilhante, um preso disse: Ah, se nossas mulheres nos vissem assim!.

O comentário me fez lembrar o rosto de minha esposa e, no mesmo instante, me jogou para fora daquele inferno. A vontade de viver retornou, me dizendo que a salvação do homem é por e pelo amor. Ali estava eu, no meio do suplício, e ainda assim capaz de entender Deus, porque podia contemplar mentalmente a face de minha amada.

O guarda mandou que todos parassem, mas não obedeci porque não estava no Inferno naquele momento. Embora não tivesse como descobrir se minha mulher estava viva ou morta, isto não mudava nada: contemplar mentalmente sua imagem me devolvia a dignidade e a força.

Mesmo quando retiram tudo de um homem, ele ainda tem a bem-aventurança de lembrar-se do rosto de quem ama e isto o salva.

O menino e a traição

O religioso gritava na rua: Não somos todos filhos do mesmo Pai Eterno? E se é assim, por que traímos nosso irmão?.

Um garoto que assistia, perguntou ao pai: o que é trair?

É enganar o seu companheiro para conseguir determinada vantagem, explicou o pai.

E por que traímos nosso companheiro?

Porque, no passado, alguém começou isto. Desde então, ninguém soube como parar a roda: estamos sempre traindo ou sendo traídos.

Então não trairei ninguém, disse o garoto.

E assim fez. Cresceu, apanhou muito da vida, mas manteve sua promessa.

Seus filhos sofreram menos e apanharam menos.

Seus netos nada sofreram.

A torre de Babel

As palavras são de Rufus Jones (1863-1468):

Não estou interessado em construir novas Torres de Babel, usando como desculpa a idéia de que preciso chegar até Deus. Estas torres são abomináveis; algumas são feitas de cimento e tijolos; outras são feitas com pilhas de textos sagrados. Algumas foram construídas com velhos rituais, e muitas são erigidas com as novas provas científicas da existência de Deus.

Todas estas torres, que nos obrigam a escalá-las desde uma base escura e solitária, podem nos dar uma visão da Terra mas não nos conduzem ao Céu. Tudo que conseguimos é a mesma e velha confusão de línguas e emoções.

As pontes para Deus são a fé, o amor, a alegria e a oração.

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Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
Arnaldo Jabor

Minha profissão é ver o mal do mundo. Um dia, a depressão bate. Não agüento mais ver a cara do Bush ostentando rugas na testa de preocupação com o nosso destino (que ele azedou), não agüento mais o Lula de boné dançando xaxado, não agüento ver o Sarney feliz, mandando no país, guardando o PT no bolso do jaquetão, enquanto os petistas, comunistas, tucanistas e fascistas discutem para ver quem é mais de esquerda ou de direita.

Enquanto o país afunda em violência e miséria, com o Estado sendo loteado entre esquerdistas sem emprego; não dá mais para ouvir que há transgênicos de esquerda ou de direita, principalmente quando ninguém consegue impedir as queimadas na Amazônia; passo mal também quando vejo a cara dos oportunistas do MST, com a bênção da Pastoral da Terra, liderando pobres diabos para a revolução contra o capitalismo, não agüento secretários de Segurança falando em forças-tarefa, em presídios perfeitos que não conseguem nem bloquear celulares, não suporto ver que o Exército se recusa a ajudar na repressão ao crime, com generais tão eficazes para arrasar a guerrilha urbana nos anos 70.

Não suporto a polêmica desenvolvimento x austeridade, planos B, C e D, tenho horror do Fome Zero, tenho enjôo com vagabundos inúteis falando em utopias, bispos dizendo bobagens sobre economia, acadêmicos rancorosos decepcionados com Lula, não agüento mais ver a República tratada no passado, nostalgias de tortura, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhuma idéia para nosso futuro, não tolero mais a falta de imaginação política, a retórica da impossibilidade sem saídas pontuais e originais, e vejo que a única coisa que acontece é que não acontece nada e que os juros baixos não acontecem nunca e penso: ¿Ahh... se os homens de bem tivessem a imaginação dos canalhas!¿.

Não aturo mais essa dúvida ridícula que assola a reflexão política: paciência x voluntarismo, processo x solução, continuidade x ruptura. Passo mal vendo político pedindo CPI para se lavar, deprimo quando vejo a militância dos ignorantes, a burrice com fome de sentido, o vice Alencar no bordão da queda dos juros, e o Palocci dizendo que não dá pé. Tenho engulhos ao ver essa liberdade fetichizada que rola por aí, produto de mercado, ao ver êxtases volúveis de clubbers e punks de boutique, livres dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas, querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas.

Odeio recordes sexuais, próteses de silicone, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja fazendo competição entre louras burras e Zeca Pagodinho jogado numa cilada, detesto bingo, pitbulls, balas perdidas, suspense sobre espetáculo de crescimento, abomino a excessiva sexualização de tudo, com bombeiros sexy engatados em mulheres divididas entre a piranhagem e a peruíce, o sexo como competição de eficiência. Onde está a sutileza calma dos erotismos delicados?

Onde, o refinamento poético do êxtase? Repugna-me ver sorrisos luminosos de celebridades bregas, passo-de-ganso de manequim, saber quem come quem na ¿Caras¿, mulher pensando feito homem, caçando namorados semanais, com essa liberdade vagabunda para nada, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo, como crianças brincando num shopping, enquanto os homens-bomba explodem no Oriente e no Ocidente, não agüento mais cadáveres na Faixa de Gaza e em Ramos, ônibus em fogo no Jacarezinho e trens sangrando em Madri, museu de Bilbao, museus evocando retorcidos bombardeios, sem arte alguma para botar dentro, a não ser sinistras instalações com sangue de porco ou latinhas de cocô do artista.

Não agüento mais chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, gente afogada na Nove de Julho, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro dos pobres e destrói a religião negra da Bahia, enquanto formigueiros de fiéis bárbaros no Islã rezam com os rabos para cima. Não agüento mais ver xiitas sangrando, dançando e batendo na cabeça no tão esperado século XXI, enquanto Bush reza na Casa Branca e o Dick Cheney, sujo de petróleo, fala em democracia no Iraque.

Não agüento mais ver que a pior violência é o acostumamento com a violência, pois o mal se banaliza e o bem vira um luxo burguês. Não admito mais ouvir falar de globalização, enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo com bolinhas de tênis nos sinais de trânsito do Rio. Não suporto o sorriso de Blair, a cara constrangida de Colin Powell, as pernas lindas de Condoleeza Rice, que me excita ao pensá-la em sinistras sacanagens na noite de Washington. Não agüento cariocas de porre falando de política, festas de celebridades com cascata de camarão, matéria paga com casais em bodas-de-prata, evangélicos intocados pela lei, novas forças-tarefa, Lula com outro boné, políticos se defendendo de roubalheira falando em honra ilibada, conselhos de notáveis para estudar problemas sem solução, anúncios de celular que faz de tudo, até boquete.

Dá-me repulsa e lágrimas ver mulheres-bomba tirando foto com os filhinhos antes de explodir e subir aos céus dos imbecis, odeio Sharon e Arafat, a cara de sábia estupidez dos aiatolás, o efeito estufa, o derretimento das calotas polares, casamento gay, pedofilia perdoada na Igreja, Chavez e seus referendos, Maluf negando, Pitta negando, o Sombra negando, enquanto juízes corruptos reclamam do controle do Judiciário, e o Papa rezando contra a violência sem querer morrer jamais.

Não agüento mais Cúpulas do G7, lamentando a miséria para nada, e tenho medo que o Kerry, que tem uma cara duvidosa de ponto de interrogação, com aquele queixo de caju, perca a eleição, entregando o mundo à gangue do Mal. Tenho medo de tudo, inclusive da minha antiga e endêmica depressão, essa minha vã esperança iluminista. E tenho medo, acima de tudo, que as pessoas não agüentem mais a democracia e joguem o país de vez no buraco. Daí a dúvida: tomo cianureto no champanhe ou formicida com guaraná?

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Sorria, você está no Baixo

Concentração de bares na Avenida Armando Lombardi agita a noite da Barra e mostra que a diversão no bairro ultrapassa os limites de shoppings e condomínios
Clarissa Monteagudo



Baleiro, bate-papo na calçada, namoro entre os carros estacionados na rua. Comuns na Zona Sul e no subúrbio, essas cenas agora fazem parte do cotidiano da Avenida Armando Lombardi, na Barra, bairro mais conhecido pela combinação praia-shopping-condomínio. O movimento que chega a congestionar o trecho nos fins de semana, por volta das 23h vai do Quiosque do Crepe ao Shenanigans Irish Pub que, no formato dos bares da Irlanda, tem até competição informal de dardos. No Baixo Barra, as opções vão desde o som jovem e gostosa comida mexicana do Guapo Loco à tradicional pizza do Raul. Outros nomes famosos na noite já farejaram o potencial do lugar: dois casarões estão em obras para abrigar filiais da boate Bombar e do bar Devassa, ambos nascidos no Baixo que deu origem à série, o do Leblon.

Sócio do Quiosque do Crepe um simpático restaurante a alguns passos da Nuth , Peter Andrew, 33 anos, não se arrepende de ter assumido o negócio em abril do ano passado. A pré-noite é aqui. Até as 22h, vêm as famílias. Depois é a garotada, até as 3h, conta Peter. O forte da casa é o rodízio de crepes: em uma noite, o restaurante chega a vender 1.500 unidades. A gente vem pelo menos uma vez por semana. Aqui tem sabores exclusivos, explica o produtor de eventos Leonardo Piagiani, 22 anos, fã do de brigadeiro e do provençal steak (queijo, molho de tomate e filé).

Boa parte do burburinho do Baixo se deve à fila da Nuth, que fornece freqüentadores cansados da espera de horas a outras casas. Enquanto as meninas se equilibram nos saltos agulha e os homens fazem a primeira prospecção no terreno, formam-se mil teorias para o fenômeno na boate. Para mulher é mais fácil entrar, diz a dentista Graziele Machado, 22 anos. O tempo de espera varia de um minuto a uma hora e meia, explica a relações-públicas Cláudia Costa, 23. Passe livre, só com carteira de sócio. A social do lado de fora faz parte. Tem gente interessante aqui, completa Cláudia. E cheia de disposição.



Cerveja: No Shenanigans Irish Pub (Avenida Armando Lombardi 333, tel.: 2492-2798), o público varia entre 20 e 35 anos. O advogado Guilherme Borges, 32, e o administrador Leandro Belchior (foto), 28, reúnem amigos para jogar dardo e sinuca. O chope da Brahma é o mais pedido (R$ 3). A cerveja Guiness (R$ 15,50) também é vedete. Sextas e sábados, depois das 22h, é cobrada entrada de R$ 11 (mulher) e R$ 21 (homem) com bônus de R$ 10 (mulher) e R$ 20 (homem). Em outros horários, só se paga a consumação.



Badalação: Para garantir a entrada na Nuth (Avenida Armando Lombardi 999, tel.: 3153-8595), é bom ter um canal (conhecer um sócio da boate) ou disputar uma carteirinha com o gerente de marketing da casa. Sexta-feira, costuma haver shows de grupos pop da Barra da Tijuca antes de o DJ Bernard de Casteja (ex da Calígola) assumir as carrapetas. O hip hop é o ritmo preferido nas pistas. No segundo andar, tem restaurante e sinuca. Hoje R$ 30 (homem) e R$ 20 (mulher). Amanhã, R$ 50 (homem) e R$ 20 (mulher).



Crepes: O rodízio é a grande atração do Quiosque do Crepe (Av. Armando Lombardi 633, tel.: 2491-3281), endereço preferido do casal Vanessa Penna, 21, e Leonardo Piagiani, 22. Há duas opções: normal, com 29 sabores de crepes (R$ 15,90 de sexta a domingo e R$ 13,90 de segunda a quinta) e golden (R$ 18,90 de sexta a domingo e R$ 16,90 de segunda a quinta), que inclui o cobiçado recheio de nutella ¿ um delicioso creme de chocolate com avelãs.



Mexicano: Tequila, pista animada e comida mexicana. Esse é o Guapo Loco (Av. Armando Lombardi 493, tel.: 2491-5427, R$ 15, mulher, e R$ 30, homem). A freqüência é de universitários como Marcos Gomes (E) e Juarez Fialho. Se o cliente consumir mais do que a entrada, só paga a conta do bar. Domingo, a partir das 19h, tem promoção: ao pedir um prato, o cliente ganha um tíquete para repetir a dose de graça no domingo ou segunda-feira seguintes.



Pizza: Tradicional desde a fundação da primeira casa, há 30 anos, a pizzaria do Raul (Av. Armando Lombardi 583, tel.: 2493-2286) é freqüentada por gente de toda a cidade e jovens cansados das filas das boates. O pizzaiolo José Messias é o mesmo há 27 anos. Entre as novas criações do dono, Raul Madeira de Lei, 69, a pizza de queijo brie com damasco (R$ 29). Boa dica é dividi-la com a picante suprema, de pepperone (R$ 24).

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David Coimbra
26/03/2004


Seus donos de hamster

Sempre me recusei a correr em esteiras de academia. Porque as pessoas que correm em esteiras de academia me lembram os hamsters. Passo diante das vitrines das academias, vejo as pessoas se esfalfando na esteira, dá vontade de apontar:

- Um hamster gigante!

Acontece que considero o hamster um animal estúpido. Passa a vida correndo naqueles globos de arame, sem ir a lugar algum. Além disso, ele não serve para nada. Não interage. Não é de comer. Nem sequer reconhece o dono da mão que o alimenta.

No entanto, há muita gente que tem hamster por aí. Por quê? Respondo: para ter com o que se preocupar. O hamster é um tamagoshi peludo. Seu dono fica ali, cuidando dele, limpando suas fezes, sem jamais receber algo em troca, nem mesmo um olhar de agradecimento. Aí, o hamster morre e seu dono fica abatido. Enterra-o no fundo do quintal com uma lágrima pingente dos cílios.

Mas aquilo não é amor. É apenas preocupação sublimada. Pois às vezes a preocupação leva ao afeto, e não o contrário. A pessoa se preocupa tanto com um objeto, tanto, que, para justificar sua angústia, passa a amá-lo.

Assim o automóvel. Verdade, os automóveis são mais úteis do que os hamsters, mas a paixão dos motoristas por seus carros supera em muito a dimensão utilitária. É que o automóvel dá o que pensar. Ele é espaçoso, precisa ser colocado em algum lugar. Ele exige horas de preparação do motorista para manejá-lo. Ele há de ser abastecido, banhado e lubrificado como se fosse um recém-nascido. Então, o automóvel passa a valer mais do que valeria um mero meio de transporte. E, dentro dele, o motorista se sente um ser superior. Ele domina aquele objeto precioso. Ele tem o poder.

Esta semana, um patrulheiro sacrificou dois cavalos que troteavam por uma rodovia. A maioria dos motoristas aplaudiu. Não por acaso. Porque aquele gesto representou mais do que uma ação em nome da segurança no trânsito. Representou a vitória cabal do automóvel sobre o meio de transporte do qual foi sucedâneo. Representou a admissão de que o motorista pertence a uma casta superior, privilegiada, prenhe de necessidades sempre prioritárias. Os motoristas, suas auto-estradas, seus viadutos, sua pressa. Não passam de donos de hamsters.


david.coimbra@zerohora.com.br

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Gabriel Moojen
26/03/2004


Eu na Costa Brava
Foto(s): Arquivo Pessoal/ZH


Conquista

Um dia a coisa vira e o que era sonho se transforma em realidade. Foi assim em toda a minha vida. Persistência e paciência. Anos plantando e meses colhendo frutos. Desde o tempo da TVE. Anos ali, e veio o Patrola, a RBS. Cinco anos no ar e muito sucesso na nossa aldeia. Então a novidade. Dia 7 de maio o Patrola estréia como nacional, no canal Multishow. Na terça, fomos na coletiva de lançamento no Jockey Club do Rio. Apresentados à imprensa nacional ao lado de Paulinho Vilhena, Danielle Suzuki, Lorena Calábria e as outras estrelas.

Foi uma boa conquista. Não só para nós, mas para todo mundo que faz alguma coisa aqui no Sul. Porque o Patrola não é um programa meu ou da Mauren ou de quem quer que seja. Esse programa é do Sul, de você, do seu vizinho, de sua banda preferida, seu artista predileto. É nisso que está o nosso mérito. O que a gente faz aqui, eu, você, todo mundo, vai ter alguma repercussão nacional. Sempre eu me perguntava, será que o Brasil nunca vai saber dessa história que estamos fazendo? Agora vai. Vamos.

Na real, nossa vida não vai mudar muito. Eu vou continuar andando de bicicleta pela cidade, indo para Rainha do Mar, ao Ossip, ou seja, não vou precisar ir embora desse lugar que eu moro e nasci para fazer algo um pouco maior. Porque o Patrola já é grande e não é por isso. É para tentar fazer as pessoas acreditarem que sonhos acontecem. Que o caminho é longo e a vida pequena, que com força, coragem, determinação, ousadia a coisa anda. Como diria o Chico Science, um passo para frente e não estamos no mesmo lugar.

Assim me sinto. Feliz por mais um capítulo virado. Mas o que mais me dá coragem é saber que essa história não termina aqui. Que nessa conquista se resume apenas um fim de um ciclo e o começo de outro. Que sempre, por mais que a gente faça, por mais que a gente ande, tudo é um eterno recomeçar. Quando a gente pensa que acabou, tá só no começo. E tenho a mais absoluta certeza que vai ser sempre assim. Como diria o velho ditado, o caminho se faz caminhando. Não existe nada pronto e sim exemplos. Que sirva nossa façanha de modelo a toda terra.

Hoje mando um obrigado em especial. A você que me lê. Que me assiste. Que acompanha essa trajetória. De maio para frente nossa turma será maior. E espero que você traga mais gente para fazer parte dessa história chamada vida. Geração hoje. Que briga, se arrebenta, conquista e deixa marcado o porquê de se fazer arte cultura moda música poema comportamento aventura no século 21. Fui e me escrevam.

gabriel@rbstv.com.br

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Mauren Motta
26/03/2004




Foto(s): Júlio Cordeiro/ZH

Fora dos padrões

Domingão de sol, almoço com amigos no Barranco. No clássico restaurante, polenta, picanha e salada do carrinho não podem faltar. Agora imaginem que na mesa ao lado uma pessoa fala de uma cirurgia recém feita e mostra as cicatrizes. Plástica no rosto e silicone. Tudo bem, as pessoas estão cada vez mais enlouquecidas atrás da beleza ideal. Mas acho que tem hora e lugar para esse assunto. Discrição é a alma do negócio. É ótimo querer melhorar e ficar mais bonita. Agora, ficar o tempo todo falando de regime, botox e contando calorias é chato demais! Não adianta nada ser linda sem cérebro.

Semana passada, fui jurada de um concurso de beleza em Erechim. Por sinal, a estrada, nessa época, é uma das mais das lindas. Parece uma pintura de Van Gogh. Sentado ao meu lado, Werner Schünemann comparava gaúchas e cariocas: "No Rio todo mundo tem peitão por conta da onda do silicone e corpo malhado por causa da praia. Aqui a beleza das gurias é diferente, todo mundo tem rostinho de princesa e corpo ainda natural". Ainda bem, porque não é fácil ser conterrânea da Gisele. Morar em um lugar onde tem tanta mulher bonita é um paraíso para os homens e um pesadelo para as mulheres. A gente vive concorrendo umas com as outras. Os homens nem precisam fazer muito esforço. É comum ver uma garota tri gata ao lado de um carinha bem meia-boca. Já o contrário é difícil!

Acho que pra ser feliz a gente não deve acreditar em tudo o que vê na tela, na passarela ou estampado nas revistas. Esse povo é exceção, não regra. Sempre fui gordinha, desde pequena esse assunto me incomodou. Entretanto nunca deixei de curtir a vida. Na adolescência, era aquele clássico engorda-emagrece. Depois dos 27 anos, cheguei ao meu limite, até que uma cirurgia de redução de estômago mudou minha história.

Claro que ainda falta perder peso, que não estou como gostaria de estar... Mas já deu uma melhorada. Por outro lado, acho que a gente tem que buscar a beleza dentro dos nossos padrões, não nos dos outros. Se esconder, ficar em casa só por causa de um quilinho a mais não tá com nada. Essa vida é curtinha e o tempo, precioso. Se não, a gente fica frustrada e muito infeliz! Beijocas light.

mauren@rbstv.com.br

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Paulo Sant'ana
26/03/2004


Uma eterna guerra

Um menino palestino de 14 anos foi detido anteontem numa barreira militar israelense na Cisjordânia.

Debaixo de uma larga japona, tinha amarrado no peito e nas costas um colete de alto poder explosivo, que seria acionado perto dos soldados da barreira ou junto a uma base militar próxima.

Neste mesmo posto de controle, na semana passada, um outro menor palestino, com 10 anos de idade, foi detido quando portava uma bomba de 10 quilos.

Desde o início desta última Intifada, setembro de 2000, 29 palestinos menores de 18 anos já cometeram atentados suicidas.

Esse fato dá uma idéia do trágico confronto em que estão envolvidos palestinos e israelenses nos últimos dias, agravando-se cada vez mais a relação entre os dois povos, às vésperas da retirada de Israel da Faixa de Gaza.

Há um sentimento de ódio e de vingança disseminado pelos corações de ambos os lados.

A execução extrajudicial por Israel do líder espiritual do grupo radical Hamas, Ahmed Yassin, atingido por mísseis de helicópteros israelenses à saída de uma mesquita, exacerbou os ânimos palestinos, que juram vingança e ameaçam fazer jorrar o sangue dentro do território inimigo.

Em Israel, há quatro dias, a segurança é reforçada e as ruas estão desertas, há uma certeza de que a qualquer momento haverá a retaliação.

Ocorre que os atentados suicidas tornam vulneráveis todos os lugares. Mesmo que as fronteiras estejam fechadas e elevada a vigilância nas representações diplomáticas no Exterior, há um sentimento agudo de que em alguma parte surgirá o terror.

Imagine-se como vivem os israelenses, tensos, evitando os lugares públicos e privados com aglomerações, reféns em suas casas e no trabalho de um medo permanente.

Do outro lado, entre os palestinos, não é outra a atmosfera, a qualquer momento Israel pode atacar.

Quando se pensava que a morte do xeque palestino fosse impor a Israel uma atitude defensiva, há três dias a cúpula militar e da segurança de Israel anunciou que todos os dirigentes do Hamas e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, estão na mira para serem também eliminados.

Como Arafat vive cercado em Ramalah pelas tropas israelenses, seu assassinato depende apenas de uma decisão do governo israelense, com o que o mundo pararia em transe se isso acontecesse.

Por outra parte, anteontem os palestinos anunciaram que sua meta é a eliminação do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, o que afunda esta guerra no mais sério impasse entre as duas partes, desde que após a Guerra dos Seis Dias uma carnificina brutal de atentados e bombardeios se instalou no Oriente Médio.

O conflito é mediado muitas vezes pelas nações mais importantes da Terra, mas nada convence a rivalidade.

Não há acordo, só ódio e vingança, as vítimas vão se empilhando e nos enterros delas há gritos furiosos por vingança no lado palestino, providências prontas de revide sangrento no lado israelense.

O confronto Israel-Palestina é a síntese desanimadora de que a história humana é inseparável da guerra e da destruição.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Saúde
Peregrinação por atendimento médico



Em carros da BM e ambulâncias, Êmila, de sete anos (foto), percorreu 271 quilômetros por postos de saúde e hospitais do Litoral Norte em busca de atendimento para o braço fraturado, mas só conseguiu ser atendida na Capital (Mário Brasil/ZH)


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Quinta-feira, Março 25, 2004




25/03/2004

Planalto cogita afastar vice-presidente da Caixa

09h01 - Para se proteger de novos escândalos que dêem sobrevida ao caso Waldomiro, o governo está disposto a afastar do cargo o vice-presidente de Logística da Caixa Econômica Federal, Paulo Bretas. Ele foi o principal negociador da renovação, por 25 meses e a um custo de R$ 650 milhões, do contrato do banco com a GTech para a gestão e operação do sistema de loterias do país.

O negócio está sendo investigado pelo Ministério Público Federal em procedimento cujo foco é a atuação da atual diretoria da Caixa e de três personagens: o ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz, o empresário de jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e o consultor Rogério Buratti.

A diretoria da Caixa tenta manter uma postura orgânica, de atuação em equipe, diante da possibilidade de o governo levar adiante sua estratégia de demitir para evitar problemas futuros. Essa, aliás, é a recomendação à investigação conduzida pela PF para apurar eventuais ilícitos praticados por Waldomiro: alertar para qualquer evidência de algo que possa vir a se transformar em crise, surpreendendo o governo.

Em depoimento à Polícia Federal, os executivos Antonio Carlos Lino da Rocha e Marcelo Rovai, respectivamente ex-presidente e diretor de marketing da GTech, disseram que Bretas telefonou para Rovai em 30 de março de 2003.

Na ligação, conforme o depoimento de Rocha, Bretas disse que "havia um problema, sem especificá-lo, para a assinatura do contrato, mas que o doutor Enrico Gianelli [advogado da GTech] teria conhecimento do mesmo".

Consultado pelos executivos, o advogado teria informado que seria necessário contratar os serviços do consultor Buratti para que fosse selada a renovação do negócio com a Caixa. Essa condição teria sido posta por Waldomiro Diniz em conversa com os executivos. A renovação aconteceu no dia 8 de abril de 2003, mas a GTech nega ter assinado qualquer contrato com Buratti.. À PF, Bretas disse que as pendências a que se referiu eram burocráticas e que só conheceu Buratti em setembro de 2003.

A vice-presidência de Logística é uma das mais importantes entre as nove que a Caixa possui. O governo chegou a acenar com a possibilidade de dividi-la em duas, dando uma ao PL. Com a crise gerada pelo caso Waldomiro, o fracionamento pode ser acelerado.

Da FolhaNews

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Reservas classificam Tricolor

Zagueiro Antônio Carlos e meia Alan marcaram gols que deram ao Fluminense a vitória sobre o Juventude e a vaga na Copa do Brasil
Marluci Martins



Roger ajudou o Fluminense a chegar a virada em cima do Juventude

O Fluminense dependia apenas do empate contra o Juventude, ontem, no Macaranã, para continuar na Copa do Brasil. O resultado de 2 a 2, no jogo de ida, em Caxias do Sul, deu a falsa impressão que, em casa, a classificação seria fácil. Ela até que veio, mas de maneira sofrível e, ao mesmo tempo, emocionante. Geufer abriu a contagem, aos 33 do segundo tempo. A torcida já vaiava o time, quando, Antônio Carlos, aos 42, e Alan, aos 45, viraram o jogo. O próximo adversário do Tricolor é o Grêmio.

Foi um primeiro tempo equilibrado. O Fluminense, reforçado de Romário, começou pressionando a equipe gaúcha, mas sem conseguir furar o bloqueio de uma defesa que atua com três zagueiros. Poucos lances despertaram a interesse do torcedor tricolor presente ao Maracanã. Num deles, Roger, de falta, quase balançou a rede. Eduardo salvou de tapinha.

Como só a vitória ou empate a partir de 3 a 3 lhe garantia a vaga, o Juventude mudou de tática. Ainda que na base do contra-ataque, os visitantes passaram a gostar da partida. Da metade da primeira etapa em diante, ditaram o ritmo.

Na saída para o intervalo, Romário, que pouco apareceu, analisou assim a atuação tricolor: O jogo está difícil. Eles estão atrás, explorando os contra-ataques. Temos de acertar, disse o Baixinho. Roger fez o mesmo diagnóstico. Mas não adianta se expor para sofrer contra-ataque, advertiu.

Na prática, quando a bola rolou no segundo tempo, não houve tática que desse jeito. Com Romário apagado e Roger errando passes, o Juventude ganhou espaços. Inconformados, alguns torcedores pegaram no pé até do Baixinho.

Aos 15 minutos, a casa quase caiu, com Donizete Amorim, que carimbou a trave. Ricardo Gomes trocou Juca por Alan. O Flu voltou a ganhar volume no meio-de-campo e mais opção de jogada. Mesmo assim, foi o Juventude que continuou a levar perigo.

De tanto insistir, o gol acabou saindo. Aos 33, Geufer concluiu, de cabeça, cruzamento da direita, no fundo da rede. Quando ninguém acreditava, só mesmo o canto pedindo a bênção João de Deus para clarear os caminhos tricolores. Eis que Antônio Carlos, substituto de Rodolfo (suspenso), surge, aos 42, para empatar. O alívio só veio no último minuto, através de Alan, que entrou no lugar de Juca: um golaço, com direito a drible no goleiro. Romário, no fim, deu razão à torcida. Ela estava certa em vaiar o time.

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Os homens nus
Beldades seguem exemplo de Juliana Paes e sugerem galãs para estrelar ensaios sensuais
Ana Lúcia do Vale



Se pudesse escolher, quando chegasse às bancas em maio, na capa da Playboy, Juliana Paes não estaria sozinha. Em entrevista à colunista Lu Lacerda, a Jaqueline Joy de Celebridade disse que sonhava com Marcello Antony, o Rodolfo de Um Só Coração, mostrando curvas numa revista para mulheres e dividindo espaço com ela nas bancas. Tradicional quando se trata de beldades que eles querem ver, Juliana iniciou o ranking dos pelados que elas cobiçam.

Recordista de capas da revista Sexy fez cinco, contando o novo ensaio, para abril , Viviane Araújo, 28 anos, também sabe quem gostaria de ver: Ricky Martin. A prostituta Eglantine, de Um Só Coração, que planeja virar cantora pop-dance em breve Tenho voz forte. Faço um estilo Jennifer Lopez aposta na latinidade do cantor. Sou fã do Ricky. Só meu marido, Belo, é que eu não queria ver pelado por aí, brinca, ciumenta.

Como Viviane, a apresentadora do Rolé, do Sportv (Net), Lívia Lemos, 20 anos, também descarta de cara o namorado Ronaldo da lista. Ele não, dispara. Lívia elege Rodrigo Santoro para o topo do ranking. Ele podia fazer as fotos numa praia, em Fernando de Noronha. Não precisava ser todo nu, mas ter uma prancha debaixo do braço, sugere Lívia, que é a capa de abril da Playboy justamente em fotos nas areias. Fiz uma praia chique, em Recife. Deu nervoso, porque não sou modelo. Mas faria de novo, diz ela, que espera a aprovação do namorado: Tomara que o Ronaldo goste.

Rodrigo Santoro também é o número um na lista da argentina Antonela Avelaneda, 21 anos, eliminada do Big Brother que já mostrou curvas duas vezes na Playboy. A mulherada toda gosta dele. Não precisava de nu frontal, porque perde a graça. Insinuado é melhor, ressalta. Motorizado nas fotos, Santoro seria melhor. Adoro homem de carro e moto. O Santoro faz esse estilo, suspira ela que, ao contrário de Juliana, jamais colocaria Antony em sua lista. Não acho o Antony o ó, cada um tem seu gosto. Mas o Santoro é muito mais sexy, acredita a argentina, que também compraria revistas com Marcos Pasquim e Ricardinho Mansur.



Poderiam colocar o Zulu como um americano, coberto de jóia e cheio de mulher - Tatiana, ex-Big Brother

O lutador Zulu, também eliminado do Big Brother, deixou saudade e tem fãs: ele foi lembrado pela também ex-participante Tatiana Giordano, 21 anos, que fez ensaio selvagem para a Sexy, numa fazenda. Quase não se vê um negão bonitão e charmoso por aí, elogia ela, que não hesita ao fantasiar o tema do ensaio dele. Poderiam colocá-lo como um negão americano, coberto de jóia e cheio de mulher em volta, diverte-se.

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Coisa de cinema

Regiane Alves fala da nudez em seu primeiro filme e da volta à TV, agora como moça sofredora
Zean Bravo

A garota de programa feita por Regiane seduz Rafa (Tiago Moraes) no filme

Uma ruiva nua nas dunas de Fortaleza tira do eixo os personagens de Juca de Oliveira e Tiago Moraes em Onde Anda Você, longa de Sérgio Rezende, dia 9 nos cinemas. Miragem? Segundo Regiane Alves, a ruiva em questão, essa é a idéia. Queria passar isso de miragem. Apareço como se estivesse sendo fotografada, quase como uma pintura. Mas fiquei um pouco assustada quando vi o filme. A tela dá outra dimensão, explica a atriz, que encarou sem neuras a primeira cena de nudez rodada antes de Mulheres Apaixonadas e do sofisticado ensaio da Playboy. Discuto a cena antes, penso nos detalhes. Na hora é tudo ok.

Em sua estréia no cinema, Regiane é a garota de programa Estela da Luz. Ela não explica porque entra nem porque sai. A cena da duna mostra isso. Estela é como o vento, simplesmente passa, diz a atriz, que poderá mostrar duas faces diferentes depois da consagração como Dóris. Começaram a me ver com outros olhos. Será bom aparecer como garota de programa no cinema e Julieta na TV.

Em maio, Regiane volta às novelas, no horário das seis, como Belinha, na nova versão de Cabocla. Como toda boa mocinha, ela vai padecer com o amor impossível que nutre pelo herdeiro da família rival à sua, interpretado por Danton Mello. Para mim é um momento perigoso. Todo mundo ainda tem a Dóris na cabeça. Vou ter que reconquistar o público, acredita.

Com cabelos alongados por megahair, Regiane adquiriu um ar romântico. As vilãs falam o que as pessoas não tem coragem. Foi bom fazer porque na vida real não sou assim. Mas será ótimo falar de amor nos tempos de hoje. Belinha vive meio um conto de fadas, destaca a atriz, que fez aulas de piano, caligrafia e equitação para a novela.

Aos 25 anos, Regiane é discreta fora do ar. Casada há mais de três anos com o diretor de TV André Binder, ela gosta de passar batida quando não está trabalhando. Não gosto muito de sair, sou caseira. Gosto de ler, ouvir música e ver DVD. Tornar minha casa pública não dá, reclama a atriz, que usa óculos de grau e prefere deixar a vaidade para suas personagens. Se andar sempre de escova, vou marcar muito minha figura. Uso tênis e calça jeans. É engraçado quando as pessoas me param na rua e dizem que pareço a fulana da TV, ri.

Frases

Queria que a cena de nu ficasse como uma pintura, mas me assustei quando vi o filme pela primeira vez. A tela dá outra dimensão

Nosso mundo é tão plastificado e mostrei que posso ter o peito daquele jeito, aquela barriga

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Agora é o Vitória

A festa gaúcha em Cascavel terminou em classificação. O Inter venceu o Prudentópolis por 2 a 0 ontem à noite e garantiu vaga nas oitavas-de-final da Copa do Brasil. Enfrentará o Vitória-BA, que ontem venceu o Sampaio Corrêa por 3 a 1 e teve Vampeta expulso. O confronto será nos dias 14 de abril e 5 de maio.

A classificação do Inter aconteceu em atuação irregular diante de adversário limitado. O time errou passes demais e Élder Granja se equivocou enquanto esteve em campo. Marabá, Wellington e Cleiton Xavier demoraram a engrenar. Em compensação, Chiquinho esteve inspirado. Acertou todas as jogadas e cruzamentos.

Os mais de 18,5 mil torcedores de todas as partes do Paraná que lotaram o Estádio Olímpico, saudosos do time, souberam esperar o gol. Ele aconteceu aos 42. Chiquinho cruzou com precisão. Nilmar, entre os zagueiros, pulou e marcou com o ombro e foi comemorado diante dos amigos na tela.

Logo aos dois minutos, Nilmar marcou o segundo. Chiquinho lançou Xavier pela esquerda. O meia cruzou para Nilmar, livre, no meio da área, pisou na bola e marcou o 2 a 0. Nilmar ainda acertou o poste aos 12 e completou a festa dos torcedores.

Élder Granja, a quem Lori Sandri havia pedido maior movimentação no intervalo, continuou errando. Irritou o técnico e foi trocado por Ederson. Só que o Inter realxou e se desarticulou.

Outro pênalti de Alexandre Lopes

Mais uma vez, Alexandre Lopes se precipitou e cometeu pênalti na área. Desta vez, porém, o juiz deixou passar. Aos 21 minutos, ao ser vencido por Edmílson no lado da área, empurrou o centroavante com o braço.

Com as dificuldades, Lori chamou Rafael Sobis, o herói de sábado. Entrou no lugar de Oséas. Quem brilhou desta vez foi André. Ele tomou o lugar de Clemer, com lesão no tornozelo. Na reestréia no Inter, André garantiu a classificação.

Aos 45 minutos, o centroavante Edmílson entrou a dribles na área e só não marcou o gol por causa de André. Edmílson quase estraga a festa dos colorados paranaenses.

Agora, o Inter volta a atenção para o Juventude. No domingo, pode perder por um gol até o 3 a 2 que passa às semifinais do Gauchão.

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Nilson Souza
25/03/2004


Mas não se matam cavalos?

Esta pergunta foi título de um romance que virou filme famoso no final da década de 60, traduzido por aqui como A Noite dos Desesperados. Jane Fonda, exuberante, é a personagem principal de uma maratona de dança pelo prêmio de mil dólares. Trágico e perturbador, foi um dos filmes mais marcantes da minha juventude. Pois me lembrei dele esta semana, ao ler a notícia sobre o patrulheiro rodoviário que atirou em dois cavalos na BR-116, próximo a Camaquã.

O que mais me chocou no episódio foi a quantidade de pessoas que deram apoio ao atirador. Sob o pretexto de que animais soltos representam risco para os motoristas, acharam que o soldado fez muito bem em meter bala neles. E o argumento do policial foi contundente: entre matar um animal e salvar uma vida humana, optou pela segunda alternativa. Tudo muito lógico, muito racional. Mas será que não tinha outro jeito?

Animais realmente podem causar acidentes fatais. Como não conhecem as leis do trânsito, andam na contramão e atravessam as rodovias fora da faixa de segurança. As estatísticas, porém, mostram que motoristas bêbados, distraídos ou imprudentes provocam muito mais acidentes com mortos e feridos do que cavalos e vacas. Com o agravante de conhecerem as leis do trânsito. Bala neles?

É um sofisma, reconheço, mas continuo achando inacreditável que a execução de um animal indefeso seja encarada com tanta normalidade num Estado conhecido pela relação quase fraterna entre o gaúcho e o cavalo. Também é sofisma afirmar, sem qualquer restrição, que o dilema do patrulheiro era decidir entre a vida dos animais e vidas humanas. Quem garante que haveria acidente? Os carros não têm freios? Esta é a mesma lógica de quem mata outra pessoa na presunção de que poderá ser atacado por ela. Ou dos países poderosos que precisam exercitar suas máquinas de guerra.

Entre um animal e um ser humano, também fico com o ser humano. Mas prefiro que ele não porte armas, porque aí se torna demasiado onipotente e pouco humano.

No filme, um menino vê um cavalo ser sacrificado com um tiro. Mais tarde, já adulto, participa da tal maratona de dança com uma parceira desesperançada e autodestrutiva. Era a época da Grande Depressão, o mundo estava cinzento e a moça vinha acumulando reveses. Desiludida, mas sem coragem para abreviar uma vida que julgava sem sentido, ela entrega uma arma ao rapaz e pede que ele retire os cavalos da estrada...

Respeito opiniões divergentes, especialmente de quem já sofreu acidente por causa de animais soltos, mas não tenho dúvidas de que só uma sociedade brutalizada resolve suas pendências a tiros.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
25/03/2004


O estrangeiro

O pintor Glauco Rodrigues era de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, perto do Uruguai. Morava no Rio desde 1948, com um intervalo de três anos em Roma a partir de 62. De vez em quando voltava a pintar as tranqüilas paisagens da fronteira gaúcha e cenas dos campos de Bagé, no local ou de memória, e eram breves recreios pastorais da sua produção principal, que não podia ser mais cosmopolita.

Mas também eram uma maneira do Glauco reiterar sua condição de estrangeiro no desvario carioca e na colorida opulência brasileira, que ele retratava como ninguém, mas com um olho de quem não era bem dali, um olho bajeense e não-tropical. O próprio rigor técnico da pintura de Glauco era uma forma de não se entregar à loucura, por mais surrealistas que fossem as suas alegorias, e manter um certo recato gaúcho diante do Brasil.

Quando voltou de Roma, onde experimentara com o abstracionismo, Glauco encontrou o país em plena ditadura, e usou o distanciamento crítico como uma forma de retratá-lo. Comentei esta fase num livro da Salamandra sobre a obra do Glauco, que saiu em 1989. Sua volta ao figurativo coincidiu com a sua volta ao Brasil e ele reencontrou o figurativo e encarou o Brasil pós-64 através da metáfora, que é a arte do distanciamento. A metáfora era uma imposição das restrições da época, em que você precisava cuidar como dizia as coisas, mas era também um olho estrangeiro posto sobre os descaminhos da república. Quando se podia escrever pouco sobre a insensatez dominante, Glauco a botou nos seus quadros.

Nossa vocação autofágica reafirmada e ao mesmo tempo satirizada, com citações de quadros antigos e a evocação de toda uma memória gráfica nacional. Nosso passado e nosso presente juntos sob o mesmo olhar definidor. A convivência de brasis irreconciliáveis, PMs circulando entre os índios e pelas praias do Rio, todos sob a mesma luz, antes de Cabral.

Ninguém pintava, como o Glauco, a luz brasileira, o modo como ela fica difusa e branca na praia, a alta definição que proporciona às cenas da nossa loucura, ou ilumina os contornos de mulheres e frutas. Mas o olho preza a sua independência crítica acima de todos os prazeres do abandono. Não se entrega à luxúria brasileira, prefere a lucidez à luz. Afinal, a luz é culpada por grande parte do que somos. É a luz do paraíso, e aqui não é o paraíso.

Depois desta, vieram outras épocas. Há os famosos retratos que fizeram a sua reputação maior. As gravuras, as serigrafias, as moldagens em acrílico. Já se pode escolher uma época favorita do Glauco. Ele morreu na semana passada. Sua obra agora está completa.

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Paulo Sant'ana
25/03/2004


Hora de decisão

Muito triste e muito grave a crise que explodiu ontem em Brasília, com a base aliada ao governo de Lula rebelando-se e exigindo claramente cargos e verbas para aprovar a medida provisória que fechou os bingos.

Aproveitando-se de uma séria letargia do governo, que não deslancha depois do escândalo Waldomiro, PMDB, PTB, PP e PL entraram em pé de guerra e estão uns a impor um peditório fisiológico e outros a exigir mudanças na política econômica.

Essa ofensiva tonitruante da base aliada se reveste da maior gravidade, tanto porque rói os alicerces do ministro Antonio Palocci quanto porque por trás da rebelião há uma espécie de súplica para que seja afastado do cargo o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Nos meios parlamentares de Brasília ontem, era insistente o boato de que poderia cair o ministro José Dirceu.

Numa prova de que os aliados estão a minar a posição de José Dirceu, o líder do PP, deputado Pedro Henry, chegou ao cúmulo de em conversas reservadas afirmar que tinha "saudade do Waldomiro", insinuando que o ex-assessor que foi protagonista principal do escândalo da propina era mais competente para "relacionar-se" com as bancadas aliadas do que o ministro José Dirceu.

"Saudade do Waldomiro" incrivelmente é uma metáfora que define a crise política em que o país está envolvido, elegendo o fisiologismo como vetor da aliança que sustenta Lula no parlamento.

Com Lula decepcionado por não ter sido apreciada a MP dos bingos, logo em seguida o presidente ficou sabendo que no almoço realizado na casa do presidente do PL, o deputado Valdemar Costa Neto (SP), os membros de PP, PTB e PL colocaram claramente que queriam cargos e verbas.

O líder do PTB, José Múcio, para colorir ainda mais de chumbo a crise, deixou escapar à imprensa: "Aqui só se fala na saída do Zé Dirceu. Considero que seria uma perda, mas a situação beira a insustentabilidade. (...) Entramos em uma crise política há quase 40 dias e não conseguimos sair dela".

O trágico é que se pretende sair da crise extorquindo do governo cargos e verbas.

Ou o presidente cede às exigências dos aliados ou vira a mesa e o país pode mergulhar numa crise institucional, a célebre história de que "com esse Congresso não se pode governar", uma teórica desculpa histórica de Jânio Quadros para a sua renúncia.

O mais provável é que o presidente libere as verbas e os cargos exigidos pela base aliada, mas então ficará ainda mais reforçada uma idéia que se tinha já sobre o atual contexto: Lula é refém do Congresso e não pode mover uma palha sem satisfazer a ânsia fisiológica de seus aliados.

Cá para nós, está faltando atitude firme do presidente, ele precisa sair dessa sua condição de animador de auditórios nos discursos que profere em eventos e aproximar-se da imagem de um estadista, de um homem que verdadeiramente comanda a máquina governamental.

Essa rebelião nada mais é do que o aproveitamento das bases aliadas para um vazio de poder que emana do Planalto, com José Dirceu fragilizado, querem substitui-lo por uma marioneta dos seus interesses, com Lula distante e afastado dos contatos com os parlamentares, desejam torná-lo em apenas um títere, mero representante e não protagonista dos desígnios da maioria organizada para tomar o poder.

É séria a crise. Será que Lula terá forças para superá-la, traçando claramente os indispensáveis limites de equilíbrio entre os dois poderes?
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Futebol
Inter classificado enfrenta o Vitória



Em Cascavel, diante dos colorados do Paraná, Nilmar fez dois gols e evitou o segundo jogo contra o Prudentópolis (foto Fábio Coterno, especial/ZH)


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Quarta-feira, Março 24, 2004




A TUA ESPERA
Autora: Cleide Canton Garcia

Sons delicados de mil violinos
espalhando ternura imensa no ar
misturam-se ao suave perfume
que coloquei
só para te esperar!

Com as cortinas cerradas, deixo abertas as janelas
para o frescor da noite envolver meus desejos...
Todo o cuidado é pouco e nada vai faltar:
esta noite reservei
só para te amar!

Velas acesas, tênue luz a brincar
com meus pensamentos que dengosos te chamam.
Vem, não demores, apressa teus passos...
Hoje preparei para ti
o melhor dos meus abraços!

Permito-me embalar pela doce emoção
de te sentir tão somente meu, tão próximo
que meu peito por ti brada e reclama,
pois sente que se acende
uma nova chama!

Brindemos à vida outrora esquecida
nos rumos traçados sem tanta emoção.
Brindemos ao acaso, ao antes, ao depois!
Brindemos ao que a vida reservou
para nós dois!

Vem correndo, amor! Nada mais nos separa!
Não temos passado, o futuro nos saúda,
e esta noite, te prometo, todos os sonhos realizar.
Vem, amor!
Estou pronta para te amar!

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CANSAÇO
Cleide Canton Garcia

Cansei de sofrer por ti!
Cansei dos meus olhos fundos
e da minha estampa apagada.
Cansei de desenganos,
de falsos sonhos,
de fantasias,
de lágrimas,
de dores.

Cansei de pensar em ti!
Cansei de desperdiçar horas sem fim!
Cansei do meu "eu" sem mim.
Cansei do calor do sol e do brilho do luar,
da chuva,
do vento,
do mar.

Cansei de viver por ti!
Cansei dos falsos anseios,
Da tua visão sem rumo,
da tua construção sem prumo...
Dos teus passos curtos,
da tua voz,
da tua figura,
do teu olhar.

Cansei de te amar!
Cansei de te ver passar
A me procurar.
Cansei das nossas músicas,
das nossas histórias,
dos amigos,
do ciúme
e do teu perfume.

Cansei desta solidão inútil
E desta espera prolongada!
Cansei de viver do ontem,
do presente sem amanhã,
do agora,
do depois...
Cansei de nós dois!

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Via-crúcis dentro do cinema

Cenas do filme A Paixão de Cristo impressionam espectadores no Rio, que só aumentam a polêmica sobre a crueza dos detalhes



A crucificação é um dos pontos mais fortes do filme de Mel Gibson. Ao ser preso à cruz, o corpo de Jesus está lanhado; cada prego é mostrado em close, com o som da perfuração na carne; o braço direito de Cristo é quebrado, e o sangue escorre como água até o chão. Agonia que parece não ter fim

Pegaram o espectador para Cristo. As fortes emoções provocadas pelo novo filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo, com cenas precisas das torturas sofridas por Jesus, estão fazendo o público se contorcer na cadeira do cinema. As mortes de uma mulher nos Estados Unidos e de um pastor em Minas Gerais, durante a sessão, aumentaram a polêmica em torno da produção e levaram muita gente a adotar cuidados para assistir ao longa-metragem.

Domingo uma mulher passou mal no Cinema São Luiz, no Largo do Machado. Foi socorrida por funcionários, enquanto o marido chamava um táxi. Policial de trânsito perto do Roxy, em Copacabana, o sargento Davi Marinho da Costa também fez sua boa ação por causa do filme. Ontem (segunda-feira) duas senhoras saíram no meio da sessão chorando. Coloquei-as sentadas até que o motorista chegasse. Pensamos em acionar o plano de saúde ou levá-las ao hospital. Mas elas melhoraram, contou ele, que fiscaliza o trecho desde 1992. Fiquei impressionado, mas quero assistir ao filme, entregou.

O pastor José Geraldo Soares, 43 anos, foi enterrado segunda-feira. Ele morreu ao lado da mulher e de outros pastores, em sessão especial, num cinema de Belo Horizonte. Ele sofreu ataque cardíaco fulminante.

Alguns idosos mais prevenidos seguem para a via-crúcis ao lado de filhos ou amigos. Preocupada com as cenas fortes, a bancária Anabel Lima, 37 anos, tentou dissuadir a mãe, Rosalina de Lima, 76 anos, de ir ao cinema. Não teve jeito. A saída foi acompanhá-la à sessão, ontem, no Cinema São Luiz. Estava preocupada. Houve um momento em que ela deu uma suspirada, e logo perguntei se estava bem. Mas deu tudo certo, comentou Anabel. Rosalina confessa que o coração disparou na crucificação. As cenas são violentas, mas fiéis à Bíblia. Aprovei o filme, decretou.

Zilca Silva, 85 anos, também foi escoltada ao Roxy, em Copacabana. Mas foi a acompanhante Eunice Santos, 41, que ficou mais assustada. Não volto mais, hein!, repetia Eunice à patroa. É muito violento, quase um filme de guerra. Fiquei angustiada e triste, mas como católica não podia deixar de ver, disse Zilca, firme e forte.

Já a dona-de-casa Arlete Gonçalves Ribeiro, 70 anos, desistiu de ver. Sei que vou ficar chocada e prefiro me poupar. Vou esperar passar na TV e, se for o caso, mudo de canal, encerrou.

O pastor Odalírio Luis da Costa, da Igreja Evangélica Congregacional de Acari, já ouviu até piadas sobre o assunto. Me perguntaram se eu havia visto o filme. E disseram: Cuidado! já morreram dois, e você pode ser o terceiro, disse ele, que vai ao cinema com a mulher e amigos.

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Vidrado na telinha do celular

Depois dos joguinhos, brasileiro começa a vivenciar real experiência de entretenimento no aparelho móvel
Mylène Neno



Foi-se o tempo em que celular era aquele tijolão esquisito que espantava as pessoas na rua. Hoje, cada vez mais integrados ao jeito de ser do brasileiro, esses aparelhinhos (sim, de tão pequenos quase escapam por nossos dedos) oferecem algo bem diferente da ligação numa situação de emergência de outrora. Através do tráfego de dados, o celular atualmente tem duas funções muito fortes: entretenimento e serviço de utilidade pública, acredita o gerente de conteúdo de dados da Vivo, André Mafra.

E é justamente na área de entretenimento que o usuário encontra mais novidades. Depois da febre dos ringtones, jogos, torpedos e fotos, o brasileiro começa a poder se divertir com as imagens em movimento na telinha do telefone móvel seja em downloads de vídeo ou em programas de TV transmitidos em tempo real! É claro que a performance do celular ainda é bem distinta da oferecida pela TV. São dois frames por segundo contra os 30 quadros da televisão, mas o usuário já tem uma certa sensação de movimento¿, analisa Mafra.

E para o executivo a tendência da convergência só tende a crescer. Depois das parcerias com gravadoras e estúdios de cinema, o próximo passo será o acordo com emissoras de rádio e TV, afirma, completando: O celular é um instrumento de universalização incrível, que já ultrapassou o número de linhas fixas ativas no Brasil. E o crescimento continua frenético, permitindo trabalharmos de maneira interativa, bem diferente dos modelos tradicionais de TV e rádio.

Se você é daqueles que já se irrita com a confusão de toques de celular em ambientes fechados, já pensou o que o aguarda com essas tevezinhas ambulantes?

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No campo e nos tribunais

Flamengo quer vencer o Tupi por mais de dois gols, hoje, para eliminar jogo de volta e se concentrar no julgamento de Felipe
Janir Júnior

Recuperado da conjuntivite, Felipe reforça hoje o Fla, diante do Tupi. O craque será julgado dia 31, por sua expulsão no jogo com o Botafogo

O Flamengo quer vencer o Tupi-MG, hoje, às 21h45, no Estádio jornalista Mário Helênio, em Juiz de Fora, por dois ou mais gols de diferença para eliminar o jogo de volta, na quinta-feira, pela Copa do Brasil. Mais do que evitar o desgaste da segunda partida, o clube pretende direcionar todos os seus esforços para o julgamento de Felipe, marcado para o dia 31, às 18h, no Tribunal da Federação, no Centro.

O camisa 10, praticamente recuperado de uma conjuntivite e confirmado para o jogo de hoje, foi expulso na derrota por 1 a 0, diante do Botafogo, na penúltima rodada da Taça Rio. Depois de receber o cartão amarelo por reclamação, ele atingiu Valdo e foi expulso. Apesar de na súmula o árbitro Ubiraci Damásio ter relatado o lance sem fazer menção à violência ou deslealdade (segundo ele, o jogador buscou atingir a bola), o clube optou pela precaução.

Já vi casos de uma pessoa entrar em uma Vara Criminal como testemunha e sair presa. Aconteceu com um amigo meu que é médico, comparou o vice de relações externas do Flamengo e representante do clube na Federação, o advogado Walter Oaquim, para demonstrar seu receio com o julgamento, mesmo com os relatos brandos relatados na súmula.

O responsável pela defesa do jogador será Michel Assef, que tratou da separação de Luma de Oliveira. Não correremos riscos. Esse assunto é de extrema relevância, completou Oaquim, que irá sugerir a presença do craque no Tribunal.

Para o jogo de hoje, Abel Braga levará a campo o mesmo time que conquistou a Taça Guanabara. Ontem à tarde, a equipe realizou um treinamento no Estádio Municipal, em Juiz de Fora. Como já era esperado, Felipe treinou e confirmou sua escalação. Seria bom que os adversários ficassem com medo de pegar conjuntivite e não chegassem perto, brincou o craque.

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Tudo na conta de Waldomiro

Sindicância da presidência acusa ex-assessor de irregularidades e tráfico de influência no próprio Governo Lula. Dirceu não é citado



Waldomiro Diniz foi responsabilizado por improbidade administrativa

BRASÍLIA - Sindicância do Palácio do Planalto responsabilizou o ex-subchefe da Casa Civil Waldomiro Diniz por improbidade administrativa e falta de ética. De acordo com a sindicância, que durou um mês, Waldomiro usou sua influência na Casa Civil para favorecer a renovação do contrato de R$ 650 milhões da Caixa Econômica Federal com a multinacional GTech empresa que opera suas loterias , tentou extorquir a empresa e pediu favores ao Hospital Sarah Kubitschek. O relatório diz que usou o cargo para lograr prestígio pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública.

O relatório isentou o seu ex-chefe, ministro José Dirceu, que não é citado nenhuma vez no relatório de 70 páginas e nem foi ouvido pela comissão. O documento diz que Waldomiro exonerado a pedido agia sem o conhecimento de seus superiores.



Ex-auxiliar de Waldomiro, Ana Cristina é apontada como conivente

Segundo a comissão, Waldomiro se encontrou três vezes com a diretoria da Gtech. As matérias tratadas nas malfadadas reuniões de Waldomiro com os representantes da GTech não guardam qualquer similitude com as atribuições do cargo que exercia, valendo ressaltar-lhe a apresentação, na condição de subchefe de Assuntos Parlamentares, diz o texto.

No Senado, o presidente da Caixa, Jorge Mattoso, afirmou ontem que o banco sempre foi absolutamente ético nas relações com a Gtech, que não usou intermediários e nunca recebeu Waldomiro, o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira nem o consultor Rogério Buratti, ex-secretário de Governo de Ribeirão Preto, na gestão de Antonio Palocci (Fazenda).

Outras irregularidades apuradas contra Waldomiro são o uso do funcionário Roberto do Amaral como motorista e até a apropriação indevida de uma coleção de livros doada para distribuição gratuita. Foram encontrados indícios de exercício de cargo público com desconsideração a princípios constitucionais expressos e implícitos que regem a Administração Pública.

A ex-chefe de gabinete de Waldomiro Ana Cristina Moraes também foi citada por furto de documentos e obstrução da comissão porque levou furtivamente a pedido da mulher de Waldomiro, Sandra ex-chefe de gabinete de Bispo Rodrigues (PL-RJ) e do advogado, Luís Guilherme Vieira a agenda dos encontros do chefe e os cadernos com registros de telefonemas dele. Ana Cristina também depôs ontem na CPI da Loterj, na Alerj.

O ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, não quis falar sobre o caso. O relatório não é para ser comentado, é para ser encaminhado às autoridades competentes. O advogado Luís Guilherme Vieira não quis comentar o relatório, mas reclamou que não teve acesso à sindicância.

Ontem, a Polícia Federal pediu à Justiça a quebra de sigilo dos telefones do Planalto que eram usados por Waldomiro. A decisão foi reforçada com a divulgação do relatório que confirmou reuniões de Diniz com executivos da Caixa.

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Martha Medeiros
24/03/2004


Bosco, o filho

A gente sempre espera que os filhos herdem as virtudes dos pais, principalmente o talento, no caso de os pais serem artistas. E muitas vezes este destino se cumpre: Fernanda Torres, Maria Rita e Julia Lemmertz são alguns exemplos entre muitos. Pois acabo de conhecer mais um fruto que não caiu longe do pé: Francisco Bosco, filho de João Bosco.

Chico, como é chamado pela família, não canta, mas compõe. Já fez muitas parcerias com o pai e também com outros músicos. Só que ele, além de canções, compõe também pensamentos. Estão publicados no livro Da Amizade, que é um livro de poemas, ainda que se enquadre também como um livro de aforismos. Ou seria um livro de filosofia? É difícil classificá-lo: é um bom livro, creio que isso basta.

Francisco Bosco é silencioso, discreto e elegante. Nunca o vi, nunca falei com ele, mas é isso que ele produz e transmite: elegância. Sei também que ele reverencia a leitura - Da Amizade celebra os livros. Não há como não concordar quando ele diz que "as livrarias são o consulado do leitor, um pedaço de terra natal em qualquer país estrangeiro". Ou quando opina: "há livros que berram, como as pessoas grossas". Ou quando filosofa: "Os livros não terminam agora, como os poemas/os livros têm fundos falsos, como a cartola dos mágicos/terminam depois - e aos poucos, sob hesitações".

O livro de Francisco Bosco não berra e não termina na última página: há coelhos que saltam da cartola depois da leitura. Ficam os pensamentos/poemas/aforismos/frases soltas - tudo o que ele escreve - sussurrando ainda por algum tempo em nossos ouvidos.

Ele é Francisco Bosco, 27 anos, filho de uma talentosa artista plástica e de um músico notável, e que herdou genes favoráveis à sua sensibilidade - o resto é dele mesmo. Talento: diferença espontânea - definição do próprio.

Poeta, ou filósofo, ou compositor, Francisco Bosco é, antes de mais nada, um jovem escritor que entra em cena com identidade própria e diferença espontânea, um cara que descobriu-se finalmente insatisfeito (que é o que nos torna escritores, segundo ele) e foi tratar de entender a vida através das palavras. "O livro é uma das possibilidades de felicidade que temos". Não, agora não é dele, é de Borges. Mas também está em Da Amizade, logo na abertura. E o que pode ser mais bem-vinda, a esta altura, do que uma possibilidade de felicidade?

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
24/03/2004




O Rolo na final de 44. De pé, a partir da esquerda: Assis, Nena, Ávila, Abigail, Ivo e Alfeu. Agachados: Tesourinha, Rui, Vilalba, Caho Peres e Eliseu
Foto(s): reprodução/ZH

A vingança de Salim
Amanhã, essa história de paixão e vendeta completa 60 anos.

Seu protagonista: o gremista profissional Salim Nigri. Que, não por coincidência, também faz aniversário em 25 de março. Aconteceu que, no dia em que comemorava 19 anos, em 1944, Salim decidiu ir ao amistoso do Inter contra o Vasco, no Estádio da Timbaúva. Nada para se espantar - na época, era normal gremistas assistirem a jogos do Inter e vice-versa, sem que com isso corressem riscos de espancamento por súcias de lutadores de jiu-jitsu.

Salim foi. O Inter perdeu. Surpresa - nos anos 40, o time do Inter, o poderoso Rolo Compressor, não perdia assim, no más. Salim considerou aquilo um presságio. Afinal, fora uma derrota do Rolo, testemunhada por ele, no dia do seu aniversário - como um presente. O ano de 44 só podia ser do Grêmio e dos Aliados, que haviam invadido a Europa pelas praias da Normandia e estavam prestes a submeter Hitler.

Salim viu suas previsões nas franjas da confirmação em outubro, quando o Grêmio obteve a mais trepidante virada da história dos Gre-Nais: perdia de 3 a 0 no primeiro tempo; ganhou de 4 a 3.

No Gre-Nal seguinte, o da decisão, Salim e Ilco Lisboa, um colega do Júlio de Castilhos tão gremista quanto ele, foram animadíssimos para o jogo, que ocorreria na mesma Timbaúva. Só que aí o Rolo não vacilou: venceu por 2 a 1 e instalou a taça nos Eucaliptos.

Salim e Ilco ficaram abatidos. Ilco reclamava: Salim lhe garantira que o Grêmio ia vencer, puxa vida! Na saída do estádio, atravessaram o campo onde jogadores e torcedores do Inter festejavam. Caminhavam em meio aos colorados, pacificamente, Salim carregando enrolada uma faixa azul em que pintara o V da vitória criado anos antes por Churchill.

De repente, passou um grupo que carregava o zagueiro Nena nos ombros. Salim e Ilco saíram atrás. Tomaram o zagueiro nos ombros, eles também. Posicionados sob o jogador do Inter, empreenderam sua vingança terrível. Ilco, dono de grandes e afiadas unhas, dedicou-se a beliscar violentamente as nádegas do zagueiro. Salim, com unhas bem cortadas, valeu-se do cabo da faixa para, com ele, assestar vigorosas cutiladas na região retal do aflito atleta colorado. Nena estrebuchava, gritava, saltava como se fosse um peixe vivo jogado na frigideira. Aos torcedores parecia que vibrava de alegria com a conquista. Aos amigos Salim e Ilco aquele era o doce som da desforra.

Parco consolo. O Rolo ainda conquistou mais um campeonato e Nena fez tanto sucesso que foi até convocado para a Seleção. Mas o Salim ainda hoje, na véspera de completar 78 anos, jura que o Grêmio jamais perdeu num 25 de março. E que o Inter jamais ganhou.


O velho bruxo alemão

Lá pelos anos 20 do século passado, um alemão de aspecto sinistro chegou a Hamburgo Velho. Diziam que tinha poderes sobrenaturais, que praticava curas impossíveis, que restaurava amores lesados, lançava anátemas. Meu avô o via vez em quando, caminhando lentamente pelas ruas empoeiradas do vilarejo, enrugado, encardido, encurvado, o único traço de vivacidade emitido pelos olhos onde relampejava alguma malíca, talvez alguma maldade.

Meu avô e um amigo depararam com o alemão à saída de um jogo de futebol em Hamburgo Velho. Meu avô era meia-direita do Municipal FC; o amigo dele, ponta. O estranho alemão assistia ao jogo da lateral, impávido. Eles se sentiam meio mal vendo com a esquina dos olhos aquele alemão sombrio ali, de pé, observando-os. Quando os rapazes se retiravam de campo, suados, ele parou o amigo do meu avô com um gesto de mão. Um gesto tão brusco quanto decidido. Os dois compreenderam que se tratava de algo sério.

- Você - disse com voz roufenha, apontando com um longo dedo indicador para peito do amigo do meu avô. - Preste atenção. Preste muita atenção.

Os dois estremeceram. Entreolharam-se. Deviam sair correndo e deixar o bruxo, antes que lhes rogasse uma maldição? Deviam chamar o time? Os pais? Ficaram, mais por curiosidade do que por coragem. Ele rosnou:

- Você - e de novo tocou com uma unha comprida o peito do pontinha do Municipal. - Você jamais deve comer laranja. Jamais! Entendeu? Jamais! Se algum dia você comer laranja, vai morrer! Vai morrer!

E se foi, arrastando os pés no barro das ruas sem calçamento, repetindo, em meio a uma risada maligna:

- Vai morrer! Vai morrer! Vai morrer!

Durante toda a vida, o amigo do meu avô ficou com aquela advertência lhe reboando na cabeça. Durante toda a vida, recusou-se a comer laranja, a tomar suco de laranja, a provar bolo de laranja. Via as pessoas deliciando-se com esse fruto tão atraente, salivava, sonhava que estava mastigando um gomo de laranja, mas nunca teve ousadia para desobedecer o velho bruxo alemão.

Mas, uma noite, ele já adulto, quarentão, casado, pai de filhos, bem de vida, morando em Porto Alegre, uma noite, ele, ao chegar em casa e encontrar a família inteira comendo laranja, família que nunca soubera da advertência do velho bruxo, família que se esbaldava numa festa amarela e sumarenta de laranja, nessa noite ele disse para si mesmo: chega! Decidiu: nessa noite, vou comer uma laranja.

Tomou de uma laranja redonda e de aparência apetitosa que encimava um cesto de vime. A mulher e os filhos olharam espantados. Achavam que odiava laranja. Mas ele pegou a laranja e a faca de descascar laranja. Descascou a laranja.

Comeu a laranja.

E morreu.

Os interditos não devem ser desafiados. Há razão para eles. O Grêmio não deveria tirar um jogador diretamente do Inter, sem negociar com a direção colorada. Um interdito eterno foi desrespeitado. Algo de muito ruim pode vir a acontecer.

Foto(s): Banco de Dados/ZH

Aí está uma foto rara do Rei. Ele pilchado, em Porto Alegre, sendo entrevistado por ninguém menos do que Maurício Sirotsky Sobrinho e Éldio Macedo, o Preto Poeta. O flagrante se deu em outubro de 1968, quando Pelé comemorava seu aniversário no Estado.

Semana passada, o Jones, aqui do Esporte, me presenteou com um belo livro sobre o Pelé, publicado pela Revista Placar. Lindo livro, fotos históricas, texto escorreito do meu amigo Sergio Xavier Filho.

No livro há um dado que refuta todas as teses de quem acha que Ronaldinho, Ronaldo, Kaká ou quejandos, em sua juventude, possam se equiparar ao Rei. É o seguinte: você sabe quantos gols Pelé marcou até os 21 anos de idade? Quantos? Mais de 500. Incomparável.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
24/03/2004


Supremacia exige compaixão

Eu não queria voltar ao assunto, tinha prometido a mim mesmo que não me referiria mais à orientação oficial para matar os cavalos que atrapalham o trânsito nas rodovias, mas foi tão grande a enxurrada de e-mails que recebi ontem, condenando a execução dos eqüinos, que não posso deixar de abordar o tema.

Além disso, estabeleceu-se uma forte e intensa polêmica aqui mesmo na Redação de ZH, os mata-cavalos de um lado e os compassivos de um outro, a discussão tomando conta já dos intervalos de trabalho nas últimas 48 horas, que ficou para mim impossível arquivar o assunto.

A um ponto tanto os fatalistas quanto os piedosos convergem: as estradas têm que ser desimpedidas dos seus obstáculos.

O cavalo é um dos perigosos óbices das estradas. Uma colisão de um veículo com um cavalo causa danos humanos muitas vezes irreparáveis.

Há que se desimpedir a estrada, a rodovia é como o espetáculo da vida: o show tem de continuar.

A esse respeito um leitor desta coluna foi muito elucidativo: no caso de uma jamanta que esteja impedindo o tráfego numa estrada, o procedimento correto do policiamento é implodi-la, seguindo o exemplo da execução dos cavalos?

Ou removê-la?

Ou seja, qual é a forma mais aconselhável de desimpedir uma estrada?

Sabem muito bem os policiais rodoviários o quanto são freqüentes nas rodovias loucos ou bêbados causando confusão no tráfego.

E qual é o procedimento para desimpedir uma rodovia cujo tráfego esteja sendo transtornado pelas gambetas e ziguezagues dos bêbados e dos loucos?

Pelos riscos que provocam nas estradas os loucos e os bêbados, há que eliminá-los como parece ser a orientação oficial com os cavalos?

Não, é claro que não, todos responderão, bêbados e loucos não são iguais aos cavalos.

E está exatamente nesse ponto centrada toda a discussão. Os que são favoráveis à execução dos cavalos pensam que, entre a vida humana que os cavalos arriscam na estrada e a vida animal que deve ser sacrificada pelos patrulheiros, o valor da vida humana é infinitamente maior.

E os que defendem outros métodos persuasivos ou técnicos para retirar os cavalos da rodovia, antes que exterminá-los a tiros, entendem que não é assim tão grande a diferença entre os seres vivos, sejam eles homens ou animais.

Recentemente, um estudo científico, oportuno para a questão de não se comer carne de gado na Semana Santa e sim de peixe, atestou que os peixes sentem dor.

Toda criatura que sente dor inspira compaixão. Todo ser que possui um centro nervoso tem de ser alvo de respeito à sua intrínseca dignidade.

É também importante para a discussão a supremacia do homem sobre o cavalo. Ou seja, pertence aos homens a sorte e o destino dos animais.

A esse respeito, o imortal Milan Kundera, no meu entender, profere uma sentença inapelável para os mata-cavalos nas rodovias, um dos mais altos rasgos da inteligência e sensibilidade humanas, um édito que parece vindo de Deus: "A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa ao nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras".

De tão inigualavelmente belo, definitivo.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Porto Alegre
Um novo personagem na paisagem da Capital



Supercuia, obra do artista gaúcho Saint-Clair Cemin para a Bienal do Mercosul, ficará próximo ao Parque Marinha (foto Júlio Cordeiro/ZH)


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Terça-feira, Março 23, 2004




Tarso defende fundo de financiamento da universidade
Agência Senado

BRASÍLIA - Em audiência pública na Comissão de Educação do Senado, o ministro da Educação, Tarso Genro, defendeu a criação de um fundo de financiamento das universidades brasileiras, composto por um conjunto de alíquotas que dê estabilidade ao ensino superior, "uma espécie de Fundef do ensino superior". Para Tarso Genro, não haverá autonomia da universidade se houver contingenciamento dos recursos, se o volume de recursos repassado às universidades não puder ser desenhado pela própria direção da universidade, se a universidade não puder ser previsível. O ministro defendeu também a ampliação do acesso à universidade pública com a busca da máxima possibilidade de ocupação territorial do país.

O ministro disse que é preciso reforçar, ampliar e "requalificar" a universidade pública que, "em média, é muito melhor do que a universidade privada". Afirmou que é preciso buscar um consenso mínimo na sociedade brasileira para se saber a qual projeto nacional a reforma universitária corresponde porque, segunto destacou, ela não é feita para os professores, para o governo, para o Parlamento, para os universitários, não deve atender ao interesse de uma classe ou corporação, mas a um projeto de nação.

Em resposta ao presidente da Comissão de Educação, senador Osmar Dias (PDT-PR), Tarso garantiu que a reforma universitária será feita através de projeto de lei, "o que não quer dizer que não seja enviada ao Congresso alguma política pública imediata, que tenha caráter de urgência ou relevância, por meio de medida provisória". E acrescentou:

- Fica nosso compromisso firmado de que a proposta de reforma do ensino superior vai ser enviada através de projeto de lei.

Em relação a outra preocupação manifestada por Osmar Dias, o ministro declarou que a universidade pública deve dar prioridade às regiões nas quais não há nenhuma universidade. A questão foi levantada pelo senador diante de matéria publicada no jornal "O Globo" segundo a qual 45% dos alunos matriculados nas universidades brasileiras estão em 20 municípios.

Ainda em resposta a Osmar Dias, Tarso Genro afirmou que não há intenção do governo de criar impostos para financiar o ensino superior. O presidente da Comissão de Educação é um dos autores do requerimento para a audiência pública sobre a reforma universitária. Os outros autores do requerimento são os senadores José Jorge (PFL-PE) e Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM).

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23/03/2004 - 15h59m
Planalto conclui que Waldomiro atuou para GTech

Bernardo de la Peña - O Globo

BRASÍLIA - A comissão de sindicância que investigou o ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz concluiu que, enquanto ocupava um gabinete no Palácio do Planalto, ele usou sua influência para negociar com executivos da GTech, empresa responsável pelas loterias da Caixa Econômica Federal, a renovação do contrato com o governo. Os cruzamentos de dados entre ligações, encontros e conversas mantidas por Waldomiro ao longo de 2003 mostram que ele atuou em favor da GTech.

A comissão entregou ontem à noite o seu relatório final ao ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo. No documento, os três servidores responsáveis pela sindicância apontam os caminhos que o governo deve adotar de acordo com o resultado das investigações.

"De todo o processo verifica-se que as matérias tratadas nas malfadadas reuniões do senhor Waldomiro Diniz da Silva com os representantes da GTech não guardam qualquer similitude com as atribuições do cargo que exercia, valendo ressaltar-lhe a apresentação, na condição de subchefe de Assuntos Parlamentares", escreveram os técnicos.

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23/03/2004 - 14h33m
Mattoso: 'Se alguém vendeu terrenos na Lua, a Caixa não pode ser responsabilizada'

Regina Alvarez - O Globo

BRASÍLIA - O presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, disse nesta terça-feira em audiência pública no Senado que não houve interferência externa para a renovação do contrato com a multinacional Gtech. Mattoso repetiu que não conhecia o ex-assessor parlamentar Waldomiro Diniz nem Rogério Burati, cuja empresa de consultoria teria sido imposta por Waldomiro como condição para renovação do contrato. Segundo o presidente da Caixa, cujo depoimento começou às 10h20m, a Caixa não pode ser responsabilizada por uma eventual negociação ilícita feita por quem quer que seja.

- Se alguém vendeu terrenos na Lua, a Caixa não pode ser responsabilizada. E se alguém comprou, a Caixa também não tem nada a ver com isso - afirmou.

No início da audiência, Mattoso fez um relato das ações da Caixa e disse que a renovação do contrato por 25 meses foi a melhor saída para a Caixa, que não poderia interromper o serviço de loteria prestado pela Gtech. Mattoso repetiu que a Caixa está aprisionada ao contrato pelas decisões judiciais favoráveis à Gtech.

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Enfim, separados



Agora é cada um para seu lado. Ontem, às 11h foi ao ar o último capítulo da tumultuada novela da separação de Luma de Oliveira (foto à direita) e Eike Batista (à esquerda). A 12ª Vara de Família do Fórum do Rio serviu de cenário para a homologação da separação consensual entre o ex-casal. Tudo correu exatamente como esperávamos, comentou Michel Assef, o advogado da musa. Protegido pela cláusula de confidencialidade, Michel não quis revelar detalhes da separação de bens.

O advogado do empresário, Sérgio Calmon, fez coro e limitou-se a dizer: Ela teve direito a tudo o que diz a lei, referindo-se ao regime de comunhão parcial de bens, no qual Luma herdará 50% de tudo o que foi adquirido desde o casamento, em 1991, até agora. Também foi definido pela juíza Mônica Feldman que a guarda dos filhos do casal, Thor e Olin, ficará com a mãe, e o horário de visitas do pai a eles.

Luma ficou satisfeita e assinou sem problemas, disse seu irmão, Mem, que acrescentou que ela voltará a usar o nome de solteira. Acompanhada por seguranças, Luma deixou o Fórum bem sorridente, enquanto o ex-marido, Eike, estava tenso.

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Bons lucros com vida saudável

Técnicas de relaxamento e combate ao estresse atraem mais clientes, gerando boas oportunidades de negócios
Silvana Caminiti

A busca por uma vida mais significativa e com mais qualidade é algo presente no dia-a-dia de um número cada vez maior de pessoas. Isso tem gerado boas oportunidades de negócios para empresas e profissionais que incluem entre seus serviços técnicas de relaxamento e combate ao estresse. Entidades ligadas ao setor estimam que o mercado do mundo zen movimente anualmente R$ 150 milhões, entre vendas de produtos e serviços ligados ao relaxamento físico e emocional.

No Rio, uma das empresas que atuam no ramo é a Corpo Zen, especializada na difusão e ensino de tai chi chuan e outras técnicas orientais, como a hatha ioga e a ashtanga, além de técnicas de alongamento. As aulas são tanto para formação de professores, quanto para pessoas que queiram aprender técnicas de relaxamento. O professor Márcio Lacerda, um dos responsáveis pela Corpo Zen, lembra que a empresa conta com duas unidades, uma em Botafogo e outra em Ipanema, e tem recebido cada vez mais freqüentadores.

O tai chi chuan é uma arte marcial chinesa. Em sua prática é empregada a serenidade e a concentração da atenção, com o objetivo de ensinar como usar a suavidade para vencer a dureza, e a serenidade para derrotar as adversidades. É um meio de remediar os desequilíbrios internos, as tensões, o estresse, ao levar o praticante a desenvolver uma flexibilidade física e mental, explica Lacerda, ressaltando que a técnica é também excelente exercício respiratório e uma meditação em movimento.

Carla Rocha, também da Corpo Zen, conta que a empresa tem 13 professores nas duas unidades, e vem ganhando cada vez mais alunos graças à exposição que as técnicas de relaxamento vêm obtendo na mídia. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com qualidade de vida e quanto mais isso é mostrado, mais pessoas se interessam pelo assunto, comenta Carla.

Segundo ela, entre as aulas mais procuradas na escola estão a de hatha ioga, que acontecem de segunda-feira a quinta-feira, em horários diversificados. Nossos horários são bem flexíveis, justamente para atender a toda demanda existente, diz.

Corpo Zen: (21) 2521-9897, http://www.corpozen.com.br

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Renegociação poderá ser feita em qualquer agência da CEF
Estudantes serão recebidos por banco a partir de hoje

A Caixa Econômica Federal (CEF) começa a receber hoje estudantes que queiram renegociar contratos do antigo Programa de Crédito Educativo (Creduc).

Todas as agências do banco estarão aptas a negociar. Serão oferecidos descontos de até 80% para inadimplentes e de até 90% para adimplentes, sobre a dívida total.

A situação do contrato será julgada a partir da data base de 31 de dezembro de 2003. Caso o estudante queira agendar o encontro a fim de evitar possíveis filas, poderá fazê-lo por telefone (veja os locais na tabela abaixo), em algumas agências da Caixa.

Crédito educativo

Desconto
- Para pagamento à vista, quem estiver em dia com os pagamentos terá desconto de 90% e quem for devedor terá desconto de 80%, sempre sobre a dívida atual. Os contratos em prazo de carência (que ainda não começaram a ser cobrados) terão desconto de 80% sobre a dívida atual, e os contratos em utilização (em que o estudante ainda está cursando) terão desconto de 80% sobre a dívida atual, condicionada à renúncia de novos aditamentos.
- Os descontos são maiores para pagamentos à vista. Para parcelamento em até 12 meses, o percentual de desconto é menor quanto maior for o número de parcelas.
- Na opção por parcelamento, se houver atraso de pagamento superior a 90 dias das parcelas renegociadas, o acordo será cancelado, voltando o contrato à situação original, com o saldo devedor descontado do valor já pago.
Documentos
- Os documentos são CPF, RG e comprovante de residência do estudante e do fiador. Em caso de parcelamento, caso o contrato original tenha fiador, são necessárias a atualização dos dados do fiador e do cônjuge e a assinatura desses no acordo de parcelamento.

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Vagas para estágio atraem 2,5 mil na Capital
Seleção para a prefeitura de Porto Alegre prevê remuneração mensal entre R$ 280,72 e R$ 315,04 para estudantes
TATIANA CRUZ

Uma remuneração de até R$ 315,04 levou cerca de 2,5 mil pessoas a enfrentarem uma longa fila ontem no primeiro dia de inscrições para vagas de estágio na prefeitura de Porto Alegre. Só na abertura do processo seletivo, que se encerra em 2 de abril, a marcha pelo estágio se estendia do Estádio Força e Luz, local das inscrições, até parte da Avenida Protásio Alves. Como além do currículo, a ordem de chegada é critério de seleção, a fila começou a se formar por volta das 14h30min de domingo.

O programa de estágios remunerados da prefeitura em 2004 oferece vagas para estudantes do Ensino Médio e cursos técnicos com remuneração de R$ 280,72. Alunos do Ensino Superior também estão no páreo, com ocupações remuneradas a R$ 315,04. O número de vagas ainda é indefinido, porque, segundo a Secretaria Municipal de Administração, depende das demandas dos setores. Hoje, são 2 mil estagiários da prefeitura, contingente que se renova de dois em dois anos. A saída precoce de alguns estagiários fez surgir quase mil novas vagas, afirma, porém, a secretária municipal de Administração, Janete Jachetti

- Ainda não sabemos quando vamos chamar os selecionados. As inscrições feitas agora têm validade até março de 2005 - explica Janete.

Ontem de manhã, só nas duas primeiras horas de inscrições, iniciadas às 9h, 500 fichas já tinham sido preenchidas. De acordo com Janete, este número deve chegar a 15 mil até o fim do processo, acima das 12,8 mil inscrições de 2003.

Atrás de uma chance, o estudante de Turismo do Instituto Porto Alegre (IPA) João Paulo Saldanha, 18 anos, deixava ontem, por volta das 10h, os galpões do estádio com uma cadeira de praia a tiracolo depois de assumir o 104º lugar na fila, por volta das 3h. Ainda nem sabia direito quais as atribuições do estágio ao qual disputava.

- O importante é ter experiência para mais tarde entrar no mercado de trabalho - afirmou, calculando que os R$ 315,04 do estágio vão ajudar nas despesas pessoais.

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Luís Augusto Fischer
23/03/2004


Invasão bárbara, há 40 anos

Vários amigos meus que orçam pelos 60 anos reclamaram de uma opinião negativa apresentada aqui sobre o filme As Invasões Bárbaras, ainda em cartaz na cidade. Os mais arrebatados me acusaram de não ter entendido nada e de dispor de pouca sensibilidade; para eles o filme é uma competente súmula da vida de sua geração. E eu, um jovem (para eles) de nem 50 anos, não estou entendendo a profundidade da coisa. Aquele professor de história que morre e repassa, em tom sombrio, as várias fantasias e os incontáveis "ismos" que estiveram no horizonte deles seria a síntese possível de suas vidas.

A mim o filme pareceu, como disse, autocomplacente, e pior ainda porque tramado num enredo que simula ser autocrítico, mas joga pelo ralo do coitadismo aquilo que poderia ser, na minha visão, uma crítica das ilusões daquela esquerda. Mas o caso é que agora, chegando o aniversário de 40 anos do Golpe de 64, me volta o tema, reforçado pela urgência da data redonda. E é fácil, então, juntar as coisas: os meus amigos ora sessentões foram exatamente os que a Ditadura atropelou, 40 anos atrás.

Eu era uma criança e não sei avaliar por mim, mas consigo cogitar por analogia. Pense o leitor que tem, agora mesmo, seus 20 e poucos anos, e que vive num país que parece ter encontrado seu futuro: uma capital novinha em folha acaba de ser inaugurada, com o que de mais moderno há em arquitetura e urbanismo; toda uma nova fase da indústria está produzindo aqui os automóveis que são também o símbolo da conquista do futuro; a cultura popular ferve por todos os lados, tendo recebido um banho de sofisticação na Bossa Nova e no cinema, que finalmente chegou ao Pós-Guerra estético. Este teu país, leitor, está acontecendo, não no passado nem no futuro, mas agora mesmo. Tudo é caminho para a frente. Até um governo progressista está lá, tendo na mira, finalmente, saldar a secular conta social, com reformas que trarão todos para este mesmo futuro, que está ao alcance da mão.

Aí, militares guerreiros-frios protagonizam o retrocesso, tendo atrás de si os mesmos donos do poder de sempre. Cassam as melhores lideranças, amedrontam as melhores cabeças, expulsam do país os mentores e ativistas deste futuro, a título de impedir uma opção comunista, que hoje parece claramente uma miragem, em todos os sentidos. E meus amigos sessentões, então jovens na flor de suas esperanças, são calados na marra. A universidade em que estudam perde os professores; os jornais que lêem são censurados; a arte que faz vibrar suas almas é sufocada.

Quarenta anos depois, eles têm razão de chorar por todas as invasões bárbaras.

fischer@zerohora.com.br

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Liberato Vieira da Cunha
23/03/2004


Presença do menino

Partiu de repente o verão, e me pega um vago remorso do que não fiz. É uma incômoda culpa, essa dos projetos que adiaste, dos sonhos que transferiste, das idéias que cancelaste, por distração de ti mesmo.

Estou com um novo romance pronto. Era para ter cuidado, nestes últimos meses que voaram, de certos detalhes práticos, sem os quais o livro permanecerá eternamente inédito. Suponho que a demora não causará maior dano à cultura universal: sou um simples escriba de província. Mas povoam minhas insônias cenas, personagens, talvez um ou dois parágrafos com vocação à permanência, que gostaria de ver impressos como quem reparte íntimas inconfidências.

Pretendia enviar uma carta a uma amiga. Convivemos largo tempo numa terra distante. Era oposta a geografia de nossas origens, diferentes os idiomas, contrastantes nossas crenças. E no entanto nos tornamos próximos à primeira vista e bastava um olhar para que nos compreendêssemos. Descobri, ao acaso de um múltiplo e-mail, que penou um drama sem conserto. Me agradaria presenteá-la com palavras leves e divertidas, com um pouco do nonsense e da ternura de que se teciam nossas conversas. Cheguei até a principiar a carta, que depois deixei para amanhã e depois para depois de amanhã, e que agora será inútil.

Sonhei com uma viagem, não a lugares que volta e meia visito, servidos de linhas aéreas, hotéis estrelados, city tours. Buscaria em verdade um ponto perdido do mundo, longínqua herança de um filme classe B, desses para os quais os doutos rapazes da crítica torcem solenemente o nariz. Arquitetei um roteiro para alcançá-lo, disposto a vencer céus e abismos, dormir sob as estrelas, encarar neves e mares e desertos. E aí me deteve o cotidiano e tive de arquivar o plano no capítulo do improvável.

Nada disso impediu, contudo, que o recém findo verão se tornasse inesquecível. Pois irei evocá-lo como um dos mais belos de minha residência na Terra.

Nasceu meu primeiro neto. É um menino que não dá a menor para calendários e predições médicas. Desembarcou antes do previsto, detalhe que não o impediu de adaptar-se, saudável e tranqüilo, ao áspero ambiente que a todos nos contém. Recordo de seus momentos inaugurais de encontro com o planeta exterior: mamãe Giselle acalentando-o nos braços com imensas reservas de amor; papai Marcelo acariciando-o com brandura e falando-lhe baixinho sobre os insondáveis mistérios da felicidade.

Santiago não será um menino à imagem do avô. Não adiará sonhos, projetos, idéias. Sua vida será intensa e plena e inimitável, a cada segundo do infinito pulsar das horas.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
23/03/2004


Natalidade e controvérsia

Não é de admirar que Paulo Sant'Ana seja o colunista mais lido no Rio Grande do Sul. Mediante uma ativa interação com os leitores, o grande Pablo transformou sua coluna numa verdadeira caixa de ressonância para os problemas e anseios da população, quer se trate da violência ou de bolinhos de batata (sim, fizemos lá em casa também. É muito bom.) Existe um assunto ao qual o Sant'Ana e os leitores voltam periodicamente, o controle da natalidade. A questão pode assim ser resumida: mulheres, sobretudo pobres, têm filhos demais, e estes filhos engrossam o contingente dos marginalizados, dos transgressores. Outros leitores, por razões políticas ou religiosas, pensam diferente. Resultado: uma controvérsia, não raro exaltada.

Que também acompanho há anos, mas sob outro ângulo, o ângulo da saúde pública, onde, ao fim e ao cabo, vão desaguar essas queixas e essas reinvindicações. Para muitas pessoas, é nos postos de saúde e nos hospitais públicos que o problema da natalidade deveria ser resolvido.

Será? Algumas ponderações devem ser feitas. Em primeiro lugar: saúde pública é coisa para o público, para ser aceita pelo público em geral. Exemplo disto é a vacina. As vacinas empregadas em saúde pública têm a aprovação das pessoas: basta avisar que há uma campanha e os pais acorrem em massa. Se existissem restrições à vacina, se metade da população aprovasse e metade não, esta não poderia ser uma medida de saúde pública. Foi o que aconteceu há cem anos, em novembro de 1904, quando Oswaldo Cruz introduziu a vacinação obrigatória, forçada, contra a varíola. O povo não conhecia o imunizante, temia-o (dizia-se que a vacina deixava as pessoas com cara de vaca). Resultado: uma revolta que quase evoluiu para guerra civil.

A saúde pública não pode se omitir na questão da natalidade. Mas não se trata de proceder como Oswaldo Cruz, agindo de forma coercitiva. Trata-se de colocar os meios anticoncepcionais à disposição de pessoas devidamente motivadas. O que está sendo feito. E funciona? Dados que me foram fornecidos pelo médico Airton Fischmann, respeitado sanitarista da Secretaria Estadual da Saúde, mostram que sim. As pessoas já estão fazendo planejamento familiar, e de forma eficiente.

A natalidade está caindo acentuadamente no Estado. Em 1984 nasceram 214.423 crianças no RS; em 2003 este número reduziu-se para 148.500. E, importante, esta redução é mais acentuada (o coeficiente caiu quase à metade) entre as mulheres não-alfabetizadas, portanto pobres, do que entre outras mulheres; nestas, a natalidade que agora é baixa, mantém-se praticamente estável.

Seria bom levar estes dados em consideração no debate. Que, aliás, é positivo. Da discussão nasce a luz. Mesmo quando não se quer que as mulheres dêem à luz.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
23/03/2004


Sinto-me deslocado

Recebi oito e-mails de leitores declarando que o patrulheiro da Polícia Rodoviária Federal que matou a tiros um cavalo e tentou matar outro na BR-116 cumpriu com seu dever, deve ser elogiado por isso e não criticado.

Quase todos os e-mails referiam acidentes em que houve colisão de veículos com cavalos em estradas, restando mortas ou feridas pessoas.

É possível que haja leitores que tenham concordado com a minha opinião de que foi um excesso a execução dos cavalos, mas ninguém me mandou mensagem de apoio ao que escrevi.

Cumpro o dever de registrar essa discordância manifesta de oito leitores. E não estou pedindo manifestações que concordem com minha coluna, tanto que não as registrarei caso elas sobrevenham.

Estou apenas dando curso ao direito de divergir. Os oito e-mails são bem claros, é preciso matar os cavalos que estejam soltos nas estradas, suas vidas valem menos que a das pessoas que correm risco com eles soltos na estrada.

Um dos mais sábios exercícios humanos é render-se à opinião circundante, sob pena de total descompromisso com a realidade.

Cavalos soltos na estrada, quando haja dificuldade em capturá-los, têm de ser mortos a tiros e não se fala mais nisso.

E o patrulheiro que matou o cavalo e feriu outro tem todo o motivo para estar orgulhoso de seu feito: além da consciência tranqüila com o dever cumprido, que ele manifestou na entrevista, há agora também a opinião pública a seu favor.

Por sinal, a essa verdade, pela experiência no metiê, já havia chegado a direção da PRF, o seu superintendente declarou em Zero Hora que os cavalos soltos nas estradas devem ser mortos quando se constituírem em alto risco.

Os leitores que me escreveram e até eu próprio consideramos que cavalo solto na estrada é sempre um alto risco.

Então há que matá-los.

Humildemente retiro a coluna de ontem, há ocasiões em que nós - e não o mundo - temos que ser modificados. Esta é claramente uma delas.

Os espectadores do Big Brother Brasil 4 ficaram apalermados anteontem com a baixaria de linguagem produzida num diálogo entre as participantes Solange e Marcela.

As ofensas que elas trocaram tiveram tal grau de agressividade e mau gosto, uma apontando defeitos físicos na outra, que chegaram a causar mal-estar em quem as ouvia em casa.

Mais uma vez fica provado que uma das maiores e mais difíceis façanhas humanas é conviver num mesmo ambiente sem conflitos.

Isso é quase impossível entre pessoas que se elegem como marido e mulher ou são pais e filhos, imaginem então no Big Brother, quando algumas pessoas são atiradas dentro de uma casa durante 90 dias, não escolheram as suas parceiras de convivência, de repente topam lá dentro com outras de temperamento, cultura, gênio completamente adversos e incompatíveis.

Misture-se a isso a disputa que se trava no jogo de intrigas sobre a permanência na casa, que vale a fortuna de R$ 500 mil, e está composto um coquetel de atrito inevitável.

É de admirar até que não partam para o desforço físico.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Oriente Médio
A morte do líder do Hamas



Palestinos choram o fim de Ahmed Yassin, alvejado por mísseis de helicópteros israelenses na madrugada de ontem (foto Adnan Hajj Ali, AP/ZH)


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Segunda-feira, Março 22, 2004




À Vista de Ti


Nunca te vi, melhor que seja assim.
Teus cabelos seriam trinados ao vento?
Poderia eu dizer treinados, eles seriam porque aí corre o vento da tardinha sempre me dizes do vento.

Hoje os cabelos curtos, despojados das madeixas de outrora já não balançam ao vento...antes emolduram em tons de prata, um semblante que espelha tantas venturas e desventuras... e apenas o coração responde ao trinado treinado da brisa acariciante ...

Guardo teus papéis eu guardo.
Perco-os, justo que me percam.

Guardo tuas cartas todas ...até mesmo os pequenos bilhetes improvisados nos guardanapos, onde deixei indeléveis marcas de baton com tuas impressões digitais...

Um cartãozinho..., teu, a te encontrar, azul...,
azul seria a saia de sair?

Azul...quantas vezes me fizeste ver o mundo azul?
Não só azul...mas também rosa, cinza ,negro...
O tailleur azul ainda está intacto, pois vesti azul e te esperei em rosa, num dia cinza em que trajavas negro , muito embora, por fora, o descompromissado jeans azul, juvenil e inocente com o qual me mantinhas cativa ...

Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela e os olhos vagos de nenhuma palavra?

Uma roupa de mulher...um vestido de seda e qual não foi a tua surpresa ao descobrir que para além dele não havia nada...
e com que frenesi meu corpo pediu que desnudasses
este nada para além do vestido.
Meus olhos não eram vagos...estavam fixos em ti... e o silêncio que se fez estava inundado de beijos.... eu te beijava com os olhos...

O que poderei dizer quando te encontrar?..., se nestes tempos modernos, teria lugar para um silêncio?
Falarias?

Diria novamente que te amo e mesmo que não o dissesse,cada gesto meu saberia dizê-lo cabalmente...

De que nos diríamos?
Eu do meu amor e tu, dos teus amores...

Melhor que teus cabelos fiquem ao vento.

Melhor que balancem ao vento qual folhas desprendidas do galho,balançando ao relento que me impuseste, por omissão ou pressentimento de que também estarias cativo do mesmo amor e arrebatamento ...

Ah, vento doce, da noite,
como me perfumas o hálito desta noite cedo.

Ah, brisa doce, com perfume de dama da noite, carregas de nostalgia o coração daquele que preferiu levar de mim apenas o sopro... quando teve nas mãos a vida e a alma.

Soares Feitosa / Fátima Irene

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Q U E M

Quem nesta vida já não se sentiu assim
Sem rumo, perdido, rendido
Às contingências do momento?
Quem já não experimentou estas fases
Onde tudo é desalento
E embora abrigado, cercado de gente,
Continuou absolutamente só
Qual se estivera ao relento?

Quem já não se perdeu do passado?
Quem já não ficou sem vislumbrar futuro,
Sem sentir um medo atávico
E ver-se assim totalmente inseguro?

Quem já não ficou sem saber o que fazer com o agora,
Levado pela correnteza da vida incerta,
No malogrado ajuste do ponteiro das horas?

Quem já não se perdeu de Deus, após tê-lo encontrado?
Quem já não se perdeu do filho, após tê-lo criado?
Quem já não secou por dentro, após ter muito amado?
Quem já não se perdeu no caminho que parecia adequado?

Quem já não experimentou um medo visceral da morte?
Quem já não tremeu diante de uma súbita virada da sorte?
Quem já não teve todos os planos e sonhos desfeitos?
Quem já não se viu lesado nos seus mais legítimos direitos?

Quem já não se viu órfão de toda a esperança?
Quem já não se viu, de repente, sem guiança
Sem rumo, sem bússola, sem farol, sem diretriz,
Quem já não se sentiu um dia, desesperadamente infeliz?

Quem já não se sentou à beira do caminho, extenuado
Vendo a vida passar, como filme apenas, projetado
Na ínfima condição de mero expectador isolado
E nada mais reivindicou neste momento,
Senão a suprema bênção de poder ficar calado?

E poder então soltar o passado
Não temer mais o futuro
Abdicar de vez do agora
Voltar ao estado original
Após ter fechado um doloroso ciclo
Fazer-se pronto para mais uma volta
Da infinita espiral !

Fátima Irene Pinto®

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Inter ganha jogo emocionante

Rafael Sobis entre Wellington e Cleiton Xavier: garoto marcou um golaço

Rafael Peruzzo

Inter e Juventude disputaram um clássico emocionante, sábado, no estádio Alfredo Jaconi, justificando a rivalidade criada nos últimos anos. A vitória colorada por 3 a 2 coloca o time de Lori Sandri em uma situação privilegiada para o segundo jogo, domingo, no Beira-Rio. O Inter só perde a vaga para a final do grupo 1 se for derrotado por dois ou mais gols de diferença. Derrota por um gol só elimina o Inter se for superior a 3 a 2, ou seja, 4 a 3, 5 a 4, e assim por diante. Se o resultado da primeira partida se repetir, o Inter se classifica.

O jogo começou em alta velocidade e, logo aos 5min, Nilmar chutou uma bola na trave. Mas foi o Juventude que abriu o marcador. Aos 15min, Mineiro recebeu de Donizete Amorim e chutou forte de fora da área. Clemer não alcançou: Ju 1 a 0. O empate colorado veio aos 24min, quando Wellington aproveitou um rebote e encobriu o goleiro Márcio. A virada do Inter não demorou a acontecer. Aos 31min, Marabá puxou o contra-ataque, a bola ainda passou por Oséas, mas foi Marabá, encobrindo o goleiro, quem terminou a jogada, fazendo um belo gol: Inter 2 a 1.

O Juventude voltou mais ofensivo para o segundo tempo. Aos 5min, Alexandre Lopes cometeu um pênalti em Geufer. Donizete Amorim cobrou para empatar a partida. Aos 30min, o técnico Lori Sandri tirou Nilmar para a entrada de Rafael Sobis. E o garoto entrou para dar a vitória ao Inter. Aos 36min, Sobis pegou a bola na intermediária, arriscou um chute de fora da área e marcou o gol mais bonito da partida, acertando o ângulo esquerdo do goleiro Márcio: Inter 3 a 2. Os minutos finais foram dramáticos para o Inter. O Juventude ainda teve tempo de chutar uma bola na trave, com Alê cobrando falta. E, aos 43min, o assistente Vili Tissot anulou, corretamente, um gol do Juventude.

Juventude: Márcio; Mineiro (Joãozinho), Thiago, Neto e Ronildo; Evandro, Camazzola, Donizete Amorim (Alê) e Marcelo; Michel e Geufer (Renato Santiago). Técnico: José Luiz Plein.

Inter: Clemer; Bolívar, Edinho, Alexandre Lopes e Chiquinho; Marabá, Wellington, Cleiton Xavier e Élder Granja (Éderson); Oséas (Geílson) e Nilmar (Rafael Sobis). Técnico: Lori Sandri.

Árbitro: Leonardo Gaciba.

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Grêmio vence e amplia a vantagem
Fez 1 a 0 no Glória e agora pode perder pelo mesmo escore no Olímpico que garantirá vaga para a fase seguinte do Gauchão

Élton abriu o placar logo no começo da partida: vitória importante em Vacaria

Carlos Corrêa

Só dois gols tiram o Grêmio da final do grupo 1 do Gauchão. Ontem, o time venceu o Glória por 1 a 0, em Vacaria, e ampliou a vantagem nas semifinais. Agora, pode perder por 1 a 0 no Olímpico, no próximo final de semana, que ainda assim tem vaga na decisão. O Glória só avança caso vença por uma diferença de dois gols ou então por um gol, contanto que marque pelo menos duas vezes.

A vitória foi construída no primeiro minuto de jogo. O lateral Élton tabelou com Christian e avançou pela esquerda para chutar na saída de Marcão e marcar o único gol do jogo. A melhor chance do Glória viria no minuto seguinte, quando Sotilli recebeu livre na pequena área, mas chutou para fora.

De resto, o primeiro tempo foi marcado mais pela empolgação e menos pela qualidade técnica. Toda dividida era uma epopéia para os jogadores, o que paralisou a partida em função do grande número de faltas.

Para a segunda etapa, Adílson Batista trocou um articulador (Ratinho) por um zagueiro (Tiago Prado). A medida conteve a iniciativa ofensiva do Glória, que ainda viu a sua situação complicar ainda mais com a expulsão do técnico Bagé, aos 16 minutos.

Desgastado pela recente maratona de jogos, a equipe de Vacaria cedeu ao cansaço nos minutos finais, e o Grêmio se aproveitou para jogar no contra-ataque, com Fábio Pinto e Marcelinho. Foi a vez então de o goleiro Marcão mostrar qualidade e impedir que os gremistas voltassem para Porto Alegre com uma vantagem ainda maior.

A arbitragem de Carlos Simon foi contestada por ambos os lados. O Glória reclama de um pênalti não marcado no primeiro tempo, quando Cocito interceptou com o braço um chute de Rodrigo Gasolina. O Grêmio, por sua vez, alega que aos 41 minutos da etapa final Marcelinho foi puxado pelo zagueiro Careca dentro da área.

Glória: Marcão; Careca, Bolacha e Xavier; Flavinho (Marquinhos), Aldo, Toto (De los Santos), Gasolina (Lela) e Luciano Sobrosa; João Pedro e Sotilli. Técnico: Bagé.

Grêmio: Tavarelli; Michel, Marcelo, Claudiomiro e Élton; Cocito (Adriano), Leânderson, Bruno e Ratinho (Tiago Prado); Marcelinho e Christian (F. Pinto). Técnico: Adílson Batista.

Árbitro: Carlos Simon. Público: 5.987 (5.097 pagantes). Renda: R$ 53.960.

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22 de Março - Dia Mundial da Água
De: Cláudio Langone/Presidente da ABEMA - Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente)

Brasil
A água é um recurso natural finito, e sua quantidade per capita diminui a cada dia com o crescimento da população mundial e da degradação dos mananciais. O Brasil, como detentor de grande parte desse precioso bem, cerca de 18% da água doce do planeta, tem responsabilidades especiais sobre seu uso, de forma a garantir a preservação da qualidade e da disponibilidade nos mananciais. Além disso, de todos os recursos naturais, a água, fonte inesgotável de vida, é o que tem maior interlocução com aspectos econômicos e sociais.

No entanto, nossos rios, lagos, banhados, reservatórios subterrâneos e outros corpos hídricos vêm sendo degradados por esgotos de variadas fontes, pela poluição industrial, pelo desmatamento em áreas de nascentes e de matas ciliares, por atividades agropecuárias em locais inadequados, pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. A água contaminada prejudica a saúde física e social de todos.

Com o objetivo de salientar essa problemática e buscar soluções, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu em 1992 o Dia Mundial da Água, 22 de março. Desde então, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) vem comemorando, em outubro, a Semana Interamericana da Água. Os eventos têm como foco os desafios que, sem dúvida, afrontarão a humanidade em matéria de gestão e de desenvolvimento dos recursos hídricos neste século. O Dia Mundial da Água recorda-nos que devemos pensar na questão da água em termos globais e apoiar as iniciativas destinadas a dar acesso à água potável a todos os habitantes do planeta, onde quer que vivam.

A ONU elaborou ainda um documento intitulado Declaração Universal dos Direitos da Água, que traz recomendações como: a água é a seiva de nosso planeta. Ela é condição essencial de vida de todo vegetal, animal ou ser humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura; e também: os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia. Apenas esses pontos mostram a dimensão da tarefa de equilibrar nosso modelo de desenvolvimento, de modo que possamos garantir a satisfação de nossas necessidades sem desabastecer os que virão, sem falar em todas as outras espécies do planeta. É o chamado desenvolvimento sustentável.

Ainda hoje, água limpa é um direito que está fora do alcance de muitos. Em todo o globo, mais de um bilhão de pessoas não têm acesso a fontes de água melhoradas, enquanto quase 2,5 bilhões vivem sem saneamento básico. Estas pessoas figuram entre as mais pobres do mundo, bem como entre as menos saudáveis. Na verdade, a falta de abastecimento de água potável contribui, segundo estimativas da ONU, para 80% das doenças e das mortes no chamado mundo em desenvolvimento.

No Brasil, muitos padecem devido as doenças de veiculação hídrica, como febre tifóide, hepatite A, verminoses e cólera. As verminoses são um dos problemas mais graves de saúde pública do país, afetando principalmente crianças de baixa renda e que habitam regiões carentes e com condições precárias de infra-estrutura sanitária. Estimativas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que mais 70% dos esgotos gerados nas cidades não dispõem de um sistema de coleta e tratamento. E o mesmo acontece em relação ao lixo domiciliar, que em 40% dos municípios é deposto a céu aberto, levando à contaminação do solo e de corpos d´água, e à proliferação de doenças.

Dados do Ministério da Saúde demonstram que de 80% a 90% das internações hospitalares no Brasil são decorrentes de doenças transmitidas por água contaminada. Cada R$ 1 aplicado em saneamento básico representa cerca de R$ 4 ou R$ 5 economizados em saúde. Sendo a água um bem público, é preciso que o país crie mecanismos de eqüidade quanto ao acesso ao recurso. A tendência atual é a de que os excluídos sociais tenham menos condições de obter água de boa qualidade.

No Fórum Social Mundial, do qual participaram 12,274 mil delegados de 4,909 mil organizações, a temática da água se fez presente com força. Os milhares de participantes tiveram a oportunidade de conhecer os impasses sobre privatização dos serviços de água na Bolívia e a os desdobramentos na Argentina, e também no Brasil, onde o assunto foi tratado em 2001 com os debates envolvendo o PL 4147. O Eixo 2 do evento debateu a Água Bem Comum, e resultou numa série de documentos com propostas para uma gestão mais eqüitativa dos recursos hídricos. O Fórum Preparatório à Rio+10, organizado pelo governo do Rio Grande do Sul e que antecedeu ao FSM, também discutiu o tema água em vários de seus painéis.

Outras questões que prometem grandes debates no país ainda este ano são a outorga e a cobrança pelo uso das águas. A crise de energia elétrica fez com que a Agência Nacional de Águas (ANA) tirasse do papel esse projeto. Provavelmente, a partir deste ano, quem captar água de qualquer bacia hidrográfica brasileira vai pagar, e o custo será bem maior para os poluidores. A falta de energia projetou a importância de racionalizar o uso da água. O esquema de cobrança começa pela Bacia do Rio Paraíba do Sul, que corta importantes Estados do país ¿ São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Todo o dinheiro arrecadado deverá ser investido na recuperação dos rios da bacia de origem.

O grande desafio para o Brasil é a consolidação do Sistema Nacional de Recursos Hídricos (SNRH), tendo em vista a água como bem público, o controle social do recurso natural e a descentralização do gerenciamento. Nesse contexto, os comitês de bacia serão importantes espaços para tomadas de decisão.

A Abema (Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente), que congrega os órgãos ambientais em nível estadual no país, está em sintonia com essas questões, e vem trabalhando conjuntamente para encontrar as melhores formas de se garantir o desenvolvimento do país com a preservação dos recursos hídricos e da qualidade de vida da população. Por meio de intercâmbios, de projetos e parcerias, a entidade vem promovendo a capacitação técnica de recursos humanos, a aplicação de melhores tecnologias e o aprimoramentos de pesquisas na área ambiental em todo o Brasil.

Desde o fim de 2001, por exemplo, a Abema vem desenvolvendo uma parceria com Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) e Opas, no sentido de se trabalhar um calendário nacional conjunto em torno da Semana Interamericana da Água. Tudo isso tendo como referência o Rio Grande do Sul, onde esse processo já ocorre há oito anos, com uma programação que atinge a maioria das cidades do Estado.

Só para citar outros exemplos, o Estado da Bahia está vivendo a ¿década do saneamento¿, com cerca de R$ 2 bilhões sendo investidos no setor nos três últimos governos. O Rio Grande do Sul vem melhorando o gerenciamento ambiental por meio do programa de Gestão Ambiental Compartilhada, onde municípios e Estado definem de melhor forma suas áreas de atuação, fazendo com que o sistema como um todo fique fortalecido. Minas Gerais realizou recentemente um grande seminário sobre o Aqüífero Guarani, uma das maiores reservas de água doce subterrânea do mundo.

E Mato Grosso desenvolve desde 1998 o Licenciamento Ambiental Único, por meio do qual as áreas de preservação e uso para agricultura e pecuária são delimitadas e controladas via satélite. Pelo segundo ano consecutivo, a taxa de desmatamentos caiu, ficando 32% abaixo do que era antes do sistema ser criado, enquanto o PIB estadual cresceu 8%. Isso mostra que a preservação das matas não reduz a produtividade rural, e ainda contribui para a manutenção do regime hídrico.

A expectativa da Abema é de que o tema água disponha de grande espaço na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Joanesburgo, África do Sul, 26 de agosto a 4 de setembro), e que o Brasil tenha firmeza na elaboração de suas proposições tanto para a Rio+10 quanto para o Fórum Mundial das Águas, que se realizará em Kyoto (Japão) em março de 2003.

Mais sobre a ABEMA: www.abema.org.br

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A primeira relação nunca se esquece

É muito importante que na primeira vez a pessoa tenha conhecimento das informações básicas necessárias para ter uma boa experiência
Dra. Marina Simas*

É grande o número de cartas que recebemos de garotas e garotos com dúvidas sobre a primeira relação sexual. É muito importante que na primeira vez a pessoa tenha conhecimento das informações básicas necessárias para ter uma boa relação, o que influenciará positivamente na sua vida sexual. Atualmente não é mais tão valorizada a virgindade como era antigamente, quando a moça que vivesse em celibato até o casamento era considerada pura e a não virgem, execrada. Assim, era raro uma mulher manter relação sexual antes do casamento.

Outro aspecto que mudou é que a iniciação sexual do homem não é mais só com prostitutas. Essa experiência servia para ensinar a praticar o ato de penetração e ejaculação. A primeira relação sexual está acontecendo cada vez mais cedo para ambos os sexos e mais da metade dos meninos já teve alguma experiência sexual entre 10 e 14 anos. Já entre as meninas, a primeira relação ocorre em média com 15 anos e meio.

Além do mais, o garoto e a garota se relacionam em condições de igualdade. Mas, apesar de todos esses avanços, os jovens ainda estão desinformados sobre os cuidados e a prevenção necessária para um ato sexual saudável. Sexo é algo que se aprende fazendo, não existe uma receita. Por isso é fundamental os parceiros estarem adequadamente informados e conscientes de suas responsabilidades e das conseqüências de seus atos.

Prazer
Gostaria de saber por que, depois de um tempo de casado, o relacionamento esfria. Por que os homens fazem tanto sexo só por fazer, enquanto as mulheres só fazem por prazer?
G., por e-mail.

A sua pergunta me lembrou um livro que li: Homens São De Marte, Mulheres São De Vênus. Esse livro mostra a diferença de necessidade do homem e da mulher frente à forma de pensar, sentir, reagir e se comunicar. Quanto à sua afirmação de que com o tempo o relacionamento esfria, não podemos generalizar. Já observei muitos casos em que a qualidade da relação melhorou com o passar do tempo.

A mulher geralmente quer sexo associado ao afeto, com preliminares e declarações. Já o homem, às vezes, quer simplesmente aliviar a tensão. Fale com ele, explique como você gosta. Veja se você consegue deixar ele a estimular. Talvez vocês precisem negociar a freqüência das relações sexuais. É importante tentar conciliar a vontade dos dois.

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Diferença de ritmo entre amor e paixão
A paixão é cega e o foco são os nossos próprios desejos; o amor é sábio e se guia pelas necessidades do outro
Luiz Alberto Py*

Há pouco tempo andei falando da necessidade de se fazer a ¿eutanásia¿ de uma paixão não mais correspondida. Ao mesmo tempo, comentei da importância de se preservar o amor que temos pela pessoa que se afastou de nós. Para alguns, essas duas idéias podem parecer incompatíveis uma com a outra.

A diferença está no fato de que o amor é uma emoção serena que alimenta nossas almas e deve ser sempre estimulado, enquanto a paixão é uma emoção perturbadora que precisa ser cuidadosamente administrada. Quando a paixão é rejeitada, gera sofrimento, dor e sentimentos negativos e precisa ser banida o mais rapidamente possível de nossa vida. Até mesmo para poder dar espaço para o nascimento de uma nova paixão. Mas o mais importante é ressaltar a diferença que existe entre amor e paixão.

Como a paixão costuma estar alicerçada no amor, é fácil de ser confundida com ele. Mas a grande diferença é que, enquanto a paixão é cega e se acompanha pela necessidade imperiosa de atender nossos próprios desejos, o amor é sábio e se guia pelas necessidades do outro. O amor se caracteriza pela generosidade. A paixão, pelo egoísmo. A paixão desprovida de amor cria perigos e possibilita tragédias. Porém, quando juntos e em harmonia, amor e paixão nos levam a grandes feitos e grandes conquistas.

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Luis Fernando Verissimo
22/03/2004


Inconstâncias

Embora às vezes se ache, a publicidade não é uma ciência exata. Com todas as suas pesquisas de mercado, estudos motivacionais e medições de expectativas e resultados, pode errar feio. Será interessante saber qual foi o efeito, na maioria do público, do comercial do Zeca Pagodinho voltando, arrependido, para a Brahma depois de nos mandar tomar a Nova Schin. A Brahma ganhou ou perdeu com o lance? O Zeca cresceu ou acabou como pagodeiro-propaganda? E a Schin, sai da história como vítima, com uma vitória moral e o voto-simpatia, ou não? No fim, o efeito talvez seja duplo e as pessoas passem a bater no balcão e pedir "Esquece a Schin e manda lá a do poder econômico e do traíra".

De qualquer jeito, o comercial da contrição é bom e seu samba é ótimo. E serve de modelo para quem quiser, como o Zeca Pagodinho, explicar suas inconstâncias em público. A Luma de Oliveira, por exemplo:

"Quem nunca teve um amor de primeira
de botar o nome em coleira
não sabe por que estou assim.
Ele não era só um cacife
foi, mais que um marido, minha grife
mas se cansou de mim.
(Breque:)
Igualzinho à Nova Schin!
Outro amor eu entendo,
mas melhor do que eu, só vendo
foi ele que se enganou.
Se não encontrou nesta aqui
o que foi buscar por aí
é porque não procurou,
ah não procurou.
Hoje diz que é ciumento
(vê se eu agüento)
só porque eu sou gostosa.
Não querer me ver desfilando
e quase tudo mostrando
é sonegação criminosa!
Mas nosso amor não foi fogo em palheiro,
que se apaga assim ligeiro.
(Breque)
Chamem um bombeiro!"
E o Lula poderia aparecer num comercial do governo cantando:
"Sim, eu fui da esquerda pura
quando tinha a barba escura
e era da oposição.
Hoje não aceito censura
não mudar seria loucura
na minha situação
meu irmão.
A minha barba ficou branca
e quem manda mesmo é a banca
portanto, atenção para a estrofe:
não vou, como o Pagodinho,
voltar para o outro caminho
- continuo com o Palófi!"

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Paulo Sant'ana
22/03/2004


Pura e brutal preguiça

Não quero crer que a direção da Polícia Rodoviária Federal vá avalizar a execução de um cavalo e a tentativa de execução de um outro por um guarda rodoviário na madrugada de sábado, na BR-116.

Três cavalos estavam atrapalhando o trânsito há várias horas na BR-116, imediações de Camaquã.

O patrulheiro foi chamado e percorreu sete quilômetros tentando tirar os cavalos da pista. Um ele conseguiu aprisionar e prendeu numa propriedade da beira da estrada.

Mas os outros dois não se deixaram prender.

Foi quando o patrulheiro decidiu executar a tiros de pistola os dois animais.

O relato do patrulheiro a Zero Hora não esconde nem a gabolice nem o cálculo perverso:

- Acredito que não tenha errado nenhum tiro. Acredito que no primeiro cavalo dei dois tiros na cabeça e um na paleta dianteira, para ele cair, que não estava caindo. No segundo, acho que os dois tiros foram na cabeça.

Mas o que é isso? Quer dizer que o cavalo já estava com dois tiros na cabeça, o que certamente iria dali a pouco ocasionar a sua morte, mas não caía. Então o patrulheiro deu um tiro na paleta dianteira para que ele caísse. Ou seja, tinha de derrubá-lo, só assim consideraria seu serviço pronto.

Mas o que é isso?

Na entrevista que concedeu a Zero Hora o patrulheiro eqüinocida levanta uma exótica tese de legítima defesa:

- Durante sete quilômetros, fiquei nessa luta com os cavalos. Voltavam, corriam para lá. Aí eu vi que poderia dar uma tragédia (no trânsito). Resolvi que a única solução era meter bala neles. Os animais são um bem jurídico, mas a vida humana também é. São dois bens jurídicos difíceis de mensurar, mas sabemos o que tem mais valia, correto? Eliminei os cavalos em legítima defesa de terceiros.

Como é que é? Para haver legítima defesa é preciso que haja um ataque ou a iminência de um ataque. Os cavalos não estavam atacando ninguém, a pior possibilidade era a de que ocasionassem acidentes na pista da estrada, causando lesões ou mortes de pessoas.

Mas esta era uma possibilidade subjetiva, quase remota. A tese da legítima defesa é excêntrica e inaceitável para este caso.

São incontáveis as reportagens mostradas todas as semanas de tigres, leões ou onças que fogem de circos ou de jaulas em cativeiros domésticos.

E elogiavelmente as forças comunitárias e policiais tratam de capturá-los sem matá-los. Isto que são feras, um cavalo está muito longe disso.

Como é então que um patrulheiro decide matar dois cavalos que estão perturbando o trânsito de uma estrada?

Inaceitável violência contra a vida animal.

O que houve claramente foi omissão e preguiça do patrulheiro. Omissão porque não fez o que devia: chamar reforços para capturar os cavalos.

Preguiça porque, mesmo sozinho, o patrulheiro podia monitorar, embora levasse tempo, os cavalos, impedindo-os de penetrar na estrada.

Não pode restar qualquer dúvida de que o procedimento policial básico nestes casos é o de preservação da vida dos animais. Teriam que ser chamadas quantas guarnições fossem necessárias para capturar os cavalos.

Mas é a mesma história dos quero-queros: animal que se lixe, se está atrapalhando o trânsito, bala nele!

A única hipótese admissível para sacrificar um cavalo é a de lesão física irrecuperável. Nenhuma outra. Nenhuma outra!

Insanável arbitrariedade.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Iraque ¿ Um Ano de Guerra
O destino de uma órfã da violência



Ibtihal Jassem, 10 anos, perdeu uma perna durante bombardeio em Basra no dia 22 de março de 2003. A menina, que é surda-muda de nascença, tenta se acostumar com a perna artificial e as muletas (foto Hussein Malla, AP/ZH)


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