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Sábado, Abril 03, 2004




O TRIUNFO DA FORÇA



Capaz de saltar uma distância de 2,40 metros sem tomar impulso e de atingir a altura de 2,80 metros durante um salto-mortal, Daiane dos Santos tem como principal trunfo a força muscular. Aliada à técnica, ela lhe possibilita movimentos acrobáticos no solo e no cavalo. Seus vôos podem dar ao Brasil uma inédita medalha olímpica na modalidade

Daiane dos Santos decola de costas. Já no ar, gira o corpo de modo a ficar de frente para sua trajetória de vôo. Continua subindo. Perto de atingir o ponto mais alto, quando sua cabeça chega a 2,80 metros do solo quase a altura de uma cesta de basquete, ela rodopia num salto-mortal com o corpo reto, como se fosse uma hélice cujo eixo passasse pelo abdômen. Já está na descendente quando repete o giro. O efeito lembra o filme Matrix, com os truques virtuais se materializando no mundo real. Daiane aterrissa de pé, com os braços abertos para aumentar o equilíbrio, gesto elegantemente disfarçado em saudação à platéia.

O movimento aqui descrito em câmera lenta dura menos de um segundo. Enquanto você lia as linhas acima, Daiane poderia teoricamente ter realizado quinze dessas dificílimas acrobacias. Em 76 anos de competições a ginástica feminina faz parte dos Jogos Olímpicos desde 1928 , ninguém nunca arriscou algo parecido. Ao que se sabe, nenhuma outra atleta está treinando para fazer algo tão assombroso nas Olimpíadas de Atenas, em agosto.

Daiane dos Santos é a única ginasta do mundo capaz de realizar esse salto cujo nome técnico é "duplo twist estendido". Twist porque ela salta de costas e faz um giro de 180 graus no ar. Duplo porque por duas vezes a atleta dá voltas no ar sem colocar pés ou mãos no chão, o que configura o salto-mortal. Estendido porque o corpo fica reto e é exatamente aí que reside a maior dificuldade. No Mundial de 2003, nos Estados Unidos, Daiane já se firmara como um fenômeno único no mundo da ginástica ao executar uma manobra altamente difícil, porém mais simples. Foi o duplo twist carpado.

Em vez de ficar reto, o corpo se dobra durante o duplo mortal, com o tórax num ângulo de 45 graus em relação às pernas, o que facilita o giro. O movimento recebeu o nome de "Dos Santos", em homenagem a ela. O salto estendido que Daiane prepara para Atenas é ainda mais complicado. "A chance de Daiane conseguir uma medalha olímpica inédita para o Brasil é considerável", avalia o ucraniano Oleg Ostapenko, técnico da Seleção Brasileira de Ginástica Olímpica Feminina.

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Arrisque-se

Risca de giz e tecidos de alfaiataria se misturam a peças informais para compor visual ousado

Mariana Salim

O estilo clássico dos tecidos de alfaiataria, como a risca de giz, e as modelagens masculinas em camisas ou calças retas encontram-se com o moderno. O resultado é um visual radicalmente contemporâneo.

Descombinar é a palavra-chave. A idéia de que a risca de giz é careta é totalmente errada. O que é clássico nunca sai de moda. O segredo da produção perfeita é saber misturar, observa a estilista da Folic Valéria Trotta. Vale abusar do conforto das camisetas básicas com estampas originais e ousar nos acessórios: aposte no clima lúdico das pérolas, na rebeldia das correntes, na nostalgia dos anos 80, nas cores vibrantes das meias e dos sapatos de verniz. Arrisque-se e invista nessa idéia. (fotos Isabela Kassow)



Guitarra. Segunda pele Yes, Brazil (R$ ), top Cláudia Simões (R$ 144), cinto Renner (R$ 35,90) e saia Shop 126 (R$ 158). Polaina C&A (R$ 12,90) e sapatos Andarella (R$ 79).



Patins. Regata OZ (R$ 28), calça Folic (R$ 199) e sandálias Andarela (R$ 79). No pescoço, faixa de crochê Macaca de Ipanema (R$ 63,80). Pérolas 18Kilates (R$ 28) e pulseiras RSobral (R$ 25 cada uma).



skate. Vestido Cláudia Simões (R$ 243) e sapatos Mr.Cat (R$ 99). Correntes Fiszpan (a partir de R$ 25).



Capacete. Camisa Folic (R$ 159,60), calça Cláudia Simões (R$ 108), cinto Renner (R$ 35,90) e coleira Macaca de Ipanema (R$ 66).



Prancha. Minissaia Colcci (R$ 128), camiseta OZ (R$ 39) e sapatos Leader (R$ 59,90)

FICHA TÉCNICA: MODELO Priscila Machado (Ag. Mega) CABELO E MAQUIAGEM Eduardo Castro para Crystal Care PRODUÇÃO Mariana Salim ENDEREÇOS Macaca de Ipanema - Rua Visconde de Pirajá 207/ loja 111, Ipanema; C&A - Av. N. S. de Copacabana 749; Andarella - São Conrado Fashion Mall, 2º piso; Oz - Rua Visconde de Pirajá 580/302, Ipanema; Folic - Rua Gonçalves Dias 49, Centro; Colcci - Rio Sul, 2º piso; Leader Magazine - São Gonçalo Shopping Rio, 2º piso; Cláudia Simões - Botafogo Praia Shopping, 2º piso; 18Kilates - Rio Sul, 1º piso; Mr.Cat - São Conrado Fashion Mall, 1º piso; RSobral - Rua Visconde de Pirajá 565, Ipanema; Fiszpan - Av. N. S. de Copacabana 831; Shop 126 - Shopping da Gávea, 1º piso; Renner - Rio Sul, 2ºpiso; Yes, Brazil - Rio Sul, 2º piso

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Um gol de presente

Ricardo Gomes faz mistério, mas o aniversariante Edmundo garante que vai jogar. Ele quer balançar, pela primeira vez, a rede do Vasco
Marluci Martins
Ovos na cabeça, farinha de trigo e um afinado parabéns pra você cantado pela torcida. No dia em que completou 33 anos, Edmundo só não teve o presente que mais queria: a confirmação de que será titular, amanhã, contra o Vasco, na decisão da Taça Rio. O técnico do Fluminense, Ricardo Gomes, vai desvendar o mistério somente pouco antes do clássico.

Mas, quebrando o silêncio que o acompanha desde seu último jogo 21 de fevereiro, final da Taça Guanabara , Edmundo garantiu: Vou jogar. Não sei se durante 5 ou 90 minutos. Mas vou jogar. Sua maior motivação? Fazer, pela primeira vez na vida, um gol no Vasco, seu time de coração.

TAÇA GB Naquela final, contra o Flamengo, eu estava muito pior do que hoje. Estou 10 vezes melhor. O problema é que eu, Romário, Ramon e Roger não estávamos nas condições de hoje. Se tenho 0,1 por cento de condição de jogar, vou para o jogo. Foi um erro, pois o Alessandro estava melhor do que eu. Mas, se bobear, cometo um erro desses de novo.

BANCO Somos um grupo de 20, 30 jogadores, mais comissão técnica e torcida. Esse grupo é mais importante do que a vaidade de um jogador. Se o Ricardo (Gomes) decidir que tenho de ficar no banco, vou ficar. Mas não tenho intimidade com o banco, não. Fico meio tenso. Passei por isso duas vezes: num jogo do Palmeiras contra o Guarani, numa das milhares de vezes que briguei com o Wanderley Luxemburgo, e, pelo Cruzeiro, enfrentando o Vasco, quando voltava de contusão.

PRESENTE A Taça Rio não chega a ser um título. Nem significa tanto para quem já ganhou uma Copa América e três títulos brasileiros. Mas faz tanto tempo que não conquisto nada, que vou comemorar como se fosse a maior, a primeira e a única conquista da carreira. Não lembro qual foi meu último título. Acho que foi o Brasileiro de 97.

HOMENAGEM Esse parabéns pra você foi a coisa mais linda que ganhei de uma torcida. E nem mereço, porque não conquistei nada aqui. Em outros lugares em que tive êxito, não recebi esse carinho. Aqui, mal joguei foram duas partidas e mais duas com uma perna só (risos). Espero poder retribuir tudo, com uma vitória sobre o Vasco.

GOL NO VASCO Qualquer hora dessas, sai. Jogando pelo Palmeiras, acertei a trave uma vez. No Cruzeiro, fui displicente numa cobrança de pênalti. Aliás, seria bom ter feito esse gol, pois eu não teria perdido meu emprego. Espero não ter tanta ansiedade, nem tanta displicência, se tiver outra oportunidade, domingo.

VASCO Não tenho mágoa. Há coisas que não posso falar, pois já estou cheio de processos. Nunca escondi de ninguém que sou vascaíno. Não fosse o Vasco abrir as portas, não sei o que seria de mim. Nunca gostei de estudar. Nunca gostei de trabalhar. Se não pudesse jogar bola... Pena que saí enxotado de lá, pela porta dos fundos.

FLUMINENSE Sou vascaíno mas, nesse momento, o lado profissional fala mais alto. O Fluminense é o clube que mais investiu. Movimentou muito o futebol, nos três primeiros meses do ano. E está honrando seus compromissos.

ENTREVISTAS Fiquei um tempo sem falar com a imprensa porque gosto de dar oportunidade a outras pessoas. Não era justo aparecer mais do que quem estava jogando.

ANSIEDADE Sou péssimo para controlar a ansiedade. Nunca consigo entender por que estou machucado.

ANO NOVO Dizem que o ano da gente começa no aniversário. Espero que isso seja verdade. Depois das contusões, estou feliz e sem problemas pessoais. Agora, só falta jogar.

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Cláudio Moreno
03/04/2004


Lapsus Calami

Um tradicional professor universitário, ao trocar sua fiel máquina de escrever por um computador, terminou apertando as teclas que não devia e inseriu, quase no final do trabalho, um parágrafo inteirinho do seu artigo anterior. Meu amigo é um pouco filósofo e não se queixou da má sorte; até ouviu com simpatia as explicações de sua neta, indignada com a falta de jeito do avô.

Como o texto já tinha sido impresso e ele, macaco velho da floresta acadêmica, sabia que as feras viriam atrás do seu sangue, ligou para mim, em busca de um nome para esse tipo de equívoco. "Sempre usei lapsus calami, mas não sei se vale também para as teclas do computador", concluiu. Eu disse que sim, que ainda era moeda boa em qualquer câmbio do mundo. Agora, para que os meus leitores avaliem a extensão do problema e a solução que propus, exponho as minhas razões.

Além do sentido mais atual, de "intervalo de tempo", lapsus é "deslize, escorregadela". Muito antiga é a expressão lapsus linguae (/lápsus língüe/), que já aparece no Eclesiástico, onde reza que é melhor escorregar no chão do que escorregar com a língua (no texto da Nova Vulgata, "Melius lapsus in pavimento quam lapsus linguae"). Por sua vez, cálamo vem do Latim calamus (do Grego kálamus), uma caneta primitiva, feita de hastes de junco de mais ou menos 20cm, com a ponta cuidadosamente aparada e fendida, à semelhança das penas de nossas canetas modernas (aliás, caneta vem de cana).

O recipiente em que se guardava a tinta e onde se mergulhava o cálamo era chamado de calamarius, nome que foi mais tarde aplicado aos deliciosos calamares, que são verdadeiros tinteiros marinhos; nos restaurantes espanhóis é sempre boa pedida um prato de "calamares en su tinta", uma esquisita iguaria que o turista estrangeiro raramente enfrenta, por estranhar comida preta, coisa que não nos assombra, a nós, os brasileiros criados a feijão.

Lapsus calami, portanto, significa literalmente "escorregadela da pena". A expressão, pronunciada /lápsus cálami/, é usada no mundo inteiro para designar um engano involuntário de escrita, popularizada pelos copistas medievais para indicar pequenos erros na transcrição dos originais. Com o uso da máquina de escrever e do computador, os sabidinhos de sempre começaram a procurar uma expressão que substituísse calami, pois não se tratava mais de uma caneta... Ora, isso é subestimar a extraordinária capacidade generalizadora do idioma. Se cometo um erro involuntário usando caneta, lápis, giz, máquina de escrever, processador de texto ou aviãozinho que escreve com fumaça no céu, é claro que tudo cabe no lapsus calami.

O importante é que seja involuntário (Freud diria: nem tanto...). Não se trata de disfarçar simples erros de grafia: se escrevo *pressiozidade em vez de preciosidade, não adianta desculpa em Latim, porque estou deixando mais do que evidente o fato de que não freqüento o dicionário. Se escrevo, porém, "quanto chegarmos ao capítulo 20", em vez de quando, ninguém discute que a troca de uma letra por outra foi involuntária.

Há alguns anos, ao entrar numa sapataria para comprar um par de tênis para futebol de salão, deixei o atendente confuso quando insisti que eu sempre tinha usado a marca Regina. O nome era Rainha, mas eu tinha trocado pela forma latina! Esse é um verdadeiro lapsus linguae, erro típico de doutor que teve estudo! Há quinze dias, no entanto, nesta mesma coluna, no artigo sobre Os Maias, troquei o nome do Luis Fernando Verissimo para José Fernando - e aí não foi lapsus algum. Simplesmente emburreci; felizmente já voltei ao normal.

claudio.moreno@zerohora.com.br

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Lya Luft
03/04/2004


Matar o pai

Termino o interessante, enigmático O Dia em que Matei meu Pai, de Mario Sabino, inquieta, porque o livro nos deixa assim.

Hoje em dia leio pouca ficção, o que também parece inquietar as pessoas que me perguntam sobre o que ando lendo. Lembro meu querido Erico Verissimo me confidenciando que quanto mais romance escrevia, menos romance lia. Também eu cada vez leio mais ensaio, e biografia: a vida muito mais interessante do que a literatura. E poesia: releio boa poesia, Rilke sempre, é claro.

Mas esse livro do Sabino me pegou em cheio, e me fez refletir: não sobre assassinato de pai, mas sobre a transgressão da autoridade que nos quer podar, castrar, paralisar indevidamente. Ou apenas: paralisar, o que é sempre indevido.

Vivemos a contradição de excesso de permissividade e do excesso de autoritarismo que não pergunta o que desejamos ou podemos, quais nossas possibilidades, o que é bom e positivo. O que é possível ou saudável. Autoritarismo nos modelos impostos, nos deveres sugeridos, nos ideais infiltrados nas entrelinhas, nos limites impostos pelo corporativismo, nas algemas da corrupção, nos tapa-olhos dos preconceitos.

Enfim, somos diminuídos pelas limitações que, se fôssemos mais lúcidos e livres, nos provocariam nojo ou riso. E, assim, estamos sujeitados por uma autoridade insensata que não conseguimos avaliar porque fomos educados para não ter discernimento. Então precisaríamos "matar o pai", isto é, assassinar aquilo, dentro de nós, que nos tolhe, que nos castra, que nos torna menos humanos, e nos afasta da legítima adultez.

Se me perguntassem o que seriam pais ideais, eu diria que são aqueles que ensinam os filhos a pensar. Que oferecem aos filhos o abraço do descanso na luta, para se tornarem seres questionadores; a ternura para se nutrirem quando a luta os tornar demasiado endurecidos; alegria para que não desaprendam o riso quando tudo ficar sério demais, porque, como escrevi outro dia, que os deuses nos livrem de nos tornarmos solenes. Que os deuses nos livrem do politicamente correto, com seu sabor de ridículo e autoglorificador, que desmorona ao mais leve sopro de vento provocado pela mão de uma criança.

Gente, vamos ser menos solenes, e mais sérios. Menos circunspectos, e mais verdadeiros. Menos arrogantes, e mais éticos. Menos iludidos de nossa importância, e mais amorosos.

Sobretudo, assassinando a cada dia - se tivermos capacidade, coragem e sorte - as falsas autoridades e os ídolos ridículos dentro de nós, vamos tentar ser mais inteiros, mais belos, mais felizes, mais humanos.

E aí começaremos a ficar interessantes. Sem tantas falsas prioridades; sem tanta imposta seriedade, sem tantas máscaras graves, sem tantas regrinhas melancólicas.

Outro dia falei para um grupo de empresários respeitáveis, e a mais bela das perguntas que me fizeram, inesperada, foi:

- Quantas vezes a senhora acha que se pode amar na vida?

Respondi algo como:

- Toda vez que a gente está sozinho, e a vida nos oferecer a possibilidade desse milagre, e a gente tiver a coragem e a capacidade de o concretizar.

Todos bateram palmas, e compreendi que o mais importante é que todos, os ricos e os pobres, os complicados e os simples, os famosos e os anônimos, os empolados e os naturais, os que acreditam no politicamente correto e os que se libertaram dessas tristes algemas, os que nasceram para ser príncipes e os que mesmo em altas posições têm almas subalternas, todos nós queremos mesmo é ser tratados como gente.

E respeitei e admirei o senhor que me fez aquela pergunta, e naquele momento estivemos todos irmanados, sendo apenas humanos, querendo apenas estar vivos, com a dignidade de acreditar na vida como um dom precioso, um dom... posso dizer? divino, que a gente não precisa assassinar para sobreviver.

lya.luft@zerohora.com.br

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Jorge Furtado
03/04/2004


Aparências

No prefácio ao seu extraordinário romance O Espião Americano, Kurt Vonnegut afirma que, entre os seus livros, aquele é o único no qual ele percebe uma moral: "Somos o que parecemos ser e, portanto, temos que tomar muito cuidado com o que parecemos ser". Vonnegut acrescenta que não sabe afirmar se essa moral é boa ou má, apenas a reconhece no livro. Tendo a achar que é boa. O subprocurador da República, gravado em conversa indefensável com um bicheiro, defende-se dizendo que não cometeu crime algum. Waldomiro Diniz, funcionário público que foi filmado pedindo suborno ao mesmo bicheiro, não dá declarações, mas seu advogado já disse que a fita não prova nada e que vai se declarar somente na justiça: "O meu campo é o da lei".

O campo da lei exige provas. Aparecer numa fita pedindo suborno não é crime algum, crime é aceitar o suborno. Mas a falta de compostura dos flagrados é tanta que o fato de terem cometido crimes ou não é quase secundário. Eles parecem culpados bem demais, talvez seja o suficiente. E se não for? Um novo boato em Brasília sugere que, além da fita em que Waldomiro pede suborno e da fita em que o subprocurador pede a fita em que Waldomiro pede suborno, haveria uma terceira fita, onde o próprio José Dirceu pede ao subprocurador a fita em que o subprocurador pede a fita em que Waldomiro pede suborno.

Dizem que nesta fita o Zé Dirceu está acompanhado do bombeiro da Luma e da Solange, eliminada esta semana do Big Brother, mas talvez seja mentira. A fita estaria sendo analisada por técnicos da Unicamp, que teriam pedido também para examinar a Luma. Luma, por sua vez, diz que não cometeu crime algum, o que é verdade.

Julgar pelas aparências é um perigo, eu sei. Recebi muitas críticas (na verdade, duas) por ter falado mal sem ter visto o filme do Mel Gibson. Parece que o pessoal não me ouviu e lotou os cinemas, transformando algumas salas em igrejas, com choro, enfartes e gritos de aleluia, já não bastasse o barulho de pipoca. O filme está indo muito bem em países onde as salas de cinema estão virando igrejas ou bingos (América Latina e Polônia), mas não tão bem na Alemanha, no Canadá e na Irlanda.

E nem foi lançado em Toulouse, na França, onde há uma ótima cinemateca (duas salas, bom acervo) ocupando um belo prédio que já foi uma igreja. Pois não peço desculpas. Não vi, não vou ver e tenho raiva de quem viu e ajudou a financiar essa e as próximas picaretagens ultraviolentas de hollywood. E mais: mesmo sem ter visto afirmo que o filme é anticristão. O Cristo que interessa é o que inaugura a resistência não-violenta, o que fala em paz e tolerância. O filme de Gibson tem o mesmo valor de luta livre na televisão. A única (mesmo!) maneira de acabar com esse oportunismo sadomasoquista é não pagar o ingresso.

jorge.furtado@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
03/04/2004


Um caso inédito

O caso do assassinato do casal de norte-americanos Zera Todd e Michelle Staheli, há quatro meses, num condomínio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, chegou ontem a um desdobramento incrível.

Flagrado em um furto, o caseiro de um vizinho do casal assassinado, Jociel Conceição dos Santos, de 20 anos, confessou em detalhes o assassinato do casal norte-americano. E foi buscar em seu quarto o pé-de-cabra com que massacrou o casal.

Eu estava pronto, ontem à noite, para escrever esta coluna estranhando que, pela repercussão do caso, que inclusive contou com a investigação de agentes do FBI, não tivesse a polícia interrogado um caseiro de um vizinho de muro das vítimas.

Isso chega a ser quase inacreditável, em razão de que tudo indicava que uma das formas prováveis de acesso do(s) assassino(s) à casa era pelos muros circundantes.

Mas anteontem a polícia tinha deitado mão em um homem que confessava solicitamente o crime, oferecia à apreensão a arma do crime, embora não indicasse um motivo plausível, alegando que o norte-americano morto tinha certa vez o chamado de "crioulo", o que teria feito com que nutrisse ódio pela vítima.

No entanto, como agora o acusado foi flagrado em furto, era possível que o móvel do assassinato fosse o roubo e ele por alguma idiossincrasia não quisesse admiti-lo.

No entanto, ontem à noite surgia a informação bombástica: o juiz a quem foi encarregado o pedido de prisão do assassino confesso mandou soltar o suspeito.

É invulgar, senão inédito, que a Justiça deixe de dar importância, pelo menos na fase inicial das investigações, à confissão do acusado.

É bem verdade que não basta a confissão para que se configure a culpa de um agente. Há milhares de pessoas que confessam crimes que não cometeram por desvios mentais, outras depois de serem torturadas nas investigações.

O surpreendente neste caso é que o mandado judicial de soltura pode levar à fuga do suspeito mais tarde, quando eventualmente possam ser colhidas provas materiais irrefutáveis contra ele.

Depois que o juiz mandou soltar o preso, os promotores juntaram aos autos a reconstituição do caminho percorrido pelo suspeito confesso até o leito das vítimas, quando com naturalidade absoluta, em companhia da polícia, escalou o muro, caminhou sobre ele e desceu por uma goiabeira até o solo, demonstrando conhecimento do terreno.

E com isso os promotores solicitaram novamente a prisão do suspeito, então já livre.

O juiz negou pela segunda vez a prisão, certamente alegando que a facilidade com que reconstituiu seus passos no dia do crime não evita a possibilidade de que o suspeito tivesse sido coagido pela polícia a tal atitude.

É a primeira vez que num caso de repercussão pela imprensa se nota que a Justiça despreze com tal ousadia a confissão de um suspeito e valorize tanto que ela seja acompanhada pela prova material para que se torne consistente.

E o pior de tudo é que é certo: uma confissão sem conteúdo, solta nos autos sem ter a ampará-la indícios veementes ou provas materiais legítimas, não tem nenhum valor.

O que me espanta é que nunca é assim que acontece. O relevo maior que sempre se dá nesses pedidos de prisão preventiva é a confissão do suspeito.

E espetacularmente a impressão que o suspeito dava ontem, quando foi solto, era de que não concordava com a medida do juiz.

Sensacionalmente o ônus da prova cabe ao suspeito.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Enfim, a chuva



Aguardada havia três meses, a água (acima, a Região Noroeste) começa a amenizar a paisagem assolada pela seca (foto Paulo Vilani, especial/ZH)


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Sexta-feira, Abril 02, 2004




Em Vão

Passo triste na vida e triste sou,
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
Que não diz onde vai nem donde vem.

Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
A flor da minha boca desdenhou!
Solitário convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou!

E eu quero bem a tudo, a toda a gente...
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!

E tem passado, em vão, a mocidade
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flores a sombra dos meus passos!

Florbela Espanca

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Fitness
Pique no lugar
Nova aula de corrida em esteiras lota academias cariocas

Maria de Freitas



Uma nova febre vem contagiando as academias cariocas. Seguindo a mesma linha do spinning atividade física sobre bicicletas ergométricas , as aulas de corridas coletivas, ou running class, estão atraindo adeptos a cada dia.

Misturando música ensurdecedora e esteiras supermodernas, a atividade encanta pela eficiência dos resultados. Pode-se perder até mil calorias em apenas 40 minutos, calcula o professor de educação física André Leta, da academia Pró-Forma, no Rio. A running class é como uma pequena maratona sem paisagem ou linha de chegada, na qual um grupo de até 12 alunos sua a camisa sem sair do lugar em cima das esteiras.

Posicionado em um palco no fundo da sala, um professor se esforça para manter a empolgação da turma com treinamentos que variam de acordo com o objetivo dos alunos. São oferecidos quatro estilos de corrida, que vão das elevações, nas quais o que se propõe são cursos íngremes e constantes, aos percursos intercalados, quando o aluno deve alternar o ritmo entre altas e baixas velocidades. O sucesso da modalidade é tanto que as academias já organizam listas de espera para quem quiser se aventurar.

Apaixonado por maratonas, o engenheiro José Roberto Ribas, 47 anos, tornou-se presença constante nas turmas de running class da academia carioca Estação do Corpo. Costumava treinar no asfalto, mas as aulas sobre esteiras me dão mais precisão. Me sinto confiante sabendo que posso controlar a velocidade e acompanhar a evolução de cada quilômetro percorrido, comemora. Ribas acredita que correr na companhia de um grupo de pessoas traz mais motivação.

A energia do esporte coletivo é incrível, exalta. Praticar atividades de extremo esforço, no entanto, requer alguns cuidados. O clínico-geral Roberto Zani alerta para os perigos da popularização do exercício. Apenas verdadeiros atletas podem se arriscar nesta modalidade. É preciso estar atento para os perigos de uma atividade tão intensa, adverte. Ele explica que o desgaste exagerado pode até causar ataques cardíacos em alunos inexperientes. Se a aula dura 40 minutos, o indivíduo corre pelo menos dez quilômetros, e nem todos estão preparados para isso, conclui.

Deve-se estar atento a possíveis sinais de desgaste, como dores nas articulações.

E se preparar antes. A artista plástica Gisele Andrade, 37 anos, por exemplo, abandonou as aulas de ginástica localizada e se inscreveu há um mês nas turmas de corrida. Como não tenho preparo físico de maratonista, faço muito alongamento antes dos treinos e não abro mão de uma alimentação saudável, conta. Zani explica que, se praticada corretamente, a atividade pode gerar diversos benefícios.

Quando exigimos mais esforço do coração, surgem novos pequenos vasos para ajudar a irrigação do órgão, aumentando a circulação coronariana. A atividade também eleva as taxas do HDL, o chamado bom colesterol, explica. Mas quem se interessar pela nova atividade deve consultar um médico e se submeter a uma avaliação cardiológica.

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Nossos relógios teimam em não se acertar

às vezes sou eu que chego atrasada,

às vezes você...

Os quadrantes de nossas luas estão

em mundos paralelos,

seguimos em frente sem nunca nos encontrar.

As pessoas têm chances na vida ,

e alguns , como nós , recebem uma segunda

que pode ser a última.

Não dá mais para segurar o tempo .

Você estranho, que entrou na minha vida

Vá embora !

Quero arrumar a bagunça que ficou...

Dama Da Noite

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Talvez amanhã

Quantas e quantas noites

perdida na ilusão

fiquei na noite fitando minha estrela

que brilho supreendente!

Tantos pedidos,tantos sonhos

minha estrela,

companheira e confidente.

Hoje sei,que não era a ela que eu pedia

mas à você que eu implorava.

O brilho que nela via nada

mais era do que o reflexo

dos teus olhos ,

que hoje não passam de uma lembrança

do clarão de uma estrela cadente

no improviso deste instante

só eu não vi ela ir embora...

talvez amanhã ela volte

e quem sabe,traga você.

Dama Da Noite

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Aula de sexo



Fernanda é a baiana devassa de 'A casa dos budas ditosos

Pedro Burgos* e Rachel Almeida

É difícil definir melhor A casa dos budas ditosos, livro de João Ubaldo Ribeiro transformado em monólogo com Fernanda Torres, do que uma elegante ode à pornografia. Depois de enorme sucesso nas temporadas em São Paulo e Brasília, a peça estréia nesta sexta no Centro Cultural Correios, onde ficará sete semanas em cartaz.

Um dos grandes best-sellers nacionais, o livro, lançado há cinco anos, vendeu cerca de 180 mil cópias. A obra faz parte da série sobre os pecados capitais da editora Objetiva. Coube ao escritor baiano escrever sobre a luxúria. No prefácio, João Ubaldo conta que recebeu algumas fitas de uma senhora sexagenária - seu nome não é revelado - com um depoimento extenso e detalhado sobre sua vida sexual.

O livro seria, então, a transcrição desse testemunho, já que, como o autor explica, ''é impossível falar sobre sexo na primeira pessoa''. O diretor Domingos Oliveira e a atriz Fernanda Torres acham que o livro foi subestimado pela crítica na época do lançamento, já que o assunto ainda é tabu. Até porque todos os temas espinhosos estão lá, da pedofilia ao incesto, passando pela troca de casais e consumo exagerado de drogas. Mas nada é dito com um ar de arrependimento. Tendo passado por todo tipo de experiência, a mulher tem, então, algo a ensinar. E o monólogo de 100 minutos vira aula.

A verve acadêmica é reforçada pela postura da atriz no palco. Sentada, encarando o público, ela explica, logo no início, que tem a personalidade de uma deusa sexual e pede para que todos prestem atenção, já que as informações e métodos podem ser usados para melhorar a vida de cada um na platéia. Alguns relatos, palavrões ou descrições de detalhes anatômicos podem chocar. Mas na temporada de Brasília eram poucos os que chegavam ao fim da peça ruborizados. Fernanda conta que o intuito era de que o espectador risse - na maior parte do tempo -, chorasse, e, obviamente, ficasse excitado. ''Seria um fracasso fazer um livro de sacanagem e a pessoa não ficar com tesão'', diz.

O espetáculo foi gestado durante dois anos. Domingos Oliveira contou a Fernanda sua idéia em 2001. Na época, a atriz estava envolvida com Os normais e sua adaptação para o cinema. O diretor deu um livro a ela, que estava relutante em aceitar o projeto. À medida que lia, Fernanda percebeu que foi ficando difícil dizer não. Aceitou, mas pediu dois anos para acabar Os normais e trabalhar com tempo o espetáculo. O pedido foi aceito.

Nesse período, a atriz redatilografou todo o livro, serviço braçal que, para ela, ajudou a marcar quais as passagens mais interessantes que poderiam ser transpostas para o palco. O texto é conservado com pouca - ou nenhuma - adaptação.

A filha de Fernanda Montenegro tinha medo de a peça parecer um caça-níqueis. ''As pessoas poderiam achar que era a Vani (sua personagem de Os normais) indo para o teatro falar de sexo de novo''. Mas os personagens são bem distintos, a começar pelo bem feito sotaque baiano.

A mulher sem nome é altamente instruída e fala de sexo oral com a mesma naturalidade que cita grandes pensadores ou obras clássicas. No livro, a parte filosófica, que esmiuça os tabus da sociedade, por exemplo, é bastante forte. A peça trata en passant das ideologias e se concentra nos casos amorosos da mulher. Do criado negro da casa, na adolescência, ao irmão, seu maior amor, e uma freira. O ritmo da ''mudança de capítulos'' é dado pela troca de fitas do gravador.

Como contrapeso à força da personagem de Fernanda, todos os elementos cênicos são suaves. A iluminação de Wagner Pinto dá um certo tom de sensualidade e nostalgia, com seus tons quentes - ainda que à meia-luz - centrados na figura principal. A direção de arte, a cargo de Daniela Thomas, chega a ser minimalista. Em cena, há basicamente a cadeira, uma mesa de vidro, os tais ''budas ditosos'', um gravador e um copo de uísque.

Uma senhora de 68 anos contando todas aquelas aventuras sexuais poderia parecer surreal demais, deslocando a graça do texto. Isso explica a opção por Fernanda Torres. No livro, João Ubaldo diz que a melhor fase de uma mulher é na faixa dos 35 a 40 anos. Assim, tornam-se críveis os relatos da atriz balzaquiana, que usa alguns adereços para sugerir a verdadeira idade da personagem. O figurino de Cristina Camargo faz essa mistura, ao usar, por exemplo, saia pouco abaixo do joelho para permitir que as cruzadas de pernas, parte dramática fundamental, possam ser bem vistas. Uma longa peruca, as várias pulseiras e colares e a maquiagem forte completam o visual.

Fernanda é 30 anos mais nova que a personagem do livro e admite ter infinitamente menos experiência. Discreta quanto a sua vida íntima, ela não gosta de falar sobre sua primeira vez, nem de grandes aventuras sexuais e se proclama defensora ferrenha da monogamia. Mesmo assim, defende com unhas e dentes a obra de João Ubaldo e o lema que seu livro traz: ''viver é fazer sexo''.

* Da sucursal de Brasília

CASA DOS BUDAS DITOSOS - Centro Cultural Correios, Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro (2503-8770). Cap: 200 pessoas. 5ª a dom., às 19h. R$ 20. Estudantes e idosos pagam meia. Duração: 1h40. Até 16 de maio.

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Descobridor dos cinco mares

Italianos, orientais, brasileiros, econômicos e nos arredores. Um roteiro com os principais restaurantes de frutos do mar
Flávia Motta

QUASE 750g de frutos do mar no arroz de açafrão do Sobrenatural



Frutos do mar são ricos em minerais, proteínas e selênio, antioxidante que tem, entre suas propriedades, a diminuição do estresse e melhora do humor. Mas os animais marinhos também esbanjam versatilidade à mesa. Assados, cozidos ou ensopados, encontram porto seguro em cozinhas de diferentes nacionalidades. Da culinária brasileira levam temperos como pimentas e o típico azeite de dendê. Com cogumelos ou um toque de gengibre, ganham o ar exótico da culinária oriental. Regados no azeite extravirgem, são símbolo da badalada dieta mediterrânea dos países europeus. E ainda podem servir de pretexto para uma esticada nas bucólicas Vargem Grande, Barra de Guaratiba e arredores.

O fascínio que lulas, camarões, mariscos e afins exercem é tanto que há quem troque de profissão por eles, como o economista Aylton Oliveira que, depois de 30 anos no mercado de seguros, há 12 abriu o Skunna em Vargem Grande. Cozinhava para amigos, aí uns exploradores me convidavam para jantar, mas quem tinha que preparar era eu, brinca.

Sócio no Da Brambini, o milanês Umberto Vegetti diz que a simplicidade dá o tom na cozinha italiana. Em toda a Itália se consomem frutos do mar. O país tem um litoral grande e a dieta mediterrânea (baseada em azeite, peixes, massas e vinhos, todos antioxidantes) está cada vez mais forte, conta. Assim, saem de cena molhos encorpados e receitas leves são cada vez mais procuradas, como o peixe ao sal grosso, prato típico dos pescadores italianos, segundo Umberto.

Também baseado na culinária dos marinheiros é o cardápio do Sobrenatural, em Santa Teresa. Uma das estrelas da casa é o congro rosa servido com camarão pitu. Eles vêm juntos no arrasto na hora da pesca, justifica Carlos Moura, dono da casa.

Italianos



De sabor adocicado, o lagostim estrela o prato mais pedido do Da Brambini

No Da Brambini o mais pedido é o espaguete com lagostins em molho de tomate fresco, azeite extravirgem e vinho branco (R$ 33). O scampi tem sabor adocicado e divide com o peixe ao sal grosso (R$ 64, para dois) o posto de preferido. Outro peixe ao sal grosso campeão é o do Satyricon (R$ 52). Ficou famoso depois que a Madonna provou, conta Marly Leopardi, dona da casa, anunciando a novidade do lugar: gambero rosso, camarão que vive a até mil metros de profundidade. Servido com arroz de limão, o prato custa R$ 96.

Mais em conta, o Turino oferece massa ao alho e óleo com scampi grelhado (R$ 29,90) e risoto de frutos do mar pelo mesmo preço. Outro risoto altamente recomendável, mas da Osteria DellAngolo, é o de lula em sua tinta (R$ 38,50), típico de Veneza, na região norte italiana.

DA BRAMBINI: Av. Atlântica 514, Leme, tel.: 2275-4346. Todos os cartões; SATYRICON: Rua Barão da Torre 192, Ipanema, tel.: 2521-0955. Todos os cartões; TURINO: Barra Point. Av. Armando Lombardi 350, Barra, tel.: 2491-6462. Todos os cartões; OSTERIA DELLANGOLO: Rua Paul Redfern 40, Ipanema, tel.: 2259-3148. Aceita Diners, Amex e Mastercard.



Econômicos
Quem disse que uma refeição com frutos do mar tem que pesar no bolso? Esqueça a decoração e aposte numa boa cozinha que a satisfação estará garantida. Como no Sobrenatural, onde o dono Carlos Moura não se cansa de repetir o elogio que ouviu de um cliente: aqui se tem dois prazeres, na hora de comer e de pagar a conta.

Dono de dois barcos pesqueiros, ele separa o melhor que o arrasto traz para sua casa. Daí o sucesso de seu arroz de açafrão com frutos do mar (R$ 56 para dois). São em média 750g só de mexilhão, lagostins, lulas, gaba-se. Outra opção farta é a moqueca de peruá com molho de camarão, por R$ 25, e o congro rosa com pitus e arroz de brócolis a R$ 35. Tudo para duas pessoas.

Fartura também é a marca do Sentaí, o rei da lagosta, sempre servida em pratos para mais de uma pessoa, em moqueca com arroz e pirão (R$ 30) ou grelhada com batatas coradas (R$ 42), entre outros pratos. Já em Vila Iabel sinônimo de boa comilança é o Siri, onde meio risoto de camarão custa R$ 37 e serve duas pessoas. Para dividir entre quatro, boa sugestão é o filé de viola com molho de camarão (R$ 63,50) e o camarão ao alho e óleo (R$ 25), para petiscar.

Atravessando a ponte, vale investir no Caneco Gelado do Mário, onde brilham a cavaquinha grelhada (R$ 55, para dois) e o chiclete de camarão (R$ 65, para dois). Vi uma reportagem na televisão e resolvi tentar. O camarão é feito no leite de coco com dendê e gratinado com queijo prato, mozarela, catupiry e parmesão, ensina Mário Martins, o dono.

SOBRENATURAL: Rua Almirante Alexandrino 432, Santa Teresa, tel.: 2224-1003. Aceita Visa, Credicard e Diners; SENTAÍ: Rua Barão de São Félix 75, Centro, tel.: 2233-8358. Todos os cartões; SIRI: Rua dos Artistas 2, Vila Isabel, tel.: 2208-6165. Não aceita cartão; CANECO GELADO DO MÁRIO: Rua Visconde de Uruguai 288, Niterói, tel.: 2620-6787. Não aceita cartão.

Brasileiros



No siri Mole, o dendê e o leite de coco das moquecas vêm da Bahia

Na cozinha do Siri Mole não só a chef Isis Rangel é baiana. As receitas e seus ingredientes também vêm da terra de Caymmi. Camarão seco, dendê e leite de coco fazem festejadíssimas moquecas como a de camarão (R$ 61,50) ou o caldo de sururu (R$ 7,80), que figuram no cardápio desde a abertura da casa, há 15 anos. A comida tem raiz cultural, é pautada na cultura dos terreiros de candomblé, é meio mística, justifica Isis. Com reprodução do Pelourinho no último salão, o Yemanjá tem diferentes bolinhos de siri (R$ 12,40 a porção) que precedem bem as excelentes moquecas de siri mole ou catado (R$ 39,40 para dois). E no Mercado do Peixe, vale escolher o próprio pescado: cherne (R$ 12,20 por 100g), cavaquinha (R$ 8,50 por 100g) e lagosta (R$ 17,90 por 100g). No forno à lenha, ao sal grosso, com ervas ao molho de vinho branco, frito ou cozido ou com salada.

SIRI MOLE & CIA: Rua Francisco Otaviano 50, Copacabana, tel.: 2267-0894. Todos os cartões; YEMANJÁ: Rua Visconde de Pirajá 128, Ipanema, tel.: 2523-4456. Todos os cartões; MERCADO DO PEIXE: Itanhangá Center. Estrada da Barra 1.636, tel.: 2493-3922. Todos os cartões.

Nos arredores



Lagostas no Skunna: em chop suey (E) ou grelhadas com arroz de coco

Um bom prato é capaz de fazer valer a pena os (longos) caminhos que levam a Vargem Grande ou Barra de Guaratiba. É o caso de visitar o Skunna, onde durante todo o mês as lagostas estrelam festival com dez pratos a R$ 32 cada. Entre eles, chop suey com arroz em manteiga de tomilho e manjericão e lagosta grelhada no alho servida com arroz de coco e cenoura caramelada. Outra boa opção é o camarão ao gruyère, coberto por batata palha e servido com arroz de nozes e passas (R$ 49,50 para dois).

Ainda em Vargem Grande, vale visitar o Jardineto, onde camarões ao creme com curry, abacaxi caramelizados e arroz de amêndoas (R$ 52) ou filé de peixe grelhado ao molho de champanhe e lima da pérsia com batata rostie sem bacon (R$ 34,80), podem ser saboreados em frente a belo jardim.

No Cesar, o chef Cleofas Cesar da Silva prepara pratos como os dos banquetes que fazia para o paisagista Burle Marx: lula recheada com camarão em molho de vinho tinto (R$ 30, para dois) ou caldeirada de peixe, camarão e batata (R$ 30, para dois). Já sob as árvores do Rancho Petisco, o cherne grelhado com arroz de brócolis e purê de batatas sai a R$ 44,90 (para dois), enquanto a moqueca de dourado com camarão custa R$ 54,90 e serve até três.

SKUNNA: Estr. dos Bandeirantes 23.363, Vargem Grande, tel.: 2428-1213. Aceita Amex, Diners e Mastercard; JARDINETO: Rua Luciano Gallet 75, Vargem Grande, tel.: 2428-1053. Aceita, Diners, Mastercard e Visa; CESAR: Est. da Barra de Guaratiba 2.276, tel.: 2410-1202. Não aceita cartão; RANCHO PETISCO: Estr. Roberto Burle Marx 1.533, Barra de Guaratiba, tel.: 2410-1044. Não aceita cartão.

Orientais



O chef Olavo Martins em ação no Zazá Bistrô: lula com legumes orientais

Malandro é o chef que, sem ter uma casa essencialmente oriental, sabe tirar proveito das cores e sabores que ela oferece. É uma cozinha tão perfumada, lúdica, cheia de possibilidades, derrete-se Isabela Macedo, dona do Zazá Bistrô, que foi buscar na Ásia temperos como o cardamomo do arroz que acompanha o steak de atum com calda de maracujá, legumes orientais e couve frita (R$ 32,40), ou o nirá que, grelhado em óleo de gergelim preto com champignon, tomate e pimentões vermelhos e amarelo, escolta a lula na chapa (R$ 28,40).

No tailandês Nam Thai, boas pedidas são o Pad Thai, talharim de arroz frito com camarões, amendoim, tamarindo e especiarias (R$ 32) e a salada picante de vieiras e mexilhões com tempero de capim limão e tamarindo (R$ 25). Também thai são as opções do Zuka: peixe na folha de bananeira com molho de tamarindo e frutas (R$ 17), de entrada, e camarões perfumados com gengibre, servidos com arroz indiano frito com ervas (R$ 44). E até o francês Claude Troigros se rendeu aos sabores do Oriente. Seu Boteco 66 tem peixe oriental em molho de gengibre, capim limão e coentro com arroz thai (R$ 32), entre outros pratos.

ZAZÁ BISTRÔ: Rua Joana Angélica 40, Ipanema, tel.: 2247-9101. Todos os cartões; NAM THAI: Rua Rainha Guilhermina 95, Leblon, tel.: 2259-2962. Todos os cartões; ZUKA: Rua Dias Ferreira 233, Leblon, tel.: 3205-7154. Aceita Amex e Mastercard; BOTECO 66: Av. Alexandre Ferreira 66, Lagoa, tel.: 2266-0838. Aceita Mastercard.

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Não teve nem graça

Flamengo treina em Édson Passos: goleia o Tupi por 4 a 0 e avança na Copa do Brasil. Próximo adversário será o Santa Cruz
Janir Júnior

Felipe, que estava na seleção brasileira, pediu ao técnico Abel Braga para sair do time, aos 36min do primeiro tempo, alegando cansaço



Enquanto aguarda, de camarote, o adversário da final no Estadual, o Flamengo, campeão da Taça Guanabara, enfrentou o sparring certo. Jogando pela Copa do Brasil, ontem, em Édson Passos, o time goleou o modesto Tupi-MG, no jogo de volta, por 4 a 0 vencera o primeiro por 3 a 2. Se no campo os jogadores fizeram o seu papel, fora a bagunça continua. A promessa de pagar parte dos atrasados de fevereiro (para quem chegou esse ano), e janeiro (para os atletas que estão desde o ano passado), não passou de 1º de abril.

Jean, seriamente ameaçado de barração, ganhou sobrevida de Abel Braga momentos antes da partida. Numa conversa reservada, ficou claro que o jejum de gols do atacante o tiraria da equipe. Com a promessa de que balançaria a rede, o jogador finalmente desencantou, marcando dois gols, feito que não acontecia há mais de um mês.

O primeiro foi logo com 1 minuto de bola rolando. Após cruzamento de Roger, que antes driblara um marcador, o atacante, livre, abriu o placar. O gol esfriou o Tupi-MG. Seria preciso marcar três vezes para os mineiros ficarem com a vaga. Não demorou muito e Zinho ampliou.

O lance nasceu de um lançamento do apoiador para Rafael, que foi derrubado por Moisés. A cobrança foi perfeita, no ângulo esquerdo do goleiro, aos 12. Quatro minutos mais tarde, Felipe caiu na área, pediu pênalti e o árbitro mandou seguir a jogada. O torcedor, na expectativa de ver em ação seu maestro, que na véspera defendera a Seleção, em Assunção, acabou gritando mesmo o nome de Jean.

Aos 27, o atacante recebeu na meia-lua, invadiu a área, driblou Paulo César e tocou para o gol vazio. Festa da pequena torcida presente em Édson Passos. Pouco depois, Felipe, alegando cansaço, pediu para sair: Estou prejudicando o time.

No segundo tempo, com a classificação assegurada, o Flamengo administrou o resultado. Mesmo assim, Diogo, aos 25, recebeu de Roger e tocou na saída do goleiro, selando a goleada.

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David Coimbra
02/04/2004


Como era bom sofrer

Aos 15 anos, Marina não passava de uma pastora de ovelhas nos campos da Antióquia do século 3. Mas era bela. Tanto que o governador romano ensandeceu de paixão ao vê-la. Propôs-lhe casamento. Marina recusou. Disse que seu espírito e principalmente seu corpo estavam reservados para Cristo.

Fulo, o governador denunciou-a ao imperador Diocleciano, que andava empenhadíssimo em exterminar cristãos. Marina foi presa e açoitada com varas. Depois, os verdugos rasparam seu corpo com um tridente e enfiaram pregos nele. Finalmente, queimaram-na com fogo e a afogaram num barril. Marina morreu toda ruim, mas foi canonizada.

Na mesma época, também no Império Romano, vivia Cristina, que, paradoxalmente ao nome, era filha de adoradores de Zeus, Apolo et caterva. Como fosse tão linda quanto Marina, seu pai decidiu mantê-la virgem para sempre, o que também é paradoxal, embora um bom psicanalista explique. Aprisionou-a numa casa afastada, onde Cristina travou conhecimento com pregadores cristãos. Converteu-se. O pai se sentiu traído e foi ele mesmo quem comandou o martírio da filha - foi espancada, cortada com ferro, queimada no fogo, atirada numa cova de víboras e, como se não bastasse, espetada por lanças até morrer. Virou Santa Cristina.

Há dezenas de histórias de igual jaez na Idade Média. Como a de Adriano da Nicomídia, que teve mãos e pés esmagados pelos torturadores. Ou a de Vitor, mantido por seis dias sem comer ou beber numa cela de Milão, para depois ser espancado, ter suas feridas cobertas com chumbo quente e só depois acabar decapitado. Ou a de André Bobola, que no século 16 foi açoitado, esfolado, mutilado e queimado pelos cossacos. Ou a de Lourenço, que, sendo assado vivo numa grelha, não perdeu o bom humor e pediu para os algozes:

- Podem virar, que esse lado já está bem passado.

Todos esses martirizados foram elevados a santos. Porque a renúncia e a dor eram os grandes valores da Idade Média. Era bonito sofrer. A tese de que Jesus redimira os pecados do mundo na cruz encantava os medievos. Eles também queriam padecer. Ansiavam pela morte lenta e gloriosa.

Foi essa idéia que embalou Mel Gibson na construção de A Paixão de Cristo - a sublimação pelo sofrimento. Ele pretendia mostrar o que custou a Jesus a absolvição da Humanidade. Conseguiu. Por esse ponto de vista, o filme é um sucesso. O fato de ser um ponto de vista medieval nem importa muito. Até porque não raro a própria igreja não se importa de adotar uma postura medieval, como a proibição de métodos contraceptivos, um exemplo entre tantos. Então, o filme de Gibson é um sucesso inegável. Assista-o. Você vai gostar. Sobretudo se pensar como se pensava há 1.500 anos.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Gabriel Moojen
02/04/2004


Diferenças

Passei a semana gravando uma matéria para o Brasil Total. Esse projeto coloca na Globo o sotaque do Brasil, assim como ele é. Para nós que falamos diferente, ou para aquela menina lá de Natal, é um passo importante. É duro ter que mudar o sotaque para poder mostrar o trabalho. O Brasil é um país de diferenças. De negros, índios, portugueses, italianos, poloneses, alemães, árabes, japoneses, franceses... Não é à toa que o passaporte verdinho vale uma grana no mercado negro.

Porque qualquer um pode ser brasileiro. Talvez por isso também a gente tenha tanta fé em tantas coisas. Conheço muita gente que, em casa, tem uma imagem de um Buda, um Cristo, uma Mãe Iemanjá, coloca galho de arruda, sal atrás da porta, faz sinal da cruz e diz salamalencon. Uma salada de crença que só se explica pela mistura do nosso povo.

Foi povo que vi na rua. Um povo que se amontoa cada vez que uma câmera de TV é ligada. E muitos se comparam a Darlene de Celebridade. Dizem: "Me filma que eu faço qualquer coisa para aparecer na TV". Então estou eu no Centro, com o Nico Nicolaiewsky, para fazer uma ópera cômica, e os personagens que se apresentam são maravilhosos e curiosos. Cada um é um mundo singular. De todas as cores, estilos, sorisos...

Assim como é aqui na terra brasilis. E cantam. Cantam bem. Só dar a nota e um coro se forma. Um retrato de um tempo, de uma esquina, de um sul de mundo. A gente vai mostrar isso no Fantástico. A ópera e as diferenças. Embora o enfoque da reportagem não seja a diferença, o molho é.

Lembro do tempo do colégio em que não se respeitava a diferença. Toda sala tem um nerd. Ridicularizado, excluído do grupo por não vestir falar andar igual à turma toda. Penso que é assim até hoje. Quando fui acompanhar um grupo de estudantes para a Disney, todas as meninas queriam uma cueca do Hard Rock Café, como se fosse um troféu.

Todas tinham o mesmo comportamento de se fazer em série. Isso me preocupou, me preocupa. Saber valorizar nossas diferenças é saber valorizar nossa gente, nosso país, nossa história. Por isso, quando você se achar diferente, não tente mudar.

Se você for diferente, explore isso, faça de sua diferença o seu trunfo. Assim é o Brasil, assim somos todos nós. Na voz do Caetano, de perto ninguém é normal. Aposte no seu sotaque, no seu estilo e descubra que, como você, só existe um, aquele que aparece no espelho quando você se olha.

gabriel@rbstv.com.br

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Mauren Motta
02/04/2004


O ciclone da vida

No ano passado tirei férias e fui para Nova York. Setembro sempre foi uma das melhores épocas para visitar a cidade. Mesmo coincidindo com a data do atentado terrorista. Por azar meu, no oitavo dia de viagem soube da passagem do Isabel. Fiquei 20 dias lá, o furacão Isabel chegou no meu penúltimo dia de viagem.

Ventos de até 150 quilômetros por hora arrancaram árvores e telhados na costa leste americana. Em Manhattan, nada aconteceu. Ainda bem, eu tava apavorada. A população foi avisada com muita antecedência. Todos sabiam como se proteger e o que iria acontecer. Kits de sobrevivência eram distribuídos nos pontos de provável devastação. Cidades vizinhas a Nova York foram esvaziadas.

Fiquei com medo, pensei até em partir antes de o ciclone aparecer. Ao mesmo tempo, ninguém parecia dar a mínima bola. A vida seguia normal: furacões são comuns naquela parte do mundo. Passado o susto, os estragos foram muito menores que os previstos e a minha viagem terminou tri tranqüila.

Foi nesse clima de férias que comecei a repensar a vida. De um momento para o outro, tudo pode mudar. Não faço o tipo inconstante, que muda de idéia a toda hora. Sou insistente. Mas a vida é como um furacão. E ela às vezes nos pega de surpresa. Essas "mudanças climáticas" podem ser regidas por nós. A tempestade do amor pode ser evitada. As trovoadas de trabalho podem ser amenizadas. Os ventos fortes, quando o papo é saúde, podem ser diminuídos.

Dentro desse turbilhão de emoções e sensações, a única coisa que não tem saída é a morte. Aiii, pesou né? Que dramalhão! Não é nada disso. É que pessoas como eu, que vivem tão intensamente cada minuto, ficam sempre com receio que tudo possa acabar de uma hora pra outra. Que a chuva passe e leve com ela os nossos sonhos e planos.

Acho que você, neste exato momento, pode estar pensando nisso... O jeito é não ficar parado, proteção é lei pra não se chegar em casa encharcado. Tem vezes que não dá, é maior do que gente. A chuva escorre no rosto e a roupa gruda no corpo. Passadas as nuvens carregadas, a única certeza é que um dia o sol volta a brilhar.

E um furacão de verdade passou por aqui. O Catarina é aparentemente o primeiro furacão do Atlântico Sul em toda a história. As praias de Santa foram as que mais sofreram. Terminado o susto, a vida vai voltando ao normal no litoral sul do Brasil. O violento ciclone deixou suas marcas por aqui, mas a nossa dignidade continua intacta. Por vias das dúvidas, tenha sempre um guarda-chuva perto de você!

Beijolas ensolaradas.

mauren@rbstv.com.br

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Paulo Sant'ana
02/04/2004


Poder inacreditável das fitas

O personagem mais intrigante desta crise política que se desatou sobre o governo e o país é o empresário de jogos Carlos Augusto de Almeida Ramos, o ex-banqueiro de jogo do bicho Carlinhos Cachoeira.

Onde ele vai ou está se mune de eficiente gravador de áudio ou de imagens, depois sai a negociar com senadores, jornalistas, procuradores da República se vai entregar ou não as fitas que gravou.

Umas fitas ele entrega, outras não. Tanto as que entrega quanto as que não entrega provocam crises profundas no governo, no Ministério Público, no mundo político, na Bolsa de Valores, no mercado cambial, uma confusão danada causada por um só homem.

Waldomiro Diniz, o assessor do governo gravado pelo Carlinhos Cachoeira, é tido hoje como corrupto por ter recebido propinas de Carlinhos Cachoeira.

Mas Carlinhos Cachoeira, incrivelmente, não é tido por corruptor, quando se sabe que para haver a corrupção passiva é indispensável que concorrentemente haja a ativa.

Ao contrário, o que se divulga é que Carlinhos Cachoeira está livre de qualquer condenação no episódio por estar "colaborando com as investigações".

Espanta enquanto isso a facilidade com que Cachoeira grava os seus encontros com as autoridades.

Grava e depois usa as gravações ou negocia vantagens para não divulgá-las.

O poder de fogo das gravações de Cachoeira está causando o maior rebuliço nas relações institucionais.

Ora o país inteiro pára para assistir a uma gravação de Cachoeira que fez cambalear o ministro José Dirceu e o governo Lula.

Ora o país pára, como aconteceu esta semana, para assistir no Jornal Nacional a uma outra gravação de Carlinhos Cachoeira que salva José Dirceu e o governo Lula e incrimina os procuradores da República que foram gravados por ele.

E assim as gravações ilegais, invasivas, ilegítimas de Carlinhos Cachoeira vão deixando destroços em seus caminhos.

Balança um ministro, balança o governo, balança o Ministério Público, se consagra o ministro, se consagra o governo, se consagra o Ministério Público, ferve o Senado, ferve a Procuradoria-Geral da República, cresce o Risco Brasil, sobe o dólar, cai a bolsa, tudo e todos à mercê de um empresário de jogos online que paga ou promete pagar propinas a autoridades e sai por aí gravando todos os seus contatos.

A oposição brada que uma fita de Cachoeira com Waldomiro Diniz é capaz de derrubar o governo.

Dali a pouco, as lideranças do governo bradam que a outra fita de Cachoeira com o subprocurador da República José Roberto Santoro serve para comprovar que há um esquema surdo para derrubar o governo Lula.

Cogita-se agora, unicamente em razão dos efeitos das fitas de Carlinhos Cachoeira, de que seja revitalizada a idéia da implantação da Lei da Mordaça, pela qual é decretada a limitação dos poderes do Ministério Público.

E cogita-se também, em razão das fitas, de que seja implantado o controle externo do Ministério Público.

É surpreendente o poder dessas fitas para alterar o equilíbrio político do país e mergulhá-lho numa crise paralisante.

E Carlinhos Cachoeira posando de moralista e vítima, enquanto suas fitas ilegais e clandestinas vão deixando destroços por todos os setores da vida pública nacional.

E o pior de tudo é que Carlinhos Cachoeira continua assim livre para continuar mergulhando o país numa crise insana porque parece que têm medo de que ele divulgue outras fitas.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Para fugir do rigor da seca



Umidade da noite deixa soja mais resistente e altera horário da colheita em regiões como a de Passo Fundo (foto Tadeu Vilani/ZH)


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Quinta-feira, Abril 01, 2004




Claro que você não tem tempo de ler os jornais do mundo inteiro, mas agora você pode ter uma boa idéia do que é manchete na maioria deles. Como ? Um site mostra as 245 primeiras páginas dos jornais de mais de 30 países, do Indian Press de Nova Delhi ao Le Figaro de Paris, do Alayam de Bahrain ao Corriere Della Sera de Milão. As primeiras páginas são atualizadas diariamente.

Clique aqui para acessar o Today's Front Pages.

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Cena do show "MTV ao Vivo", que sai em CD e DVD e será exibido amanhã na emissora musical

A MTV aproveitou os 10 anos de carreira da cantora Ivete Sangalo para gravar um especial, que leva a marca "MTV ao Vivo". O show ocorreu em dezembro do ano passado, no estádio Fonte Nova, em Salvador.

O CD sai no sábado e o DVD deve chegar às lojas no próximo mês. Já o programa da MTV será exibido amanhã, às 22h. Na abertura, Ivete se prepara para subir ao palco. De mãos dadas com os integrantes de sua equipe - e lado a lado com o marido, Davi Moraes - ela reza e sobe ao palco emocionada para começar o espetáculo com canções do tempo da banda Eva.

"Antes de entrar no palco, eu estava em transe, não ouvia nada. Na abertura, eu não conseguia me conter, quase não entendia o que estava acontecendo", diz a cantora.

Caçula de cinco irmãos (um deles já morto), Ivete conta com a família acompanhando cada um de seus passos. "Somos cinco irmãos e todos são viscerais. É um barraco diário, uma baixaria. A gente mistura problemas pessoais e profissionais. Mas, por outro lado, tenho o conforto e a segurança que ninguém mais tem. E existe muito respeito entre nós", conta a baiana, em frente às câmeras do programa da MTV - que intercala momentos do show e trechos de uma entrevista.

O projeto do "MTV ao Vivo" começou quando Ivete planejava um grande show em comemoração de seus dez anos de carreira. "A MTV já havia me convidado para gravar um Ao Vivo, mas, na época, eu não tinha nada preparado e achei melhor não fazer", lembra. A intenção, segundo ela, foi montar um espetáculo documental, com os hits de sua carreira.

Para o grande momento, a baiana requisitou a companhia de amigos como Sandy e Junior, Gilberto Gil e Daniela Mercury, além do próprio marido, que toca em uma das faixas. A idéia, agora, é conseguir empacotar toda a tralha montada em Salvador e viajar com o show pelo Brasil.

Marido
Em todas as cenas de bastidores do programa "MTV ao Vivo", em um canto ou outro da TV, vê-se Davi Moraes. "Ele é a minha sorte grande, pessoal e artisticamente", define Ivete Sangalo, brincando com o título de seu recente sucesso, "Sorte Grande". "Ele toca muito bem guitarra, não poderia deixar de tê-lo no meu disco. E, para isso, usei os caminhos mais feios. Disse para ele: Você é meu marido, tem de estar comigo!", diverte-se a cantora, dizendo que o show foi uma parceria.

Além de Moraes, Ivete contou com a presença de mais seis artistas, mas todos eles só poderão ser vistos no DVD. Alguns aparecem no CD, outros só no programa de TV. São eles: Sandy e Junior, Gilberto Gil, Margareth Menezes, Daniela Mercury e Tatau, do Ara Ketu.

DVD
A gravadora Universal e a MTV estão enfrentando problemas burocráticos para conseguir reunir no DVD "Ivete Sangalo - MTV ao Vivo" todas as 26 canções apresentadas no show realizado em Salvador. "Existe um acordo que prevê um percentual para que as gravadoras liberem músicas para DVD. Mas com algumas delas não estamos conseguindo negociar", diz o diretor artístico Max Pierre.

Segundo ele, as faixas que ainda não foram liberadas são "A Lua q Eu t Dei", "Se Eu Não te Amasse Tanto Assim" (ambas compostas por Herbert Vianna) e "Chica Chica Boom Chic", que foi interpretada por Carmen Miranda. "Estou doente com isso!", revolta-se Ivete. "Mas se eles não liberarem as músicas vão ficar 20 dias com coceira", brinca.

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DIA DA MENTIRA

Quem não se lembra de Pinóquio, um boneco de madeira que, quando contava mentiras, sentia seu nariz crescer? Pois bem. Mentiras engraçadas (ou não) já inspiraram autores de livros, produtores de desenhos animados e vários diretores de cinema. Quase sempre cercado de justificativas, o ato é condenado aqui na terra e, acredita-se, que no céu também (afinal, mentir fere os 10 mandamentos da igreja e preceitos de outros segmentos religiosos). Temores à parte, a mentira já é algo rotineiro na vida de milhares de pessoas. Assim, quem nunca contou uma ¿mentirinha¿ que atire a primeira pedra!

Como tudo (ou quase tudo) tem um dia de comemoração no nosso calendário, com a mentira não poderia ser diferente. Há muitas explicações para o 1º de abril ter se transformado no Dia da Mentira. Uma delas diz que a brincadeira surgiu em 1564, na França. Depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX determinou que o Ano Novo, que tinha início no dia primeiro de abril, seria comemorado no dia 1º de janeiro.

A mudança, porém, não agradou e parte da população continuou comemorando o Ano Novo na antiga data. Por conta dessa resistência, os que obedeciam as ordens do rei resolveram pregar uma peça nas pessoas que não aceitavam o novo calendário. Todos receberam um convite para uma suposta festa de Ano Novo que aconteceria em 1º de abril. Moral da história: não houve festa alguma e a mentira serviu apenas para fazê-los entender que o Ano Novo não era em 1º de abril!

Para o sossego de muita gente, hoje a data não é tão festejada como antes. Na verdade, muitas pessoas não concordam com ela, pois acham errado existir um dia em que é permitido enganar. Afinal, mentira é isso mesmo: engano, fraude, falsidade, ilusão...

Mais do que em qualquer outro dia do ano, o 1º de abril é recebido com bastante receio entre as pessoas. A imprensa, por exemplo, tem cuidado redobrado neste dia. Isso porque as redações recebem falsas sugestões de pauta que, se não apuradas, podem causar sérios transtornos. Só para se ter uma idéia dos absurdos que circulam nesta data, confira algumas das mentiras pregadas por pessoas que pretendiam ¿brincar¿ com os veículos de comunicação:

"A África do Sul comprou Moçambique por US$ 10 bilhões. 0 anúncio do negócio fora feito na Organização das Nações Unidas pelo presidente sul-africano Nelson Mandela¿ - jornal Star, de Johannesburgo

A Rádio Medi, de Tânger, no Marrocos, noticiou que o Brasil não iria participar da Copa do Mundo porque o dinheiro da seleção seria usado na luta contra o incêndio em Roraima

A minúscula república russa Djortostão declarou guerra ao Vaticano. Motivo: arrebatar o título de menor Estado da Europa. Para tanto, ele teria doado seis metros quadrados de seu território a uma república vizinha - jornal Moscou Times

Diego Maradona, ex-capitão da seleção argentina de futebol, é o novo técnico da seleção do Vietnã - principais jornais vietnamitas

Ao deixar o Senegal, o ex-presidente americano Bill Clinton seria acompanhado de uma comitiva formada pelos primeiros 50 senegaleses que fossem à embaixada para pedir visto de entrada nos EUA. Assim informou o jornal Le Soleil, do Senegal. Centenas de senegaleses acreditaram na mentira e correram para a embaixada americana
Graziella Campanaro
Do CorreioWeb


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PARAGUAI X BRASIL
Cadê o nosso futebol?

Em dia de apagão no estádio Defensores del Chaco, a Seleção não esteve iluminada. O trio de ouro Ronaldo, Ronaldinho e Kaká ficou devendo no empate em 0 a 0 com o Paraguai. O Brasil é terceiro colocado, ao lado da Venezuela, com 9 pontos.



Ronaldo, individualista, quando tentou a tabela, errou os passes

ASSUNÇÃO - O esperado show do trio de ouro (Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká) não passou de um sonho. Os três craques, em dia de pouca inspiração, não resolveram o jogo contra o Paraguai, ontem, no Estádio Defensores del Chaco, e o Brasil amargou um frustrante empate de 0 a 0, em Assunção. Resultado que mantém a seleção brasileira na incômoda terceira posição das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa de 2006, com 9 pontos, atrás da Argentina (11) e dos próprios paraguaios (10).

O início de jogo foi, no mínimo, inusitado. Um apagão no estádio logo no começo (aos 2) fez a partida ficar parada por 31 minutos, em função de uma sobrecarga de energia no gerador do Defensores del Chaco. O bastante para esfriar o time do Brasil, que, a exemplo do Paraguai, não conseguiu criar uma única real chance de gol no primeiro tempo. O que se viu foi muita correria, mas pouca objetividade.

O Brasil apresentou um futebol à moda Carlos Alberto Parreira: burocrático, exageradamente cauteloso e que peca pela falta de ousadia. Ronaldo, o Fenômeno, que completou 10 anos de seleção (estreou com a amarelinha em março de 94), não pôde comemorar a marca com um gol. Ficou devendo...

Com Ronaldinho Gaúcho apagado boa parte do tempo apareceu apenas nas cobranças de falta, e errou as três tentativas que teve , coube aos outros dois integrantes do trio de ouro, Ronaldo e Kaká, a responsabilidade de furar a marcação adversária. Mas a barreira paraguaia levou a melhor.

Perigo só com os chutes de Roberto Carlos

A seleção brasileira viveu, apenas, dos chutes de longa distância de Roberto Carlos. E foi dele a melhor oportunidade do Brasil, aos 45, numa bomba de fora da área que assustou Tavarelli. O Paraguai? Limitou-se alçar a lançar a bola para a área adversária, na esperança de levar a melhor no jogo pelo alto, no que não obteve êxito. O empate parcial em 0 a 0 fez jus ao que as duas equipes fizeram na etapa inicial, quase nada.

Se a primeira fase foi morna, a segunda ganhou em emoção. Aos 5 minutos, o Brasil quase marca, num chute cruzado de Ronaldo, que obrigou o goleiro paraguaio a fazer difícil defesa. No lance seguinte, o time da casa deu o troco: Roque Santa Cruz finalizou com perigo, assustando Dida. As duas equipes ainda criaram outras oportunidades, mas não tiveram competência para covertê-las em gol.

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Coração marrom

Cantora se assume como porta-voz da dor de cotovelo feminina, lista as loucuras que fez por amor e revela que está sozinha no momento
Clarissa Monteagudo



Jeitosinha: além de cozinhar bem, a Marrom gosta de costurar

É bom sofrer por amor. Sem uma dose de sofrimento não vale. Ao falar sobre suas paixões, Alcione, 56 anos, assume tom fiel ao seu repertório de Meu Vício é Você a A Loba, a cantora se consagrou como uma versão de Lupicínio Rodrigues de saias. Não quero que batam na minha cara porque ninguém seria doido assim. Nem se comer pato com febre. Mas é preciso sentir que o seu homem está vivo, que você mexe com ele, decreta Marrom, romântica até o último fio dos cabelos coloridos com mechas no novo CD Faz uma Loucura Por Mim. Apesar do estilo passional, a cantora passa longe da linha deprê. Transformo até as tragédias em tragicomédias. Não consigo ficar meia hora triste, afirma, sorrisão no rosto.


O título do CD traz à cantora boas lembranças das loucuras do passado. Já mandei avião passar em cima da casa de um namorado levando uma faixa onde estava escrito eu te amo. Se um homem não é capaz de pichar um muro com o meu nome, não dá, questiona Alcione, que tem boas histórias para contar sobre paixões antigas.



Santos em profusão: cantora maranhense exibe fé com destaque

Sabe o que é você conversar com um homem pelo telefone, louca para vê-lo, pensando que a ligação é de Nova Iorque. Aí ele te diz que está na verdade no Galeão e te pede para buscá-lo. Tem que chamar a zaga do Flamengo toda, brinca a Marrom. Solteira, Alcione espera uma nova paixão. Sei que esse homem que eu quero está por aí. Deus vai trazê-lo no tempo certo. A pressa faz a gente errar, filosofa a cantora.

Sei que esse homem que eu quero está por aí. Deus vai trazê-lo no tempo certo, sobre sua atual solteirice

A longevidade da carreira são 31 anos desde os tempos em que foi descoberta por Jair Rodrigues cantando na noite ela atribui a uma sintonia com o público. Penso 24 horas no que faço. Vivo do exercício da minha profissão. Tenho um público fiel, tem gente que coleciona meus discos. Faço tudo pensando nele, resume a cantora.

Se um homem não é capaz de pichar um muro com meu nome, não dá Valorizando as provas de amor explícitas

Alcione assume ares de analista quando fala sobre a popularidade. Existem várias mulheres dentro de mim. Então, tem o homem que lembra de uma ex, de alguém que deseja ou da própria mulher. Os homens também assumem essa loba, essa mulher submissa. É uma forma de expressar seu amor, teoriza Alcione. Haja coração.

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Pequenos bem dispostos em confrontos

Comparamos os principais modelos do segmento superior dos compactos. Candidatos a substituir os 1.0, oferecem mais conforto, equipamentos e desempenho
Eduardo Sodré



As traseiras, muito diferentes, refletem as idades e opções de design nos projetos do Clio, 206, Palio e Fiesta, com o desenho mais recente

Com tantas opções, comprar um carro na faixa de R$ 23 mil a R$ 27 mil ¿ o passo seguinte aos que não querem mais ver a insígnia 1.0 na lataria ¿ nunca foi tão difícil. Para auxiliar a escolha, comparamos ponto a ponto quatro dos modelos mais cobiçados do segmento: Ford Fiesta 1.6 Class, Palio ELX 1.3, Peugeot 1.4 Feline e Renault Clio Authentique 1.6 16V. Veja o que mais combina com você.



Conjunto óptico deu ao Clio aparência agressiva



Faróis do Peugeot agora têm lentes lisas de série



Palio traz base redonda invadindo o pára-choque



Cantos alongados do Fiesta fazem sucesso



Falta o conta-giros no painel do Renault, o mais simples de todos



Peugeot traz todas as informações necessárias e fundo cinza



Computador de bordo do Fiat fica entre os mostradores




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Nilson Souza
01/04/2004


Travessia

Aconteceu num início de tarde deste outono seco que tinge o Guaíba de verde. Eu voltava do almoço, preocupado com as tarefas que ainda teria de realizar naquele dia, quando o sinal de trânsito fechou. Parei e fiquei observando, distraído, o grupo de pessoas que atravessava pela faixa de segurança da movimentada avenida.

Passavam jovens estudantes com suas mochilas carregadas, elegantes senhoritas recém saídas do shopping, alinhados executivos, deslocados operários, dois casais de namorados, presumíveis donas de casa, todos apressados porque o tempo dos pedestres no reino dos automóveis é curto como a vida. Então, quando o homenzinho luminoso já começava a piscar para avisar os seres humanos que chegara a vez das máquinas, ela surgiu na minha frente como uma aparição.

Era uma mulher baixa, atarracada, de idade indefinida e provavelmente desprovida de beleza. Não pude fixar os olhos no seu rosto. Apenas percebi que seus cabelos começavam a ficar grisalhos. Carregava nos braços o filho doente - um rapaz extremamente magro, de olhar perdido, que se deixava levar como um desses manequins de loja.

Ao contrário de uma pessoa ferida ou desmaiada, como os companheiros de caserna que aprendi a transportar em simulações de batalha no meu tempo de serviço militar, o inválido mantinha-se ereto, dificultando o transporte. Mas para aquela mãe parecia não haver barreiras: bufando, mas com passos firmes, em poucos segundos ela chegou à calçada oposta e depositou delicadamente a sua preciosa carga em lugar seguro.

Fiquei nocauteado por alguns instantes. Só arranquei quando ouvi a primeira buzina. Como somos impacientes! Como somos egoístas! Como somos cegos! A gente se queixa da vida à menor contrariedade e sequer percebe que algumas pessoas carregam fardos pesadíssimos, sem muita margem para reclamar.

Aquela mãe - que outra pessoa além de uma mãe faria tal sacrifício? - não é única. São muitas as mulheres que dedicam os melhores anos de suas vidas para atenuar o sofrimento de crianças e jovens apanhados em armadilhas da natureza.

Nem sempre as vemos empreendendo essa corajosa travessia, como me ocorreu naquela tarde quente deste outono seco em que o Guaíba transformou-se numa imensa lágrima verde.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Leticia Wierzchowski
01/04/2004

Um grande epílogo

A vida pode ser mais impressionante do que a melhor das ficções, de tão improvável, de tão impalpável que é. A vida é espantosa, eu pressinto isso em cada minuto, acontecendo sob os nossos olhos tão cabalmente, tão sigilosamente como o primeiro dos passos de um bebê numa sala muito longe desta de onde eu vos escrevo.

Um ciclone no Rio Grande do Sul seria encarado como uma liberdade ficcional se estivesse regendo as páginas de um romance. Um ciclone devastando casas e tirando o sono das gentes. Foi aqui bem pertinho de nós, em Torres, onde, aliás, meus pais têm casa e viram seu telhado sair voando pelos ares. Esse ciclone entrou na vida de um monte de gentes de várias maneiras, quase todas trágicas; mas ninguém jamais vai ter para contar a história que sucedeu com uma das minhas melhores amigas. Pode parecer loucura, pode parecer ficção, mas aconteceu neste sábado. E eu, pensando muito nisso durante toda a semana, achei inesquecível a história.

O pai morreu na semana passada de uma doença súbita e irreversível. O pai morreu e foi cremado, e suas cinzas, ele tinha pedido desde sempre, eram para ser jogadas no mar. No mar em Torres. E assim essa amiga minha, sua mãe e sua irmã foram para Torres com a urna onde estavam as cinzas do pai. E as cinzas viram o mar, foram jogadas no mar exatamente no dia do ciclone, umas poucas horas antes.

A chance de uma coisa dessas acontecer, brincando um pouco com as estatísticas, é de uma em um bilhão. As cinzas foram levadas nos braços do ciclone, os restos mortais deste pai, deste homem, foram engolidos por uma das maiores forças da natureza, para sempre. Uma vez, me contaram que os antigos tinham o costume de, no Dia de Finados, subir num lugar muito alto, num morro ou montanha à beira-mar, e deixar que o vento lhes batesse no rosto; era nesse vento que vinham as almas dos seus ancestrais para ver como estavam aqueles que iam aqui nesta vida. Pensando através dessa ótica, o que aconteceu com essa família é emocionante.

O mundo se abriu, e veio o vento, e vieram almas para receber as cinzas que foram jogadas ao mar. O maior, o mais impressionante cortejo desse mundo. Um epílogo digno de uma ópera, e talvez a alma desse homem estivesse rindo, rindo, rindo, enquanto voava pelos ares. Eu lembro bem, creio que ele teria adorado, ele que era um aficionado da ópera. Pois em tudo que é trágico há sempre algo de lindo.

leticia.wierz@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
01/04/2004


40 anos

Estávamos recém-casados. Eu tentava começar um negócio que só confirmaria a incompetência da família para negócios. Dependia de ajuda de casa para pagar o aluguel do nosso primeiro apartamento, em Copacabana. Um quarto-e-sala na Figueiredo Magalhães com janelas para a Siqueira Campos, onde passavam bondes. Até hoje nossa primeira filha, que nasceu quando ainda morávamos lá, é a que tem o sono mais tranqüilo: se acostumou a dormir com o barulho dos bondes da Siqueira Campos.

Cito os bondes para não citar outros marcos da distância que nos separa daquele 1º de abril de 1964. O fato incrível de que tínhamos todos 40 anos menos, por exemplo. A TV era em preto-e-branco e a política da época, de certo modo, também. Havia a esquerda e havia a direita e as duas se demonizavam mutuamente.

A Terra estava dividida entre o Mundo Livre e o mundo comunista num permanente limiar de guerra, e a nitidez da distinção determinava o que nos acontecia aqui no quintal. Não foi um tempo de muitas nuanças. Para a América Latina não ser dos demônios da esquerda, mobilizaram-se os demônios da direita e começou a era dos generais. Estas partes do Mundo Livre ficaram com a liberdade em moratória. No Brasil, a moratória duraria 20 anos.

Minha atividade política naqueles dias era nenhuma. Me limitava a vibrar com os artigos do Cony no Correio da Manhã e a xingar as notícias da consolidação do golpe na TV em preto-e-branco, que mostrava, entre outras celebrações, a coleta de ouro da população para ajudar os militares a salvarem o Brasil. Não se soube onde foi parar este ouro.

Nossa maior preocupação era com a minha tia Lucinda, que trabalhava para o governo do Rio, nunca escondera suas opiniões políticas e estava sendo perseguida. Se fosse preciso, a contrabandearíamos para Porto Alegre. Não foi preciso. Eu é que, dois anos e pouco depois - uma filha nascida, a vida apertando e nenhuma perspetiva no Rio -, decidi fazer a coisa sensata. Voltei pra casa do pai.

Quarenta anos depois, é tão difícil recapturar o clima daquela época como seria, hoje, pegar um bonde na Siqueira Campos. Esquerda e direita se dissolveram em nuanças, as divisões do mundo são outras, tudo mudou. Ou será que mudou? Mais espantoso do que constatar a distância que nos separa daquele 1º de abril seria a constatação de que tudo mudou menos o essencial, que um outro Brasil ainda luta para sair de dentro do velho como no processo interrompido em 64. O que seria certamente o parto mais longo da história.

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Paulo Sant'ana
01/04/2004


O calvário dos motoristas

Chamaram a atenção da opinião pública os protestos ruidosos de 200 pessoas na rodovia que liga Caxias do Sul a Farroupilha contra o pedágio.

São as pessoas de baixa renda que escondem sua precária condição socioeconômica dentro de um automóvel.

Já devem ter percebido os espíritos mais argutos que já vai longe o tempo em que ter um carro era sinal evidente de prosperidade, de status.

Hoje, a maioria esmagadora das pessoas que possuem carros está enfrentando sérias dificuldades financeiras.

Parem em qualquer esquina e fiquem anotando a percentagem de carros populares que compõem o fluxo. É de mais da metade do total.

E grande parte desses motoristas luta com dificuldades para pagar a prestação do seu carro popular.

Além disso, derrubaram-se exatamente sobre os carros toda sorte de encargos, desde os impostos até o estacionamento, sem falar no preço dos combustíveis, onde estão embutidos outros impostos destinados à União, aos Estados e aos municípios. E mais ainda os malditos pedágios.

Aqui em Porto Alegre, os motoristas ainda são parados em todas as esquinas, em todas as sinaleiras há pedintes que calculam que poderão sustentar os seus dias em cima dos donativos dos motoristas.

Se você circular, é mordido pelos pedintes nas sinaleiras. Se for estacionar, em qualquer lugar, até nos arrabaldes, como numa praga os flanelinhas se aproximam e querem a sua parte no inferno astral dos proprietários de carros, condenados a pagar óbolos ou tributos ora aos desfavorecidos sociais, ora aos governos sedentos de impostos que recaem sobre quem teve a audácia de comprar um carro e penetrar no trânsito.

Agora mesmo se publica uma intrigante notícia: o governo do Estado está providenciando parcelar em oito prestações mensais as pessoas que foram multadas pelos pardais e não têm recursos para pagar as penalidades.

São 650 mil pessoas multadas que não têm dinheiro para pagar as multas, o que quer dizer claramente que não se calculou, na ânsia de penalizar com rigor pelo novo Código, que o tecido social não tinha condições de suportar a carga do tributo penal.

Ou seja, a punição é maior que a capacidade do infrator em suportá-la.

Os iluminados de toda ordem bradarão depressa que quem não tem dinheiro para pagar uma multa ou não ande de carro, ou não cometa a infração. Só que andar de carro é imperioso e eu já expliquei tantas vezes que cheguei a ficar exausto que, se forem jogados, como o são, os 2 milhões de veículos do Estado nas estradas e nas ruas, com pardais por todos os lados, fatalmente choverão as multas em todos os cantos, pois isto é uma ratoeira a que condenaram os motoristas.

E não são criminosos no volante, não, os multados. Há em Espumoso dois pardais, na entrada e na saída da cidade, que multam adoidados, todos os dias, motoristas que cruzam por eles a 45 km/h. Assim em inúmeros outros pontos do Interior e em diversos pardais da Capital.

São 650 mil os que não podem pagar as multas. Milhões são os que pagam as multas todos os anos para manterem-se regularizados, muitos sacrificadamente.

Comovente calvário de suplícios de toda ordem por que passam os motoristas gaúchos.

Acontece sábado, 3 de abril, no Salão de Atos da UFRGS, o 1º Fórum Profissional do Cirurgião-Dentista, que se propõe a discutir e encaminhar alternativas visando a melhorar a qualidade dos serviços dentários prestados à população e as condições de trabalho dos dentistas. As inscrições são gratuitas, telefone 3332-9299.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Oriente Médio
Selvageria e ódio no Iraque



Quatro civis americanos foram mortos a tiros na cidade de Falluja, foco da resistência à ocupação no país. Em seguida, um multidão enfurecida incendiou seus veículos, queimou e mutilou os corpos, arrastando-os pelas ruas (foto Ali Jasim, Reuters/ZH)


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Quarta-feira, Março 31, 2004




Dual Xeon 3.2 a seu serviço

Testamos com exclusividade o poderoso servidor que a Sinco lança amanhã. Saiba o que a máquina tem de especial
Paulo Couto



Imensos dissipadores de calor com heatpipes cobrem os processadores

Quando alguém fala algo sobre um servidor logo se imagina uma máquina poderosíssima, do tamanho de um armário, que custa uma fortuna e requer técnicos especializados para sua manutenção. Sim, essas máquinas existem, mas o que caracteriza um servidor é a capacidade de funcionar ininterruptamente, 24 horas por dia, sete dias por semana, e estar ligado a uma rede com a função de servir dados aos seus clientes. E isso você pode conseguir com um equipamento de pequeno porte, não muito diferente de um PC comum, que pode ficar em seu escritório mesmo.

Infelizmente, talvez por falta de conhecimento, muitos usuários no Brasil montam computadores comuns para essas tarefas, em vez de optar por um conjunto que foi projetado para operações críticas, produzido com componentes muito mais robustos e confiáveis. Os servidores precisam servir aos seus clientes, e esses clientes são outros computadores de uma mesma rede ou de qualquer rede que tenha acesso ao servidor.

As características de hardware desse servidor devem ser configuradas para cada caso, analisando-se o volume de tráfego, a necessidade de processadores mais ou menos poderosos, e a necessidade de armazenamento. Mas não tem muito mistério: as ofertas disponíveis no mercado são bem personalizadas e poupam muito trabalho. Hoje vamos apresentar um equipamento voltado para aplicações com alta necessidade de processamento e memória, que tanto pode ser um servidor de aplicações em uma rede, quanto uma workstation de alto desempenho para trabalhos matemáticos ou de animação gráfica para estúdios.

Parecido com Pentium 4, Xeon tem soquete diferente

O Intel Xeon (pronuncia-se Zíon) é um processador com características similares às do Pentium 4, mas usa um soquete diferente destinado exclusivamente a servidores e workstations de alto desempenho. O topo da linha é o novo Xeon 3.2 GHz com 512KB de cache L2 e mais 2 MB de cache L3, a mesma característica do Pentium 4 Extreme Edition 3.2 GHz com o qual compartilha parte do núcleo, com a diferença de operar com FSB de 533MHz, contra 800MHz do Pentium 4 EE.

Outra característica que diferencia o Xeon do Pentium 4 é a capacidade de operar em soluções multi-processadas. O modelo Xeon que avaliamos pode operar em sistemas com dois processadores, mas existem versões Xeon MP para até 8 processadores. Os chipsets da Intel para esses processadores são o E7501 e o E7505, como o usado na placa-mãe Intel SE7505VB2 que equipa o servidor gentilmente cedido pela Sinco Sistemas (http://www.sinco.net), Premier Provider Intel no Rio de Janeiro, para o nosso teste.

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PARAGUAI X BRASIL
Brasileiro legítimo

Kaká, Ronaldinho e Ronaldo: Brasil terá hoje, contra o Paraguai, pela primeira vez em jogos oficiais, o seu triunvirato de craques



Para Ronaldo, todos querem vencer a seleção brasileira. Por isso, alerta que todo cuidado é pouco no jogo de hoje à noite

ASSUNÇÃO - Pela primeira vez, a seleção brasileira terá os astros Ronaldo, Ronaldinho e Kaká começando uma partida de Eliminatória de Copa do Mundo. E é, justamente, dos pés do trio de ouro, em grande fase, que o técnico Carlos Alberto Parreira espera levar a melhor sobre o Paraguai, hoje, às 21h45, no Estádio Defensores del Chaco. Até o início da rodada, os donos da casa lideravam a competição, com nove pontos, enquanto o Brasil ocupava a terceira posição, com oito.

Confirmada a presença do lateral-esquerdo Roberto Carlos, que participou dos 30 minutos do único coletivo que a Seleção realizou antes de enfrentar os paraguaios, a maior preocupação de Parreira refere-se ao jogo aéreo do adversário.

Sem rodeios, o treinador brasileiro deixou claro que não admitirá erros de sua defesa nas bolas alçadas para a área, em especial pelo lateral-direito Arce (velho conhecido dos brasileiros). Ele avisou que os atacantes do Paraguai, Roque Santa Cruz e Cardozo, precisam ser vigiados de perto o tempo todo.

¿Não podemos cometer erros na marcação, em especial nas bolas aéreas. O Paraguai possui jogadores de referência nesse tipo de jogada e que resolvem. Nossos zagueiros terão de estar atentos durante os 90 minutos. Quando nos referimos aos jogadores que estão aqui (na Seleção), falamos daqueles que atuam em equipes de ponta no futebol europeu. Então, sabem bem como combater essas bolas aéreas. É questão de posicionamento, de conversar, de não cometer erros, porque essa bola vai chegar com muita freqüência", alertou Parreira, mandando um recado para Lúcio (Bayer Leverkusen) e Roque Júnior (Siena).

Ao saber do temor de Parreira em relação à sua dupla de zaga, Roque Júnior reagiu mal: Já mostramos o que tínhamos de mostrar, jogamos na Europa, somos experientes e campeões do mundo".

Renato ganha elogios é será titular

A novidade na equipe brasileira será a escalação, como titular, do jovem meio-campo Renato, que caiu nas graças de Parreira. Trata-se de um jogador moderno, que vem crescendo muito de produção e que faz por merecer uma oportunidade, elogiou o técnico.

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David Coimbra
31/03/2004


Vacas que voam

Passou um furacão por aqui, e nem vi. Claro, um furacão é uma tragédia, as pessoas sofrem por causa dos furacões, toda solidariedade aos desabrigados, aos parentes das vítimas e talicoisa. Mas um furacão deve ser algo bonito de ver, estando-se a uma distância segura. Aquela espiral negra de vento do tamanho de um prédio de 20 andares girando e vindo e desenraizando figueiras centenárias e fazendo vacas voarem. Sempre que se fala em furacões, imagino vacas voando, passando diante da minha janela com placidez bovina, enquanto pingo um trema num u.

O quê? Você acha que um furacão não levanta a vaca? Então lhe informo que a piscina do apartamento da minha amiga Naninha Juruena, lá em Torres, foi arrancada do assoalho e levada pelo nosso furacão Catarina, uma piscina com água e tudo. Foi-se a piscina, felizmente sem que ninguém estivesse nadando dentro dela, e ninguém nunca mais a encontrou.

Mas não vi nenhuma piscina ou vaca levantando vôo, não vi furacão ou ciclone ou tornado, nada. Faltou-me, a mim e à boa parcela dos meteorologistas, previsão.

Mesmo assim, não culpo os meteorologistas. As manifestações climáticas são traiçoeiras há milênios. Raros são os homens capazes de antecipar os flagelos da Natureza e os que os antecipam muitas vezes são ridicularizados. Isso é histórico. Noé teve informação de fonte privilegiada a respeito do dilúvio, começou a construir uma enorme arca em terra firme e todos riam dele. Depois foi aquilo - choveu tanto que a arca foi parar no cume do Monte Ararat, que coisa.

Você pretende descobrir o que as mulheres realmente querem? Fácil. Preste atenção nos ciclos biológicos. Lembre-se da ovulação - a ovulação é a chave. Agora, se você acha que uma onda do Atlântico não pode entrar pela sua janela no décimo andar, você morando aqui, na Azenha, você está bem, mas bem enganado. Tudo pode acontecer, climaticamente falando.

Os meteorologistas, pois, estão absolvidos. Fizeram o que puderam, limitados pelos equipamentos de que dispõem. Os dirigentes do Grêmio, não. É fácil prever que clube que não deposita Fundo de Garantia vai ter problema ali adiante. Mas os dirigentes do Grêmio não prevêem nada. Resultado: o clube vive assolado por furacões. E esses, tristemente, não são nem bonitos de se ver.



Foto(s): Itsuo Inouye, AP, Banco de Dados/ZH

O Grande Terremoto
Quando fui ao Japão, durante a Copa, torcia para ver um terremoto, se é que terremoto se vê. Estava no Japão, puxa, onde ocorre um terremoto por dia. Tinha que experimentar um, para escrever no jornal, contar para a turma aqui em Porto Alegre, onde a terra, por enquanto, anda firme. Nada que machucasse alguém ou quebrasse budas de porcelana, lógico. Nada parecido com o Tokai.

O Tokai é o Grande Terremoto esperado há anos pelos japoneses. Eles, lá com seus instrumentos japoneses, sabem que o Tokai vai acontecer e que, quando acontecer, será, desculpe o trocadilho, tremendo. Os cientistas japoneses calculam que o Tokai chegará a nove pontos na Escala Richter. Para se ter idéia do que isso significa, o tremor que destruiu Kobe em 1995 atingiu 7,2 pontos!

Pois o Tokai vai partir o Monte Fuji ao meio e tragar Tóquio inteirinha, como se fosse o Sant´Ana tragando uma golfada do seu Minister. Os japoneses, no entanto, não são os dirigentes do Grêmio. Ele se previnem. Juram que, se conseguirem prever o Tokai com 24 horas de antecedência, evacuam os 10 milhões de habitantes de Tóquio. Formidável. Prevenção é com os japoneses. Com os dirigentes gremistas, não.

Todos querem fugir de lá

Por que os jogadores estão fugindo do Grêmio como se estivessem remando nas galés romanas? Por que eles não querem simplesmente sair, mas se livrar do Grêmio?

Não é só falta de dinheiro.

O Adriano ganha R$ 6 mil e gostaria de passar a R$ 20 mil, é a informação do Luís Henrique Benfica, repórter atilado, eternamente atento, feito um escoteiro. O Grêmio não tem como pagar? Algum dirigente deveria procurar o jogador, conversar com ele, explicar a situação, talvez prometer aumento no futuro. Mas foi o próprio advogado do zagueiro quem disse que não houve diálogo com a direção. Ou seja: há falta de traquejo dos dirigentes para lidar com os jogadores. Falta prevenção, falta traquejo, só não falta parlapatice no Estádio Olímpico.

Histórias do Futebol

Pela primeira vez, um Gre-Nal será disputado no aniversário do Inter, 4 de abril. Dois clássicos foram jogados no aniversário do Grêmio, 15 de setembro. O primeiro, em 1912, na Baixada. O Grêmio era bem melhor, tinha uma dupla de zaga alemã, Schuback e Mohrdiek, e um centroavante goleador, que também era capitão do time, o célebre Booth. Foi exatamente Booth quem deu a vitória ao Grêmio. Marcou os dois gols do 2 a 1. Galvão descontou para o Inter.

O segundo clássico de aniversário ocorreu em 1946. O Inter tinha o Rolo Compressor, um time tão bom que, no começo do ano, seus jogadores elaboraram um documento segundo o qual o signatário prometia bicho aos atletas pela conquista do campeonato. Note: o documento foi feito pelos jogadores, não pelos dirigentes! Acontece que o Grêmio venceu o Gre-Nal de 15 de setembro de 46, também por 2 a 1, gols de Cordeiro, de cabeça, Carlitos fazendo para o Inter. Mais: o Grêmio ganhou também o campeonato.

Concluí que a estatística é favorável ao Inter. Afinal, o aniversariante havia vencido as duas vezes, ambas por 2 a 1 e em ambas com um mesmo jogador havia marcado os gols da vitória. Mas ontem um colorado pessimista suspirou:

- Sei não, talvez o Grêmio seja bom em aniversários...

david.coimbra@zerohora.com.br

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Martha Medeiros
31/03/2004


No olho do furacão

Já havia testemunhado tremores de terra em Santiago do Chile, onde vivi, mas nunca passei por nada parecido com o que ocorreu na madrugada de sábado para domingo em Torres. Cheguei sexta à noite com minha família para passar o final de semana. Na manhã de sábado, a boataria sobre o tal ciclone já corria a cidade, mas o pessoal encarou o assunto como uma provável aventura, e não como uma ameaça real. Por via das dúvidas, fechei bem todas as janelas do nosso apartamento, que fica no oitavo andar de um prédio localizado a três quadras da praia. Retirei os móveis que costumam ficar na sacada e achei que com essas providências poderia dormir tranqüila. Às 23h, começou a ventar forte e fui deitar. Poucos minutos depois acabou-se qualquer possibilidade de sono e descanso. O barulho era ensurdecedor. O zunido do vento misturava-se ao estilhaçar de vidraças, alarmes disparados, transformadores explodindo, e tudo isso sem enxergar um palmo lá fora por causa do blecaute. Não bastasse essa trilha sonora do inferno, o prédio movia-se. Parecia que estávamos num barco, com direito a todos os clichês do gênero, como lustres balançando e quadros tortos.

Pensamos em descer até o hall do edifício, mas uma inspeção prévia confirmou que não seria boa idéia. A porta do prédio estava em frangalhos, havia cacos de vidro, água da chuva e areia espalhados por tudo. Melhor ficar onde estávamos: no oitavo andar, à luz de velas, matando o tempo com umas ave-marias.

Depois de uma madrugada insone, a luz do dia mostrou o resultado da passagem do Catarina. Em frente ao meu prédio, uma praça, outrora florida, abrigava um poste de luz deitado sobre a grama. Ao lado dele, um sofá de vime, que havia voado de algum apartamento vizinho. Muitos estilhaços. Pedaços de cortina e de forro de gesso. Lâminas de zinco arrancadas de garagens. Praticamente nenhuma árvore de pé. Desolador.

Eram 7h da manhã de domingo e toda a população estava nas ruas, tentando acreditar nos próprios olhos. A reação era de perplexidade. Por sorte, o prejuízo foi, em sua maior parte, material. E o que é material se reconstrói, se compra, se ergue outra vez. Telhas, janelas, letreiros, voltarão todos pro lugar. Bem diferente de uma guerra. Dizer que somos sobreviventes é um exagero e uma injustiça com aqueles que perdem suas famílias em combates estúpidos. Tivemos apenas um confronto incomum com a natureza. Foi apavorante, mas excepcional. Não deverá se repetir tão cedo. E, se acontecer, que a experiência ensine: na dúvida, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta - a população deve ser alarmada com seriedade e insistência, não se pode contar apenas com aquilo que "se ouviu dizer". Boatos não provocam mobilização. Em contrapartida, nós, população, precisamos também aprender a confiar mais: totalmente desinformados não estávamos.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
31/03/2004


Com os pés no chão

O governo Lula da Silva, em 15 meses, passa da fase messiânica para a realista.

Lula disse anteontem: "Não tenho poderes de Deus".

Antes de anteontem, parecia que tinha. Só Deus podia criar 10 milhões de empregos em quatro anos no Brasil.

Antes de anteontem, o Brasil era para Lula uma força da natureza que não podia ser vencida e atingiria um paradisíaco destino.

Anteontem, segundo o discurso de Lula, o Brasil não passa de um país vulnerável, com uma dívida imensa e dolarizada e o governo não tem recursos suficientes para investimentos que possibilitem a retomada imediata do crescimento econômico e a geração de empregos.

Lula foi eleito como um deus, porque sua figura encerrava o significado da salvação.

O que passava pelos espíritos dos brasileiros quando Lula foi eleito e empossado era mais ou menos a idéia de que estávamos diante de um Messias, alguém que finalmente iria redimir a raça brasileira e acabar com seus problemas sociais.

Lula era tido no imaginário popular como o redentor que a morte impediu que Tancredo Neves fosse.

Estes primeiros 15 meses de Lula no governo mostraram que ele se comportava mesmo como um profeta. Um profeta não governa, faz pregações.

E Lula se esmerou nestes 15 meses em fazer discursos, como um profeta.

Só que o cenário mais apropriado para um profeta não é o governo, é a oposição.

Sob certo aspecto, o país deve folgar por Lula ter afinal se convencido de que é preciso que ele desça das nuvens e venha governar.

O próprio Lula, além do povo, devia acreditar que era capaz de fazer milagres. Agora ele desce ao chão e vê que há um orçamento a cumprir e existem limites intransponíveis para a ação presidencial.

Não se sabe se Lula vai resolver os problemas do Brasil, mas agora que ele se convenceu de que não se governa com milagres, é possível que ele tenha mais condições de encarar a sua tarefa do que quando pensava que era um operário enviado pelo destino para salvar a pátria.

Quando um ex-metalúrgico se convence de que é apenas um presidente da República, muito menos do que imaginava ser, as coisas podem ter finalmente entrado nos eixos.

Ali na Avenida Padre Cacique, 1.178, Menino Deus, está encravada uma misericordiosa obra social da nossa cidade: o Asilo Padre Cacique.

Ali os idosos necessitados têm uma vida digna e tranqüila, merecedores dos melhores cuidados da entidade.

Mas o Asilo Padre Cacique vive da generosidade da comunidade gaúcha, é indispensável o auxílio de nós todos para que ele prossiga na sua extraordinária tarefa de solidariedade.

Agora mesmo, exatamente hoje à tarde, o asilo estará recebendo as suas colaboradoras para distribuir entre elas os ingressos para o desfile Milka Grécia 2004, que acontecerá no dia 25 de abril.

O produto da venda desses ingressos reverterá integralmente ao Padre Cacique. É hora portanto de adquirirmos estes ingressos e assim proporcionarmos àquela estupenda obra social mais um fôlego para fazer frente aos seus compromissos.

Maiores informações no Asilo ou pelo fone 3233-7571.

E as doações para o Padre Cacique podem ser feitas pelo fone 3233-1691.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
30/03/2004


As lições do golpe

Aqueles que não aprendem com o passado estão condenados a repetir seus erros. Quarenta anos depois do golpe de 64, não foi pouco o que o Brasil aprendeu com este sombrio episódio, até hoje objeto de polêmica. Há muitas explicações; justificativa, nenhuma. Um presidente legitimamente constituído foi tirado de seu cargo. Certo, muita gente estava insatisfeita e alarmada com a situação. As reformas, instituídas por decretos (contestados por vários setores), a rebeldia em setores das Forças Armadas, as demonstrações de rua, tudo isto assustava a classe média urbana.

E a classe média, ficou evidente desde então, não é apenas a caixa de ressonância das inquietudes do país; é o fiel da balança nos processos políticos. Foi a classe média, inclusive, que elegeu Lula. Mas a apreensão, ou mesmo a revolta, não justificam a violação da legalidade. Collor foi cassado num processo absolutamente democrático, o processo recusado pelos opositores do governo em 1964. A democracia tem defeitos, mas contém em si própria os antídotos contra estes defeitos.

Esta foi uma lição geral. Depois temos as lições, digamos assim, setoriais. Os militares aprenderam sua lição (e também tiveram suas vítimas). Uma vez instalados no poder ficou clara a cisão entre aqueles que, apesar da ilegitimidade da situação, tinham uma vocação legalista e aqueles que queriam, antes de tudo, o poder. Cisão que gerou não poucos conflitos. Ao fim e ao cabo, predominou a primeira tendência e o Exército brasileiro, que nunca foi uma corporação de origem aristocrática, como na Argentina, voltou a seus quartéis e a suas funções.

A esquerda também aprendeu sua lição: não dá para se iludir com a própria retórica. E isto aconteceu em março de 1964. Aparentemente estava em curso uma ampla e irresistível transformação, à qual ninguém conseguiria se opor, nem mesmo os altos comandos das Forças Armadas, que seriam detidos por um "mar de sargentos", segundo a expressão então corrente. O mar de sargentos não passava de onda; na hora H predominou, com raras exceções, a hierarquia. Hierarquia que só poderia ser subvertida numa situação de grave crise como aconteceu em Portugal, na Revolução dos Cravos, que, no entanto, não durou muito.

Retórica é coisa embriagadora, aditiva. Não é fácil livrar-se dela, trocá-la pela sobriedade da análise, coisa que o PT está dolorosamente descobrindo. Mas o fato é que, 40 anos depois, o Brasil é um país muito melhor. Esta é uma lição que a História nos dá: apesar de tudo, progredimos. O que é sempre uma boa notícia.

Injustiça para as Catarinas o nome dado ao ciclone. Waldomiro Diniz seria mais adequado.

scliar@zerohora.com.br

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Clima
Angústia e alívio em alto-mar



Ricardo e Hamilton, resgatados segunda-feira, continuam no navio que procura por nove de seus colegas desaparecidos (foto Koldeway A.C., Agência RBS/ZH)


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Terça-feira, Março 30, 2004




SELVAGENS CRIATURAS

Quando os meus dedos percorrem os teus lábios, docemente
Quando os teus lábios comprimem os meus, selvagemente
Quando mergulho meus olhos no abismo do teu olhar
Quando me afrontas com malícia, a me arrebatar
Quando abro a tua camisa com sofreguidão
Quando ergues meu vestido, em erupção

Quando as marcas rubras de hoje, amanhã são roxas
Quando mortos de desejo, entrelaçamos as nossas coxas
Quando somos um, rolando pela cama atarracados
Quando nossos corpos estremecem de prazer, convulsionados
Quando a tua seiva, com a minha se mistura
Somos nesta hora macho e fêmea , selvagens criaturas,
Ou deuses, no cumprimento da lei mais pura !!!

Fátima Irene Pinto

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Bandido
Fátima Irene Pinto

Se a luz é a outra face da treva,

Se a morte é a contrapartida da vida,

Se o ócio é o oposto da lida,

E triunfo, o outro lado da queda,

Se o riso é a outra face do choro,

Se a tormenta se opõe ao sereno,

Se o vazio é a outra face do pleno,

Se o castigo é a ausência do louro,

É assim que me queres, Bandido,

Na alegria mesclada de dor.

És meu Anjo ou mortal inimigo,

Pois o ódio é a outra face do amor!

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Segunda, 29 de março de 2004, 20h50 Atualizada às 07h43
MP denuncia Waldomiro e diretores da Caixa

Últimas de Brasil

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou hoje denúncia na Justiça Federal em Brasília contra a diretoria da Caixa Econômica Federal (CEF) e os responsáveis pela renovação por 25 meses do contrato de R$ 650 milhões com a multinacional Gtech. No final da noite de ontem, a Caixa divulgou uma nota classificando a denúncia como "inaceitável".

Foram denunciados o presidente de Logística da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, o vice-presidente, Paulo Bretas, o assessor especial Carlos Silveira e o gerente nacional de Suprimentos Adauto Barbosa Junior, o ex-presidente da Gtech Antonio Carlos da Rocha e o diretor de Marketing da empresa, Marcelo Rovai, o ex-assessor do Palácio do Planalto Waldomiro Diniz, o banqueiro de bicho Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e o advogado Rogério Buratti.

A denúncia surgiu em função de uma das seis investigações sobre os negócios da GTech com a Caixa, e é originária da revelação de que Waldomiro pediu propina a Cachoeira para financiamento de campanhas eleitorais. Na nota divulgada, a Caixa nega que o contrato tenha causado prejuízo.

Os executivos Antonio Carlos da Rocha, ex-presidente da GTech, e Marcelo Rovai, diretor de Marketing da empresa, foram denunciados por corrupção ativa. Ambos, se condenados, podem ter uma redução na pena, pois colaboraram voluntariamente com as investigações.

Conforme a denúncia, a renovação, nos termos em que foi feita em abril de 2003, por 25 meses e com um desconto de 15%, vai contra toda a negociação que até então vinha sendo conduzida pela Caixa com o objetivo de cortar sua relação de dependência com a GTech.

Para o Ministério Público, o desconto obtido na transação é "inócuo". A renovação nesses termos teria produzido um prejuízo de aproximadamente R$ 40 milhões ao governo.

O procurador Marcelo Serra Azul, que protocolou a denúncia no final da tarde de ontem, afirmou que pelos princípios que regem a administração pública, a GTech não poderia simplesmente suspender a prestação dos serviços se a renovação do contrato com a Caixa não acontecesse no prazo previsto.

Conforme a denúncia do MP, o diálogo entre a Caixa e a GTech mudou de tom, quando Waldomiro Diniz, então integrante da equipe de transição do governo petista, começou a conduzir negócios em parceria com Cachoeira.

"Há nos autos provas que indicam que, ainda no governo de transição, novembro/dezembro 2002, o denunciado Carlos Augusto de Almeida Ramos, empresário de jogos lotéricos, conhecido bicheiro de Goiás, procurou o futuro assessor para Assuntos Parlamentares da Casa Civil da Presidência da República, Waldomiro Diniz, no sentido de que este procedesse a intermediação de negócios de jogos lotéricos na modalidade online "real time" com a empresa GTech", afirma a denúncia do MP.

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MEC prioriza Universidade para Todos e suspende Fies

Priscilla Borges
Do Correio Braziliense


O Governo Federal decidiu suspender o Programa de Financiamento Estudantil (Fies) devido à implementação do programa Universidade para Todos, prevista para junho. Esse último, cuja medida provisória deve ser editada na semana que vem, prevê o aproveitamento das vagas ociosas das instituições privadas de ensino por jovens de baixa renda.

Segundo o secretário executivo do MEC, Fernando Haddad, a proposta do Universidade para Todos é criar 70 mil vagas. Para abrir o mesmo espaço nas universidades públicas, o governo gastaria sete vezes mais. Essa é a forma mais rápida de ampliar o acesso à universidade na avaliação do ministério.

O programa vai funcionar com a adesão espontânea de instituições. A idéia é conceder isenção fiscal às faculdades que participarem do projeto. Além de atender alunos de baixa renda, a expectativa é de que beneficiários de cotas e portadores de necessidades especiais também sejam atendidos pelo Universidade para Todos.

Vagas do Fies
Segundo o MEC, a retomada das vagas do Fies só deve acontecer depois do início do novo programa, porque, primeiro, é preciso saber quanto se vai gastar.

Vai depender (a abertura de vagas para o Fies) do funcionamento do projeto. O nosso objetivo é expandir o ingresso gratuito. Favorecer o acesso da população de baixa renda na universidade privada. Caso não ocorra essa expansão, nós vamos continuar adotando os demais meios. Mas nós temos certeza que vai ocorrer, afirmou o ministro da Educação,Tarso Genro, em entrevista ao Correio.

O Fies foi criado em 1999 para substituir o Programa de Crédito Educativo (Creduc).Desde então, já foram feitos 276.288 contratos. Destes, 4.296 já foram liquidados. O Fies financia até 70% do valor da mensalidade. Geralmente, oferece novas vagas duas vezes por ano e os contratos são renovados a cada seis meses. No semestre passado, o governo abriu 70 mil vagas.

Desapontamento
Marco Vinícius é um dos milhares de estudantes que tentam vencer a batalha de concluir um curso superior. Como tantos outros, não conseguiu passar pela peneira das universidades públicas. Para realizar o sonho de ter um diploma, tem que se submeter às altas mensalidades das instituições privadas de ensino, contando com uma esperança: fazer parte do Programa de Financiamento Estudantil (Fies).

Funcionário público, Marco Vinícius Pereira de Carvalho, de 30 anos, adiou por muito tempo a vontade de fazer Direito. Este ano, decidiu arriscar e começou a graduação preso à condição de conseguir o financiamento para dar continuidade ao curso. Por causa dessa dependência, ele teme ter que trancar a faculdade. Há realmente motivos para se preocupar. Tarso Genro confirmou que, neste semestre, não serão liberados recursos para a abertura de novas vagas para o Fies.

A notícia deixou Marco arrasado. Separado e pai de um filho, ele mora com a mãe. Sustenta a casa e paga pensão à ex-mulher. O salário não é suficiente para dar conta de todas as despesas e ainda bancar os R$ 770 da mensalidade. Tanto que algumas parcelas estão atrasadas. Não sei o que vou fazer. Isso é terrível, lamenta o rapaz. Indignado, ele critica a postura do governo, que considera sem vontade política de ajudar os estudantes. Acho que a educação não é levada a sério. Estudantes como eu, que precisam do Fies para estudar, são tratados sem consideração, esbraveja. Durante dias, o funcionário público tentou se informar sobre o programa, sem sucesso. Ligou e escreveu para o MEC várias vezes, mas não recebeu informações precisas sobre a situação.

Para Elison Suares Santana, de 20 anos, faltam oportunidade e incentivo aos jovens carentes. Infelizmente, o povo está descrente com o governo, diz. Ele está no 1º semestre do curso de Tecnologia em Redes de Computadores. Nunca tinha tentado fazer um curso superior. Não se sentia capaz e nem tinha condições financeiras para isso. O jovem mora com a família (o pai aposentado, a mãe dona-de-casa e mais três irmãos) na Ceilândia Norte. Trabalha para dar conta da mensalidade de R$ 650 e das passagens de ônibus. Contava com uma vaga no Fies para dar conta do curso. Agora, não sabe o que esperar para o futuro.

Colaborou Erika Klingl

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30/03/2004 - 05h12
Presidente da CEF é denunciado no caso GTech
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ANDRÉA MICHAEL
da Folha de S.Paulo, em Brasília

O Ministério Público Federal denunciou ontem nove pessoas por gestão fraudulenta e temerária de instituição financeira, sonegação de documentos, corrupção ativa e passiva e concussão por suposta prática desses crimes por ocasião da renovação do contrato da Caixa Econômica Federal com a GTech do Brasil para a gestão do sistema de loterias do país, um negócio de cerca de R$ 650 milhões em 25 meses.

Entre os denunciados estão o presidente do banco, Jorge Mattoso, o vice-presidente de Logística da instituição, Paulo Bretas, o ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz, além do consultor Rogério Buratti e do empresário do ramo de jogos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

A denúncia decorre de uma das seis investigações sobre os negócios da GTech com a Caixa, e é originária da revelação de que Waldomiro pediu propina a Cachoeira para financiamento de campanhas eleitorais.

Os executivos Antonio Carlos da Rocha, ex-presidente da GTech, e Marcelo Rovai, diretor de Marketing da empresa, são denunciados por corrupção ativa.
O Ministério Público pediu à Justiça que conceda a eles e a Cachoeira os benefícios da lei que prevê redução de até dois terços da pena para os que, como eles, colaboraram voluntariamente com as investigações. Só o crime de gestão temerária pode dar até oito anos de reclusão e multa.

Conforme a denúncia, a renovação, nos termos em que foi feita em abril de 2003, por 25 meses e com um desconto de 15%, vai contra toda a negociação que até então vinha sendo conduzida pela Caixa com o objetivo de cortar sua relação de dependência com a GTech, seja do ponto de vista tecnológico seja pela retirada da Justiça das sucessivas ações para impedir que o banco procedesse à licitação para contratar outras companhias.

O desconto obtido é "inócuo", segundo o Ministério Público. E a renovação nesses termos teria produzido, de saída, conforme apontado na página 22 da denúncia, um prejuízo de aproximadamente R$ 40 milhões.

Para o procurador Marcelo Serra Azul, que protocolou a denúncia no final da tarde de ontem, pelos princípios que regem a administração pública, a GTech não poderia simplesmente suspender a prestação dos serviços se a renovação do contrato com a Caixa não acontecesse no prazo previsto. Assim, ele desconsidera o principal argumento utilizado até o momento pelo banco para defender sua decisão pela renovação com a GTech.

O Ministério Público destaca que o marco para a mudança do tom no diálogo entre a Caixa e a GTech foi o mês de novembro de 2002, quando Waldomiro, então integrante da equipe de transição do governo petista, já estaria conduzindo negócios em parceria com Cachoeira.

"Há nos autos provas que indicam que, ainda no governo de transição, novembro/dezembro 2002, o denunciado Carlos Augusto de Almeida Ramos, empresário de jogos lotéricos, conhecido bicheiro de Goiás, procurou o futuro assessor para Assuntos Parlamentares da Casa Civil da Presidência da República, Waldomiro Diniz, no sentido de que este procedesse a intermediação de negócios de jogos lotéricos na modalidade online "real time" com a empresa GTech."

A triangulação daria a Waldomiro, usando como moeda de troca a renovação do contrato com a GTech, parceria com Cachoeira nas loterias estaduais. Constam da denúncia e-mails que o empresário trocou com a GTech na tentativa de fechar os termos de um negócio que, segundo a empresa, não teria sido fechado.

Na página 49, de um total de 60 que integram a denúncia, é descrito que executivos da Caixa --entre eles Carlos Silveira (consultor) e Adauto Barbosa Júnior (gerente nacional de Suprimento)--, mediante intermediação de Waldomiro, Buratti e Cachoeira, teriam praticado o crime gestão temerária contra o banco.

Mattoso é acusado de sonegar documentos requisitados pelo Ministério Público e, como conseqüência, ter tentado induzir Serra Azul a erro. Além de gestão fraudulenta e temerária, Waldomiro é acusado de corrupção passiva e concussão, ou seja, exigir para si ou qualquer outra pessoa vantagem indevida, "ainda que fora da função ou antes de assumi-la".

Também por concussão é acusado Buratti -ex-secretário do hoje ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda) em Ribeirão Preto, em 94. Já Cachoeira teria praticado gestão fraudulenta e temerária, além de corrupção passiva.

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Beleza natural que conquista

Empresas se preocupam em oferecer produtos saudáveis e usam matéria-prima natural para fabricar cosméticos

A procura por um corpo, pele e cabelo perfeitos tem estimulado o crescimento do setor de produtos de beleza. Hoje, o segmento de cosméticos e perfumaria é considerado um dos mercados mais concorridos e vantajosos. Prova é que, no ano passado, as exportações do segmento atingiram algo em torno de R$ 650 milhões.

O bom momento tem auxiliado o surgimento de empresas que trabalham com cosméticos e produtos de higiene pessoal feitos com matéria-prima natural. Uma dessas empresas é a Chamma da Amazônia, rede de lojas com sede em Belém do Pará, e que tem um quiosque no shopping Rio Sul. A empresária Maria Consuelo Bernardes, master-franqueada da marca no Rio e dona do quiosque, lembra que a empresa está há 40 anos no mercado e hoje tem 31 unidades distribuídas pelo País.

Nossos produtos são principalmente para a pele e não contêm substâncias que agridem, como ácidos e abrasivos, lembra. Entre os produtos da marca estão colônias, perfumes, sabonetes, xampus, condicionadores e esfoliantes. Uma das novidades da marca são os esfoliantes com açúcar e castanha do pará e cunhantã, plantas encontradas na Amazônia. A diferença para o esfoliante convencional, feito com sal, é que este, com açúcar, que é calmante, não agride a pele, lembra Cristina Monteso, sócia de Consuelo.

A empresária estima que o mix da Chamma da Amazônia conte com mais de 100 produtos e diz que boa parte dos itens são feitos artesanalmente e exportados. Em breve, a empresa vai abrir sua primeira franquia nos EUA, comenta Consuelo, que ressalta ainda que a marca tem interesse em abrir franquias no Rio de Janeiro.

Chamma da Amazônia: (21) 2238-4003
www.chammadaamazonia.com.br

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Sofisticação com preço baixo

Fabricantes de ovos artesanais e caseiros adotam estratégias para atrair o público e venderem mais na Páscoa
Silvana Caminiti

Sem tentar competir com as grandes indústrias, que este ano colocaram no mercado 18,5 mil toneladas de chocolate para a Páscoa, o mercado artesanal pretende seduzir o público consumidor. A principal arma dos pequenos fabricantes, que somam mais de 200 em todo o País e atuam, em sua maioria, na informalidade, é a criatividade na hora de preparar os ovos, que ganham formatos e embalagens diferentes.

Dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab) mostram que os ovos artesanais e caseiros já representam 15% do total de confeitos vendidos na Páscoa, o que mostra que o mercado é bastante rentável. Um dos segredos do sucesso dos ovos artesanais, garante quem atua no setor, é a sensação que o consumidor tem de estar provando algo novo, diferente daqueles ovos tradicionais e industrializados de grandes fabricantes como Garoto e Lacta.

E, para conquistar o consumidor, vale tudo: criar uma decoração mais sofisticada e também trabalhar com recheios e coberturas artesanais, coisas que as grandes empresas não conseguem oferecer, justamente por trabalhar em larga escala.

Entre as empresas cariocas que vendem material para quem quer fazer ovos de chocolate está a Casa Pedro, nome há 60 anos no mercado. O empresário Eduardo Pedro Mussalem lembra que a loja, na Saara, vende desde chocolate em barra, até fôrmas de vários tamanhos e formatos, papel para embalagem, etiqueta e produtos para preparar o recheio dos ovos, como gotas de licor, brigadeiro e leite condensado. Temos tudo o que a pessoa precisa para fazer ovos para a família ou vender, lembra.

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Sabores exóticos do Pantanal

Festival gastronômico de Cuiabá começa amanhã com pratos típicos da região. Vale experimentar também os roteiros turísticos do estado
Tiana Ellwanger

Os sabores do Mato Grosso. Esse é o tema da XI Festa Internacional do Pantanal, em Cuiabá, que começa amanhã e vai até o dia 4. Só de pratos com carne de jacaré, há uma variedade enorme: filé, mojica (carne ensopada com olho), patês, jacaré com banana, a bororo (como é preparado por uma tribo da região) e tira-gosto de patinhas.

Outras receitas também fazem sucesso: a Maria Izabel (arroz refogado com a carne de soja o estado é o maior produtor de soja do País) e o boi no rolete, prato adaptado da culinária gaúcha. O boi é colocado inteiro no espeto. Tiramos a pele , a cabeça e o rabo. A carne chega a desmanchar de tão macia, conta Elói Balbosco, da El Toro Loco, que viaja toda a região para preparar a especialidade.

Além dos deliciosos pratos, a festa terá também 120 estandes dos municípios do Mato Grosso. Isso é fabuloso para turistas que não têm tempo para conhecer toda a região, salienta o secretário de Turismo do estado, Ricardo Henry. Em uma única visita, é possível ter uma noção geral do estado e escolher o melhor destino para se visitar depois de tanta comilança. O secretário destaca que, de abril a setembro, é a alta temporada da região. Quando termina a temporada de praia no Brasil, começa a alta temporada em Mato Grosso.

E o estado tem muito a oferecer para quem acha que a época de viajar acaba no Carnaval. Mato Grosso é o único no Brasil a ter três ecossistemas diferentes: floresta amazônica, cerrado e pantanal. Ou seja, um paraíso para o ecoturismo.

O Pantanal é passeio obrigatório de quem vai a Cuiabá. Localizado a quase 100 km da capital, o lugar oferece vários tipos de aventura. Temos o safari fotofluvial (de barco), o jipe safari e a pesca de piranha, em Cáceres, enumera Vicente Campos, proprietário da agência de turismo Anaconda. Outro programa que deixa os visitantes apaixonados é a focagem de jacaré.

A bordo de um barco, os visitantes atraem os répteis com um farolete. Os olhos dos animais brilham e no escuro fazem um belo espetáculo. É como ver uma cidade iluminada de um avião, compara Mario Albues, da agência Confiança Turismo. Outro destino preferido dos turistas é a Chapada dos Guimarães, a 64 km da capital, e Jaciara, perfeita para quem gosta de esportes radicais. Mais informações, pela CVC Turismo (2240-7070), Anaconda (00XX65) 624-4142 e Confiança (00XX65) 314-2727.

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Liberato Vieira da Cunha
30/03/2004


A busca da felicidade
Há, neste segundo, em algum lugar da Terra, um músico criando uma sinfonia com vocação à eternidade. Há um pintor preenchendo uma tela com cores e formas que ainda serão admiradas na véspera do fim dos tempos. Há um escritor polindo um livro que continuará tocando corações e mentes daqui a 106 gerações. Há físicos, químicos, astrônomos, matemáticos penetrando recônditos mistérios do universo, num silencioso desafio que ecoará pelos séculos dos séculos.

O respeito que voto a esses gênios só encontra similar no que cultivo pela Nona, pelo Nascimento de Vênus, pela Lírica ou pela Teoria da Relatividade. Há contudo pessoas tão ou mais sábias, não importa quanto sejam ignoradas. São as que se dedicam à busca da felicidade, à procura de um sentido para a vida.

Estando uma noite em um café de Stuttgart, partilhei a mesa com um desconhecido, como lá é uso. Era um cavalheiro nonagenário, que não tardou a notar a maneira desatenta com que eu percorria De l'Amour, ensaio de Stendhal ao qual os críticos atribuem escasso valor. Logo percebi que Herr Lochner, meu improvisado companheiro, tinha idéias algo diversas a respeito.

- Essas são páginas superiores às de O Vermelho e o Negro ou de A Cartuxa de Parma - observou. - Tratam do tema mais crucial de todas as épocas.

Foi o prólogo de uma narrativa regada a excelente vinho do Neckar. Quando ele era moço, contou, se enamorara de uma dama belíssima e inatingível, chamada Stella. Pertencia a uma família milionária, ostentava um título de nobreza, ia noivar com um banqueiro. Ignorava-o olimpicamente, não respondia a suas cartas, nem estava para o jeito com que a seguia, ferido de desesperança. Tamanha foi no entanto sua constância em suplicar-lhe uma entrevista que concedeu vê-lo uma única vez.

Herr Lochner não se derramou em floreadas declarações. Foi simples e direto. Disse a Stella que, para ele, o que dava sentido à vida era dar vida a todos os sentidos. Era colecionar instantes de paixão, ainda que breves, mas sempre cúmplices. Era transfigurar em realidade o desejo, mesmo que por um momento, uma hora, um dia. Era exilar-se de cobranças, de agravos e de culpas. Era dividir segredos indivisíveis. Era repartir o prazer e a terna serenidade que sobrevêm à mútua entrega. Era imergir em branda, irrevogável plenitude.

Não chegou a terminar a história. Surgiu no café uma elegantíssima senhora, em cuja face restavam traços de um ido esplendor.

- Stendhal sempre foi meu autor predileto - comentou ele, com um sorriso.

Beijou sua rainha, conduziu-a a uma mesa que vagara, em um recanto discreto.

Não sei até hoje se era Stella. Sei apenas que Herr Lochner era sábio e era feliz.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
30/03/2004


As lições do golpe

Aqueles que não aprendem com o passado estão condenados a repetir seus erros. Quarenta anos depois do golpe de 64, não foi pouco o que o Brasil aprendeu com este sombrio episódio, até hoje objeto de polêmica. Há muitas explicações; justificativa, nenhuma. Um presidente legitimamente constituído foi tirado de seu cargo. Certo, muita gente estava insatisfeita e alarmada com a situação. As reformas, instituídas por decretos (contestados por vários setores), a rebeldia em setores das Forças Armadas, as demonstrações de rua, tudo isto assustava a classe média urbana.

E a classe média, ficou evidente desde então, não é apenas a caixa de ressonância das inquietudes do país; é o fiel da balança nos processos políticos. Foi a classe média, inclusive, que elegeu Lula. Mas a apreensão, ou mesmo a revolta, não justificam a violação da legalidade. Collor foi cassado num processo absolutamente democrático, o processo recusado pelos opositores do governo em 1964. A democracia tem defeitos, mas contém em si própria os antídotos contra estes defeitos.

Esta foi uma lição geral. Depois temos as lições, digamos assim, setoriais. Os militares aprenderam sua lição (e também tiveram suas vítimas). Uma vez instalados no poder ficou clara a cisão entre aqueles que, apesar da ilegitimidade da situação, tinham uma vocação legalista e aqueles que queriam, antes de tudo, o poder. Cisão que gerou não poucos conflitos. Ao fim e ao cabo, predominou a primeira tendência e o Exército brasileiro, que nunca foi uma corporação de origem aristocrática, como na Argentina, voltou a seus quartéis e a suas funções.

A esquerda também aprendeu sua lição: não dá para se iludir com a própria retórica. E isto aconteceu em março de 1964. Aparentemente estava em curso uma ampla e irresistível transformação, à qual ninguém conseguiria se opor, nem mesmo os altos comandos das Forças Armadas, que seriam detidos por um "mar de sargentos", segundo a expressão então corrente. O mar de sargentos não passava de onda; na hora H predominou, com raras exceções, a hierarquia. Hierarquia que só poderia ser subvertida numa situação de grave crise como aconteceu em Portugal, na Revolução dos Cravos, que, no entanto, não durou muito.

Retórica é coisa embriagadora, aditiva. Não é fácil livrar-se dela, trocá-la pela sobriedade da análise, coisa que o PT está dolorosamente descobrindo. Mas o fato é que, 40 anos depois, o Brasil é um país muito melhor. Esta é uma lição que a História nos dá: apesar de tudo, progredimos. O que é sempre uma boa notícia.

Injustiça para as Catarinas o nome dado ao ciclone. Waldomiro Diniz seria mais adequado.
scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
30/03/2004


Liberou geral

Leio todos os e-mails que me chegam de vítimas de assaltos e roubos a residências e sítios, são quatro ou cinco por dia.

Para o colunista, viraram fatos banais, o que pressinto seja assim também encarado por toda a sociedade.Para o colunista, viraram fatos banais, o que pressinto seja assim também encarado por toda a sociedade.

Ou seja, incorporaram-se tão enraizadamente à rotina os assaltos que já não causam nem surpresa nem espanto a todas as pessoas.

Mas as pessoas que sofrem assaltos, estas vêem-se brutalmente arrancadas da sua vida normal e sofrem grande impacto emocional.

E o que noto nas correspondências que me enviam é que não se conformam com a indiferença geral para o que lhes sucedeu.

Elas praticamente suplicam para que nós jornalistas divulguemos que foram roubadas, transmitem a impressão de que se sentiriam indenizadas dos prejuízos que tiveram se a imprensa estampar a notícia da sua mazela.

O leitor que se assina apenas Pedro e pede para que não se divulgue o seu nome inteiro (tem medo de represália dos assaltantes que levaram seus documentos) chegou à seguinte conclusão: "A profissão de assaltante já está sendo uma das mais rentáveis do Brasil, senão vejamos: o profissional assaltante não precisa bater cartão-ponto, não tem de cumprir carga horária, não paga imposto de renda, freqüenta os melhores lugares de lazer (restaurantes, shoppings, praias, boates), não se preocupa com taxas de juros, tudo é de graça, vão levando uma boa vida, basta que escolham ao acaso a próxima vítima, eles sabem que há um grande manancial à sua disposição nas ruas e nas residências, basta atacar e carregar com o produto do seu roubo. Assaltante virou uma profissão segura, rentável e com ótimo mercado de trabalho", termina ele.

Uma outra das quatro vítimas que me escreveram ontem comprova que todas as categorias sociais são alvos dos assaltantes, não escapando também as pessoas de baixa renda.

Este outro leitor manda dizer que todos os fins de semana, há sete anos, visita a sua noiva, vindo de Canoas. Os dois foram ao cinema no sábado e na saída apanharam o lotação Partenon-Pinheiro.

Logo depois da Funerária São Pedro, na Avenida Bento Gonçalves, entraram no lotação três homens, um deles envergando uma camiseta com os dizeres "Vigilância Pedroso", certamente furtada.

Menos de dois minutos depois, dois deles sacaram revólveres 38 e anunciaram o assalto: "Queremos somente dinheiro, passem tudo para cá se não quiserem morrer". Depois da limpa, insultaram as vítimas, rindo delas e gritando: "Vão se queixar pro Lulinha".

Assim como não há território que esteja livre dos assaltantes. Outra leitora que não quer ser identificada faz questão de que seja publicado que a casa de seu irmão, em São Borja, foi atacada por ladrões que levaram tudo. "Aquilo lá sempre foi um paraíso de tranqüilidade, agora se sucedem os roubos todos os dias".

O desemprego assustador estimula visivelmente a criminalidade e levanta os seus índices, tornando impotentes as forças policiais, que se limitam a registrar as ocorrências e prender uma minoria azarada de bandidos.

Alguém disse uma vez: "O hospício é o quartel-general dos loucos".

Pode-se dizer que as prisões brasileiras são hoje, com seus 110 mil detentos só em São Paulo, o quartel-general dos ladrões. As outras unidades, com milhões de soldados devotados ao roubo, estão espalhadas incontidamente pelas ruas do país.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Ciclone danificou mais de 33 mil casas

Náufrago narra madrugada de terror

Ontem foi dia de limpeza e reconstrução nos municípios atingidos, como Passo de Torres (acima).



Número apurado pela Defesa Civil gaúcha e a de Santa Catarina é o primeiro dado para contabilizar os prejuízos deixados pelos ventos de até 150 km/h que atingiram a costa na madrugada de domingo.

No litoral catarinense, prosseguem as buscas aos nove tripulantes de dois barcos que naufragaram por causa do ciclone. O pescador Luciano da Silva sobreviveu depois de oito horas e meia no mar à espera de socorro (foto Cláudio Silva, Agência RBS/ZH)


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Segunda-feira, Março 29, 2004




Corrupção nas empresas prospera sob sigilo

Protegidos pela discrição dos patrões, fraudadores crescem em ousadia

Em seu primeiro emprego, um recém-formado de 23 anos foi encarregado de comprar material de rotina para abastecer o escritório da firma. Fez a cotação e escolheu o fornecedor pelos critérios do melhor preço e qualidade. Quando foram fechar o negócio, o vendedor lhe perguntou: "E como eu te pago os 10%?"

"Que 10%?", perguntou o rapaz. O vendedor explicou que, pela praxe, ele tinha direito a comissão por tê-lo escolhido. O novato, entre aturdido e ofendido, pediu que ele desse o desconto no preço da compra, enquanto o vendedor o olhava com a expressão de quem constata estar diante de um trouxa. A compra dava R$ 35 mil. O rapaz ganhava R$ 1 mil por mês. A "comissão" representava três meses e meio de salário. "Até que dá vontade de pegar", confessa o garoto, já dispensado da firma.

Corrupção e fraude são palavras que o imaginário popular vincula ao setor público. Mas os especialistas garantem que essas práticas são mais disseminadas nas empresas privadas. "A corrupção está mais institucionalizada na iniciativa privada do que no setor público", avalia Clóvis Madeira, diretor de auditoria da BDO Directa Auditores.

Às vezes, ela parece até imitá-lo. O investigador Marcelo Gomes encontrou, numa multinacional, um caso semelhante ao do juiz Nicolau dos Santos Neto, com seu fórum de R$ 169 milhões, embora em escala menor: seus gerentes locais, estrangeiros, diziam à matriz ter investido US$ 9 milhões numa fábrica, que na verdade não passava de um precário galpão inacabado.

No início dos anos 90, quando Marcelo Gomes era chamado para investigar fraude numa empresa, o máximo que costumava encontrar eram desfalques de R$ 500 mil. "Hoje, nos chamam quando acreditam que está em R$ 300 mil, e descobrimos que chegou a R$ 1 milhão. Quando pensam que é de R$ 1 milhão, já está em R$ 3 milhões."

Com base em 43 casos em que trabalhou nos últimos anos, Marcelo Gomes, sócio-diretor da GBE Peritos e Investigadores Contábeis, estima que as fraudes signifiquem desfalque médio de 6% do faturamento das empresas. O patamar é o mesmo nos Estados Unidos, segundo a Association of Certified Fraud Examiners, e de 7% na União Européia.

Os desvios sensibilizam mais quando envolvem dinheiro público porque há uma ilusão de que são só esses que atingem o bolso coletivo. Mas fraude e corrupção entram no preço do produto ou do serviço, quando dá para aumentá-lo; quando não dá, acarretam diminuição das vendas, queda na arrecadação e desemprego. Sem falar nos acionistas e empregados diretamente atingidos em seus rendimentos e salários.

O setor de compra e vendas está tradicionalmente associado à corrupção. Mas ela ocorre em todas as áreas das empresas: na contratação de transporte, no depósito e no almoxarifado, no pagamento de contas e tributos, nas operações financeiras, na confecção da folha de pagamento, na transmissão eletrônica de informações.

Não há empresa imune à fraude. "Isso só ocorreria onde ninguém tivesse autonomia para tomar decisão", teoriza James Wygand, presidente, para o Cone Sul, da empresa britânica Control Risks Group.

A ortodoxia da administração de empresas prescreve a exigência de três assinaturas de áreas diferentes para autorizar uma operação, como garantia de boa margem de dificuldade na execução da fraude. "Já investiguei caso com 16 envolvidos", sorri Wygand. E o que pode unir tanta gente? Um grau exacerbado de rivalidade entre patrão e empregado. "Se é 'nós contra eles', esse 'nós' pode ser numeroso", observa Wygand.

Várias coisas concorrem para que um empregado deixe de pensar que o que é bom para sua empresa é bom para ele. A drástica redução de pessoal e a alta rotatividade nas empresas - em busca de competitividade - romperam elos de longo prazo que os empregados mantinham com elas. O trauma da demissão - própria ou do ocupante da cadeira ao lado - inoculou ressentimento e cinismo nos empregados.

Os mais afetados pelas demissões do que ficou conhecido como downsizing, a eliminação de camadas hierárquicas, foram os ocupantes de cargos de gerentes, que dispõem da capacidade intelectual e dos meios práticos para, em seu próximo emprego, fazer o pé de meia antes da demissão seguinte ou simplesmente vingar-se da categoria indiferenciada dos patrões.

Pesquisas nos EUA mostram que as chances de os diretores se envolverem em crimes contra as empresas são 4 vezes maiores do que os gerentes e 16 vezes maiores do que os funcionários do chamado chão de fábrica. Em 97% dos 43 casos de fraude comprovada investigados por Marcelo Gomes, houve envolvimento de gerentes ou diretores.

Enquanto essa mentalidade se instaurou entre os empregados, a cultura de muitas empresas, sobretudo familiares, continuou mais ou menos intacta, com os patrões depositando nos seus transitórios gerentes e diretores quase o mesmo grau de confiança que seus pais e avós depositavam naqueles que passavam a vida toda trabalhando na firma. Confiança que se traduz em autonomia de decisão e frouxidão no controle.

"Se você não tiver controle, as pessoas descambam", resume o consultor Stephen Kanitz. A melhor prevenção contra a fraude é a auditoria interna, um trabalho cotidiano de acompanhamento.

Tecnicamente, o downsizing, ao cortar camadas de gerentes, também eliminou algumas etapas de controle, que poderiam deter falcatruas. O mesmo ocorreu com outro recurso destinado a reduzir gastos: a terceirização, pela qual as empresas entregaram essas etapas a outros.

Mas não é só a ocasião que faz o ladrão. "O ambiente da empresa é um fator preponderante", assegura Eduardo Sampaio, presidente no Brasil da Kroll, que presta consultoria sobre gerenciamento de riscos. Empresas que corrompem fiscais para sonegar impostos, que degradam o meio ambiente ou que instruem seus funcionários a fazerem o que for preciso para ganhar um contrato estão mais expostas a golpes de seus empregados.

Marcelo Gomes conta o caso de uma loja de roupas cujo gerente deu a seguinte instrução à funcionária do caixa: quando a venda de um dia ultrapassar R$ 3 mil, passe para o caixa 2. Com o tempo, a funcionária criou um caixa 3. Para ela. O chamado telhado de vidro inibe os patrões de levar adiante acusações contra empregados, que podem revelar seus podres também.

O tema acaba envolto em sigilo, ainda, pelo receio dos empresários de exporem as vulnerabilidades de sua companhia, e o fato de lhes terem passado a perna. "Você manteria a conta num banco que divulgasse desfalques freqüentes por ele sofridos?", pergunta Ricardo Balkins, responsável pela área de gestão e controle de riscos de negócios da Deloitte Touche Tohmatsu.

Mas a falta de informação não protege apenas a imagem das empresas: resguarda também os fraudadores. Segundo Marcelo Gomes, há quadrilhas atuando por setor. Diretores levam seus subordinados junto, para aplicar golpes semelhantes noutras empresas. Há troca informal de informações entre empresários de alguns setores. Mas nem a lei permitiria ir muito além disso.

"É garantia constitucional que ninguém será considerado culpado até trânsito em julgado da sentença", adverte o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva, especialista em investigações de fraude e corrupção. "Com base nessa presunção de inocência, seria uma violência um eventual cadastro de 'funcionários-problema'."

E não é nada fácil provar esse tipo de crime, concordam os investigadores, embora, no ambiente fechado de uma empresa, na vizinhança ou no círculo de amigos, alguém enriquecendo depressa demais nunca passe despercebido.

Lourival Sant'anna

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Eles são loucos por trabalho

Pressões levam desempregados a se expor, ter atitudes incomuns e chegar ao extremo do cansaço físico e psicológico atrás de soluções
Leila Souza de Lima

Qualquer um está sujeito a surtar ao se ver desempregado. Segundo especialistas, a reação depende da capacidade de processar a perda do emprego, equivalente, para muitos, à falta de alguém querido. A relação com a família e a empresa também determina se vai ou não suportar a pressão. Outro lado da moeda é o esforço sobre-humano que alguns empreendem em busca de solução, mas que, sem controle, pode levar ao desgaste físico e emocional, como aconteceu a um candidato de concurso que passou fome para passar na prova ou o homem que anda quilômetros em busca de emprego.

Maracy Alves, coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá e titular na PUC-Rio da disciplina Sujeito e Trabalho no Brasil Contemporâneo, procura mostrar aos alunos a realidade do que chama desempregabilidade. O tema é oportuno no momento em que muitos se formam sem garantia de que vão exercer a profissão que escolheram. As pessoas constroem a identidade a vida inteira, e isso está ligado aos nichos sociais com os quais se identificam. Um deles é o trabalho, explica a psicóloga.

Segundo Maracy, o desempregado Edivaldo de Lima Araújo, 35 anos, que no dia 16 ameaçou se jogar do alto de uma galeria em plena sessão no Senado, não se mataria de verdade. Era um grito de socorro. Ele queria que todos se voltassem para a condição dele, e não esperava as doações, diz Maracy, sobre os R$ 300 que os parlamentares deram a Edivaldo. Ela explica que, ao atrair atenção, a pessoa em desespero quer segurança. A própria notoriedade é uma forma de segurança.

Lição de vida de quem passa aperto é não desanimar

Há quem apele a soluções pouco convencionais para driblar a falta de trabalho. O garçom Gilvanderson de Alcântara Cândido, 23 anos, cinco fora do mercado, colocou o pé na estrada para conseguir emprego, literalmente. Não tinha dinheiro para passagem, então caminhei de onde moro, em Magé, até Piabetá, durante uma semana. Pai de quatro filhos, ele se vira com biscates. Acho que se esse cara tivesse na minha situação, teria se jogado, brinca, comentando o episódio em Brasília.

Para enfrentar os pesados exercícios físicos do exame da Comlurb, ano passado, Daniel Barbosa Carlos, 27, saiu de casa só com cafezinho. Logo após a prova, sofreu vertigem e dores no corpo. Apesar de se classificar para a última fase, não conseguiu o emprego. Não falei para ningúem, para não ser eliminado. Era fome com cansaço e ansiedade, conta Daniel.

Outros casos chamam a atenção pela criatividade e persistência. Desempregado desde novembro, Flávio Souza Aguiar, 35, é visto distribuindo currículos na Lagoa. O método não atraiu propostas até agora, mas ele não desanima: Estarei lá de novo. Também continuo a tentar alguma coisa através de anúncios nos jornais. Ele não julga a atitude de Edivaldo, mas diz que não repetiria a cena: Não sei o que ele estava passando, mas a vida é muito legal, por mais dificuldades que se tenha.

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Agradeça a ele

Vasco passa pelo Friburguense, nos pênaltis (1 a 1 no tempo normal), graças ao goleiro Fábio
Marluci Martins

Vergonha ou alegria? O Vasco enfrentou o modesto Friburguense, de folha salarial de R$ 35 mil. E, acredite se quiser: teve um homem a mais desde os 22 minutos do primeiro tempo. Pior: saiu em desvantagem no placar. Quer mais? Empatou somente no segundo tempo. Mas, depois disso tudo, a vergonha virou alegria, ontem, no Maracanã. Após o empate em 1 a 1 no tempo normal, o Vasco venceu (5 a 4) o Friburguense nos pênaltis, e enfrenta o Fluminense, domingo, na final da Taça Rio.

O início do jogo esteve mais para alegria. Aos 5 minutos, Beto driblou dois, mas chutou para fora. Aos 21, Cadu teve duas chances: Sérgio Gomes o atrapalhou na primeira tentativa, e, na segunda, chutou sem jeito. No minuto seguinte, Bidu, que já tinha um cartão amarelo, foi expulso ao fazer falta em Valdir. E uma cobrança de falta de Beto, exigindo muito o goleiro Zé Romário, aos 23 minutos, fazia a torcida vascaína delirar.

Mas a alegria virou vergonha. O Friburguense, com incrível capacidade de superação, não entregou os pontos, e, mesmo com um homem a menos, conseguiu sair na frente. Aos 32 minutos, Sérgio Gomes tocou para Abedi, que lhe devolveu a bola, de calcanhar. De pé direito, ele acertou o chute forte, no ângulo.

A vergonha vascaína não se limitaria a esse instante. Aos 38 minutos, os torcedores do Friburguense, minoria no Maracanã, provocaram o Vasco, cantando Sorte Grande, cuja principal intérprete já nem se sabe quem é a torcida do Flamengo ou a cantora Ivete Sangalo? Mais vergonha: os vascaínos da arquibancada vaiaram o time a partir daquele instante, até o fim do primeiro tempo.

No segundo, tudo melhorou para o Vasco. O Friburguense recuou tanto, a ponto de não ter mais forças para sair de seu campo de defesa. Assim, aos 14 minutos, Valdir tocou para o meio da área. Róbson Luiz chutou cruzado, fazendo o gol de empate. Ele teria mais uma chance, no minuto seguinte. Desperdiçou-a. Aos 33 minutos, Rodrigo Souto, chegando de trás, quase marcou: o bom goleiro Zé Romário defendeu com o pé.

A vergonha vascaína seria evitada somente na disputa de pênaltis. Sérgio Gomes, autor do gol que poderia ter sido o da sonhada classificação, foi o único jogador a perder a cobrança. Mérito do goleiro Fábio, que fez a defesa, com segurança. Coube ao zagueiro Henrique o último das cobranças de pênaltis transformar a vergonha em alegria. Alegria que vai durar, na pior das hipóteses, uma semana.

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Luis Fernando Verissimo
29/03/2004


A alegria dos banqueiros

Se soubessem que o primeiro ano do governo Lula seria o melhor ano de suas vidas os banqueiros não teriam feito tudo o que fizeram para melar a sua eleição, lembra? Se soubessem que o primeiro ano do governo Lula acabaria com os banqueiros contentes, e ninguém mais, muita gente teria votado no Serra. Afinal, para ter outro presidente do PSDB, melhor um registrado e sem disfarce. Mas quem poderia adivinhar? Uma das graves carências brasileiras é a da previsão competente.

Nenhum outro país do mundo tem tantos videntes, astrólogos, pressagiadores, quiromantes, cartomantes e analistas políticos. E não acertam uma morte de papa, um casamento da Xuxa, um impeachment, uma desilusão! Vivemos nos surpreendendo com o futuro que não estava nos astros, nos búzios, na lógica e muito menos em biografias ou promessas de campanha.

Mas a alegria dos banqueiros pode salvar o governo Lula nessa tentativa de venezuelização do país em aparente curso. Se é verdade que a economia é tudo e o resto é só decorrência ou barulho, então a satisfação de banqueiros nacionais e internacionais com a economia do jeito que está é a garantia de que Lula não vai virar Chávez. Eles não farão nenhum barulho, além dos naturais ruídos de plenitude e prazer.

Não lhes interessa a venezuelização, pelo menos enquanto estiverem pagos e satisfeitos. E com banqueiros satisfeitos Lula pode enfrentar os escândalos e a crítica moralista, a reação ideológica, a imprensa conservadora, os desiludidos do seu próprio partido, a rebeldia dos aliados e os descontentes com tudo em geral. Ter banqueiros satisfeitos ao seu lado é um pouco como andar no pátio da escola com aquele amigo parrudo que desencoraja qualquer desafio. Ninguém derruba você. Só xingam de longe.

Mas se a venezuelização não interessa a quem interessa, interessa a quem? Numa entrevista ao Bob Fernandes, da Carta Capital, o ex-chefe do FBI no Brasil disse que os americanos têm a Polícia Federal brasileira no bolso.

Já deve ter gente pensando na greve da PF como um lance de desestabilização manejada de fora, como a dos caminhoneiros no Chile de Allende. Mas se os banqueiros estão felizes, nem as mais delirantes teorias conspiratórias devem nos assustar. O que, no fim, só significa que a nossa dependência do humor deles já passou de total, como era antes. Agora é vital.

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Paulo Sant'ana
29/03/2004


O poder da palavra

Zero Hora trouxe no sábado, com destaque na seção Palavra do Leitor, dando um belo exemplo de livre trânsito democrático, uma carta do patrulheiro da Polícia Rodoviária Federal Gaspar Martins de Souza, que dias atrás matou um cavalo e tentou matar outro a tiros de pistola, na BR-116.

Em determinado trecho da sua bem escrita carta, o patrulheiro assim se expressa: "Quem não vive o dia-a-dia da minha função; quem nunca fez um registro de acidente de trânsito, descrevendo o tipo de acidente: atropelamento de animal, número de vítimas, uma duas, três..., quem não sabe quantos animais eu já tirei da pista, para preservar a eles e aos usuários da rodovia; quem nunca sentiu nas mãos o corpo inerte de uma criança retirada dos destroços de um acidente de trânsito não tem obrigação de aceitar em silêncio o meu ato".

Com todo o respeito ao patrulheiro, quero dizer que a maioria das pessoas que me mandaram e-mails concordando com sua atitude em matar o cavalo a tiros de pistola não ficaram em silêncio exatamente porque tinham a experiência de acidentes.

Lembram daqueles oito e-mails que recebi e divulguei no dia seguinte à primeira coluna? Pois os oito defendiam o patrulheiro e narravam acidentes de carros com cavalos nas rodovias, com morte ou ferimentos de pessoas, dando conta de que assistiram aos acidentes, foram vítimas deles ou os acidentes tinham relação com seus parentes e conhecidos.

Ninguém tem a obrigação de ficar em silêncio com um caso desses. Pode até silenciar, mas não tem a obrigação.

Como estive no centro da polêmica, quero dizer que entrei nela, o que pode ser até uma surpresa para algumas pessoas, tendo experiência pessoal com o assunto: fui durante vários anos inspetor de polícia em Tapes e Arroio do Ratos, de 1964 a 1970.

Estes dois municípios em que fui policial ficam à beira de duas BRs, por isso atendi a centenas de acidentes nessas estradas federais.

E tudo aquilo que o patrulheiro narra eu vivi. Ali em Arroio dos Ratos, em diversos acidentes, sacrifiquei cavalos a tiros de revólver, depois de verificado que não tinham mais recuperação, em estado desesperador.

Logo, casualmente, entrei na discussão com vivência sobre o assunto.

Mas há um trecho da excelente carta escrita pelo patrulheiro a ZH em que quero me fixar, pois concordo inteiramente com ele.

É quando ele diz, aconselhando aos que discutem o fato que tenham responsabilidade com o que dizem, que tenham cuidado com as palavras que usam: "Existe uma arma mais poderosa que a palavra?", pergunta o patrulheiro. E prossegue: " A minha arma é uma pistola, mas por maior que seja o estrago que ela possa fazer, nunca terá o poder da palavra".

Exato, perfeito, senhor patrulheiro. Finalmente nos entendemos. É o senhor quem diz - e escreve - que a palavra tem maior poder que a sua pistola.

Então por que é que o senhor não usou a palavra, em vez da pistola, para tirar o cavalo da pista?

Deus se apiedou de mim e me fez cronista, em vez de meteorologista. Todos os meteorologistas - ou quase todos - se quebraram com o ciclone que se derrubou sobre Santa Catarina e Torres ontem.

Alguns deles disseram que ia haver uma chuva fraquinha, outros anunciaram que o ciclone mudara de rumo e não atingiria mais Santa Catarina, em suma, houve até um que zombou da possibilidade do ciclone no sábado.

E foi o que se viu, o ciclone e todo o seu estrago. Imensos prejuízos, entre eles os dos meteorologistas.

Paulosantana.colunistas@zerohora.com.br

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Clima
Ciclone na costa



Ventos de até 150km/h assolam Torres e o sul de SC
Um raro fenômeno climatológico varreu na madrugada de ontem a cidade de Torres e parte do sul de Santa Catarina. Ao se dissipar, legou um morto, mais de 40 mil casas destelhadas, centenas de famílias desabrigadas e 12 pescadores desaparecidos em alto-mar.


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Domingo, Março 28, 2004




autor@paulocoelho.com.br

Crianças e adultos se encontram

A história do lápis

Omenino olhava a avó escrevendo uma carta. A certa altura, perguntou: Você está escrevendo uma história que aconteceu conosco? E por acaso, é uma história sobre mim?

A avó parou a carta, sorriu, e comentou com o neto:

Estou escrevendo sobre você, é verdade. Entretanto, mais importante do que as palavras, é o lápis que estou usando. Gostaria que você fosse como ele, quando crescesse.

O menino olhou para o lápis, intrigado, e não viu nada de especial.

Mas ele é igual a todos os lápis que vi em minha vida!

Tudo depende do modo como você olha as coisas. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir mantê-las, será sempre uma pessoa em paz com o mundo.

Primeira qualidade: você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade.

Segunda qualidade: de vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores, porque elas o farão ser uma pessoa melhor.

Terceira qualidade: o lápis sempre permite que usemos uma borracha para apagar aquilo que estava errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos manter no caminho da justiça.

Quarta qualidade: o que realmente importa no lápis não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você.

Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida, irá deixar traços, e procure ser consciente de cada ação.

O presente invisível

No dia de Natal, a família inteira se reuniu em torno da árvore, e começou a abrir os presentes. Contente, a filha entregou uma caixa para o pai.

Isso é para você, com todo o meu amor.

O orgulhoso pai abriu a caixa, mas ela estava vazia. Com todo carinho, comentou com a filha:

Meu amor, sei que você teve a melhor das intenções, mas na verdade a vida irá lhe ensinar que não podemos dar algo que não existe, mesmo que esteja bem embrulhado, e seja entregue com todo carinho. Acho que você se esqueceu de colocar algo aqui dentro.

Você não está vendo?

Não estou vendo nada, minha filha.

Pois eu passei uma tarde inteira enchendo-a de beijos!

Os olhos do pai brilharam:

Claro! Muito obrigado por um presente tão bonito!

E durante o resto da sua vida, sempre que se sentia deprimido ou desencorajado, o pai abria a caixa, retirava um beijo que tinha ali sido colocado, e voltava a ter coragem suficiente para enfrentar seus desafios.

Vai ou não vai chover?

Depois de quatro anos de seca na pequenina aldeia do Nordeste, o pároco reuniu todos para uma peregrinação até a montanha: ali fariam uma oração coletiva, pedindo a chuva de volta.

No grupo, o padre notou um garoto, coberto por uma capa de chuva.

Você enlouqueceu?, perguntou. Nesta região não chove lá cinco anos, e a subida vai lhe matar de calor!

Estou resfriado, padre. Se vamos pedir chuva a Deus, já imaginou a volta da montanha? Vai ser tal a enxurrada que preciso estar preparado.

Neste momento, ouviu-se um grande estrondo no céu e as primeiras gotas começaram a cair. Bastou a fé de um menino para realizar um milagre que mesmo os mais preparados não estavam realmente acreditando.


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