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Sábado, Maio 01, 2004
Posted
8:19 PM by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
02/05/2004
A fila do gargarejo
Somos todos atores. Quando saímos de casa para ir ao teatro, nós sabemos de cor o nosso papel: precisamos nos comportar como espectadores civilizados
Tenho muitos amigos que fazem teatro. Já tive crônicas minhas adaptadas para teatro. Sou fã de teatro. Gosto de textos leves e densos, curtos e longos, nacionais e importados, desde que bons. Só não gosto de uma coisa: da tendência, em comédias, de os atores fazerem brincadeiras com o público, para "interagir". Tudo bem, eles ensaiam meses, ganham uma merreca, merecem se divertir também, e nada melhor do que fazer isso botando a platéia pra pagar mico. Mas quem recorre a esse expediente deveria deixar uma unidade do Ecco Salva de plantão na porta, pois o risco de ataque cardíaco entre os espectadores mais conservadores é alto. Espectadora conservadora - tá falando com ela mesma.
Quando o ator ou atriz desce do palco e começa a caminhar pelo corredor eu imediatamente localizo a saída de emergência. Lá se foi minha paz, meu momento de relaxamento e lazer - vira suplício. Geralmente os eleitos estão na primeira fila. Quem mandou querer ver tudo de pertinho? Por essas e outras, sento da fila F pra trás.
Ah, mas é tudo tão divertido, vai dizer que não? Claro, eu também morro de rir, quá, quá, quá, rio histericamente, de tanta felicidade por ter escapado do vexame.
Não é um vexame? Tá bom, não é um vexame. Mas é tenso. Uma vez assisti a uma peça em que a atriz principal desancava uma criatura sentada na primeira fila. Chamava ela, aos gritos, de vagabunda, sem-vergonha, ordinária. A criatura em questão estava "desempenhando" o papel de uma arquiinimiga da personagem - só que não foi avisada antes. Bom, a mulher era tão humilhada durante o espetáculo que, no final da peça, quando os atores voltavam ao palco para agradecer os aplausos, traziam flores pra coitada, como um gentil pedido de desculpas. Eu acho que ela merecia era ganhar um Molière por ter suportado aquela dissecação pública sem chorar.
Somos todos atores. Quando saímos de casa para ir ao teatro, a gente sabe de cor nosso papel. Qual seja: o de um ser civilizado que vai chegar antes de o espetáculo começar, não vai esfaquear o flanelinha como gostaria, vai sentar no local marcado, vai desligar o celular, vai rir quando for pra rir, não vai vaiar quando estiver odiando, vai aplaudir no final e, quiçá, aplaudir de pé, porque todo mundo costuma levantar ao seu redor e é chato ser o único a ficar sentado. Pois bem: quando o ator sai do palco e vem até nós, ele esculhamba com esta nossa marcação, nos obriga a improvisar. Não acho boa idéia. Um dia alguém da platéia também pode se sentir no direito de subir no palco de surpresa. Para interagir, ora.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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8:17 PM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
02/05/2004
Sinais e ruídos
Dizem que o homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Mas há outros sinais característicos
Confesso que tenho uma certa implicância com as pessoas que fazem aspas com os dedos. Você as conhece: quando querem mostrar que uma palavra da frase que estão dizendo deve ser entendida como sendo entre aspas, levantam as mãos e imitam o sinal gráfico com dois dedos de cada mão, um par de aspas gestuais em cada ponta da palavra dita, que paira, invisivelmente, a sua frente. Muitas vezes sacodem os dedos para enfatizar as aspas.
As que sacodem os dedos são as piores. Mas já me disseram que o hábito é uma apropriação de sinais escritos pela fala que pode ser a precursora de outras formas de integração das duas linguagens. Por exemplo: três estocadas do dedo indicador no ar no fim de uma frase, significando reticências, ou uma rápida meia-lua com o dedo, talvez acompanhada de um ruído qualquer, como "suish", para mostrar onde entrou uma vírgula. Estocada e "suish", ponto e vírgula.
Um golpe horizontal com a mão espalmada significaria travessão, o mesmo golpe mais curto significaria hífen e um decidido golpe de cima para baixo, na diagonal, acabaria com qualquer dúvida sobre se aquele "a" falado é com crase ou não. Além de gestos, as pessoas podem usar o tom de voz ou a postura do corpo para transmitir como seria a palavra se, em vez de dita, ela fosse escrita: um tom soturno denotaria uma palavra em negrito, uma inclinação do corpo indicaria que a palavra é em grifo, ou itálico. Etcetera, etcetera.
Dizem que o homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se vêem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa. O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem - ou, mais provavelmente, a mulher - sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?
Sabe-se que a vida surgiu na Terra porque a combinação de condições - a nossa distância do Sol e a relação dos elementos na nossa sopa primeva - eram as ideais para haver vida. Isto foi um acaso que só aconteceu aqui e todo o resto do Universo é apenas um bonito cenário de fundo para a nossa excepcionalidade, ou o acaso se repetiu em várias galáxias? O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?
O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou como pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos. O que, de certa maneira, redime as aspas com os dedos, pois as aspas seriam anteriores à fala e não uma irritante novidade. A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro, e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite! Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltavam. No século 17, um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês e a serpente falava francês. Sempre a má-vontade com os franceses.
Na sua infância - a palavra "infância", por sinal, vem do latim "incapacidade de falar" - a humanidade não produzia palavras, mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum. Foi chamada de "teoria bow wow", e o nome já a desmentia, pois "bow wow" é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os lusobrasileiros fazem "au-au" e os japoneses, segundo os japoneses, "bau-bau".
A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo, e o mundo, ou pelo menos a diplomacia, estaria em melhor estado se tivéssemos desenvolvido a capacidade de nos expressar com eles. Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão. Reuniões internacionais em que a comunicação se desse por meio dos nossos ruídos elementares certamente acabariam em entendimento e paz. E sem a necessidade de intérpretes.
Porque a verdade é que quando hoje se fala na linguagem humana como o que nos fez superiores aos animais e nos trouxe a civilização, esse "superior" e essa "civilização" são entre aspas.
Luis Fernando Verissimo está em férias.
O texto acima foi publicado na revista Donna ZH no dia 4 de maio de 2003.
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8:14 PM by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
02/05/2004
De um diário californiano
Beverly Hills tem o seu jornal, mas recheado de notícias amenas. O único enfrentamento local parece envolver construtores e moradores
Beverly Hills é um bairro de Los Angeles tão famoso que chegou a dar nome a uma dieta (mais uma). Caminhar pelas largas ruas de Beverly Hills é conhecer um pouco do espírito de uma outra América, não a América de Nova York, ou da Costa Leste; a América emergente, que é, não raro, uma América arrogante, superficial e tola. Em Providence, onde passei um semestre como professor na Brown University, também caminhava por ruas de bairros de classe média.
As casas eram confortáveis, mas não luxuosas, todas feitas de madeira, e todas muito parecidas, dentro do espírito puritano dos primeiros colonizadores ingleses. Em Beverly Hills, não. As casas são diferentes umas das outras, mas o chamado estilo californiano não passa de uma mistura arquitetônica, não necessariamente de mau gosto, mas estranha, de qualquer jeito.
Não há grades, como no Brasil, mas em cada gramado está cravado um anúncio prometendo "resposta armada" a eventuais intrusos. Nas ruas, limpíssimas (a prefeitura cobra pesadas taxas, mas mostra serviço), nenhum transeunte, nenhum ônibus, nenhuma bicicleta, nenhuma moto: só carrões ou sofisticados utilitários que agora são a mania automobilística americana.
Beverly Hills tem o seu jornal. Só notícias amenas, naturalmente. O único conflito parece ser o que opõe os construtores de um novo hotel a moradores locais, enfurecidos porque o prédio terá uma agulha decorativa um pouco mais alta que o permitido na legislação. A favor do empreendimento está o grupo conhecido como Smart, esperto. Os americanos adoram acrônimos que formam palavras e este é um exemplo: as iniciais correspondem a Sensible Merchants And Residents Together (Comerciantes Sensatos e Residentes, Unidos). É o ideal da economia de mercado, mas será que isso existe na realidade?
A riqueza da região vem da indústria bélica e tecnológica, da agricultura (as famosas frutas) e, claro, do cinema. Embora os estúdios já não se concentrem em Hollywood, o nome continua sendo mágico. E é impossível não evocar cinema em Los Angeles.
Andando de carro, passamos pela casa de Shirley Temple, decorada com esculturas de personagens infantis; pelo hotel onde morou Marilyn Monroe e por outras mansões famosas. Diretores e atores famosos às vezes vão aos cinemas locais e depois da exibição dos filmes conversam com os espectadores. Podemos falar mal do cinema americano, mas temos de reconhecer: trata-se de uma cultura democrática. E não é a única forma de cultura: Los Angeles tem esplêndidos museus (o Getty é um assombro arquitetônico), concertos, peças teatrais, excelentes livrarias.
Mas a Feira do Livro, realizada no campus da UCLA, não foi o bicho. Barracas muitos elegantes, mas a maioria delas vendendo medíocres obras de auto-ajuda e de esoterismo - essas coisas que fizeram a fama da Califórnia. Havia mais tendas com comida do que com livros. Pode ser que a Califórnia seja o paraíso sobre a terra, mas em termos de Feira do Livro, fico com a nossa cinqüentenária.
A Feira do Livro, para onde fui levado por nossa Varig, é promovida pelo excelente Los Angeles Times, um dos principais jornais norte-americanos, e, como outros, um crítico feroz da política americana. Na edição de 21 de abril havia uma notícia particularmente amarga e irônica. Falava sobre um jovem jornalista iraquiano, Assad Khadim, que, diferentemente de muitos compatriotas, defendia a ocupação americana no Iraque como forma de introdução da democracia. Pois Khadim foi morto em seu carro. Guerrilheiros? Não. Balas americanas, num incidente confuso.
Mais um caso de fogo amigo, essta expressão que está se tornando um pesadelo em nossos tempos. No hotel em que fiquei, o jornal era colocado cada manhã em frente às portas dos quartos. Perguntei na portaria como poderia recebê-lo. A moça me disse que não havia jornal para todos e tudo o que eu tinha de fazer era surrupiar o jornal de alguém. Uma prática lição de imperialismo, que, para minha vergonha, não deixei de aproveitar.
scliar@zerohora.com.br
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8:11 PM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
02/05/2004
Tapa com luva
Nunca antes se verificou entre nós o fenômeno que se dá agora: as vendas no comércio, nos shoppings, nos restaurantes, a demanda por ingressos nos cinemas e no futebol, enfim, todo tipo de aquisição e consumo cresce nos primeiros dias do mês.
E conforme vai se debilitando a capacidade aquisitiva da população à medida que se distancia o dia do pagamento dos salários, o consumo decresce espantosamente do meio para o fim do mês.
Até aí tudo bem, compra-se e vende-se mais no início do mês, quando as pessoas recebem o seu salário, vende-se e compra-se menos quando gradativamente a população já purga a escassez do dinheiro com o passar dos dias.
Só que os preços são os mesmos, tanto os do início do mês quanto os do meio e do fim do mês.
Com a gasolina, no entanto, em Porto Alegre, o mercado resolveu impor uma nova lei: o preço do produto aumenta no início do mês e depois do dia 10 começa a baixar em todos os postos.
Já há alguns postos de gasolina que estão avisando seus clientes de que os preços do produto aumentarão na segunda-feira.
Pode isso? Não vejo nenhum restaurante, por exemplo, aumentar seus preços no início do mês.
Os preços da entrada de cinema, do ingresso do futebol e do corte de cabelo são os mesmos no início do mês e no fim do mês.
Que estranha voltagem sazonal dos preços é essa que foi instituída no mercado dos combustíveis na Capital?
O que me parece sensato, talvez eu esteja errado nesse juízo, é que aumentem as vendas no início do mês, mas não aumentem os preços.
Os salários são pagos no início do mês. Mas isso não quer dizer absolutamente que as pessoas ganhem mais no início do mês.
O salário que se recebe no dia 5 ou no dia 10 é referente a todo o mês, logo não há justificativa plausível para essa flutuação do preço da gasolina, levando em conta a capacidade aquisitiva dos clientes.
Se não há aumento no preço da gasolina cobrado pelos distribuidores aos postos durante todo o mês, como podem os postos se arvorarem em juízes avaliadores da capacidade aquisitiva eventual dos clientes, castigando-os no início do mês e só vindo a aliviá-los dali a alguns dias?
A lei da oferta e da procura não se adapta neste caso, se se adaptasse, a alta dos preços no início do mês seria justificável.
A oferta e a procura de gasolina é igual no início, no meio e no fim do mês.
Que exótica lei de mercado é essa então, que decide aumentar o preço da gasolina no início do mês e só vir a baixá-lo no meio e no fim do mês?
Os postos de gasolina de Porto Alegre dariam um grande passo de confiabilidade junto a seus clientes se frustrassem essa expectativa (ou ameaça?) de que o preço da gasolina será aumentado na segunda-feira se mantivessem durante o início do mês os preços atuais.
Eu já escrevi aqui que um lucro sensato, civilizado, aceito pela sociedade, por parte dos postos de gasolina da Capital seria o auferido com o preço de R$ 2 a R$ 2,05.
É verdade que hoje os postos estão cobrando abaixo disso: a gasolina está entre R$ 1,94 e R$ 1,95.
Mas cobrar R$ 2,17 no início do mês e baixar depois para R$ 1,94 causa má impressão entre os consumidores.
Por que não tornar o preço da gasolina uniforme e fixo em todo o mês, sem essas variações amalucadas que se baseiam no estapafúrdio critério da data dos recebimentos dos salários?
Que belo tapa com luva os postos de gasolina dariam em todos nós, consumidores, se não aumentassem o preço nesta segunda-feira! Aí o aplauso da galera seria geral.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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9:38 AM by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
Os revoltados a favor
"Marcelo Coelho costuma atribuir-se o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo . Pobre Montaigne. Montaigne não tinha nada
do bom-mocismo conformista e pernóstico de Marcelo Coelho"
Participo de um programa de TV, Manhattan Connection. Entrei no lugar de Arnaldo Jabor. Um amigo meu chamou Arnaldo Jabor de "revoltado a favor". Antes ele era revoltado a favor de Fernando Henrique. Agora é revoltado a favor de Lula. Continua revoltado. Continua a favor.
Pior que Arnaldo Jabor é Marcelo Coelho. Apesar de viver num "mundo cultural com pouquíssimos pontos de contato com o da maioria da população", sendo avesso a "TV, música popular e futebol", Marcelo Coelho, logo depois das eleições, encantou-se com o "jeito maroto" de Lula, sua "figura antiépica", sua "espontaneidade bem no estilo de Rebolo e Pennacchi". Para Marcelo Coelho, Lula finalmente tinha livrado a política "das teorias, dos programas, das discussões partidárias". Um ano depois, ele se desiludiu. Lula passou a encarnar a "didática pequeno-burguesa, travestida de sabedoria popular, que se desmancha em lágrimas de pura parvoíce".
Lula mudou? Claro que não. Quem mudou foi Marcelo Coelho. Ele costuma atribuir-se o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo. Pobre Montaigne. Montaigne não tinha nada do bom-mocismo conformista e pernóstico de Marcelo Coelho. De hoje em diante, proíbo-o de citar Montaigne. Pode citar Habermas, se quiser.
A releitura do que se publicou na imprensa no período eleitoral deveria ser matéria obrigatória em todas as faculdades de jornalismo. Janio de Freitas saudou a eleição de Lula como um triunfo do humanismo sobre a tecnocracia, abrindo a esperança de um futuro melhor. Eliane Cantanhêde considerou a vitória de Lula "um marco de mudança, esperança, justiça, moralidade e igualdade".
O militante petista Luis Fernando Verissimo comemorou o fim do clientelismo e do fisiologismo dos tucanos, que se comportavam como "caddies miseráveis que adotam os hábitos dos ricos para os quais carregam o saco de golfe". Antonio Candido viu o começo de uma "fase redentora na vida nacional", em que a utopia se tornaria realidade. Essa gente acreditou mesmo no PT? Em todos esses anos de convívio eles nunca desconfiaram da inépcia e da falta de idéias dos dirigentes do partido? Era tão difícil assim perceber a impostura?
Quem também me espanta são esses retardatários que demoraram mais de um ano para descobrir que Lula é iletrado e não gosta de ópera. É pouco. É atenuar o problema. Falta de cultura virou um álibi para a palermice do governo. E o governo dá provas diárias de palermice. Na última semana, Lula prometeu diminuir a criminalidade alistando futuros traficantes nas Forças Armadas. Depois das cotas para negros nas universidades, ele quer esse outro tipo de cota nos quartéis. Como o recruta fará para demonstrar que é um traficante potencial? Basta um antepassado traficante ou ele próprio precisa ter passagens pela polícia?
Um dos poucos jornalistas que não se desiludiram com Lula foi o Ratinho. A recompensa por sua seriedade foi uma entrevista com o presidente. Eu sou menos sério que o Ratinho, mas também gostaria de entrevistar Lula. Vou ligar agora mesmo para seu assessor de imprensa, tentando marcar uma hora.
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9:34 AM by Cassiano Leonel Drum
O pano de fundo para o TOC é um medo, assim como ocorre no caso dos fóbicos. Só que os portadores de fobias têm um medo irreal em relação a um objeto real e evitam entrar em contato com o suposto perigo, para afastar uma crise. No caso dos obsessivo-compulsivos, é mais complicado. O que gera angústia é um pensamento que causa medo.
Para se livrarem dele, adotam comportamentos compulsivos. Um dos quadros mais comuns do distúrbio é o que envolve o medo obsessivo de contaminação um bom exemplo é o personagem de Jack Nicholson no filme Melhor É Impossível, que, entre outras manias, usava luvas quase o tempo todo, só comia com talheres descartáveis e não pisava nos rejuntes das calçadas. Alguns pacientes chegam a se lavar com produtos pesados de limpeza, como água sanitária e detergente, só porque encostaram em outra pessoa. Muitos não se contentam com um banho.
Só se tranqüilizam depois de vários e longos banhos. "A diferença entre a mania saudável e a patológica é muito mais quantitativa do que qualitativa", afirma o psiquiatra Márcio Versiani, coordenador do Programa de Ansiedade e Depressão da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A doença se manifesta, enfim, quando as manias incapacitam para as atividades cotidianas.
As vítimas de TOC são como Sísifo, personagem do clássico Odisséia, poema épico de Homero. Como castigo por ter enganado Zeus, o deus dos deuses, Sísifo foi condenado a levar uma pedra enorme até o topo de uma montanha para vê-la sempre rolar até o sopé e começar tudo de novo. Em O Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo, o escritor francês Albert Camus (1913-1960) escreve: "Se esse mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria a sua tortura se, a cada passo, a esperança de conseguir o ajudasse? Sísifo, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição.
É nela que pensa durante a sua descida". Os obsessivo-compulsivos têm consciência de que seus pensamentos e atitudes são completamente ilógicos. Ainda assim, como Sísifo, eles têm plena consciência de seu martírio, mas não conseguem se livrar da condenação imposta por suas mentes.
O impacto do TOC pode ser devastador. Depois de acompanhar cerca de 700 pacientes, médicos do Hospital Mount Sinai, em Nova York, concluíram que 70% deles tiveram suas relações familiares estraçalhadas pela mania patológica. Nove de cada dez obsessivo-compulsivos sofrem de baixa auto-estima. Não é de estranhar, portanto, que o transtorno freqüentemente se faça acompanhar de outros distúrbios psiquiátricos, sobretudo depressão, dependência do álcool e fobias específicas. Não bastasse a angústia provocada pela doença em si, o TOC faz com que o paciente carregue o peso da vergonha.
Por isso, os doentes tendem a camuflar os sintomas e custam a procurar ajuda. "Entre o surgimento dos primeiros sinais e o diagnóstico de TOC, os pacientes levam, em média, dezessete anos", diz o psiquiatra Eurípedes Miguel, coordenador do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo, da Universidade de São Paulo. "O problema é que, quanto mais tempo um paciente passa sem tratamento, mais os sintomas se intensificam."
Sem ajuda, a doença é incontrolável. "É uma luta inglória, com derrota garantida", define Ana Beatriz Barbosa Silva, no livro Mentes e Manias. Os pensamentos repetitivos e as idéias fixas acabam congestionando o cérebro. Todos os rituais a que os pacientes se submetem como forma de afastar as obsessões estimulam ainda mais esses pensamentos. O contrário também dá na mesma: se eles tentam não executar as tarefas que se impõem, as obsessões ficam mais fortes. O círculo é vicioso: as obsessões deflagram compulsões que reforçam as obsessões. Não raro, os rituais compulsivos não guardam nenhuma relação lógica com a obsessão que os origina. É infernal.
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9:30 AM by Cassiano Leonel Drum
Pensamentos que atormentam e comportamentos que se repetem
As obsessões são pensamentos ou idéias recorrentes. As compulsões são ações ou atitudes repetitivas. Em 90% dos casos de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), as duas estão associadas. As vítimas de TOC são levadas a cumprir o que os médicos chamam de "rituais compulsivos". Na mente dos pacientes, eles servem para aliviar a angústia causada pelos pensamentos obsessivos. Os mais comuns são:
SIMETRIA
O que é:
Cuidado extremo com exatidão ou alinhamento de objetos. Às vezes, ao tocar algum objeto ou alguém sem querer com um dos braços, a pessoa sente que tem de fazer o mesmo com o outro braço
O relato de um caso:
"Quando via os CDs do meu quarto fora de ordem, ficava angustiado, com a sensação de que eu ou meus pais poderíamos sofrer um acidente"
MENTAL
O que é:
A pessoa tem certeza de que se não cumprir determinadas "tarefas mentais", como repetir inúmeras vezes uma mesma frase ou palavra, jamais ficará livre dos pensamentos ruins que a assombram
O relato de um caso:
"A estrela de cinco pontas é um símbolo místico: com a ponta virada para cima representa o Bem; com a ponta virada para baixo, o Mal. Adivinha em qual eu pensava? Toda vez que a estrela virada para baixo me vinha à cabeça, e isso acontecia toda hora, eu tinha de repetir mentalmente o nome de alguns anjos: Gabriel, Miguel, Rafael..."
CONTAMINAÇÃO
O que é:
Medo desmedido de se contagiar por vírus, bactérias ou substâncias tóxicas. Esse tipo de obsessão está associado a rituais de limpeza e lavagem
O relato de um caso:
"Fico desesperado quando encosto sem querer em alguém na rua. Imediatamente acho que a pessoa está doente e que eu posso ter pego aids. Só me tranqüilizo depois de passar horas no banho, me limpando"
SOMÁTICOS
O que é:
Preocupação excessiva com doenças, mesmo que a pessoa não apresente nenhum sintoma
O relato de um caso:
"Vivo achando que estou com câncer. Não sinto nada, sei que não tem nada a ver, mas essa idéia me atormenta o tempo inteiro"
DÚVIDAS
O que é:
Preocupação constante com o fato de não confiar em si mesmo. É quase impossível estar seguro de ter mesmo realizado determinada tarefa
O relato de um caso:
"Qualquer coisa que faço me deixa sempre com uma interrogação na cabeça: 'Será que fiz mesmo?' ou 'Será que eu fiz direito?' Não tenho segurança, nem paz. Minha vida é um inferno"
AGRESSÃO
O que é:
A sensação de que se está na iminência de ferir ou insultar alguém. Isso tende a levar a rituais de verificação
O relato de um caso:
"Depois que meu filho nasceu, minha mania de só fechar as gavetas de talheres quando eles estivessem arrumadinhos piorou bastante. Passei a pensar que, se fechasse a gaveta e alguma faca se deslocasse lá dentro, seria capaz de pegá-la e ferir meu filho (...) Como quando eu fechava a gaveta das facas não conseguia ter certeza de que, ao fechá-la, nenhuma faca tinha saído do lugar lá dentro, ficava abrindo e fechando a gaveta muitas vezes"
COLECIONISMO
O que é:
Idéia fixa em colecionar determinados objetos ou não se desfazer deles, por achar que tudo poderá ser útil no futuro
O relato de um caso:
"Comecei a juntar jornais há quinze anos. Tenho todos eles até hoje. Não consigo jogar nenhum exemplar fora com medo de que algum dia eu venha a precisar de alguma informação contida ali"
RELIGIOSO
O que é:
Pensamentos freqüentes de blasfêmias e pecado
O relato de um caso:
"Sempre que via a imagem de Jesus crucificado, com apenas um pano enrolado em seu corpo, me vinha à cabeça a imagem dele fazendo sexo com Maria. Eu não consigo evitar esses pensamentos e estou sempre à espera da punição"
SEXUAL
O que é:
A mente pode ser dominada por pensamentos obscenos e impulsos incestuosos, indesejados ou impróprios, que causam enorme sofrimento à vítima do TOC.
O relato de um caso:
"Evito sair de casa por medo de não conseguir tirar os olhos dos órgãos genitais de quem encontrar na rua ou de fazer propostas indecorosas a quem eu julgar atraente"
Fontes: Albina Rodrigues Torres, psiquiatra e professora do departamento de neurologia e psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu Universidade Estadual Paulista, e Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra e autora do livro Mentes e Manias.
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9:25 AM by Cassiano Leonel Drum
Sem obsessão não há paixão
Divulgação
No século XVIII, o escritor francês Sébastien-Roch Nicolas Chamfort (1741-1794) escreveu: "Todas as paixões são exageradas e são paixões apenas porque exageram". Hoje, com a criação de máquinas capazes de flagrar o cérebro em pleno funcionamento e o avanço dos estudos sobre biologia evolucionária, a ciência vem comprovar que não havia nenhum exagero nas palavras de Chamfort. Os sintomas despertados pela paixão são arrebatadores.
A lógica, a concentração e a racionalidade dão lugar à imagem da pessoa desejada. A lembrança dela volta à cabeça constantemente, mesmo contra a vontade. A obsessão é um elemento intrínseco à paixão. "O apaixonado tende a ficar focado única e exclusivamente em seu parceiro", disse a VEJA o psiquiatra americano James Leckman, da Universidade Yale e um grande especialista no assunto.
Em Sex and the City, um dos seriados americanos de maior sucesso, Carrie, a personagem de Sarah Jessica Parker, amava Mr. Big, interpretado por Chris Noth (foto à dir.). Em dado momento, era tão apaixonada que só falava e pensava nele. Uma obsessão que fez com que Carrie levasse puxões de orelha das amigas Samantha, Charlotte e Miranda.
O pensamento obsessivo quanto ao ser amado é até certo ponto importante porque exclui a percepção dos defeitos do outro. Segundo os teóricos evolucionistas, essa característica facilita a perpetuação da espécie. Quem já se apaixonou sabe do que se fala aqui. No início do romance, nada nem ninguém é tão perfeito quanto o objeto da paixão. Em perfeita sintonia, os apaixonados só têm olhos um para o outro ¿ o que barra a interferência de terceiros no relacionamento.
A obsessão típica dos amantes faz com que as pessoas desenvolvam a capacidade de interpretar sinais dados pelos parceiros e, com isso, antecipar suas ações e seus desejos. E esse é o tipo de comportamento que só reforça os laços afetivos entre os apaixonados. Deliciosa é a cumplicidade implícita na troca de olhares dos enamorados ¿ obra da obsessão (saudável) de um pelo outro.
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9:09 AM by Cassiano Leonel Drum
Alô doçura
Década de 50 é a preferida de jovens estilistas, que vestem as cariocas com romantismo e ingenuidade
Marcia Disitzer
Amanda Haegler (E) e Maria do Rosário, da Q-Guai, e a coleção new vintage: a modelo usa saia de tweed (R$ 157) e blusa (R$ 82)
Saia rodada, decote tomara-que-caia, escarpim de bico fino, laços, poá e um quê de nostalgia e ingenuidade. As peças típicas do estilo da década de 50 voltam à cena e são reinterpretadas por jovens estilistas que só conhecem os anos dourados por filmes, musas e fotos.
Um pouco de escapismo ou apenas uma obsessão fashion, não se sabe. O que se sabe é que nas passarelas internacionais basta ver o desfile de verão da grife italiana Prada e nas coleções de outono-inverno das nossas meninas a década de 50 está com tudo. Katia Wille, 33 anos, da grife Zigfreda, acredita que o sufoco de agora é a razão deste eterno retorno. É uma tentativa de fazer as coisas ficarem mais floridas. A vida anda muito dura e a moda dos anos 50 mostra uma realidade positiva, afirma ela, que criou vestidos com saia godê e boleros bem curtinhos, todos à venda na badalada Clube Chocolate.
Amanda Mesquita (E) é dona da loja Mamãe Q Fez, com visual totalmente 50. Na modelo, saia de poá (R$ 62) e blusa (R$ 35)
Maria do Rosário Faria, 27 anos, e Amanda Haegler, 25, que assinam o estilo da marca Q-Guai, também embarcaram no túnel do tempo e pararam lá. Essa é a nossa segunda coleção. Na de verão fizemos peças mais casuais, mas na de outono que se chama new vintage preferimos investir no glamour e na festa, conta Maria. Para isso, usamos tecidos dos anos 50, como tweed e tule, com modelagem de agora, emenda a estilista, que garante que as clientes estão amando essa onda de feminilidade. No ateliê da dupla, além das roupas no clima 50, até a tábua de passar é forrada de poá. Mais retrô, impossível.
No caso de Amanda Mesquita, estilista e dona da Mamãe Q Fez, a paixão pela década de 50 vai além das tendências. Esse é o conceito da minha loja, explica. Acredito nas princesas urbanas, que aliam o romantismo com a praticidade dos dias de hoje. Vivemos num mundo sem lugar para fantasia e na moda isso é possível, analisa. Na loja, segundo Amanda, sempre tem saias de poá, com direito a anágua de tule, e blusas ingênuas.
Katia Wille, da marca Zigfreda, usa vestido da sua coleção de outono com decote tomara-que-caia e estampa metalizada (R$ 980)
Layana Thomaz, 26 anos, lança na terça-feira a coleção de outono da sua marca Vista a Roupa Meu Bem!. O tema? Anos 50, sou retrô, justifica ela, mostrando o vestido de algodão estampado, bem rodado, com jeito de boa-moça. É a maneira que a moda tem de pedir suavidade nesses dias de bomba.
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8:59 AM by Cassiano Leonel Drum
Procura-se um garçom
Luizão quer alguém no Botafogo para lhe servir a bola, diz que não desaprendeu a fazer gol e espera desencantar hoje contra Criciúma
Marco Senna
Almir (E) e Luizão sabem que o Botafogo terá um adversário muito difícil pela frente, em Santa Catarina
A insatisfação em ver o Botafogo na lanterna do Campeonato Brasileiro não é só da torcida. Principal nome do Alvinegro, o atacante Luizão revelou seu descontentamento com o fraco rendimento do time. Ele se queixou após o treino de ontem, em General Severiano de estar muito isolado no ataque; de não receber bolas em condições de finalizar. O artilheiro só espera que o quadro mude na partida de hoje, contra o Criciúma, às 16h, no Estádio Heriberto Hulse, em Santa Catarina. O Botafogo soma apenas um ponto, em nove disputados, e tentará a façanha de vencer, e fora de casa.
O time não está criando nada. A bola só chega através de balão para a área. Preciso de municiadores para balançar a rede do adversário. Em dois jogos, tive apenas uma oportunidade de marcar (referiu-se ao jogo contra o Atlético-MG). A equipe não está bem e todos sabem disso. Não desaprendi a fazer gol depois de velho. Estou perto dos 30 anos, desabafou Luizão.
Perguntado sobre quando marcou seu último gol, o atacante teve de puxar pela memória para se lembrar: Acho que foi em novembro (de 2003), e de cabeça.
Luizão ainda não se arrependeu de trocar o Hertha Berlim, da Alemanha, pelo Botafogo. Mas deixou claro que só aceitou atuar no Alvinegro por causa do presidente Bebeto de Freitas. Apostei na palavra dele de que contrataria dois grandes jogadores. Estou esperando, disse. Quanto à aquisição de um novo técnico, Luizão mandou um recado para os candidatos: Quem vier, terá muito trabalho.
Com relação às críticas de que estaria gordo (fora de forma), Luizão reagiu com naturalidade. Se os gols não saírem, a torcida vai pegar no meu pé. Mas quem sabe não faço contra o Criciúma e que seja o gol da vitória?, minimizou.
Matter lança Túlio e Ruy e adota esquema cauteloso
Além da volta de Túlio, no lugar de Têti, o técnico Luiz Matter modificará a postura tática do time: jogará fechado na defesa, explorando os contra-ataques. O Goiás fez isso, no Caio Martins, e nos goleou, observou Matter, à espera de uma partida difícil. O Criciúma está invicto e ocupa a sexta posição. Mas se jogarmos com a determinação que nos fez reagir diante do Atlético-MG, podemos ganhar, acredita.
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8:55 AM by Cassiano Leonel Drum
Sorteio alterou a vida de desempregado
Graças à iniciativa de um comerciante de Santana do Livramento, lançada no 1º de Maio do ano passado, a rotina de desemprego de Adalberto Jorge Corrêa Flores, 47 anos, foi interrompida no segundo semestre de 2003. Ele foi premiado com uma vaga em uma das três lojas de hortigranjeiros de Carlos Davi Gauer e, durante três meses, recebeu salário de R$ 340. Foi uma mudança de vida. Depois de ficar sete anos vivendo apenas fazendo biscates, o emprego novo revigorou as esperanças. Mesmo tendo saído do estabelecimento de Gauer ao final do contrato de experiência, hoje Flores tem outra atividade. Trabalha como caixa em outra empresa da cidade.
- Sempre gostei de trabalhar e quero me aposentar. Com 47 anos não é fácil conseguir trabalho com carteira assinada - diz Flores.
A promoção lançada por Bauer em maio foi interrompida quatro meses depois, por sugestão do Ministério Público do Trabalho. Ele sorteava entre seus clientes três empregos por mês, um para cada loja. Para concorrer às vagas, os clientes que fizessem compras nos estabelecimentos preenchiam cupons e depositivam em uma urna. A iniciativa chegou a provocar um aumento de 40% no movimento em uma única semana. O MPT considerou a iniciativa uma infração aos princípios do trabalhador.
Logo depois da suspensão dos sorteios, as vendas e o faturamento caíram e os 12 contemplados foram dispensados ao final dos contratos de experiência.
- Quando tínhamos a promoção, o movimento era enorme. Não vamos conseguir repetir esse sucesso nunca mais. Valeu a pena. Tinha gente até de outras cidades da região colocando as cartelas nas urnas - disse Gauer.
Não é sempre assim, se estava dando certo e mais pessoas estavam tendo a primeira experiencia com carteira assinada e todos os direitos sociais percebidos, porque acabar coma iniciativa? Esta acredito seja uma das pseudo-éticas...
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8:47 AM by Cassiano Leonel Drum
Lya Luft
01/05/2004
Águas
Todos falam ao mesmo tempo, entendendo-se de alguma forma nessa confusão familiar. Na falsa posição honorária de uma ponta da mesa, ou a um canto dela, um velho come de cabeça baixa. Porque está surdo? Porque está desatualizado, incapaz de acompanhar? Ou porque ninguém se lembra de virar-se para ele e perguntar algo além de um apressado "Quer arroz, vovô?" "Mais carne, vovó?" "Mãe, quer dessa saladinha?"
Um adolescente agressivo reprime uma dor para a qual não vê solução. Seu comportamento, que perturba e preocupa, pode ser um pedido de socorro que não chega ao destino. Sem conseguir entender isso, os adultos se irritam: "A gente faz tudo por esse menino, e ele nunca parece contente!"
Alguém da família não se enquadra na moldura dos preconceitos, e mudam o tom de voz quando falam dele ou dela: "Será...?", decretando que está lançado às trevas exteriores. Uma solidão a mais foi instituída neste mundo.
Uma distração qualquer, e a mão que se estende chega tarde, o pulso já fora cortado; por um fio, por um minuto, o avião havia partido, o telefone estava fora do gancho. Foi egoísmo nosso, futilidade, aridez? Descartamos o que não faz parte do nosso mundo. Porque somos perversos? Talvez apenas porque somos assim.
O momento de lucidez dói como facas e ficamos cheios de boas intenções. Mas aí o telefone toca, o carro enguiça, a empregada não vem, o amor chama, a morte assusta, e tudo se dilui no torvelinho que nos arrasta.
Homens trancados nos quartos remoem traição e abandono. Sofreram grosserias, têm medo porque o dinheiro é pouco, perderam o emprego e não sabem como dizer isso à família. Homens retornam de viagens e no abraço da amada redescobrem ternuras, renovam-se para outros trabalhos, talvez novas frustrações.
Mulheres velam ao lado de doentes cuidando de cada respiração sua, procurando no rosto a luz do antigo riso, querendo daquela mão o gesto de bondade, compreensão nos olhos apagados. Assistem a essa inestancável devastação com a dor de quem prepara a mala de um filho que vai viajar para muito longe.
Toda essa realidade - que inclui nascimento e velhice, crianças doces e caras murchas, corpos sensuais ou mentes confusas - escorre como um mar incessante pelo qual passamos enquanto ele, estranho e belo, permanece - e nem sabe de nós.
lya.luft@zerohora.com.br
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8:45 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
01/05/2004
A volta da sinceridade
Apartir do salário mínimo de R$ 260, inaugura-se no Brasil uma nova fase política e eleitoral. O presidente Lula foi flagrado em deslize de demagogia irrecuperável: prometia nas eleições o Éden de um salário minimo que teria o dobro do seu valor real, no exercício da presidência não cumpre com a promessa e fixa o salário mínimo abaixo dos US$ 100.
Revela-se agora que como candidato Lula foi irresponsável e como presidente é responsável. Se concedesse o salário mínimo que prometera, estouraria com as contas da Previdência e arrebentaria com o o orçamento, o que jogaria o país no caos econômico.
Lula vive assim o ápice de seu inferno astral como presidente, nas suas aparições mostra a fisionomia carregada de quem foi apanhado em truque eleitoral.
Lula e o PT vivem o imenso desgaste da promessa não cumprida, restando "prestigiada" apenas no partido a figura do senador Paulo Paim, que incrivelmente tenta o malabarismo de sobreviver como petista, protestando contra o salário mínimo insatisfatório, o que é um outro truque eleitoral e político: não cabe em qualquer mínima compreensão ética que Lula e o PT sucumbam à frustração de não honrarem com sua promessa, enquanto o senador gaúcho do PT continue a faturar os dividendos políticos e eleitorais, no jogo de cena de revoltar-se contra a medida do governo do seu partido.
Se quiser mostrar-se coerente e impávido na sua luta por um salário mínimo maior e mais digno, o senador Paulo Paim terá de deixar o PT.
Se continuar no PT, soará como inaceitável que ele lucre sempre politicamente, quando os governos a que fazia oposição não davam o salário mínimo que pedia - e agora quando o governo que apóia e do seu partido também arroche o salário mínimo.
Não é sensato que todos do PT se desgastem com o salário mínimo insuficiente e o senador Paim, que sempre foi o arauto do salário mínimo digno e constitucional, saia fortalecido do episódio.
Seria uma mambembe e escarrada prestidigitação.
Mas volto à nova fase político-eleitoral que o país viverá a partir do desencanto definitivo entre o que os políticos prometem na oposição e o que depois praticam no governo.
Isso sempre foi assim, só que o PT era o último baluarte e esperança de que esse estratagema fosse desmascarado, com a quebra dessa tradicional cadeia de hipocrisia.
Todos votaram em Lula e no PT com a expectativa de que no governo Lula reinaugurasse a sinceridade na política. Era a última chance da ética na política.
Caiu por terra. Agora se sabe infelizmente que todos os partidos e todos os candidatos são iguais. E os eleitores terão de ser doravante céticos com todos eles.
Eu não tenho dúvidas de que nas eleições deste ano e de 2006 haverá o maior índice de votos em branco da história política brasileira.
Vai demorar muito tempo até que o eleitorado se recupere dessa imensa frustração.
Em compensação, vai ser muito difícil, quase impossível, que daqui por diante não sejam desprezados nas urnas os que insistirem com as falsas promessas e as genuínas demagogias.
Fica restaurada, tomara que para sempre, a sinceridade na política brasileira.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:42 AM by Cassiano Leonel Drum
Diplomacia
Surge o megamercado europeu
Ampliação histórica da União Européia, com a adesão de mais 10 países, cria uma potência econômica que abrange 450 milhões de consumidores (foto François Lenoir, Reuters/ZH)
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Sexta-feira, Abril 30, 2004
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8:32 PM by Cassiano Leonel Drum
Quero ser grande
Pesquisa inédita retrata o mapa da juventude brasileira. Apegada à família, conservadora e preocupada com a
violência e o desemprego, ainda luta por independência e valoriza a solidariedade
Camilo Vannuchi e Juliana Vilas colaboraram: Marina Caruso e Thiago Asmar
O vendedor Reinaldo Oliveira sonha com o emprego ideal: das oito da manhã às cinco da tarde, com remuneração justa e convênio médico
Eles temem a violência, correm contra o desemprego, são contra a descriminalização da maconha e a favor da diminuição da maioridade penal. Ouvem Zezé di Camargo e Luciano, admiram Ayrton Senna e preferem continuar na casa dos pais. Mas adoram a sensação de liberdade e acham que podem mudar o mundo. O mapa da juventude no Brasil surpreende por combinar traços de conservadorismo com pinceladas de maturidade.
Foi o que mostrou a mais abrangente pesquisa com jovens já feita no Brasil, divulgada na semana passada. Realizado pelo Instituto Cidadania ONG fundada por Lula há quase 15 anos e responsável por programas como o Fome Zero, o levantamento faz parte do Projeto Juventude, que tem como objetivo municiar os governos federal, estaduais e municipais com elementos úteis para a elaboração de políticas públicas direcionadas a essa faixa etária.
A turma de 15 a 24 anos tachada de geração Coca-Cola e, mais recentemente, de geração zapping (aquela que faz tudo ao mesmo tempo e não se concentra em nada) espelha idéias, temores, crenças e hábitos semelhantes aos de outras idades. Entre novembro e dezembro de 2003, foram aplicados 3.500 questionários domiciliares, cada um com 158 questões, em todos os Estados, distribuídos por região de moradia, gênero e idade, conforme padrões sugeridos pelo Censo.
Em Brasília, o Grupo Interministerial da Juventude, coordenado pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, acompanha os trabalhos e promete aproveitar os resultados da pesquisa na formulação de programas. As necessidades dos jovens sempre foram tratadas de forma fragmentada. Queremos criar políticas nacionais que integrem os ministérios, diz Luiz Dulci. Muitas vezes, as soluções mais criativas partem da sociedade civil. E o Projeto Juventude teve o ineditismo de ouvir os jovens para saber quais são suas demandas, elogia.
Mais do que um desejo, resolver a falta de oferta de trabalho é obsessão da grande maioria dos jovens. As duas maiores preocupações apontadas pela pesquisa são o desemprego e a violência, destaca um dos diretores do Instituto Cidadania, Pedro Paulo Branco. Entrar no ensino médio ou na universidade não é mais garantia de ingresso no mercado. Ao mesmo tempo, aumenta a situação de risco da população de 15 a 24 anos, maior vítima da criminalidade, diz.
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8:28 PM by Cassiano Leonel Drum
A carioca Luana Felippe tem medo de sair de casa à noite e de pegar ônibus: Moro perto de um morro e estou acostumada a ouvir tiroteios
Contrato A educação não é a principal atividade dos jovens. Há mais brasileiros de 15 a 24 anos no mundo do trabalho (76%) do que nas salas de aula (64%). Isso não significa que eles tenham contrato e carteira assinada, já que dos que realizam alguma atividade econômica, 65% estão no mercado informal e 86% ganham ou ganhavam menos de dois salários mínimos por mês em sua última atividade.
O número de jovens à procura de emprego (40%) é maior do que o número de empregados (36%). Há dois meses sem trabalho, o paulista Reinaldo Ferraz de Oliveira, 23 anos, sonha com o emprego ideal: das oito da manhã às cinco da tarde, perto de casa, com remuneração justa e convênio médico. O que era para ser regra virou objetivo de vida. Segundo a pesquisa, se pudessem criar uma cláusula, os jovens decretariam o direito a um emprego, mesmo sem experiência.
Reinaldo tem experiência como vendedor. Mas isso não significa muito. Quando comecei a trabalhar, aos 16 anos, a situação era melhor. Hoje, quem consegue emprego não está livre do terrorismo psicológico. Você é explorado e, se reclamar, ainda escuta o chefe dizer que existe um monte de gente para ocupar seu lugar, reclama. Ele mora em Embu, na Grande São Paulo, com a mulher, Edna, que também está desempregada e grávida de quatro meses. Sabendo que a família vai aumentar, Reinaldo distribui seu currículo por aí. Terei de sustentar três pessoas. Pelo menos agora, ninguém me chama de vagabundo. Quando se é desempregado e solteiro, a gente se sente ainda mais marginalizado, diz.
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8:24 PM by Cassiano Leonel Drum
A produtora cultural Maíra Castilho acredita que a família é o que dá segurança. Ela mora com a mãe, Nani Bernardo, e não pretende sair de casa tão cedo: Trocamos confidências e conselhos
Mais do que garantia de futuro, trabalhar é sinônimo de dignidade em um país que trata como heróis jovens que conseguem o primeiro emprego. A passagem para a vida adulta acontece quando a pessoa se torna capaz de produzir e reproduzir. Hoje, parte da problemática juvenil está no degrau entre esses dois momentos.
Mesmo capaz de reproduzir, o jovem ainda não conquistou sua capacidade produtora, sua independência, afirma a socióloga Helena Abramo, parceira do Projeto Juventude na avaliação dos dados. O sociólogo francês Pierre Bourdier diz que juventude é apenas uma palavra. Para os jovens, é um período que termina com a maturidade e a capacidade de cuidar de si mesmos. Mas suas preocupações são muito parecidas com as de seus pais. Basta verificar que violência e emprego são os assuntos mais recorrentes na pesquisa, diz Helena.
A falta de emprego é considerada o principal problema do Brasil, seguido pelo excesso de violência. Se pudessem, em um passe de mágica, mudar qualquer coisa em sua vida ou no mundo, 29% dos entrevistados acabariam com a violência, a resposta mais comum. Segundo estudo recente da Unesco, a faixa etária dos 15 aos 24 anos concentra a maior proporção de vítimas de homicídio no Brasil.
Em 2000, houve 27 homicídios a cada 100 mil habitantes. Essa taxa sobe para 57 quando considerados apenas os jovens. No mesmo ano, foram assassinadas 2.220 pessoas com exatos 20 anos, a idade mais crítica. Existem jovens ligados a pastorais, movimentos culturais e de ação comunitária e existem aqueles ligados ao tráfico de drogas e à criminalidade. Todos têm suas necessidades, alerta Jorge Werthein, diretor da Unesco no Brasil.
Pânico De todos os Estados do País, o Rio de Janeiro é o que apresenta o maior índice de homicídios de jovens. Dados como esse, aliados às frequentes notícias de conflitos entre traficantes, só aumentam o pânico dos moradores da capital. Eu moro perto de um morro e estou acostumada a ouvir tiroteios. O crime acaba prendendo a gente em casa. Penso duas vezes antes de sair à noite, diz a estudante carioca Luana Felippe.
Aos 18 anos e sem carteira de motorista, de tanto ouvir histórias, a moradora do Rio Comprido (bairro da zona norte cercado por favelas) não quer nem andar de ônibus. Muitos amigos meus já foram assaltados. Um dia, um ladrão tentou roubar meu amigo pela janela do ônibus, conta. Mesmo apaixonada pelo Rio, Luana está decidida a deixar a cidade assim que concluir o curso de ciências sociais. Quero me mudar para uma cidade onde possa andar sem medo de criminosos. Este não é o ambiente que desejo para meus filhos, lamenta.
Na maioria das vezes, o estreitamento da relação com a família serve de estratégia para driblar o medo das ruas e do futuro. Em um meio social hostil, com desemprego e violência, a família vira porto seguro, avalia o sociólogo Gustavo Venturi, diretor da Criterium, realizadora da pesquisa. Mesmo que o controle dos pais seja considerado, por muitos jovens, empecilho para o exercício da liberdade, é nítido o caso de amor entre essa geração e seus pais. Para 48% dos entrevistados, o apoio da família é o fator mais importante em suas vidas, à frente do esforço pessoal, preferido por 32% deles. Três quartos da amostra consideram a vida na família mais importante para o amadurecimento do que a vida na escola, na rua, no trabalho ou na Igreja.
Relações A produtora cultural paulista Maíra Castilho, 21 anos, acha que, antes de estabelecer novas relações, a família é o que dá segurança. Maíra mora e trabalha com a mãe, Nani Bernardo, e diz que a relação entre as duas é de muita amizade. Como ela é liberal, trocamos confidências e conselhos. As brigas são passageiras e a gente tem certeza do amor de uma pela outra, comenta ela, que não pretende sair de casa tão cedo.
Se pudessem decidir sem se preocupar com nenhum fator (lê-se dinheiro em primeiro lugar), apenas 17% dos jovens que moram com os pais sairiam de casa. Quase a metade nem sequer tem planos de morar sem eles. Mesmo entre os maiores de 21, apenas 22% sairiam já. Isso não significa que a juventude é acomodada. Ela é apenas mais longa do que há alguns anos, diz Venturi.
A mesma juventude que não quer sair de casa e considera a liberdade para curtir a vida sem compromissos a maior vantagem da idade não economiza elogios a valores como solidariedade e respeito às diferenças. Para Venturi, que viveu sua juventude nos tumultuados anos 70, isso demonstra uma evolução, pelo menos na teoria, em relação à sua geração. Em nossa época, lutávamos por justiça social, mas não tínhamos conceitos como o de respeito às diferenças e o de solidariedade. Aliás, nossa geração fazia um patrulhamento ideológico enorme, lembra ele.
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8:21 PM by Cassiano Leonel Drum
Corremos contra o relógio para conciliar estudo e trabalho. O esforço para garantir o emprego é tanto que não sobra tempo para nada, diz a estudante Camila Pires, que criou um blog na internet
No entanto, apesar do discurso solidário, ainda são poucos os que se mobilizam para pôr a mão na massa. Apenas 2% dos jovens já participaram de algum trabalho social ou têm algum empreendimento voltado para o benefício de sua comunidade. Dos demais, 68% nunca pensaram em fazer algo semelhante.
Também o engajamento em movimentos estudantis e de cunho político tem sido suplantado por um individualismo crescente, por mais justificado que seja. A minha geração corre contra o relógio para conciliar a faculdade com o trabalho. O esforço para garantir o emprego é tanto que não sobra tempo para nada, diz a estudante de hotelaria paulista Camila Pires, 20 anos. Já pensei em ser voluntária. Mas isso exige dedicação, tempo e disciplina. Meu estágio ficaria comprometido e eu tenho de ser contratada.
Quem vê de fora acha que é egoísmo, diz ela. Os termos egoísmo e individualismo, no entanto, foram substituídos por umbigocentrismo. É esse o nome do blog que Camila criou para difundir o movimento na internet. O umbigocentrista é aquele que tem momentos egocêntricos, explica. Como 95% das pessoas na sua faixa etária, Camila nunca se filiou a um partido político. Nem participou de um sindicato, como 99% dos jovens, ou do grêmio, como 89% deles. Aos 20 anos, nunca foi a uma manifestação de rua.
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8:18 PM by Cassiano Leonel Drum
Ao contrário do que se imagina, a maioria dos jovens prefere relações estáveis. O estudante Felipe
Abenza faz eco: Prefiro namorar a ficar. O sexo é mais gostoso quando há intimidade
Pode-se perceber que as instituições clássicas de participação e representatividade estão em crise. No entanto, há quem diga que movimentos culturais como o hip hop começam a desempenhar papel semelhante ao ajudar os jovens a costurar uma ideologia e a criar vínculos de solidariedade e cooperação. O coreógrafo e dançarino Ivaldo Bertazzo percebe isso no grupo de jovens da periferia de São Paulo que integram o projeto Dança Comunidade, coordenado por ele.
São mais de 50 jovens que trocaram um sentimento de abandono e de baixa auto-estima pela sensação de sucesso ao serem aplaudidos de pé. Projetos coletivos consistentes, tanto os elaborados a partir da dança e da música quanto do esporte, devem ser valorizados por seu poder de formação e de aglutinação. Ninguém sai da mesma forma que entrou, diz, satisfeito com a repercussão do espetáculo Samwaad: rua do Encontro, que seus aprendizes encenam de quarta-feira a domingo no Sesc Belenzinho, em São Paulo.
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8:14 PM by Cassiano Leonel Drum
Simpatizante do Partido Progressista e eleitor de Paulo Maluf, Fernando Farah polemiza: Não entendo quando querem defender os direitos humanos dos presos
Drogas Quem está acostumado a acompanhar pela imprensa pesquisas sobre jovens feitas em sua maioria apenas nas capitais e grandes cidades pode cometer a injustiça de generalizar a faixa etária como usuária de drogas e praticante do sexo sem compromisso. Aliás, já virou tradição considerar a juventude folgada e preguiçosa. Quando perguntamos aos jovens qual o maior problema de suas escolas, a maioria responde que o problema são eles, que fazem bagunça, não cuidam das salas de aula e desrespeitam o professor.
Estão tão acostumados a ser chamados de violentos, egoístas e irresponsáveis que adotaram uma visão supernegativa de si mesmos, diz a socióloga Miriam Abramovay, da PUC de Brasília. Um comportamento cada vez mais conservador acaba resultando desse policiamento. Com tanta pressão, os jovens preferem reproduzir os hábitos de seus pais a continuar ouvindo tantas críticas, diz ela.
Segundo o levantamento, apenas 10% dos jovens já usaram maconha e 3%, cocaína. Enquanto isso, 81% dos jovens são contra a descriminalização da maconha e 86% defendem a realização de exames antidoping nas escolas. No espectro político-ideológico, a maioria nutre mais simpatia pela direita do que pela esquerda. A esquerda sempre discorda de tudo e, quando ganha, não mostra resultados, justifica o estudante de direito.paulistano Fernando Farah, 21 anos. Simpatizante do Partido Progressista e eleitor convicto do ex-prefeito Paulo Maluf, chega a repetir o discurso de seu ídolo quando o assunto é segurança pública. Não entendo quando querem defender os direitos humanos dos presos. Os bandidos ficam na cadeia à custa do dinheiro do povo e saem em seguida. E quais são os direitos das vítimas?, questiona.
Religiosidade Como a maioria de seus contemporâneos, Fernando nunca fumou maconha, repudia a legalização do aborto e condena a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Casamento, só para heterossexuais. Hoje todo mundo se junta. Mas casar na Igreja é fundamental, defende. Outro aspecto marcante na nova geração é o resgate do sentimento religioso.
Perguntados sobre qual seria o valor mais importante em uma sociedade ideal, parte significativa dos jovens escolheu o Temor a Deus, a resposta mais frequente. Mas essa religiosidade não tem mais o significado de fuga ou alienação que tinha para a geração anterior. Ela é uma espécie de alicerce para pensar o futuro, diz a antropóloga Regina Novaes, presidente do Instituto Superior de Estudos da Religião do Rio de Janeiro. Crer não é mais coisa de velho. Faz parte do cotidiano da juventude, principalmente numa época em que a maioria escolhe a própria religião, diz.
No exercício da sexualidade, nota-se um apego a valores que pouco remetem à propagada liberdade sexual. Em uma época em que os beijos rolam soltos e o ficar supera o namorar, a maioria dos jovens continua tendo suas relações sexuais com parceiros estáveis. A última relação sexual de 63% dos jovens aconteceu com um parceiro estável e 36% deles definiram o relacionamento com a última pessoa com quem foram para a cama como eventual. Para o estudante de administração Felipe Abenza, 20 anos, os números fazem todo sentido. E não demonstram um comportamento careta. O sexo é mais gostoso quando há intimidade. Emendei quatro namoros seguidos.
O mais longo durou dois anos e meio. Em um casal, os dois já sabem do que o outro gosta, explica ele. Felipe faz parte da turma de 59% de jovens que disseram ter usado camisinha na última relação. Quase todos os que não usaram se disseram casados e/ou dispostos a ter filhos. Felipe só deixa de lado a camisinha quando o namoro é de longa data, se a garota tomar anticoncepcionais e tiver feito exame de HIV. Ele também integra a maioria de jovens que, em respeito à família, não leva a parceira para dormir em casa. Também evita passar a noite na casa de Fernanda, 21 anos, sua namorada há seis meses. Tanta prudência tem um lado bom. Mas não custa nada lembrar que essa é a hora de curtir a vida.
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8:56 AM by Cassiano Leonel Drum
Pouca grana, muita diversão
Na última sexta-feira do mês, o Show & Lazer mostra como sair de casa gastando pouco. Tem caipirinha, filme e show, cada um a apenas R$ 2.
Zean Bravo
Cauã Reymond: na Livraria da Travessa
Fim de mês é sempre igual: falta grana, mas ainda há disposição de sobra para sair. Para fazer muito com pouco, o Show & Lazer preparou um roteiro com programas para orçamentos apertados, seja qual for a sua: noitada, cinema, literatura, teatro ou show. Na Feira de São Cristóvão, por exemplo, diversão não é sinônimo de gastar muito. Na mão de Edmar Lopes, dono da barraca Capetão Show, vários drinques saem por R$ 2 (caipirinha de cachaça).
A de vodca custa R$ 3 e as caipifrutas são 60 tipos, incluindo as exóticas de sirigüela e tamarindo vão de R$ 2 a R$ 6, dependendo do tamanho. Os drinques fazem o maior sucesso, gaba-se Edmar, criador de bebidas como o Viagrinha (hortelã, xiboquinha, fogo paulista e leite condensado), de R$ 3. O freqüentador Glaicon Serafim, 36 anos, aprova a mistura da feira. Todo mundo se diverte com pouco dinheiro, diz.
Paulinho da Viola, Wagner Tiso e Velha Guarda da Portela
Outra pechincha imperdível é o show de Paulinho da Viola e Velha Guarda da Portela, que viverá encontro inédito amanhã com a Orquestra Petrobras Pró Música e Wagner Tiso, no Teatro Municipal. A apresentação os ingressos vão de R$ 2 a R$ 10 , é a primeira da série de concertos OPPmpb & Jazz. Já o Espaço Star One Rio Design, na Barra, oferece sessão gratuita do divertido Pantaleão E As Visitadoras, e a elogiada animação Bicicletas De Belleville por R$ 2. Hoje e amanhã, a Cobal de Botafogo abriga o Animação Drive-In na Cobal, que exibirá 35 desenhos num telão de 8x3 metros.
De graça. Outro programa que não custa nada é passar horas ouvindo discos e foleando livros na Livraria da Travessa. Quando pintar a grana, é só voltar para comprar. Os atendentes são legais e abrem CD para você ouvir, conta o ator Cauã Reymond, cliente também da Letras e Expressões, Argumento e Dantes. Adoro ver livros de fotografia. Sempre que vou trocar idéia com alguém marco um chá na Travessa.
Hip hop no viaduto de Madureira
Para os agitados, a boa é o Absolut Club, em São Gonçalo, com promoções em que se compra uma cerveja por R$ 3 e ganha-se outra. Em Madureira, sob o viaduto Negrão de Lima, rola todo sábado baile black com charm, hip hop e cerveja a R$ 1. É barato e tem gente bonita, elogia a cabelereira Ana Cláudia Moura, 26 anos. Quer melhor?
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7:05 AM by Cassiano Leonel Drum
Foi mesmo o mínimo: R$ 20
Governo Lula decide pelo menor valor entre os que estavam nas discussões sobre o reajuste do salário, que sobe para R$ 260
BRASÍLIA - Após três semanas e 22 horas de negociações, o Governo anunciou que o valor do salário mínimo será de R$ 260 a partir de amanhã. A informação foi dada pelo ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, após a quinta reunião sobre o tema no Palácio do Planalto. O reajuste representa um aumento de 8,3% em relação ao salário vigente, de R$ 240, e fica 1,73% acima da inflação. Com o novo valor, a hora trabalhada fica em R$ 1,08.
Além do aumento do mínimo, o Governo reajustou o salário-família, de R$ 13,48 para R$ 20. Só vão receber esse valor pais e mães de crianças até 14 anos que ganhem até um salário mínimo e meio (R$ 390). Para valores maiores o benefício atinge quem recebe até R$ 586 , o salário-família será de R$ 14,09.
Na queda-de-braço do mínimo, prevaleceu a posição da área econômica do Governo. Nas diversas reuniões que teve nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a defender que o valor deveria ser próximo a R$ 270. Durante a campanha eleitoral, ele prometeu dobrar o valor real (acima da inflação) do mínimo. A resistência a um aumento maior partiu do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que argumentava que um reajuste acima de R$ 260 causaria impacto negativo na Previdência e desequilibraria as contas das prefeituras.
Para definir o reajuste, Lula também enfrentou divergências com os partidos que sustentam seu Governo no Congresso e com as centrais sindicais. O valor de R$ 260, aliás, frustra as pretensões dos sindicalistas, que defendiam até R$ 300.
O ministro do Planejamento, Guido Mantega, informou que os reajustes terão impacto de R$ 650 milhões para a Previdência. O dinheiro virá do excesso de arrecadação. Ele reconheceu que o mínimo precisa de reajustes maiores, mas frisou que o aumento foi o possível para manter a disciplina fiscal. Não estou envergonhado, garantiu, ao ser questionado sobre o aumento de apenas R$ 20.
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6:56 AM by Cassiano Leonel Drum
Mauren Motta
30/04/2004
A pulga Madonna
No último sábado, fui para São Paulo. A viagem era para cobrir o maior evento de música eletrônica do país. A caminho do Anhembi, sentada na van junto com outros jornalistas forasteiros, relembrei a vez em que fui a São Paulo assistir ao show da Madonna. Sempre adorei a deusa do pop. Naquele tempo de grana curta, eu fazia tipo de fã acomodada.
Obviamente que, quando soube que ela viria para o Brasil, fiquei tentada a ir ver de perto. Indecisa, perdi o prazo para compra do ingresso. Quando faltava uma semana para o bendito show, um amigo apareceu com um ingresso sobrando. Resolvi encarar, parecia tudo perfeito. Era sorte demais, praticamente um sinal divino, e eu tinha de ir!
De mochila nas costas, rumei para a casa da Karina. Ela é minha amiga de infância e tinha se mudado para a capital paulistana para tentar a vida de atriz. E lá estava eu, felicíssima, acomodada na quitinete dela. Ela também iria ao show, o único problema é que os nossos ingressos eram com acessos diferentes. O portão dela era oposto ao meu.
Acabei indo com duas outras amigas. Encaramos dois ônibus de linha até chegar ao Estádio do Morumbi. O trânsito caótico de São Paulo fez com que a gente chegasse superatrasadas. Depois de ficar numa fila imensa, fomos barradas na boca da catraca. O porteiro avisava que tinham sido vendidos ingressos a mais, e que a lotação daquele portão estava ESGOTADA!
Como assim? Eu tava com o ingresso na mão e queria entrar! Ele gritava: "Ingressos verdes, acesso no próximo portão!". Saímos correndo, com o resto da fila, para o lado errado. Resultado: volta olímpica no estádio e 50 minutos de show perdidos. Desconsolada, jurei que nunca mais encararia tal empreitada. O meu lugar era horrível. Além de ter perdido Like a Virgin, a Madonna parecia uma pulga da onde eu estava. Em casa, encontrei a Karina com uma cara jururu, sentada no sofá. Com ela a história foi pior: um gatuno bateu sua bolsinha e levou o ingresso, ainda na fila, antes de o show começar. Ficamos traumatizadas.
Agora, a coisa foi diferente. O bom de ser repórter e ser convidada para shows em outras cidades é que a gente tem a maior mordomia. A produção te paga passagem, busca no aeroporto, te hospeda num hotel legal e te dá acesso livre. Você pode ver do palco as atrações, trocar uma idéia com os astros e circular pela área VIP. O Skol Beats deste ano foi maravilhoso. O único problema é que você trabalha tanto que a noite passa e você acaba curtindo pouco.
Eu e o Diógenes, meu cinegrafista, ficamos perambulando no meio de uma massa de 45 mil pessoas catando depoimentos para a nossa história. O resultado vocês conferem amanhã no Patrola. Quanto à Madonna, quem sabe eu ainda tenho a sorte de conhecê-la de perto?
Beijolas animadas.
mauren@rbstv.com.br
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6:54 AM by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
30/04/2004
Democracia envergonhada
Já contei do meu amigo que apanhava da mulher? Devo ter contado. Ele apanhava mesmo. De sair sangue e arroxear. Começou com um beliscão no braço, por algum motivo. Ele não se irritou. Ao contrário: chamou-a de tiutiuquinha, lambuzou-a de atenções, tudo para lhe aplacar a fúria. Na briga seguinte, o beliscão foi mais forte.
- Aaaaai - ganiu meu amigo, se encolhendo todo.
E foi lá acarinhá-la, perguntar o que tinha havido, pedir desculpa, amoreco. Na terceira discussão, ela lhe estourou uma bofetada no lado da orelha. Meu amigo se espantou. Saiu de casa tonto, o rosto latejando. Voltou com flores e jujubas, querendo saber se ela estava mais calma.
Assim por diante. Quanto mais ela batia, mais amoroso ele se tornava. Quer dizer: se a mulher quisesse ser bem tratada, bastava cobri-lo de porrada. Foi o que ela passou a fazer. Surrava-o sistematicamente, a socos e pontapés. Insultava-o aos berros, o edifício inteiro ouvia. Estão juntos há anos.
Alguém pode achar que meu amigo gosta de apanhar. Nada disso. Ele sofre. Quanto a ela, sofre também. Ela não queria bater nele, claro que não. Queria que ele se impusesse. Anseia por isso. Mas a fronteira do bom senso já está lá atrás.
É o que não se pode deixar acontecer. Pois em todas as relações humanas os limites são testados. A criança testa a mãe, o funcionário testa o chefe, um amigo testa o outro. A cada um cabe estabelecer o limite.
Meu amigo foi leniente demais, cândido demais. Como a democracia brasileira. O brasileiro crê que democracia é permissividade. Em que país do mundo alunos, professores, sem-terra, com terra, desempregados, empresários, em que país do mundo qualquer paspalho carregando um cartaz escrito a hidrocor fecha uma via pública quando bem entende? Nenhuma democracia autêntica permite tamanho desrespeito. Só uma democracia envergonhada, feito a brasileira.
Agora, todas essas pessoas que protestam levantando barricadas e trancando o trânsito, o que elas esperam que o poder público faça? Que as impeça! É tudo que elas querem. Um governo que demonstre com franqueza e racionalidade não aceitar protestos à margem da lei é um governo que, afinal, tem condições de resolver as questões pelas quais são feitos os protestos.
Mas não sei se o Estado brasileiro tem essa capacidade. Nunca teve. Nem na ditadura o poder público soube definir com clareza os limites da sua relação com o cidadão. Só que, naquela época, era um Estado acostumado a bater. Agora, acostumou-se a apanhar.
david.coimbra@zerohora.com.br
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6:52 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
30/04/2004
Os batedores de carteira
A barra anda tão pesada em todos os aspectos, que só pode não ter depressão quem for irresponsável.
Tempos gloriosos aqueles, até os anos 50, em que a maior preocupação da polícia e dos porto-alegrenses era, em matéria de segurança pública, os batedores de carteiras.
Não havia assaltos em Porto Alegre e apenas engatinhavam os arrombamentos de residências.
Homicídios eram raros, os que havia eram quase sempre passionais. Seqüestro era uma palavra desconhecida.
A supremacia dos batedores de carteiras nos atentados à propriedade era a prova insofismável de que o crime, naquele tempo, não enveredava pela violência.
O batedor de carteira não causava qualquer dano à integridade física das suas vítimas, ele apenas se insinuava nos bondes, principalmente, secundariamente em qualquer aglomeração, praticava a sua punga com extraordinária habilidade, entregava a carteira da vítima para um outro parceiro que se encarregava de fugir e de evitar o flagrante.
Quando as pessoas percebiam que tinham suas carteiras surripiadas, algumas vezes ainda estavam próximas do batedor de carteira, recordavam-se de que tinham sofrido um assédio corporal dele, prendiam-no ou solicitavam à polícia que o prendesse, mas a essa hora o cúmplice a quem havia sido entregue a carteira já estava longe.
No máximo o batedor de carteira era mantido preso por 24 ou 48 horas. Naquele tempo não havia como hoje a rigidez da polícia de não manter preso alguém sem ordem judicial.
Os batedores de carteira eram todos conhecidos, estampavam nos jornais as suas fotografias.
Quand |