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E N T R E L A Ç O S

Sábado, Maio 08, 2004




Martha Medeiros
09/05/2004


As donas do futuro

O domingo é dia das mães, mas eu gostaria de fazer uma reflexão sobre o nosso papel neste mundo insano que está por aí. Não basta dar mesada ou mochila nova

Hoje é dia de paparicar as mães, mas gostaria também de aproveitar este domingo para fazer uma reflexão sobre o nosso papel neste mundo insano que está aí. Sei que é função tanto do pai quanto da mãe educar seus filhos, mas na maioria das famílias ainda é a mãe que passa mais tempo com as crianças, então vai para as mulheres este recado: temos o futuro nas mãos.

Reconheço que nos atrapalhamos bastante com esta história de trabalhar fora e ainda assumir as tarefas de casa, mas já deu para se adaptar. O ritmo vai ser assim daqui por diante, frenético. Só que isso não pode impedir que nossos filhos recuperem o lugar de honra que já tiveram em nossas vidas.

Não adianta parir, apenas. É preciso ter cuidado com os exemplos que a gente dá, com o nível do tratamento que a gente usa em casa, com a qualidade da nossa presença. Não basta dar mesada e mochila nova: a gente tem que dar respostas. Tem que cobrar civilidade. Tem que estar atenta para os silêncios e as distâncias. Tem que reunir o pessoal em torno da mesa, tem que perguntar, se interessar, abrir o jogo, falar sobre tudo, ouvir o que eles têm a dizer, não ter receio de impor limites, ser agradável, ser amorosa e ser tirana, se for preciso - e será preciso.

Os filhos da gente não devem se habituar à humilhação e à exclusão, assim como não devem se achar mais importantes do que os outros. Não podem acreditar que ser desonesto é esperteza, não podem deixar de pagar suas dívidas, não podem achar que se forem agressivos serão mais respeitados. É por causa destes pequenos descuidos que formamos pitbulls que brigam em boates, irresponsáveis que fazem rachas na rua, patricinhas que só pensam em consumir, alienados que não fazem idéia do mundo em que vivem.

Eu sei, não é justo carregar sozinhas este fardo: tem a televisão, os colegas, as drogas, as desilusões, vários outros fatores que influenciam a gurizada também, mas nada é páreo para a estrutura familiar. Arrancando bem, as chances de eles fazerem uma boa corrida aumentam bastante.

Ninguém é obrigado a ter filhos. Nascemos escutando: "tem que procriar, tem que procriar!". Não mesmo. Se você não se sente disposta a ceder o seu tempo para educar crianças, não se sacrifique. Todo mundo pode ser feliz sem filhos. O que não pode é tê-los apenas para cumprir os rituais impostos pela sociedade e depois jogá-los ao vento. Se os teve, assuma-os, tome conta, proteja, eduque, crie cidadãos, faça o possível para não despejar na sociedade futuros corruptos, futuros malandros.

É muita responsabilidade para as pobres mães? Se é: uma responsabilidade colossal, para mães e pais. Só não é absoluta porque há outros fatores em jogo, como foi dito, mas quem assina o projeto somos nós. A gente não gostaria de ganhar de presente um país melhor? Não vai ser a cegonha que vai trazer.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
09/05/2004


Primaveris

Os velhos ídolos franceses, como Charles Aznavour, não desaparecem. Vão dizendo adeus aos poucos. E não mudam muito

O Charles Aznavour está fazendo a sua despedida definitiva do, como dizem os franceses, "show-bizinez". Apresenta-se até o dia 21 de maio no Palais des Congrés, cujos dois mil e tantos lugares têm estado cheios todas as noites de admiradores que não querem perder a última oportunidade de ver o cantor e compositor num palco. Há uns dois anos, nós também fomos ao mesmo Palais des Congrés ver o mesmo Aznavour no que também era anunciado como a sua despedida definitiva e felizmente não foi. Os velhos ídolos franceses não desaparecem, vão despedindo-se definitivamente aos poucos.

E não mudam muito. A não ser a Brigitte Bardot, que murchou nos lugares onde não devia, os outros continuam como versões só um pouco mais rústicas do que eram quando jovens. Johnny Halliday, o adolescente mais velho do mundo, ainda se veste e se comporta como no passado e tem público certo e entusiasmado para todas as suas despedidas. A Silvie Vartan também. O Charles Trenet só não continua como era porque se descuidou e morreu, mas foi igual até o fim. O Aznavour ainda canta e se move no palco como sempre, e tem certamente muitas despedidas definitivas pela frente. E acabo de ver o que o Sacha Distel está tocando num clube de jazz em Montparnasse. Aposto que não parece ter mais de 35 anos, incompletos. Deve ser alguma coisa na comida.

Um fim de semana na Normandia incluiu uma visita a Le Havre. Dizem que ninguém vai a Le Havre se não tiver uma razão muito forte para isto, e turismo não é desculpa. Mas fomos como turistas primaveris. Le Havre é um dos dois grandes portos franceses - o outro é Marselha, no Mediterrâneo - e a cidade, totalmente destruída na II Guerra Mundial, foi reconstruída no pior estilo utilitário sem graça da arquitetura soviética.

O gosto não melhorou com sucessivas administrações comunistas na cidade, mas foi redimido em parte com o convite para o Oscar Niemeyer construir o teatro municipal. E não é que os próprios caixotes monumentais acabam tendo um certo encanto evocativo? A cidade é interessante como qualquer porto e tem o atrativo adicional de ser uma inesperada Moscou à beira-mar. Era mais ou menos inevitável que o estalinismo também terminaria em nostalgia.

Uma nota de pé de página da Historia. Os ingleses saberiam que os alemães já tinham desocupado Le Havre, que não teria mais nenhuma importância estratégica na II Guerra. Mas teriam insistido em arrasá-la, matando quase 15 mil dos seus habitantes, por uma previdente razão de interesse nacional Le Havre seria eliminada como concorrente aos grandes portos ingleses depois da guerra. Foi da Normandia que saiu Guilherme o Conquistador para fundar uma nação naquela brumosa costa oposta do Canal da Mancha. Até hoje tem gente que acha que foi uma má idéia.

A exposição do Mirò no Centre Pompidou de Paris, também chamado de Mausoléu do Robocop, é completa e imperdível. Inclui desde os primeiros até os últimos rabiscos infantis do grande catalão. Mas quem for ver o Mirò deve passar antes por uma pequena exposição chamada Fraçois, l'epreuve du feu no mezanino do Centre Pompidou. François, um dos grandes artistas gráficos do mundo, na linha do Saul Steinberg e do Millôr Fernandes, teve mesmo a sua prova de fogo.

Ha dois anos, um incêndio destruiu seu ateliê com tudo que ele tinha guardado, sua produção de muito tempo. E François, com 88 anos de idade, simplesmente decidiu fazer tudo de novo. A exposição é de tudo que ele fez desde o incêndio, incluindo algumas aquarelas pastorais de uma serenidade emocionante. O velhinho à prova de fogo continua genial como sempre. Tem que ser alguma coisa na comida.

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Moacyr Scliar
09/05/2004


Por onde andam as mães dos órfãos?

Mães também morrem. E para onde vão as mães que morrem senão para o Céu, com C maiúsculo? Se o Céu existe, é delas

Tempos atrás encontrei uma senhora que me fez uma pergunta casual, mas perturbadora:

- Onde é que anda tua mãe, que não vejo mais?

Perturbadora, no caso, porque, tendo minha mãe morrido há muitos anos, eu, para dizer a verdade, não sei onde ela anda. Claro, existe o túmulo, e ali devem estar aquilo que a gente chama de restos mortais. Mas ninguém pensa na mãe, mesmo falecida, como restos mortais. Se evocamos nossa mãe não é um melancólico esqueleto que nos vêm à mente, é a figura de uma mulher quase sempre sorridente, uma mulher terna, afetiva - viva. Mãe, para os órfãos, está sempre viva.

É uma metáfora, naturalmente, uma figura de linguagem, mas que serve de consolo. E órfãos, de qualquer idade, precisam de consolo. É impressionante como as pessoas, mesmo idosas, continuam pensando em suas mães como presença constante. De alguma maneira teimamos em ser filhos, teimamos em ser crianças, apesar dos anos e das rugas. E, de alguma forma, a mãe não nos deixa. Mães nunca deixam os filhos. Meu Pai, por que me abandonaste?, brada Cristo na cruz. É mais que uma pergunta. É uma queixa. É um protesto. É uma denúncia, até: seu Pai, o Todo-Poderoso, abandonou-o. Mas a mãe de Jesus não o abandona. Ela está ali, testemunha silenciosa do martírio.

Mas mães são seres humanos. Mães morrem. E para onde vão as mães que morrem, a não ser para o Céu, com C maiúsculo? Se o Céu existe, só pode ser por causa das mães. Claro, existem as chamadas mães desnaturadas, aquelas que não cuidam dos filhos, que maltratam os filhos. Mas a mãe que maltrata o filho está, inevitavelmente, maltratando a si própria, está sendo vítima de seu próprio problema emocional. Mesmo uma mãe assim acaba merecendo o Céu, ainda que depois de um estágio corretivo no purgatório.

Fico imaginando minha mãe no Céu. Fico imaginando, no Céu, as mães judias que conheci no bairro do Bom Fim, a maioria das quais já não se encontra entre nós: trata-se de uma espécie em extinção. E o que faz, no Céu, uma mãe judia? Em primeiro lugar, ela briga com Deus, da mesma forma que brigava com o marido, com o vizinho, com o homem da quitanda. "Deus, olha o jeito que está o mundo! Faz alguma coisa para melhorar a situação dessa pobre gente! Te mexe! Tu não és o Todo Poderoso?" Além de reclamar, a mãe judia vai à luta.

A mãe judia acorda cedo, amarra um pano na cabeça, varre o Céu, arruma o Céu, e, sobretudo, faz comida no Céu - para a mãe judia o Céu é, antes de mais nada, uma enorme cozinha, do tipo daquelas que existiam nas velhas casas da Fernandes Vieira, na Henrique Dias, na Felipe Camarão. Céu, para a mãe judia, é preparar quantidades enormes de comida, sobretudo aquela sopa que contém, em si própria, o segredo da eternidade. Com um prato de sopa, a mãe judia corre atrás dos anjos que, desesperados, se escondem atrás de nuvens. Ela não quer saber: anjo ou não, tem de comer a sopa. Depois, pode ficar tocando harpa à vontade e entoando cânticos ao Senhor. Mas primeiro a sopa.

Fantasia, isto tudo? Claro que é. Mas a fantasia é o único consolo dos órfãos.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
09/05/2004


Os náufragos

Sempre que estou tomado por qualquer desconforto, uso um truque mental para consolar-me: pior seria se eu fosse um náufrago em alto-mar e lutasse para me manter à tona boiando ou nadando, à espera de socorro.

Ou muito pior seria se eu estivesse soterrado debaixo dos escombros de um terremoto, imóvel, ferido, à espera angustiante de que uma equipe de socorro me localizasse.

É que sempre me sensibilizaram profundamente as histórias desses pescadores ou marinheiros que são salvos em alto-mar depois de horas ou dias expostos à água gelada ou ao sol, sem alimento e sem água.

E mais ainda me causam compaixão as pessoas que resistem obstinada e sofridamente à morte, soterrados debaixo das ruínas provocadas por terremotos.

Anteontem mesmo, vítimas de mais um ciclone, foram salvos dois pescadores, depois que seu barco foi alvo de um naufrágio no litoral de São Paulo.

Um deles resistiu durante 40 horas agarrado a uma bombona (espécie de tanque de gasolina do barco), mais da metade do corpo mergulhado no mar gelado).

Só a falta de alimento e água durante 40 horas já serve para debilitar uma pessoa, imaginem a hipotermia provocada pela água gelada do mar e a vigília de 40 horas, sem poder fechar os olhos, noite e dia, como pode o ser humano resistir a esse suplício durante quase dois dias?

Só uma vontade impoluta de continuar vivendo é que pode erguer e sustentar um tal farrapo de criatura.

O outro pescador salvo no mesmo naufrágio teve uma aventura ainda mais dramática: nadou durante 16 horas até ser encontrado.

Ele disse: ¿Era nadar ou morrer, eu continuei nadando¿.

Seu corpo estava todo lacerado pelo sal da água do mar quando foi encontrado.

Começou a nadar de madrugada, quando do naufrágio, foi encontrado só à tarde. Nadando, nadando, nadando.

Nem o terror de ser devorado por um tubarão venceu esse homem, enquanto ele tivesse forças para manter sua cabeça acima da superfície, restava uma esperança.

Um dos pescadores salvos agarrou-se numa bombona, o outro agarrou-se na esperança.

Até a noite de sexta-feira não se conhecia o destino dos outros náufragos. Ao que tudo indica devem ter morrido.

Uns segurando-se no que puderam segurar-se, outros nadando, nadando, nadando, até que a fome, o frio ou o cansaço os fizesse deliberar que iriam ceder e morrer no mar.

Ou foram devorados por tubarões.

Não se compreende como pescadores assim de alto-mar, com vistas a uma tempestade ou qualquer tormenta, não se invistam logo de coletes salva-vidas.

Não sei se é possível proibi-los de não usarem coletes salva-vidas, mas isso devia ser uma providência indispensável das autoridades da Marinha. Deve ser essa a regra, mas é descumprida.

Um naufrágio ou um terremoto, duas tragédias determinadas pela ressaca da natureza, sempre fazem vítimas por onde passam.

E mais torturadas são essas vítimas quanto maior o tempo que passarem perdidas no mar ou soterradas sob os prédios ou terrenos.

Perto do que ocorre com essas pessoas, esses pequenos incômodos físicos que tanto nos afligem no cotidiano são um refrigério.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
O drama na região submersa



Chuvas inundam Pelotas e cidades vizinhas, matam um agricultor e desabrigam centenas
Enchente que fez estragos em toda a região sul castigou Pelotas com mais intensidade. Na manhã deste sábado, equipes de resgate ainda trabalhavam para auxiliar os moradores dos bairros mais atingidos (foto Adriana Franciosi/ZH)

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Favela e informalidade

"Não há dúvida de que, assim como a favela é o berço do traficante, a economia informal é a creche da corrupção, pública e privada"

Favela pode ter muitos significados. Um dos mais interessantes diz respeito à reação das pessoas e empresas diante de dificuldades, freqüentemente impostas pelo próprio poder público, para o desempenho de suas atividades, inclusive a de morar. Pode-se dizer, por exemplo, que nosso sistema tributário, bem como a legislação trabalhista, "faveliza" a economia, pois condena empresas e pessoas a permanecer à margem das regras. A "favela", nessa acepção, é a expressão espacial da "economia informal", que adquire, na Rocinha como em qualquer parte do Brasil, uma feição concreta, a de uma "cidade precária", sem leis nem direitos, sobreposta à cidade "formal".

A economia informal e a favela se confundem, ambas desenvolvendo uma relação de coexistência pacífica com a política, no âmbito da qual se formam certas reciprocidades. Sucessivas gerações de políticos, cariocas em especial, foram tornando a favela intocável, reforçando a identidade dessas "comunidades", as quais, tal como as empresas informais, passam a não funcionar pelas mesmas regras que valem para o resto da cidade. A começar pelo direito de propriedade, que permanece mal definido, e de propósito, para que o político "proteja" as comunidades. Estas, dessa forma, se vêem cercadas de um "muro" invisível, que impede a entrada do Estado, com seus atestados, impostos, posturas, serviços, inclusive o de polícia.

Esse "muro", todavia, é instável, como a dualidade entre o formal e o informal, e tende à degeneração. A favela e a cidade se repelem, embora dependam uma da outra. Na cidade há desconforto, para não falar de tentações, em perceber-se que na favela, ou na "informalidade", tudo é permitido, não há tributos, encargos trabalhistas, restrições ambientais, nada disso.

Na favela, por outro lado, a ausência de Estado resulta na ascensão de uma liderança "orgânica", capaz de exercer o chamado poder de polícia. Ou seja, em razão do "muro", cria-se a situação ideal para o crime organizado "governar", cooptar e transformar essas comunidades em reféns ou apêndices de atividades ilegais porém muito rentáveis.

Na economia informal o processo é semelhante, também degenerativo, embora não tenha, por ora, no Brasil, alcançado os extremos a que chegou na Rússia, por exemplo. O sujeito pode começar meio inocente, abandonando certas regrinhas tributárias e trabalhistas, mas, com o crescimento do "caixa dois", aparece a necessidade de "lavar" dinheiro, ou de estreitar relacionamentos com fornecedores "ilegais", contrabandistas ou receptadores, e transportadores ou distribuidores que podem se organizar como quadrilhas, e que garantem vantagens comerciais, e assim, aos pouquinhos, a empresa vai se enredando com toda sorte de criminosos. Na Rússia, formaram-se gigantescos "grupos empresariais", associados a "máfias", que se embrenham nos mais variados setores onde, por motivos variados, prevalece a informalidade.

Na favela, o sujeito não investe no barraco porque a posse é duvidosa, daí o gasto em eletrodomésticos, antenas parabólicas e aparelhos de DVD, que se amontoam em barracos de péssima aparência. Nas empresas "informais", a "propriedade" também é controversa, em razão de contingências tributárias e inadimplências, e o empresário investe fora da empresa, que também tem péssima aparência quando observada através de sua contabilidade formal.

Não há dúvida de que, assim como a favela é o berço do traficante, a economia informal é a creche da corrupção, pública e privada. Sendo assim, é exasperante perceber que o poder público não reconhece a favela, ou a economia informal, como problema. Episodicamente reage com violência diante do que considera abuso ou provocação, o que apenas agrava as coisas. A atitude é semelhante à que prevalecia no tempo em que se achava que a inflação não era problema, e, quando se entendeu contrariamente, a primeira reação foi violenta e ineficaz: congelamentos e confiscos. Demoramos a compreender a abrangência do problema e a extensão do esforço intelectual e da mobilização para erradicá-lo. O mesmo deve ocorrer com a informalidade.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com ­ www.gfranco.com.br)

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Ponto de vista: Stephen Kanitz
Procuro um avalista

"Se você pretende ser avalista de alguém, lembre-se de que poderá perder o amigo, seus bens e também sua esposa"

De vez em quando um amigo que mal me cumprimenta, ou um colega de trabalho que nunca me ajudou, me pede que seja seu avalista. Provavelmente, ele raciocina que perguntar não ofende, só depende da cara-de-pau de cada um. Por que os bancos insistem em obter um aval de um amigo do cliente? No fundo, o que os bancos querem é reduzir o risco da operação de crédito, arrolando também os bens pessoais do avalista como garantia.

Mas que interesse tem o avalista em colocar seus bens em risco sem nada receber em troca? O avalista entra gratuitamente nesse contrato como um voluntário, um altruísta, sem receber uma remuneração pelo serviço que presta ao banco. O avalista só entra com obrigações e não tem nenhum benefício, só chateação. O banco ficará obviamente feliz com o empréstimo que você viabilizou.

Uma técnica que eu uso nessas ocasiões, e que aprendi com um verdadeiro amigo, é ficar indignado com os juros exorbitantes cobrados pelo banco e oferecer o mesmo empréstimo, sem cobrar juros.

Seu amigo ou parente vai pular de alegria, e você coloca uma única e singela imposição: que o gerente ou o presidente do banco avalize a operação. Não é um pedido exorbitante, e nenhum gerente de banco poderá recusar, porque é exatamente o mesmo pedido que eles estão fazendo. Seria hipocrisia recusar.

Ilustração Ale Setti

Ninguém nunca voltou com meu contrato assinado, não sei por quê. Mas existe um efeito socialmente muito negativo nessa prática do aval, para o qual infelizmente sociólogos e antropólogos nunca atentaram. Ao pedir um aval de um parente ou amigo, o sistema financeiro usa para seu próprio conforto creditício os laços familiares e de amizade longamente costurados pela sociedade brasileira.

Que tio pode recusar um aval a um sobrinho? Que irmão pode recusar dar um aval a outro irmão necessitado? É uma saia-justa complicada. Se você negar o pedido, deixará o parente magoado e a família ressentida. Ninguém obviamente avalia corretamente os riscos que você está correndo, só o banco.

Os laços de amizade e confiança que o próprio banco nunca sedimentou com seus clientes são substituídos pelos laços de amizade e confiança que seus familiares e amigos criaram com você. Aliás, se não tem o dinheiro para cobrir o aval, você nunca deveria tê-lo dado. Caso contrário o banco poderá vender seus bens oferecidos em garantia. Dar um aval ou emprestar o mesmo montante é financeiramente a mesma coisa, porque um aval significa dar o dinheiro ao banco se seu amigo ou parente virar caloteiro.

Já vi mais de vinte famílias ser desestruturadas pelo simples fato de um parente não ter pago um empréstimo e o avalista ter sido processado, prejudicando duplamente a família. Há pessoas hoje pobres e destituídas que cometeram o pequeno erro de dar um único aval. Muitos eram diretores e empregados de empresas, obrigados a dar um aval a um banco que financiava a empresa, senão perderiam o emprego.

Nenhum país dará certo se não puder criar um clima de confiança mútua entre seus cidadãos. Nossa inflação e as constantes mudanças das regras e dos planos econômicos dilapidaram, e muito, nossos laços de confiança. Colocaram-se várias vezes empregados contra patrões, fornecedores versus clientes, inquilinos versus senhorios, alunos versus professores, por causa de planos econômicos mal estruturados, que aumentaram a desconfiança entre nós, por nenhuma culpa das partes.

Para piorar ainda mais, o novo Código Civil exige que a esposa assine também o aval, criando discórdia entre marido e mulher, e nem toda esposa tem como recusar. Mais sensatas que os homens, elas jamais aceitariam dar um aval a um amigo do marido.

O novo Código Civil, em vez de aumentar os laços de confiança da sociedade, aumentou os pontos de atrito entre marido e mulher. O correto seria restringir o uso do aval, e não tornar a esposa co-solidária da operação financeira que em nada a beneficia. Mulheres, portanto, prestem muita atenção. Lembrem-se de que, caso o amigo do seu marido se torne inadimplente, você perderá seus bens e os de seus filhos. E você, que pretende ser avalista, lembre-se de que poderá perder seu amigo, seus bens e também sua esposa. Dito isso, alguém poderia me dar um aval?

Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)

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Diogo Mainardi
Quero entrevistar o Lula

"Duda Mendonça prometeu me ajudar.
Agradeci e perguntei: 'O presidente apresentou como novas ambulâncias repintadas. Ele não é como uma ambulância velha, repintada pelo senhor?' "

Acordei invocado. Peguei o telefone e liguei para o Palácio do Planalto.

¿ Quero entrevistar o Lula.

A telefonista transferiu a chamada para a Secretaria de Imprensa do presidente. O chefe do departamento, Ricardo Kotscho, informou-me que iria encaminhar o pedido de entrevista ao responsável pelo agendamento, acrescentando, de forma desalentadora, que uma penca de jornalistas de todas as nacionalidades estava à minha frente.

Como eu continuava invocado, e não queria saber de esperar meses e meses, liguei para o Ratinho, que recentemente conseguiu furar a fila de jornalistas e entrevistar Lula na Granja do Torto, com direito a churrasco e recital de sanfona. Ratinho se comprometeu a interceder em meu favor, aconselhando o presidente, seu amigo, a me receber prontamente. Ratinho me assegurou também que eu ficaria encantado com Lula, porque sua equipe é uma porcaria, mas ele é uma pessoa da melhor qualidade, tanto que foi o único que se preocupou em distribuir dentaduras aos pobres.

O empenho de Ratinho não aplacou meu ímpeto. Resolvi ligar para Duda Mendonça. Sua secretária despejou sobre mim uma gravação de Caetano Veloso cantando Nirvana. Fiquei ainda mais invocado do que antes. Duda Mendonça explicou que raramente se encontra com Lula, mas pretende vê-lo na semana que vem, para mostrar-lhe sua última campanha publicitária, aquela que compara dados de doze meses de Fernando Henrique com os de catorze de Lula. Duda Mendonça prometeu me ajudar a conseguir a entrevista. Agradeci e perguntei:

¿ O presidente apresentou como novas cinco ambulâncias que tinham sete anos de uso, mas foram repintadas para a ocasião. Ele não é como uma ambulância velha, repintada pelo senhor?

Modestamente, Duda Mendonça respondeu que não. Ele foi o maior responsável pela eleição de Lula. O destino o puniu infligindo-lhe a contratação de Luis Favre, o marido da prefeita Marta Suplicy.

A seguir, pensei em telefonar para José Dirceu, mas li que ele não apita mais nada no governo. Liguei então para Frei Betto, um dos melhores amigos de Lula. Ele não me atendeu. Voltei a ligar no dia seguinte. Ele estava em reunião. Liguei no outro dia. Ele continuava em reunião.

Cada hora mais invocado, procurei na internet o número da Secretaria de Comunicação e liguei para Luiz Gushiken. Como ele não estava, falei com um de seus assessores, que me recomendou ligar para o todo-poderoso secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho. Antes de trabalhar com Lula, Gilberto Carvalho era o principal colaborador do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel. O irmão de Celso Daniel, em depoimento à Justiça, acusou Gilberto Carvalho de conhecer os esquemas de propina da prefeitura e de ter entregue, pessoalmente, o dinheiro arrecadado a José Dirceu. Ocorreu-me que, além de pedir uma entrevista, valeria a pena aproveitar o telefonema para ouvir a versão de Gilberto Carvalho sobre o caso, mas ele preferiu não retornar minhas ligações.

No futuro, quando eu acordar invocado, acho mais fácil falar com o Bush.

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Final feliz a 410 apaixonados

Comlurb promove em Campo Grande cerimônia de casamento para funcionários que não tinham dinheiro para selar a união

Patrícia Melo e Souza


Adilson e Yolis estão juntos há 25 anos e realizaram um sonho ontem

Ao som da música Eu sei que vou te amar, 205 casais disseram sim ao amor no casamento coletivo promovido pela Comlurb, no Complexo Esportivo Miécimo da Silva, em Campo Grande. A decisão de promover a união legal e religiosa surgiu depois de pesquisa realizada pela companhia na casa de 7.500 funcionários. Muitos testemunharam que, apesar de dividir o cobertor nas noites de frio, não casavam por dificuldades financeiras. Ao fim da cerimônia e da chuva de arroz, cada participante ganhou fatia de bolo, copo de refrigerante e uma foto.

Com direito a bispo, pastor, juíza de paz e coral, o evento selou a relação de casais experientes, como Yolis da Silva Pinheiro, 70 anos, dona-de-casa, e Adilson Pinheiro, 68, auxiliar de serviços gerais. Ele lembra que ela resistiu aos galanteios, que começaram há 25 anos, durante o Carnaval, em Pilares. Tive que fazer jogo duro, entrega Adilson. A espera pelo dia mágico valeu a pena. O casal foi aplaudido com vigor pelos mil convidados presentes à cerimônia, com direito a acenos.

Para a realização do sonho ao custo de R$ 92 cada casal, a Comlurb montou uma grande estrutura, com 60 cabeleireiros, 25 manicures e até área de lazer para crianças.

Casamento acontecerá todo ano, atendendo a pedidos

Na preparação das noivas, alunos do curso de cabeleireiros do Senac gastaram 24 latas de spray com laquê e 1.400 grampos. Todas estavam muito tensas! Afinal, é um dia especial, disse Rogério Demétrio, coordenador da equipe.

Rosália Pereira, 26 anos, gari, contou que a cerimônia veio como um alívio: Há sete anos morava com meu marido, e a família cobrava. Padrinho de um dos casais, Jadilson Oliveira da Silva, 35, estava emocionado. Só tinha visto algo parecido na televisão, explicou.

Segundo a gerente de Comunicação Corporativa, Queila Werner, todo ano o evento se repetirá. Já redigimos manual dos noivos para os funcionários e criamos um teleatendimento, afirmou.

Voces viram só que lindo. Se você não passou ainda por isso, com certeza chegará a este dia e ai my friend é essa emoção retratada um pouco aí acima.

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Aposta no gringo
Sem as estrelas, Geninho joga suas fichas em Petkovic, que reestréia hoje no Vasco, para vencer o Grêmio. Torcida cobra garra do time

Carlos Monteiro

Nenhum torcedor está satisfeito com a pífia campanha do Vasco no Brasileiro, que conquistou apenas um ponto, dos 12 disputados até agora. Mas todos também entendem que o momento é de união. Foi isso que o técnico Geninho disse ao grupo de torcedores da Força Jovem, que teve uma conversa com e os jogadores, durante o treino de ontem. Eles pediram garra e determinação na partida de hoje com o Grêmio, às 18h, em São Januário.

Embora ainda não possa contar com os experientes Alex Alves, nove quilos acima do peso, Marcelinho, Róbson Luiz e Beto, que se recuperam de lesão, o técnico já elegeu seu novo líder: Petkovic. O sérvio deixou São Januário, no ano passado, e hoje faz sua reestréia com a camisa vascaína. E o apoiador não foge do desafio.

A responsabilidade existe todos os dias e aumenta quando a equipe não vence. Espero reestrear bem, analisou Pet, que durante o coletivo, além da boa movimentação, orientou os companheiros e até gritou com alguns deles.

A disposição do apoiador chegou a empolgar Geninho, que andava cabisbaixo com a péssima campanha do time no Campeonato Brasileiro. É uma característica do Petkovic. Ele fala muito. É um jogador experiente e precisa fazer isso mesmo, uma vez que temos um grupo bem jovem, aprovou o treinador vascaíno.

Sobre o comportamento da torcida, que se reuniu com os jogadores, ontem, durante o treino, Geninho não viu nada de mais. Também cobrado pelos torcedores, o treinador aproveitou para dar o seu recado: Eles fizeram uma cobrança pacífica e de forma ordeira. Isso só não pode é virar rotina. Mas também falei a eles que precisamos de incentivo. Afinal de contas, apoiar time invicto é mole. Nas horas difíceis é que todos precisam estar juntos.

Além da liderança de Pet, Geninho terá à disposição a sua zaga titular, formada por Wescley e Henrique. Cadu, que não aprovou no ataque, ganhou nova chance na equipe, só que desta vez no meio-campo.

Se o Vasco deposita suas esperanças na liderança e talento de Petkovic, o Grêmio aposta no desequilíbrio emocional do time vascaíno, que a sete jogos não vence. A última vitória foi no dia 4 de abril, 2 a 1 sobre o Flu, na final da Taça Rio.

O Vasco vem passando por uma situação difícil e, certamente, seus jogadores estão sendo pressionados. Mas, independentemente disso, trata-se de uma grande equipe, analisou o cabeça-de-área Cocito.

Já o zagueiro Claudiomiro quer vigilância redobrada sobre Pet. É um jogador habilidoso, que bate bem na bola e também é exímio cobrador de faltas. Devemos ter muita atenção com ele, recomenda.

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O século da emoção
Desde o seu início as duas rodas representaram a irreverência e o caminho alternativo
Eduardo Sodré



Duas rodas, um motor. Simples? A história da motocicleta mostra que não é bem assim. O primeiro conceito de um veículo assim foi apresentado na França, em 1790 (século XVIII), pelo Conde de Sivrac. Era o celerífero, com duas rodas iguais unidas por uma tábua, que servia como assento. Em 1817 foi instalado um sistema (criado pelo Barão Draisvon Sauerbronn) que permitia controlar a direção do veículo e ainda lhe deu um novo nome: Draisene. O selim só viria 50 anos depois, junto com a transmissão por corrente. Essas foram as primeiras bicicletas.

Com a Revolução Industrial, começa a corrida para colocar motores entre as duas rodas. Houve modelos desenvolvidos nos Estados Unidos e na França movidos a vapor (anos 1860), como as locomotivas e navios. Aplicados em veículos pequenos, era clara a dificuldade em manter alguma harmonia. Sendo assim, o alemão Gotlieb Daimler (ele mesmo, um dos pioneiros do automóvel) começou a pensar em propulsores menores, de combustão interna. Em 1885, este inventor registra a patente de um biciclo motorizado. A potência de 0,5 cv permitia uma velocidade menor do que 10 km/h, mas o objetivo havia sido alcançado.

Os alemães continuavam a mandar. Em 1894, Heirich Hildebrand e Alois Wolfmülller apresentaram um motociclo de 1.500 e 2cv de potência. Problemas mecânicos e dívidas encerraram as vendas do modelo, em 1897, mesmo ano em que surge a marca italiana Bianchi. Outras fábricas eram a francesa Bougery e os ingleses da Excelsior. Nos Estados Unidos, a pioneira chamava-se Orient. E coube aos bretões a organização da primeira competição, a Motorcycle Scrambles, em 1897.

Os grandes fabricantes de hoje surgiram ao longo do século XX. A Harley Davidson iniciou sua produção em 1903. Os japoneses entraram no mercado mais tarde: a Honda apresentou seu primeiro modelo em 1948. Quatro anos depois foi a vez da Suzuki. Já a Yamaha nasceu em 1955. Mesmo marcas que hoje não existem mais deixaram suas contribuições, como a alemã NSU, que desenvolveu a supensão traseira monochoque (1914) e a norte-americana Indian, que na mesma época oferecia partida elétrica.

Ainda nos primeiros anos do século XX, as primeiras motocicletas importadas chegaram ao Brasil. A fabricação nacional só começou em 1951, com a pioneira Monark com motor inglês BSA de 125 cc. De lá pra cá surgiram os mitos, como as ainda importadas Yamaha RD 350 (a Viúva Negra) e Honda CB 750 (Sete Galo) e a nacionalíssima e gigante Amazonas com motor Volkswagen de 1.600 cc. E enquanto houver gasolina, a história continua.

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Celso Loureiro Chaves
08/05/2004


Protocolos

Nossas platéias acostumaram-se a unir o ato de aplaudir com o ato de levantar do assento. Perdeu-se todo o significado de deferência que o aplaudir em pé uma vez teve. Hoje o aplaudir em pé é compreendido erroneamente como tarefa obrigatória de qualquer platéia, mesmo diante das coisas mais imbecis, os concertos mais idiotas, os solistas mais incompetentes.

Foi-se até aquele período intermediário no qual levantar do assento significava colocar-se a postos para correr à parada de ônibus mais próxima. Agora se trata de um protocolo de obrigação. Não é um erro só nosso. Também em Nova York, supostamente lugar de gente sofisticada, o fenônemo da mola no assento se repete com a mesma intensidade e com a mesma distribuição indiscriminada de reconhecimentos a quem quer que seja. Mesmo quando o que se ouviu não ultrapassou a inanição artística, não foi além da melancolia do esforço desperdiçado.

Outro dia o crítico Frank Rich do New York Times cogitava, diante deste fenômeno, se ainda haveria algo que fizesse com que espectadores ficassem colados em seus assentos ao final da ação sem sair pulando diretamente para o aplauso em pé. Diz ele que encontrou: o musical Assassinos, de Stephen Sondheim e John Weidman, recém-estreado. Para isso, no entanto, foi preciso que o musical terminasse com os atores apontando suas armas para a platéia... e disparando.

As platéias entusiasmam-se mas petrificam-se, aterrorizadas a ponto de não abandonarem seus assentos até que o último ator tenha sumido de vista. Não precisamos tal rigor ou tal literalidade, mas a verdade é que os critérios devem ser recuperados a partir do ponto em que se perderam nos protocolos palco/platéia. Pois se a reação ao final de cada espetáculo é sempre a mesma, então tudo é rigorosamente idêntico, não há parâmetros de comparação e crítica ou, pior, não há mais necessidade para a comparação e a crítica. E nenhum esforço vale a pena.

Numa sala de concertos, quando se aplaude alguma coisa de pé? O protocolo é claro: nunca. Sim, existem protocolos que nos unem a todos na intimidade de uma sala de concertos. Entre eles está a regra não escrita que indica o aplauso em pé como algo totalmente diferente do aplauso sentado. Ora, o compositor lutou séculos a fio para ter sua música apreciada por platéias que se dignassem a sentar e vem agora este afã de levantar-se! É verdade que protocolos adaptam-se: num concerto de rock, por exemplo, é impensável assistir alguma coisa que não seja na ponta dos pés, balançando os braços para o alto. Ninguém discute o porquê. A própria música indica, pede, exige. Na sala de concertos, o sentar-se é uma conquista árdua dos compositores e, como tal, deve ser respeitada.

O aplaudir em pé está reservado para os momentos profundamente emocionantes em que algo tenha falado diretamente à boca do estômago. São raros, estes momentos. É por isso que o aplaudir em pé não deveria ser nunca um protocolo vazio, uma obrigação. Ele é uma deferência, uma fraternidade verdadeiramente beethoveniana estabelecida entre platéia e palco. (Há um estágio além do aplaudir em pé, mas prefiro deixá-lo de lado, por temer pela saúde do piso de nossos auditórios se também isto se tornasse prática contínua.)

E existem protocolos para músicos? Sim, e como! Para compositores, o limite é estabelecido muito simplemente, pois é recomendável evitar qualquer demanda técnica que ultrapasse instrumentos ou instrumentistas causando-lhes dano físico. Há outros protocolos mais sutis, mas desses um bom professor de composição e a tradição acumulada haverão de dar conta. E para os instrumentistas, há protocolos? Há, e também em boa medida, visíveis e invisíveis, audíveis e inaudíveis.

O limite inferior, no entanto, é facilmente estabelecido pelas simples regras da boa educação que valem para todos. Quando estas se quebram, instalam-se o desconforto e o caos. Como aconteceu com certa pianista que cá esteve para tocar Beethoven e começou destratando maestro e orquestra durante os ensaios, prosseguiu com seu mau humor auto-indulgente durante os concertos e ultrapassou a barreira invisível do palco para lançar olhares fulminantes até sobre espectadores que, coitados, queriam apenas desenrolar suas balinhas de menta.

Neste caso, a falta de educação da pianista alcançou a histeria e nos deixou a todos cogitando se não seria caso para uma solução medicamentosa. E que fossem urgentes e fortes os medicamentos, antes que a pianista se atracasse a dentadas em algum músico desavisado.

celso.chaves@zerohora.com.br

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Lia Luft
08/05/2004


Eu não estou indo embora

Um jornal pode ser um pedaço da casa da gente: a Zero Hora tem sido isso para mim desde janeiro de 2003, e olhem que minha casa é algo que eu valorizo extraordinariamente.

Quando Marcelo Rech me telefonou em fins de dezembro de 2002 me chamando para escrever nos sábados porque o Verissimo estava reduzindo suas colaborações em vários jornais, hesitei: há muitos anos eu não fazia crônica. Romance e poesia eram uns jeitos de me esconder, afinal livro é mais remoto, o leitor não encontra a gente tão fácil assim.

Mas aceitei porque o convite era honroso, carinhoso e generoso. Gostei do novo trabalho, gosto de desafios em geral. Logo me senti tão em casa que nem me imaginava mais em outro lugar senão, aos sábados, aqui mesmo. Os telefonemas, os e-mails, eram novos laços de amizade. Alguns xingamentos, quase do tipo do "vai pras panelas" que algum motorista grosso grita lá do alto da sua arrogância em pleno século vinte e um; muitos argumentos inteligentes que me fizeram rever meus próprios enganos; várias correções de que eu bem que estava precisando; alguns enfrentamentos divertidos; em geral muito estímulo, de que a gente carece porque a coisa não é simples.

Estar entre pessoas a quem eu admirava e lia há muitos anos, ou mais recentemente (porque muitos deste jornal são tão mais moços do que eu), me deu uma sensação de pertença: que bom, eu faço parte da Casa. Espero fazer parte dela para sempre, ainda que algumas coisas mudem, aqui comigo.

Pois hoje estou dando a todos os parabéns pelos 40 anos comemorados de tantos jeitos, inclusive com a bela exposição que acontece na Casa de Cultura Mario Quintana, organizada pelo marchand Renato Rosa, com alguns dos nomes mais importantes das artes plásticas gaúchas. E que a gente faça mais 40, e mais 40, e mais.

Mas ao mesmo tempo estou dando uma espécie de "tchau", muito sem graça. Meio inesperado, embora eu e mais alguns desconfiássemos. Depois de um namorico, fui convidada pela Veja para ser sua colaboradora efetiva. Sua primeira colunista mulher. E a revista é ciumenta: exclusividade total, exigência inegociável apesar de todas as minhas mais sedutoras tentativas de abrandamento.

O desafio é bonito: mais de 1 milhão de leitores em todo o país, para os quais de certa forma estarei representando este meu Estado (espero que bem). É por outro lado muito assustador: a cara na janela diante de um mar de gente, e não é gente do meu terreiro, meu território, meu sotaque, mas vá lá: covardia nunca foi um de meus defeitos.

Além do mais, "nunca diga nunca" é um bom pensamento. Quem sabe um dia a regra se modifica, quem sabe quanta coisa pode suceder. O certo é que todas as manhãs, nesta casa da Chácara das Pedras, vão estar, na telinha, o Bom Dia Rio Grande, e na mesa o café fumegante e as páginas abertas da minha Zero Hora: de onde, eu sei, nunca terei saído de verdade.

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Paulo Sant'ana
08/05/2004


Jogadores compulsivos

Foi impressionante como as multidões acorreram ontem e anteontem aos bingos.

Houve cenas comoventes, pessoas colocando seu dinheiro nas maquininhas para iniciar suas apostas e derramando lágrimas, como se estivessem se reencontrando com um grande amor, depois de uma separação cruciante de 76 dias.

As pessoas correram para os bingos parecendo rebanhos nômades à procura de pastagens ou água.

Estavam famintas de jogo.

Eu não sabia, mas existe em Porto Alegre um grupo de auto-ajuda denominado Jogadores Anônimos.

O relações-públicas deste grupo me diz que são excelentes os resultados obtidos na cura de pessoas que são dominadas pelo jogo compulsivo.

O próprio relações-públicas me expõe a sua experiência. Ele estava vendo sua vida completamente esfacelada pelo vício do jogo. Procurou um psiquiatra, mas foi em vão, continuava jogando e cada vez mais se afundando em dívidas.

Até que o psiquiatra o aconselhou a buscar ajuda com os Jogadores Anônimos. Isso foi no ano de 2001.

Pois hoje ele se orgulha de ter-se tornado completamente abstêmio de jogo, desde janeiro de 2002 que não joga mais.

Declarou-me que todas as imensas dívidas que contraiu por causa do jogo já estão quase pagas (e pareciam a ele impagáveis antes de se socorrer dos Jogadores Anônimos).

Os Jogadores Anônimos oferecem um programa de regeneração que se constituiu em 12 pontos de recuperação. Os pacientes se submetem a esse método e vão assim ganhando forças para resistir ao jogo compulsivo.

Mas o interessante é o rol de obsessões que acometem os jogadores patológicos, isto é, aqueles que não passam um dia sequer sem jogar e vão com isso dilacerando suas vidas e cada vez mais se afundando em dívidas, ameaçando ou perdendo inteiramente o seu patrimônio.

Lá eles tratam de viciados no bingo, nas maquininhas e no carteado. Também assistem os que se obcecam no jogo do bicho e em todas as loterias oferecidas pela Caixa Econômica Federal.

São inúmeros os viciados em turfe que vão parar lá. E até os viciados no jogo do osso.

E o mais surpreendente: recorrem aos Jogadores Anônimos e recebem tratamento (é inacreditável) os viciados em bolsas de valores e mercado de opções.

Quem dizia que bolsa de valores é um jogo, é uma loteria, ganha agora toda a razão. Quem tem compulsão por compra e venda de ações e joga com insistência doentia na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), de tal sorte que se arruína financeiramente, merece tratamento nos Jogadores Anônimos.

Agora mesmo o presidente Lula está estudando medidas para reagir à reabertura dos bingos e maquininhas pelo Senado.

O governo quer acabar com o jogo de qualquer maneira. Espera-se que não cometa o excesso de acabar também com a Bolsa de Valores.

Em tempo: o endereço dos Jogadores Anônimos é Avenida Independência 993, prédio da Cruz Vermelha. Informações no telefone 9988-8423. O tratamento para jogadores compulsivos é gratuito.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Ricardo Silvestrin
08/05/2004


E/ou

Achei na Internet muita coisa sobre os Monkees. Hey, hey, The Monkees era tema daquela série de TV muito divertida lá do final dos anos 60. Passava aqui por 70 e poucos. Depois voltou na Retrô TV, do Multishow.

Formavam uma banda tipo Beatles, e as histórias do seriado giravam em torno das aventuras musicais deles. Tinha um nonsense e um humor típico dos clipes dos Beatles. Tem meio o clima da banda Cachorro Grande de hoje. Eles cantavam no seriado. Suas músicas foram fazendo cada vez mais sucesso. Descobri há pouco que I'm a Believer era um hit deles. Conhecia apenas nas versões do Smash Mouth e do Lulu Santos: "Mas agora eu sei / que não acredito / me cansei de ter ilusão / agora eu sei que só acredito / no que já está na minha mão". Os caras não eram músicos profissionais. Eram apenas atores.

Mas a repetição das suas canções na TV, o bom humor dos personagens e mesmo o bom gosto dos arranjos fizeram com que o sucesso televisivo virasse um fenômeno de vendas também musical. Começaram então as críticas, as cobranças e até uma crise de identidade no grupo. Eles eram músicos ou eram atores? Mas aí é que está o problema, nessas duas letrinhas fechadas e carrancudas lado a lado: ou. Como se não pudessem ser músicos e atores. Começaram atores e viraram atores-músicos.

Certamente eram melhores atores do que músicos, mas suas canções conseguiram ser boas canções. O Verissimo é escritor ou saxofonista? Muita gente vai ao show da banda dele e diz que ele escreve melhor do que toca. Claro, quem escreve melhor do que o Verissimo? O termo de comparação com o seu sax passa a ser o seu texto. Para ter o mesmo nível do texto só se ele fosse o John Coltrane! E Verissimo ainda desenha. É desenhista, escritor ou saxofonista? Bota um "e" no lugar do "ou" e tudo se resolve.

Chico Buarque começa a equilibrar a percepção de compositor e escritor. Por um lado, em virtude de ter diminuído em muito os lançamentos de CD com repertório inédito. Mas a sua produção no campo da canção popular é ainda superior à de qualquer outro compositor/letrista brasileiro. Já na literatura, o buraco é bem mais embaixo.Para ombrear com toda uma turma de romancistas da pesada, tanto brasileiros quanto do resto do mundo, um escritor tem que comer muito feijão.

O Gerbase é cineasta, roqueiro e contista. Mesmo que ele tenha muito mais cara de cineasta! A comparação vem mais forte quando o sujeito desempenha em vários campos da arte. Já quando ele tem duas profissões de campos diferentes, adoram encher a boca e dizer: o médico e escritor, o escritor e publicitário... A mim, isso sempre soa meio estranho. Como se ser escritor não fosse o suficiente.

Já no consultório ninguém diz o escritor e médico. O dentista e tocador de berimbau! Aqui nem o "e" nem o "ou" servem. Parece mais adequado chamar o indivíduo de escritor nos contextos literários e de sei lá o que no seu outro contexto profissional. De cabeleireiro no salão e de ator no palco, como é o caso do Elison Couto, vencedor do último prêmio Açorianos de melhor ator.

ricardo.silvestrin@zerohora.com.br

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Reportagem Especial
Emergência no sul do RS



Chuvas inundam Pelotas e cidades vizinhas, matam um agricultor e desabrigam centenas
A força das águas do Arroio Fragata estourou a cabeceira de ponte na BR-116, entre Pelotas e Capão do Leão, e isolou seis cidades da Região Sul (foto Nauro Júnior/ZH)


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Sexta-feira, Maio 07, 2004




Especial
Pra cima, Brasil
Autoconfiança, humor e fé fazem o brasileiro dar a volta por cima e não perder a esperança de que é possível varrer o baixo-astral que teima em se abater sobre o País

Ricardo Miranda
Colaboraram: Ana Carvalho e Chico Silva

Desencantado com o governo que elegeu? Pisando em ovos para não perder o emprego? Com medo de sair às ruas e ser assaltado? Seu time de futebol só dá desgosto? Nem mesmo o quadrante difícil da vida nacional, com más notícias assombrando diariamente o noticiário, tira a esperança desse povo sobrevivente. O brasileiro não é melancólico e fatalista como os argentinos, tira otimismo de onde menos se espera, explica a psicóloga carioca Beth Valentim, autora do best seller Essa tal felicidade.

Mestre em psicologia social, Beth acompanha em seu consultório e também em empresas nas quais atua como consultora a luta de todos para se livrarem do baixo-astral. É preciso acordar todas as manhãs e acreditar que as coisas boas vão acontecer, recomenda Beth, que chama a esse esforço de musculação emocional. Ana Beatriz Barbosa Silva, diretora médica do Núcleo de Medicina do Comportamento (Napades), tem atendido pacientes desgostosos com a vida, com o País, com o mundo, o que ela chama de stress coletivo. As más notícias vão pingando até transbordar, conta a autora do livro Mentes e manias.

O brasileiro, segundo ela, está aprendendo a mudar suas expectativas. Em vez de depender de sonhos coletivos, de utopias, de salvadores da pátria, o brasileiro decidiu apostar mais em si, analisa. Para o antropólogo Gilberto Velho, a mobilização social pode ser a chave para superar o clima de desilusão. A baixa auto-estima nacional, lembra ele, se reflete num desencanto com uma de nossas maiores conquistas, a democracia.

Sinal disso é o recém-divulgado estudo das Nações Unidas, mostrando que 54% dos latino-americanos não se importariam em viver numa ditadura, desde que acompanhada de um cenário econômico melhor. Quando o tema é a adesão da população à democracia, o Brasil ocupa a 15ª posição entre os 18 países da América Latina pesquisados.

Um exemplo de volta por cima é Luciana Novaes. Na quarta-feira 5, a jovem de 20 anos, tetraplégica e respirando com o auxílio de aparelhos, completou um ano internada na UTI de um hospital no Rio de Janeiro. Há um ano, a estudante foi atingida por uma bala perdida no campus da Universidade Estácio de Sá. Quem não conhece a garra e o bom humor de Luciana pode se surpreender, mas ela tem muito o que comemorar.

Comunicando-se durante quase um ano piscando os olhos ou movendo os lábios, ela reconstruiu há algumas semanas sua ponte com o mundo. Com a ajuda de fisioterapeutas, reaprendeu a falar mesmo usando o respirador artificial. Vítima da violência, Luciana decidiu reagir engajando-se em uma campanha pelo desarmamento. Junto com ela estão os pais de Gabriela Prado Maia Ribeiro, morta aos 14 anos por uma bala perdida em uma estação do metrô, e de Camila Magalhães Lima, atingida no pescoço também por uma bala perdida em 1998, hoje com 17 anos. Não adianta ficar sentada chorando, nem parada esperando o governo fazer alguma coisa. Não posso sair daqui, mas posso fazer a diferença, mesmo em cima da cama, ensina Luciana.

Passar horas enfiado num carro preso em intermináveis congestionamentos, escapando das enchentes e torcendo para não ser o assaltado da vez vive o supervisor de vendas de uma grande multinacional Luigi di Costanzo Filho, 40 anos. Só nos últimos meses foi assaltado duas vezes: por um pivete na praça da República, centro da cidade, e por um jovem no Cambuci, também na região central. No último, estava em companhia da mulher e dos filhos. Foram-se R$ 100 em cada roubo, um relógio e uma tênue sensação de tranquilidade. Não paro mais em sinal. Outro dia tomei até uma multa por furar um. Mas não quero nem saber. Minha vida vale mais do que uma infração, diz Cortanzo Filho.

Apesar dos sustos, ele ainda acredita que os filhos possam viver num país melhor e mais justo. A solução, avalia, passa por reformas, como a tributária e a trabalhista. Só com mais receita e menos encargos o País terá condições de crescer e gerar mais renda, afirma. Enquanto as reformas não vêm, o jeito é tocar a vida e tentar fugir dos buracos, das enchentes, dos assaltantes. Sem perder o humor.

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EUA
O pornô virou filme de terror

Contaminação de ator americano por vírus HIV, supostamente por uma colega brasileira, paralisa a indústria pornográfica americana

Osmar Freitas Jr. Nova York (EUA)

Quem acredita que um único indivíduo não seja capaz de afetar o processo de globalização deveria conhecer a brasileira Bianca de Biaggi. Aos 22 anos, ela interrompeu, desde o dia 12 de abril, uma indústria americana que fatura anualmente estimados US$ 10 bilhões. A moça, que tem um físico que a faria passar por uma menina de 17 anos, é atriz de filmes pornográficos e está sendo acusada de ter infectado com o vírus HIV o ator americano Darren James, 27 anos.

Os dois mantiveram relações sexuais no final de março, sem fazer uso de preservativos, nas filmagens de uma produção americana ainda sem título. Darren cujos resultados haviam dado negativo em exames feitos antes da viagem voltou à Califórnia e reassumiu seus trabalhos. Co-estrelou com a canadense Lara Roxx na obra Anal furry 6, e, sabe-se agora, contaminou essa parceira.

Antes de passarem pelos exames obrigatórios a profissionais do ramo nos EUA, ambos mantiveram contato com outros atores. Essa corrente epidêmica contaminou pelo menos seis pessoas e pôs em risco cerca de outras 60. Nesse cenário, 30 produtoras pornôs de San Fernando Valley impuseram uma moratória às filmagens por 60 dias. Um enredo de horror para o cinema do prazer.

A história tem tudo a ver com os mecanismos da globalização. A indústria pornô americana coloca cerca de 11 mil títulos anuais no mercado. As produções americanas, claro, são mais caras. Assim, para cortar custos, os estúdios da área vão filmar em locações de países em desenvolvimento, como a República Tcheca, a Hungria, e principalmente o Brasil, o segundo maior produtor de filmes pornôs do mundo, atrás apenas dos americanos, diz Tim Connelly, da Adult Video News (AVN), publicação especializada no setor de filmes sexuais.

Quem puxa a audiência nestes filmes são as mulheres. As atrizes americanas ganham em média de US$ 300 a US$ 1 mil por um dia de filmagem. As grandes estrelas têm cachê de US$ 5 mil diários. No Brasil, esses custos caem para dois terços nos salários das moças. Além disso, os diretores estão sempre procurando carne nova o público acaba se cansando das mesmas caras e corpos numa obra. Desse modo, as brasileiras que são bonitas e disponíveis acabavam abocanhando boa parte do mercado, diz Connelly.

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Teologia do traste
Poema inédito de Manoel de Barros

As coisas jogadas fora por motivo de traste
são objetos da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra por motivos de traste uma
lata: mendigos, cozinheiras e até poetas podem
pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
Se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém pode pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pela rua moda um caminhão de areia.
E as idéias por serem um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito ¿ a gente sabe.
Há idéias luminosas ¿ a gente sabe.
Mas elas inventaram a Bomba Atômica, a Bomba
Atômica, a Bomba Atôm....................................
....................................................................Agora
Eu queria que os vermes iluminassem.
Eu queria que os trastes iluminassem.

MANOEL DE BARROS mora em Campo Grande (MS). O poema Teologia do traste integra o livro Poemas rupestres, a ser lançado em setembro pela Record.

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SER MÃE

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto

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Ricardo não joga a toalha

Técnico tricolor, apesar da eliminação na Copa do Brasil, diz que gostou da atuação do time e que goleada não tirou sua confiança

PORTO ALEGRE - Primeiro, foram as reclamações de Edmundo. Depois, o futevôlei e as noitadas de Romário. Agora, a eliminação da Copa do Brasil. Quando a paciência do técnico do Fluminense, Ricardo Gomes, estava no limite, ele buscou forças na própria evolução do time para apostar em dias melhores. Apesar da goleada (4 a 1) sofrida para o Grêmio, na quarta-feira, o treinador acha que sua equipe merecia sorte melhor. Por isso, não jogou a toalha.

Faltou eficácia na frente do gol. Nós merecíamos uma sorte melhor nesta partida, pois, quando o jogo ainda estava 2 a 1, perdemos duas chances incríveis na pequena área, com o Alessandro e o Roger. Se tivéssemos um pouco mais de sorte nas finalizações, poderíamos ter saído com um resultado melhor, disse o treinador tricolor.

O abatimento virou empolgação. Satisfeito com o desempenho do time no segundo tempo do jogo contra o Grêmio, Ricardo Gomes acredita que tudo vai melhorar nas próximas partidas do Campeonato Brasileiro. O técnico fez questão de deixar claro que não pretende mais abandonar o clube, como chegou a admitir, na terça-feira.

Sinceramente, estou muito confiante nesta garotada e, apesar da goleada, o time demonstrou uma grande evolução. De minha parte, não há a menor chance de deixar a equipe num momento como este. Nunca saí de um clube por causa de uma situação difícil. Meu pensamento agora está voltado para o Internacional, afirmou, já preocupado com o jogo de domingo, também em Porto Alegre, válido pelo Brasileirão.

Sem Edmundo e Romário (contundidos) por perto, o discurso de Ricardo Gomes mudou: Não há polêmica nenhuma. Resolvemos a situação do Edmundo. Com o Romário foi a mesma coisa. Vida que segue. O Romário é fácil de se administrar. Ele não está se desgastando tanto assim. Houve realmente alguma coisa na véspera do jogo contra o Vasco, mas isto já foi contornado, garantiu o técnico, que ficou aborrecido ao ser informado de que o atacante jogara futevôlei um dia antes do clássico.

Presidente encontra hoje a delegação

O presidente David Fischel deve viajar hoje para Porto Alegre, ao encontro da delegação tricolor, que só retorna ao Rio na segunda-feira.

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Bingos preparam o jogo

Por uma questão judicial, apenas quatro casas do Rio e sete no interior podem voltar a funcionar. Expectativa pelo retorno de apostas provocou vigília na porta dos estabelecimentos


Em Petrópolis, as gerentes do Serra Bingo recepcionavam, com sorriso, o regresso dos clientes

Alegria, expectativa e frustração. Apesar da liberação no Congresso, apenas 11 dos 42 bingos do Rio poderão voltar a funcionar. Empresários que apostavam alto no retorno imediato esbarraram em liminar pedida pelo Ministério Público Federal, em outubro, que proíbe 31 casas de funcionar, e apenas quatro na capital e sete no interior poderão reabrir as portas.

No Rio, estão liberados os bingos Voluntários (em Botafogo), Ipanema (no bairro), Saens Peña (na Tijuca) e o Golden Bingo (no Centro), atualmente desativado. E, no interior, em Cabo Frio, Petrópolis, Nova Iguaçu, Barra Mansa, Resende, Alcântara e Campos. Os caça-níqueis estão liberados em todo o estado. A Loterj estima um prejuízo de R$ 6 milhões no período em que as casas de jogos não funcionaram.


No Bingo Copacabana, empregados da casa de jogos preparavam o estabelecimento para voltar a funcionar

Ontem, os donos de casas de jogos passaram a tarde reunidos na Associação dos Bingos do Rio de Janeiro (Aberj) para definir estratégias e maneiras de recorrer da decisão judicial. A partir de hoje, algumas já estarão funcionando e a previsão é de que até domingo todas estejam abertas. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bingos (Abrabin), Olavo Sales da Silveira, aproximadamente, 20% dos bingos do País não conseguirão voltar a funcionar porque, com a falta de receita, perderam os imóveis.

Ansiedade leva apostadores para as portas dos bingos

Apesar de não estarem ainda funcionando, os bingos já estão sendo procurados por apostadores ansiosos. A divulgação de que o jogo está novamente liberado criou uma verdadeira peregrinação, e ontem havia aglomeração na porta de diversos estabelecimentos na cidade. A maior foi registrada no Bingo Rio Branco (Centro), justamente um dos atingidos pela liminar, e que não tem previsão de voltar a operar. O telefone não parou de tocar e várias pessoas ficavam aqui na porta, esperando que abríssemos, mas a gente não pode simplesmente abrir, disse um funcionário, que não quis se identificar. Segundo ele, os 200 empregados já foram avisados que podem ser recontratados a qualquer momento.

Em Petrópolis, o Serra Bingo não perdeu tempo e abriu as portas ontem. A aposentada Evangelina Garcia da Silva, 70 anos, vibrou. Tenho poucas opções de lazer. Algumas amigas tiveram depressão ou ficaram doentes por não terem onde se distrair. É ruim ficar em casa sem fazer nada, disse. Uma das gerentes do bingo, Tatiana Paiva de Souza, 24, disse que nunca perdeu as esperanças de voltar a trabalhar.

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Paulo Sant'ana
07/05/2004


Jogador gosta de perder

Quando fechou os bingos, Lula mirou no que viu e acertou no que não viu: acabou beneficiando os milhões de brasileiros que se entregavam ao jogo do bingo e das maquininhas.

De repente, sem poder jogar, os apostadores se viram livres de uma considerável e compulsória despesa que tinham todos os meses.

É que ninguém ganha nesse tipo de jogo, todos perdem. O que atrai as pessoas para as apostas é que de vez em quando elas ganham.

Mas quem joga bingo ou maquininha joga todos os dias, joga sempre enquanto tem dinheiro, aí ninguém escapa.

Por um desses estranhos desígnios da psique humana, os apostadores se livraram do pesado encargo financeiro que lhes impunha o jogo, mas se mostraram contrariados com a medida do governo.

Eles não tinham mais o que fazer, vagavam tontos pelas cidades sem qualquer distração.

E mais vale um gosto do que três vinténs. Esses apostadores contumazes de bingos estavam vibrando anteontem quando o Senado, numa votação surpreendente, derrubou a medida provisória e reabriu as apostas.

Daí que quarta-feira à noite no Olímpico, à saída do jogo, eu vi com meus olhos torcedores vibrando com a vitória do Grêmio sobre o Fluminense e com a reabertura dos bingos.

Sempre defendi perante meus amigos que o apostador de qualquer jogo, roleta, bingo, maquininha, cartas, gosta de perder.

Não é de ganhar que ele gosta, como pode parecer.

E sempre baseei a minha tese no seguinte fato: se sempre o jogador perde, isto é do seu agrado. Se não fosse, ele deixaria de jogar.

O festejo dos apostadores do bingo comprova definitivamente a minha tese: multidões comemorando que, com a reabertura, incrivelmente voltarão a perder dinheiro como antes.

E mais incrivelmente ainda: essas multidões passaram 76 dias sem perder dinheiro enquanto os bingos estavam fechados.

Mas se recordam com pesar desse lucro indesejado.

Ontem foi dia de receber mais uma vez o prêmio Top of Mind, da Revista Amanhã, como colunista de jornal mais lembrado no Rio Grande do Sul.

Há quase 15 anos recebo este galardão, do qual me orgulho, pelo reconhecimento dos leitores gaúchos pesquisados.

Obrigado aos leitores.

E todos vinham me dizer que a deputada Jussara Cony (PC do B) tinha feito, na solenidade em que os deputados estaduais homenagearam os 40 anos de Zero Hora, uma menção muito honrosa a este colunista em seu discurso.

Li o discurso da deputada e fiquei muito lisonjeado com sua referência.

A vida também é feita dessas alegrias, ser assim mimado com o reconhecimento dessa mulher de muitas lutas que é Jussara Cony, vereadora comigo durante tantos anos.

Obrigado, Ju.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Mauren Motta
07/05/2004


Tá traçado

Domingão, 6h, chamo um táxi para me levar ao aeroporto. No caminho, já começo a viajar. O sol nasce bonito, laranja. Meus pensamentos já estão bem longe. No vôo lotado para Salvador, fico imaginando quantas daquelas pessoas desembarcariam comigo. Na primeira escala, desce todo mundo e eu fico sozinha no avião. Pena. Salvador é mágico e místico. Curto demais a Terra de Todos os Santos, onde a vida passa devagar e o Arroxa é a onda do momento. Desta vez vou pra trabalhar, ou melhor, gravar e gravar muito.

Em junho, vou estrear no programa Mais Você, aquele da Ana Maria, um quadro do Brasil Total chamado Foi Assim. Nesta fase da minha vida não poderia ser melhor. São histórias de amor contadas por casais de diferentes lugares. Então, começo com o pé direito e cercada de patuás as minhas andanças pelo Brasil. Na pauta da primeira história: amor e destino. Será que podemos acreditar? Eu, cada vez mais, acho que sim. Tudo o que é nosso está guardado, traçado. Como a chance de voltar tão rápida e inesperadamente para um lugar tão lindo ou a oportunidade de participar de um projeto tão bacana.

O roteiro de gravações me leva para lugares ainda não visitados. A aromaterapeuta, a taróloga e o pai-de-Santo são meus personagens. Pai Alex é entrevistado dentro do terreiro. Cercado por todos os orixás, ele me ensina uma receita para abrir caminhos e encontrar amor. A mistura com lavanda e mel cheira muito bem. O jogo de búzios traça o meu destino. Tenho muito amor e trabalho pela frente. Ainda bem, sou workaholic e apaixonada por natureza.

Dia de gravações encerradas. Eu e a equipe vamos jantar no Trapiche Adelaide. Lugar hype, cozinha incrível, decoração inacreditável. A noite adocicada compensa a conta salgada. Hora de dormir, amanhã tem mais. No hotel, cravado na rocha e grudado no mar, dá pra entender a imensidão do lugar e a calma do povo. Dorival que o cante. O quarto de janelas amplas desnuda uma orla fantástica e uma lua imensa. E ainda tem Goiânia e Belém. Minha mente viaja de novo.

Viajar é maravilhoso, mas voltar pra casa é ainda melhor! O Patrola é a casa, e ela tem um novo morador. Bom saber o que o destino nos reserva. Nesta nova família reencontro um amigo e vizinho de infância. Garoto espoleta cheio de talento: Ico Thomaz, seja bem-vindo!

mauren@rbstv.com.br

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Gabriel Moojen
07/05/2004


Vivendo e aprendendo

Das coisas grandes que fiz todos saberão a metro, das pequenas, aquelas em centímetros, não? Foi isso que li num poema do Leminski. Não com essas palavras, mas a idéia era essa. O que eu fiz no Patrola, no Brasil Total, no meu livro de contos, no Chapa Quente na Atlântida... É fácil ver o que a gente evolui e aprende. Mas hoje quero deixar aqui escrito o que aprendi nesses últimos anos como jornalista.

Primeira lição: trabalhar em equipe e dar valor a quem está ao redor. Se não fosse a oportunidade dada pelo Raul Costa, pelas coisas que aprendi, e foram tantas, com a Alice Urbim, as discussões com a Joice, a Laura, a Mauren, o Rezende, se não fosse por isso não estaria escrevendo esta coluna. Na TV, desde o cara que carrega o cabo até o diretor, todos têm a mesma importância na hora do show. Tudo deve estar no seu lugar, e cada função deve ser executada com precisão. Se uma coisa dá errado, tudo dá errado.

A segunda: exercitar a humildade. Estar exposto na mídia pode causar algumas ilusões. As pessoas são amigas, as portas estão abertas, todos querem te atender bem. Mas isso não pertence ao homem e sim à máquina. No dia em que eu sair da tela, tudo se evapora. E é necessário ser sempre quem se é. Ninguém vai me dar um rosto novo se eu gastar esse. É necessário manter a serenidade sempre.

Terceira: nesse meu trabalho, cada ato tem um valor enorme. Desde um sorriso para uma pessoa no trânsito até um gesto de amor ao próximo, tudo toma uma dimensão gigantesca. Por isso, o melhor é dar sem esperar receber.

Quarta: toda pessoa deve ser respeitada, independentemente de quem seja. Se de manhã eu entrevistar o Red Hot e de tarde a galera do Morro do Macaco, esses devem receber de mim o mesmo tratamento.

Quinta: agradecer sempre. Saber que quem faz o show não sou eu, o apresentador, e sim meu entrevistado.

Sexta: ter leveza, coração tranqüilo e ir em busca da palavra exata para expressar o que quero dizer. Isso se consegue através da leitura e da busca permanente de informação.

Ùltima lição: estou sempre aprendendo e nunca saberei tudo. Era isso. Me escrevam.

gabriel@rbstv.com.br

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David Coimbra
07/05/2004


Os gigas

Agora não se disca; se preme: quatro, dois, zero, zero. Ramal do Help Desk. Por que esse nome? Não tem similar em português? Bem. Atendeu-me o Fabrízio, sempre prestimoso porém indecifrável. Expliquei que não conseguia abrir alguns imeils. Ele:

- Eles são atachados a partir de um outlook?

Fiquei 10 segundos em silêncio. Depois respondi:

- Hein?

Mas ele já estava com o diagnóstico pronto:

- É que nós não estamos com o office e assim não conseguimos acessar os ponto doc.

Outro lote de segundos com o fone no ouvido, mudo. Em seguida, observei, com sabedoria:

- Hein?

É sempre assim quando falo com esse pessoal da informática. Eles vêm com aquela conversa de giga, estão sempre falando em giga, e acabo ficando à mercê deles. Gostaria de fazer algo no computador, mas não é possível por causa dos gigas, dizem. Aí tenho de aceitar. Eles entendem de gigas, eu não. Meu próprio irmão Régis trabalha com informática. Quero algo. Peço a ele. Ele:

- Não dá.

- Os gigas?

- Os gigas.

- Tá.

O Lula deve passar por esse drama amiúde. Por isso explodiu de indignação, dias atrás. Estava numa reunião com a equipe econômica, cobrou obras, e o ministro do Planejamento, Guido Mantega, disse que não era bem assim. Contrapôs com números. Decerto orçamentários, valores da TR, índices do IPCA, certamente falou no superávit primário e devia estar ensaiando o ingresso na questão das flutuações do câmbio, quando o presidente, a barba eriçada de indignação, desferiu um soco na mesa. PAM! Silêncio no recinto. Ninguém nunca tinha visto Lula socar um tampo de mesa. O presidente exigiu obras para já. Entre elas, a duplicação da BR-101. Dias depois saiu a notícia: as obras na BR-101 devem começar no segundo semestre.

O soco que Lula deu na mesa foi a revolta do usuário contra a ditadura intelectual dos técnicos. Lula quer fazer, eles dizem não, lhe apresentam argumentos, deixam-no tonto com tanto número e o Lula, pô!, o Lula não tem como contestar. O presidente, afinal, é um político, não um economista, desses que ora dirigem a República, assim como já a dirigiram os advogados.

Sobrou uma única saída para Lula: o soco na mesa. Então os técnicos dão um jeito, os números se acomodam, a obra sai de alguma forma. O que leva à cogitação: quanto já se perdeu ou já se deixou de fazer por falta de socos na mesa?

Soco na mesa, quem diria. Recurso primário, mas que, ao fim e ao cabo, funciona.

O pessoal do Help Desk vai ver da próxima vez.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Clima
Ciclone interrompe BR-101



Chuva forte que atinge o sul catarinense desde terça alagou a rodovia em Araranguá e quase fez tombar um ônibus (foto Ulisses Job, Agência RBS/ZH)


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Quinta-feira, Maio 06, 2004




Caixa amplia financiamento habitacional para a classe média

Danielle Abreu - Extra
Agência Brasil

RIO - A partir da próxima segunda-feira, as agências da Caixa Econômica Federal vão oferecer cinco novas modalidades da Carta de Crédito Caixa voltadas para as classes média e alta. A linha de financiamento, que tinha sido suspensa em 2001, foi retomada parcialmente em novembro do ano passado, com a compra de imóveis novos e usados, e agora amplia a possibilidade de atendimento à demanda existente.

Os novos produtos vão possibilitar ao cliente fazer reforma e/ou ampliação, construção de imóvel residencial (em terreno próprio ou com aquisição de terreno) e, ainda, aquisição de lote urbanizado comercial ou residencial. Não há valor máximo de financiamento e nem limite de renda para concessão do crédito.

Direcionado a pessoas físicas, mesmo aquelas que já sejam proprietárias de outro imóvel residencial ou comercial, os juros das cinco modalidades variam entre 13% e 18% ao ano, acrescidos de TR. Os prazos de pagamento vão de 60 a 180 meses. Os financiamentos serão efetuados através do SAC (Sistema de Amortização Constante).

Desde que a Caixa voltou a financiar a classe média com recursos próprios, em novembro/2003, já foram aplicados R$ 118,3 milhões para o financiamento de 2,475 mil imóveis.

Os juros não são nada econômicos, mas se você paga aluguel, ainda continua sendo melhor a opção pela compra, pelo menos você poderá obter de volta o que você pagou, se um dia, por exemplo, você mudar.

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Nova chance aos atrasados

A vistoria poderá ser feita mediante pagamento de multa de R$ 100

O atraso na vistoria dos taxímetros vai custar caro aos taxistas. Quem perdeu o prazo terá até o dia 30 de abril para comparecer ao Instituto de Pesos e Medidas do Rio de Janeiro (Ipem/RJ) e regularizar a situação, mediante o pagamento da taxa obrigatória de R$ 25 acrescida de multa no valor de R$ 100.

Os motoristas que tiverem pendências não devem perder este prazo. De acordo com o Ipem, não está prevista prorrogação. Quem não regularizar a situação dentro do período determinado terá de esperar até o próximo ano para voltar a circular dentro da lei. Os que insistirem em rodar correm o risco de ter o taxímetro retirado em uma blitz.

O objetivo do Ipem é aumentar o rigor da fiscalização para tirar das ruas os táxis piratas. Outra medida tomada neste sentido foi a permissão concedida aos taxistas com multas para realizarem a vistoria. O prazo foi de apenas dois dias (segunda e terça-feira), mas diversos motoristas compareceram ao órgão para regularizar sua situação. As infrações não foram anuladas.

Volkswagen oferece Santana com kit gás grátis

A Volkswagen está oferecendo o Santana (a álcool ou a gasolina) com o kit GNV (gás natural veicular) já instalado gratuitamente e com garantia de fábrica. A promoção começa amanhã e os taxistas são o principal público alvo. No Rio de Janeiro, estão homologadas as concessionárias Distac e Autobom.

Fora da promoção, o kit GNV, produzido pela White Martins, custa R$ 2.956. O conjunto oferecido pela VW traz elementos exclusivos como marcador de combustível único e comutador incorporado ao painel. De acordo com os cálculos do fabricante, o custo do quilômetro rodado é reduzido em aproximadamente 60% quando o Santana está usando o GNV.

Fique de olho
O site do Inmetro traz a relação das 603 oficinas credenciadas para a instalação de GNV no Brasil. O endereço é www.inmetro.gov.br

Acredito enormente nesta opção, imagine você pagando apenas 40% por km rodado do custo que você tem hoje...E depois é um Santana meu amigo, sem muita mecânica, sem muita frescura...Porque imagine um 1.0 com aqueles butijões no porta-malas o que sobra?

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A cabocla que se cuide

Carolina Kasting faz uma professora que se entrega à paixão por um peão noivo na nova novela das seis

Marcelle Carvalho

Por já ter feito novela de Benedito Ruy Barbosa, Carolina temeu se repetir, mas a nova personagem é mais doce


Quando Carolina Kasting soube das características de sua personagem Mariquinha, em Cabocla, nova novela das seis que estréia segunda-feira, temeu a semelhança dela com Rosana, o tipo que fez em Terra Nostra. Isso porque ambas são criações do mesmo autor: Benedito Ruy Barbosa. As duas são filhas de coronel, apaixonadas por um homem da terra: Mariquinha pelo peão Tobias (Malvino Salvador) e Rosana amava o imigrante italiano Matteo (Thiago Lacerda). Pensei: Ai meu Deus, o que vou achar de diferente nas duas personagens? Quando li, vi que são totalmente diferentes, não têm nada de parecido, diz Carolina, 28 anos.


Malvino Salvador estréia em Cabocla como Tobias, o peão disputado

Quem se lembra de Rosana, tem na memória o jeito impulsivo e amoral da personagem. Ao contrário de Mariquinha. Ela é totalmente íntegra, generosa, tem compaixão pelas pessoas. É capaz de ficar sofrendo sozinha no canto dela e deixar o Tobias se casar com a Zuca (Vanessa Giácomo), diz Carolina, referindo-se à grande paixão de Mariquinha, uma professora filha do rígido coronel Justino (Mauro Mendonça), por Tobias. Esse é o conflito dela: amar um peão, que era uma coisa inadmissível na época e ainda saber que ele é noivo de outra moça. Pela obra do Benedito, parece que ela termina com Tobias. Acho que vai agir na hora certa.

A tranqüilidade de Mariquinha vem como um bálsamo para Carolina, cujo último trabalho foi a obsessiva Laura, de Mulheres Apaixonadas. É muito bom receber um personagem leve, bem-humorado. Mariquinha é meio serelepe, menina para cima, não tem muito sofrimento. Pode até sofrer por paixão, mas é altiva, analisa Carolina. Como faz um personagem que vive no campo, a atriz não teve dificuldades em andar a cavalo, mas experimentou outra técnica. Na época, as moças andavam numa cela especial para sentar de lado, já que não podiam abrir as pernas. Também consigo manejar a carroça, diz Carolina, satisfeita.

A atriz não assistiu à primeira versão da novela por conta da pouca idade tinha apenas três anos quando a trama foi ao ar, em 79 e não vê necessidade de assisti-la agora. Benedito não quer muito isso e não tenho mesmo curiosidade. Vou muito pelo texto, não acho necessário ver como foi o personagem na primeira versão, afirma a atriz.

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Espelho meu

Letícia Spiller estrela peça, quer ser mulher sexy em novela e assume tesão por si mesma
Zean Bravo

Parada no sinal, Letícia Spiller começou a pensar sobre o velhinho que atravessava a rua e caiu no choro. Fiquei pensando que imagem ele fazia de mim e me vi ali na frente. Temos que sair do próprio umbigo, ver além, se colocar mais no lugar das pessoas, convoca. Com essa passagem, ela ilustra sua fase atual, muito sensível. Tudo por conta da peça A Leve, o Próximo Nome da Terra, de Hamilton Vaz Pereira, que estréia dia 13 no Espaço Sesc, em Copacabana. Quando estou em processo de ensaio me deixo emocionar fácil. A consciência traz o choro, mas tenho que aprender a me proteger, constata a atriz, que também se prepara para voltar à TV em Senhora do Destino, nova novela das oito.

Na peça, Letícia faz Marlene, Maior Que Os Homens Ao Redor. A personagem é uma atriz, que por sua vez, encarna Pentesiléia uma mulher que vai a luta, a guerreira amazona que derrota Aquiles na batalha, define Letícia. Marlene foge da acomodação. Ela é energia feminina ascendente. Se bem que tem bastante do masculino. Ela domina os homens, que caem todos aos seus pés, continua a atriz. Ela se identifica em parte com a personagem. Sou amante das coisas simples, mas me acomodar significaria que cheguei a algum patamar. Sou ativa. Não sou casada e sou eu quem trago sustento para a casa, completa a atriz, de 30 anos.

Tem dias que a libido vai pra cucuia. E tem dia que me olho e fico com tesão em mim, querendo me comer. Mas não dá

No quesito sedução, Letícia se difere de Marlene. Posso escolher ter mil homens aos meus pés ou amar um só profundamente. Busco uma coisa além. Não sou de freqüentar a noite, de sair por aí, explica a atriz, que namora o diretor de fotografia Roberto Amadeo há dois anos. Graças a Deus! Sabe a música que diz jogue suas mãos para o céu. Acredito nisso. Com amor a dureza da vida fica mais fácil. Meu filho (Pedro,de sete anos, do casamento com Marcelo Novaes) é outro companheirinho. Eles que me seguram.
Mesmo apaixonada, ela não pensa em casar agora. Acredito na soma. Você casa e cruza as alianças. É muito sério. Mas se for casar de novo vou querer um espaço na casa só para mim, avisa Letícia, que afirma lidar com seu desejo de forma saudável. Tem dias que estou péssima, credo! A libido foi pra cucuia. E tem um dia que me olho e fico com tesão em mim, querendo me comer. Mas não dá, ri e logo pondera: De uma forma até dá, mas não é como quero. Fica na imaginação, diverte-se.

Quero ficar cabeluda na novela, bem cachorra. Um cabelão para jogar pra lá e pra cá. Praticamente uma égua

O apelo sexual quem não lembra de Babalu em Quatro por Quatro? também estará presente em Viviane, seu papel na novela das oito. Babalu era um tesão. Superpopular. Gosto disso, a personagem vai ser da Baixada, conta ela, que planeja um visual característico para o tipo. Quero ficar cabeluda, bem cachorra. Um cabelão para jogar pra lá e pra cá. Praticamente uma égua.

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FLAMENGO X SANTA CRUZ
Um velho rival

Flamengo vence Santa Cruz (1 a 0, gol do estreante Negreiros, e agora vai encarar o Grêmio na próxima fase da Copa do Brasil

Em jogo embolado no Maracanã, tecnicamente muito fraco, o zagueiro rubro-negro Fabiano Eller dá combate ao atacante pernambucano

Janir Júnior
Mesmo com uma atuação desastrosa do árbitro paulista Luís Marcelo Vicentin, que anulou um gol e deixou de marcar um pênalti claro em Da Silva, o Flamengo venceu o Santa Cruz, ontem, no Maracanã por 1 a 0, gol do estreante Negreiros, que entrou no lugar de Jean, no segundo tempo.

Com o resultado, o Flamengo se classificou para as quartas-de-final da Copa do Brasil e enfrentará o Grêmio. O time rubro-negro é o único do Rio na competição.

O jogo foi de um nível técnico sofrível e a torcida estava irritada com a equipe até os 43 minutos do segundo tempo, quando Negreiros, com oportunismo, cabeceou a bola para a rede, depois que Jônatas acertou o travessão.

Parece um sonho. Entrar durante a partida e dar a vitória ao Flamengo. Vou fazer muito mais, prometeu um emocionado Negreiros.

Apesar de precisar apenas de um empate para garantir a vaga, o Flamengo teve mais presença em campo. Porém, inicialmente não conseguiu transformar o domínio em jogadas que levassem perigo ao gol adversário.

Num dos raros momentos em que o ataque rubro-negro ameaçou, Jean, que não atravessa boa fase, isolou a bola, aos 22 minutos do primeiro tempo. O Santa Cruz deu o troco, num erro de Da Silva, que cabeceou a bola nos pés de Erivérton. O atacante se assustou com o presente e acabou chutando longe do gol de Júlio César.

O lateral direito Rafael se contundiu e foi substituído por Gaúcho. Aos 44 minutos, num contra-ataque fulminante do Santa Cruz, Aílton entrou livre em condições de abrir o placar. No entanto, dessa vez, o árbitro ajudou o Flamengo, marcando impedimento inexistente.

O Flamengo voltou com força total para a segunda etapa. Logo aos 4 minutos, Íbson lançou Gaúcho, que passou para o atacante Jean fazer o gol. O árbitro anulou a jogada, apontando erradamente um impedimento.

Oito minutos depois, o goleiro Guto derrubou Da Silva na área, num pênalti claro não marcado pelo confuso árbitro. O técnico Abel Braga teve estrela. Colocou Jônatas e Negreiros em campo e a dupla acabou levando o clube à vitória.

No fim do jogo, Felipe resumiu a vitória: No Brasileirão jogamos bem e perdemos. Na Copa do Brasil, jogamos mal e vencemos. Isso é o que importa.

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Nilson Souza
06/05/2004


A pior mãe do mundo

Leio na sacada e ouço, sem querer, os ruídos das casas próximas. Numa delas, a mãe briga com o filho pequeno, que insiste em ir a algum lugar. Ela proíbe. O menino retruca. A discussão sobe de tom. Sem ver os dois personagens, fico imaginando que é um daqueles típicos ataques de teimosia de uma criança explorando os limites da autoridade materna. De repente, o garoto grita, histérico:

- Tu é a pior mãe do mundo!

Assim mesmo, com a discordância verbal característica do gauchês e a crueldade ingênua da infância. A mulher responde com firmeza:

- Sou, mas tu não vais sair.

Alguém bate uma porta e faz-se silêncio. Alguns minutos depois, percebo que "a pior mãe do mundo" está na janela. Ela chora discretamente, passa o dorso da mão nas faces e volta para os seus afazeres. Sou capaz de apostar que vai direto ao quarto do filho para abraçá-lo e beijá-lo, como fazem todas as mães depois das tempestades emocionais. Elas são assim: fazem o que é preciso fazer pelo bem dos filhos, mas jamais deixam de se sentir culpadas.

Volto para a minha leitura. Consola-me pensar que um dia aquela criança crescerá e entenderá que talvez estivesse diante da melhor mãe do mundo exatamente quando ela lhe dizia não.

Mas a revista que estou lendo me reserva uma outra reflexão. Conta a fábula da mãe águia, que construiu o seu ninho no alto de um penhasco, chocou os ovos, alimentou os filhotes e de repente viu-se diante do dilema de empurrá-los para o primeiro vôo. Os filhotes resistiam. A águia também hesitava, pois sabia que a queda poderia ser fatal. Certamente ela se sentiria a pior mãe do mundo se acontecesse uma tragédia. Porém, ela sabia também que aquele era o destino da sua espécie. Enquanto os filhotes não aprendessem a voar, não compreenderiam o privilégio de terem nascido águia. Naquele momento, o empurrão era o maior presente que tinha para lhes dar. Era seu supremo ato de amor.

Então, conta a história, ela os empurrou, um a um. E eles voaram.

Também para a mãe do menino chegará o tempo de dizer sim. Haverá um momento em que ela perceberá que o filhote já está com as asas suficientemente fortes para voar sozinho. Talvez não precise empurrá-lo, mas vai abrir a porta e deixá-lo sair.

É o destino dessa espécie que enxuga lágrimas com o dorso da mão.

nilson.souza@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
06/05/2004


Autoridade prepotente

O país assistiu anteontem pela televisão a uma prepotência inominável.

O senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), presidente da CPI do Banestado, cometeu-a durante interrogatório do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.

Pergunta do senador ao réu: "Se eu indagar a Vossa Senhoria que vê essas afirmações como afirmações de que Vossa Senhoria é corrupto, Vossa Senhoria manterá o silêncio também?"

Resposta do réu: "E se eu indagasse se Vossa Excelência continua batendo na sua mulher, como responderia?"

O senador suspendeu a sessão e foi aconselhar-se com seus pares. Voltou de lá trazendo a solução: prendeu em flagrante o réu por crime de desacato.

É muito claro que só poderia ter existido o crime de desacato se a pergunta da autoridade não fosse indevida, preconceituosa, provocativa.

Em realidade, foi tão brutal a pergunta do senador ao ex-prefeito, que poderia até ser caracterizada como abuso de autoridade, que é crime e que, se se fosse aplicar à conduta do senador o rigor com que ele interpretou a resposta do ex-prefeito, quem poderia ter sido preso naquele momento era exatamente o senador.

Sim, por abuso de autoridade.

A resposta desaforada de Celso Pitta foi visivelmente um truque de retórica.

Por sinal, magistral truque de retórica. Tanto que pôs nocaute o senador Paes de Barros.

Que interrompeu a sessão e foi pedir a seus pares aconselhamento de como proceder.

O recurso extremo de prender o acusado se deveu à derrota aplastante do senador no duelo verbal que travou com Celso Pitta.

Como não tinha mais condições morais de prosseguir no linchamento do réu, sob pena de escândalo, o senador decidiu por mandar prendê-lo por desacato. Foi a maneira que o senador encontrou para não sair ridicularizado da audiência.

Valeu-se então de uma prepotência e de um autoritarismo incompatíveis com o estilo democrático que deve presidir um parlamento.

O que irritou o senador irritou também a alguns jornalistas ilustres e desavisados do centro do país, que andaram opinando erradamente sobre o salvo-conduto concedido a Pitta pelo ministro do Supremo Cezar Peluso.

Por esse salvo-conduto, constituído em duas liminares, Celso Pitta tinha o direito de "permanecer em silêncio, de só falar em sessão reservada e de evitar eventual ordem de prisão pelo teor de suas respostas relacionadas à investigação" de que está sendo alvo por suposta evasão de divisas.

Então Celso Pitta respondeu cerca de 80 vezes às perguntas com a seguinte frase: "Mantenho o silêncio".

Não sabe o senador Paes de Barros e desconhecem os jornalistas de opinião leiga que o salvo-conduto que Celso Pitta tinha nada mais é que um direito inalienável de qualquer réu: silenciar.

Mais ainda o que o Direito brasileiro e todos os Direitos civilizados concedem aos réus: o direito de mentir.

A única pessoa que pode mentir num processo sem responder por falso testemunho é o réu, a quem São Tomás de Aquino garantiu esse direito, mais tarde incorporado aos códigos penais: o réu tem o direito de não auto-incriminar-se por suas palavras. Pode portanto silenciar. E pode mentir.

Independentemente do mérito de sua culpa, Celso Pitta foi vítima anteontem no Congresso de uma humilhação inaceitavelmente prepotente.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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O Vitória prometeu. E cumpriu...
LEONARDO OLIVEIRA/ Enviado Especial/Salvador

O Inter de novo está fora da Copa do Brasil. Ontem à noite, perdeu por 3 a 1 de virada para o Vitória em Salvador, como aliás os baianos haviam prometido ao final do empate em 1 a 1 no Beira-Rio. Erraram apenas ao prever uma goleada. O Barradão virou uma caldeira. O Vitória utilizou todas as artimanhas de uma decisão e levou a melhor.

Os tambores da torcida "Os Imbatíveis", uma das maiores do vitória, rufaram apenas antes do jogo. Desceram tocando axé as escadarias do Barradão, localizado dentro de um buraco na periferia de Salvador. Tocaram apenas nestes 10 minutos que precederam o jogo.

O Inter surpreendeu no início. Teve três chances nos primeiros 15 minutos. Gavilán chutou de fora da área no primeiro minuto. Oséas e Granja, duas vezes, arremataram de dentro da área. O ímpeto gaúcho aquietou os mais de 13 mil ruidosos baianos no estádio.

O Vitória só chegou à frente aos 17 minutos. E quase fez. Obina chegou um centésimo atrasado e viu a bola cruzar diante do gol. O lance deixou pálido o auxiliar técnico Leandro Machado. Escondido no espaço reservado à imprensa, Leandro assistia ao jogo na beira do campo, a três metros de Lori Sandri.

Bastaram os primeiros movimentos em campo para o auxiliar rabiscar um campo em um bloco de notas e mostrar o caminho do gol. Estava nas costas dos laterais. A todo o instante, Leandro repetia duas frases: "inverte o jogo" e "toca no Oséas e sai para jogar com ele pelo lado".

O gol do Inter saiu pelo caminho indicado pelo auxiliar. Fernando Miguel se desprendeu da defesa, tabelou com Chiquinho e, antes de cruzar na linha de fundo, olhou para a área. Encontrou Oséas livre do outro lado. O centroavante mergulhou e fez o 1 a 0. Um gol ao seu estilo, aguardado pela torcida.

A estratégia de jogo de Lori funcionava. Ele apostou em Fernando Miguel e armou o time para neutralizar o meio-campo do Vitória. Cleiton e Granja marcaram os volantes Xavier e Vinícius. Miguel e Marabá vigiaram Cléber e Magnum. Na frente, Edinho e Vinícius cuidavam de Obina e Edílson. Os baianos ficaram amarrados.

Com a vantagem, o Inter recuou. Lori, tranqüilo à beira do campo, só deixou a casamata para pedir que o time avançasse. Não conseguiu. O Vitória ameaçou. Clemer salvou em lance com Magnum, fez excelente defesa em dois chutes de Carlinhos e teve sorte com a cabeçada na trave de Xavier.

O time saiu para o intervalo com a vaga na mão. Leandro ocupou seu lugar em meio aos jornalistas e rezou. A fé segurou apenas por dois minutos. Xavier empatou depois de escanteio. O Barradão acordou e virou um inferno, rugiu como se tivesse no Carnaval. E o Inter se atordoou. Não passou do meio. Lori se desesperou. Conversou com Paixão, passou uma reprimenda em Granja e viu o sonho da classificação desmoronar.

Aos 23, Marabá errou passe na área e Sangaletti derrubou Obina. Edílson bateu e fez 2 a 1. Lori trocou Granja por Ederson. O time seguiu acuado. Tirou Gavilán e colocou Ricardo. Em seguida, Clemer, que já havia se irritado e chutado a bola no gandula, repetiu o gesto aos 35. Acabou expulso. Uma confusão se armou no caldeirão que estava o Barradão. A torcida cantava:

- Uh, terror, o gandula é matador.

Magnun fez 3 a 1 aos 40. E o Inter se perdeu no atalho para a Libertadores.

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Copa do Brasil
Grêmio goleia e pega o Flamengo



Cláudio Pitbull e Christian marcaram os dois últimos gols da vitória de 4 a 1 sobre o Fluminense, no Olímpico (foto Fernando Gomes/ZH)


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Quarta-feira, Maio 05, 2004


O estilo das grávidas famosas

Reuters

Gwyneth Paltrow gravidíssima

Parece que a gravidez virou moda entre as celebridades. Talvez tenham sido inspiradas pela campanha inverno 2003/2004 da Gucci, que sugeriam que o complemento de moda da estação fosse um bebê.

Na época, Tom Ford, responsável por muitas das tendências atuais, disse que "os bebês na campanha da Gucci representam alegria e sorte. Eles são a continuação da vida. Queria que esta campanha fosse alegre e que passasse bom humor. O que pode ser mais bem humorado que um bebê? Temos necessidade de alegria em nossas vidas hoje em dia. Chegou o tempo de assistir a um renascimento. Atravessamos anos difíceis e penso que um bebê é a representação perfeita do renascimento e da inocência".

Neste clima de maternidade fashion da etiqueta Gucci e também da Burberry e da L'Óreal, muitas top models e estrelas de cinema e TV encomendaram seus herdeiros.

Seria a simples constatação que a família é o melhor investimento?

Entre as modelos que aumentaram a família nas últimas temporadas a número um é Isabelli Fontana, considerada junto com o modelo também brasileiro Álvaro Jacomossi, pela revista Vogue americana, como o casal mais perfeito do mundo. Isabelli posou com o filho Zion em editorial de moda da Vogue América de fevereiro. Também estão embalando o berço de seus filhos com nomes exóticos as tops Shirley Mallman (Axel), a rebelde Kate Moss (Lola Grace), Carolyn Murphy (Dylan Blue), as veteranas Claudia Schiffer (Casper Mathew) e Amber Valetta, Natalia Vodianova (Lucas), Audrey Marnay (Amael) e a brasileira Caroline Ribeiro entre as mais conhecidas. Até a hiper influente Sarah Jessica Parker, da série Sex and the City, ainda festeja o filho James nascido em 2003.

Parece que esperar bebê é uma nova tendência e muitas mulheres aproveitam o período para confirmar a elegância. O raio-X analisa o visual das gestantes da estação.

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5 de maio de 2004 Versão on line

ECONOMIA
05/05/2004 - 14h45m


Lula faz mea culpa por erros na Cofins e no PrimeiroEmprego

Bernardo de la Peña - O Globo

RIO VERDE (GO) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou um discurso na inauguração da nova unidade da cooperativa COMIGO, em Rio Verde, para fazer um mea culpa sobre os equívocos do governo. Lula disse que aprendeu na vida que toda vez que o governo toma uma decisão e ela não surte os objetivos desejados não há nenhum problema de mudar de posição. A declaração foi uma resposta ao governador de Goiás, o tucano Marconi Perilo, que criticou uma medida provisória que, segundo ele, restringe o crédito aos produtores agrícolas e vai provocar um aumento de 7,5% na cesta básica.

- Criamos uma lei para o Primeiro Emprego, que foi aprovada em outubro no Senado, e descobrimos, depois que fizemos a lei, que ela tinha um impeditivo: ao mesmo tempo em que nós queríamos que o empresário contratasse um jovem para o primeiro emprego, a gente proibia esse empresário, em caso de necessidade, de dispensar um trabalhador que ele não precisasse mais. Simplesmente, os empresários não contrataram ninguém. O ministro Ricardo Berzoini já preparou a medida e nós vamos mandá-la para o Congresso, revendo isso - explicou Lula.

Lula citou também o debate em torno da mudança de sistemática na cobrança Cofins:

- O assunto foi discutido a mil mãos e a mil cabeças. Na hora da votação, nós tivemos que fazer vários acordos, porque descobrimos vários setores que estavam sendo prejudicados. O próprio setor do turismo. Eu, pessoalmente, liguei para o ministro Palocci e para o líder do Governo para que tivesse uma interferência, para não punir o setor de turismo. E, se há alguma coisa que tenha trazido problema, e isso venha a causar aumento na cesta básica, vocês podem ficar certos de que nós iremos rever, porque aumentar cesta básica é contraditório, por tudo aquilo que sonho em fazer para melhorar a qualidade de vida do povo brasileiro - discursou Lula.

Lula disse ainda que não é possível resolver os problemas do país se o povo brasileiro não estiver convencido da sua responsabilidade:

- Não existe, na face da terra, nem prefeito nem deputado, nem governador, nem presidente da República, nem ministro que possa resolver o problema de um país se o povo não estiver convencido de que ele é o maior responsável e, talvez, o maior ator para que a gente possa fazer as mudanças - discursou Lula para uma platéia de cerca de duas mil pessoas que fazem parte da Cooperativa Comigo, em Rio Verde.

O presidente citava o exemplo das famílias que vieram de outros estados para trabalhar na agricultura em Goiás para estimular a auto-estima dos brasileiros.

- É importante que cada pessoa saiba que a vida de vocês não foi sempre assim. É preciso que saibam do sucesso que estão tendo agora, mas também do pão que vocês comeram alguns anos atrás para chegar onde chegaram. Porque, hoje, tem muita gente que quer a coisa pronta, que quer o prato feito. Quem sabe quantos, aqui, já dormiram embaixo de encerado? Quem sabe quanto tempo vocês conviveram com a muriçoca para poder construir a sua primeira casa? Porque as pessoas só costumam lembrar da gente nos bons momentos, as pessoas não querem nem saber o que a gente passou.

No discurso, Lula comemorou a vitória do Brasil na Organização Mundial de Comércio contra os subsídios ao algodão americano:

- O Brasil conquistou o direito de ir na OMC brigar contra os Estados Unidos e acabar, pelo menos temporariamente, com o grande subsídio que os Estados Unidos davam ao algodão americano, impedindo nosso produto de entrar dentro dos Estados Unidos. E é por isso que nós vamos conquistar outros espaços.

Para ele, o país precisa lutar pelo seu espaço no mercado internacional:

- O que nós precisamos é pegar exemplos de companheiros que não desanimaram, levantar a cabeça e ir brigar pelo nosso espaço. Porque ninguém vai dar colher de chá para o Brasil. Não pensem que na face da terra tem algum governante que vai comprar de nós porque nós somos bonzinhos, ou seja, nós é que temos que ir para lá vender aquilo que nós produzimos e, ao mesmo tempo, vender, cada vez mais, produtos de qualidade.

Num discurso em que destacou a importância do cooperativismo, Lula disse que o povo brasileiro precisa descobrir o significado deste termo:

- O dia em que o povo brasileiro acordar para o significado da organização em cooperativa, nós teremos certamente, 50% a menos dos problemas que nós temos hoje para as várias coisas que nós fazemos no Brasil.

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05/05/2004 - 19h07m
Senado derruba MP e bingos podem voltar a funcionar

Cristiana Lôbo
Valderez Caetano - O Globo


BRASÍLIA - Com um placar de 32 votos contra, 31 a favor e três abstenções, o plenário do Senado derrubou na tarde desta quarta-feira a relevância da medida provisória que proibiu os bingos e caça-níqueis no país. Como medidas provisórias só podem ser editadas para assuntos considerados urgentes e relevantes, a MP perde imediatamente sua validade.

A rejeição da MP só foi possível com ajuda de senadores da base aliada (PMDB e PSB). A medida provisória foi baixada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva logo depois que estourou o caso Waldomiro Diniz numa tentativa de demonstrar que o governo não apóia os jogos. Segundo o senador Tião Viana (PT-AC), os senadores que votaram contra a MP "têm que assumir a responsabilidade de permitir a jogatina no país."

Durante as negociações, a oposição tentou manter a proibição do funcionamento apenas das máquinas de caça-níqueis, permitindo que as casas de bingos continuassem operando. Mas, segundo lideranças do governo, o Palácio do Planalto não autorizou o entendimento por não ter a garantia de que a Câmara iria confirmar a decisão do Senado, uma vez que qualquer modificação feita no Senado obrigaria a MP a voltar à Câmara.

Senadores da oposição argumentam ainda que o governo foi derrotado por conta da "falta de habilidade" da líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC). A senadora foi à tribuna na tarde desta quarta-feira dizer que quem votasse contra a MP estaria votando a favor do narcotráfico. O senador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), que se absteve na votação, disse que o resultado das votação mostra uma falta de articulação do governo ao tratar a matéria.

- Uma materia desta importância deveria ser debatida com mais profundidade, e não ser tratada por medida provisória - afirmou.

O clima da votação foi muito tenso e houve até um bate-boca entre a senadora Heloísa Helena (sem partido-AL) e a líder do governo. Enquanto Heloísa acusava o governo de não ter indicado líderes para a CPI dos Bingos, Ideli, aos gritos, garantia que já tem pronto um projeto alternativo para uma política de jogos no país. Ironizando a líder do governo, a platéia de trabalhadores de bingos que acompanhou a sessão gritava em coro: "Messiânica".

O líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), subiu à tribuna para propor um acordo para a votação da relevância e urgência da MP e pediu que a sessão fosse suspensa para tentar um acordo de votação.

- Neste impasse não sabemos quem vai ganhar e quem vai perder, mas sei exatamente quem ganha com o arquivamento da medida provisória - apelou Renan, antes da votação.

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Máquina do tempo

Como ingressar no promissor mercado de restauração de fotos
Julio Preuss


Nelson Martins, do Senac, com o equipamento de primeiro mundo usado nos cursos de fotografia digital

As causas podem ser várias: a única foto da sua bisavó está sumindo; a lembrança do casamento foi rasgada em uma briga; aquela imagem da sua infância foi destruída quando tentaram retirá-la do porta-retratos. O que fazer agora? Seja qual for o motivo, todos já passamos por alguma situação em que precisamos recuperar uma foto. Graças à evolução dos computadores e softwares, isto está cada vez mais simples. E já existem empresas e profissionais se dedicando a ensinar o assunto, e ganhando dinheiro e visibilidade com isso.

É o caso de Cláudio Lozinsky, 54 anos, um engenheiro aposentado conhecido no mundo dos fotologgers como Fotart, nome do fotolog onde exibe as manipulações que realiza no Photoshop, com destaque para a restauração e colorização de fotos antigas. Tenho recebido um retorno maravilhoso do Fotolog, conta Lozinsky, que além de dar aulas particulares, passou a oferecer o serviço de restauração em seu site http://www.digitalfotart.hpg.ig.com.br, cobrando entre R$ 10 e R$ 160 por foto. O preço varia em função da qualidade da foto. Recebo fotos antigas, rasgadas, arranhadas, manchadas e esmaecidas. Às vezes recuso certas fotos, pois são impossíveis de restaurar, lamenta.

Retoque tem a mesma idade da fotografia

A opinião acima é do fotógrafo e professor Nélson Martins, que acaba de inaugurar um curso de restauração digital de imagens no Senac Rio. Historicamente, russos e chineses eram os maiores manipuladores de imagens de que se tem conhecimento, mas todos os retratistas sempre manipulavam seus trabalhos, diz.

Martins, que tem no currículo a coordenação da primeira pós-graduação em Fotografia do Rio, em 1998, e a publicação do livro Fotógrafo o Olhar, a Técnica e o Trabalho, considerado a primeira obra totalmente nacional sobre o tema, lembra que, desde os tempos dos filmes, poucos profissionais se dedicam a restaurações. No Rio tive a oportunidade de conhecer e utilizar o serviço de duas dessas pessoas. O Constantino, da Glória, fazia retoques principalmente em painéis com grandes ampliações, onde a poeira nos negativos era um problema, e muitos álbuns de casamento.

Já na rua Senador Dantas, acompanhei o trabalho de uma senhora com quem aprendi muito. Na maioria dos casos era feita uma reprodução da imagem deteriorada e uma ampliação em papel N, da Kodak, que aceitava bem retoques a lápis, nanquim e tintas próprias. O resultado era ótimo, um grande trabalho de ilustração, conta.

Na rede De Plá, a restauração de fotos sempre foi um serviço com grande procura. Era um trabalho artesanal, mas com o digital ficou muito mais simples e rápido, afirma Daniel Plá, que oferece o serviço em suas lojas, a preços que variam entre R$ 15 e R$ 50 (restaurações como as da página ao lado custariam R$ 30).

Martins confirma que a manipulação digital substituiu todos os processo de restauração e retoque, mas diz que o número de especialistas continua pequeno. Infelizmente, poucos profissionais se dedicam à tarefa. Esta lacuna se tornou um nicho de mercado, e para aqueles que conhecem bem o Photoshop, um treinamento rápido traz as técnicas necessárias conclui.

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Um banho de Lua vermelha

Eclipse do astro emociona milhares de pessoas no Rio e atrai mais de dois mil espectadores à Praia do Arpoador, que teve até telão



A menina Gabrielle, com o pai, Stephane, e a madrinha Luísa: animada

O nevoeiro roubou a cena ontem no Rio. A Cidade Maravilhosa amanheceu quase londrina. Não se via nada além das nuvens que encobriram paisagens, formando enorme paredão branco pela orla de Ipanema, Copacabana, Baía de Guanabara e Cristo.

O mar sumiu. Comum durante o outono e com maior incidência no inverno, o fenômeno também aumentou a expectativa de quem aguardava outro espetáculo dos céus: o eclipse lunar. Previsto para ser visto a olho nu a partir das 17h20 a Lua nasceria do mar, já eclipsada, o satélite só deu o ar da graça às 17h50. Às 18h08 a Lua avermelhada começou a sair da penumbra. O show acabaria às 19h12, mas, às 19h08, o astro foi novamente encoberto, mas por nuvens.



Fenômeno no Arpoador pôde ser acompanhado também num telão

O fenômeno foi visto em todo o País e em outros continentes, como África e Europa. No Rio, centenas de curiosos foram às praias prestigiar o fenômeno. Um dos pontos concorridos foi a Praia Vermelha. No Arpoador, duas mil pessoas foram assistir ao espetáculo. Valeu a pena esperar. É lindo, uma pintura, elogiou a aposentada Stella Roma, 69 anos, que chegou ao Arpoador às 17h. Professora de Educação Física da Escola Municipal Castelnuovo, na Rua Francisco Otaviano, Nádia Szerman, 40 anos, usou o tempo de aula para matar a curiosidade das alunas de 5ª e 6ª séries. Eclipses não acontecem todo o dia e geralmente são de madrugada, justificou.

Segundo o diretor de Astronomia da Fundação Planetário, Ormis Rossi, a cada ano há em média dois eclipses, em posições diferentes da Terra. Eclipse como o de ontem não era visto há 25 anos: Temos alinhamento do Sol, Terra e Lua. Ao passar por trás da Terra, a Lua não recebe iluminação do sol e fica eclipsada. Geralmente, passa por cima ou por baixo, não alinhada desta forma. O próximo eclipse lunar será à meia-noite de 28 de outubro, que poderá ser visto olhando para cima e não para o horizonte.

Doze astrônomos e dois estagiários do Planetário tiraram dúvidas do público ontem. Também foram exibidos em telão documentários sobre o tema. Houve ainda apresentação do quinteto de metais da Orquestra Sinfônica Brasileira. O Arpoador não precisa de mais nada, porque já é lindo de qualquer jeito. Com um espetáculo como este, então, é programa imperdível. Pena que as nuvens encobriram o auge do eclipse, por volta das 17h30, lembrou a empresária Vera Carvalho, 62 anos, que foi à praia com a filha Andrea Bassani, 37 anos.

A pequena Gabrielle Coiffu, 3 anos, levou até binóculo. Expliquei o que aconteceria com a Lua hoje, e ela está animada, disse a madrinha Luísa Botelho, 50, pouco antes de a Lua aparecer. O pai, Stephane Coiffu, 42, também foi ver a desenvoltura de Lua e da filhinha.

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Diana Corso
05/05/2004


Chico em prosa

Chico Buarque não precisava provar mais nada para ninguém. Poeta maior, para que também escrever romances? A resposta está com José Costa, o personagem central do já consagrado Budapeste (Companhia das Letras). Ele é um escritor anônimo, cria textos que outros assinam, é bom no que faz, mas o anonimato lhe é uma compulsão. Não estava propriamente insatisfeito com seu destino, quando o acaso de uma conexão aérea o obrigou a passar uma noite na Hungria.

Astronauta das palavras, logo percebeu que sua nave caíra em outro planeta lingüístico. Essa língua originária da Ásia Central é carente de transparências para nós. Sua pronúncia acentua o início das palavras, o que lhe empresta uma sonoridade surpreendente aos nossos ouvidos. (Escutei húngaro toda a minha infância e posso lhes assegurar que ela tem outra música).

Costa passou a noite assistindo televisão, ou melhor escutando-a, e desenvolveu uma segunda compulsão: aprender húngaro. Já se disse, corretamente, que a melhor forma de aprender uma língua é amando nela. Eis que surge Kriska, para lhe dizer que "a língua magyar não se aprende nos livros". Em seus lençóis ele se entrega totalmente a esse novo amor, o idioma húngaro.

Chico e Costa ressaltam um aspecto da língua que temos bastante esquecido em nossos tempos pragmáticos. Comunicar-se em outros idiomas não serve apenas para pesquisar, fazer negócios, viagens de turismo ou qualquer outra utilidade. Falando em outra língua, podemos nos sentir pessoas diferentes. Um novo idioma pode até se aprender nos livros, mas os amores costumam ser excelentes mestres, porque, quando aprendemos a falar pela primeira vez, o fazemos no contexto de uma história de amor, a inaugural. Antes de nos apropriarmos das palavras e aprendermos a fazer nossas próprias combinações, a língua materna nos envolve como um abraço, em cujo embalo crescemos.

No início, percebemos apenas sua música, o cantinho que se faz ao falar. Cada lugar tem seu próprio tom, envolve de forma diversa, por isso podemos nos sentir no estrangeiro simplesmente por mudar de Estado. Uma nova língua, nova pátria (como diria Caetano) novas formas de ser. O destino de Costa, quando ele se torna Kósta, em sua nova identidade húngara, não é radicalmente diferente do seu modo de ser brasileiro, digamos que é como uma outra conjugação.

Adotar (ou ser adotado por ela) uma língua quase intraduzível ("lefordíthatatlan", em húngaro), cantada em outro tom, é como se existisse a possibilidade de começar uma vida em outro planeta, vale o investimento. Por isso compreendemos por que um poeta famoso se desafia no novo território da prosa. Chico tem razão, enquanto houver formas distintas de dizer as coisas, haverá outras vidas possíveis. Falar diferente é amar diferente, é viver diferente.

diana.corso@zerohora.com.br

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Cláudia Laitano
05/05/2004


Amigos

A televisão foi tão presente na minha infância que lembro dela quase como um membro da família. Éramos seis: meus pais, meus dois irmãos, eu e uma Telefunken 20 polegadas.

Algumas amigas minhas tinham toque de recolher antes da novela das dez. Lá em casa não. Odorico Paraguassu e Zeca Diabo, Gabriela e Seu Nacib, o homem com formigas no nariz - estava todo mundo liberado. E o Urso do Cabelo Duro, As Panteras, Banana Split, Chico City, Kojak, Flávio Cavalcanti, Xodó da Vovó. A lista não tem fim.

Sempre tive dúvidas sobre as marcas que anos de exposição massiva a toda essa poluição pop deixaram sobre a minha inteligência. Nos picos de delírio paranóico, imaginava que a TV havia sido nos anos 70 uma espécie de talidomida intelectual: milhões de inocentes e bem-intencionadas mães ao redor do planeta deixando seus filhos horas e horas diante da televisão sem saber os efeitos perversos que isso poderia ter (teve?) no futuro.

Nunca cheguei a nenhuma conclusão sobre o assunto, mas minha inclinação é por uma certa complacência em relação à TV - embora, por via das dúvidas, tenha decidido não testar a hipótese com a minha filha. Nossa babá eletrônica podia não ser inteligente o tempo todo, mas contava histórias, mostrava paisagens exóticas e eventualmente até falava sobre sexo. Seria injusto, embora de certa forma confortável, culpá-la pelo fato de eu não ter ajudado a humanidade a encontrar a cura do câncer.

Assim como chega uma hora em que a gente aprende a comer verduras, em algum momento, já no início da vida adulta, também aprendi a desligar a TV. Mas, de vez em quando, ainda aparece algum programa que mobiliza a energia da pequena telemaníaca que eu fui. Nos últimos oito anos, foi um seriado chamado Friends, que se despede esta semana do público americano e até o fim do ano do Brasil também. Depois de tanto tempo, a sensação é de que eles são da turma: somos eu, meus cinco ou seis amigos que adoram trocadilhos ruins e mais Ross, Rachel, Chandler, Monica, Joey, Phoebe e suas vidinhas tão essencialmente risíveis quanto as nossas, avançando idade adulta afora sem abrir mão de uma certa perplexidade e de alguma estupidez da adolescência.

Não sei em que momento desse mundo cheio de criaturas superexpostas à televisão na infância os amigos tornaram-se uma espécie de nova família, mas o fato é que a série capta bem o espírito dessa nossa época de individualismo e falência dos projetos de vida tradicionais. Amores duram um nada, família exige compromissos. Resta para a turma ocupar o papel de referência afetiva permanente, sem as cobranças de casa, sem a fragilidade de relacionamentos amorosos descartáveis. Estar entre amigos que a gente gosta e que nos fazem rir é a coisa mais próxima da adolescência que a gente pode manter na vida adulta sem expor-se muito ao ridículo - e a série celebra o enorme prazer dessa convivência.

Quando a atriz que fazia a primeira Narizinho ficou grávida, vi que definitivamente eu não era mais criança. Friends sai do ar levando um tanto da minha juventude embora.

claudia.laitano@zerohora.com.br

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Martha Medeiros
05/05/2004


Esperança zero

Recebo centenas de e-mails por dia. A maioria nem é para mim exatamente, são mensagens jogadas no espaço virtual e que caem no meu computador, já que consto da caixa postal de meio mundo - virei voyeur do universo. Lá estão os relatos de brasileiros que vivem no Exterior e que, em sua maioria, adorariam voltar pra cá, pois acreditam que, apesar dos problemas, não existe país como o nosso, tão alegre. Alegria, alegria. Eta gente que gosta de caminhar contra o vento, sem lenço, sem documento, sem tostão, sem emprego, sem futuro.

Decretei o fim da minha esperança segunda-feira de manhã, quando me flagrei dizendo para uma amiga que, se surgisse uma oportunidade, iria embora daqui. Abandonaria o barco. Mulheres e crianças primeiro, não é assim? Me candidato a uma vaga no bote.

Já tivemos militares no poder, civis no poder, sociólogos no poder, operários no poder - e o poder não muda, segue o mesmo. Amanhã poderemos ter mágicos, donas de casa, jornalistas, duendes no poder, e o Brasil não vai encontrar o rumo porque, como cantava Cazuza, esta droga já veio malhada antes de a gente nascer. A encrenca começou antes mesmo do "terra à vista!". Tudo errado, desde o princípio.

Garotos fazem rachas de carro na madrugada, a polícia sabe, o governo sabe, todo mundo sabe - mas ninguém pode fazer nada, dizem as autoridades. Adolescentes fumam crack em pontos conhecidos da cidade, uma equipe de jornal vai lá e fotografa, põe na capa - e nada acontece. Rebeliões explodem em presídios, e ninguém consegue contê-las. Tiroteios em vias urbanas. Garimpeiros assassinados. Bandidos roubando armas de dentro dos quartéis. Invasões de terra. Professores ganhando uma miséria. Ninguém faz nada. Parece que está tudo dentro da lei. Naufragar é a lei.

O salário mínimo de R$ 260 foi, se analisado racionalmente, e não emocionalmente, a boa notícia da semana passada, sinal de que o presidente ainda tem algum juízo, já que é impossível dar aumento sem ter dinheiro em caixa. O motivo deste valor decepcionante, todos sabem: o rombo da Previdência. Que vai ser costurado quando? Quando não houver mais corrupção no país, ou seja, guardem as agulhas, que o rombo é pra sempre.

Maria Rita, Daiane dos Santos, Ronaldinho Gaúcho, Walter Salles, Lya Luft, Chico Buarque, obrigada, porque é por vocês que a gente ainda respira, relaxa, sorri, tem fé, acredita. Não sei o que seria da nossa auto-estima sem o esporte e a arte. Vocês estão segurando este rojão. Eu tenho tentado segurar também, e, no entanto, olha só a crônica que me saiu hoje. Não fosse por alguns talentos individuais, eu encerraria dizendo: desculpe o mau jeito, mas o Brasil acabou.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
05/05/2004


Junções Sucessivas Contrárias Primeira à Esquerda

Na auto-escola se aprende: existe um mundo intrigante e colorido, que é o mundo das placas de trânsito. Nunca havia refletido sobre elas, todos os dias nos cercando, uma em cada esquina, e agora elas me encantam. Há uma, por exemplo, que é um triângulo invertido, de perímetro vermelho e fundo branco. Ordena: "Dê a preferência". Fiquei algum tempo a analisar essa placa - um triângulo, só. Por que não está escrito ali no meio: "Dê a preferência"? Podia. Dê a preferência é tão curtinho.

Outra é um veadinho saltando. Não seja malicioso, estou falando do animal. O desenho até pode ser de uma corça. Ou de uma gazela, sei lá. Enfim, um bicho, não um ser humano com opção sexual heterodoxa. A placa essa adverte: "Animais selvagens". E no caso também creio que poderia estar escrito ali, entre as pernas longas do veado: "Animais selvagens". Tem espaço.

Várias placas poderiam se valer da comunicação escrita, suponho, até porque é preciso saber ler para tirar a carteira. Mas uma delas não, de jeito nenhum, e essa é a minha preferida. É a placa que significa o seguinte: "Junções Sucessivas Contrárias, Primeira à Esquerda".

Não é maravilhoso uma placa dizer Junções Sucessivas Contrárias, Primeira à Esquerda? Com um único símbolo, formado por um traço vertical espetado por outros dois pequenos horizontais, ministra-se todo um universo de informações. Basta um sinal para o motorista saber que logo à frente há junções sucessivas contrárias, e mais: que a primeira delas é à esquerda. Quer dizer: o motorista, se pensasse no significado da placa, nem saberia que ela fala de junções sucessivas contrárias, mas olhando, apenas olhando, ele apreende o significado. Se estivesse escrito, ele se confundiria; como lá está apenas o sinal, ele entende.

O mundo dos sinais é mesmo fascinante. Sinais têm de ser levados a sério.

A ausência de público no Brasileirão é um sinal. De que o ingresso está caro, dizem. E concordo. Mas será que é só devido ao preço? Será que também não é devido ao produto? Um campeonato disputado por times mutilados pela Lei Pelé, uma lei que franqueou ao imperialismo europeu o acesso aos melhores jogadores brasileiros, esse campeonato arrabaldino vale 15 reais por jogo?

Além do mais, quem quer assistir a uma partida pela terceira rodada de um campeonato com 46 rodadas? Que importância tem essa partida?

Alguém dirá que as 46 partidas são importantes. Ora, isso é o mesmo que dizer que nenhuma é importante. Se o Wianey Carlet tivesse 46 ex-mulheres, qual seria importante? Nenhuma! Uma única ex-mulher, essa sim é importante.

O sinal que o torcedor está emitindo é mais complexo do que exclusivamente o preço do ingresso. Não é como aquela placa onde poderia estar escrito, concisamente: "Dê a preferência". Não. É mais uma composição que pede reflexão e pesquisa. Como Junções Sucessivas Contrárias, Primeira à Esquerda, coisa bem linda essa placa.

Foto(s): reprodução/ZH

Pra deixar os brotos gamados

Nas revistas Realidade de 1967 foram publicados anúncios da bicicleta Monareta, "A Bicicleta do Rei Pelé". O texto do anúncio é uma delícia para quem aspira entender a época: "Monareta 67 é brasa nos States, na Suécia, na Inglaterra... no mundo inteiro! Agora no Brasil também, o bom é esnobar com a Monareta. É o bom pra passear com a turma, pra botar uma banca legal, pra deixar os brotos gamados. É a onda máxima, mora!"

Outro anúncio, do Canal 5, apregoa seus principais programas: Os Três Patetas, Repórter Esso, Silvio Santos, Musikelly, Jonny Quest e a novela "O Sheik".

Finalmente, temos essa página em que o Rei Roberto Carlos aparece envergando roupas da Coleção Jovem Guarda, lançada pela Confecção Camelo. Que beleza, o Rei, com seu cabelo tão bem assentado, a camisa rosa, o terno xadrezinho e a pulseira vistosa. O Rei, que um dia disse sobre o futebol:

- Tenho raiva de bola.

Que coisa.

A publicidade fornece informações preciosas a respeito do comportamento das pessoas e do tempo em que vivem. Se houvesse anúncios publicitários da Idade Média para trás, saberíamos muito mais acerca de nós mesmos, acredite.

Foto(s): Carlinhos Rodrigues/ZH

Laura na ponta dos pés

Zero Hora completou 40 anos ontem, somos ambos de touro. Em comemoração, nós funcionários ouvimos a Ospa regida pelo maestro Isaac Karabtchevsky aqui, nas entranhas do prédio, em meio às poderosas máquinas Goss e enormes cilindros de papel de dois metros de altura e diâmetro de roda de trator. De repente, olho para cima e vejo o Kadão se equilibrando no alto de um dos cilindros, fotografando. Engoli em seco, imaginando o Kadão a despencar sobre um dos violoncelos, que horror.

Todos nos emocionamos com a Ospa, dos funcionários das rotativas aos corações mais empedernidos, como o do Mário Marcos. Quem diz que povo só gosta de pagode? Mas o que mais me deixou enlevado foi quando o mestre de cerimônias chamou Laura, uma moreninha de 10 anos de idade, que desde os três aprendeu a ler nas páginas de Zero Hora. Laurinha foi homenageada como representante dos jovens leitores do jornal. Subiu ao palco, pôs-se na pontinha dos pés para alcançar o microfone, falou com propriedade e segurança. Fiquei cativado pela Laurinha, disse isso aos que me rodeavam.

Depois do almoço, ao voltar para a Redação, quem encontro? A Laurinha, acompanhada dos pais e da Rosane Oliveira. E aí, sim, a maior surpresa: ela esperava por mim! Disse que gosta do que escrevo e que queria me conhecer. Ora, eu é que havia me tornado admirador da Laurinha. Conversamos brevemente. Ela quis saber por que, volta e meia, introduzo o futebol nas minhas crônicas. Tentei explicar, não sei se consegui. Em todo caso, ganhei um beijo. Fui trabalhar feliz. No dia do aniversário da Zero, ganhei um presentão.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
05/05/2004


Momento decisivo

Estou ao mesmo tempo emocionado e tenso. Emocionado porque hoje já é dia 5 e até ontem à noite os preços da gasolina em Porto Alegre permaneciam estáveis, entre R$ 1,94 e R$ 1,95, sendo recebidos pelos consumidores com alegria e entusiasmo.

Estou tenso porque o mercado se move (ou fica estático) silenciosamente e não se pode prever se haverá uma alta súbita, a exemplo dos dois últimos inícios de meses.

Estou tenso porque este é um momento decisivo: se a gasolina for mantida até o fim do mês neste preço atual ou pelo menos não exceder a R$ 2,05, o jornalismo se terá convertido numa espécie de agência reguladora de preços, inaugurando-se entre nós uma relação de confiança e cordialidade entre os fornecedores e consumidores de nossa cidade.

Que espetáculo maravilhoso de mercado civilizado e humano se concretizará aqui em Porto Alegre se os preços refletirem nos próximos dias um acordo tácito entre os fornecedores, com margem de lucro digna e compensadora, e os consumidores, despidos da sensação de que estão sendo explorados.

Torço emocionadamente por isso nesses dias decisivos do início do mês.

É um teste de compreensão e paz entre os homens.

Recebo do senador Paulo Paim (PT-RS), em resposta a minha coluna de sábado: "...O centro de minha luta política é manter a coerência naquilo que sempre defendi. Coerência para defender, como sempre defendi, o salário mínimo de US$ 100.

Sant'Ana, se, por exemplo, eu tivesse jogado a toalha na questão da reforma da Previdência e, simplesmente, me retirado da arena de luta, os grandes prejudicados seriam os trabalhadores. Eles não teriam paridade, transição, subteto, e os inativos, deficientes, aposentados por invalidez e portadores de doenças incapacitantes ou permanentes não estariam isentos até o limite de R$ 4,8 mil. Além disso, as donas de casa não teriam direito a aposentadoria, nem os desempregados a vínculo com a Previdência.

Como vemos, a PEC paralela está bem encaminhada. Esperamos que aconteça o mesmo com o debate do salário mínimo. Matéria que defendo com a mesma coerência que tive na aprovação do Estatuto do Idoso e pela qual espero ver aprovados os Estatutos da Igualdade Racial e do Portador de Deficiência. Projetos que envolvem as vidas de milhões de brasileiros.

Ressalto que a credibilidade de um homem público passa por ele não mudar o discurso quer esteja na oposição ou na situação. Caro Sant'Ana, não posso ir contra os meus ideais e, principalmente, contra aquilo que defendi ao longo de minha vida. Estou com 54 anos, cabelos brancos e já sou avô. Portanto, não vai ser agora que passarei a ser incoerente tendo discurso e prática diferentes. Cordiais saudações, (ass.) senador Paulo Paim".

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Imprensa
A sinfonia dos 40 anos



Regida pelo maestro Isaac Karabtchevsky (D), a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre deu um toque especial ao aniversário de ZH ao fazer, ontem de manhã, uma apresentação inédita junto às rotativas do jornal (foto Ricardo Chaves/ZH)


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Terça-feira, Maio 04, 2004




Caixa lançará linha de crédito para ampliação e reforma de imóveis

Geralda Doca - O Globo

BRASÍLIA - A Caixa Econômica Federal lança nesta quarta-feira novas linhas de crédito para ampliação, construção e reforma de imóvel residencial ou comercial com recursos próprios para a classe média. No fim do ano passado, a Caixa reativou sua linha de financiamento com recursos próprios para compra de imóveis novos e usados. A informação foi divulgada pelo vice-presidente de negócios bancários e imobilários da Caixa, Fábio Lenza.

A Caixa deve divulgar ainda nesta quarta-feira as taxas de juros e condições de pagamento da nova modalidade de crédito. Atualmente, a Caixa oferece a linha de crédito com recursos do FGTS e o Construcard.

Até esta quarta-feira começa a vigorar um novo seguro residencial da Caixa para a classe média. Atualmente, a instituição só oferece esse tipo de seguro para baixa renda e o limite do imóvel é de até R$ 60 mil. Com o novo seguro, será permitido garantir a cobertura para imóveis com valores acima de R$ 70 mil. O seguro terá uma cobertura básica - incêndio, queda de raio e explosão - e o interessado terá outros riscos que podem ser cobertos, como danos elétricos, impacto de veículos e queda de avião, roubo e furto de móveis e acidentes pessoais envolvendo empregados.

As taxas do novo seguro variam de acordo com as regiões. No Distrito Federal, por exemplo, o seguro de um imóvel de R$ 100 mil com uma série de coberturas fica em R$ 181,55 por ano, valor que pode ser dividido em até sete vezes.

Segundo o gerente executivo de marketing da Caixa Seguros, Adalberto de Sousa Luiz, a meta da Caixa é atingir 10 milhões de clientes com o novo seguro (a Caixa tem 23 milhões de correntistas) e no prazo de um ano chegar aos primeiros lugares das instituições que mais arrecadam com o seguro residencial. No ano passado, a Caixa ficou em 12º lugar nesse ranking.

A Caixa também deve lançar até o fim do semestre uma nova modalidade de seguro residencial e de vida para baixíssima renda, que são os clientes do Caixa Aqui. Os valores também serão parcelados.

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Abuso contra a infância

Marcia Cezimbra e Mauro Ventura

Os professores acharam a menina de 10 anos tão inventiva que deram a ela o primeiro lugar no concurso de redação infantil do colégio. O texto vinha acompanhado de um desenho chamado A mão invisível, igualmente premiado. A mão que sobrevoava a casa, entrava no quarto à noite e invadia as cobertas foi classificada como uma história de literatura fantástica e acabou no mural da escola, numa exposição com os melhores trabalhos.

E a mãe de outra criança visitava a mostra quando tomou um susto com o desenho, semelhante ao que tinha visto numa reportagem sobre abusos sexuais contra crianças. Graças à sua denúncia, descobriu-se que a menina era violentada há quatro anos e meio pelo padrasto, que entrava no quarto com a desculpa de desligar o ventilador. A redação e o desenho foram a forma que ela encontrou de expressar o horror de que era vítima.

A criança dá sinais, mas os adultos muitas vezes não percebem. É uma violência ensurdecedora, mas que ninguém ouve diz a psicanalista Graça Pizá, diretora da Clínica Psicanalítica da Violência (Cliviol), em Ipanema, na Zona Sul carioca.

Graça coordena uma pesquisa com 853 crianças a maioria entre 3 e 9 anos, de todas as classes sociais atendidas na clínica entre 1998 e 2003. Os dados traçam um quadro aterrador e revelam os sinais de alerta emitidos pelas vítimas.

Às vezes, eles vêm na forma de frases como o papai-tubarão solta uma gosma verde. Também surgem como desenhos que falam de dragões com língua de fogo, mostram olhares sedutores do pai, trazem crianças sem braços, incapazes de se defender, apresentam mãos mãos que beliscam, acariciam, machucam e invadem o corpo infantil. Num desenho, uma menina criou uma história para cada dedo. O indicador tinha o nome do padrasto.

Há o caso de uma criança que ficou desesperada quando soube que a madrasta estava grávida tinha medo de que o pai abusasse do irmão que estava para nascer, como fazia com ela. Outra garotinha não quis mais assinar o sobrenome completo no colégio só o da mãe.

A criança violentada muitas vezes se desenha sem expressão humana. Há um desejo de estar invisível, de desaparecer. Mas o primeiro sintoma é a repulsa. A criança tem medo explica Graça.

As mães muitas vezes ignoram os avisos, mesmo quando vêm na forma de corrimentos, inflamações e infecções.

Há uma recusa do real. Elas não acreditam, fecham os olhos, até que a criança começa a sinalizar intensamente e aí as mães não têm como negar diz Gabriella Barbosa, assistente de direção da Cliviol.

Gabriela atende às mães e já se habituou a ouvir desculpas como: Observei um corrimento ralinho, mas não levei ao médico para não expor minha filha. O incesto torna-se, assim, um segredo familiar.

É um crime quase perfeito. Mas sempre escapa algo num desenho, num sonho, numa redação, ou num ato falho conta Graça.

Sem poder recorrer ao pai ou à mãe, a criança se sente órfã, deprimida, envergonhada, pensa em morrer.

Quando não tratada, o horizonte da vítima é o homicídio, o suicídio, a droga, a prostituição diz a psicanalista. Ela vive 24 horas de tortura por dia. É uma experiência semelhante à do preso político, que nunca sabe a hora em que o torturador vai chegar.

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Uma noite de sexo mudou o Ocidente

Bill Clinton estava ansioso no salão oval da Casa Branca. O que o excitava era justamente o absurdo da situação. O homem mais poderoso do mundo esperava a chegada de Monica Lewinsky com seus lábios deslumbrados. Monica saiu do edifício Watergate (!) onde vivia com a mãe republicana e passou pela vigilância do palácio com seu cartão de estagiária. Na penumbra do gabinete, Bill, sentado em sua mesa de despachos, viu a porta se abrir e, numa fresta de luz, Monica surgiu ofegante da aventura e do perigo.

Clinton sentia um intenso prazer em pensar: Se me vissem aqui... Ela se arrojou no carpete com as armas da república e, no silêncio da noite, iniciou suas carícias no presidente amado. Bill estava tenso, pois não conseguia parar de pensar em Sharon e Arafat, o que lhe cortava a onda para aproveitar o relax que a moça lhe proporcionava. Para esquecer o Oriente Médio, ele se imaginava como um grande globo poderoso, inflando à medida que Monica se esmerava a seus pés.

Ela amava o senhor do mundo e sonhava com o que diria para as amigas, especialmente Linda Tripp, sua confidente. Quando o orgasmo se anunciou, vindo de longe, talvez dos bosques da Pensilvânia, ele se excitou mais ainda pensando que a moça era republicana e que aquilo vingava-o contra a gangue da direita cristã. Finalmente, Clinton se entregou com um grande gemido de prazer, pairando como a Águia Americana sobre os olhos súplices da gorduchinha devota. E, nesse momento, o mundo mudou.

Não estou exagerando. Eu estava na América e vi. Quem ajudou nessa revolução da direita foi também uma mocréia rancorosa chamada Linda Tripp, que aconselhou Monica a guardar a mancha indiscreta que lhe molhou o vestido naquela noite. Meses depois, Clinton foi desmascarado por um espermatozóide delator. O resto é História. Esse boquete mudou o Ocidente.

Dirão alguns: Devagar com o andor.... Não. O aterrorizante é que não é exagero. A direita se ergueu contra o sexo. Kenneth Starr, o promotor veado-enrustido, lançou a mais implacável campanha já vista contra o Bill e a nação só falou de sexo oral o ano todo. Era constrangedor ver a loucura do puritanismo careta.

O país da liberdade sexual dos anos 60, dos direitos civis virou um antro moralista discutindo detalhes genitais. Foi feio de ver o Clinton jurar em close na TV que jamais comera a moça e, dias depois, o espermatozóide guardado por Linda Trip vir a público para destruí-lo. Quase impicharam o homem e, como a besta careta do Al Gore ficou com medo de defender Clinton na campanha, pois sua mulher e a América podiam considerá-lo conivente com a sacanagem, Bush foi eleito, com a fraude do irmãozinho na Flórida.

O que apavora é que quase expulsaram Clinton por sexo e, hoje, ninguém falou em impeachment para um canalha que destruiu o nome da América, dividiu o Ocidente e criou possibilidades reais de guerra nuclear para os fanáticos. Ninguém pensou em expulsar esse rato. É espantoso como um só imbecil pode mudar o mundo sem que ninguém possa fazer nada.

Isso é até didático para o Ocidente. Achávamos que o nosso mundo estava invulnerável a loucuras individuais tipo Hitler. Acreditávamos que uma impessoalidade moderna da democracia impediria excessos pirados. Nada disso. A neurose, a repressão sexual e a milenar estupidez humana são mais fortes que qualquer iluminismo. Osama deve ter ficado surpreso e grato diante da ajuda que Bush lhe deu. Toda a estrutura das conquistas democráticas da Europa, depois do sofrimento de duas guerras, de 30 anos de Guerra Fria, está irremediavelmente abalado. Estamos humilhados. Somos muito mais frágeis do que supúnhamos.

A barbárie é mais sólida e obstinada que a civilização. A razão é um luxo de elites. Vejam os bilhões de imbecis com o rabo para cima rezando todo dia para um ser que não existe, pois Alá não existe eu tenho o direito democrático de ser ateu. E do outro lado, milhões de energúmenos comedores de hambúrguer acreditam ainda no louco do Bush, podendo ate reelegê-lo em nome de um Jesus guerreiro de direita. É de enlouquecer até o Habermas. A religião não é o ópio do povo; é a bomba do povo.

Vemos hoje que a civilização é um enfeite de bolo. É muito mais fácil ser um boçal, um fanático que ignora a existência desta coisa requintadíssima chamada outro. Somos todos máquinas de desejar a própria paranóia, somos seres atrasados e egoístas, coisas, aliás, que não apenas as teocracias do Oriente estimulam, pois a nossa democracia de massas faz o mesmo. É muito mais fácil aceitar o fascismo e o fundamentalismo do que o comedimento, a dosagem do próprio desejo, a tolerância diante do irmão com direitos iguais. Somos animais escrotos e mal contidos por essa casquinha de democracia e bons modos aprendidos no século XX.

E, hoje, estamos diante de um perigo duplo: no Oriente, temos a Idade Média do século VII, armada com a internet e armas nucleares e, no Ocidente liberal, o perigo de surgirem populismos militaristas de defesas autoritárias para acabar com a democracia.

A estupidez está no poder, aqui e lá. A paranóia narcisista mata para esquecer que vai morrer.

O paranóico prefere matar o outro, culpado de tudo, a olhar para dentro de si, porque sabe que, lá no fundo, está a doença sexual e o mistério da própria loucura.

Não foi Osama quem feriu o Ocidente. Foi Bush. O gravíssimo fato não é a presença de Bush no poder, apenas. É que, mesmo quando ele se for, é que ele deixou o mundo estragado para sempre, é que ele despertou a barbárie que ele tinha dentro de si, de sua gangue de fascistas e dos árabes doentes. Bush criou uma guerra santa no Oriente todo e sujou todas as conquistas civilizadas que tínhamos conseguido. E essa guerra não vai acabar nunca, seja eleito o Kerry ou qualquer outro. Quando Hitler foi vencido, acabou um inimigo. Agora, nasceu um inimigo parido por Bush que jamais será extinto.

Desculpem o bode, mas é isso aí.

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Ranzinzamente correto

Por PAULO REBÊLO

Especial para o PERNAMBUCO.COM

O mundo ficou muito mais chato depois que inventaram o tal do politicamente correto. Que nada mais é do que uma expressão perfeitamente tucanada para os pseudo-moralistas de plantão levarem tudo a sério.

Não se pode mais contar piada de gays, virou preconceito. Brincar com o excesso de emotividade das mulheres agora é machismo. E conversar sobre mulheres boazudas e bundudas é sexismo.

Por mais que os termos "piada" ou "humor" apareçam, o zé mané politicamente correto sempre dá um jeito de ignorá-las e aproveita para exercer toda labuta intelectual que lhe convém. Em geral, funciona para esconder o próprio racismo, machismo, sexismo e outros ismos.

Para as mulheres, parece fácil conviver com toda a febre de gente politicamente correta. Para homem, é muito difícil.

A fórmula é simples. Se você quer medir o grau de amizade entre um homem e outro, calcule em vinte minutos quantas vezes eles vão se chamar de "frango safado", "viadinho", "fresco", "boiola", "queima-rosca" e outros elogios menos polidos. Quanto mais elogios desse calão você ouvir, maior o nível de amizade entre as duas figuras. E menor o grau de frescura desnecessária. E de bichisse.

Entretanto, na rua - e em muitos bares, sobretudo os da moda - a gente não pode mais chamar o amigo de infância de boiola. Não é politicamente correto, pois ali perto pode ter um boiola de verdade - melhor dizendo, uma pessoa de aptidão sexual diferente da sua.

Essa pessoa, cujo caneco não é só output, mas também input, não vai nem se importar com você, porque sabe diferenciar brincadeira de coisa séria. Mas, tenha certeza que do lado sempre tem um politicamente correto que vai fazer cara feia. Então, você vai virar um preconceituoso. Um retrógrado. E o politicamente correto volta para casa feliz da vida, achando que fez um bem para a humanidade.

Com a liberalização dos sexos nos últimos anos, muita gente parece esquecer que o fenômeno caminhou em mão dupla. Ao mesmo tempo em que os homossexuais passaram a ter uma maior segurança em sair do armário, imagina-se que sejam desenrolados o suficiente para diferenciar com naturalidade uma piada de um falso moralista.

Só os politicamente corretos não aprendem. Sempre precisam tucanar tudo. Em linhas gerais, sempre me pergunto se eles não fazem isso como mecanismo de defesa para esconder a própria vontade de sair do armário (homem) ou para reprimir frustrações emotivas (mulher).

Dizem que toda generalização é burra, mas já que "burro" parece não ter sido tucanado ainda, a gente pode continuar generalizando.

Convenhamos: se a gente não pode mais contar piada de negros, gays, mulheres, judeus, padres tarados, loiras burras, cegos, cotós, argentinos e portugueses, então a gente vai contar piada de quê? Não sobra mais nada. Só aquela piada dos dois tomates.

Das duas, uma: ou estamos ficando excessivamente tucano-americanizados ou então precisamos, urgentemente, inventar piadas bem pesadas (e politicamente incorretas) sobre os politicamente corretos de plantão.

www.rebelo.org

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Escola da Ufrgs oferece vagas no Ensino Técnico

A Escola Técnica da Ufrgs, que este ano completa 95 anos, informa que o processo seletivo de inverno terá inscrições abertas de 1º a 9/6. Serão oferecidas 265 vagas em cursos diurnos e noturnos. As inscrições podem ser feitas via Internet (www.etcom.ufrgs.br) ou na Escola Técnica, onde serão disponibilizados terminais para esta finalidade, das 9h às 16h.

As aulas se iniciam no 2º semestre de 2004. O candidato deve ter o Ensino Médio completo ou em fase de conclusão até julho deste ano. Mais informes: (51) 3316-5172.

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Che belo

Gael García Bernal, astro de Diários de Motocicleta destila charme e amor pela América Latina em entrevista exclusiva

Flávia Motta

Da cobertura do hotel, na Avenida Atlântica, Gael García Bernal dá entrevistas sobre Diários de Motocicleta, filme de Walter Salles em que vive Ernesto Guevara de la Serna e que estréia sexta-feira nos cinemas. Sentado numa cadeira, olha o morro do Pavão-Pavãozinho e dispara: Rocinha?. Não, a Rocinha não pode ser vista daquele lugar e o mar é ali ao lado, Gael. Não canso de olhar para isso, diz e continua fitando a favela.

Gael já viu pobreza bem de perto várias vezes. Não fosse o fato de ter crescido no México, também teve as locações pelas quais passou durante as filmagens para refazer a viagem dos amigos Ernesto Guevara e Alberto Granado, nos anos 50 uma mina no Chile, um leprosário na Amazônia venezuelana, os pueblos incas no Peru. Aos 13 anos comecei a fazer trabalhos voluntários na escola. Participei de grupos de alfabetização em tribos mexicanas e comunidades pobres. E a viagem do filme me fez ver o quanto a América é problemática. Mas também aumentou meu sentimento em relação ao continente, estendeu a minha casa, revela, apaixonado.

Tive que pedir permissão aos deuses. Imagina, viver Che era uma tarefa quase profana

Para viver Guevara antes de se tornar o revolucionário Che, Gael pesquisou, visitou a família e os amigos de Cuba e da Argentina e teve que aprender a se equilibrar em cima da moto Norton, que guia os dois companheiros pelo continente. Era um modelo muito antigo, mais difícil, justifica. Dificuldade ele teve também com o idioma. O sotaque e as expressões são um bocado diferentes na Argentina e no México. E também tive que pedir permissão aos deuses. Imagina, viver Che. Era uma tarefa quase profana, diz, sorrindo.

Lembrado de uma entrevista, há um ano e meio, em que se desfez em elogios para o diretor Walter Salles, Gael faz graça com a repórter Por isso reconheci a sua voz , mas logo muda o tom: Desde então minha admiração só aumentou. Ele tem uma generosidade quase espiritual, me apresentou muito do cinema brasileiro. Vi filmes de Glauber Rocha, Pixote, Carandiru, enumera.

Sempre invento coisas. Não adianta gravar essa conversa. Posso estar mentido e você não vai saber, Gael García Bernal

Na passagem pelo Brasil, Gael conquistou a apresentadora Fernanda Lima. Não é surpresa. Na mesma conversa por telefone de tempos atrás, o ator contou que, numa passagem pelo Rio, arrumou uma namorada carioca. Como anda o velho relacionamento?

Eu inventei isso. Sempre faço essas coisas quando dou entrevistas. É que fico cansado e essa é uma maneira de me manter esperto. Mas é só brincadeirinha. Por isso, não adianta nada gravar nossa conversa. Eu posso ter inventado tudo e você nunca vai saber, diz, sem perder a ternura.

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Homens ficam mais vaidosos

Empresas aumentam faturamento oferecendo serviços ao público masculino antes só procurados pelas mulheres
Silvana Caminiti

O homem moderno tem dado uma vazão cada vez maior ao seu lado vaidoso. Convicto de que elegância e sucesso profissional caminham lado a lado, o público masculino está mais atento à valorização pessoal e disposto a investir no visual. Prova disso, é o surgimento do metrossexual, como é denominado o homem que gasta sem muitas reservas na compra de cremes para o cabelo, com cosméticos, roupas e calçados da moda, perfumes e tratamentos faciais, como aplicações de botox (coisa que antes apenas as mulheres faziam) ou depilação a laser.

Entre os estabelecimentos comerciais que aumentaram seus lucros com a mudança de comportamento do público masculino estão os salões de beleza, como o Degradée, no Shopping Tijuca. Há seis funcionando no centro comercial, o salão vem conquistando cada vez mais clientes do sexo masculino, público que hoje já representa mais de 50% do total de clientes do local.

A subgerente Sandra Viana lembra que, no caso de alguns serviços, como corte de cabelos, a procura chega a ser maior entre os homens que entre as mulheres. Mas, hoje, a vaidade masculina vai além. Atualmente, os homens vão ao salão em busca de serviços diferenciados. Alguns dos mais procurados por eles são a limpeza de pele, e depilação das orelhas e das costas. Aliás, passamos a oferecer esses serviços em função da demanda, conta ela.

Já o cabeleireiro Carlos Henrique Brito explica que se eles gastam, também fazem exigências, como ser atendido em horários menos movimentado. Os homens querem discrição quando buscam certos serviços, como pintura de cabelo, por exemplo, diz ele.

Degradée: (21) 2567-6767
www.degradee.com.br

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Liberato Vieira da Cunha
04/05/2004


O cocker e o cego

Em Porto Alegre desfilam cenas tão insólitas que não me admirei ao surpreender, de uma sacada, o cego conduzido por um cocker. Das alturas em que me achava, podia divisar largos horizontes, de jeito que notei quando o homem fez menção de cruzar a avenida, operação vetada pelo cão e aliás com exemplar bom senso: surgira do nada um desses bólidos esportivos aparentemente imunes a todos os dispositivos do Código de Trânsito, pois ignorou olímpico o sinal vermelho e a faixa de segurança. Só quando desimpedido o caminho, o cocker levou incólume o dono ao passeio oposto.

Sempre pensei que os guias de cegos fossem animais de grande porte e de estirpes incomuns. Conheço os cockers. Tive um, que atendia por Shakespeare, mas não se importava com o prosaico apelido de Shakes. Era paciente, terno, obediente, dono de uma brandura infinita espelhada em seu líquido olhar. É verdade que demonstrava certa prematura inclinação para as delícias do sexo, como não tardaram a perceber suas vizinhas dos mais diversos pedigrees, ou mesmo sem título algum de linhagem, mas não creio que isso seja pecado. Na idade apropriada para o casamento, foi despachado a uns amigos em Cachoeira, que é onde deve viver até hoje, já bisavô, mas, desconfio, eterno conquistador e maroto.

Acompanhando de longe o cego e o cocker na avenida me comovi, talvez bobamente com o desvelo responsável e cuidadoso do pequeno condutor. Estou convicto de que seu dono chegou são e salvo em casa e me atrevo a crer que o presenteou com afagos e um biscoito extra.

Gosto das pessoas que gostam de cães. Há nelas evidentes reservas de bondade, pois se amam essas criaturinhas de Deus, deve sobrar-lhes apreço mesmo para a turbulenta, inquieta, por vezes desapiedada espécie humana. Tenho um amigo que é solidário, compassivo, revela adoração pelas crianças, ampara em silêncio a quem quer que recorra à sua generosidade anônima. Mas brilha um sorriso de ironia em sua face ao ouvir histórias de cachorreiros, como se fosse inútil perda de tempo devotar afeto a um simples cão.

Imagino contudo que mudaria de parecer se visse o cocker passeando o cego na avenida, humilde, vigilante, zeloso como nem sempre costuma ser a desmiolada matilha formada pelo bicho-homem.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
04/05/2004


A guerra dos números

Em suas promessas de campanha, os políticos cometem dois tipos de erro. O primeiro é não usar números, é trocar a quantificação pela retórica bombástica: a velha história de prometer, nos comícios, saúde e educação, segurança e emprego - o Quarteto Infalível. O segundo tipo de erro é usar os números de forma mágica. Cifras tiradas do bolso do colete, como se dizia à época em que os coletes eram uma elegante peça do traje, não uma proteção contra balas.

Durante uma época falou-se que havia 30 milhões de menores abandonados nas ruas brasileiras. A cifra era repetida insistentemente, até que alguém se lembrou de perguntar de onde tinha saído. Ninguém sabia. Que o número fosse absurdo não tinha importância; o importante era a repetição. A ladainha.

Para o salário mínimo, havia um número mágico: cem dólares, por exemplo. Por que cem dólares, e não cem euros? E qual dólar, o comercial, o turístico, o paralelo? Estas questões não entraram em cogitação: o salário mínimo nacional ficou inferior aos cem dólares e isto custou caro para o nosso presidente, derrotado no debate com os Exterminadores de Sonhos, os membros da equipe econômica. Que sabem usar os números e usam-nos como armas mortíferas. A equipe econômica mostrou que cada real do salário mínimo representa R$ 120 milhões no gasto público. E aí o governante vê-se diante de um dilema.

O salário mínimo poderia ser aumentado, sim, mas à custa de inflação, ou de calote, ou de cortes em outros programas sociais. É uma escolha sombria, da qual só podem falar com volubilidade aqueles que não dependem de salário, e que são exceção no país. Significa isto renunciar à luta por melhores condições de vida para a população? De maneira alguma. Significa apenas que é preciso aprender a usar os números em benefício da população. Como disse o famoso cientista Lord Kelvin, tudo que é verdadeiro tem expressão numérica. O país precisa ganhar a guerra das cifras.

Como leitor e depois como colaborador, acompanhei boa parte dos 40 anos da nossa Zero Hora. Durante esse tempo, o jornal, a princípio precário, cresceu e se transformou num dos gigantes da imprensa brasileira. Quarenta anos, diz a Bíblia, foi o tempo que os hebreus vagaram no deserto até entrar na Terra Prometida. Se existe, para jornais, uma Terra Prometida, Zero Hora chegou lá.

scliar@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
04/05/2004



Poesia maior

Livro novo de Fabrício Carpinejar na praça (Cinco Marias, editora Bertrand Brasil), com lançamento hoje mesmo, é notícia boa. Não precisa ir até lá para aproveitar, naturalmente; basta entrar em contato com sua obra, que já vai se desenhando no cenário nacional e mesmo internacional em merecido destaque. Por quê?

Por vários motivos. Um deles, talvez o menos importante do ponto de vista estritamente artístico e literário, é já muito claro: ao contrário da opressiva maioria dos poetas aparecidos nos últimos 20 anos, Fabrício concebe e pratica a poesia sem medo das longas distâncias, das jornadas alentadas. Ali onde quase todos os poetas atuais estacionam, ao fim de poucos poemas de poucas linhas, ele está apenas começando. Por isso mesmo, sua poesia tem vocação por assim dizer narrativa, ou melhor, é animada por certo sopro épico, tem apetite para montar seqüências de imagens e de quadros, com vários personagens atuando segundo o tempo passa. É o caso do novo livro, que traz a voz de cinco mulheres, mãe e suas filhas, repassando suas vidas.

Segundo motivo, paradoxal e dependente do primeiro: os livros do Fabrício se insinuam, para o leitor, como histórias, o que de certa maneira distende o olhar, alivia a tensão que em geral o poema solitário exige, recebe enfim o leitor como quem diz "Entra, meu amor, fica à vontade" (este verso não é dele, mas do Lupicínio Rodrigues, e calha bem ao livro em lançamento, outra história de amor e morte). Ao mesmo tempo, porém, toda essa gentileza, todo este convite a tirar os sapatos - a leitura de um poeta de força imaginativa deixa a gente meio contaminado do vezo metafórico, não me leve a mal - e ficar à vontade é desmentido por outro dos comandos inescapáveis que a poesia do Fabrício dá ao leitor: o de submeter-se à vertigem das associações, da concentração de imagens, em uma palavra da força do poema isolado.

Resulta que a leitura fica pendurada entre essas duas diretrizes, gerando uma tensão das mais ricas. Pessoalmente, não tenho nenhuma dúvida de que a leitura de sua poesia é daquelas experiências que valem a pena, porque nos deixa melhor do que era antes. Carregada de meditação, de volúpia pela imagem, algum surrealismo, força narrativa, alguma tendência à sentença e à chave-de-ouro, sua poesia se faz necessariamente em nossa inteligência e em nossa sensibilidade: ao contrário de tantos objetos artísticos de nosso tempo que se contentam com sua própria estrutura, seu brilho, sua intranscendência autocongratulatória, a poesia de Fabrício Carpinejar quer acontecer em diálogo com o leitor, faz questão de enfiar raízes na vida real e daí tirar seu alimento - e esta é a última contaminação da resenha pelo talento do poeta. Leia-o a ele, que merece.

fischer@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
04/05/2004


Os que fazem e fizeram ZH

Li pela Rosane de Oliveira e soube por outros testemunhos a respeito da briga séria havida entre dois homens em um restaurante famoso de Porto Alegre.

Um cãozinho poodle de um dos litigantes passeava entre as mesas do restaurante, postas sobre a calçada.

Ao ver que um dos freqüentadores chutou o seu poodle, o dono do cão levantou-se e foi tirar satisfações.

Deu-se o atraque a socos entre os dois, uma luta feroz e parelha, ensandecida, ao fim da qual restava o glorioso empate e o sangue de um deles manchando a roupa dos dois.

Fosse o cão um rottweiler ou um pitbull, sobre cujos ataques tenho me debruçado em diversas colunas, sem dúvida alguma que a notícia daria relevo a mais uma ação sanguinária do cão selvagem.

Como o cão era um meigo poodle, o animalzinho deu lugar na cena principal à também incontrolável fúria humana.

Zero Hora comemora hoje 40 anos de fundação. De início titubeante e de natureza alternativa, tem uma história de lutas invejável até sua afirmação como principal veículo gráfico do Rio Grande do Sul.

Zero Hora foi chegando sorrateira em 1964 e instalou-se como um posseiro nos corações dos gaúchos.

De tal sorte se incorporou à vida dos rio-grandenses, que hoje é indispensável à rotina, ao cotidiano, ao destino e à história do povo que lhe consagrou preferência absoluta em todos os quadrantes do Estado.

Quantos milhões de gaúchos nestes 40 anos pousaram seus olhos sobre Zero Hora, quantas gerações correram para ler informação e opinião nas páginas deste jornal que viu sua dimensão exceder a sua cidade para tornar-se a bússola de todas as manhãs dos seus leitores?

E quantas milhares de pessoas emprestaram a sua colaboração como gráficos, mecânicos, engenheiros, jornaleiros, motoristas, gerentes, diretores, escriturários, funcionários de todos os serviços e jornalistas nestes 40 anos?

Uma legião.

Entre tantos funcionários de Zero Hora que se destacaram regionalmente e nacionalmente não só no jornalismo como na política, nas artes, nas ciências, em todos os setores da vida pública e privada brasileira, cumpre-nos homenagear os que já se foram, que a exemplo dos que hoje ainda estão em atividade na trincheira, entregaram as suas vidas para a construção desse patrimônio histórico e jornalístico em que se constitui um periódico que atravessa quatro décadas.

Sim, porque não há como se fazer um jornal sem entregar-se inteiramente a ele, é uma atividade como tantas outras que exigem dedicação total de seus servidores, entusiasmante e embriagadora, indormida, vigilante, mas esta sim uma atividade ímpar entre todas as ímpares, em que os que a manejam a elegem como o principal valor de suas vidas, acima muitas vezes das suas próprias famílias.

Entre todos esses milhares de bravos, elejo para cultuação de suas memórias as figuras inesquecíveis de dois jornalistas que freqüentaram durante muitos anos as páginas de Zero Hora encantando seus leitores: Carlos Nobre e Sampaulo.

Dois singulares humoristas. Nada do que era rico à vida dos gaúchos lhes era desconhecido, tinham o dom de penetrar na alma dos seus leitores pelo lado de melhor jeito e sensibilidade, atentíssimos ao que mais tocava no interesse existencial e comunitário dos que os liam e apreciavam.

Sucedi a Carlos Nobre nesta página, que ele ilustrou de alegria e viva espontaneidade até sua morte, em 1985.

E Carlos Nobre e Sampaulo traziam nas paletas as marcas principais dos gaúchos, o Nobre gremistão, o Sampaulo coloradíssimo, um dos mais fanáticos que já existiram.

Os jornais também são feitos de vultos que eles furtam e arrancam astuciosamente do populário para dentro de suas redações.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Questão Agrária
A reação ao Abril Vermelho



Ruralistas começaram por Carazinho o mês de manifestações em defesa das propriedades rurais (foto Tadeu Vilani/ZH)


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Segunda-feira, Maio 03, 2004




COISAS DE MÃE

Se os filhos estão bem alimentados,
É ela que se sente satisfeita.
Se estão risonhos e felizes,
É ela que se pega sorrindo também.
Se estão de roupinha nova,
É ela que se sente bonita.
Se eles vão bem na escola,
Parece que o aproveitamento escolar é dela.
Se arranjam novos amigos,
É ela que se sente popular e querida.
Se viajam para novos lugares,
É ela que curte o passeio, mesmo ficando em casa.
A cada meta que atingem ou troféu que ganham,
É ela que curte a sensação de vitória.
Passa a gostar de rock,
Mesmo que antes não pudesse nem ouvir.
Passa a olhar com simpatia,
Os ídolos e os amores de seus filhos.
Passa a adorar cachorros,
Mesmo que antes só gostasse de gatos.
Desnecessário dizer o que ela sente,
Quando alguma coisa dá errado, porque, por tabela,
Ela sentirá em dose tripla,
Cada tombo,
Cada perda,
Cada rejeição,
Cada fracasso,
Cada desapontamento.
Tudo isto são...coisas de mãe !

Fátima Irene Pinto

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03/05/2004 - 13h47m
Juliana Paes mostra tudo na 'Playboy' de maio

Globo Online

RIO - Demorou, mas finalmente a atriz Juliana Paes aceitou o convite para estampar revista "Playboy". A atriz, que atualmente vive a Jaqueline Joy de "Celebridade", é a capa de maio da publicação masculina.

- Acho que agora estava mais madura, mais segura para aceitar fazer a 'Playboy'. A parte financeira é importante, mas tinha que ser no momento em que me sentisse preparada sob todos os aspectos - explica a beldade, negando que jamais havia negado a hipótese de posar nua.

- Apesar das recusas, nunca fui hipócrita de dizer que jamais faria, sempre dizia que seria no momento que considerasse certo- relata - Quando fiz a minha primeira novela, não aceitei porque meu objetivo primordial era ter uma trajetória, uma carreira, e não usufruir os benefícios que a televisão proporciona. Queria me estabelecer como atriz, ganhar dinheiro seria uma conseqüência e não uma prioridade - diz a estrela, que também foi eleita musa do carnaval deste ano.

A niteroiense de 25 anos havia sido convidada pela publicação masculina para estampar as páginas como veio ao mundo desde a sua estréia como a empregada Ritinha de "Laços de família". Mas foi só este ano que a atriz, depois de quatro meses de negociação, assinou o contrato. E pelo visto ela, a família e o namorado aprovaram o ensaio

- Pelo menos para mim eles passaram estar tranqüilos, sabem que foi tudo muito bem cuidado e supervisionado. O ensaio está de bom gosto. Foi muito bacana, eu gostei espero que todos gostem....e comprem né?- pede a estrela.

Clicada pelo conceituado J.R. Duran, o ensaio foi realizado em quatro dias numa casa na Barra do Sahy, no litoral norte de São Paulo, e numa casa de campo nos arredores da capital paulista, sendo que algumas fotos também foram feitas em estúdio. O ensaio não possui um tema nem uma seqüência, ele foi pensado por Duran justamente para ser visto como um livro de fotografias. A luxuosa produção conta ainda com peças escolhidas a dedo das melhores grifes do mundo, como Chloè, Louis Vuitton e Valentino, sem falar no Mercedez ano 68 conversível marrom escuro, em que a atriz fez fotos bastante ousadas.

Juliana pediu champanhe para relaxar e comida japonesa para repor as energias

A produção da revista afirma que ela ficou muito à vontade durante as sessões de fotos e que os únicos pedidos da beldade foram um pouco de champanhe para relaxar no início e comida japonesa para depois das fotos.

Para o futuro, a atriz prefere não fazer planos.

- Calma gente, vivo o presente! O que eu quero é ter saúde, para compartilhar tudo ao lado da minha família e dos meus amigos, pois isso que é gostoso. De que adianta ser bem-sucedido se não tiver com quem dividir? No lado profissional, pretendo ser uma eterna insatisfeita e continuar estudando para buscar e estar preparada para novos desafios, que envolvem outros personagens e cinema - completa a musa, que para manter a forma freqüenta a academia três vezes por semana e faz aulas de hip hop.

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"Pensei na Sol para tirar a roupa", diz Dragone

Alexsandra Bentemuller

Rogério Lorenzoni/Terra

Destaque da edição de abril da G Magazine, o ex-big brother Rogério de Paulo Dragone, 25 anos, se reuniu com fãs na tarde desta sexta-feira (23), na Avenida Paulista, em São Paulo, para autografar a revista. O encontro foi marcado por gritos, xingamentos e revelações. "Não tive vergonha de posar nu. Não precisei tomar bebidas alcoólicas. Folheei algumas revistas e pensei na Solange (ex-BBB4). Outra mulher que me atrai muito é a Analice Nicolau (ex-Casa dos Artistas). Ela é belíssima", disse.

Enquanto adolescentes com material escolar na mão compravam a revista ansiosas por um autógrafo, outros não perderam a oportunidade de disparar impropérios contra Dragone. Vânia Aparecida de Paulo, mãe do ex-BBB, xingou quem fez piadas sobre o filho. "V... é você. Idiota é o seu pai. Com certeza ele nunca ganhou o que meu filho já conquistou", gritou. "Críticas são bem-vindas, mas respeito é bom. A nudez sem pornografia é bela. Seria pecado capital se ele fizesse por vaidade. Mas ele encarou como um trabalho", completou.

Dragone reagiu apenas aos elogios. "O lado bom da fama é isso: ganhar beijinho das gatinhas."

Apesar do assédio feminino, o ex-jardineiro de cemitério está comprometido. Ele assumiu o romance com a frentista Solange, sua companheira de reality show. "Estou feliz. A Sol é uma pessoa maravilhosa. Falar corretamente e ter modos na hora de comer se aprende com o tempo. O importante é que ela é uma pessoa com um coração bom. Infelizmente, não consigo vê-la com muita freqüência por causa da agenda de trabalho. Nos falamos muito por telefone."

Rogério Dragone contou que vai usar o cachê, não divulgado por cláusula contratual, para tirar a mãe do trabalho que tem num cemitério da Lapa, em São Paulo. "Não tirei a roupa para ficar milionário e tampouco comprar um carro. Quero dar uma vida melhor para a minha mãe, que já tem 54 anos. Estou trabalhando para isso."

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Bom profissional não sai de moda
Mercado está carente de mão-de-obra qualificada para uma área que gera 1,5 milhão de empregos diretos e já tem 32 cursos de graduação espalhados pelo Brasil
Marcella Franco


Pequenos trabalhos para os amigos foi o início da carreira de Diana Castro, que hoje é empresária de moda

Foi-se a época em que os profissionais ligados à moda eram vistos com maus olhos pelo mercado de trabalho. Hoje em dia, quem se forma em um curso de Nível Técnico ou Superior nessa área é disputado pelas empresas empregadoras que, cada vez mais, vêm exigindo mão-de-obra especializada.

Basta olhar o resultado de uma pesquisa feita este ano pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) para comprovar essa aceitação: a moda é o setor que mais emprega mão-de-obra feminina em todo o País, e o segundo a contratar trabalhadores em geral, perdendo apenas para a construção civil.


Marilda Vendrame, gerente do Senac, recomenda uma especialização

O panorama do mercado de trabalho é bastante animador. São 30 mil empresas gerando 1,5 milhão de empregos diretos e movimentando R$ 65,5 bilhões por ano. Profissionais formados em Moda podem trabalhar em campos tão diversos como consultoria, gestão, produção e figurino.

No Estado do Rio, um grande pólo gerador de renda são as feirinhas das regiões Serrana e dos Lagos. O ideal é fazer um curso básico em Moda e escolher uma especialização, orienta Marilda Vendrame, 45 anos, gerente corporativa do Centro de Moda do Senac.

Outra boa notícia é que o mercado anda carente na área de modelagem. ¿Há um espaço muito grande nessa área. O estilista é, geralmente, o profissional mais reconhecido, mas a função dele só é completa com o trabalho do modelista¿, esclarece Marilda.

Segundo Marilda, essa demanda acontece porque o setor registra, ainda, um déficit considerável na qualidade de maquinário, o que faz com que seja exigida uma mão-de-obra bastante qualificada. Temos bons tecidos, máquinas boas, mas não excepcionais, e isso faz com que seja necessário um bom profissional para o arremate das roupas, diz.

Até 1987, quem quisesse emprego na área de moda tinha que buscar formação nos únicos cursos disponíveis, os de Nível Técnico. Depois da criação da primeira faculdade especializada, hoje são ao todo 32 cursos de graduação espalhados pelo Brasil.

A empresária Diana Castro, 50 anos, não teve a possibilidade de investir numa formação superior quando decidiu largar a Arquitetura para apostar naquilo que mais gostava, a confecção. A moda surgiu de repente, e comecei a fazer roupa aos poucos. Não tenho teoria nenhuma, diz.

Gostaria muito de ter feito uma universidade, mas na minha época não existia nenhuma. Acredito que o melhor, atualmente, seja fazer esse tipo de curso, opina Diana, que hoje é dona de uma confecção que distribui peças para lojas como Eclectic e Sacada. Se eu tivesse me formado nisso, meu início teria sido muito mais fácil.

Sem contar que, por mais que se pense o contrário, modelistas às vezes ganham mais que estilistas, devido à pouca oferta. Numa grande confecção, por exemplo, um estilista pode ganhar R$ 5 mil, enquanto o modelista pode ter vencimentos de R$ 6 mil.

Outra dica é a segmentação. Uma boa área de investimento é a de confecção masculina, que tem pouquíssimos fornecedores, revela Diana. Ela, que começou a trabalhar com moda infantil e há oito anos restringiu seu campo apenas para roupas para adultos, acredita que o segredo no início é vender para uma boa loja. Assim você tem um bom cartão de visitas. O resto, o boca-a-boca resolve, explica a empresária.

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Ginástica durante o trabalho

Empresas promovem atividades físicas dentro do escritório ou da fábrica e melhoram produtividade

Quem trabalha pesado, passa o dia dentro do escritório com pouco tempo para descansar, pode encontrar na ginástica laboral uma maneira de relaxar durante o expediente. Empresas estão contratando fisioterapeutas para oferecer esse benefício a seus funcionários. São exercícios de mobilização, relaxamento, alongamento e dinâmicas em grupo, que diminuem o estresse físico e mental do dia-a-dia.

Os fisioterapeutas Bárbara Maria Pandolfi, Helen Andrade Faria e Felipe de Carvalho Moreira trabalham com saúde ocupacional em grandes empresas.

A ginástica é adaptada ao perfil do público. São três tipos de aula: relaxamento, alongamento e dinâmica de grupo. Quando o ambiente é tenso e as pessoas ficam muito estressadas, damos aula de relaxamento. Se o problema for com a integração da equipe, é indicada a dinâmica de grupo, explica Bárbara.

Os instrumentos utilizados são simples. Usamos elásticos, paninhos, bolas, rolos de papelão, entre outros. A duração da aula varia. Às vezes, resume-se a cinco minutos.

Prática é recomendada duas ou três vezes por semana

Não há regra. O objetivo é levar saúde e descontração aos ambientes de trabalho. Às vezes fazemos blitzes para ver como anda a postura e o comportamento das pessoas, conta.

A prática ajuda a prevenir doenças ocupacionais, como lesões por esforço repetitivo (LER) e tendinite, aumenta o prazer no trabalho e melhora a postura.

Fábricas e indústrias também aderiram ao programa. Como é um ambiente em que as pessoas geralmente trabalham de pé, costumamos fazer alongamentos, além de dar dicas para evitar acidentes de trabalho, como o uso de equipamentos de proteção para quem trabalha com produtos químicos.

Não é necessário uniforme nem sala específica. Geralmente são realizadas duas a três vezes por semana. Freqüência razoável para trazer resultados, completa Bárbara.

A Efer Construtores, na Barra, adotou o programa de ginástica laboral. Aberto a todos os funcionários, ele acontece toda segunda, quarta e sexta-feira durante uma hora. A ginástica laboral trabalha as necessidades de cada profissional, diz Amauri Santana, diretor técnico da Efer. O programa foi implantado há um ano e meio e já é possível notar que os funcionários apresentam menos problemas posturais e LER, diminuindo as faltas e aumentando a produtividade.

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Garotada do Flu não foge da luta

Mesmo sem os medalhões (Romário saiu aos 5min de jogo e Ramon, no intervalo), jovens tricolores vencem o Vasco: 1 a 0

Marco Senna

Fábio, desanimado, mãos nas cadeiras, nem percebe a festa tricolor após o gol creditado ao jovem Rodrigo Tiuí, que deu ao Fluminense a sua primeira vitória no Campeonato Brasileiro
Na nova relação custo/benefício do Fluminense, mais vale um jovem querendo mostrar serviço (Rodrigo Tiuí, autor do gol da vitória), do que dois medalhões acomodados (Romário e Ramon). As cansadas estrelas tricolores foram ofuscadas pelo brilho do vigor e da determinação da garotada tricolor, responsável pelo triunfo de 1 a 0 em cima do Vasco, ontem, no Maracanã.

Romário deixou o campo logo aos cinco minutos de partida, reclamando de dores na panturrilha direita, Ramon também não suportou o peso da responsabilidade e pediu ao técnico Ricardo Gomes que o substituísse (saiu no intervalo, queixando-se do mesmo problema do veterano Baixinho), Roger (fratura no nariz) nem em campo esteve, e Edmundo... O Animal brigou com o treinador.

Com o Quadrado Mágico inoperante, e que custa uma fábula aos cofres do patrocinador (Unimed), coube aos novos valores do Fluminense fazer, eles sim, mágica em pleno Maracanã e levar o Fluminense à sua primeira vitória no Campeonato Brasileiro. Rodrigo Tiuí, Thiago, Diego e Maicon foram os protagonistas da festa tricolor. Ao contrário dos galáticos, os meninos ganham pouco e os salários não estão em dia.

O primeiro tempo foi marcado por um futebol de baixa qualidade. O Vasco teve boa chance de abrir o placar aos 8 minutos, numa cabeçada de Igor, que Fernando Henrique salvou no reflexo. Pouco antes, Romário deixara o clássico, dando lugar a Rodrigo Tiuí.

O Fluminense só ofereceu perigo ao adversário aos 26, quando Marcelo desperdiçou ótima oportunidade de marcar. Já no fim da primeira etapa, Ramon foi à beira do campo e disse a Ricardo Gomes que não poderia continuar. A exemplo do rival, o Vasco pouco produziu. Em resumo, o jogo mais parecia uma insossa pelada casados x solteiros.

As emoções estavam guardadas para a fase complementar. O Fluminense reapareceu com Thiago no lugar de Ramon, e a partir daí a meninada tricolor passou a dar as cartas na partida. Rodrigo Tiuí, aos 3, recebeu passe de Thiago, driblou seu marcador e só não fez gol porque Fábio fez milagre no gol vascaíno (desviou a bola para escanteio). Mas aos 11, o mesmo Tiuí não falhou: em nova assistência de Thiago, ele dividiu a bola com o zagueiro Henrique e estufou a rede adversária. Henrique, por sinal, deixou o estádio na ambulância do Corpo de Bombeiros, para fazer uma tomografia computadorizada, vítima de uma forte pancada que sofreu na cabeça.

A nova geração do Fluminense tomou conta do jogo, a ponto de ter levado Serjão, do Vasco, a ser expulso. Envergonhada, a torcida vascaína criou uma paródia do atual hit de Ivete Sangalo para expressar sua ira: vergonha, vergonha, time sem vergonha....

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Paulo Sant'ana
03/05/2004


Explicável desemprego

Não há maior inimigo do desempregado do que a carga tributária imposta no Brasil aos empregadores.

Um empregador sabe que por trás daquele empregado que vai contratar existe uma arma com poderes destrutivos: a carteira de trabalho.

Então o empregador enxerga o empregado como mais uma oportunidade para pagar impostos.

O resultado disso é que hoje os empregados são contratados por baixos salários. Um empregador faz as contas e vê que pode gastar com determinado empregado R$ 1.000.

Mas não é este o salário que oferecerá ao empregado. Ele pagará R$ 500, desde já calculando o que gastará com aquele empregado em impostos e contribuições escorchantes.

E os impostos no Brasil esfolam tanto empregadores quanto empregados.

Dizia-me anteontem uma balconista que seu salário é de R$ 400, mas ela recebe líquidos R$ 210. O resto vai em descontos de previdência, vales-refeição, vales-transporte etc.

A carteira de trabalho assusta tanto os empregadores, que são criadas fórmulas para torná-la um documento inútil.

Um dos estratagemas é, em vez da carteira de trabalho, o empregado abre uma firma e fornece ao seu empregador notas fiscais em troca do seu trabalho.

Com isso, tanto o empregador quanto o empregado visam a fugir da variada e pesada carga de impostos que se abate sobre a relação de trabalho, com certeza a grande incentivadora do desemprego entre nós.

Sexta-feira passada eu estava conversando com um dono de minimercado do 4º Distrito.

Ele me disse que, para driblar os impostos que recaem sobre a relação trabalhista com seus empregados, adotou o seguinte sistema: tornou cinco de seus empregados sócios da empresa.

Deu participação de 2% na empresa a cada um dos cinco empregados. Ou seja, cedeu um naco de 10% da sua empresa aos empregados, fugindo assim da tórrida carga tributária que recai sobre a relação trabalhista.

Uma pesquisa afirma que aumentou em 40% nos quatro últimos anos o número de firmas sem empregados.

Desnatura-se assim tragicamente a relação trabalhista. Se se torna mais conveniente a um empregador que seu empregado se transfigure em uma empresa, e, ainda, que seja incrivelmente mais conveniente ao empregado e ao empregador que o primeiro se torne sócio do segundo, como acontece com os cinco empregados do minimercado do 4º Distrito, então é porque se tornou selvagem a carga tributária que assola os dois principais personagens da relação trabalhista.

Se isso acontece na relação formal de trabalho, imaginem os prodígios e os horrores que estão ocorrendo na informalidade, o abismo a que foram atirados os agentes econômicos brasileiros pela severidade fiscal.

É triste, é desolador, mas estamos marchando para o mais apavorante colapso social no Brasil: o desuso da carteira de trabalho.

A goleada infame sofrida pelo Grêmio em Goiânia remete a torcida tricolor para a ameaça de novo pesadelo, igual ao do ano passado, quando durante oito meses vivemos o tormento do rebaixamento.

Que time ruim o Grêmio que vimos no sábado! Não havia sequer um jogador de talento em campo, nem qualquer sombra de talento no treinador que os dirigiu.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Trânsito
Avenida da Capital vira palco de imprudência



Nas madrugadas de domingo, motoqueiros usam a Avenida Princesa Isabel, no coração do bairro Santana, como pista para rachas e malabarismos arriscados (foto Emílio Pedroso/ZH)


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Domingo, Maio 02, 2004




autor@paulocoelho.com.br

O preço do ódio e do perdão

Descubro em minhas anotações de 1989, algumas notas de uma conversa com J., a quem chamo meu mestre. Naquela época, falávamos de um desconhecido místico, chamado Kenan Rifai, sobre o qual pouco se escreveu.

Kenan Rifai diz que quando as pessoas nos elogiarem, devemos ficar de olho em nosso comportamento diz J. Porque isso significa que escondemos muito bem nossos defeitos. No final, terminamos por acreditar que somos melhores do que pensamos, e o próximo passo é deixar-se dominar por um falso sentimento de segurança, que terminará nos cercando de muito perigo.

Como prestar atenção às oportunidades que a vida nos dá?

Se você tiver duas oportunidades apenas, saiba transformá-las em doze. Quando tiver doze, elas se multiplicarão automaticamente. Por isso Jesus diz: aquele que muito tem, mais lhe será dado. Aquele que pouco tem, o pouco que tem lhe será tirado.

É uma das frases mais duras do Evangelho. Mas tenho reparado, no decorrer da vida, que é absoluta verdade. Entretanto, como vou poder identificar as oportunidades?

Preste atenção a todos os momentos, porque a oportunidade, o instante mágico, está ao nosso alcance, embora sempre o deixemos passar, por causa do sentimento de culpa. Portanto, evite gastar seu tempo culpando a si mesmo: se você não for digno do que está fazendo, o universo se encarregará de corrigi-lo.

E como o universo vai me corrigir?

Não será através de tragédias; estas acontecem porque são parte da vida, e não devem ser encaradas como punição. Geralmente o universo nos indica que estamos errados, quando nos tira o que temos de mais importante: nossos amigos.

Kenan Rifai foi um homem que ajudou muita gente a encontrar-se consigo mesmo, e a conseguir uma relação harmoniosa com a vida. Mesmo assim, algumas destas pessoas se mostraram ingratas e jamais voltaram a cabeça para dizer ao menos obrigado. Só retornavam a ele quando de novo suas existências se encontravam em completa confusão. Rifai tornava a ajudá-las, sem fazer qualquer referência ao passado: ele era um homem de muitos amigos, e os ingratos sempre terminavam sozinhos.

São belas palavras, mas não sei se sou capaz de perdoar a ingratidão com tanta facilidade.

É muito difícil. Mas não há escolha: se você não perdoar, irá pensar na dor que lhe causaram, e esta dor não passará nunca.

Eu não estou dizendo que você deva gostar de quem lhe fez mal. Não estou dizendo que volte a conviver com esta pessoa. Não estou sugerindo que passe a vê-la com um anjo, ou como alguém que agiu insensatamente, sem intenção de ferir. Estou apenas afirmando que a energia do ódio não irá levá-lo a lugar nenhum; mas a energia do perdão, que se manifesta através do amor, conseguirá transformar positivamente sua vida.

Foi ferido muitas vezes.

Por causa disso, ainda carrega dentro de si o menino que chorou escondido dos pais, que era o mais fraco da escola. Ainda traz as marcas do rapaz franzino que não conseguia arranjar uma namorada, que jamais foi bom em qualquer esporte. Não conseguiu afastar as cicatrizes de algumas injustiças que cometeram com ele durante sua vida. Mas o que isso lhe acrescenta de bom?

Nada. Absolutamente nada. Apenas um constante desejo de ter piedade de si mesmo, porque foi vítima dos que eram mais fortes. Ou então, vestir-se como um vingador pronto para ferir mais ainda aquele que o machucou.

Você não acha que está perdendo seu tempo com isso?

Acho que é humano.

Realmente é humano. Mas não é nem inteligente, nem razoável. Respeite seu tempo nesta Terra, saiba que Deus sempre o perdoou, e perdoe também.

Depois desta conversa com J., que aconteceu pouco antes de minha viagem para passar 40 dias no deserto de Mojave (Estados Unidos), eu comecei a entender melhor o menino, o adolescente, o adulto ferido que fui um dia. Certa tarde, indo do Vale da Morte (Califórnia) para Tucson (Arizona), fiz mentalmente uma lista de todos que eu julgava odiar, porque me feriram. Fui perdoando um a um, e seis horas depois, em Tucson, minha alma estava mais leve, e minha vida mudara para muito melhor.

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Fluminense derrota o Vasco por 1 a 0

17:52 02/05

Da Redação do DIA para o iG (editorultimosegundo@ig.com)

RIO - O Fluminense venceu o Vasco por 1 a 0, no Maracanã, na tarde deste domingo, e conseguiu o primeiro triunfo de um time carioca no Campeonato Brasileiro.

As duas equipes tiveram uma boa chance no primeiro tempo tempo, mas o jogo não agradou o pequeno público que compareceu ao Maracanã. Aos 5 minutos, Romário sentiu uma contusão e deixou o campo.

O Fluminense abriu o placar aos 11 minutos do segundo tempo através de um gol contra do zagueiro Henrique depois de um cruzamento de Thiago pela direita. O zagueiro Zerjão ainda foi expulso e deixou o Vasco sem poder de reação.

FLUMINENSE
Fernando Henrique, Leonardo Moura, Odvan, Rodolfo (Antônio Carlos) e Júnior César; Maicon, Juca (Alan), Ramon e Roger (Diego); Marcelo e Romário. Técnico: Ricardo Gomes

VASCO
Fábio, Serjão, Henrique e Wescley; Claudemir, Ygor, Coutinho e Marcos Paulo; Cadu; Valdir e Wesley. Técnico:Geninho

Local: Maracanã.
Juiz: William de Souza Neri (RJ).


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