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Sábado, Maio 08, 2004
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11:40 PM by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
09/05/2004
As donas do futuro
O domingo é dia das mães, mas eu gostaria de fazer uma reflexão sobre o nosso papel neste mundo insano que está por aí. Não basta dar mesada ou mochila nova
Hoje é dia de paparicar as mães, mas gostaria também de aproveitar este domingo para fazer uma reflexão sobre o nosso papel neste mundo insano que está aí. Sei que é função tanto do pai quanto da mãe educar seus filhos, mas na maioria das famílias ainda é a mãe que passa mais tempo com as crianças, então vai para as mulheres este recado: temos o futuro nas mãos.
Reconheço que nos atrapalhamos bastante com esta história de trabalhar fora e ainda assumir as tarefas de casa, mas já deu para se adaptar. O ritmo vai ser assim daqui por diante, frenético. Só que isso não pode impedir que nossos filhos recuperem o lugar de honra que já tiveram em nossas vidas.
Não adianta parir, apenas. É preciso ter cuidado com os exemplos que a gente dá, com o nível do tratamento que a gente usa em casa, com a qualidade da nossa presença. Não basta dar mesada e mochila nova: a gente tem que dar respostas. Tem que cobrar civilidade. Tem que estar atenta para os silêncios e as distâncias. Tem que reunir o pessoal em torno da mesa, tem que perguntar, se interessar, abrir o jogo, falar sobre tudo, ouvir o que eles têm a dizer, não ter receio de impor limites, ser agradável, ser amorosa e ser tirana, se for preciso - e será preciso.
Os filhos da gente não devem se habituar à humilhação e à exclusão, assim como não devem se achar mais importantes do que os outros. Não podem acreditar que ser desonesto é esperteza, não podem deixar de pagar suas dívidas, não podem achar que se forem agressivos serão mais respeitados. É por causa destes pequenos descuidos que formamos pitbulls que brigam em boates, irresponsáveis que fazem rachas na rua, patricinhas que só pensam em consumir, alienados que não fazem idéia do mundo em que vivem.
Eu sei, não é justo carregar sozinhas este fardo: tem a televisão, os colegas, as drogas, as desilusões, vários outros fatores que influenciam a gurizada também, mas nada é páreo para a estrutura familiar. Arrancando bem, as chances de eles fazerem uma boa corrida aumentam bastante.
Ninguém é obrigado a ter filhos. Nascemos escutando: "tem que procriar, tem que procriar!". Não mesmo. Se você não se sente disposta a ceder o seu tempo para educar crianças, não se sacrifique. Todo mundo pode ser feliz sem filhos. O que não pode é tê-los apenas para cumprir os rituais impostos pela sociedade e depois jogá-los ao vento. Se os teve, assuma-os, tome conta, proteja, eduque, crie cidadãos, faça o possível para não despejar na sociedade futuros corruptos, futuros malandros.
É muita responsabilidade para as pobres mães? Se é: uma responsabilidade colossal, para mães e pais. Só não é absoluta porque há outros fatores em jogo, como foi dito, mas quem assina o projeto somos nós. A gente não gostaria de ganhar de presente um país melhor? Não vai ser a cegonha que vai trazer.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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11:36 PM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
09/05/2004
Primaveris
Os velhos ídolos franceses, como Charles Aznavour, não desaparecem. Vão dizendo adeus aos poucos. E não mudam muito
O Charles Aznavour está fazendo a sua despedida definitiva do, como dizem os franceses, "show-bizinez". Apresenta-se até o dia 21 de maio no Palais des Congrés, cujos dois mil e tantos lugares têm estado cheios todas as noites de admiradores que não querem perder a última oportunidade de ver o cantor e compositor num palco. Há uns dois anos, nós também fomos ao mesmo Palais des Congrés ver o mesmo Aznavour no que também era anunciado como a sua despedida definitiva e felizmente não foi. Os velhos ídolos franceses não desaparecem, vão despedindo-se definitivamente aos poucos.
E não mudam muito. A não ser a Brigitte Bardot, que murchou nos lugares onde não devia, os outros continuam como versões só um pouco mais rústicas do que eram quando jovens. Johnny Halliday, o adolescente mais velho do mundo, ainda se veste e se comporta como no passado e tem público certo e entusiasmado para todas as suas despedidas. A Silvie Vartan também. O Charles Trenet só não continua como era porque se descuidou e morreu, mas foi igual até o fim. O Aznavour ainda canta e se move no palco como sempre, e tem certamente muitas despedidas definitivas pela frente. E acabo de ver o que o Sacha Distel está tocando num clube de jazz em Montparnasse. Aposto que não parece ter mais de 35 anos, incompletos. Deve ser alguma coisa na comida.
Um fim de semana na Normandia incluiu uma visita a Le Havre. Dizem que ninguém vai a Le Havre se não tiver uma razão muito forte para isto, e turismo não é desculpa. Mas fomos como turistas primaveris. Le Havre é um dos dois grandes portos franceses - o outro é Marselha, no Mediterrâneo - e a cidade, totalmente destruída na II Guerra Mundial, foi reconstruída no pior estilo utilitário sem graça da arquitetura soviética.
O gosto não melhorou com sucessivas administrações comunistas na cidade, mas foi redimido em parte com o convite para o Oscar Niemeyer construir o teatro municipal. E não é que os próprios caixotes monumentais acabam tendo um certo encanto evocativo? A cidade é interessante como qualquer porto e tem o atrativo adicional de ser uma inesperada Moscou à beira-mar. Era mais ou menos inevitável que o estalinismo também terminaria em nostalgia.
Uma nota de pé de página da Historia. Os ingleses saberiam que os alemães já tinham desocupado Le Havre, que não teria mais nenhuma importância estratégica na II Guerra. Mas teriam insistido em arrasá-la, matando quase 15 mil dos seus habitantes, por uma previdente razão de interesse nacional Le Havre seria eliminada como concorrente aos grandes portos ingleses depois da guerra. Foi da Normandia que saiu Guilherme o Conquistador para fundar uma nação naquela brumosa costa oposta do Canal da Mancha. Até hoje tem gente que acha que foi uma má idéia.
A exposição do Mirò no Centre Pompidou de Paris, também chamado de Mausoléu do Robocop, é completa e imperdível. Inclui desde os primeiros até os últimos rabiscos infantis do grande catalão. Mas quem for ver o Mirò deve passar antes por uma pequena exposição chamada Fraçois, l'epreuve du feu no mezanino do Centre Pompidou. François, um dos grandes artistas gráficos do mundo, na linha do Saul Steinberg e do Millôr Fernandes, teve mesmo a sua prova de fogo.
Ha dois anos, um incêndio destruiu seu ateliê com tudo que ele tinha guardado, sua produção de muito tempo. E François, com 88 anos de idade, simplesmente decidiu fazer tudo de novo. A exposição é de tudo que ele fez desde o incêndio, incluindo algumas aquarelas pastorais de uma serenidade emocionante. O velhinho à prova de fogo continua genial como sempre. Tem que ser alguma coisa na comida.
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11:33 PM by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
09/05/2004
Por onde andam as mães dos órfãos?
Mães também morrem. E para onde vão as mães que morrem senão para o Céu, com C maiúsculo? Se o Céu existe, é delas
Tempos atrás encontrei uma senhora que me fez uma pergunta casual, mas perturbadora:
- Onde é que anda tua mãe, que não vejo mais?
Perturbadora, no caso, porque, tendo minha mãe morrido há muitos anos, eu, para dizer a verdade, não sei onde ela anda. Claro, existe o túmulo, e ali devem estar aquilo que a gente chama de restos mortais. Mas ninguém pensa na mãe, mesmo falecida, como restos mortais. Se evocamos nossa mãe não é um melancólico esqueleto que nos vêm à mente, é a figura de uma mulher quase sempre sorridente, uma mulher terna, afetiva - viva. Mãe, para os órfãos, está sempre viva.
É uma metáfora, naturalmente, uma figura de linguagem, mas que serve de consolo. E órfãos, de qualquer idade, precisam de consolo. É impressionante como as pessoas, mesmo idosas, continuam pensando em suas mães como presença constante. De alguma maneira teimamos em ser filhos, teimamos em ser crianças, apesar dos anos e das rugas. E, de alguma forma, a mãe não nos deixa. Mães nunca deixam os filhos. Meu Pai, por que me abandonaste?, brada Cristo na cruz. É mais que uma pergunta. É uma queixa. É um protesto. É uma denúncia, até: seu Pai, o Todo-Poderoso, abandonou-o. Mas a mãe de Jesus não o abandona. Ela está ali, testemunha silenciosa do martírio.
Mas mães são seres humanos. Mães morrem. E para onde vão as mães que morrem, a não ser para o Céu, com C maiúsculo? Se o Céu existe, só pode ser por causa das mães. Claro, existem as chamadas mães desnaturadas, aquelas que não cuidam dos filhos, que maltratam os filhos. Mas a mãe que maltrata o filho está, inevitavelmente, maltratando a si própria, está sendo vítima de seu próprio problema emocional. Mesmo uma mãe assim acaba merecendo o Céu, ainda que depois de um estágio corretivo no purgatório.
Fico imaginando minha mãe no Céu. Fico imaginando, no Céu, as mães judias que conheci no bairro do Bom Fim, a maioria das quais já não se encontra entre nós: trata-se de uma espécie em extinção. E o que faz, no Céu, uma mãe judia? Em primeiro lugar, ela briga com Deus, da mesma forma que brigava com o marido, com o vizinho, com o homem da quitanda. "Deus, olha o jeito que está o mundo! Faz alguma coisa para melhorar a situação dessa pobre gente! Te mexe! Tu não és o Todo Poderoso?" Além de reclamar, a mãe judia vai à luta.
A mãe judia acorda cedo, amarra um pano na cabeça, varre o Céu, arruma o Céu, e, sobretudo, faz comida no Céu - para a mãe judia o Céu é, antes de mais nada, uma enorme cozinha, do tipo daquelas que existiam nas velhas casas da Fernandes Vieira, na Henrique Dias, na Felipe Camarão. Céu, para a mãe judia, é preparar quantidades enormes de comida, sobretudo aquela sopa que contém, em si própria, o segredo da eternidade. Com um prato de sopa, a mãe judia corre atrás dos anjos que, desesperados, se escondem atrás de nuvens. Ela não quer saber: anjo ou não, tem de comer a sopa. Depois, pode ficar tocando harpa à vontade e entoando cânticos ao Senhor. Mas primeiro a sopa.
Fantasia, isto tudo? Claro que é. Mas a fantasia é o único consolo dos órfãos.
scliar@zerohora.com.br
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11:30 PM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
09/05/2004
Os náufragos
Sempre que estou tomado por qualquer desconforto, uso um truque mental para consolar-me: pior seria se eu fosse um náufrago em alto-mar e lutasse para me manter à tona boiando ou nadando, à espera de socorro.
Ou muito pior seria se eu estivesse soterrado debaixo dos escombros de um terremoto, imóvel, ferido, à espera angustiante de que uma equipe de socorro me localizasse.
É que sempre me sensibilizaram profundamente as histórias desses pescadores ou marinheiros que são salvos em alto-mar depois de horas ou dias expostos à água gelada ou ao sol, sem alimento e sem água.
E mais ainda me causam compaixão as pessoas que resistem obstinada e sofridamente à morte, soterrados debaixo das ruínas provocadas por terremotos.
Anteontem mesmo, vítimas de mais um ciclone, foram salvos dois pescadores, depois que seu barco foi alvo de um naufrágio no litoral de São Paulo.
Um deles resistiu durante 40 horas agarrado a uma bombona (espécie de tanque de gasolina do barco), mais da metade do corpo mergulhado no mar gelado).
Só a falta de alimento e água durante 40 horas já serve para debilitar uma pessoa, imaginem a hipotermia provocada pela água gelada do mar e a vigília de 40 horas, sem poder fechar os olhos, noite e dia, como pode o ser humano resistir a esse suplício durante quase dois dias?
Só uma vontade impoluta de continuar vivendo é que pode erguer e sustentar um tal farrapo de criatura.
O outro pescador salvo no mesmo naufrágio teve uma aventura ainda mais dramática: nadou durante 16 horas até ser encontrado.
Ele disse: ¿Era nadar ou morrer, eu continuei nadando¿.
Seu corpo estava todo lacerado pelo sal da água do mar quando foi encontrado.
Começou a nadar de madrugada, quando do naufrágio, foi encontrado só à tarde. Nadando, nadando, nadando.
Nem o terror de ser devorado por um tubarão venceu esse homem, enquanto ele tivesse forças para manter sua cabeça acima da superfície, restava uma esperança.
Um dos pescadores salvos agarrou-se numa bombona, o outro agarrou-se na esperança.
Até a noite de sexta-feira não se conhecia o destino dos outros náufragos. Ao que tudo indica devem ter morrido.
Uns segurando-se no que puderam segurar-se, outros nadando, nadando, nadando, até que a fome, o frio ou o cansaço os fizesse deliberar que iriam ceder e morrer no mar.
Ou foram devorados por tubarões.
Não se compreende como pescadores assim de alto-mar, com vistas a uma tempestade ou qualquer tormenta, não se invistam logo de coletes salva-vidas.
Não sei se é possível proibi-los de não usarem coletes salva-vidas, mas isso devia ser uma providência indispensável das autoridades da Marinha. Deve ser essa a regra, mas é descumprida.
Um naufrágio ou um terremoto, duas tragédias determinadas pela ressaca da natureza, sempre fazem vítimas por onde passam.
E mais torturadas são essas vítimas quanto maior o tempo que passarem perdidas no mar ou soterradas sob os prédios ou terrenos.
Perto do que ocorre com essas pessoas, esses pequenos incômodos físicos que tanto nos afligem no cotidiano são um refrigério.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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11:28 PM by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
O drama na região submersa
Chuvas inundam Pelotas e cidades vizinhas, matam um agricultor e desabrigam centenas
Enchente que fez estragos em toda a região sul castigou Pelotas com mais intensidade. Na manhã deste sábado, equipes de resgate ainda trabalhavam para auxiliar os moradores dos bairros mais atingidos (foto Adriana Franciosi/ZH)
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12:38 PM by Cassiano Leonel Drum
Favela e informalidade
"Não há dúvida de que, assim como a favela é o berço do traficante, a economia informal é a creche da corrupção, pública e privada"
Favela pode ter muitos significados. Um dos mais interessantes diz respeito à reação das pessoas e empresas diante de dificuldades, freqüentemente impostas pelo próprio poder público, para o desempenho de suas atividades, inclusive a de morar. Pode-se dizer, por exemplo, que nosso sistema tributário, bem como a legislação trabalhista, "faveliza" a economia, pois condena empresas e pessoas a permanecer à margem das regras. A "favela", nessa acepção, é a expressão espacial da "economia informal", que adquire, na Rocinha como em qualquer parte do Brasil, uma feição concreta, a de uma "cidade precária", sem leis nem direitos, sobreposta à cidade "formal".
A economia informal e a favela se confundem, ambas desenvolvendo uma relação de coexistência pacífica com a política, no âmbito da qual se formam certas reciprocidades. Sucessivas gerações de políticos, cariocas em especial, foram tornando a favela intocável, reforçando a identidade dessas "comunidades", as quais, tal como as empresas informais, passam a não funcionar pelas mesmas regras que valem para o resto da cidade. A começar pelo direito de propriedade, que permanece mal definido, e de propósito, para que o político "proteja" as comunidades. Estas, dessa forma, se vêem cercadas de um "muro" invisível, que impede a entrada do Estado, com seus atestados, impostos, posturas, serviços, inclusive o de polícia.
Esse "muro", todavia, é instável, como a dualidade entre o formal e o informal, e tende à degeneração. A favela e a cidade se repelem, embora dependam uma da outra. Na cidade há desconforto, para não falar de tentações, em perceber-se que na favela, ou na "informalidade", tudo é permitido, não há tributos, encargos trabalhistas, restrições ambientais, nada disso.
Na favela, por outro lado, a ausência de Estado resulta na ascensão de uma liderança "orgânica", capaz de exercer o chamado poder de polícia. Ou seja, em razão do "muro", cria-se a situação ideal para o crime organizado "governar", cooptar e transformar essas comunidades em reféns ou apêndices de atividades ilegais porém muito rentáveis.
Na economia informal o processo é semelhante, também degenerativo, embora não tenha, por ora, no Brasil, alcançado os extremos a que chegou na Rússia, por exemplo. O sujeito pode começar meio inocente, abandonando certas regrinhas tributárias e trabalhistas, mas, com o crescimento do "caixa dois", aparece a necessidade de "lavar" dinheiro, ou de estreitar relacionamentos com fornecedores "ilegais", contrabandistas ou receptadores, e transportadores ou distribuidores que podem se organizar como quadrilhas, e que garantem vantagens comerciais, e assim, aos pouquinhos, a empresa vai se enredando com toda sorte de criminosos. Na Rússia, formaram-se gigantescos "grupos empresariais", associados a "máfias", que se embrenham nos mais variados setores onde, por motivos variados, prevalece a informalidade.
Na favela, o sujeito não investe no barraco porque a posse é duvidosa, daí o gasto em eletrodomésticos, antenas parabólicas e aparelhos de DVD, que se amontoam em barracos de péssima aparência. Nas empresas "informais", a "propriedade" também é controversa, em razão de contingências tributárias e inadimplências, e o empresário investe fora da empresa, que também tem péssima aparência quando observada através de sua contabilidade formal.
Não há dúvida de que, assim como a favela é o berço do traficante, a economia informal é a creche da corrupção, pública e privada. Sendo assim, é exasperante perceber que o poder público não reconhece a favela, ou a economia informal, como problema. Episodicamente reage com violência diante do que considera abuso ou provocação, o que apenas agrava as coisas. A atitude é semelhante à que prevalecia no tempo em que se achava que a inflação não era problema, e, quando se entendeu contrariamente, a primeira reação foi violenta e ineficaz: congelamentos e confiscos. Demoramos a compreender a abrangência do problema e a extensão do esforço intelectual e da mobilização para erradicá-lo. O mesmo deve ocorrer com a informalidade.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com www.gfranco.com.br)
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12:34 PM by Cassiano Leonel Drum
Ponto de vista: Stephen Kanitz
Procuro um avalista
"Se você pretende ser avalista de alguém, lembre-se de que poderá perder o amigo, seus bens e também sua esposa"
De vez em quando um amigo que mal me cumprimenta, ou um colega de trabalho que nunca me ajudou, me pede que seja seu avalista. Provavelmente, ele raciocina que perguntar não ofende, só depende da cara-de-pau de cada um. Por que os bancos insistem em obter um aval de um amigo do cliente? No fundo, o que os bancos querem é reduzir o risco da operação de crédito, arrolando também os bens pessoais do avalista como garantia.
Mas que interesse tem o avalista em colocar seus bens em risco sem nada receber em troca? O avalista entra gratuitamente nesse contrato como um voluntário, um altruísta, sem receber uma remuneração pelo serviço que presta ao banco. O avalista só entra com obrigações e não tem nenhum benefício, só chateação. O banco ficará obviamente feliz com o empréstimo que você viabilizou.
Uma técnica que eu uso nessas ocasiões, e que aprendi com um verdadeiro amigo, é ficar indignado com os juros exorbitantes cobrados pelo banco e oferecer o mesmo empréstimo, sem cobrar juros.
Seu amigo ou parente vai pular de alegria, e você coloca uma única e singela imposição: que o gerente ou o presidente do banco avalize a operação. Não é um pedido exorbitante, e nenhum gerente de banco poderá recusar, porque é exatamente o mesmo pedido que eles estão fazendo. Seria hipocrisia recusar.
Ilustração Ale Setti
Ninguém nunca voltou com meu contrato assinado, não sei por quê. Mas existe um efeito socialmente muito negativo nessa prática do aval, para o qual infelizmente sociólogos e antropólogos nunca atentaram. Ao pedir um aval de um parente ou amigo, o sistema financeiro usa para seu próprio conforto creditício os laços familiares e de amizade longamente costurados pela sociedade brasileira.
Que tio pode recusar um aval a um sobrinho? Que irmão pode recusar dar um aval a outro irmão necessitado? É uma saia-justa complicada. Se você negar o pedido, deixará o parente magoado e a família ressentida. Ninguém obviamente avalia corretamente os riscos que você está correndo, só o banco.
Os laços de amizade e confiança que o próprio banco nunca sedimentou com seus clientes são substituídos pelos laços de amizade e confiança que seus familiares e amigos criaram com você. Aliás, se não tem o dinheiro para cobrir o aval, você nunca deveria tê-lo dado. Caso contrário o banco poderá vender seus bens oferecidos em garantia. Dar um aval ou emprestar o mesmo montante é financeiramente a mesma coisa, porque um aval significa dar o dinheiro ao banco se seu amigo ou parente virar caloteiro.
Já vi mais de vinte famílias ser desestruturadas pelo simples fato de um parente não ter pago um empréstimo e o avalista ter sido processado, prejudicando duplamente a família. Há pessoas hoje pobres e destituídas que cometeram o pequeno erro de dar um único aval. Muitos eram diretores e empregados de empresas, obrigados a dar um aval a um banco que financiava a empresa, senão perderiam o emprego.
Nenhum país dará certo se não puder criar um clima de confiança mútua entre seus cidadãos. Nossa inflação e as constantes mudanças das regras e dos planos econômicos dilapidaram, e muito, nossos laços de confiança. Colocaram-se várias vezes empregados contra patrões, fornecedores versus clientes, inquilinos versus senhorios, alunos versus professores, por causa de planos econômicos mal estruturados, que aumentaram a desconfiança entre nós, por nenhuma culpa das partes.
Para piorar ainda mais, o novo Código Civil exige que a esposa assine também o aval, criando discórdia entre marido e mulher, e nem toda esposa tem como recusar. Mais sensatas que os homens, elas jamais aceitariam dar um aval a um amigo do marido.
O novo Código Civil, em vez de aumentar os laços de confiança da sociedade, aumentou os pontos de atrito entre marido e mulher. O correto seria restringir o uso do aval, e não tornar a esposa co-solidária da operação financeira que em nada a beneficia. Mulheres, portanto, prestem muita atenção. Lembrem-se de que, caso o amigo do seu marido se torne inadimplente, você perderá seus bens e os de seus filhos. E você, que pretende ser avalista, lembre-se de que poderá perder seu amigo, seus bens e também sua esposa. Dito isso, alguém poderia me dar um aval?
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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12:28 PM by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
Quero entrevistar o Lula
"Duda Mendonça prometeu me ajudar.
Agradeci e perguntei: 'O presidente apresentou como novas ambulâncias repintadas. Ele não é como uma ambulância velha, repintada pelo senhor?' "
Acordei invocado. Peguei o telefone e liguei para o Palácio do Planalto.
¿ Quero entrevistar o Lula.
A telefonista transferiu a chamada para a Secretaria de Imprensa do presidente. O chefe do departamento, Ricardo Kotscho, informou-me que iria encaminhar o pedido de entrevista ao responsável pelo agendamento, acrescentando, de forma desalentadora, que uma penca de jornalistas de todas as nacionalidades estava à minha frente.
Como eu continuava invocado, e não queria saber de esperar meses e meses, liguei para o Ratinho, que recentemente conseguiu furar a fila de jornalistas e entrevistar Lula na Granja do Torto, com direito a churrasco e recital de sanfona. Ratinho se comprometeu a interceder em meu favor, aconselhando o presidente, seu amigo, a me receber prontamente. Ratinho me assegurou também que eu ficaria encantado com Lula, porque sua equipe é uma porcaria, mas ele é uma pessoa da melhor qualidade, tanto que foi o único que se preocupou em distribuir dentaduras aos pobres.
O empenho de Ratinho não aplacou meu ímpeto. Resolvi ligar para Duda Mendonça. Sua secretária despejou sobre mim uma gravação de Caetano Veloso cantando Nirvana. Fiquei ainda mais invocado do que antes. Duda Mendonça explicou que raramente se encontra com Lula, mas pretende vê-lo na semana que vem, para mostrar-lhe sua última campanha publicitária, aquela que compara dados de doze meses de Fernando Henrique com os de catorze de Lula. Duda Mendonça prometeu me ajudar a conseguir a entrevista. Agradeci e perguntei:
¿ O presidente apresentou como novas cinco ambulâncias que tinham sete anos de uso, mas foram repintadas para a ocasião. Ele não é como uma ambulância velha, repintada pelo senhor?
Modestamente, Duda Mendonça respondeu que não. Ele foi o maior responsável pela eleição de Lula. O destino o puniu infligindo-lhe a contratação de Luis Favre, o marido da prefeita Marta Suplicy.
A seguir, pensei em telefonar para José Dirceu, mas li que ele não apita mais nada no governo. Liguei então para Frei Betto, um dos melhores amigos de Lula. Ele não me atendeu. Voltei a ligar no dia seguinte. Ele estava em reunião. Liguei no outro dia. Ele continuava em reunião.
Cada hora mais invocado, procurei na internet o número da Secretaria de Comunicação e liguei para Luiz Gushiken. Como ele não estava, falei com um de seus assessores, que me recomendou ligar para o todo-poderoso secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho. Antes de trabalhar com Lula, Gilberto Carvalho era o principal colaborador do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel. O irmão de Celso Daniel, em depoimento à Justiça, acusou Gilberto Carvalho de conhecer os esquemas de propina da prefeitura e de ter entregue, pessoalmente, o dinheiro arrecadado a José Dirceu. Ocorreu-me que, além de pedir uma entrevista, valeria a pena aproveitar o telefonema para ouvir a versão de Gilberto Carvalho sobre o caso, mas ele preferiu não retornar minhas ligações.
No futuro, quando eu acordar invocado, acho mais fácil falar com o Bush.
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9:02 AM by Cassiano Leonel Drum
Final feliz a 410 apaixonados
Comlurb promove em Campo Grande cerimônia de casamento para funcionários que não tinham dinheiro para selar a união
Patrícia Melo e Souza
Adilson e Yolis estão juntos há 25 anos e realizaram um sonho ontem
Ao som da música Eu sei que vou te amar, 205 casais disseram sim ao amor no casamento coletivo promovido pela Comlurb, no Complexo Esportivo Miécimo da Silva, em Campo Grande. A decisão de promover a união legal e religiosa surgiu depois de pesquisa realizada pela companhia na casa de 7.500 funcionários. Muitos testemunharam que, apesar de dividir o cobertor nas noites de frio, não casavam por dificuldades financeiras. Ao fim da cerimônia e da chuva de arroz, cada participante ganhou fatia de bolo, copo de refrigerante e uma foto.
Com direito a bispo, pastor, juíza de paz e coral, o evento selou a relação de casais experientes, como Yolis da Silva Pinheiro, 70 anos, dona-de-casa, e Adilson Pinheiro, 68, auxiliar de serviços gerais. Ele lembra que ela resistiu aos galanteios, que começaram há 25 anos, durante o Carnaval, em Pilares. Tive que fazer jogo duro, entrega Adilson. A espera pelo dia mágico valeu a pena. O casal foi aplaudido com vigor pelos mil convidados presentes à cerimônia, com direito a acenos.
Para a realização do sonho ao custo de R$ 92 cada casal, a Comlurb montou uma grande estrutura, com 60 cabeleireiros, 25 manicures e até área de lazer para crianças.
Casamento acontecerá todo ano, atendendo a pedidos
Na preparação das noivas, alunos do curso de cabeleireiros do Senac gastaram 24 latas de spray com laquê e 1.400 grampos. Todas estavam muito tensas! Afinal, é um dia especial, disse Rogério Demétrio, coordenador da equipe.
Rosália Pereira, 26 anos, gari, contou que a cerimônia veio como um alívio: Há sete anos morava com meu marido, e a família cobrava. Padrinho de um dos casais, Jadilson Oliveira da Silva, 35, estava emocionado. Só tinha visto algo parecido na televisão, explicou.
Segundo a gerente de Comunicação Corporativa, Queila Werner, todo ano o evento se repetirá. Já redigimos manual dos noivos para os funcionários e criamos um teleatendimento, afirmou.
Voces viram só que lindo. Se você não passou ainda por isso, com certeza chegará a este dia e ai my friend é essa emoção retratada um pouco aí acima.
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8:53 AM by Cassiano Leonel Drum
Aposta no gringo
Sem as estrelas, Geninho joga suas fichas em Petkovic, que reestréia hoje no Vasco, para vencer o Grêmio. Torcida cobra garra do time
Carlos Monteiro
Nenhum torcedor está satisfeito com a pífia campanha do Vasco no Brasileiro, que conquistou apenas um ponto, dos 12 disputados até agora. Mas todos também entendem que o momento é de união. Foi isso que o técnico Geninho disse ao grupo de torcedores da Força Jovem, que teve uma conversa com e os jogadores, durante o treino de ontem. Eles pediram garra e determinação na partida de hoje com o Grêmio, às 18h, em São Januário.
Embora ainda não possa contar com os experientes Alex Alves, nove quilos acima do peso, Marcelinho, Róbson Luiz e Beto, que se recuperam de lesão, o técnico já elegeu seu novo líder: Petkovic. O sérvio deixou São Januário, no ano passado, e hoje faz sua reestréia com a camisa vascaína. E o apoiador não foge do desafio.
A responsabilidade existe todos os dias e aumenta quando a equipe não vence. Espero reestrear bem, analisou Pet, que durante o coletivo, além da boa movimentação, orientou os companheiros e até gritou com alguns deles.
A disposição do apoiador chegou a empolgar Geninho, que andava cabisbaixo com a péssima campanha do time no Campeonato Brasileiro. É uma característica do Petkovic. Ele fala muito. É um jogador experiente e precisa fazer isso mesmo, uma vez que temos um grupo bem jovem, aprovou o treinador vascaíno.
Sobre o comportamento da torcida, que se reuniu com os jogadores, ontem, durante o treino, Geninho não viu nada de mais. Também cobrado pelos torcedores, o treinador aproveitou para dar o seu recado: Eles fizeram uma cobrança pacífica e de forma ordeira. Isso só não pode é virar rotina. Mas também falei a eles que precisamos de incentivo. Afinal de contas, apoiar time invicto é mole. Nas horas difíceis é que todos precisam estar juntos.
Além da liderança de Pet, Geninho terá à disposição a sua zaga titular, formada por Wescley e Henrique. Cadu, que não aprovou no ataque, ganhou nova chance na equipe, só que desta vez no meio-campo.
Se o Vasco deposita suas esperanças na liderança e talento de Petkovic, o Grêmio aposta no desequilíbrio emocional do time vascaíno, que a sete jogos não vence. A última vitória foi no dia 4 de abril, 2 a 1 sobre o Flu, na final da Taça Rio.
O Vasco vem passando por uma situação difícil e, certamente, seus jogadores estão sendo pressionados. Mas, independentemente disso, trata-se de uma grande equipe, analisou o cabeça-de-área Cocito.
Já o zagueiro Claudiomiro quer vigilância redobrada sobre Pet. É um jogador habilidoso, que bate bem na bola e também é exímio cobrador de faltas. Devemos ter muita atenção com ele, recomenda.
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8:48 AM by Cassiano Leonel Drum
O século da emoção
Desde o seu início as duas rodas representaram a irreverência e o caminho alternativo
Eduardo Sodré
Duas rodas, um motor. Simples? A história da motocicleta mostra que não é bem assim. O primeiro conceito de um veículo assim foi apresentado na França, em 1790 (século XVIII), pelo Conde de Sivrac. Era o celerífero, com duas rodas iguais unidas por uma tábua, que servia como assento. Em 1817 foi instalado um sistema (criado pelo Barão Draisvon Sauerbronn) que permitia controlar a direção do veículo e ainda lhe deu um novo nome: Draisene. O selim só viria 50 anos depois, junto com a transmissão por corrente. Essas foram as primeiras bicicletas.
Com a Revolução Industrial, começa a corrida para colocar motores entre as duas rodas. Houve modelos desenvolvidos nos Estados Unidos e na França movidos a vapor (anos 1860), como as locomotivas e navios. Aplicados em veículos pequenos, era clara a dificuldade em manter alguma harmonia. Sendo assim, o alemão Gotlieb Daimler (ele mesmo, um dos pioneiros do automóvel) começou a pensar em propulsores menores, de combustão interna. Em 1885, este inventor registra a patente de um biciclo motorizado. A potência de 0,5 cv permitia uma velocidade menor do que 10 km/h, mas o objetivo havia sido alcançado.
Os alemães continuavam a mandar. Em 1894, Heirich Hildebrand e Alois Wolfmülller apresentaram um motociclo de 1.500 e 2cv de potência. Problemas mecânicos e dívidas encerraram as vendas do modelo, em 1897, mesmo ano em que surge a marca italiana Bianchi. Outras fábricas eram a francesa Bougery e os ingleses da Excelsior. Nos Estados Unidos, a pioneira chamava-se Orient. E coube aos bretões a organização da primeira competição, a Motorcycle Scrambles, em 1897.
Os grandes fabricantes de hoje surgiram ao longo do século XX. A Harley Davidson iniciou sua produção em 1903. Os japoneses entraram no mercado mais tarde: a Honda apresentou seu primeiro modelo em 1948. Quatro anos depois foi a vez da Suzuki. Já a Yamaha nasceu em 1955. Mesmo marcas que hoje não existem mais deixaram suas contribuições, como a alemã NSU, que desenvolveu a supensão traseira monochoque (1914) e a norte-americana Indian, que na mesma época oferecia partida elétrica.
Ainda nos primeiros anos do século XX, as primeiras motocicletas importadas chegaram ao Brasil. A fabricação nacional só começou em 1951, com a pioneira Monark com motor inglês BSA de 125 cc. De lá pra cá surgiram os mitos, como as ainda importadas Yamaha RD 350 (a Viúva Negra) e Honda CB 750 (Sete Galo) e a nacionalíssima e gigante Amazonas com motor Volkswagen de 1.600 cc. E enquanto houver gasolina, a história continua.
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8:44 AM by Cassiano Leonel Drum
Celso Loureiro Chaves
08/05/2004
Protocolos
Nossas platéias acostumaram-se a unir o ato de aplaudir com o ato de levantar do assento. Perdeu-se todo o significado de deferência que o aplaudir em pé uma vez teve. Hoje o aplaudir em pé é compreendido erroneamente como tarefa obrigatória de qualquer platéia, mesmo diante das coisas mais imbecis, os concertos mais idiotas, os solistas mais incompetentes.
Foi-se até aquele período intermediário no qual levantar do assento significava colocar-se a postos para correr à parada de ônibus mais próxima. Agora se trata de um protocolo de obrigação. Não é um erro só nosso. Também em Nova York, supostamente lugar de gente sofisticada, o fenônemo da mola no assento se repete com a mesma intensidade e com a mesma distribuição indiscriminada de reconhecimentos a quem quer que seja. Mesmo quando o que se ouviu não ultrapassou a inanição artística, não foi além da melancolia do esforço desperdiçado.
Outro dia o crítico Frank Rich do New York Times cogitava, diante deste fenômeno, se ainda haveria algo que fizesse com que espectadores ficassem colados em seus assentos ao final da ação sem sair pulando diretamente para o aplauso em pé. Diz ele que encontrou: o musical Assassinos, de Stephen Sondheim e John Weidman, recém-estreado. Para isso, no entanto, foi preciso que o musical terminasse com os atores apontando suas armas para a platéia... e disparando.
As platéias entusiasmam-se mas petrificam-se, aterrorizadas a ponto de não abandonarem seus assentos até que o último ator tenha sumido de vista. Não precisamos tal rigor ou tal literalidade, mas a verdade é que os critérios devem ser recuperados a partir do ponto em que se perderam nos protocolos palco/platéia. Pois se a reação ao final de cada espetáculo é sempre a mesma, então tudo é rigorosamente idêntico, não há parâmetros de comparação e crítica ou, pior, não há mais necessidade para a comparação e a crítica. E nenhum esforço vale a pena.
Numa sala de concertos, quando se aplaude alguma coisa de pé? O protocolo é claro: nunca. Sim, existem protocolos que nos unem a todos na intimidade de uma sala de concertos. Entre eles está a regra não escrita que indica o aplauso em pé como algo totalmente diferente do aplauso sentado. Ora, o compositor lutou séculos a fio para ter sua música apreciada por platéias que se dignassem a sentar e vem agora este afã de levantar-se! É verdade que protocolos adaptam-se: num concerto de rock, por exemplo, é impensável assistir alguma coisa que não seja na ponta dos pés, balançando os braços para o alto. Ninguém discute o porquê. A própria música indica, pede, exige. Na sala de concertos, o sentar-se é uma conquista árdua dos compositores e, como tal, deve ser respeitada.
O aplaudir em pé está reservado para os momentos profundamente emocionantes em que algo tenha falado diretamente à boca do estômago. São raros, estes momentos. É por isso que o aplaudir em pé não deveria ser nunca um protocolo vazio, uma obrigação. Ele é uma deferência, uma fraternidade verdadeiramente beethoveniana estabelecida entre platéia e palco. (Há um estágio além do aplaudir em pé, mas prefiro deixá-lo de lado, por temer pela saúde do piso de nossos auditórios se também isto se tornasse prática contínua.)
E existem protocolos para músicos? Sim, e como! Para compositores, o limite é estabelecido muito simplemente, pois é recomendável evitar qualquer demanda técnica que ultrapasse instrumentos ou instrumentistas causando-lhes dano físico. Há outros protocolos mais sutis, mas desses um bom professor de composição e a tradição acumulada haverão de dar conta. E para os instrumentistas, há protocolos? Há, e também em boa medida, visíveis e invisíveis, audíveis e inaudíveis.
O limite inferior, no entanto, é facilmente estabelecido pelas simples regras da boa educação que valem para todos. Quando estas se quebram, instalam-se o desconforto e o caos. Como aconteceu com certa pianista que cá esteve para tocar Beethoven e começou destratando maestro e orquestra durante os ensaios, prosseguiu com seu mau humor auto-indulgente durante os concertos e ultrapassou a barreira invisível do palco para lançar olhares fulminantes até sobre espectadores que, coitados, queriam apenas desenrolar suas balinhas de menta.
Neste caso, a falta de educação da pianista alcançou a histeria e nos deixou a todos cogitando se não seria caso para uma solução medicamentosa. E que fossem urgentes e fortes os medicamentos, antes que a pianista se atracasse a dentadas em algum músico desavisado.
celso.chaves@zerohora.com.br
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8:39 AM by Cassiano Leonel Drum
Lia Luft
08/05/2004
Eu não estou indo embora
Um jornal pode ser um pedaço da casa da gente: a Zero Hora tem sido isso para mim desde janeiro de 2003, e olhem que minha casa é algo que eu valorizo extraordinariamente.
Quando Marcelo Rech me telefonou em fins de dezembro de 2002 me chamando para escrever nos sábados porque o Verissimo estava reduzindo suas colaborações em vários jornais, hesitei: há muitos anos eu não fazia crônica. Romance e poesia eram uns jeitos de me esconder, afinal livro é mais remoto, o leitor não encontra a gente tão fácil assim.
Mas aceitei porque o convite era honroso, carinhoso e generoso. Gostei do novo trabalho, gosto de desafios em geral. Logo me senti tão em casa que nem me imaginava mais em outro lugar senão, aos sábados, aqui mesmo. Os telefonemas, os e-mails, eram novos laços de amizade. Alguns xingamentos, quase do tipo do "vai pras panelas" que algum motorista grosso grita lá do alto da sua arrogância em pleno século vinte e um; muitos argumentos inteligentes que me fizeram rever meus próprios enganos; várias correções de que eu bem que estava precisando; alguns enfrentamentos divertidos; em geral muito estímulo, de que a gente carece porque a coisa não é simples.
Estar entre pessoas a quem eu admirava e lia há muitos anos, ou mais recentemente (porque muitos deste jornal são tão mais moços do que eu), me deu uma sensação de pertença: que bom, eu faço parte da Casa. Espero fazer parte dela para sempre, ainda que algumas coisas mudem, aqui comigo.
Pois hoje estou dando a todos os parabéns pelos 40 anos comemorados de tantos jeitos, inclusive com a bela exposição que acontece na Casa de Cultura Mario Quintana, organizada pelo marchand Renato Rosa, com alguns dos nomes mais importantes das artes plásticas gaúchas. E que a gente faça mais 40, e mais 40, e mais.
Mas ao mesmo tempo estou dando uma espécie de "tchau", muito sem graça. Meio inesperado, embora eu e mais alguns desconfiássemos. Depois de um namorico, fui convidada pela Veja para ser sua colaboradora efetiva. Sua primeira colunista mulher. E a revista é ciumenta: exclusividade total, exigência inegociável apesar de todas as minhas mais sedutoras tentativas de abrandamento.
O desafio é bonito: mais de 1 milhão de leitores em todo o país, para os quais de certa forma estarei representando este meu Estado (espero que bem). É por outro lado muito assustador: a cara na janela diante de um mar de gente, e não é gente do meu terreiro, meu território, meu sotaque, mas vá lá: covardia nunca foi um de meus defeitos.
Além do mais, "nunca diga nunca" é um bom pensamento. Quem sabe um dia a regra se modifica, quem sabe quanta coisa pode suceder. O certo é que todas as manhãs, nesta casa da Chácara das Pedras, vão estar, na telinha, o Bom Dia Rio Grande, e na mesa o café fumegante e as páginas abertas da minha Zero Hora: de onde, eu sei, nunca terei saído de verdade.
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8:37 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
08/05/2004
Jogadores compulsivos
Foi impressionante como as multidões acorreram ontem e anteontem aos bingos.
Houve cenas comoventes, pessoas colocando seu dinheiro nas maquininhas para iniciar suas apostas e derramando lágrimas, como se estivessem se reencontrando com um grande amor, depois de uma separação cruciante de 76 dias.
As pessoas correram para os bingos parecendo rebanhos nômades à procura de pastagens ou água.
Estavam famintas de jogo.
Eu não sabia, mas existe em Porto Alegre um grupo de auto-ajuda denominado Jogadores Anônimos.
O relações-públicas deste grupo me diz que são excelentes os resultados obtidos na cura de pessoas que são dominadas pelo jogo compulsivo.
O próprio relações-públicas me expõe a sua experiência. Ele estava vendo sua vida completamente esfacelada pelo vício do jogo. Procurou um psiquiatra, mas foi em vão, continuava jogando e cada vez mais se afundando em dívidas.
Até que o psiquiatra o aconselhou a buscar ajuda com os Jogadores Anônimos. Isso foi no ano de 2001.
Pois hoje ele se orgulha de ter-se tornado completamente abstêmio de jogo, desde janeiro de 2002 que não joga mais.
Declarou-me que todas as imensas dívidas que contraiu por causa do jogo já estão quase pagas (e pareciam a ele impagáveis antes de se socorrer dos Jogadores Anônimos).
Os Jogadores Anônimos oferecem um programa de regeneração que se constituiu em 12 pontos de recuperação. Os pacientes se submetem a esse método e vão assim ganhando forças para resistir ao jogo compulsivo.
Mas o interessante é o rol de obsessões que acometem os jogadores patológicos, isto é, aqueles que não passam um dia sequer sem jogar e vão com isso dilacerando suas vidas e cada vez mais se afundando em dívidas, ameaçando ou perdendo inteiramente o seu patrimônio.
Lá eles tratam de viciados no bingo, nas maquininhas e no carteado. Também assistem os que se obcecam no jogo do bicho e em todas as loterias oferecidas pela Caixa Econômica Federal.
São inúmeros os viciados em turfe que vão parar lá. E até os viciados no jogo do osso.
E o mais surpreendente: recorrem aos Jogadores Anônimos e recebem tratamento (é inacreditável) os viciados em bolsas de valores e mercado de opções.
Quem dizia que bolsa de valores é um jogo, é uma loteria, ganha agora toda a razão. Quem tem compulsão por compra e venda de ações e joga com insistência doentia na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), de tal sorte que se arruína financeiramente, merece tratamento nos Jogadores Anônimos.
Agora mesmo o presidente Lula está estudando medidas para reagir à reabertura dos bingos e maquininhas pelo Senado.
O governo quer acabar com o jogo de qualquer maneira. Espera-se que não cometa o excesso de acabar também com a Bolsa de Valores.
Em tempo: o endereço dos Jogadores Anônimos é Avenida Independência 993, prédio da Cruz Vermelha. Informações no telefone 9988-8423. O tratamento para jogadores compulsivos é gratuito.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:35 AM by Cassiano Leonel Drum
Ricardo Silvestrin
08/05/2004
E/ou
Achei na Internet muita coisa sobre os Monkees. Hey, hey, The Monkees era tema daquela série de TV muito divertida lá do final dos anos 60. Passava aqui por 70 e poucos. Depois voltou na Retrô TV, do Multishow.
Formavam uma banda tipo Beatles, e as histórias do seriado giravam em torno das aventuras musicais deles. Tinha um nonsense e um humor típico dos clipes dos Beatles. Tem meio o clima da banda Cachorro Grande de hoje. Eles cantavam no seriado. Suas músicas foram fazendo cada vez mais sucesso. Descobri há pouco que I'm a Believer era um hit deles. Conhecia apenas nas versões do Smash Mouth e do Lulu Santos: "Mas agora eu sei / que não acredito / me cansei de ter ilusão / agora eu sei que só acredito / no que já está na minha mão". Os caras não eram músicos profissionais. Eram apenas atores.
Mas a repetição das suas canções na TV, o bom humor dos personagens e mesmo o bom gosto dos arranjos fizeram com que o sucesso televisivo virasse um fenômeno de vendas também musical. Começaram então as críticas, as cobranças e até uma crise de identidade no grupo. Eles eram músicos ou eram atores? Mas aí é que está o problema, nessas duas letrinhas fechadas e carrancudas lado a lado: ou. Como se não pudessem ser músicos e atores. Começaram atores e viraram atores-músicos.
Certamente eram melhores atores do que músicos, mas suas canções conseguiram ser boas canções. O Verissimo é escritor ou saxofonista? Muita gente vai ao show da banda dele e diz que ele escreve melhor do que toca. Claro, quem escreve melhor do que o Verissimo? O termo de comparação com o seu sax passa a ser o seu texto. Para ter o mesmo nível do texto só se ele fosse o John Coltrane! E Verissimo ainda desenha. É desenhista, escritor ou saxofonista? Bota um "e" no lugar do "ou" e tudo se resolve.
Chico Buarque começa a equilibrar a percepção de compositor e escritor. Por um lado, em virtude de ter diminuído em muito os lançamentos de CD com repertório inédito. Mas a sua produção no campo da canção popular é ainda superior à de qualquer outro compositor/letrista brasileiro. Já na literatura, o buraco é bem mais embaixo.Para ombrear com toda uma turma de romancistas da pesada, tanto brasileiros quanto do resto do mundo, um escritor tem que comer muito feijão.
O Gerbase é cineasta, roqueiro e contista. Mesmo que ele tenha muito mais cara de cineasta! A comparação vem mais forte quando o sujeito desempenha em vários campos da arte. Já quando ele tem duas profissões de campos diferentes, adoram encher a boca e dizer: o médico e escritor, o escritor e publicitário... A mim, isso sempre soa meio estranho. Como se ser escritor não fosse o suficiente.
Já no consultório ninguém diz o escritor e médico. O dentista e tocador de berimbau! Aqui nem o "e" nem o "ou" servem. Parece mais adequado chamar o indivíduo de escritor nos contextos literários e de sei lá o que no seu outro contexto profissional. De cabeleireiro no salão e de ator no palco, como é o caso do Elison Couto, vencedor do último prêmio Açorianos de melhor ator.
ricardo.silvestrin@zerohora.com.br
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8:23 AM by Cassiano Leonel Drum
Reportagem Especial
Emergência no sul do RS
Chuvas inundam Pelotas e cidades vizinhas, matam um agricultor e desabrigam centenas
A força das águas do Arroio Fragata estourou a cabeceira de ponte na BR-116, entre Pelotas e Capão do Leão, e isolou seis cidades da Região Sul (foto Nauro Júnior/ZH)
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Sexta-feira, Maio 07, 2004
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9:00 PM by Cassiano Leonel Drum
Especial
Pra cima, Brasil
Autoconfiança, humor e fé fazem o brasileiro dar a volta por cima e não perder a esperança de que é possível varrer o baixo-astral que teima em se abater sobre o País
Ricardo Miranda
Colaboraram: Ana Carvalho e Chico Silva
Desencantado com o governo que elegeu? Pisando em ovos para não perder o emprego? Com medo de sair às ruas e ser assaltado? Seu time de futebol só dá desgosto? Nem mesmo o quadrante difícil da vida nacional, com más notícias assombrando diariamente o noticiário, tira a esperança desse povo sobrevivente. O brasileiro não é melancólico e fatalista como os argentinos, tira otimismo de onde menos se espera, explica a psicóloga carioca Beth Valentim, autora do best seller Essa tal felicidade.
Mestre em psicologia social, Beth acompanha em seu consultório e também em empresas nas quais atua como consultora a luta de todos para se livrarem do baixo-astral. É preciso acordar todas as manhãs e acreditar que as coisas boas vão acontecer, recomenda Beth, que chama a esse esforço de musculação emocional. Ana Beatriz Barbosa Silva, diretora médica do Núcleo de Medicina do Comportamento (Napades), tem atendido pacientes desgostosos com a vida, com o País, com o mundo, o que ela chama de stress coletivo. As más notícias vão pingando até transbordar, conta a autora do livro Mentes e manias.
O brasileiro, segundo ela, está aprendendo a mudar suas expectativas. Em vez de depender de sonhos coletivos, de utopias, de salvadores da pátria, o brasileiro decidiu apostar mais em si, analisa. Para o antropólogo Gilberto Velho, a mobilização social pode ser a chave para superar o clima de desilusão. A baixa auto-estima nacional, lembra ele, se reflete num desencanto com uma de nossas maiores conquistas, a democracia.
Sinal disso é o recém-divulgado estudo das Nações Unidas, mostrando que 54% dos latino-americanos não se importariam em viver numa ditadura, desde que acompanhada de um cenário econômico melhor. Quando o tema é a adesão da população à democracia, o Brasil ocupa a 15ª posição entre os 18 países da América Latina pesquisados.
Um exemplo de volta por cima é Luciana Novaes. Na quarta-feira 5, a jovem de 20 anos, tetraplégica e respirando com o auxílio de aparelhos, completou um ano internada na UTI de um hospital no Rio de Janeiro. Há um ano, a estudante foi atingida por uma bala perdida no campus da Universidade Estácio de Sá. Quem não conhece a garra e o bom humor de Luciana pode se surpreender, mas ela tem muito o que comemorar.
Comunicando-se durante quase um ano piscando os olhos ou movendo os lábios, ela reconstruiu há algumas semanas sua ponte com o mundo. Com a ajuda de fisioterapeutas, reaprendeu a falar mesmo usando o respirador artificial. Vítima da violência, Luciana decidiu reagir engajando-se em uma campanha pelo desarmamento. Junto com ela estão os pais de Gabriela Prado Maia Ribeiro, morta aos 14 anos por uma bala perdida em uma estação do metrô, e de Camila Magalhães Lima, atingida no pescoço também por uma bala perdida em 1998, hoje com 17 anos. Não adianta ficar sentada chorando, nem parada esperando o governo fazer alguma coisa. Não posso sair daqui, mas posso fazer a diferença, mesmo em cima da cama, ensina Luciana.
Passar horas enfiado num carro preso em intermináveis congestionamentos, escapando das enchentes e torcendo para não ser o assaltado da vez vive o supervisor de vendas de uma grande multinacional Luigi di Costanzo Filho, 40 anos. Só nos últimos meses foi assaltado duas vezes: por um pivete na praça da República, centro da cidade, e por um jovem no Cambuci, também na região central. No último, estava em companhia da mulher e dos filhos. Foram-se R$ 100 em cada roubo, um relógio e uma tênue sensação de tranquilidade. Não paro mais em sinal. Outro dia tomei até uma multa por furar um. Mas não quero nem saber. Minha vida vale mais do que uma infração, diz Cortanzo Filho.
Apesar dos sustos, ele ainda acredita que os filhos possam viver num país melhor e mais justo. A solução, avalia, passa por reformas, como a tributária e a trabalhista. Só com mais receita e menos encargos o País terá condições de crescer e gerar mais renda, afirma. Enquanto as reformas não vêm, o jeito é tocar a vida e tentar fugir dos buracos, das enchentes, dos assaltantes. Sem perder o humor.
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8:20 PM by Cassiano Leonel Drum
EUA
O pornô virou filme de terror
Contaminação de ator americano por vírus HIV, supostamente por uma colega brasileira, paralisa a indústria pornográfica americana
Osmar Freitas Jr. Nova York (EUA)
Quem acredita que um único indivíduo não seja capaz de afetar o processo de globalização deveria conhecer a brasileira Bianca de Biaggi. Aos 22 anos, ela interrompeu, desde o dia 12 de abril, uma indústria americana que fatura anualmente estimados US$ 10 bilhões. A moça, que tem um físico que a faria passar por uma menina de 17 anos, é atriz de filmes pornográficos e está sendo acusada de ter infectado com o vírus HIV o ator americano Darren James, 27 anos.
Os dois mantiveram relações sexuais no final de março, sem fazer uso de preservativos, nas filmagens de uma produção americana ainda sem título. Darren cujos resultados haviam dado negativo em exames feitos antes da viagem voltou à Califórnia e reassumiu seus trabalhos. Co-estrelou com a canadense Lara Roxx na obra Anal furry 6, e, sabe-se agora, contaminou essa parceira.
Antes de passarem pelos exames obrigatórios a profissionais do ramo nos EUA, ambos mantiveram contato com outros atores. Essa corrente epidêmica contaminou pelo menos seis pessoas e pôs em risco cerca de outras 60. Nesse cenário, 30 produtoras pornôs de San Fernando Valley impuseram uma moratória às filmagens por 60 dias. Um enredo de horror para o cinema do prazer.
A história tem tudo a ver com os mecanismos da globalização. A indústria pornô americana coloca cerca de 11 mil títulos anuais no mercado. As produções americanas, claro, são mais caras. Assim, para cortar custos, os estúdios da área vão filmar em locações de países em desenvolvimento, como a República Tcheca, a Hungria, e principalmente o Brasil, o segundo maior produtor de filmes pornôs do mundo, atrás apenas dos americanos, diz Tim Connelly, da Adult Video News (AVN), publicação especializada no setor de filmes sexuais.
Quem puxa a audiência nestes filmes são as mulheres. As atrizes americanas ganham em média de US$ 300 a US$ 1 mil por um dia de filmagem. As grandes estrelas têm cachê de US$ 5 mil diários. No Brasil, esses custos caem para dois terços nos salários das moças. Além disso, os diretores estão sempre procurando carne nova o público acaba se cansando das mesmas caras e corpos numa obra. Desse modo, as brasileiras que são bonitas e disponíveis acabavam abocanhando boa parte do mercado, diz Connelly.
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8:05 PM by Cassiano Leonel Drum
Teologia do traste
Poema inédito de Manoel de Barros
As coisas jogadas fora por motivo de traste
são objetos da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra por motivos de traste uma
lata: mendigos, cozinheiras e até poetas podem
pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
Se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém pode pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pela rua moda um caminhão de areia.
E as idéias por serem um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito ¿ a gente sabe.
Há idéias luminosas ¿ a gente sabe.
Mas elas inventaram a Bomba Atômica, a Bomba
Atômica, a Bomba Atôm....................................
....................................................................Agora
Eu queria que os vermes iluminassem.
Eu queria que os trastes iluminassem.
MANOEL DE BARROS mora em Campo Grande (MS). O poema Teologia do traste integra o livro Poemas rupestres, a ser lançado em setembro pela Record.
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6:50 AM by Cassiano Leonel Drum
SER MÃE
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.
Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!
Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!
Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
Coelho Neto
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6:46 AM by Cassiano Leonel Drum
Ricardo não joga a toalha
Técnico tricolor, apesar da eliminação na Copa do Brasil, diz que gostou da atuação do time e que goleada não tirou sua confiança
PORTO ALEGRE - Primeiro, foram as reclamações de Edmundo. Depois, o futevôlei e as noitadas de Romário. Agora, a eliminação da Copa do Brasil. Quando a paciência do técnico do Fluminense, Ricardo Gomes, estava no limite, ele buscou forças na própria evolução do time para apostar em dias melhores. Apesar da goleada (4 a 1) sofrida para o Grêmio, na quarta-feira, o treinador acha que sua equipe merecia sorte melhor. Por isso, não jogou a toalha.
Faltou eficácia na frente do gol. Nós merecíamos uma sorte melhor nesta partida, pois, quando o jogo ainda estava 2 a 1, perdemos duas chances incríveis na pequena área, com o Alessandro e o Roger. Se tivéssemos um pouco mais de sorte nas finalizações, poderíamos ter saído com um resultado melhor, disse o treinador tricolor.
O abatimento virou empolgação. Satisfeito com o desempenho do time no segundo tempo do jogo contra o Grêmio, Ricardo Gomes acredita que tudo vai melhorar nas próximas partidas do Campeonato Brasileiro. O técnico fez questão de deixar claro que não pretende mais abandonar o clube, como chegou a admitir, na terça-feira.
Sinceramente, estou muito confiante nesta garotada e, apesar da goleada, o time demonstrou uma grande evolução. De minha parte, não há a menor chance de deixar a equipe num momento como este. Nunca saí de um clube por causa de uma situação difícil. Meu pensamento agora está voltado para o Internacional, afirmou, já preocupado com o jogo de domingo, também em Porto Alegre, válido pelo Brasileirão.
Sem Edmundo e Romário (contundidos) por perto, o discurso de Ricardo Gomes mudou: Não há polêmica nenhuma. Resolvemos a situação do Edmundo. Com o Romário foi a mesma coisa. Vida que segue. O Romário é fácil de se administrar. Ele não está se desgastando tanto assim. Houve realmente alguma coisa na véspera do jogo contra o Vasco, mas isto já foi contornado, garantiu o técnico, que ficou aborrecido ao ser informado de que o atacante jogara futevôlei um dia antes do clássico.
Presidente encontra hoje a delegação
O presidente David Fischel deve viajar hoje para Porto Alegre, ao encontro da delegação tricolor, que só retorna ao Rio na segunda-feira.
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6:42 AM by Cassiano Leonel Drum
Bingos preparam o jogo
Por uma questão judicial, apenas quatro casas do Rio e sete no interior podem voltar a funcionar. Expectativa pelo retorno de apostas provocou vigília na porta dos estabelecimentos
Em Petrópolis, as gerentes do Serra Bingo recepcionavam, com sorriso, o regresso dos clientes
Alegria, expectativa e frustração. Apesar da liberação no Congresso, apenas 11 dos 42 bingos do Rio poderão voltar a funcionar. Empresários que apostavam alto no retorno imediato esbarraram em liminar pedida pelo Ministério Público Federal, em outubro, que proíbe 31 casas de funcionar, e apenas quatro na capital e sete no interior poderão reabrir as portas.
No Rio, estão liberados os bingos Voluntários (em Botafogo), Ipanema (no bairro), Saens Peña (na Tijuca) e o Golden Bingo (no Centro), atualmente desativado. E, no interior, em Cabo Frio, Petrópolis, Nova Iguaçu, Barra Mansa, Resende, Alcântara e Campos. Os caça-níqueis estão liberados em todo o estado. A Loterj estima um prejuízo de R$ 6 milhões no período em que as casas de jogos não funcionaram.
No Bingo Copacabana, empregados da casa de jogos preparavam o estabelecimento para voltar a funcionar
Ontem, os donos de casas de jogos passaram a tarde reunidos na Associação dos Bingos do Rio de Janeiro (Aberj) para definir estratégias e maneiras de recorrer da decisão judicial. A partir de hoje, algumas já estarão funcionando e a previsão é de que até domingo todas estejam abertas. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bingos (Abrabin), Olavo Sales da Silveira, aproximadamente, 20% dos bingos do País não conseguirão voltar a funcionar porque, com a falta de receita, perderam os imóveis.
Ansiedade leva apostadores para as portas dos bingos
Apesar de não estarem ainda funcionando, os bingos já estão sendo procurados por apostadores ansiosos. A divulgação de que o jogo está novamente liberado criou uma verdadeira peregrinação, e ontem havia aglomeração na porta de diversos estabelecimentos na cidade. A maior foi registrada no Bingo Rio Branco (Centro), justamente um dos atingidos pela liminar, e que não tem previsão de voltar a operar. O telefone não parou de tocar e várias pessoas ficavam aqui na porta, esperando que abríssemos, mas a gente não pode simplesmente abrir, disse um funcionário, que não quis se identificar. Segundo ele, os 200 empregados já foram avisados que podem ser recontratados a qualquer momento.
Em Petrópolis, o Serra Bingo não perdeu tempo e abriu as portas ontem. A aposentada Evangelina Garcia da Silva, 70 anos, vibrou. Tenho poucas opções de lazer. Algumas amigas tiveram depressão ou ficaram doentes por não terem onde se distrair. É ruim ficar em casa sem fazer nada, disse. Uma das gerentes do bingo, Tatiana Paiva de Souza, 24, disse que nunca perdeu as esperanças de voltar a trabalhar.
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6:33 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
07/05/2004
Jogador gosta de perder
Quando fechou os bingos, Lula mirou no que viu e acertou no que não viu: acabou beneficiando os milhões de brasileiros que se entregavam ao jogo do bingo e das maquininhas.
De repente, sem poder jogar, os apostadores se viram livres de uma considerável e compulsória despesa que tinham todos os meses.
É que ninguém ganha nesse tipo de jogo, todos perdem. O que atrai as pessoas para as apostas é que de vez em quando elas ganham.
Mas quem joga bingo ou maquininha joga todos os dias, joga sempre enquanto tem dinheiro, aí ninguém escapa.
Por um desses estranhos desígnios da psique humana, os apostadores se livraram do pesado encargo financeiro que lhes impunha o jogo, mas se mostraram contrariados com a medida do governo.
Eles não tinham mais o que fazer, vagavam tontos pelas cidades sem qualquer distração.
E mais vale um gosto do que três vinténs. Esses apostadores contumazes de bingos estavam vibrando anteontem quando o Senado, numa votação surpreendente, derrubou a medida provisória e reabriu as apostas.
Daí que quarta-feira à noite no Olímpico, à saída do jogo, eu vi com meus olhos torcedores vibrando com a vitória do Grêmio sobre o Fluminense e com a reabertura dos bingos.
Sempre defendi perante meus amigos que o apostador de qualquer jogo, roleta, bingo, maquininha, cartas, gosta de perder.
Não é de ganhar que ele gosta, como pode parecer.
E sempre baseei a minha tese no seguinte fato: se sempre o jogador perde, isto é do seu agrado. Se não fosse, ele deixaria de jogar.
O festejo dos apostadores do bingo comprova definitivamente a minha tese: multidões comemorando que, com a reabertura, incrivelmente voltarão a perder dinheiro como antes.
E mais incrivelmente ainda: essas multidões passaram 76 dias sem perder dinheiro enquanto os bingos estavam fechados.
Mas se recordam com pesar desse lucro indesejado.
Ontem foi dia de receber mais uma vez o prêmio Top of Mind, da Revista Amanhã, como colunista de jornal mais lembrado no Rio Grande do Sul.
Há quase 15 anos recebo este galardão, do qual me orgulho, pelo reconhecimento dos leitores gaúchos pesquisados.
Obrigado aos leitores.
E todos vinham me dizer que a deputada Jussara Cony (PC do B) tinha feito, na solenidade em que os deputados estaduais homenagearam os 40 anos de Zero Hora, uma menção muito honrosa a este colunista em seu discurso.
Li o discurso da deputada e fiquei muito lisonjeado com sua referência.
A vida também é feita dessas alegrias, ser assim mimado com o reconhecimento dessa mulher de muitas lutas que é Jussara Cony, vereadora comigo durante tantos anos.
Obrigado, Ju.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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6:30 AM by Cassiano Leonel Drum
Mauren Motta
07/05/2004
Tá traçado
Domingão, 6h, chamo um táxi para me levar ao aeroporto. No caminho, já começo a viajar. O sol nasce bonito, laranja. Meus pensamentos já estão bem longe. No vôo lotado para Salvador, fico imaginando quantas daquelas pessoas desembarcariam comigo. Na primeira escala, desce todo mundo e eu fico sozinha no avião. Pena. Salvador é mágico e místico. Curto demais a Terra de Todos os Santos, onde a vida passa devagar e o Arroxa é a onda do momento. Desta vez vou pra trabalhar, ou melhor, gravar e gravar muito.
Em junho, vou estrear no programa Mais Você, aquele da Ana Maria, um quadro do Brasil Total chamado Foi Assim. Nesta fase da minha vida não poderia ser melhor. São histórias de amor contadas por casais de diferentes lugares. Então, começo com o pé direito e cercada de patuás as minhas andanças pelo Brasil. Na pauta da primeira história: amor e destino. Será que podemos acreditar? Eu, cada vez mais, acho que sim. Tudo o que é nosso está guardado, traçado. Como a chance de voltar tão rápida e inesperadamente para um lugar tão lindo ou a oportunidade de participar de um projeto tão bacana.
O roteiro de gravações me leva para lugares ainda não visitados. A aromaterapeuta, a taróloga e o pai-de-Santo são meus personagens. Pai Alex é entrevistado dentro do terreiro. Cercado por todos os orixás, ele me ensina uma receita para abrir caminhos e encontrar amor. A mistura com lavanda e mel cheira muito bem. O jogo de búzios traça o meu destino. Tenho muito amor e trabalho pela frente. Ainda bem, sou workaholic e apaixonada por natureza.
Dia de gravações encerradas. Eu e a equipe vamos jantar no Trapiche Adelaide. Lugar hype, cozinha incrível, decoração inacreditável. A noite adocicada compensa a conta salgada. Hora de dormir, amanhã tem mais. No hotel, cravado na rocha e grudado no mar, dá pra entender a imensidão do lugar e a calma do povo. Dorival que o cante. O quarto de janelas amplas desnuda uma orla fantástica e uma lua imensa. E ainda tem Goiânia e Belém. Minha mente viaja de novo.
Viajar é maravilhoso, mas voltar pra casa é ainda melhor! O Patrola é a casa, e ela tem um novo morador. Bom saber o que o destino nos reserva. Nesta nova família reencontro um amigo e vizinho de infância. Garoto espoleta cheio de talento: Ico Thomaz, seja bem-vindo!
mauren@rbstv.com.br
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6:28 AM by Cassiano Leonel Drum
Gabriel Moojen
07/05/2004
Vivendo e aprendendo
Das coisas grandes que fiz todos saberão a metro, das pequenas, aquelas em centímetros, não? Foi isso que li num poema do Leminski. Não com essas palavras, mas a idéia era essa. O que eu fiz no Patrola, no Brasil Total, no meu livro de contos, no Chapa Quente na Atlântida... É fácil ver o que a gente evolui e aprende. Mas hoje quero deixar aqui escrito o que aprendi nesses últimos anos como jornalista.
Primeira lição: trabalhar em equipe e dar valor a quem está ao redor. Se não fosse a oportunidade dada pelo Raul Costa, pelas coisas que aprendi, e foram tantas, com a Alice Urbim, as discussões com a Joice, a Laura, a Mauren, o Rezende, se não fosse por isso não estaria escrevendo esta coluna. Na TV, desde o cara que carrega o cabo até o diretor, todos têm a mesma importância na hora do show. Tudo deve estar no seu lugar, e cada função deve ser executada com precisão. Se uma coisa dá errado, tudo dá errado.
A segunda: exercitar a humildade. Estar exposto na mídia pode causar algumas ilusões. As pessoas são amigas, as portas estão abertas, todos querem te atender bem. Mas isso não pertence ao homem e sim à máquina. No dia em que eu sair da tela, tudo se evapora. E é necessário ser sempre quem se é. Ninguém vai me dar um rosto novo se eu gastar esse. É necessário manter a serenidade sempre.
Terceira: nesse meu trabalho, cada ato tem um valor enorme. Desde um sorriso para uma pessoa no trânsito até um gesto de amor ao próximo, tudo toma uma dimensão gigantesca. Por isso, o melhor é dar sem esperar receber.
Quarta: toda pessoa deve ser respeitada, independentemente de quem seja. Se de manhã eu entrevistar o Red Hot e de tarde a galera do Morro do Macaco, esses devem receber de mim o mesmo tratamento.
Quinta: agradecer sempre. Saber que quem faz o show não sou eu, o apresentador, e sim meu entrevistado.
Sexta: ter leveza, coração tranqüilo e ir em busca da palavra exata para expressar o que quero dizer. Isso se consegue através da leitura e da busca permanente de informação.
Ùltima lição: estou sempre aprendendo e nunca saberei tudo. Era isso. Me escrevam.
gabriel@rbstv.com.br
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6:25 AM by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
07/05/2004
Os gigas
Agora não se disca; se preme: quatro, dois, zero, zero. Ramal do Help Desk. Por que esse nome? Não tem similar em português? Bem. Atendeu-me o Fabrízio, sempre prestimoso porém indecifrável. Expliquei que não conseguia abrir alguns imeils. Ele:
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