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Sábado, Maio 22, 2004
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8:08 PM by Cassiano Leonel Drum
Além da palavra
Eu, que sabia dizer te amo todo dia,
Notei que a palavra podia ser traída,
Podia ser dita, assimilada e entendida
E a pessoa não fazer o que ela dizia
Eu, que aprendi falar do amor em poesia,
Vi que nem sempre uma poesia é lida
E notei que sua intenção era destruída
Por quem escreve enganando quem a lia
Por isso meus poemas e as declarações
Podiam ser apenas uma linda fachada
Se, só escritas, não valessem de ações
E quando digo que te amo, vou ainda além
Da boca e da caneta que escreve calada
Sendo só teu homem e de mais ninguém
Francisco Libânio
28/01/04 - nº 16-04
9:50 AM
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6:29 PM by Cassiano Leonel Drum
Casa em ordem
O MEC vai fiscalizar os MBAs. Aqui, dicas para acertar na escolha da escola
Greice Rodrigues
Em tempos de economia globalizada, de mercados cada vez mais competitivos e exigentes e de constantes inovações tecnológicas, manter-se atualizado e antenado a essas mudanças é uma necessidade vital para quem transita no mundo dos negócios. Nesse cenário, a busca incessante pelo conhecimento é o maior desafio. Seja para turbinar o currículo e garantir a empregabilidade, seja para administrar o próprio negócio, os cursos de especialização os famosos Masters Business Administration (MBA) se tornaram imprescindíveis na carreira de qualquer executivo.
O cirurgião paulista Marciano Carlos Rossato de Almeida, por exemplo, resolveu criar sua própria empresa de auditoria e administração, mas não se sentia seguro para isso. Recorreu ao MBA em gestão, do Ibmec Educacional, concluído no final do ano passado. A formação de médico não me dava competência para gerenciar. Precisava de algo específico.
Procurei um curso com enfoque prático, menos catedrático. Isso foi vital porque me ajudou a enxergar os problemas e as soluções. O curso me proporcionou o contato com outras pessoas experientes. Todos vão dando dicas, idéias que podem ser aplicadas na prática. Essas relações são muito importantes, conta Almeida.
Criar mecanismos que garantam esse processo de atualização é a tarefa das boas escolas de negócios em todo o mundo. No Brasil, a febre do MBA começou no início dos anos 90. De lá para cá, houve grande proliferação desses cursos, que não dependem de autorização do Ministério da Educação para funcionar.
Estima-se que haja no Brasil mais de seis mil cursos de MBA, a maioria sem nenhum controle de qualidade. Para pôr ordem na casa, o Ministério da Educação anunciou no dia 10 que a partir de agora vai fiscalizar a oferta dos cursos de pós-graduação, entre eles os MBAs. A intenção do MEC é criar um cadastro para identificar e regularizar os cursos deficientes.
A iniciativa do MEC vai ganhar um reforço importante. Um grupo de 12 instituições brasileiras, entre elas o Ibmec Educacional, a Fundação Instituto de Administração (FIA) da USP, a Fundação Getúlio Vargas e a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), criou a Associação Nacional dos MBA (Anamba), que a partir de junho também vai medir a qualidade dos programas de especialização disponíveis no mercado.
A associação criará critérios básicos de avaliação, como grade curricular mínima e qualificação dos professores. Não iremos substituir os órgãos oficiais, mas queremos atuar como uma fonte de informação para os alunos, afirma Irineu Gianesi, diretor de programa do Ibmec e um dos fundadores da Anamba. As boas escolas ganharão um selo de qualidade.
Almeida: o médico se tornou administrador depois de um MBA
Mas, enquanto essas ações não entram vigor, a saída é pesquisar. Foi o que fez o executivo Cássio de Quadro Tietê, 37 anos. Estudei as possibilidades minuciosamente. Queria uma escola que tivesse um programa com currículo global, tão eficiente quanto os oferecidos lá fora, conta ele.
O trabalho, segundo ele, valeu a pena. Tietê é um dos alunos do OneMBA, da FGV, um dos mais conceituados do mercado. Esse programa corresponde às minhas expectativas porque permite contato com realidades de vários países, afirma. A FGV mantém uma parceria com universidades da China, do México, da Holanda e dos Estados Unidos e leva, a cada três meses, seus alunos para conhecer essas instituições. A experiência e o conhecimento adquiridos nessas visitas são importantes porque nos tornam aptos a trabalhar em qualquer país, aposta Tietê.
Para facilitar a escolha, especialistas sugerem alguns critérios, como conhecer o histórico da instituição, o corpo docente e o currículo do curso. Essencial também é saber se a escola é credenciada ao Executive MBA Council, órgão internacional que reconhece as melhores escolas de negócios do mundo. Deve-se observar que tipo de serviço essa instituição tem prestado à sociedade e que diferença ela tem feito, opina o professor Jacob Jacques Gelman, vice-diretor administrativo da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.
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6:22 PM by Cassiano Leonel Drum
Perfil
Palavra de gênio
Garoto de 13 anos, que faz doutorado em Matemática, veio ao País aconselhar professores
Rita Moraes
Ele já estampou a capa do The Times Magazine, revista do jornal inglês The London Times, foi recebido por Mickail Gorbachev e Bill Clinton, está se preparando para o doutorado de matemática e há três anos tem sido indicado para o Prêmio Nobel da Paz. E isso com apenas 14 anos. Apesar do sorriso de menino, o americano Gregory Smith surpreende não apenas por sua genialidade, mas também pela serenidade com que convive com ela.
Fundou a International Youth Advocates, uma organização que atua em vários países em defesa de crianças em situação de risco, inclusive no Brasil. Em sua segunda visita ao País, veio para abrir o Congresso Pitágoras de empreendedorismo um novo passo na educação, realizado em São Paulo, nos dias 20 e 21. A Rede Pitágoras mantém 400 escolas no Brasil e seis no Japão. Quero dizer aos professores que ouçam as crianças para saber como elas querem crescer e aprender, disse Gregory, que cobra US$ 10 mil por apresentação.
O ativismo do garoto começou bem cedo. Aos sete anos, terminando o ensino básico, criou sua primeira instituição, a IEM Inspiration, Education and Motivation, e não perdia uma reunião na vizinhança. Às crianças dizia que dessem duro para garantir seu futuro e aos adultos, que as motivassem para isso. O destino de crianças que não tinham, como ele, conforto material e familiar começou a incomodá-lo quando ele deveria estar largando a chupeta.
Aos quatro anos, ele via o noticiário da tevê e não se conformava com o sofrimento infantil em países pobres ou em guerra. Dizia que tinha de fazer algo, relembra o pai, o biólogo Robert Smith, 50 anos. Ele e a esposa, Janet, contam que não foi fácil lidar com a genialidade do filho, apesar da imensa alegria que isso proporciona. Greg sempre foi tranquilo, mas tivemos que mudar várias vezes de casa, de cidade em busca de escolas adequadas, conta Smith.
O garoto imberbe, que fala como gente grande, não parece ter sofrido para se adaptar à sua genialidade. Diz que se dá bem tanto com a turma na faculdade quanto com os adolescentes com quem joga bola. Da mesma forma que discuto problemas de matemática converso com os meninos da minha idade. Gosto de futebol e basquete, assegura. Quanto à namoradas, confessa: Estou começando a pensar no assunto. Greg pensa muito e alto.
Quer ser presidente de seu país. O presidente dos EUA pode mudar a face do mundo, diz. Só que ele terá de esperar 21 anos para isso. Por mais que falte genialidade na Casa Branca, 35 é a idade mínima exigida pela Constituição americana para a candidatura.
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6:17 PM by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
Minha entrevista com Lula
"Quando um candidato não comparece a um debate, é comum substituí-lo por uma cadeira vazia. Entrevistei uma cadeira vazia"
Pedi uma entrevista a Lula. Ele não deu. E acrescentou: "Esse tal de Mainardi, nem sei aonde fica". Decidi então entrevistar seu mais célebre imitador, o Bussunda, do Casseta & Planeta. Ele responderia em nome do presidente, no falso gabinete do falso Palácio do Planalto. Bussunda não concordou. Achou melhor não se associar a mim. Pensei em entrevistar outro imitador.
Há muitos por aí. Fernando Henrique Cardoso imita Lula. Lulu Santos imita Lula. Até num torneio de dominó em Joinville apareceu um imitador de Lula. Chama-se Romualdo Caldeira de Andrada. Acabei desistindo da idéia. Quando um candidato não comparece a um debate na televisão, é comum substituí-lo por uma cadeira vazia. Entrevistei uma cadeira vazia:
O irmão de Celso Daniel declarou à Justiça que o dinheiro das propinas de Santo André era entregue diretamente a José Dirceu. Por que ele mentiria?
O senhor se cercou de assessores provenientes da prefeitura de Santo André, como Gilberto Carvalho e Miriam Belchior. O senhor não acharia conveniente suspender esses funcionários até o assassinato de Celso Daniel ser definitivamente esclarecido?
Quando o senhor anunciou que dobraria o valor do salário mínimo e criaria dez milhões de empregos, sabia que seria impossível cumprir essas metas ou acreditava em suas promessas? A hipótese mais benévola é a de que o senhor mentiu despudoradamente na campanha eleitoral, disparando um monte de asneiras em busca de votos. A hipótese menos benévola é a de que o senhor nunca parou para pensar o que de fato faria se ganhasse as eleições. Qual a hipótese correta?
O senhor costuma ser comparado a Fernando Henrique Cardoso na gestão da economia, mas é uma injustiça, porque seu governo interrompeu as privatizações, contratou 50 000 novos funcionários públicos e inflou a folha de pagamento do Estado. O resultado foi o aumento de impostos, o aumento do desemprego e a menor taxa de crescimento da história do Brasil, num primeiro ano de mandato. Como o senhor se sente quando o comparam a seu predecessor?
O senhor alardeia a reforma previdenciária como uma de suas maiores conquistas, mas ela nem terminou de ser votada pelos parlamentares. Se a proposta original já era insuficiente, o que pensar depois da PEC paralela? Daqui a quanto tempo ela precisará ser modificada?
O senhor cancelou a licitação de duas plataformas da Petrobras, com o argumento de que deveriam ser construídas no Brasil. Esse seu populismo nacionalista custará uns 5 bilhões de dólares aos contribuintes. Por que o senhor não vende a Petrobras?
O senhor acredita que a reportagem do New York Times sobre seu hábito de beber faça parte de uma trama internacional? Quem teria tramado e qual o motivo da trama?
O senhor pretende nos agraciar com um segundo mandato?
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9:59 AM by Cassiano Leonel Drum
Silêncio na rede
Por que baixar músicas pela internet é uma aventura para o brasileiro
Sérgio Martins
Reginaldo Teixeira
A apresentadora Diana Bouth: ela ouve no site e vai atrás do CD
Imagine um brasileiro que, cansado de sua coleção de CDs, resolva testar uma novidade: gravar uma música em seu computador através da internet. A idéia lhe ocorreu ao saber do sucesso do iTunes, o revolucionário site de venda de canções criado pela Apple, fabricante dos computadores Macintosh. Lançado em abril de 2003, em seus primeiros doze meses de funcionamento o serviço vendeu 70 milhões de músicas nos Estados Unidos. O internauta acessa o site e opta por uma faixa do último disco do grupo OutKast, um dos mais procurados pelos usuários do iTunes.
Descobre então que é impossível concluir a compra. Por causa do acordo entre a Apple e as gravadoras que abastecem o site, só pode usar o serviço quem mora nos Estados Unidos. Sem desanimar, o internauta migra para o maior site brasileiro do gênero, o iMusica, abastecido de canções das gravadoras BMG e EMI. A BMG lança os discos do OutKast, e ele volta à carga. Sem sorte, mais uma vez: o site brasileiro enfrenta várias restrições para comercializar as criações de artistas internacionais lançados por suas parceiras.
O internauta opta então por um artista nacional, o ministro da Cultura Gilberto Gil. Mas aí descobre que só quatro músicas do veterano estão disponíveis. Eis aí um dos maiores problemas da venda de músicas on-line no Brasil: a oferta limitada. São 60 000 faixas no iMusica contra 700 000 no iTunes.
Se o internauta comprar uma das canções de Gil, estará se reunindo a uma minoria. De acordo com o QualiBest, um instituto de pesquisa on-line, apenas 32% dos usuários brasileiros de internet aceitam a idéia de pagar para "baixar" uma música. E, desse grupo já restrito, somente 18% de fato realizam a operação. Sua segunda alternativa é fugir dos serviços pagos e explorar sites como o KaZaA, que oferecem uma infinidade de músicas de graça e promovem a troca de arquivos entre seus usuários. Mas atenção: quem se aventura no KaZaA corre o risco de ver seu micro invadido por anúncios indesejados e até coisas piores, como vírus e programas espiões.
Desde que o iTunes passou a operar, os Estados Unidos inauguraram um segundo período na história da música na internet. O primeiro período, que ainda não se esgotou totalmente, foi de guerra entre serviços como o KaZaA e as grandes gravadoras, que consideram que nesses sites seus produtos são pirateados. Agora, as gravadoras se mostram dispostas a disponibilizar parcelas cada vez maiores de seus catálogos na rede, enquanto um número cada vez maior de usuários se dispõe a pagar pelas músicas. O Brasil, no entanto, se mantém à margem desse processo. Assim como não mergulhou fundo no primeiro período (aqui, a pirataria que preocupa ainda é a dos CDs), o país se mantém em compasso de espera diante do segundo. "Todo mundo está aguardando para ver o que acontece", diz Paulo Rosa, diretor-geral da Associação Brasileira dos Produtores de Discos.
Em outras palavras, as gravadoras brasileiras não estão muito ansiosas para jogar os trabalhos de seus principais artistas na rede. Quando o assunto é música, portanto, o único internauta brasileiro que tem boas chances de sair satisfeito de suas incursões pela rede é aquele que se interessa pela cena alternativa. A gravadora paulistana Trama, por exemplo, lançou um site que divulga de graça artistas independentes. "Temos mais de 1.300 nomes cadastrados", diz Carlos Eduardo Miranda, diretor do projeto.
Outra opção é fazer como a apresentadora do Sportv Diana Bouth, que acessa rádios on-line dos Estados Unidos para se inteirar das novidades na área do hip hop. "Eu promovo festas de hip hop, e a internet me permite ficar antenada", diz ela. Nessas rádios, só se podem ouvir as músicas. Quando descobre alguma coisa de que realmente gosta, Diana compra o CD.
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9:52 AM by Cassiano Leonel Drum
Em foco: Gustavo Franco
Notas sobre o clima
"Apesar dos ciclones e do minueto parlamentar, a retomada do crescimento depende de influências sobre o clima que estão fora do Banco Central"
Nos últimos tempos, não há outro assunto em círculos empresariais que a meteorologia econômica: "o clima de negócios" piorou, e não apenas em razão dos ventos gelados que vêm do norte, mais precisamente do Federal Reserve, mas também por conta de nosso "microclima", que andou instável. Estranhos ciclones, aparecendo onde nunca existiram, podem ter a ver com o aquecimento global, ou mais provavelmente com fatores locais. Não há sequer acordo de que tivemos um furacão, ou dois, a despeito da concordância sobre o vento forte e sobre os estragos que causaram.
Não se deve minimizar a importância disso que os empresários chamam de "clima", ou da "confiança", pois está muito bem assentada na teoria econômica a relação entre o estado geral das expectativas sobre o futuro, capturado nessas expressões, e o investimento, sem o qual não há crescimento. Sem dúvida, são muito abrangentes, além de subjetivos, os fatores que concorrem para decisões empresariais que implicam compromissos onerosos e duradouros, e de retorno incerto. Por isso mesmo não há uma relação mecânica entre os juros fixados pelo Copom para operações por um dia e o crescimento, como alguns parecem supor.
Na verdade, o governo pode não ter percebido, mas talvez o maior desafio de sua administração seja justamente o de mostrar capacidade de melhorar o "clima de investimento". Não basta afastar os riscos de ruptura, como conseguido ao longo do primeiro ano de governo, mas de seduzir e engajar o setor privado, pois é daí que virão o investimento e o crescimento, não do Banco Central. A tarefa requer uma postura muito mais abrangente, sincera e amistosa com relação ao capital e ao mercado, talvez fora do alcance do atual governo.
Parte do problema, como já observado, vem do norte. Firmou-se a convicção de que os juros nos EUA vão subir nos próximos meses e, na lógica da economia global em que vivemos, diferentemente do mundo acaciano de nossos ancestrais, as conseqüências vêm antes. Os mercados financeiros já anteciparam os efeitos nefastos da mexida que, ressalte-se, está ainda a meses de distância. E assim, por estranho que pareça, ainda não aconteceu, mas muitos dizem que o pior já passou.
De outro lado, cá no Brasil, Fazenda e Banco Central não piscaram e dizem que a turbulência é passageira e derivada de fatores externos, e que dentro de casa nada mudou. De fato, nada mudou recentemente e relativamente aos últimos anos, fenômeno esse que comporta pelo menos dois diagnósticos antagônicos, um benigno, outro de esquizofrenia.
Quem observa a distância a continuidade notada nas políticas macroeconômicas pode ter a impressão de que estamos num país maduro, de clima temperado e instituições consolidadas, onde a troca de governo não traz mudanças nas premissas básicas da macroeconomia. É o lado bom do "nada mudou".
Todavia, tanto o governo quanto a oposição, com as exceções de praxe, parecem se esforçar em demonstrar que não é bem assim, especialmente em vista da propaganda eleitoral televisiva e também do que está ocorrendo na discussão sobre o salário mínimo: o governo ataca a política econômica da administração FHC parecendo não reparar que a sua não é diferente, inclusive no tocante ao salário mínimo, questão em que se rendeu à realidade das contas públicas, ainda que de forma envergonhada, exatamente como no passado.
A oposição, por sua vez, critica as políticas de hoje, como se não fossem idênticas às que praticou no passado, ou como se tivesse algo diferente a sugerir, inclusive quanto ao salário mínimo. Nesse assunto, ao que tudo indica, vamos a plenário, com papéis trocados, para votar um valor irreal para o mínimo, com chances de a oposição ganhar, como em 1993, quando aprovou a chamada Lei Paim, tudo para forçar o tristonho veto, e o desgaste do então presidente Itamar Franco. Como poderá acontecer com Lula.
Não obstante os ciclones e o minueto parlamentar, o fato é que a retomada depende de influências sobre o clima que estão fora do BC, numa área onde a agenda do crescimento jaz meio inerte, descaracterizada e presa à falta de imaginação.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJe ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com www.gfranco.com.br)
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9:26 AM by Cassiano Leonel Drum
Comandantes quarentões
Experiência não falta: Valdo e o treinador Mauro Galvão, que estréia, querem levar o Botafogo à primeira vitória no Brasileiro
Rodrigo Lima
Um tem 40 anos. O outro é apenas duas primaveras mais velho. Além da idade avançada, Valdo e Mauro Galvão têm a difícil missão de comandar o Botafogo hoje, às 16h, em Caio Martins, contra o Figueirense e acabar com incômodo jejum de não vencer no Brasileiro.
De volta ao Glorioso, agora como técnico, Galvão confia na experiência do amigo Valdo para comandar o clube alvinegro dentro de campo. O time está muito ansioso por um bom resultado. A pressão é grande e a cobrança da torcida também. Por isso, confio na experiência dele para acalmar o grupo. Ele é a minha voz dentro de campo, admite o ex-capitão do Botafogo, que tinha a mesma atitude quando atuava dentro das quatro linhas.
O Galvão é um líder nato. Sempre procurava passar tranqüilidade aos mais jovens e agora não é diferente. O grupo já tem um outro astral com ele no comando, garante Valdo, que foi companheiro e adversário do seu treinador. Ele sempre foi um vencedor e enfrentá-lo era uma pedreira. Ainda bem que ele já parou e está trabalhando aqui conosco, comemora o jogador.
A longevidade na carreira não é só uma das coincidências. Ambos são ídolos de Grêmio e Botafogo, além de compartilharem a mesma de experiência de disputar duas Copas do Mundo pela Seleção.
Esse é um fato curioso. Em 86, nem eu e nem o Valdo fazíamos parte da delegação. Mas o Dirceu e o Mozer foram cortados, e eu e o Valdo fomos chamados para substituí-los na última hora, conta Galvão, que em 90, na Itália, já pertenciam ao seleto grupo dos 11 titulares.
Estávamos indo bem naquela Copa, mas infelizmente veio o Maradona deu aquele passe para o Caniggia e..., o resto vocês já sabem, lembra Valdo, sem querer se aprofundar na fatídica eliminação precoce do Brasil para a Argentina, por 1 a 0, nas oitavas-de-final daquele Mundial.
E para presentear o amigo e o ídolo alvinegro com a vitória, Valdo pede o apoio da torcida. Aqui também é a casa do Galvão. Sei que os torcedores tem um carinho especial por ele e chegou a hora de ela retribuir a alegria e os títulos que deixou aqui, pede o apoiador.
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9:20 AM by Cassiano Leonel Drum
Cine-patroa
Cannes foi um festival de coisas de casal. O resultado sai hoje e Walter Salles tem chancesAna Lúcia do Vale
Gael Garcia Bernal não levou a namorada para Cannes. Natalie Portman, a princesa Amidala de "Guerra nas estrelas terminou com ele por isso mas... vocês acham que ele está triste e solitário?
O engradicinho Eddie Murphy com a mulher Nicole
CANNES - FRANÇA - Se os milhares de fotógrafos correm atrás de um, imaginem de dois. Paraíso de solteiros, pela quantidade de festas que se espalham pela cidade durante o Festival de Cannes, fazer estilo família também faz bem para a imagem na cidade francesa. Ainda mais quando eles levam elas, e elas, seus decotes. Pela primeira vez no festival, Tom Hanks, 47 anos, trouxe sua Rita Wilson, 45, e 16 anos de casados. Americanos deslumbrados na passarela francesa, Rita não se reprimiu: de câmera digital na mão, não fez ar blasé e registrou seu longo dourado na entrada da sessão de gala.
Antonio Banderas, 43, também não desgruda de sua Melanie Grifith, 46. Ela retribui: tem o nome dele tatuado no braço, com um coração em volta. Eddie Murphy, 43, não é casado com atriz, mas não perde ponto. Sua Nicole Mitchell foi e poderia continuar sendo modelo, além de ser mãe de cinco, dos seis filhos do ator. Casal padrão também vale.
Polêmico como diretor do documentário anti-Bush, Michael Moore é carinhoso com a mulher, a produtora Kathleen Glynn. Outro polêmico, o escritor Salman Rushdie, 56, apresenta um belo cartão de visitas: sua mulher, a modelo e apresentadora indiana de um programa de culinária Padma Lakshmi, 34 anos. Decote melhor, impossível.
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9:13 AM by Cassiano Leonel Drum
Cláudia Laitano
22/05/2004
Nós, os modernos
Não sei se vocês já tiveram a experiência de conversar com um psicanalista. Eu tenho alguns amigos na área, um ou dois bem próximos, e adoro quando eles falam, genericamente, sobre o que andam ouvindo nos consultórios. Pelo que eu entendi, as queixas dos pacientes sofrem mudanças importantes conforme a época, mas, em geral, são todas muito parecidas entre si - se você levar em conta sexo, idade, estado civil ou mesmo classe social. Psicanalistas antenados conseguem captar uma tendência de comportamento muito antes de ela render conversa de bar ou de se transformar em reportagem no jornal. Quer cavar uma boa pauta? Descubra do que andam falando no divã.
A princípio, dá um certo desconforto perceber que as nossas mazelinhas aparentemente tão únicas e individuais fazem parte, na verdade, de uma cantilena previsível e pouco original. Mas o fato é que aquela dificuldade para desatar um velho nó ou para escapar da repetição de um determinado padrão de comportamento talvez esteja mais ligada à maneira de sentir e pensar da nossa época do que a gente imagina. Saber disso não deixa ninguém menos neurótico, mas ajuda a colocar algumas coisas em perspectiva.
É o que faz o psicanalista italiano Contardo Calligaris no livro Terra de Ninguém (Publifolha, 423 páginas), que reúne 101 crônicas publicadas no jornal Folha de S. Paulo entre 2000 e 2003. Os textos abordam temas cotidianos - das repercussões do 11 de Setembro à prisão de Fernandinho Beira-Mar, do novo livro de Harry Potter ao último filme de Polanski - de forma tão lúcida e pouco óbvia que esses assuntos nunca chegam a parecer datados. De certa maneira, é o "espírito da época", e o modo como nos adaptamos ou não a ele, que está na berlinda em todos os ensaios.
E o diagnóstico não é exatamente animador. Nós, os modernos, aponta Contardo, somos obcecados por um "teimoso ideal de autonomia" e pelo "demônio da comparação" ("é nos comparando aos outros que encontramos nosso lugar"). Vivemos perseguindo "sinais exteriores de invejabilidade" e queremos ser parecidos e diferentes ao mesmo tempo: "Devemos ser 'nós mesmos' e tornar nossa singularidade reconhecível e apreciável pelos outros". Somos consumistas, narcisistas e acima de tudo sem pistas: não conseguimos viver de acordo com os sonhos e os princípios que nós mesmos estabelecemos. E sofremos com isso.
É mole? Não, não é. Mas, se serve de consolo, aparentemente estamos quase todos no mesmo barco.
Bom é outono ainda, mas que fazer, o frio é como se já fosse de alto inverno, por isso a imagem ai acima.
claudia.laitano@zerohora.com.br
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9:00 AM by Cassiano Leonel Drum
Ricardo Silvestrin
22/05/2004
Gente de névoa!
Nem tudo é leve na poesia japonesa. Na literatura brasileira dos anos 80 para cá, muito se escreveu e se falou sobre o haicai. Esse poema breve, de apenas 17 sílabas, que teve seu apogeu no Japão do século 17 com o poeta Bashô, foi incorporado à produção de vários autores brasileiros: Guilherme de Almeida, Mario Quintana, Millôr Fernandes, Paulo Leminski e muitos outros. Na antologia 100 Haicaístas Brasileiros, tem haicai até do Erico Verissimo. De todas as diferentes práticas do gênero entre nós, uma característica parece unir todas elas: a ausência do eu.
O haicai busca captar um momento, sem interferência do eu poético, tão predominante na nossa tradição. É um exercício de objetividade. Sem o eu, vem também a ausência de sentimentalismo, de discursividade, de nóia. Mas existe uma outra forma poética, o tanka, surgida no Japão há mais de mil anos. O tanka também é um poema curto, só que um pouco maior do que o haicai. Tem 31 sílabas. Um dos poetas japoneses da era moderna que praticou o tanka, lido até hoje no Japão, é Takuboku Ishikawa. Viveu apenas 27 anos, de 1885 a 1912.
Lançou um único livro em vida: Um Punhado de Areia. Seus poemas foram traduzidos no Brasil por Masuo Yamaki e Paulo Colina no livro Tankas, editado por Massao Ohno Editor. Quem já leu um pouco de haicai vai experimentar com Takuboku um outro tipo de poesia japonesa. Seus textos também são curtos, imagéticos, sem muita discursividade. Mas são recheados de conteúdo pessoal. Mais do que isso: na maioria das vezes, são profundamente melancólicos.
Pequenos recortes da sua vida, cenas, comentários. É também como o haicai o registro de um momento. Mas não apenas um momento externo. É uma fotografia interna. "Triste o coração infantil que não chora: / nem repreendendo, nem batendo / (também fui assim)." É cinema. Tem a cena à nossa frente. Vemos o menino, sofremos com ele e, de repente, o menino se confunde com o autor. Há um eu que se funde com o que está sendo narrado. "O trem. Nem sei por que o tomei. / Desci. Mas não há / para onde ir."
De novo o cinema. Há uma tomada inicial do trem. Corta para o rosto do personagem/narrador. Corta para ele descendo. E o último verso é uma cacetada reflexiva. Lembrando: na língua dos japas, isso tudo foi feito com apenas 31 sílabas! "Emprestei dinheiro de quem me toma / por um poeta incapaz / de tarefas práticas."
Uma anotação, ao mesmo tempo um relato de um fato e um triste e irônico comentário. Takuboku também era simpatizante do pensamento revolucionário russo. Nadava contra a corrente do governo imperial japonês, que queria ver os socialistas longe do Japão. "Palavras que a criança / aos 5 anos gravou nos ouvidos: / trabalhador, revolução..." Agora uma seqüência fechada de cenas de mãos e um cometário arrasador no final: "Mãos que se aproximam, / apertam e se perdem. / Gente de névoa!" Outro dia encontrei um amigo que disse ser esse o poema que estava guiando a sua vida. Não queria mais saber de gente de névoa. Já um que marcou a minha vida é este outro do Takuboku: "Mostrar um milagre qualquer / e desaparecer / enquanto ainda estiverem surpresos."
ricardo.silvestrin@zerohora.com.br
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8:58 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
22/05/2004
Comprimido machista
Divulga-se estranhamente que as mulheres não gostam de saber que seus parceiros ingerem Viagra, Cialis ou outros comprimidos que aumentam a potência sexual dos homens.
Por que será que desagrada às mulheres que seus parceiros se estimulem quimicamente para enfrentar com elas os jogos carnais?
Uma causa aparente é que a mulher se sente intimamente ofendida: julgando-se competente para excitar o parceiro, sente seu orgulho ferido ao constatar que seu homem está se amparando num método artificial para melhorar seu desempenho.
A mulher se julga portanto suficiente para atrair o parceiro, atira-se ao sexo com a ilusão de que bastam seus encantos e habilidades para satisfazê-lo. O homem, ao procurar ajuda no comprimido, acaba por conscientizá-la de que diminui a importância feminina no êxito do intercurso amoroso.
Outra versão para essa ojeriza das mulheres aos comprimidos que levam à alta potência masculina é a de que, tendo elas uma determinada capacidade para a prática sexual, o parceiro que usa os comprimidos acabará por superar a parceira na resistência do exercício sexual, restando portanto insatisfeito com a desistência e desânimo dela.
Ou seja, o comprimido inspira na mulher uma desigualdade: ela vai para a refrega de cara limpa, enquanto seu parceiro se apresenta turbinado pela droga. Fatalmente ela perderá o torneio e se sentirá desprestigiada.
Mas, entre todas as hipóteses que possam embasar essa excêntrica aversão das mulheres pelos comprimidos energéticos ingeridos pelos homens, a que mais me seduz é outra.
Trata-se da desconfiança feminina sobre a possibilidade perigosa de traição do seu parceiro que o comprimido estimulante encerra.
Explico: todo homem recebe da natureza uma cota de desempenho sexual. O normal é que ele consuma essa cota exclusivamente com sua parceira, deve ser este até o ideal feminino: o de que uma mulher satisfaça de tal forma o homem que ele não tenha de procurar com outra a satisfação dos seus desejos.
Só que um casal que tenha o índice de 7, numa escala até 10, de resistência ou capacidade sexual, exercitará entre si essa aptidão.
A mulher então vai até a escala 7, o máximo que pode atingir. O homem, munido do Viagra ou do Cialis, passa de viagem por esse índice e supera a sua parceira com essa capacidade sobressalente.
É lógico então que a parceira se acometa do medo, da suspeita, de que o parceiro vá exceder a sua cota normal, com o amparo do comprimido, numa relação extracasal.
É que começa a povoar o imaginário da mulher que o homem, munido do extrapoder do medicamento energizador, possa querer exercê-lo com a constituição de um verdadeiro harém.
O comprimido masculino portanto passa a se tornar numa séria ameaça de infidelidade do homem a sua parceira.
Tanto essa minha tese tem consistência que, entrevistados em pesquisas, os masculinos jovens que usam o comprimido declararam que o fazem para aumentar a sua capacidade de atuação polígama.
Vemos então que esse fantástico comprimido que revolucionou o sexo em todo o planeta é uma benesse extraordinária para os homens e uma ameaça terrível para as mulheres.
O Viagra, portanto, surgiu para reforçar o machismo.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:55 AM by Cassiano Leonel Drum
Ambiente
Aguapés mudam paisagem do Litoral
Tapete de plantas aquáticas, com cerca de oito quilômetros de extensão, cobriu as areias da praia de Imbé (foto Genaro Joner/ZH)
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Sexta-feira, Maio 21, 2004
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10:22 PM by Cassiano Leonel Drum
Brad Pitt: O calcanhar-de-aquiles das mulheres
Ele é o genro que toda sogra pediu a Deus e o marido ideal. Lindo, rico e talentoso, o ator chega ao ápice da carreira no blockbuster Tróia
Por Maria Cândida
Foto: João Santos
Apesar dessa aura de superastro, Brad Pitt é simples e faz questão de tratar todo mundo com gentileza. De calça jeans e camisa azul-claro, o ator conversou com Contigo!, numa das suítes do Essex House Hotel, em Nova York, sobre a carreira, vida pessoal e o Brasil. Foto: João Santos
Contigo! O mundo está acostumado a ver Brad Pitt como o astro do cinema inatingível. O que você faz nas horas de folga que o aproxima mais dos reles mortais?
Brad Risos... Gosto de ir ao cinema, ir à praia. Adoro praia! Ficar perdido em algum lugar com os meus amigos e com a minha mulher.
Contigo! Por falar em praia, já visitou o Brasil? Lá tem várias...
Brad Nunca. Mas ouvi muitas coisas sobre o Brasil...
Contigo! O que exatamente?
Brad Histórias sobre o Rio de Janeiro.
Contigo! Mulheres, beleza natural?
Brad É... (dá uma risadinha)... Tem uma música brasileira de que gosto. Deixa eu lembrar... (entoa a melodia).
Contigo! Acho que essa música é a versão de Caetano Veloso para La Paloma, que está na trilha do filme Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Ele se apresentou na cerimônia do Oscar no ano passado. Foto: Divulgação / Warner
A cena de sexo entre Brad Pitt e a atriz australiana Rosie Byrne é uma das mais aguardadas do filme
Brad Desculpe, eu não assisti... Eu não assisto ao Oscar. Só sei que adorei essa música.
Contigo! Aos 12 anos, você queria ser músico. Aos 17, saiu de casa e foi estudar jornalismo na Universidade do Missouri, que abandonou para tentar a carreira de ator. Arrepende-se de não ter seguido nenhuma das duas profissões?
Brad Não. Fez parte da minha vida, foi ótimo, mas hoje tenho os pés no chão. Sei o que sou e o que quero. Quando jovens, não sabemos direito o que nos agrada, o que queremos da vida, e essa demora é um pouco angustiante.
Contigo! Você já admitiu, em entrevistas, que Tróia é o maior projeto de sua carreira. O que te atraiu no personagem, por que decidiu interpretar Aquiles?
Brad Eu gosto dele, é um guerreiro, um idealista, honesto, não faz nada em que não acredita. A única coisa difícil do papel foi a preparação física. Seis meses treinando intensamente para ganhar massa muscular. Muito chato! Não gosto de tanto preparo físico só para viver um personagem.
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10:12 PM by Cassiano Leonel Drum
Podia ser pior
Banco Central mantém juros em 16%, mas governo chegou a discutir a elevação das taxas. Decisão tímida foi recebida com frustração pelo mercado
Sônia Filgueiras e João Paulo Nucci
Colaborou: Liana Melo
Em uma reunião rachada seis votos contra três , o Comitê de Política Monetária (Copom), formado pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e seus oito diretores, decidiu manter a taxa de juros básica da economia nos atuais 16% ao ano, interrompendo o processo de redução iniciado há dois meses. Frustração dentro e fora do governo. Prevaleceu a mesma rotina conservadora que levou o BC a suspender a queda dos juros no início do ano, adiando o processo de recuperação econômica. Acredite, poderia ser pior. A cisão no Banco Central a respeito dos juros foi mais profunda do que se imagina. Parte dos diretores que apoiaram a manutenção das taxas chegou a defender a elevação dos juros.
O presidente da República e seus colaboradores mais próximos sabiam das divergências que tumultuavam o BC e da nefasta possibilidade de aumento dos juros. O assunto foi tratado em uma reunião, na quinta-feira 13, de Lula com os ministros Antônio Palocci (Fazenda), José Dirceu (Casa Civil), Guido Mantega (Planejamento), além de Meirelles. Coube a Meirelles expor ao presidente os cenários em torno dos quais girariam a decisão do comitê.
Foi no encontro que o presidente do BC levantou a possibilidade de elevação da taxa em pelo menos 0,25% para enfrentar as turbulências externas, a alta do dólar e a fuga de investimentos estrangeiros. A hipótese, encarada com resignação por Palocci, alarmou José Dirceu e Mantega.
O ministro do Planejamento fez uma enfática defesa baseada em análise estrutural da situação, afirmando que seria possível baixar os juros sem comprometer o processo. Dirceu também enxergou o risco de um estrago incalculável na sustentação política do governo e, consequentemente, nas condições de governabilidade de Lula. Dirceu não esconde de ninguém a avaliação de que parte das dificuldades do governo para segurar sua base de apoio no Congresso decorre da escassez de boas notícias na seara econômica.
Se a economia estivesse crescendo, costuma dizer, a maioria dos problemas do governo estaria resolvida. O ministro decidiu se antecipar e preparar terreno para o pior. Em um movimento ousado, lançou, durante um jantar em sua homenagem na casa do casal Cosette Alves e João Sayad, no sábado 15, em São Paulo, a idéia de um pacto de união nacional para enfrentar o eventual agravamento da crise econômica internacional.
Em um cenário grave, não teríamos outro caminho a percorrer para evitar uma nova recessão, disse ele, após afirmar que apenas a ortodoxia econômica, sozinha, não seria capaz de dar conta do recado se sobreviesse a pior das perspectivas. Seria necessário o apoio da política.
Barbeiragens O discurso, feito na presença de meia centena de empresários, banqueiros e da prefeita Marta Suplicy, causou perplexidade. Ignorando os bastidores, nenhum dos presentes entendeu bem por que o ministro falava em recessão. Muitos ficaram com a sensação de que o governo enxergava uma crise pior do que se esperava.
Era exatamente este o quadro que Dirceu antevia, caso o BC optasse por subir os juros. Uma versão light da proposta do ministro chegou a ganhar aliados, como o presidente do PT, José Genoíno. Além dos juros e do superávit, é preciso buscar o desenvolvimento. Isso se faz com um projeto nacional e articulação das forças produtivas, defendeu. Mas, dentro do governo, o movimento de Dirceu, apesar de ter seus motivos, acabou encarado como uma barbeiragem.
Confundiu os empresários e ainda causou mais instabilidade em uma semana suficientemente delicada. Para dirimir mal-entendidos, o ministro teve que reafirmar sua confiança na política econômica do colega Palocci, que, por sua vez, passou dias repetindo que a economia brasileira tinha condições de enfrentar a crise.
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6:49 AM by Cassiano Leonel Drum
Campeãs de audiência
Tá certo que Jaqueline Joy só tem mesmo na novela, mas nas casas de samba da vida real não faltam animação, boa música e muita gente com samba no pé
Clarissa Monteagudo
O grupo Nosso Canto agrada com sambas de raiz no Butiquim do Martinho
É chato ser rico. Pelo menos quando o assunto é novela das oito. Se sobram histeria, trapaças e festas murchinhas no núcleo de Beatriz (Deborah Evelyn) e sua trupe, o Andaraí cenográfico de Gilberto Braga é um banquete para os sentidos da cervejinha gelada ao sacolejante derriére de Jaqueline Joy (Juliana Paes).
Principalmente depois da inauguração do Sobradinho, que reabre no capítulo da próxima sexta-feira. O sucesso do casarão de Maria Clara Diniz (Malu Mader) foi tanto que moradores do bairro têm que explicar a turistas que a casa de shows não existe. Mas, verdade seja dita, a Zona Norte real não perde para a ficção.
Os redutos do samba na região podem não ter Malu Mader entre os funcionários, mas não decepcionam nos quesitos boa música e chope gelado. Até resgatam um certo romantismo flagrante desde os detalhes da decoração, como mesinhas de madeira com tampo mármore, até a abordagem à moda antiga dos cavalheiros no salão. O samba está arraigado aqui. Toda segunda reunimos 170 pessoas para ouvir música sem precisar de celebridades nem nada para promover, tira onda o dono do bar Manoel & Juaquim de Vila Isabel, Fernando Matta.
O repertório também agrada a quem entende e gosta de MPB. Não adianta ouvir meia dúzia de sambas no rádio para fazer bonito nas rodas. Clássicos de Donga, Pixinguinha e João da Bahiana dividem espaço com Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e outros garotos. Nossas releituras vão de Ismael Silva, Dona Ivone Lara a Luís Carlos da Vila. Também cantamos sambas próprios, conta Beto Cavaco, violonista do grupo Nosso Canto, todas as sextas-feiras no Butiquim do Martinho.
Apesar dos puristas torcerem o nariz afinal o boteco de Martinho da Vila fica num shopping os freqüentadores defendem o estilo do lugar. O bar é aconchegante. Adoramos as mesas pequenas, ficamos juntinhos. É clima família, elogia o fisioterapeuta Márcio Miranda, 26 anos. Na região também sobram opções para quem prefere curtir o samba no seu ambiente original fundo do quintal, com sombra de árvore, como o Cacique de Ramos e o Pagode da Tia Doca, em Madureira. O mais novo endereço no estilo é a Toca do Rato, endereço do compositor Alcino Corrêa, parceiro de Monarco em clássicos como Coração em Desalinho.
Os freqüentadores do Toca entram pela garagem e se encontram no quintal. A roda acontece a cada 15 dias e tem sempre um convidado. Nesse sábado, é Mauro Diniz. Fazemos o samba de antigamente, descompromissado com o sucesso. Cantamos o que o coração está pedindo. É música que não fere os ouvidos, define o compositor.
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6:42 AM by Cassiano Leonel Drum
Rio fica fora de investimentos
Estado e capital não recebem verbas federais para o saneamento. Governo Lula alega falta de projetos e incapacidade financeira
Renata Giraldi
BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou ontem a liberação de R$ 2,12 bilhões para obras de ampliação dos sistemas de água e esgoto em 300 prefeituras, 15 governos estaduais, além do Distrito Federal, e seis companhias públicas. Mas nada chegará ao Rio nem aos cofres de empresas fluminenses. Segundo técnicos do Ministério das Cidades, o Estado do Rio não reivindicou o financiamento para obras. Já o município do Rio não foi habilitado para receber dinheiro porque não dispõe de condições para arcar com dívidas. De acordo com eles, os demais prefeitos fluminenses não solicitaram liberação de recursos.
Em janeiro, o Ministério das Cidades recebeu as solicitações de financiamentos. Foram examinadas as condições dos estados, municípios e empresas de contraírem dívidas e se tinham condições para pagá-las. A análise técnica é feita por funcionários do Governo, enquanto a avaliação de risco é apreciada pelos agentes financiadores (bancos públicos e privados).
A Prefeitura do Rio não se manifestou sobre o caso, mas a Cedae rejeitou o argumento de que o governo não tenha reivindicado verba. A assessoria do órgão informou ter enviado dentro do prazo projetos que totalizam R$ 43,3 milhões em saneamento e abastecimento em áreas carentes do estado.
Dinheiro será usado em sistema de água e esgoto
Segundo o presidente, os investimentos irão promover uma revolução na saúde, Fica muito mais barato fazer a medicina preventiva e evitar que as pessoas fiquem doentes, disse em cerimônia no Palácio do Planalto. Posso garantir que vamos investir em saneamento básico, no meu Governo, o que não foi investido em algumas décadas neste Brasil. Acho que as crianças têm direito, já que são pobres, de brincar pelo menos em um local em que não disputem com dejetos o lugar de brincar, disse Lula.
Os R$ 2,12 bilhões serão utilizados na implantação e ampliação de sistemas de água e esgotamento o que, para o presidente da República, garantirá melhoria da qualidade de vida para população de baixa renda.
Acho terrível esta distribuição por critérios políticos ao invés de técnicos, fazendo com que alguns Estados não recebem nada e outros, verbas além da conta.
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6:37 AM by Cassiano Leonel Drum
O fantasma de Paris
Ronaldo bem que tentou exorcizar seus demônios: correu, lutou e chutou a gol. Mas não conseguiu se vingar da França de Zidane
Bem marcado e sentindo falta de ritmo por não ter atuado pelo Real Madrid, Ronaldo até que se movimentou bastante, mas não conseguiu marcar
PARIS - O clima era de início do Século XX, com as seleções exibindo uniformes da infância do futebol. Mas o desejo de vingança do Brasil, e principalmente de Ronaldo, era bem recente. Não foi dessa vez, porém, que o Fenômeno exorcizou o fantasma da derrota para a França, na final da Copa de 98. Vítima de uma convulsão a poucas horas daquela partida, era questão de honra para o craque dar uma resposta ao mundo. Afinal, o local (Stade de France), o adversário e o carrasco de seis anos atrás eram os mesmos. Uma chance de ouro. No amistoso comemorativo dos 100 anos da Fifa, prevaleceu o empate (0 a 0), e Ronaldo teve de adiar sua revanche pessoal.
O charme do jogo estava nos uniformes: os franceses adotaram um modelo com camisa social, bermuda e cinto. Já os brasileiros optaram por uma réplica do uniforme usado na primeira partida oficial da Seleção, em 1914. Até o trio de arbitragem usou um modelito anos 20.
Roupa antiga, futebol moderno. Com Zidane, Pires, Desailly de um lado; Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Kaká do outro, o que se viu no primeiro tempo foi um jogo de alto nível técnico. Amistoso? A julgar pelo apetite de ambas as equipes, uma partida oficial.
Disposto a vencer a qualquer preço, o Brasil criou a primeira chance de abrir o placar, aos 9 minutos, quando Ronaldo recebeu passe de Roberto Carlos, dentro da área, driblou Boumsong, mas errou a conclusão. O mesmo Fenômeno voltou a ameaçar os franceses, aos 21, num chute cruzado defendido pelo goleiro Coupet.
O melhor começo do time brasileiro despertou a França, que, aos 22, fez as honras da casa com Henry. Lançado por Zidane nas costas de Cris, ele finalizou por cima do travessão. No ataque seguinte, os franceses quase marcam outra vez: nova enfiada de Zidane para Henry, que cruzou e Trezeguet só não fez gol porque Dida salvou com o pé direito.
Na fase complementar, o tempo passou como que por encanto. As duas seleções reapareceram com seus uniformes atuais. Roupa nova, futebol envolvente. Depois de um chute de Juninho Pernambucano, aos 9, Wiltord, que entrara no lugar de Pires, perdeu gol feito: Mendy passou por Roberto Carlos, cruzou e Wiltord, aos 18, botou a bola para fora diante de Dida.
O Brasil respondeu aos 20, num bico de Roberto Carlos na trave. O jogo só voltou a ter emoção nos minutos finais, com uma blitz da França. Para completar a festa, só faltaram os gols. Mas as defesas ultrafechadas e a marcação implacável deixaram o romantismo restrito aos uniformes das seleções.
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6:33 AM by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
21/05/2004
O cadáver do Che Guevara
Existe uma foto do Che Guevara morto, seu corpo deitado numa pequena lavanderia de hospital, os olhos baços semi-abertos. Militares bolivianos cercam o cadáver e apontam para os buracos abertos pelas balas da metralhadora que o assassinou. A foto é eternamente comparada com um quadro de Rembrandt, A Lição de Anatomia. Estive no local onde o boliviano Freddy Alborta registrou a cena com sua velha Canon em 8 de outubro de 1967. Fica em La Higuera, localidade paupérrima da paupérrima Bolívia.
La Higuera se situa no alto de uma das montanhas dos Andes, no departamento de Vallegrande. Dificilmente haverá lugar mais pobre na América Latina. Chega-se até lá subindo a serra por estradas precárias, no meio da selva. Esse hospital em que o corpo do Che foi lavado nem pode ser considerado um hospital. É mais um posto de saúde mal-amanhado.
Depois de custosa viagem, cheguei a essa lavanderia. Poucas vezes senti um impacto tão poderoso ao entrar num local. Trata-se de um prédio minúsculo, do tamanho de um banheiro de apartamento classe média. Não há cadeira, mesa, armário, não há móvel algum, exceto o tanque de pedra. Também não há luz. Mas a gente do lugarejo acende velas naquela saleta. Tocos de velas sustentando chamas mínimas iluminam as paredes cobertas de inscrições, flores murchas rojadas pelos cantos, oferendas singelas dos corajosos visitantes que se arriscam a subir até aquele local de dificílimo acesso.
As frases em homenagem ao Che, gritando que ele não morreu, que seu espírito arde em meio ao povo, saudando-o como um herói, como um mártir, como um santo, mais as flores enegrecidas, os tocos de velas, aquilo tudo confere ao ambiente da lavanderia uma aura mística. Sente-se uma emoção especial ao se entrar naquele lugar.
Estive lá em 1997, quando os ossos do Che foram descobertos em Vallegrande. Desde então, me perguntava que espécie de emoção era aquela que eu sentira e por que a sentira. Agora, assistindo ao filme Diários de Motocicleta, compreendi, afinal. O que senti foi o poder da inocência.
Porque o Che poderia ser um equivocado, poderia ser um romântico ausente da realidade, poderia ser até um truculento, poderia, mas o que seduzia as pessoas na figura e na história do Che, o que as fazia admirá-lo, o que as encantava nele era a sua inocência. Pois o Che acreditava no ser humano. O Che acreditava que o mundo tinha conserto e, mais, que ele poderia consertá-lo. Essa inocência transparece no filme de Walter Salles e emociona quem assiste a ele. Quase tanto quanto emociona o simples prédio da lavanderia onde um dia o corpo crivado de balas do Che Guevara foi exposto por seus matadores para a posteridade.
david.coimbra@zerohora.com.br
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6:32 AM by Cassiano Leonel Drum
Mauren Motta
21/05/2004
Passando a limpo
A caretice em pleno século 21 me assusta. Esses dias uma amiga me ligou convidando para ir dançar em um tal baile gaudério. A função, segundo ela, rola aos domingos e é "superfamília". Adorei a idéia. Sou entusiasta de baladas diferentes, porém fiquei intrigada com a expressão: superfamília. Segundo minha amiga, lá não pode entrar de minissaia, blusa transparente ou roupa provocante. Beijar em público então, nem pensar!
Fiquei chocada. Que lugar seria esse em que o "dress code" é tão rígido e os costumes tão tradicionais? Não que eu ache que as meninas devam andar peladonas e os casais possam ficar se amassando fortemente em público, mas tanta regra é um absurdo. Nem minha vó é tão certinha assim.
Acho que os falsos moralismos devem ser banidos da nossa sociedade. Uma festa para moçada se divertir deve ter espírito jovem e regras condizentes. Aliás, quantos adultos pregam leis que eles mesmos não adotam? Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço! Tal ditado costumava sair da boca de um senhor conhecido meu para seus filhos. Ora, que tipo de pessoa espera um comportamento exemplar dos outros quando ela mesma se porta mal? Também sou contra aquele tipo de gente que julga os outros pela aparência.
Numa entrevista, uma pessoa me contava que era difícil encarar uma reunião de trabalho vestindo blusa cavada. As poucas tatuagens nos seus braços constrangiam seus colegas e acabavam sendo alvos para comentários desastrosos. Outra sacanagem. Foi-se o tempo em que tatuar o corpo era coisas de bandido ou marginal. Tatuagem hoje é moda, além disso é arte. Sendo assim, deve ser respeitada. Ninguém tem o direito de julgar. Cada um sabe que tipo de marcas quer deixar no próprio corpo. E mais: odeio gente puxa-saco que muda de estilo e joga confetes para tentar ficar bem com todo mundo.
Personalidade já! Ficar fazendo onda pra ganhar simpatia ou vantagens, não é comigo. Não precisamos ficar mostrando a bunda pra agradar os outros. Fica na cara, todo mundo nota o que é ridículo demais. Por fim, queria dizer que não acordei com o pé torto ou irritada, só achei propício o espaço para expor alguns pontos de vista polêmicos.
Beijolas conscientes.
mauren@rbstv.com.br
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6:30 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
21/05/2004
Há saída para o IPE
A respeito da dificuldade por internamento pelo IPE, divulgada por esta coluna, eis a palavra da direção do IPE: "Prezado Sant'Ana. Ao tomar conhecimento através de tua coluna do caso envolvendo a senhora Mary Monteiro Quites, imediatamente procurei esclarecimentos sobre o ocorrido. Nos contatos telefônicos efetuados e em documentos que me foram enviados, os hospitais citados informaram que a inexistência de leito foi o motivo do retardamento da internação de dona Mary no dia 13.
Pela gravidade dos fatos relatados na carta da professora Aleiza Quites, objetivando um melhor esclarecimento do fato e para evitar que outros segurados do IPE passem por transtorno semelhante, a diretoria médica do Instituto irá se reunir amanhã (quinta-feira) com representantes dos hospitais citados. A abordagem deste lamentável episódio permite que nos reportemos aos nossos quase 1 milhão de beneficiários para fazer os seguintes esclarecimentos:
Em nenhum momento, nesses primeiros 15 meses do governo Germano Rigotto, a direção do Instituto de Previdência do Estado orientou os seus prestadores de serviço da área médica - um universo de 9.143 credenciados, sendo 323 hospitais - para que reduzissem o atendimento aos quase 1 milhão de beneficiários do plano de saúde administrado pela autarquia. Esta atitude foi mantida mesmo nos momentos mais difíceis, quando a escassez de recursos impediu que os repasses mensais fossem feitos integralmente e reforçada a partir de outubro do ano passado, quando assinamos termo de compromisso com a Fehosul e com a Federação dos Hospitais Filantrópicos, o que permitiu a regularização dos pagamentos mensais e o início da redução do passivo pendente.
Os casos pontuais denunciados nesse período foram averiguados e tratados com a importância necessária, uma vez que para o IPE o maior patrimônio é e sempre será o segurado e seus dependentes. Assim, nos 500 dias do atual governo, o plano de saúde do IPE propiciou mais de 164 mil internações hospitalares (média superior a 10 mil mês); 407 mil atendimentos de urgência; 6,8 milhões de exames e 3,5 milhões de consultas médicas. Para conseguir esse desempenho, o Instituto repassou um total de R$ 444 milhões, o que dá uma média diária de quase R$ 1 milhão.
Por fim, gostaria de fazer um reparo à expressão 'extorsão compulsória', usada pela professora Aleiza ao referir-se à contribuição efetuada pelos servidores ao plano de saúde do IPE. O critério da compulsoriedade, que as entidades de classe do funcionalismo gaúcho, de forma unânime, mantiveram no projeto do IPE Saúde que tramita na Assembléia Legislativa, se justifica por dois motivos: para permitir que o valor da contribuição seja baixo (e ele hoje, por sua abrangência e cobertura, já é o mais barato do país), em razão do grande número de segurados;
e pelo espírito de solidariedade nele existente, uma vez que ao descontar o mesmo percentual de todos os servidores se garante idêntico atendimento, independentemente de faixa etária (se jovem ou idoso) ou faixa salarial (cargo ou valor do salário). Cordialmente, (ass.) Paulo Ricardo Moreira, diretor médico do IPERGS".
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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6:28 AM by Cassiano Leonel Drum
Olimpíadas
Águas do Guaíba são escala para Atenas
Anderson Nocetti, remador do Grêmio Náutico União, treina na Ilha do Pavão, na Capital, a fim de se preparar para os Jogos de Atenas 2004. Após a Olimpíada, ele voltará a exercer sua profissão: auxiliar de manutenção hospitalar (foto Júlio Cordeiro/ZH)
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Quinta-feira, Maio 20, 2004
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7:09 PM by Cassiano Leonel Drum
Lya Luft
20/05/2004
Esperança?
Alguém pergunta se tenho esperança no futuro. Tenho. Aí querem saber por quê. Bom, sempre achei que o ser humano é trapalhão mas não totalmente burro. Faz suas bobagens mas consegue contornar algumas, corrigir outras, remendar, melhorar, até se superar aqui e ali. Eventualmente chega a ser glorioso. Muitas vezes é bem miserável.
Faço um rápido retrospecto de minha própria vida, e vejo quantas bobagens cometi, quantos pecadilhos, pecadões, injustiças, quanto preconceito ainda carrego, quanta futilidade (um pouco é preciso, ou a gente fica solene - o que é muito pior, Deus nos livre da circunspecção). Muito desperdício de energia boa eu ainda gasto com coisas negativas. Se eu sou uma só, imagina um ser com bilhões de cabeças pensando torto: quanta chance de desatinos.
Mas quanta chance de melhorar. Depois da brutalidade das cavernas, da loucura das Cruzadas, da nada-santa-Inquisição, dos campos de concentração, e agora mesmo, - com a fome das áfricas e índias, a violência no Oriente e nas nossas ruas, a hipocrisia nas nossas casas, clubes e escolas, o desgoverno nos governos de todos os países, o desamor nos relacionamentos - mesmo assim alguém sempre se conscientiza e se corrige, e cresce enquanto ser humano.
No meio da matança, alguém descobre a cura de uma enfermidade grave. Milhares de casais estéreis podem ter filhos. Psiquiatras e psicólogos ajudam pessoas a terem a alma menos doente e a vida mais produtiva. Pessoas se aproximam por telefone ou por e-mail, e o mundo encolheu - há quem resmungue achando que internet é invasão de privacidade, mas eu acho que é um jeito maravilhoso de se dar as mãos. Mesmo que o outro more muito longe, a gente vê a cara dele em fotos anexas nos e-mails que contam as aventuras cotidianas, e o Sedex manda os presentes que antigamente levariam meses em lombo de burro ou fundo de navio.
As mulheres não precisam mais parir 15 filhos pra ficarem com meia dúzia porque o resto as doenças levavam quando não havia antibióticos nem vacina nem noções de higiene. E o preconceito de cor, religião ou posição social não impede mais casamentos nem mutila amores - ao menos imagino que seja assim entre pessoas civilizadas.
De modo que tenho esperança no futuro, e otimismo quanto ao presente - com reservas, claro, porque posso ser romântica, mas um pé na realidade ainda consigo manter. Razoavelmente.
lya.luft@zerohora.com.br
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6:57 PM by Cassiano Leonel Drum
SEXO CASUAL
Enquanto o parceiro ideal não aparece, cada vez mais mulheres estão aderindo a uma prática que antes era típica dos homens: uma relação sem compromisso.
Os grandes encontros só acontecem quando não estamos esperando. Partindo desse princípio, mulheres solteiras de todas as idades e tribos resolveram parar de esquentar a cabeça e relaxar. Já que príncipes encantados não andam caindo de árvore, melhor curtir a vida com o que ela nos traz de melhor. E uma boa noite de sexo não é exatamente um programinha para se jogar fora.
Isso não significa que as mulheres não estão mais a fim de um relacionamento estável. Continuam querendo, com certeza, encontrar um par, mas não a qualquer preço. Não qualquer um. Por isso, enquanto não aparece o homem com a combinação certa de qualidades, elas saem para dançar, jantar fora, conversar... E transar também, se acontecer. Não existe uma ordem de prioridade, contanto que se divirtam e tenham bons motivos para muitas outras investidas.
Depois do seriado Sex in The City, estar sozinha deixou de ser uma maldição. Ficou até mais moderno do que encarar aquele namorinho morno só para dizer que tem alguém. Como mostram as quatro heroínas americanas, tudo pode acontecer quando se está disposta a usufruir a vida. Basta estar na roda. Porque se elas vão para a cama sem compromisso, levam escondidas as mais sérias intenções de se divertir. E é o que acontece.
Se nos anos 70 o sexo livre era bandeira política, hoje fazer sexo sem compromisso é natural. As mulheres entenderam que sexo é uma coisa e relacionamento, outra, explica Maria Helena Brandão, orientadora sexual e diretora do Instituto Kaplan. Até porque as exigências são diferentes. Para uma transa, basta atração física. Para um companheiro de vida, somam-se quesitos como nível cultural, autonomia financeira, afinidades, inteligência, companheirismo.
Sem expectativas
Enquanto isso, a vantagem desse tipo de parceria é que ambas as partes se sentem atraentes e desejáveis. O jogo da conquista é estimulante. Faz bem ao ego. Aumenta a auto-estima. É maravilhoso sentir aquela atração física por um homem e perceber que ele também está a fim, conta Janete Mendes, empresária, 31 anos, separada há três.
E nem sempre ele é o cara que você quer ao seu lado em todas as circunstâncias. Então, por que não viver uma aventura naquela noite e pronto? Já fiz isso e foi ótimo. Conheci um rapaz de 20 anos em uma festa. Dançamos a noite toda. Era o encaixe perfeito. Fomos a um motel, transamos e depois nos despedimos com dois beijinhos. Sem troca de telefones nem falsas promessas. E fez eu me sentir uma deusa!
Mas será que dá para ser tão bom fazer sexo com alguém que você nunca viu na vida? Por incrível que pareça, para muitas de nós pode ser ótimo. Algumas mulheres sentem-se até mais à vontade com homens estranhos. Assim podem realizar suas fantasias sem se importar com o julgamento masculino. Então, se soltam, são elas mesmas, diz a orientadora sexual. Sandra Loureiro, 24 anos, concorda e acrescenta: o melhor do sexo sem compromisso é que você não se preocupa tanto com o parceiro.
Não tem amanhã, não tem de saber do que ele gosta.Mas e se ela se apaixona pelo cavaleiro misterioso depois daquela noite? É um risco, os psicólogos são unânimes. Você tem de saber que isso pode acontecer e que vai sofrer se o seu encanto não for retribuído.
Para uma transa, basta atração física. A vantagem desse tipo de parceria é que ambas as partes se sentem atraentes e desejáveis. O jogo da conquista é estimulante. Faz bem ao ego. Aumenta a auto-estima.
Todo prazer, mas sem correr riscos
As precauções para evitar surpresas desagradáveis
Em primeiro lugar, camisinha. Sempre. Ande com um kit.
Prefira sair com pessoas de quem você tenha referência, amigo do amigo do amigo. Mas que seja amigo de alguém.
Não vá para a casa dele nem o leve para a sua. Um motel é campo neutro e há pessoas para ajudá-la, caso necessite.
Na frente dele, avise uma amiga onde você está.
Confie nos seus sentidos. Se ele está agindo esquisito, mude de idéia, mesmo que já tenha topado, e desista da transa.
Se ele for muito cheio de si, muito pavão, reconsidere seus planos. Não vai querer satisfazer ninguém além dele mesmo.
Preste atenção se ele está bebendo demais.
Preste atenção se você está bebendo demais.
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3:09 PM by Cassiano Leonel Drum
OSSOS DO OFÍCIO
Um veterinário, amigo do meu irmão, cansado de tanto atender de graça, fixou o seguinte aviso na porta de sua clínica:
"Consulta: R$ 40."
"Olhadinha: R$ 40."
-Valdecir de Souza Filho, Pinhais (PR)
Eu estava organizando uma excursão a Malta para fazer caminhadas e 23 pessoas já haviam se inscrito. Então recebi o telefonema de uma senhora de 83 anos que também queria ir, mas cujo joelho a impedia de andar. Aceitei a reserva dela apenas como turista e lhe enviei informações sobre o vôo. Depois, ela telefonou para a companhia aérea a fim de solicitar uma cadeira de rodas no aeroporto e mencionou que sairia em excursão com 23 outras pessoas.
Quando cheguei ao balcão de check-in no Aeroporto Internacional Pearson, fui saudado pela visão de 24 cadeiras de rodas, todas alinhadas e prontas para carregar meus andarilhos.
-Ron Baylis, Canadá
Sendo funcionário público, é normal escutarmos do contribuinte que é ele quem paga nosso salário. Um dia, ao ouvir esta tirada de um contribuinte, um colega meu lhe disse:
- Se você paga meu salário, por favor, pode me fazer um vale, pois estou duro?!
-Marco A. da Silva Luz, Barra Mansa (RJ)
Um novo cinegrafista foi contratado na emissora de TV em que eu trabalhava. Vindo do interior, ele era jovem, simpático, extrovertido, mas nunca havia colocado os pés na capital. Logo no dia seguinte, o chefe de reportagem mandou-o, acompanhado apenas do motorista, fazer umas imagens de um concerto de piano no Conservatório de Música.
Mais rápido do que o esperado, o jovem cinegrafista retornou.
- Não deu para filmar o que você pediu - apressou-se a explicar ao chefe de reportagem.
- E por que não? O concerto de piano não aconteceu? - espantou-se o chefe.
- Não, é que o pianista já estava tocando. Acho que o piano já tinha sido consertado.
-Marcos Cardoso, Aracaju (SE)
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2:55 PM by Cassiano Leonel Drum
Passageiros passam mal com despressurização e avião retorna a Cumbica
SÃO PAULO - Os passageiros de um vôo da Vasp com destino a Recife passaram mal na noite de ontem, por causa da despressurização da aeronave, e o avião teve de retornar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em Cumbica, de onde tinha decolado. Os passageiros foram atendidos pelo serviço médico do aeroporto e muitos tiveram de passar a noite no local, em observação.
Segundo os passageiros, as máscaras de oxigênio não caíram e muitos ficaram com nariz e ouvido sangrando. Reclamaram ainda que o avião demorou para retornar e pousar de novo, enquanto os passageiros, entre eles crianças, permaneciam com dores no ouvido e aflitos. A Vasp ainda não deu declaração sobre o que ocorreu com a aeronave. A companhia se limitou a informar que houve despressurização, mas não deu detalhe sobre o que teria provocado o problema. A tripulação do vôo disse que não tinha autorização para falar.
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6:06 AM by Cassiano Leonel Drum
Nilson Souza
20/05/2004
Os dois senhores
Era uma experiência comportamental na televisão. Colocaram o Sr. Gentil e o Sr. Desagradável em duas salas separadas, com câmeras escondidas. Eles entrevistavam voluntários e, durante a conversa, faziam gestos semelhantes previamente combinados, ora coçando o queixo, ora esfregando os olhos ou entrelaçando os dedos. Só que o primeiro procurava ser amável com o entrevistado, concordando com suas afirmações e estimulando-o a falar. O outro ironizava tudo que ouvia, fazia comentários grosseiros e se esmerava na antipatia.
Em pouco tempo, os entrevistados do Sr. Gentil passavam a imitá-lo nos gestos, evidenciando uma espécie de identificação inconsciente. Já os interlocutores do Sr. Desagradável mostravam-se cada vez mais arredios e reticentes. Até que em determinado momento apenas olhavam, atônitos, para a figura do entrevistador, como se estivessem ansiosos para deixar aquele lugar e aquela companhia.
Somos assim no nosso dia-a-dia. Quando conseguimos ser gentis, conquistamos tanto a cumplicidade dos nossos semelhantes que eles passam a se esforçar para serem exatamente isso - nossos semelhantes. Quando por algum motivo parecemos rudes, nossos interlocutores tendem a nos evitar ou mesmo a devolver a rudeza.
Ou seja: o inferno pode ser o outro, como disse Sartre, mas o outro nada mais é do que o nosso reflexo. De onde se conclui, como naquelas equações matemáticas cheias de incógnitas, que podemos prever - e até controlar - os sentimentos das pessoas em relação a nós. Se formos hostis, seremos hostilizados. Se formos tolerantes, também seremos tolerados. Se amarmos, certamente seremos amados.
Mas nem tudo é tão simples no mundo das emoções. Muitas vezes somos surpreendidos por reações humanas desconcertantes, como a inveja, a traição e o ódio. Como agir quando oferecemos rosas e recebemos espinhos?
Não tenho resposta definitiva para essa pergunta, mas acredito que uma alternativa sensata é imaginar que o Sr. Desagradável resolveu nos testar - e fazer o possível para não imitá-lo.
nilson.souza@zerohora.com.br
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6:03 AM by Cassiano Leonel Drum
José Pedro Goulart
20/05/2004
"Kill Bill": a resposta de Tarantino a "Dogville"
Eu não acredito em pessimista vivo. De modo que pouca coisa me irritou mais ultimamente do que o "filme denúncia" Dogville, de Lars Von Trier. E o que, afinal, Von Trier denuncia? A raça humana, enfim, que "o homem é mau e reina na maldade". Mas, se o homem é essencialmente mau, não é a partir de Dogville que ele irá melhorar. Ao contrário, o filme mitifica a maldade, cria uma paródia religiosa, moralista, tudo isso como pano de fundo de um ceticismo histérico, cujo propósito é fazer com que sejamos feridos pela culpa.
Dogville é uma cidade claustrofóbica, onde portas e janelas não existem. Não há saídas possíveis, é o inferno, os personagens que vivem lá, sem luz, sem ar, sem vida, são incapazes de perceber a sorte quando ela aparece. Saímos do cinema magoados, com um espelho retrovisor numa mão e uma lente de aumento na outra. Nos vemos feios, desatinados, aliás, destinados ao abismo, à má sorte, ao apocalipse. Eu, que não acredito em pessimista vivo, e como não pretendo me matar, procuro outra turma.
Eis que Quentin Tarantino e sua ópera pop, Kill Bill, surgem diante dos meus olhos opacos com o valor que eu daria a um Moura Brasil numa hora dessas. O filme me resgata das trevas as quais fui condenado por Lars Von Trier. Nele, Tarantino dá seqüência ao olhar peculiar que o fez protagonista do cinema independente americano na última década. De frente para o novo século, que já deixou de engatinhar faz tempo, ele joga as velhas teses no lixo, deixa de lado essa postura olímpica, pseudoprofética de artista masoquista, e dá as cartas de uma nova estética, cuja legião de imitadores apenas referenda o sucesso desse diretor original.
Kill Bill é um "filme cinematográfico", isto é, foi feito para o cinema, utiliza as referências do próprio cinema e é resultado do que se aprendeu com ele até aqui. No sangue, na cor, na paródia, no gibi, no pop, no humor, na abundância disso tudo, o diretor deixa claro que aquilo é só um filme, que antes de ser um anestésico funciona como um trampolim que leva nossa imaginação a dar saltos e piruetas rumo ao desconhecido.
Os dois filmes, Dogville e Kill Bill, têm alguns pontos de contato. O maior deles é que, em última análise, ambos são histórias de vingança protagonizadas por mulheres. No primeiro filme, no entanto, a vingança tem dimensão divina, a glória vira praga assim que os valores do cristianismo de um tempo em nos amaríamos uns aos outros foram perdidos.
Já em Kill Bill a vingança é uma questão pessoal. Tarantino aposta na caricatura, faz do sangue jorrando em abundância um jogo orgástico com o deleite do espectador que conhece a regra desse jogo desde que o cinema existe. É claro que Tarantino mantém um certo desdém e um olhar cínico sobre tudo isso, mas é justamente aí que a aventura ganha sentido.
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6:00 AM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
20/05/2004
Jornalistas americanos
Estou há mais de um mês fora do Brasil. Informações sobre o que acontece aí não faltam, na Internet e nas notícias de familiares e amigos. Mas, se fosse depender da imprensa local para saber do Brasil, poderia desconfiar que ele deixou de existir quando eu viajei, ou existe como a Mongólia ou Luxemburgo, vagas curiosidades geográficas à margem de qualquer interesse sério.
Desde que estou na Europa, só li três notícias sobre o Brasil. Uma, pequena, tratava da vitória brasileira na Organização Mundial do Comércio na questão dos subsídios. A outra nem me lembro qual foi, provavelmente sobre música ou futebol. A que teve destaque foi a reação desproporcional do governo à matéria do The New York Times.
O que é desprezível deve ser desprezado, não transformado em caso internacional de previsível péssima repercussão. Na minha opinião, era tão inaceitável pensar em expulsar alguém do país daquele jeito que quem teve a idéia deve ser expulso do país imediatamente. Para não ter outra idéia parecida.
O enfoque e o tom da matéria do correspondente do Times (não li, me contaram) não são novidade - como não são novidade as sugestões de que ele seguia sombrios desígnios americanos de represália e desmoralização. Pior do que mal-intencionada ou secretamente dirigida, a matéria é tradicional, apenas outro jornalista americano sucumbindo aos estereótipos de sempre sobre estes pitorescos latinos - com a vantagem de, no caso, mirar num presidente especialmente pitoresco.
A própria arrogância da peça não é maliciosa, é um hábito de pensamento senhorial, como o da elite brasileira, que não consegue ver um ex-torneiro mecânico ou qualquer outro de origem popular no poder a não ser como um acidente social, um vexame sempre prestes a nos envergonhar diante dos estrangeiros. Pois nossos pobres não são por natureza cachaceiros sem linha? O americano não escreveu que o Lula é vergonhoso.
Mas tomou o preconceito de classe que a figura e a história do Lula atiçam como subsídio para os seus próprios simplismos pré-fabricados, que são os mesmos de quase todos os seus antecessores.
Um jornalista americano que realmente merece atenção, Seymour Hersh, já tinha contribuído para mudar a história do seu país com reportagens sobre o desastre americano no Vietnã e está fazendo história outra vez com seu jornalismo investigativo para a revista New Yorker sobre outro desastre, o que Bush e seus neoconservadores armaram no Iraque.
Suas revelações atuais sobre os responsáveis graúdos pela tortura de prisioneiros iraquianos e pela tragédia iraquiana em geral aumentam a preocupação nacional com a conduta no cargo de um presidente, filho da aristocracia do seu país, que, como se sabe, abandonou a bebida há anos. Também merece ser dito que Seymour Hersh não corre perigo de ser expulso de lugar algum.
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5:58 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
20/05/2004
Kit antiassédio
O pressuposto básico do assédio sexual é o encurralamento da vítima. Só se caracteriza o assédio sexual quando não restar outra alternativa para a vítima, diante da coação partida do acusado, que não seja ceder.
O assédio sexual é uma espécie de tentativa de estupro social. É um drástico e grave excesso do cavalheirismo e da galanteria.
Mas parece que precisa ficar caracterizada no assédio a moeda de troca: o assediador tem de prometer à assediada, expressa ou tacitamente, que irá favorecê-la por uma sua ação ou omissão.
Quando houver quatro homens e uma mulher para viajar num carro e se quiser evitar o assédio sobre a mulher, deve-se evitar que a mulher sente no banco de trás: ela fica muito vulnerável naquele aperto.
O melhor é conceder que a mulher viaje ao lado do motorista, que ocupado com o volante terá muito menores chances de molestá-la.
Uma mulher espremida entre dois homens no banco de trás é um convite ao assédio sexual. Começa que as seis pernas haverão de fatalmente se tocar.
Convém à mulher que viaje espremida entre dois homens no banco de trás o uso de equipamento anticontato, recomendando-se tornozeleira, joelheira ou até mesmo aquelas extensas e sólidas caneleiras usadas pelos jogadores de futebol debaixo das meias.
Com esse aparato, a mulher que viajar prensada entre dois homens no banco de trás de um carro ficará imune à pressão física e terá a vantagem de também poder resistir à tentação.
Se, no entanto, os dois homens que estiverem sentados no banco de trás, ou um deles, possuírem antecedentes de assédio sexual, não bastam apenas essas barreiras de proteção das pernas da mulher.
Para descartar totalmente a possibilidade do assédio sexual, uma vez que é presumível que o assediador do banco de trás não se contentará com o entrechoque das pernas e avançará sobre o planalto da vítima, podendo tentar beijar-lhe as orelhas e o pescoço, convém o uso de equipamentos de proteção especializada.
Para evitar o beijo na orelha, a mulher deve equipar-se desses capacetes que usam os motoqueiros, isso inibirá completamente o assediador de arremessar ósculos sobre os pavilhões auditivos da vítima.
Se ainda assim o pescoço da mulher ficar a descoberto, por ser zona altamente erógena, por isso apetecível ao assediador, é recomendável o uso pela mulher de um colar cervical, esse tipo de colete que as pessoas usam no pescoço para acertar desajuste na coluna. Não existe nada mais antierótico que um colete cervical. É capaz de espantar ou desanimar até mesmo um vampiro.
Com as transformações modernas, com a mulher tendo de sair de casa para trabalhar, estando quase sempre sob a chefia de homens, algumas cautelas têm de ser tomadas por elas.
Depois que incrivelmente na passagem do século as cantadas masculinas sobre as mulheres evoluíram para a condição de assédio sexual, ilícito penal ou moral, é aconselhável que as mulheres tragam sempre dentro de uma bolsa um kit antiassédio, com todos os instrumentos acima descritos e mais alguns para eventos radicais.
Por exemplo: spray de pimenta ou de gás paralisante e cinto de castidade só em penúltimo e último caso, quando nada mais contém o assediador.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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5:55 AM by Cassiano Leonel Drum
Grêmio erra passes, chuta pouco e está fora
Time fica no 0 a 0 no Maracanã e acaba eliminado. Flamengo enfrentará o Vitória
Faltou competência ao Grêmio. Desarticulado no meio-campo e sem força no ataque, o time de Adilson Batista não fez justiça à tradição do clube na competição e despediu-se ontem à noite da Copa do Brasil ao empatar em 0 a 0 com o Flamengo, no Maracanã, concluindo apenas três vezes ao gol em 90 minutos.
Agora, para chegar novamente a uma Libertadores da América, terá que chegar entre os quatro primeiros colocados do Campeonato Brasileiro, onde ocupa atualmente a 15ª colocação. Foi o quarto jogo consecutivo do Grêmio sem vitória.
Desta vez, Adilson não arriscou. Preocupado com a velocidade de Jean, optou pelo esquema 3-5-2, ao qual faz restrições, deixando Claudiomiro na sobra. A estratégia, contudo, não funcionou. Felipe deixou de lado a mágoa pelos salários atrasados e por não ter sido liberado para atuar pela Seleção Brasileira e organizou os principais ataques do Flamengo. Venceu quase todas as disputas com o pesado Tiago Prado, numa delas aplicando uma janelinha no zagueiro gremista dentro da área, e desestabilizou o sistema defensivo gremista.
Aos 26 minutos, Felipe recuou para Reginaldo Araújo, que obrigou Tavarelli a uma defesa difícil com um chute rasteiro, de fora da área. O lance mais curioso do primeiro tempo ocorreu aos 31 minutos. Ao receber um passe recuado de Claudiomiro, Tavarelli atrapalhou-se, errou em bola e agarrou a bola com a mão. Na cobrança da irregularidade, Felipe acertou o ângulo, mas o gol foi anulado, já que a falta deveria ser cobrada em dois toques.
Para um time que precisava vencer, o Grêmio surpreendeu pela apatia no primeiro tempo. Sem alas eficientes - Michel e Élton - e com Christian isolado, dependeu apenas da iniciativa de Marcelinho. Foi dele a única chance do Grêmio, em um chute rasteiro, defendido por Júlio César.
A falta de qualidade persistiu durante todo o segundo tempo. O Grêmio só ameaçou a um minuto, em novo chute de Marcelinho, e aos sete, em cobrança de falta de Bruno. No desespero, Adilson Batista fez duas mudanças quase simultâneas. Trocou inexplicavelmente Marcelinho, que ao menos se movimentava e dava algum trabalho à zaga, por Cláudio Pitbull, e Élton por Leonardo Inácio. O resultado foi praticamente nulo. O Grêmio seguiu abusando dos erros nas saídas de bola e nas trocas de passes.
A ineficiência do Grêmio foi tão grande que o técnico do Flamengo, Abel Braga, chegou a colocar em campo Athirson, que não disputava uma partida havia quase um ano. Aos 33 minutos, George Lucas finalmente recebeu oportunidade, mas, pela falta de tempo, quase nada fez.
A rigor, em apenas uma oportunidade a torcida do Grêmio imaginou que a sorte do time pudesse mudar. Aos 40 minutos, Bruno foi ao fundo e cruzou para Christian, que errou em bola. Um lance que pode ser definido como o resumo de toda a falta de qualidade do Grêmio.
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5:52 AM by Cassiano Leonel Drum
O 15 de Novembro entre os quatro melhores
O 15 de Novembro até podia perder para o Palmas para conseguir a vaga às semifinais da Copa do Brasil. Mas a classificação histórica, obtida em meio a uma maratona de jogos im |