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Sábado, Junho 26, 2004
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10:31 PM by Cassiano Leonel Drum
Visitem o site da Mel e voces encontrarão além de mensagens lindas, figuras espetaculares como esta aí acima. É só clicar aqui ou no link existente ai na esquerda. Um ótimo domingo a você.
Uma homenagem especial aos homens
"Afinal, homem serve para quê?
Ah, para uma porção de coisas, e todas ótimas.
Para namorar, pôr exemplo, ainda não se descobriu nada melhor.
Pensar neles, sonhar com eles, fantasiar a vida com eles, às vezes, é quase tão bom quanto estar com eles. Homem é para realçar a vida das mulheres. Mas como saber se ele está ou não cumprindo sua função?
Simples! É quando você tem vontade de se enfeitar, trocar de penteado, fazer depilação, comprar um sapato de salto alto, vontade de fazer ginástica, de passar fome, só para agradar; se você faz tudo isso, e com a maior alegria, é porque ele merece. Um homem que sabe apreciar seu anelzinho novo, seu brinquinho; nota quando você está mais loura, se a perna está mais durinha, é muito, muito estimulante.
Ter um homem que desperta a vontade de enfrentar uma cozinha, de voltar do trabalho correndo e, mesmo exausta, vai ao supermercado para comprar a manteiga sem sal que ele tanto gosta (até umas flores...porque não?) é apenas a melhor coisa do mundo.
Se estivesse sozinha, comia pão de forma gelado com margarina salgada, sem nem sentir o gosto. Se, além de alegrar sua vida, ele ainda dirige o carro, procura vaga e paga o flanelinha, é a felicidade total.
Um homem que sabe, em caso de necessidade, pregar um prego, trocar um fusível, matar uma barata, sinceramente, tem coisa melhor? Tem sim, e ainda tem muito mais. Um homem que faz você gostar dele apaixonadamente, que dorme abraçado com você no inverno, que ouve seus problemas sem bocejar, que conversa, que ajuda.
Com quem quer ter filhos, planos de envelhecer junto. Ah, isso é bom. Um homem, no ombro de quem você chora, com quem dá risada, que te faz perder o rumo de casa e que te faz pensar, quando está longe, "não consigo viver sem ele"; se você encontra um que te faz sentir tudo isso, agradeça a Deus; é apenas a melhor coisa do mundo.
Só que nem todas as mulheres pensam assim. Algumas acham que homem só serve para duas coisas: para que elas não entrem sozinhas nas festas e para que paguem as suas contas. Pela vida dessas mulheres nunca passou nenhum homem de verdade, esse é que é o problema. Elas nunca imaginaram a possibilidade de encontrar um mais simplesinho, com um sobrenome menos famoso, com quem pudessem tentar uma relação sincera, feliz,
e nem podem: elas nunca ouviram falar que isto existe, veja você.
Quando elas têm a sorte de encontrar um, que cumpra com as funções com quesempre sonharam, como se passam as coisas?
Quando jantam sozinhos, falam de quê? E quando terminam de jantar, fazem o quê? Ninguém sai da mesa direto para a cama (quartos separados, claro!), como nem todo dia tem festa com amigos (nos jantares elegantes, ficam sempre em mesas separadas), fotógrafos, champanhe, então como fazem?
Como vivem? Boa pergunta... Talvez já tenha acontecido a alguma delas um dia, num jantar enorme, bem chique, de repente perceber um homem muito interessante conversando num grupo, bem longe, mas olhando para ela com aquela firmeza. Fica claro que o que ele quer é sumir (com ela) imediatamente, dane-se a festa, que a melhor, a melhor festa, seria os dois, juntos e sozinhos.
Se isso aconteceu, será que ela percebeu? E se percebeu, será que foi? Provavelmente não. Elas ainda não entenderam que homem só existe para uma coisa: para fazê-las felizes."
Danusa Leão
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10:00 PM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
27/06/2004
Histórias de bichos
Um amigo contou que seguiu os rastros de uma falange de cupins através de sua bilbioteca. Os cupins atravessaram coleções inteiras, furando capas duras e brochuras, deixando túneis milimétricos
Do baú. Dizem que os animais domésticos ficam parecidos com os seus donos e vice-versa. Nem sempre a reciprocidade funciona. Por exemplo: depois de anos de convivência com o seu gato Ramsés, hoje a dona Cecília toma leite em pires, mia muito e se lambe toda, mas o Ramsés, por mais que tente, não consegue se interessar pela doutrina kardecista.
Fiquei olhando para o cachorro com simpatia, depois que o dono me disse que ele era de uma raça polar que trazia na sua composição genética a disposição para enfrentar ursos, mas tinha que viver trancado no apartamento. Teríamos muito sobre o que conversar, o cachorro e eu. Comentaríamos o calor do Brasil, e eu lhe confessaria minha suspeita de que também não estava cumprindo meu destino biológico na Terra.
Quando contaram que a Olguinha tinha sido comida pelos seus três cachorros pequineses houve uma revolta geral. Impossível! Só poderia acreditar naquilo quem não conhecesse a raça dos pequineses. Ou (disse alguém, num discreto aparte) quem não conhecesse muito bem a Olguinha.
Uma vez demos um hamster para as crianças, e o hamster fugiu da sua gaiola e desapareceu dentro de uma estante de livros. Nunca mais foi encontrado. Durante muito tempo imaginamos que ele reapareceria e voltaria, gordo e cambaleante, para a sua gaiola. Atrás do que também nos falta: tempo e paz para digerir os livros que consumimos com mais voracidade do que método. Mas o hamster nunca reapareceu. Desconfiamos que morreu de excesso de cultura.
Outra vez um amigo me contou que seguira os rastros de uma falange de cupins através da sua biblioteca. Os cupins tinham atravessado coleções inteiras, capas duras e brochuras, deixando atrás de si um único túnel contínuo e caprichado. Só tinham interrompido sua marcha uma vez: para devorar uma ilustração de página inteira de um dos volumes. Segundo o meu amigo, a ilustração era de uma biblioteca.
Minha infância foi sem bichos mas certa vez um gato começou a freqüentar, por sua conta, nosso quintal. Era todo branco e tinha um olho azul e o outro cinza. Ficou durante anos, nunca entrou na casa e um dia desapareceu, tão misteriosamente quanto aparecera. Talvez tivesse sido alertado pelo nome que lhe demos, Bob. Claramente, não éramos pessoas com as quais queria ter muita intimidade.
Nossa filha do meio, a Mariana, tem dois padrinhos, o Beto e o Sérgio Rosa. E um dia os dois deram de presente para as crianças uma boxer, que recebeu o óbvio nome de Rosinha. A Rosinha cresceu sem muitos cuidados e fora da casa. O que deve tê-la marcado, psicologicamente. Tanto que nas raras vezes em que permitíamos que ela entrasse na casa, ou que ela escapava para dentro, tornava-se frenética.
Entrava correndo, derrubando tudo e fazendo xixi por onde passasse, inclusive nos pés das visitas. Era o contrário de cachorro de apartamento: liberdade, para ela, era sair da rua e entrar na casa, o que também lhe dava a ilusão adicional de ser parte da família. É claro que não ficou muito tempo conosco. Não me lembro qual foi seu destino. E é preciso dizer que no caso de alguns visitantes, ela só fazia nos seus pés o que a boa educação nos impedia de fazer.
A lógica das crianças. Num Museu de História Natural o pai aponta um esqueleto de dinossauro e diz para o filho menor que o bicho está extinto há 100 milhões de anos. E o filho: "Isso dá quanto em idade de gente?".
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9:57 PM by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
27/06/2004
Religião e evolução
Não busco a polêmica, procuro a conversa, mas como falar de religião sem provocar? Vou falar sobre as células-tronco. Não é provocação. É reflexão
Polemizar é um recurso que costuma ser bem-sucedido entre colunistas que sobrevivem de dar opinião sobre tudo. Não é o que busco, prefiro conversas menos alteradas, mas como falar de religião sem provocar uns tantos? Não gostaria que soasse como provocação, e sim como reflexão.
Nos meus acessos de idealismo, me pergunto: por que não é possível ser cristão, freqüentar a igreja, ter fé, amar a Deus e ao mesmo tempo ser sensato, racional e atualizado? O Papa, esta figura tão poderosa e carismática, segue sendo porta-voz da condenação do uso de contraceptivos, mesmo diante de inúmeras nações superpovoadas e carentes. Também não aceita que dois namorados tenham relações sem estar casados: sexo antes do matrimônio é pecado, mesmo sabendo que se os dois não se entenderem na cama o relacionamento pode ir à pique.
E o absurdo maior, segue condenando o uso da camisinha, como se a Aids fosse uma invenção do demônio, como se o vírus fosse um castigo para os que desobedecem os mandamentos. Não entendo e nem tentem me explicar, ninguém vai me convencer de que esta visão obtusa da vida tem lógica.
Até aí, nenhuma novidade. O que tem me estarrecido atualmente é a dificuldade que os cientistas estão tendo para liberar pesquisas com células-tronco para encontrar a cura de doenças sérias como Alzheimer, diabetes, esclerose, Parkinson, paralisia. Muitos articulistas têm escrito sobre isso, mas resolvi unir minha voz à deles pois quanto mais pressionarmos, mais rápido avançaremos nesta questão.
Li duas semanas atrás uma matéria com um casal gaúcho que congelou as células retiradas do cordão umbilical da filha recém-nascida para o caso de alguma eventualidade no futuro. Estão certos. Espero que isso se torne um procedimento comum e barato, mas é preciso ir além, é preciso que se evolua na pesquisa de células-troncos retiradas de embriões que não se desenvolveram, e também na pesquisa sobre clonagem de órgãos.
É um assunto que não domino, admito, mas tudo o que pode ser benéfico para a humanidade tem meu apoio. O que eu não apóio é que os benefícios que a ciência possa trazer tenham que passar antes por uma ética espiritual. Mulheres sofrem abortos espontâneos e abortos provocados - isso não vai mudar jamais, não há religião que consiga esse milagre. Portanto, os embriões continuarão indo para a lata de lixo, quando poderiam estar salvando outras pessoas. Ninguém está propondo que se realizem abortos com este propósito, o que se quer apenas é aprofundar o conhecimento e buscar novas alternativas para se viver mais e melhor.
Pesquisas com células-tronco podem gerar descobertas revolucionárias. A vida é nosso bem mais sagrado, que ela seja protegida e prolongada. Sem culpa, sem castigo, sem penitência, sem nenhum desses vocábulos fartamente usados entre os fiéis. Deus é amor? Então, por amor ao próximo e a todos nós, deixem a ciência apitar mais.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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9:55 PM by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
27/06/2004
De um diário bostoniano
Há coisas comuns entre a aristocrática Boston e a nossa Porto Alegre. Uma delas é a briga de vizinhos por um galo
Boston, onde estive para uma conferência na Boston University, talvez não seja a cidade mais rica dos Estados Unidos, mas é certamente a mais aristocrática. Afinal, é a metrópole da Nova Inglaterra, região onde o país nasceu - e antigüidade sempre é título: os paulistas de quatrocentos anos que o digam.
Os bostonianos, objeto de um belo romance de Henry James, são conhecidos pela sofisticação. É muito famoso o poema em que o doutor Richard Cabot, médico ilustre, fala com humor das duas mais importantes famílias da cidade, a sua própria e a dos Lowells: "So this is good old Boston/ the home of the bean and the cod/ where the Lowells talk only to the Cabots/ and the Cabots talk only to God" ("Esta é a boa velha Boston/ reduto do bacalhau e do feijão/ onde os Lowells falam só com os Cabots/ e os Cabots só falam com Deus").
Agora: diferente do caviar, bacalhau e feijão não são exatamente alimentos nobres. E não precisam sê-lo. Porque a aristocracia nos Estados Unidos não nasceu da nobreza, do sangue azul. Nasceu do esforço e do arrojo de gente alimentada a bacalhau e a feijão. Nasceu do dinheiro. E o dinheiro, afinal, é a mola que move o mundo, o mundo da sofisticação e o mundo da beleza.
Um exemplo do que o dinheiro pode conseguir é o fascinante museu Gardner. Isabella Stewart Gardner e Jack Gardner eram um casal riquíssimo. Quando o seu único filho morreu, começaram a viajar pelo mundo. Isabella, orientada pelo notável crítico Bernard Berenson, dedicava-se a comprar obras de arte.
Reuniu assim uma coleção assombrosa, que inclui Botticelli, Ticiano, Vermeer, Rembrandt; e, para alojá-la, construiu em Boston um palácio que é réplica exata dos palácios venezianos. Ali, viúva, passou a residir. Agora: não sei vocês, mas eu não moraria num museu por dinheiro algum.
Durante o dia tudo bem, mas à noite deve ser um lugar lúgubre, todos aqueles retratos de imponentes figuras do passado. E que certamente não consolavam a pobre Isabella da perda terrível que ela havia sofrido. Não, o dinheiro não compra tudo. Nem mesmo em Boston.
Mas de repente a gente descobre que há coisas comuns entre Boston e Porto Alegre (afora o rio Charles, que lembra um pouco o Guaíba). Semanas atrás escrevi aqui uma coluna acerca de uma briga entre vizinhos por causa de um galo barulhento. Coisa de Terceiro Mundo? Nada disso. Segundo o Boston Globe, uma briga semelhante eclodiu lá.
Tratava-se de uma senhora que criava galinhas e dois galos, um dos quais tinha o hábito de cantar às quatro da manhã o que, convenhamos, mesmo para um galo é muito cedo, e deixava os vizinhos indignados. A dona da casa fincou pé, argumentando que o tráfego na região é ainda mais barulhento. Ou seja: está disposta a comprar uma briga. A propósito seu nome é Amy Loveless, ou seja, Amy Sem-Amor. Os vizinhos terão um páreo duro pela frente.
Falando em Boston Globe, quem disse que os jornais americanos não mencionam o Brasil? Um anúncio, verdade que não muito grande, anuncia a depilação "Brazilian Bikini" (produto Elizabeth Grady) o segredo pelo qual as brasileiras podem usar biquíni. Pelo menos alguma coisa podemos ensinar aos americanos. Mesmo às aristocráticas bostonianas.
scliar@zerohora.com.br
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9:53 PM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
27/06/2004
Sangrenta reação
Os EUA parecem estar tendo mais despesas com a ocupação do Iraque do que tiveram com a guerra.
Não basta só derrotar o governo de uma nação, é preciso estabelecer ali um outro governo, da confiança dos vencedores.
Só que, como dentro de três dias será instalado um governo interino constituído de iraquianos, parte da população intenta os últimos esgares de resistência.
E os atentados se sucedem no Iraque como se o país ainda estivesse em guerra.
Só na sexta-feira morreram cem pessoas e restaram feridas outras 350. Foram ataques terroristas sincronizados, recaindo sobre cinco cidades iraquianas: Bagdá, Mossul, Baquba, Falluja e Ramadi.
Os alvos são principalmente policiais que foram recrutados às pressas para administrar o caos que tomou conta do país depois da invasão, julgados traidores pelos insurgentes, que os chamam de "apóstatas e espiões".
E as delegacias de polícia são atacadas por carros-bomba, morteiros, lança-rojões, suicidas com explosivos, emboscadas e combates com fuzis, espalhando terror sobre as cidades.
Chega a ser espantoso que um país dominado por força estrangeira invasora consiga ainda ocultar tais armamentos entre os que se insurgem, mostrando uma reação que não se verificava no tempo em que Saddam Hussein ainda não tinha sido preso.
Isso mostra que o ex-ditador contava com largo apoio popular para manter seu poder sobre a maioria xiita, valendo-se da minoria sunita de 30% dos iraquianos para impor seu cruel domínio.
Só que agora os partidários de Saddam estão por trás desses sangrentos atentados contra as forças que começarão a governar o Iraque no próximo dia 30.
Claramente os insurgentes se conformam menos em ser governados pelos norte-americanos do que por iraquianos da confiança dos EUA.
Eles se aquecem na vã esperança de que os EUA abandonariam o Iraque depois de derrotá-lo. E que eles poderiam então erigir um governo sem Saddam, mas com os mesmos princípios.
Como percebem que estão definitivamente se despedindo do poder, desfecham atos terroristas que prometem será longa e áspera a transição de poder no Iraque, não tão fácil quanto Bush previra.
O cativeiro e decapitação de seqüestrados estrangeiros é uma prova de que está muito longe a pacificação no Iraque.
E de que os EUA deverão monitorar durante muitas décadas o novo exército iraquiano que será erguido depois que foi extinto o antigo.
E não há dúvidas de que, substituído o regime de Saddam pelo outro que ocupará o seu lugar, as queixas contra os direitos humanos se repetirão pelos novos exilados em todo o mundo.
Vão mudar as moscas, mas o melado será o mesmo.
Será que foi para isso que se decidiu pela guerra? E será que para se trocar simplesmente de governo justifica-se uma guerra ou uma invasão como esta?
Ou o Iraque será anexado pelos EUA?
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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9:47 PM by Cassiano Leonel Drum
Memória
Há 60 anos, o Brasil ia para a guerra
Em julho de 1944, a Força Expedicionária Brasileira partia para a Itália, combater os alemães na II Guerra. Hoje, pracinhas, como José Conrado (acima), relembram a campanha e tentam preservar sua história (foto Júlio Cordeiro/ZH)
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9:14 AM by Cassiano Leonel Drum
Ponto de vista: Lya Luft
O menino que me olha
"Procuro dentro de mim um sentido para a situação do menininho coberto de sangue, no colo da mãe fanática e delirante, enquanto ele olha o fotógrafo, olha para mim que, do outro lado do mundo, não sei o que lhe dizer, porque busco, e não encontro, a palavra certa"
Contemplo na revista a foto de um menino bem pequeno no colo de sua mãe, que o flagela até tirar sangue (muito sangue) por fanatismo religioso. O menininho olha o fotógrafo e, portanto, é como se me olhasse, eu do outro lado do mundo sem saber o que lhe dizer. Me vem à mente imediatamente a questão de Deus, dos deuses. Questão inesgotável, por encerrar o sentido desta nossa aflita existência. Da qual a gente não sabe quase nada o que pode ser bom.
O que Deus, ou os deuses, tem a ver com isso? Tem a ver porque a gente imagina que eles conheçam o assunto, o que de alguma forma nos tranqüiliza: ah, ao menos eles... O bom de não sabermos todas as coisas é existir alguém que sabe. O bom de existir alguém que sabe é não sabermos quem ele é.
Ilustração Ale Setti
O melhor de tudo é que, mesmo sem entender, se encostarmos o ouvido na terra, no tronco da árvore, no peito do amado, na cabecinha de uma criança ou no silêncio de uma noite muito escura, a gente vai escutar um rumor. Sem palavras, sem significados. Mas semelhante à arte querendo tocar o sagrado. Porque tanto a arte como o sagrado buscam o essencial, o silêncio, a imobilidade e a ausência de cor.
A perfeição, então, seria o nada?
Talvez. O fascinante de existir é o não saber, o duvidar, o buscar incessantemente. O querer, o amar.
A generosidade não é ruidosa. O acolhimento do amor é tranqüilo. Mas o ódio também pode ser silencioso. Insidioso, ele se movimenta lentamente por baixo do tapete, espreita anos a fio detrás das cortinas e, de repente, explode.
De repente, decapitam-se pessoas. E, na página da revista, uma mãe flagela sua criança. O espírito de vingança rói o pé de velhos crucifixos nas salas de jantar; povos se aniquilam pela loucura de seus governantes; rouba-se dos velhos, dos doentes, dos miseráveis. O centavo que lhes é tirado goteja na conta bancária dos que mereceriam castigo mas rodam pelas ruas em carrões blindados.
Não andamos muito elegantes, nestes tempos estranhos. Não andamos muito éticos, nestes tempos loucos. Não que as coisas tenham sido muito melhores no tempo dos gregos, quando na filosófica Atenas mulher era pouco mais do que um animal sem alma, era normal ter escravos e a guerra era o pão nosso.
Ou na Idade Média, quando eu seria no mínimo candidata à fogueira, não a da inveja mas a concreta mesmo; nossos filhos teriam morrido nas Cruzadas matando alguém no Oriente (nada de novo na face da Terra). De modo que não sou nada saudosista, mas, talvez porque tudo isso se derrama em minha casa pelos jornais, revistas, TV e computador (por onde também entram e-mails de amigos e visito tantos belos lugares do mundo), começo a me cansar.
Então, procuro dentro de mim um sentido para a situação do menininho coberto de sangue, no colo da mãe fanática e delirante, enquanto ele olha o fotógrafo, olha para mim que, do outro lado do mundo, não sei o que lhe dizer, porque busco, e não encontro, a palavra certa.
Talvez estejamos todos enlouquecendo. Talvez seja melhor não saber a explicação.
O bom de não sabermos todas as coisas é existir alguém que sabe. O bom de existir alguém que sabe é não sabermos quem ele é.
Lya Luft é escritora
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9:09 AM by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
O brasileiro é um vegetal
"O reconhecimento das limitações nacionais é altamente benéfico. Causamos muito mais estragos nos momentos de euforia do que quando admitimos nossa irremediável inaptidão"
Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro em 1925. Passou uma semana na cidade. Coleciono diários de viagem de estrangeiros ilustres ao Brasil. O de Einstein eu não conhecia. Foi editado recentemente por Alfredo Tiomno Tolmasquim, com o título Einstein: o Viajante da Relatividade na América do Sul.
Quanto mais superficial e preconceituoso é o viajante estrangeiro, mais chance ele tem de compreender o Brasil. Einstein foi superficial e preconceituoso na medida certa. Admirou-se com nossa mistura étnica, acrescentando que fomos gerados espontaneamente, "como plantas, subjugados pelo calor". A idéia de que os brasileiros são iguais a plantas é um tanto ofensiva, mas de difícil confutação. O meio científico nacional da época não via a miscigenação como um fator definitivo.
Os especialistas com quem Einstein conversou, durante a viagem, garantiram-lhe que o Brasil se tornaria progressivamente mais branco, já que as características negras desapareceriam com o tempo, devido à inferioridade genética dos mestiços. Einstein, em seu diário, anotou que nossos catedráticos eugenistas eram irrelevantes e tolos: "Acredito que essa tolice tenha a ver com o clima". O clima quente e úmido do Rio de Janeiro, para Einstein, amolecia as pessoas e levava-as a crer em bobagens como a telepatia. "A vida de um europeu é mais rica, sobretudo menos utópica e nebulosa."
Assim que desembarcou no Rio de Janeiro, Einstein foi obrigado a comprar um fraque, para poder participar de um encontro com o presidente Arthur Bernardes. O encontro oficial mereceu uma única linha em seu diário: "À tarde, visita ao presidente, ministro da Educação e prefeito". Em outra ocasião, ele comentou: "Visita a ministros, graças a Deus na maioria ausentes". Além da tolice de nossos catedráticos, portanto, Einstein logo se deu conta da vacuidade de nossos políticos. O público comparecia em massa às suas palestras, em salas rumorosas e pouco ventiladas, mas ninguém entendia suas palavras, por absoluta falta de conhecimento científico: "Para eles, sou um elefante branco; eles, para mim, são uns tolos".
Apesar disso, o Brasil pode se vangloriar de ter tido um pequeno papel na carreira de Einstein. A teoria da relatividade ganhou sua primeira confirmação empírica na cidade cearense de Sobral, onde cientistas ingleses fotografaram algumas estrelas num eclipse solar. Depois de confirmar a teoria da relatividade, Sobral ainda legou à humanidade a dinastia política de Ciro Gomes.
Ao sair do Brasil, Einstein declarou-se "finalmente livre, porém mais morto do que vivo". Ele não foi o único viajante estrangeiro a levar uma má impressão do país. Quase todos os que passaram por aqui nos esculhambaram em seus diários. Com argumentos semelhantes aos de Einstein: a tolice de nossos catedráticos, a nebulosidade de nossos políticos, o aspecto vegetal de nosso povo, o amolecimento de nosso caráter, a miséria de nossas utopias.
O reconhecimento das limitações nacionais é altamente benéfico. Causamos muito mais estragos nos momentos de euforia, quando acreditamos em nós mesmos, do que quando admitimos nossa irremediável inaptidão. Por isso, lembre-se sempre de Einstein: a gente é igual a planta.
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8:52 AM by Cassiano Leonel Drum
Mas que cachorrada, Laura!
Personagem de Cláudia Abreu é a assassina de Lineu. Fim de Celebridade ainda mandou o vilão Renato Mendes para cadeia.
E, no fim, a Cachorra um dos melhores papéis de Cláudia Abreu na TV virou seqüestradora de criancinhas, assassina e, mesmo moribunda, depois de levar um tiro de Renato Mendes (Fábio Assunção), confessou todos os crimes de Celebridade. A trama terminou ontem acabando com o suspense de 221 capítulos da novela de Gilberto Braga, exibida pela Globo.
A polícia da ficção também foi morosa e demorou quatro meses para descobrir o assassino de Lineu, feito pelo ator Hugo Carvana. E olha que ele era um megaempresário. Gilberto disse que queria surpreender o público, mas a assassina era Laura. O motivo? Lineu roubou dela as provas de que a música Musa do Verão era mesmo de autoria de Ubaldo (Gracindo Jr.). E Queiroz (Otávio Müller) também foi eliminado pela loura porque sabia demais.
Laura começou brega, pobrinha, pervertida e sensual, foi ficando cada vez mais sarcástica, ácida e insuperável, como quando mandou Renato para o colchonete. Enlouquecida por estar perdendo tudo, ameaçou até dar um beliscãozinho na filha de Fernando (Marcos Palmeira) e Maria Clara (Malu Mader), depois de seqüestrá-la. Deu nervoso vê-la com a neném no colo que não parava de chorar e depois quando tentou estrangular a menina.
Cláudia fez dobradinha inesquecível com Márcio Garcia, o Michê Marcos, que não merecia morrer. Talvez o autor não quisesse repetir o final de Vale Tudo (1988), em que Maria de Fátima e cia. se deram bem. A dupla de atores de Celebridade criou os melhores apelidos da novela, inclusive o de chamar Renato de Lourinho Beiçudo. O vilão de Assunção foi preso por ter matado Laura e Marcos.
A heroína insossa de Malu Mader não teve a menor chance de emplacar contra a Cachorra. Renato também foi um dos melhores tipos de Fábio Assunção.
Enquanto soube criar os malvados, o próprio Gilberto Braga disse que não conseguiu desenvolver o jornalista do Bem, Cristiano, feito por Alexandre Borges, do jeito que deveria. Ele teve momentos no início da trama, mas deixou de ser alcoólatra da noite para o dia, bem-sucedido, nunca mais apareceu nas reuniões do A.A. Mas lavou a alma do espectador ao virar presidente da Vasconcelos e mandar Renato passar no R.H.
Para fim de conversa: o fotógrafo Bruno, vivido por Sérgio Menezes, foi disparado o troféu come-quieto. Ele começou Celebridade com uma noiva, foi passado para trás, mas tirou o atraso. Mandou ver até na Laura e terminou deslizando nas curvas de Juliana Paes, a Jaqueline Joy, que foi catapultada para as páginas da Playboy e experimentou fora da TV todo o assédio da imprensa que era o assunto da novela.
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8:43 AM by Cassiano Leonel Drum
Cláudia Laitano
26/06/2004
Por quem choramos
A reação à morte de personagens públicos - um ídolo, um líder político, uma personalidade conhecida - mobiliza uma carga de emoção que me parece absolutamente fascinante. Sou brasileira, descendente de italianos e mulher - quer dizer, choro por quase qualquer coisa. Mas nunca chorei, de verdade, a morte de um ídolo. Já me senti comovida, triste, órfã até, mas chorar nunca chorei. Qual o problema comigo? O fato é que sempre me perguntei de onde vêm as lágrimas que se derrama por alguém que nunca encontramos pessoalmente. Como uma idéia, uma imagem, quase uma abstração humana - ainda que cheia de grandes realizações concretas - podem nos fazer reagir do mesmo jeito que se reage a uma perda pessoal, de alguém que amamos ou conviveu conosco?
Recordo muito bem a primeira vez em que fiquei paralisada diante de uma cena de prostração desse tipo. Talvez você também se lembre de onde estava no dia 19 de janeiro de 1982, quando chegou a notícia da morte de Elis Regina. Eu lembro. Bicicletas inclinadas sobre a grama, cadeiras de praia fechadas num círculo, minhas amigas e eu fomos atropeladas pela falta de lógica da morte em meio a uma roda de chimarrão, em Tramandaí.
Elis não era velha, não estava doente. Ninguém nos avisou que era assim que funcionava: um dia você está na TV, dando entrevista, fazendo planos para o futuro, no outro não está mais. Sumiu. O que os fãs fazem nessas horas? Passamos o dia meio atordoadas, ouvindo as músicas que não paravam de tocar no rádio, vendo os noticiários na TV, falando do show no Gigantinho que a gente podia ter visto, mas não viu, não ia ver mais.
Mais tarde, naquela mesma noite, surpreendi o pai de uma dessas minhas amigas em silêncio total na frente da televisão, lágrimas grossas no rosto, sofrendo como se alguém muito próximo tivesse partido. E lembro de ter ficado fascinada pela cena. A verdade é que por mais que a gente gostasse de Elis e tivesse discos dela, por mais que aquele estivesse sendo nosso batismo nesse tipo de perda, não era um ídolo da nossa geração que se despedia. Aquele adulto na frente da TV chorava a morte de Elis, sim, mas chorava também a passagem do tempo, a juventude perdida, o fim de um ciclo. Aos 15 anos, a gente ainda não sabia chorar daquele jeito.
Vendo a comoção nos funerais de Brizola, fiquei com uma sensação parecida com aquela de 20 anos atrás. Porque não consigo imaginar o líder político que me levaria a enfrentar uma fila ou a chorar durante um velório. Talvez a política brasileira esteja amadurecendo para uma relação menos personalista com seus líderes, o que seria muito bom. Talvez o ceticismo político que abate boa parte da minha geração tenha me apanhado de vez - mas isso definitivamente não seria uma boa notícia.
claudia.laitano@zerohora.com.br
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8:41 AM by Cassiano Leonel Drum
Cláudio Moreno
26/06/2004
Macérrimo
A filha, que é muito estudiosa, veio do colégio com uma novidade: o superlativo de magro é macérrimo, e não magérrimo, como a família toda costumava dizer. O pai, inconformado, teve o bom-senso de não contestar o que a professora ensinou, mas me ligou, meio sem jeito, para tirar a limpo a questão: "Eu sempre achei que era magérrimo; agora inventam esse macérrimo! Posso ao menos dizer para minha filha que as duas formas estão corretas? Ou venho falando errado todo esse tempo?". Compreendo esse pai e compreendo essa professora; ambos têm sua razão, mas não podemos misturar uma com a outra, como vamos ver.
Para formar superlativo, nosso idioma utiliza um processo muito singelo: basta acrescentar o sufixo -íssimo ao radical dos adjetivos. Assim brotam, naturalmente, belíssimo, grandíssimo, duríssimo, caríssimo, pesadíssimo, num processo que é tão transparente para os falantes que os dicionários nem precisam registrar essas formas. Alguns adjetivos apresentam, concomitantemente, uma versão mais erudita, baseada no radical latino, introduzida principalmente durante o Renascimento. Em Latim, pobre é pauper (o mesmo radical que vamos encontrar em pauperismo, depauperar, etc.); por isso, ao lado de pobríssimo (pobre + íssimo), temos também paupérrimo.
Doce é dulcis (radical que encontramos em edulcorante, dulcificar ou no nome Dulce); assim, além de docíssimo, nós temos dulcíssimo. Assim surgiram vários pares: frio tem friíssimo e frigidíssimo (do Latim frigidus); negro tem negríssimo e nigérrimo (do Latim niger); amigo tem amiguíssimo e amicíssimo (do Latim amicus). De qualquer forma, estes casos que desviam da fórmula [radical + íssimo] não chegam a duas centenas, num total estimado de mais de cem mil adjetivos.
Convenhamos que não é qualquer falante que se anima a usar celebérrimo (de célebre), libérrimo (de livre) ou aspérrimo (de áspero), dado o caráter inegavelmente erudito da terminação -érrimo. No entanto - e talvez exatamente por isso -, esse sufixo passou a ser encarado como um indicador de prestígio, e certos setores da imprensa (principalmente ligados à moda e ao colunismo social) acostumaram-se a usá-lo liberalmente, criando formas como chiquérrimo, riquérrimo, elegantérrimo; Houaiss menciona, sem sobressaltos, o impronunciável encantadorérrima e o atroz estupendisérrimo; eu mesmo já usei, várias vezes, o popular boazudérrima.
Agora, para meu espanto, tenho visto o sufixo -ésimo, usado nos numerais ordinais, entrar para o rol desses superlativos feitos no quintal: carésima, gostosésima, peruésima e até chiquetésima. Embora eu não tenha nada contra essas formas - afinal, as palavras, como os seres humanos, têm o direito de existir, mesmo que não sejam lá boa coisa -, confesso que só consigo empregá-las em tom irônico ou zombeteiro.
É aqui que entra o magérrimo. Magro tem o superlativo vernáculo magríssimo ou a forma alatinada macérrimo (no Latim, magro é macer, radical que podemos encontrar em emaciar ou macilento). Com a nova "moda" do sufixo -érrimo, no entanto, criou-se também magérrimo, uma combinação híbrida (mistura o radical moderno com o sufixo latino), meio cruza de jacaré com cobra-d'água. Acontece que ela caiu no gosto popular e já está dicionarizada; eu me arriscaria a dizer que é forma preferida pela maioria dos falantes do Brasil.
Portanto, prezado pai, tu não falavas errado; a professora, porém, também tinha toda a razão ao ensinar a forma macérrima, pois é na escola, e não nas ruas, que tua filha vai aprender o registro formal da nossa língua. Usar bem o Português não se resume a escolher entre uma forma correta e uma errada, mas sim escolher, entre duas formas corretas, a mais adequada para a situação. Magríssimo? Podes usar sempre, em qualquer contexto, em qualquer nível de linguagem. Macérrimo? Usa em discursos, em textos literários e profissionais, em situações formais. Magérrimo? Deixa para o salão de beleza, a crônica social, a conversa entre amigos e o churrasco de domingo.
claudio.moreno@zerohora.com.br
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8:36 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
26/06/2004
Afasta de mim este cálice
Esses dias alguma entidade autorizada andou classificando o conceito de "milionário" no Brasil.
E afirmou ser toda aquela pessoa que possua investimentos financeiros da ordem de US$ 1 milhão. Ou sejam, para arredondar, R$ 3 milhões.
Ainda arredondando, temos então que a Mega Sena que corre hoje às 20h, pagando cerca de R$ 50 milhões ao seu acertador, fará do seu acertador uma pessoa 16 vezes milionária.
É muito dinheiro, é dinheiro demais até para a ambição dos milhões de apostadores que estarão concorrendo ao prêmio.
Cada um dos brasileiros que apostam na Mega Sena constitui no seu imaginário o que faria com o dinheiro.
Passa pela cabeça de todos comprar um campo, um confortável apartamento mobiliado, dois carros, muita viagem pelo Brasil e pelo mundo.
E não são mesquinhas as ambições: todos sonham que poderiam assim ajudar seus parentes e amigos pobres, designar talvez uma considerável quantia para as entidades beneficentes, dinheiro é que não falta para o felizardo que acertar logo mais as seis dezenas tentar ser feliz e fazer a felicidade dos outros.
Noventa e nove por cento das pessoas que desejam ganhar este prêmio não têm a mínima idéia do inferno em que se transformará a sua vida no caso de acertar a bolada.
Começa com uma circunstância que ninguém imagina e é absolutamente certa: o desaparecimento do ganhador.
Seja quem for o acertador, terá de mudar-se da casa em que vive, da rua em que mora, da cidade que habita, e é quase certo que do Estado de que é natural.
É impossível continuar a mesma vida, tanto pelas imensas atribulações que lhe causarão os pedidos de auxílio quanto pelos perigos que correrá a sua segurança pessoal.
Desaparecer do meio em que vive é uma das penas mais cruéis a que se pode submeter uma pessoa.
Ganhar esta Mega Sena significa isso: o exílio, o degredo, esconder-se do mundo, não poder mais freqüentar os lugares que sempre lhe apeteceram, deixar de conviver com as pessoas de quem gosta, tornar-se oculto, tornar-se malvisto pelos que não forem atendidos em seus pleitos de ajuda, sem falar na acusação de que "fulano não é mais o mesmo".
Quem acha que a vida de um ganhador dessa fortuna da Mega Sena não se torna um pesadelo não tem a mínima noção de que uma coisa é constituir uma fortuna dessas durante toda a vida - outra coisa completamente diferente é ver cair do céu de repente R$ 50 milhões.
O choque existencial que sofre quem ganha um prêmio desses tem proporções tão gigantescas que abala completamente a estrutura mental e emocional de uma pessoa, mudando completamente a sua personalidade, transtornando-a, arremessando-a uma dimensão de vida para a qual não estava preparada, algo assim próximo da loucura, ou melhor, do delírio.
Deus me livre ganhar um prêmio desses. Melhor a vida assim que levo, contando todo fim do mês o dinheiro para pagar os DOCs das tarifas, do condomínio, contando o dinheiro para enfrentar as despesas com gasolina e supermercado. Como somos felizes e não percebemos!
Pai, afasta de mim este cálice!
Eu fiz a minha aposta na Mega Sena ontem desejando ardentemente não acertar.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:34 AM by Cassiano Leonel Drum
Crime
Rolo compressor contra a pirataria
Brinquedos, relógios, CDs, fitas de vídeo e óculos contrabandeados foram destruídos ontem em Porto Alegre (foto Genaro Joner/ZH)
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Sexta-feira, Junho 25, 2004
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8:17 PM by Cassiano Leonel Drum
Malufismo
Engenheiro das finanças
Complexidade das operações bancárias no Exterior reflete talento de Paulo Maluf
Luiza Villaméa
Tudo explicadinho: estatuto da empresa em paraíso fiscal detalha partilha de recursos em caso da morte de Maluf
Em campanha pela sucessão de Marta Suplicy (PT), Paulo Maluf está usando o mote o bom prefeito. Pelas informações que vêm chegando aos eleitores nas últimas semanas, Maluf está mais para o bom engenheiro. A especialização seria, no entanto, diferente da obtida em 1954, quando ele se formou pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).
Em vez de engenheiro civil, Maluf está se revelando um aplicado engenheiro de finanças. Desde 1984 ele aparece como beneficiário de polpudas contas no Exterior. Em alguns períodos, a movimentação bancária foi tão intensa que levantou suspeitas. Afinal, dinheiro lícito não fica circulando o tempo todo em nome de off-shores, como são conhecidas as empresas abertas em paraísos fiscais.
O mais recente reflexo da engenharia financeira atribuída ao ex-prefeito de São Paulo (1993-1996) veio à tona na semana passada por causa da White Gold Foundation, uma das off-shores de Maluf (leia fac-símile). A empresa, que recebeu um total de US$ 200 milhões em depósitos apenas em dezembro de 1995, foi aberta cinco anos antes, em Valduz, capital do principado de Liechtenstein, na Europa.
Pelo estatuto da White Gold, em caso de morte de Maluf, 50% dos bens seriam destinados à sua mulher, Sylvia. A outra metade seria dividida entre os quatro filhos do casal Lígia, Otávio, Flávio e Lina. Ao saber que a documentação viera a público, Maluf afirmou, como de costume, que não tem nenhuma conta no Exterior. Isso é outra farsa com objetivo eleitoral, garantiu.
Na semana anterior, ele havia classificado como falsa uma carta, de dezembro de 1996, transferindo todos os recursos da mesma White Gold para a off-shore Durant International. Os promotores Sílvio Marques e Sérgio Sobrane, que investigam Maluf por improbidade administrativa, atestam a autenticidade da documentação, embora ressaltem que não divulgaram o material, legalmente protegido por sigilo bancário.
Na prática, existem várias cópias da documentação bancária de Maluf na Suíça, pois o ex-prefeito está sendo investigado em frentes distintas. Quem não obteve nenhum documento ainda foi a CPI do Banestado, que investiga evasão de divisas. Na quinta-feira 24, o senador Antero Paes de Barros (PSDB/MT), presidente da CPI, peregrinou por São Paulo tentando agilizar o acesso à papelada. Pelas investigações, boa parte das verbas desviadas durante a construção da avenida Águas Espraiadas saiu do Brasil através do Banestado.
Como se não bastasse, há depósitos de empreiteiras contratadas por empresas vencedoras da concorrência, feitos diretamente numa agência paraguaia do BDP, como o Banestado é conhecido naquele país. Do cone sul, o dinheiro seguia para os Estados Unidos e, de lá, para a Europa.
Um dos responsáveis pela recuperação dos recursos desviados, Luiz Tarcísio Teixeira Ferreira, secretário dos Assuntos Jurídicos da Prefeitura de São Paulo, prepara-se para viajar à Suíça e à Inglaterra, para contatar escritórios locais de advocacia. É um processo complicado, lembra o secretário. O caminho do dinheiro, com a ligação entre uma ponta e outra, precisa estar bem claro. Pelo volume da documentação, não será moleza. Só na ponta brasileira, são 230 mil documentos bancários. E, entre o Brasil e a Suíça, tem muito mais do que um oceano.
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8:05 PM by Cassiano Leonel Drum
Governo
Afinal, um homem de negócios
Dez anos depois de assustar empresários americanos, Lula sai aplaudido de encontro em Nova York
Osmar Freitas Jr. Nova York (EUA)
Em 1994, quando era líder nas pesquisas eleitorais entre candidatos à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva foi a Nova York, no Plaza Hotel, para falar a uma platéia de 1.500 empresários americanos. Naquela ocasião, disse que iria renegociar a dívida externa brasileira e prometeu protecionismo aos produtos brasileiros. Os convidados saíram do encontro horrorizados, imaginando um futuro calote da dívida e fechamento do mercado.
Com um único discurso desastrado, Lula empurrou para os braços do seu rival na corrida presidencial toda aquela massa capitalista. Fernando Henrique Cardoso lançou sua candidatura após esse episódio e foi recebido como o messias pelo empresariado e economistas dos Estados Unidos.
Na semana passada, com público menor cerca de 700 e num hotel muito melhor (o Waldorf Astoria), o presidente Lula falou sobre seu programa econômico e a visão que tem para o Brasil. Garantiu que o País se tornou um ator importante no mundo globalizado, pregou o livre comércio entre as nações pedindo a redução de subsídios agrícolas de governos como o americano e disse que seu governo lançou as bases sólidas para um crescimento sustentável.
Foi aplaudido e conseguiu cumprir a meta do seminário divulgando oportunidades de investimentos no Brasil. A única possível gafe, nesta oportunidade, ocorreu quando o presidente garantiu aos empresários que havia dado instrução a seus ministros para responderem a todas as perguntas dos convidados nas reuniões que seguiram o almoço. Ele disse: Não há pergunta que não tenha resposta. Se não tiver resposta é porque não tem resposta.
A diferença entre o Lula de 1994 e o de 2004 é que o anterior era um ingênuo e o segundo é um homem de negócios. Cercado por seus ministros Antônio Palocci (Fazenda), Guido Mantega (Planejamento) e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), o presidente procurou cativar a platéia, registrando os números favoráveis da economia do País. Além disso, falou a frase mágica, que faltou no discurso de 1994, e que é capaz de abrir a carteira de investidores: Não estamos em meio a uma pequena aventura ou reinventando a roda...
As regras do jogo serão mantidas, não vão mudar de uma hora para outra. O recado foi entendido. O que mais assusta um investidor é a instabilidade nas regras que permeiam os negócios. Não dá para investir onde as regras não são respeitadas. O Brasil parece que compreendeu isso e tem mantido sua postura, disse Haim Bar-Ziv, vice-presidente executivo do IDB Bank.
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8:25 AM by Cassiano Leonel Drum
Chance de ficar milionário
MegaSena acumula pela quinta vez e vai pagar o maior prêmio do ano: R$ 50 milhões. Apostas podem ser feitas até amanhã, às 19h
Pedro Motta Lima
Movimento em lotéricas aumentou ontem, com o prêmio acumulado
A MegaSena está acumulada há cinco concursos e promete, para o sorteio de amanhã, o maior prêmio do ano: serão R$ 50 milhões. Este é o terceiro maior valor da história da loteria, que começou em 1996. As apostas podem ser feitas até as 19h de amanhã, uma hora antes do sorteio, a ser realizado em João Pessoa, na Paraíba. O último vencedor de um prêmio acumulado foi um apostador da Barra da Tijuca, que ganhou sozinho R$ 46,808 milhões.
A probabilidade de acertar os seis números é de uma em 50.063.860. Mas isso não desanima os cariocas, que já começaram a aumentar o movimento das lotéricas. Toda vez que acumula, eu faço a fezinha. Vou de dois jogos de R$ 1,50 cada um e repito sempre os mesmos números. Se eu ganhar, vou viajar pelo mundo, pois o mais longe que já fui do Rio foi Curitiba. E não trabalho nunca mais, disse o técnico de refrigeração Renato Gonçalves Lima, 36 anos.
O dono da loteria Simões, no Centro, Jaime Simões, disse que vai abrir amanhã pela segunda vez em sete anos. Os altos prêmios que estão sendo dados este ano nos estimularam a funcionar aos sábados. Para se ter uma idéia, quando o prêmio acumula desta forma, nosso movimento aumenta 100%, afirma o comerciante, que garantiu que fará decoração especial na lotérica para chamar a atenção do apostador.
Ganhador pode comprar o passe do craque Felipe
Se alguém ganhar sozinho o prêmio acumulado de R$ 50 milhões e resolver aplicar todo o dinheiro na caderneta de poupança que não é a aplicação mais rentável do mercado , terá renda mensal de R$ 366 mil só com o que vai ganhar com o investimento. Mas, se o sortudo resolver gastar, ele pode montar um time de futebol e contratar dois Felipes o passe do craque do Flamengo está estipulado em R$ 18 milhões e ainda sobram mais de R$ 12 milhões.
Se o ganhador gostar de veículos, ele pode se dar ao luxo de comprar os únicos 50 automóveis Ascari KZ1 que serão produzidos. Este se trata do carro mais caro já produzido na Inglaterra, que custa R$ 715 mil.
Se eu ganho um dinheiro desses, a primeira coisa que faço é sair do Brasil para não correr qualquer risco. Vou morar em Portugal e resolvo a vida dos meus cinco filhos, disse o aposentado Armando Porto, 69 anos. Tenho que distribuir o dinheiro, pois o prêmio é tão grande, que nem terei tempo de vida para gastar tudo, acredita Porto, que joga toda semana.
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8:14 AM by Cassiano Leonel Drum
Façam suas apostas
Último capítulo de Celebridade e fim do mistério sobre morte de Lineu param o Rio hoje. Policiais dão palpites, e o público faz bolão
O assunto que mobiliza hoje o Rio não vem do Palácio Guanabara nem de Brasília, mas dos estúdios de TV. Servidores, donas-de-casa, estudantes, artistas, noveleiros de carteirinha ou não, todos querem responder à pergunta: Quem matou Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana)? A TV Globo indicou ontem seis suspeitos. O capítulo final de Celebridade está previsto para ir ao ar às 20h50.
A identidade do assassino é mistério até para atores da novela, que fizeram bolão para descobrir o criminoso. As apostas também mobilizaram a cidade. Acostumados a analisar crimes na vida real, policiais, detetives e juízes entram no jogo. Nem será preciso correr para casa para acompanhar o desfecho do mistério: telões foram montados em vários pontos do Rio.
Segundo o diretor Dennis Carvalho, os diferentes finais da história serão gravados hoje. Foram convocados os óbvios Renato (Fábio Assunção), Marcos (Márcio Garcia) e Laura (Claudia Abreu), além de Beatriz (Deborah Evelyn) e Ana Paula (Ana Beatriz Nogueira). A surpresa ficou com a convocação de Corina (Nívea Maria).
Especialistas apontam os seus suspeitos
A deputada federal e ex-juíza Denise Frossard aposta em Hercília (Norma Blum): Ela se afina ao tipo de assassino que matou Lineu. Já foi empregada dele e nutria ódio muito grande. Tenente do Batalhão de Vias Especiais da PM, Alexandre Fumaux aposta no michê. Marcos é ambicioso e queria ficar com a filha do empresário, aposta. Já o inspetor Gláucio Tenório, da Corregedoria da Polícia Civil, indica Beatriz: Ela tinha raiva do pai só pela possibilidade de ser irmã da Maria Clara. E pensou em incriminar a irmã. A tresloucada personagem de Deborah Evelyn também é favorita do bolão dos atores de Celebridade.
A impulsiva Ana Paula (Ana Beatriz Nogueira) é a assassina para os inspetores Guilherme Marques e Vera Corrêa, da Corregedoria. Sabendo que a irmã poderia ser filha do Lineu, ela foi tomar satisfação e tentar conseguir dinheiro com isso, apontam. Também sobram suspeitas para Renato. É o personagem com mais indícios de frieza. Ele é calculista e muito ganancioso, diz o inspetor Carlos Vieira, também da Corregedoria. Agora, é só fazer a sua aposta.
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8:05 AM by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
25/06/2004
As fontes do palácio
Entrei duas vezes no belo Palácio Guanabara. Ambas por causa de Brizola. Na primeira, em 1991, para fazer uma reportagem sobre os 30 anos da Campanha da Legalidade. Tentei marcar por telefone a entrevista com o então governador do Rio. Não consegui. Puxa, como escrever a respeito da Legalidade sem falar com Brizola? Precisava da entrevista. Mas o jornal em que trabalhava na época só autorizaria a viagem com a entrevista agendada. Decidi arriscar: menti que o encontro fora acertado e fui para o Rio. Ao chegar lá, enlacei o pescoço numa gravata e toquei para o Palácio.
Brizola não aceitou me receber. Por algum motivo, receio da reação militar, talvez, ele não queria sequer mencionar a Legalidade naquele ano. Cristo, aquilo era a minha demissão e o opróbrio eterno! Continuei insistindo, consolado apenas pela beleza dos jardins do palácio com suas fontes e chafarizes, por onde passeava enquanto aguardava em agonia. Tornei-me amigo dos secretários de Brizola, que tentavam me ajudar. Em vão. O homem estava inflexível.
Foi Fernando Brito, esse mesmo jornalista que até o último dia esteve junto de Brizola, quem teve a idéia de me colocar em contato com ele durante uma cerimônia pública. Ocorre que Nelson Mandela visitava o Rio, por aqueles dias. O encontro entre Mandela e Brizola se daria no Copacabana Palace e seria fechado para a imprensa. Brito me disse que daria um jeito.
No fim da tarde, lá estava eu, ansioso, cercado de colegas aflitos para botar abaixo as portas envidraçadas do Copacabana. Postei-me bem na frente da turma. De repente, dois secretários surgiram. Puxaram-me pelo braço: entra, entra. Deixei os colegas na rua, fulos. O Brito me apresentou a ele. Disse que viera de Porto Alegre para falar sobre a Legalidade e ele... se recusou! E já se foi. Trancou-se numa sala com o Mandela. Sentei nas escadarias do Copa, com vontade de chorar. Depois, ainda houve uma coletiva. Eu esperando, sentindo-me nas vascas da morte. Na saída, corri para o Brizola, argumentei que as novas gerações não sabiam nada sobre a Legalidade e talicoisa. Brizola parou. Virou-se:
- Vamos ver mais tarde. À noite.
À meia-noite, ele concedeu a entrevista. Por telefone. Eu, na antecâmara do gabinete; ele, no gabinete. Para completar minha angústia, o Brito cassou o bloquinho com as anotações. Ia passá-las por fax ao Brizola, a fim de que ele autorizasse a publicação e só depois me mandaria, também por fax. Com um milhão de votos, depois de dois dias e duas noites de espera, eu não sairia dali sem a entrevista! Vi que o Brito, após a transcrição, atirou as folhas do bloquinho no lixo. Esperei que ele saísse da sala e resgatei-as. Voltei para o hotel comemorando. Consegui a matéria!
Treze anos depois, retornei ao Palácio Guanabara. Reencontrei Brizola. Reencontrei os lindos jardins com suas fontes. Mas não me pareceram mais tão bonitos.
david.coimbra@zerohora.com.br
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8:00 AM by Cassiano Leonel Drum
Mauren Motta
25/06/2004
Fazendo carão
Cansada e badalada. É assim que a gente se sente após uma semana de São Paulo Fashion Week. Novidade é o que não falta no mundinho. Dentro e fora das passarelas a ferveção é sempre garantida. Mas o bafão fashion cansa até os mais preparados. Durante o dia, a maratona de desfiles, mais ou menos uns sete, acaba com qualquer possibilidade de saída noturna. Sim, tem muita festinha rolando na paralela. É tanta opção que fica difícil escolher.
Confesso que já fui mais animada, e que mesmo depois de um dia inteiro de trabalho ainda achava forças para a balada paulista. Desta vez foi diferente, não saí quase nada. Numa das poucas festinhas, fiquei passada e entediada com o que vi. Vocês devem imaginar como é esse planeta da moda: flashes pipocando, luzes na passarela, modelos esquálidas e algumas pessoas de plástico. O problema é que ninguém desce do salto nem mesmo na hora da diversão. Fazer carão, expressão muito usada pelos fashionistas, não tá com nada. Parece que as pessoas fazem qualquer coisa pra aparecer. Darlene é ficha perto de algumas modelos conhecidas.
A festa rola e elas continuam lá, fazendo pose para as lentes. Fico imaginando como é que elas não cansam. Deve ter um momento que dá um tédio tanta falta de conteúdo. Algumas mais desesperadas arriscam até um lesbian chic regado a champa pra atrair as lentes dos fotógrafos. Acho que na ficção fica engraçado. Na vida real é deprimente!
Na manhã seguinte estão lá, lindas e loiras na passarela do desfile das 10h. Claro que nem todo mundo é assim. Tem muita menina ultraprofi. Algumas matam o tempo lendo um bom livro. Acho que é assim que tem que ser. A carreira de modelo é curta, e a sorte como a de Gisele, única. Meninas, não me levem a mal, mas beleza é fundamental e cultura também.
mauren@rbstv.com.br
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7:56 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
25/06/2004
Estranho desaparecimento
Ontem foi dia de São João e eu não soube notícia de sequer uma fogueira em Porto Alegre. Pode ser que tenha havido, mas o sinal é de que foram poucas.
Registro isso porque vi na televisão que em Campina Grande, Paraíba, foram acendidas cerca de 3 mil fogueiras.
Esse número, nas décadas de 40 e 50, era muito maior em Porto Alegre. Nos arrabaldes, as fogueiras eram vistas em distâncias inferiores de cem metros uma das outras.
E o foguetório era geral aqui na Capital e no Interior. A festa de São João era comemorada com intensidade entre os gaúchos. E no dia 29 de junho, São Pedro e São Paulo também eram saudados com festas quase idênticas.
Onde foram parar no Rio Grande as festas juninas, com pinhões, pipocas, doces, quentões, amendoim torrado, rapaduras, bombas, busca-pés, trique-traque, gente pulando fogueiras, gente pisando em brasas? Onde foram parar as festas de junho, com todos vestindo trajes característicos, as brincadeiras e os bailes depois de acesas as fogueiras?
E quando se sabe que os deputados federais votaram o salário mínimo anteontem e os parlamentares nordestinos correram para o aeroporto de Brasília apressadamente, com a finalidade de não perderem a festa de São João em suas cidades, que estranho desaparecimento é este dessas festas no Rio Grande do Sul?
Como é que pudemos incorrer assim de modo tão abrupto nessa ruptura cultural dos nossos costumes?
Será que são as dificuldades econômicas que nos levaram a não festejar mais os santos de junho? Não pode ser isso, o Nordeste é mais pobre do que nós e por lá as festas juninas estão cada vez mais incrementadas.
Que estranho mistério este a desafiar os sociólogos e os folcloristas.
Falar em deputados federais correndo de Brasília na quarta-feira para participar de festas juninas em outros Estados, um leitor esses dias mandou-me curiosa observação: "Se o horário oficial brasileiro é o de Brasília, por que nós não temos direito a folga no trabalho às segundas e sextas-feiras?"
A gerência do Auto Posto Campinense Ltda., de Campina das Missões (RS), solicita que seja retificado nesta coluna o preço que é cobrado pelo litro de gasolina naquela cidade.
Foi publicado aqui nesta coluna que o preço cobrado era de R$ 2,60 por litro, fato informado por e-mail de consumidor daquela cidade. A gerência afirma que o preço cobrado por ela aos consumidores de Campina das Missões, atualmente, é de R$ 2,36: "Nossa empresa poderia ter repassado ao preço antigo (R$ 2,26) o reajuste autorizado pela BR Distribuidora, conforme carta anexa datada de 16 de junho, de 6,78%. O preço então seria de R$ 2,41. No entanto estamos trabalhando desde então com o preço de R$ 2,36. Oportuno esclarecer que repassamos para os nossos clientes um aumento menor que o autorizado, ou seja, apenas 4,4247%".
As empresas Auto Posto Godoiense e Auto Posto Campinense são do mesmo proprietário, suponho que não haja outros postos na cidade, pelo que então a informação publicada nesta coluna foi incorreta.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:54 AM by Cassiano Leonel Drum
Gente
Brizola reúne sua última multidão
São Borja sepulta o terceiro líder trabalhista
Uma era da história brasileira encerrou-se às 16h12min de ontem, quando o caixão com o corpo do ex-governador Leonel Brizola foi depositado no jazigo da família Goulart, onde foram enterrados Neusa, sua mulher, e o ex-presidente João Goulart, seu cunhado. Choro, empurra-empurra e discursos de fidelidade ao trabalhismo marcaram os momentos finais do sepultamento.
O trânsito de políticos congestionou o pequeno aeroporto de São Borja
Milhares de pessoas acompanharam a pé o féretro pelas ruas, da igreja ao cemitério onde estão sepultados Vargas e Jango (foto Charles Guerra, Agência RBS/ZH)
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Quinta-feira, Junho 24, 2004
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6:21 PM by Cassiano Leonel Drum
Mamãe tá namorando!
Papai tá namorando!
Muitas vezes, nos vemos divididos entre esses diferentes amores: aos filhos e ao namorado (a). Pensemos, então, sobre o que desejamos para nossos filhos a longo prazo. Qualquer pai dirá que deseja que sejam felizes, profissionais independentes, bem sucedidos e que possam encontrar uma boa pessoa com quem compartilhar a vida.
Pelo menos conscientemente, ninguém se imagina vivendo para sempre do lado do filho numa relação de exclusividade e dependência. Mesmo que desejemos secretamente reter os filhos para nós, não podemos duvidar que o preço da realização dessa fantasia é a própria felicidade dos mesmos.
Adultos que abdicaram de sua vida particular pela dos pais tendem a ser frustrados em seus sonhos particulares. Adultos sabem o preço da interferência familiar sobre relacionamentos afetivos, como a famosa figura da sogra, mas também do sogro perfeito e inalcançável, que muitas vezes funcionam como fantasias entre o casal.
Quem nunca presenciou a paixão que os filhos pequenos sentem e as cenas de ciúmes que são capazes de criar, quando percebem que estão ameaçados por um(a) rival? Os filhos têm nos pais o alvo de seu amor infantil e é a partir desse amor que surge a possibilidade de amarem outras pessoas. Esse amor filial é infantil, mas muito poderoso, pois ainda não conhece barreiras e deixa as crianças dominadas por sua intensidade.
E para que possam se tornar adultos maduros, eles devem fazer uma escolha, abrindo mão dos pais como meta amorosa. Isso depende de abdicar da fantasia de serem a namoradinha ou o namoradinho do papai/mamãe. Um amor tão poderoso e que necessariamente precisará ser frustrado para que no futuro um adulto saudável possa amar verdadeiramente outro adulto. Muitos pais ficam penalizados ao rejeitarem tamanha demanda afetiva, sentem-se até mesmo culpados. Às vezes, abrem mão de outros filhos por medo de ciúmes.
A impossibilidade em lidar com a frustração do(s) filho(s) diz respeito a nossas lembranças dolorosíssimas da nossa paixão frustrada pelos nossos pais. Como se pudéssemos poupar nossos filhos do mesmo sofrimento ou, quem sabe, fazer com que eles nos compensem a perda. Esses sentimentos acontecem no subterrâneo dos afetos e pouco acesso temos a eles.
Podemos deduzi-las da forma como lidamos com as nossas escolhas afetivas adultas e se optamos por viver a vida dos nossos filhos ao invés de assumirmos nossa sexualidade adulta já dá para imaginar aonde a coisa ficou enganchada.
Ciúmes
Mas se os filhos já têm ciúmes da relação entre os pais, dos irmãos e dos amigos, o que dirá do novo(a) namorado(a)? Aquele que vem depois da separação dos pais? O namorado(a) pode ser o alvo perfeito de um concentrado de vários afetos decorrentes da separação. Assim, podem descarregar inclusive o ciúme que já tinham do pai/mãe naquela figura de fora, sem sentir tanta culpa.
Podem até mesmo sentir que estão traindo o pai aceitando o rival dele, ou podem fazer uma inesperada amizade com aquele que realizou seu desejo inconfesso: separar os pais, quem sabe sobre um espacinho para o filho. É, os afetos são intensos, contraditórios e difíceis de serem assumidos para nós mesmos. Que dirá para o outro?
Separação
Quando um casal se separa, o que se deve oferecer aos filhos, em primeiro lugar, é o máximo de estabilidade. O ideal é assumir uma rotina consistente e previsível, assim que for possível. A idéia é que possamos conduzir nossa vida afetiva de um jeito responsável, sem que a criança ou o adolescente seja exposto aos nossos altos e baixos afetivos e que não tenha que conhecer um novo tio/tia a cada mês.
Podemos ensinar nossos filhos a assumirem também a sua vida afetiva longe dos pais. Se os pais se sentem culpados perante os filhos, os mesmos se sentirão culpados quando chega a hora de se afastar dos pais. E essa hora começa lá na primeiríssima infância, aos 2 anos, já nos primeiros gritos de liberdade da birra, da ida a escola, deixando os pais para trás.
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6:12 PM by Cassiano Leonel Drum
Amsterdã
Marcelo Balbio
A capital da Holanda tem tradição em cartografia no DNA. Para o turista, é um alento estar cercado de mapas numa cidade com geografia labiríntica mas onde raramente tem-se a sensação de estar perdido. Errar o caminho é comum. Encontrar um restaurante fora do guia, passar por uma nova lojinha ou visitar uma galeria recém-inaugurada também.
O que não falta em Amsterdã é distração. A cidade é grandiosa pelo que esconde na geografia e estilo de 165 canais, 700 restaurantes, 40 museus, 1.200 pontes e quase 1.500 cafés e bares. São tantas fachadas a observar, pontes a cruzar e ruas a percorrer, que o ideal é seguir uma tradição dos próprios holandeses: navegar, explorar, descobrir. Na cidade mais visitada da Holanda, com 800 mil moradores e cerca de um milhão e meio de turistas por ano, a recompensa está em cada detalhe.
Assim que entra numa das principais atrações de Amsterdã, a Oude Kerk, o visitante não sabe direito se está chegando a uma igreja, a um cemitério ou a um centro de exposições. Quando constata que o lugar é um mistura de tudo isto, fica ainda mais impressionado. A igreja, construída em madeira no século XIII, foi mesmo instalada sobre dezenas de sepulturas e ganhou uma estrutura gótica no século seguinte.
Perdeu pinturas e esculturas em 1578, mas a forma em madeira, o teto dourado, os vitrais e um órgão de carvalho de 1724 estão preservados. Hoje, além do interesse despertado por sua própria história e arquitetura, atrai turistas por abrigar concertos de música e exposições. A última, encerrada no domingo, foi dedicada a fotojornalismo, a World Press Photo 2004. No próximo dia 2, começa uma retrospectiva da artista plástica alemã Rosemarie Trockel.
Livre de um incêndio que em 1452 destruiu muitas construções, especialmente as de madeira, a igreja é um símbolo da era medieval que ainda pode ser admirado em Amsterdã. Dos séculos XV e XVI, restam poucos prédios, mas do século XVII em diante muitos estão lá, em construções estreitas e compridas, com fachadas em tijolo ou arenito, jardins internos, janelas amplas e muitos adornos.
Mesmo que o turista não seja um aficionado pelo tema, a arquitetura não passa despercebida aos olhos de quem visita Amsterdã. A cidade nasceu como vila de pescadores, em torno do ano 1200, e desenvolveu-se após descobrir o comércio. Viveu momentos de grande prosperidade no período medieval e o apogeu aconteceu no século XVII. Foi a época de ouro de Amsterdã, um período marcado pela construção de belas casas em torno da cidade, desenhadas por arquitetos e pintores. No século XVIII, era a capital financeira mundial e destino de muitos imigrantes.
Depois disso, enfrentou intervalos de estagnação, com ingresso tardio na era da industrialização, e recuperou prestígio ao fortalecer a economia nos anos seguintes. Um pouquinho de todas estas etapas históricas pode ser visto ao longo dos bairros de Amsterdã, refletidos em construções residências, igrejas, palácios, monumentos públicos que marcaram época e alimentam o interesse pelo país e sua tradição.
O governo e o departamento de turismo local decidiram tirar proveito desta herança e elegeram 2004 como o ano de homenagem à arquitetura e ao design. Como parte do programa Amsterdam Architecture + design 2004, estão sendo sugeridos passeios a pé e visitas ao interior de pontos que se destacam pelo valor de suas construções, tenham elas linhas clássicas de 300 anos ou formas arrojadas e materiais modernos do século XXI.
Foi montado um site especialmente dedicado ao assunto em <www.amsterdamarchi tecture.nl>, para orientar o turista e ajudá-lo a traçar um roteiro. Na página na internet, são listadas construções de inegável valor arquitetônico, com breve descrição de sua história, fotos e localização.
Estão lá destinos turísticos clássicos como o Museu Van Gogh e o Lloyd Hotel, mas como o objetivo não é olhar apenas para o passado, há exemplos de edifícios moderníssimos que hoje compõem a paisagem da cidade, como o novo prédio do Arcam (Centro de Arquitetura de Amsterdã), o centro de ciências Nemo e as casas erguidas em IJburg, uma nova área residencial em franco crescimento na região leste da cidade. Além de edifícios, o site recomenda visitas a parques, pontes, estátuas e outros monumentos. Afinal, o que não falta em Amsterdã é história.
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8:18 AM by Cassiano Leonel Drum
Trem da moda
Fashion Rio, que começa amanhã, transforma cidade em plataforma das tendências de verão
Texto Flávia Motta e Fotos Marcelo Regua
Maiô frente-única Lenny
Piuííí! É o trem da moda chegando à nova estação. A partir de amanhã, quando começa o Fashion Rio, a cidade vira plataforma para o lançamento das tendências de primavera e verão. Cariocas, paulistas, mineiros, capixabas, baianos e catarinenses vão mostrar, em 30 desfiles no Museu de Arte Moderna (MAM), o que criaram para a temporada. Nas fotos, alguns dos looks que vão estar nas passarelas.
Bata de renda romântica com calça Cavendish
O clima primaveril fica por conta dos painéis do artista plástico Paulo Von Poser, inspirados em rosas. Mas as flores do Jardim Botânico também emprestam seu frescor: é lá que a Maria Bonita abre o evento, amanhã. Não só os deuses da passarela compõem o cenário por onde passarão 35 grifes. O MAM abrigará, até quarta-feira, 224 expositores do Fashion Business; 38 designers expondo tesouros no Jóia Brasil, e o Rio Moda Hype, que, pela primeira vez, mostra novíssimos criadores.
Estampa floral no vestido com sutiã Colcci
Calça corsário com regata Maria Fernanda Lucena
Grifes
MARIA BONITA * COLCCI * ST. EPHIGÊNIA * PATRICIA VIEIRA * MÁRCIA GANEM * SALINAS * WALTER RODRIGUES * GRAÇA OTTONI * M VS. M * MARA MAC * TESSUTI * BLUE MAN * TNG * COVEN * VICTOR DZENK * CAVENDISH * VIRZI * LENNY * SANDPIPER * PERMANENTE * DROSÓFILA * LEI BÁSICA * MARIA BONITA EXTRA * COMPLEXO B * TOTEM * WENDELL BRAULIO * O ESTÚDIO * LENA SANTANA * MARIA FERNANDA LUCENA * ZIGFREDA * MIQUELINA * CARMELITAS * À COLECIONADORA * FRANKIE AMAURY * RYGY
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8:13 AM by Cassiano Leonel Drum
FLAMENGO
Viva os laterais
Flamengo só precisa de um empate (0 a 0 ou 1 a 1) no jogo de volta para faturar bi da Copa do Brasil. Roger e Athirson, os heróis da noite
Janir Júnior
SÃO PAULO - O Flamengo deu um importante passo para conquistar o bi da Copa do Brasil e, como prêmio, ganhar uma vaga na Libertadores. Ontem à noite, empatou em 2 a 2 com o Santo André, no Parque Antártica, na primeira partida decisiva. Os laterais Roger e Athirson foram os heróis do jogo. Um empate em 0 a 0 ou 1 a 1, quarta-feira, no Maracanã, dá o título ao Rubro-Negro. Caso se repita o placar de 2 a 2, a disputa vai para os pênaltis. Empate acima de três gols dá o título ao Santo André.
Com Felipe comandando o meio-campo, o Flamengo suportou bem a pressão inicial do Santo André. Jean foi o primeiro a levar perigo ao gol adversário, num chute forte, por cima do travessão. Em seguida, foi a vez de Negreiros chutar rasteiro com a bola passando rente à trave.
Aos 17 minutos, novamente Jean fez estrago na defesa paulista e bateu forte. O goleiro do Santo André soltou a bola, mas Douglas Silva chegou atrasado na jogada.
Pressionando e melhor em campo, o time carioca fez o gol aos 26 minutos, numa cobrança de falta ensaiada pela esquerda. Douglas Silva tocou para Íbson cruzar na medida para o lateral Roger abrir o placar.
Depois do gol, a equipe carioca recuou, passando a aceitar a pressão do Santo André, que teve a melhor oportunidade de empate numa bomba de Osmar, que raspou a trave, com Júlio César batido na jogada.
No intervalo, Da Silva, que levou uma cotovelada de Alex, no rosto, foi substituído por Róbson. Logo aos 6min, a zaga do Fla falhou. Romerito entrou sem marcação e cruzou na cabeça de Osmar, que empatou.
Cinco minutos depois, Felipe e Jean poderiam ter desempatado, mas Júlio César, do Santo André, fez duas ótimas defesas. Mas quem fez o segundo foi o time da casa. Novamente os zagueiros bateram cabeça e Romerito fez 2 a 1, aos 14min.
Desorientado e com Felipe caindo de rendimento, o Flamengo perdeu o comando do meio-campo e, confuso, passou a ser totalmente dominado. O Santo André criou chances de ampliar. Numa delas, Sandro Gaúcho soltou uma bomba que, para sorte do Júlio César, foi para fora. Depois, Reginaldo Araújo perdeu a chance de igualar a partida, chutando para o alto, debaixo da trave. Aos 38 minutos, Athirson, que entrou no lugar de Roger, cobrou falta com perfeição, empatando o jogo.
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8:01 AM by Cassiano Leonel Drum
Nilson Souza
24/06/2004
Dez coisas
Um jornal resolveu perguntar a algumas personalidades da vida nacional quais as 10 coisas que gostariam de fazer antes de morrer. Perguntinha pra lá de incômoda, reconheçamos, mas que suscitou respostas criativas e também reveladoras daquele medinho secreto que todos temos, por mais que procuremos disfarçar.
Tá bem, toc-toc-toc, mas o assunto é tentador. Em primeiro lugar, me faz lembrar aquela anedota dos três sujeitos questionados sobre o que gostariam de ouvir dos amigos no próprio velório. Um disse que lhe bastava ouvir que tinha sido um homem honesto. O outro preferia ser lembrado como bom pai de família. E o terceiro, gaiato, disse que ficaria muito feliz se ouvisse a seguinte frase:
- Olhem, ele tá se mexendo!
Pois a minha lista das 10 derradeiras vontades começa com movimento: ainda vou correr uma maratona. Isso mesmo, quero percorrer os 42.195 metros no mesmo trote que uso para subir três vezes por semana a lomba do Espírito Santo, que é onde pratico minha atividade física matinal. Também quero aprender a tocar flauta doce. Mal sei assobiar, mas espero que o exercício diário me garanta fôlego suficiente para realizar este segundo desejo.
Escrever um livro para crianças está nos meus planos desde que eu era criança. Antes - ou depois, não importa -, quero encontrar um tempo livre para contribuir na alfabetização de adultos que não tiveram a oportunidade de encontrar na infância o livro que ainda não escrevi. A propósito de escrever, lembrei-me agora que também tenho uma pretensão artística: fazer uma letra de música. Te cuida, Chico Buarque!
Já gastei metade da minha cota de desejos e ainda não relatei o principal. É evidente que não vou atravessar o rio de Caronte sem antes dizer a todas as pessoas que amo o quanto as amo. Como é muita gente e eu sou tímido, vai levar um tempão. (Olha o medinho aí!)
Vou tirar a barba. Venho prometendo isso há mais de 20 anos, mas sempre me falta coragem. Quem sabe, se o fizer agora, a Dama da Noite não leva outro barbudo por engano? Mais: não posso ir a lugar algum sem antes ler todos os livros empilhados na minha mesa de cabeceira, que já formam verdadeiras torres inclinadas a me ameaçar o sono. Falando nisso, um nono desejo, se me permitem revelá-lo, é voltar a dormir o sono da inocência.
Por fim, quero que meus amigos digam enquanto posso ouvi-los:
- Olhem, ele tá feliz!
nilson.souza@zerohora.com.br
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7:59 AM by Cassiano Leonel Drum
Leticia Wierzchowski
24/06/2004
Tudo ou nunca mais
Assisti a Cazuza - O Tempo não Pára numa noite dessas e experimentei certa vontade de tomar um porre e fazer umas loucuras. Mas acontece que eu saí do escuro do cinema foi chorando mesmo, com saudade do Cazuza e de tudo de genial que ele fez na vida. Cazuza vertia pérolas mesmo chapado, bêbado e louco (ou quem sabe, também por isso). Era doido, doido de dar nó, mas era também um menininho muito lindo que a gente sentia vontade de pegar no colo e perdoar suas loucuras todas. Mas quem disse que os gênios são certinhos?
Não há muito o que falar sobre o filme: é bom. Foi justo com uma das figuras mais geniais da música brasileira dos últimos tempos. E aquele ator, o Daniel de Oliveira, cazuzou pra ninguém botar defeito. A semelhança física entre os dois é impressionante; nas primeiras cenas, ainda surge um Cazuza titubeante, meio assim, flanando, mas depois de cinco minutos de filme, o santo (ou seria a pomba-gira?) baixa no Daniel, e a gente fica ali, grudadinho na poltrona, impressionado.
Não há muito o que falar sobre o Cazuza: ele era genial; compôs alguns dos versos mais bonitos que eu conheço, e sem pretensão, sem salto alto, sem dor. Esse negócio de transar a dor não era com ele, a única dor que ele achava justa era a dor de amor que vinha em algumas das suas melhores músicas, como em Bilhetinho Azul. Cazuza viveu meteoricamente, comeu todo mundo, bebeu, cheirou, fez um monte de gente cantar, exagerou muito e muito, perdeu-se no coração de alguns meninos, pra depois - tão rápido para todos nós - encontrar a sua morte de luz.
Como no lindo poema de Lorca que Daniel de Oliveira recita no filme para um dos seus namorados, Cazuza consumiu-se nesta morte luminosa, na morte que começou em alguma hora incerta da sua vida, e terminou num banho de mar no colo do enfermeiro - foi desse banho que veio a pneumonia que acabou de matá-lo. No filme, quando se descobre soropositivo, Cazuza tem um acesso de raiva e de pavor e conta ao amigo Ezequiel Neves que foi "tocado pela Aids".
Cazuza foi tocado por muitas coisas, algumas lindas, outras nem tanto. Aí, um dia, morreu, pequenino como o menininho que ele era lá no fundo... E nós, ah, nós ficamos órfãos. Cazuza queria transformar o tédio numa coisa maior, e não deu pra ninguém. Terminou como no tal poema de Lorca, perdido pelo mar, "o ouvido cheio de flores recém-cortadas, a língua cheia de amor e de agonia".
leticia.wierz@zerohora.com.br
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7:57 AM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
24/06/2004
Sem aspas, desta vez
Foi a primeira morte sem aspas do Brizola. Sua "morte" em sentido figurado foi anunciada várias vezes. Quando comecei a publicar matéria assinada em jornal, em 1969, não havia instruções claras sobre o que se podia e não se podia escrever - pelo menos não em Porto Alegre. Alguns assuntos eram obviamente desaconselhados, para usar um termo brando: críticas ao governo militar e a militares brasileiros em geral, qualquer referência aos rumores de tortura e assassinato de presos políticos e opositores do regime, notícias de guerrilhas. Você podia recorrer à alusão velada, a entrelinhas e a indiretas que passavam ou não passavam pela autocensura do jornal, e assim ir testando os limites do permitido.
Às vezes "passar" ou não "passar" dependia apenas de um retoque no texto, outras vezes tudo era desaconselhado e você tinha que escrever outra crônica, de preferência sobre o sexo de anjos apolíticos. Era conveniente ter sempre um texto de reserva, um que não se prestasse a nenhuma interpretação dúbia. Por isso escrevia-se muito sobre futebol, e mesmo assim cuidando para não enfatizar demais as jogadas pela esquerda. Um assunto ideal seria um torneio de futebol entre anjos sem sexo e destros.
Só uma vez recebi uma proibição direta, com nome e sobrenome. Na verdade, dois nomes e sobrenomes. Tinha mencionado o Brizola numa crônica - nem a favor nem contra, era só uma reminiscência - e o editor me chamou para dizer que a crônica não poderia sair e que eu não fizesse mais aquilo. Era proibido tocar no nome de Leonel Brizola no jornal. "Faz de conta que o Brizola morreu", me disse. E, quando eu ia saindo do seu gabinete, acrescentou: "Ah, e o Helder Câmara também".
Acho que deixaram o dom Helder ressuscitar antes do Brizola, que continuou "morto" para a imprensa brasileira até começar a famosa abertura lenta e gradual do general Geisel. E quando voltou ao Brasil depois da anistia, vivíssimo, Brizola foi recebido por uma multidão que resistira aos anos de silêncio forçado e inútil sem esquecê-lo.
Seguiram-se anos de triunfos e de mais algumas mortes entre aspas. Depois daquela eleição presidencial em que ele chegou atrás do Enéas, fiz uma charge para o Jornal do Brasil que era assim: uma multidão em torno da sepultura do Brizola recém-enterrado, e no meio da multidão, sorrindo, o próprio Brizola. Se sua vida e sua carreira ensinavam alguma coisa, era que qualquer notícia da sua morte política seria prematura.
Sua última morte não foi em sentido figurado. Foi sem aspas, desta vez. Mas, sei não. Talvez seja prudente deixar uma cuia com mate quente perto da sepultura, por via das dúvidas.
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7:54 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
24/06/2004
O jeito gaúcho de ser
Interessante é que, quando morrem os grandes homens, nós vemos reacendido o nosso amor pela pátria.
Quando morreu Tancredo Neves, sentimos um fervor cívico, passamos a nos orgulhar de sermos brasileiros.
Agora, quando morreu Leonel Brizola, parece que fomos chamados à realidade de sermos gaúchos e amar o nosso torrão.
Uma emoção febril percorreu todos os corações gaúchos quando o esquife de Leonel Brizola penetrou no recinto do Palácio Piratini.
Interessante é que a reação imediata dos presentes foi a de lembrar que somos gaúchos, quando todos passaram a cantar a Querência Amada, de Teixeirinha, puxada magistralmente por alguns dos nossos maiores intérpretes, capitaneados pela gaita do Luiz Carlos Borges.
Foi o instante supremo das exéquias, o Taura repousando no caixão e a multidão que foi recebê-lo entoando um dos seus hinos: "Quem quiser saber quem eu sou/ Olha para o céu azul/ E grita junto comigo/ Viva o Rio Grande do Sul".
Quando olhei para o Bagre Fagundes, no coro puxador, com os olhos banhados de lágrimas, também me deitei a chorar.
É que o Brizola antes de tudo sintetizava um tipo gaúcho: intrépido, falante, resistente, bonachão.
E entre nós, gaúchos, até a minoria que discordava dele se identificava com ele.
Essas lágrimas que os gaúchos derramam há dois dias e vão continuar derramando até que o Taura baixe à sepultura vêm de um impulso que é característico do ser humano: mas afinal quem eu sou, de onde venho, para onde vou?
E, quando um sujeito como o Brizola morre, cada um de nós descobre quem é: nós somos gaúchos.
E nós então nos apercebemos do |