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Sábado, Julho 24, 2004
Posted
7:41 PM by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
25/07/2004
S u c e s s o
Nossa velha e conhecida arrogância nos impede de reverenciar aquilo que está sendo gostado por muita gente
Você está numa loja de discos a fim de descobrir algo novo. Pega um CD aleatoriamente, bota pra tocar e adora. Você nunca tinha ouvido falar daquela banda, o disco foi recém lançado, sem divulgação. Você compra. E leva este segredo pra casa. Cada vez que mostra para os amigos, eles vibram. Virou seu disco de estimação. Dali a um mês você liga o rádio numa FM e está lá a sua música predileta, rodando entre o Bon Jovi e a Avril Lavigne. Caiu no mundo. Entrou nas paradas. Toca 26 vezes por dia. E pra coroar seu desespero, virou trilha de novela. O sonho acabou. O CD voa pela janela.
Acho que todo mundo já passou por isso: cultuar algum filme, música ou livro que, depois que cai na boca do povo, passa a merecer apenas desprezo. Por quê? Ora, por quê. Porque não pega bem render-se ao sucesso. Nossa velha e conhecida arrogância nos impede de reverenciar aquilo que está sendo gostado por muita gente. Se todo mundo está comprando, se todo mundo está falando bem, se a coisa "vende", eca, é porque não tem valor.
Que a gente deixe de escutar uma música por exaustão, entendo. Tudo que massacra, enjoa. Mas desprezar o sucesso pelo simples fato de ser sucesso é coisa pra se pensar. Existem dois tipos de "sucesso": aqueles fabricados do dia pra noite e com prazo Andy Warhol de validade (o grupo Rouge, pra citar um exemplo) e aqueles que começaram anônimos, atraindo apenas meia dúzia de antenados. Só que esta meia dúzia falou para mais meia dúzia, que passou a informação adiante e aí, um belo dia, ganha-se a mídia. Que maravilha. Que encrenca.
Iniciantes costumam merecer nossa condescendência. Salve, salve o alternativo. Mas o que fazer quando os alternativos são abençoados pelo mainstream? Transformamos condescendência em veneno. Fica combinado que ninguém realmente bom pode fazer sucesso, ganhar dinheiro e fugir das nossas mãos. Artista que deixa de ser apenas de uns e outros para ser de todos é o fim. Mídia, você sabe: é meio, média, medíocre, esta livre associação de palavras que faz babar de satisfação a elite cultural do país. Virou comercial? Aí tem. Ou melhor: não tem. Não tem mais talento, não tem mais afago. Se o povo gosta, aos narizes-empinados restará apenas nostalgia: "Ele era muito melhor quando ninguém o conhecia".
Tem gente que não tem talento, são novidades frugais, rapidinho passam. Tem gente que tem talento mas se acomoda: acaba esquecido, será recordado talvez numa retrospectiva da obra. E tem gente que tem talento, não se acomoda e passa o resto da vida se renovando, se reciclando, batalhando, sendo novo todo dia. Só assim serão perdoados por serem bons.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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7:38 PM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
25/07/2004
Músicos no céu
Não é a música a linguagem das esferas celestiais, o som humano que mais agrada aos ouvidos do Senhor, incluindo as duplas sertanejas?
Todos os músicos, quando morrem, vão para o céu. Muitos se surpreendem com isso. Não imaginavam que sua vida na Terra os levaria a qualquer outro lugar que não fosse o inferno - ou pelo menos um inferninho, onde seu castigo seria passar a eternidade num ambiente enfumaçado ouvindo bêbados pedir "Toca Feelings", e sem poder beber. Mas outros não demonstram nenhuma estranheza ao se verem no céu. Sabiam que o mesmo Deus que lhes dera o dom da música lhes daria a recompensa pelos sons que produziam em vida, apesar dos seus pecados.
Pois não é a música a linguagem das esferas celestiais, o som humano que mais agrada aos ouvidos do Senhor, incluindo as duplas sertanejas? Chegam no céu sem surpresa e vão logo procurar sua turma, certos de que todos estarão lá. E estão todos lá. Desde o primeiro pastor que fez buracos num talo e soprou na ponta até o inventor do sintetizador eletrônico. De Palestrina a Pixinguinha, de Salomão a Sinatra, passando por Bach, Beethoven, Brahms, Bela Bartok e Bororó. Até Nero está no céu, na sua condição de lirista amador.
Aliás, o músico recém-chegado ao céu se surpreende ao ver Nero tocando numa orquestra de liras e harpas, regida por um Stokovski obviamente enfarado. Toda a categoria está em volta da enorme orquestra de liras e harpas - músicos, cantores e compositores, entre mortos recentes e antigos - e todos demonstram o mesmo tédio do maestro. É evidente que ninguém agüenta mais ouvir liras e harpas. O recém-chegado senta-se numa nuvem ao lado do Perez Prado e pergunta se o concerto começou há muito tempo.
- Si - responde Perez Prado, com um bocejo.
- Ainda bem que já está acabando... - diz alguém do outro lado do recém-chegado, também bocejando. É Tchaikovski.
- E é sempre o mesmo programa... - diz Charles Trenet, sentado atrás.
- Depois melhora um pouco... - diz Franz Lizt, ao lado de Perez Prado.
- O repertório? - pergunta o novato.
- Não. O repertório é sempre o mesmo. Não existem muitas composições para orquestra de liras e harpas - diz Pablo Cassal.
- Mas aqui está cheio de compositores! Por que vocês não compõem música nova para orquestra de liras e harpas?
- Nos recusamos - diz Schubert.
- É a nossa maneira de protestar - diz Schumann.
- Protestar contra o quê? - quer saber o recém-chegado.
Mas a orquestra de liras e harpas parou de tocar. Ouvem-se aplausos esparsos e muitos suspiros de alívio.
- Agora vai melhorar um pouco - diz Liszt. - A outra orquestra, pelo menos é mais animada.
A orquestra só de liras e harpas é substituída por uma só de trombetas. Centenas de trombetas. O recém-chegado vê vários maestros num bolo fazendo um rápido torneio de par ou ímpar. O perdedor substituirá Stokovski e regerá as trombetas. O perdedor é Leonard Bernstein. Ele sobe no pódio, desolado.
A orquestra de trombetas é mesmo mais animada e toca mais alto do que a orquestra de liras e harpas, mas só toca fanfarras. Leonard Bernstein só precisa agitar as mãos no ar para reger as fanfarras. Acaba cansando e é substituído pelo Von Karajan. E as fanfarras continuam. Fanfarra atrás de fanfarra. Nem o Beethoven agüenta. O recém-chegado avista o Tom Jobim no meio da multidão agoniada e vai lhe pedir explicações. Por que os compositores não compõem coisas novas para as orquestras? É um protesto contra o quê? Tom explica:
- Os únicos instrumentos permitidos no céu são lira, harpa e trombeta.
- O quê?
- Pois é. Os primeiros músicos que morreram trouxeram as liras e as harpas. Depois ninguém pôde trazer mais nada.
- E os tocadores de trombeta?
- Estes entraram porque tinham pistolão.
- O anjo Gabriel...
- É. E ele ainda toca. De vez em quando dá uma canja com a turma. Mas também só sabe fanfarra.
- Quer dizer que nem um violãozinho?
- Nem um violãozinho. Eu ainda pedi para experimentar fazer uma bossinha, eu na lira, o Chet na trombeta e o Ciro Monteiro na caixinha de fósforo. Mas não deixaram. Só eles podem tocar.
- Os que vieram depois não podem tocar nada?
- Nada. Sabe como é: sindicato forte...
Mas pouco depois o recém-chegado cruzou com o Sibelius e o Carlos Gardel, que o convidaram para uma sessão clandestina. Numa boca do céu que nem Deus conhecia. O Charlie Parker ia tocar. Charlie Parker? Mas como...
- Ssshh. Ele conseguiu entrar com uma gaitinha de boca.
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7:36 PM by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
25/07/2004
O elogio da madrasta
Desfazer os mitos que cercam a figura tornou-se questão fundamental para sobrevivência da família
Em O Elogio da Madrasta, Mario Vargas Llosa nos fala das fantasias do jovem Fonchito em relação a Lucrecia, segunda esposa de seu pai, Don Rigoberto. O livro é, claro, uma gozação, mas provavelmente é a única obra na literatura mundial em que a palavra "madrasta" está associada à palavra "elogio".
Há cerca de 900 histórias sobre o tema da madrasta (Branca de Neve e Cinderela são as mais conhecidas) e todas elas seguem o mesmo paradigma: madrasta é uma figura sinistra, malvada. E não estamos falando de narrativas do passado: num filme de 1988, Minha Madrasta é uma ET, a madrasta (Kim Basinger) vem do espaço para seduzir um astrônomo (Dan Aykroyd) com o propósito de obter certos segredos sobre o cosmos.
Não precisaríamos ir à literatura ou ao cinema: o folclore sobre o tema é bem conhecido, como o são as usuais expressões. A vida lhe foi madrasta, dizemos de alguém que sofreu muito. Conclusão: o termo não goza de muito prestígio.
Curioso é que a imagem do padrasto não é tão ruim. Porque a substituição da mãe, figura psicologicamente poderosa, é que incomoda. Incomoda os filhos, naturalmente. Mas incomoda as madrastas. Que são cada vez mais freqüentes, sobretudo em função dos divórcios e separações: nos Estados Unidos, uma em cada quatro crianças tem uma madrasta. Desfazer os mitos que cercam a figura da madrasta tornou-se questão fundamental para a sobrevivência da própria família.
No penúltimo domingo, o jornal O Dia, do Rio de Janeiro, trouxe uma matéria interessante. Existe agora uma associação da madrastas, mulheres que se reúnem para discutir suas relações familiares. A iniciativa foi da arquiteta Roberta Palermo, que até criou um site especializado, www.madrasta.hpg.ig.com.br, que hoje conta com quase mil participantes no Brasil. As madrastas que se reúnem no Rio têm até uniforme: uma blusa com a inscrição "100% Madrastas". Ou seja: são pessoas que, em vez de sofrer em silêncio, resolveram enfrentar o problema da relação com enteados.
E existe, sim, o que fazer. Para começar, a mulher que está iniciando uma relação com um viúvo ou divorciado com filhos precisa saber o que vai encontrar. É bom saber tudo sobre essa família, inclusive e principalmente os problemas que enfrenta, e que daí em diante serão problemas da madrasta também. O relacionamento tem de ser feito num clima de respeito, de afeto - e de realismo: a madrasta está ocupando o lugar que pertenceu a uma outra pessoa, e isto precisa ficar claro para todos na família.
Para desempenhar este papel não há receitas específicas: cada caso é um caso. Mas uma coisa é certa: a relação entre marido e mulher é prioritária, é fundamental, e servirá como fator de estabilização. Também é importante que haja uma relação no mínimo sensata com a ex-esposa. Finalmente, é bom lembrar que há terapeutas especializados em ajudar famílias. Na dúvida, é melhor consultá-los.
Madrastas não precisam de elogios. Mas precisam de equilíbrio emocional. Como, aliás, qualquer outra pessoa.
scliar@zerohora.com.br
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7:34 PM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
25/07/2004
O fogo da música
Ainda hoje sinto a mesma ânsia de que era tomado quando menino: sair correndo atrás da banda que passava, acompanhá-la até que ela saísse de formação.
Ainda hoje sinto o mesmo impulso que me fazia acompanhar o corso de cordões carnavalescos, tanto no Carnaval do Partenon quanto no da Rua da Margem e às vezes até no da Borges de Medeiros, seguindo atrás das baterias e dos instrumentos de sopro até que deixassem de tocar e de dançar, lá adiante, longe dos coretos e do público assistente.
Desde criança, sempre fui atraído hipnoticamente pelo som das orquestras e bandas, não me satisfazendo em assistir a elas, mas acompanhando-as em seus percursos, no sonho impotente de integrá-las.
Noto agora que nunca deixei de parar como transeunte, desde criança até a maturidade, sempre que numa esquina ou calçada houvesse um músico solitário ou um grupo de músicos e cantores a tocar ou cantar para os passantes, na Rua Voluntários da Pátria ou em Paris.
Nas vagabundagens da minha meninice, me via atraído ao longe pelo som dos violões e dos cavaquinhos e lá ia eu "costeando os alambrados", a juntar-me embevecido aos grupos de músicos que se reuniam em torno das jurubebas, debaixo das bergamoteiras.
Desde a infância sempre me extasiei com o som melífluo dos banjos e dos bandolins e com o matraquear dos surdos, dos sopapos e dos tamborins.
E sempre fiquei absorto, contemplativo e impregnado de intensa emoção quando em qualquer lugar, nalgum canto de arrabalde, numa roda de samba de terreiro ou nos salões requintados alguém se punha a cantar, cercado de ajuntamentos participativos ou de inebriados auditórios.
Se há um momento em que me desligo de todas as preocupações é quando anunciam um coro ou orfeão. Para mim, talvez só a dança supere em poesia um conjunto de vozes afinadas desfiando harmonicamente os versos e notas musicais de uma canção folclórica ou de um hino.
E se me dominam assim os meus sentidos quaisquer manifestações melódicas ou rítmicas, a ponto de me fazerem ingressar num verdadeiro delírio hedônico quando espocam os primeiros acordes de uma orquestra ou os anúncios de uma escola de samba entrando na avenida, natural que, a exemplo de legiões de pessoas, a minha maior frustração foi sempre a de nunca ter estudado música e nunca ter tocado um instrumento.
Olho os músicos com o respeito reverencial que dedico aos médicos, como se eles fossem deuses, agentes da minha salvação.
Driblei sempre esta decepção de a vida ter-me privado do direito de ser músico com aventuras audaciosas em recitais em que me insinuei junto a cantores e cantoras, participando de seus shows.
Já cantei aqui e no Rio de Janeiro com Alcione, João Nogueira, Paulinho da Viola, Neguinho da Beija-Flor, Jamelão, Lupicínio Rodrigues e tantos outros.
A minha segunda grande façanha foi ter cantado numa edição do Jornal do Almoço com o grande e célebre Armando Manzanero ao piano, o minúsculo índio iucatenho, a composição de autoria dele que é considerada o maior bolero de todos os tempos: Contigo Aprendi.
Só superada por aquela noite em que, transido de nervosismo, com o Beira-Rio quase lotado, Julio Iglesias anunciou: "Que venga cantar comigo ahora mi amigo Paulo Sant'Ana".
Tanto Manzanero quanto Julio Iglesias estavam acolhendo por alguma forma humana e solidária, na carona da sua arte, o excitado menino do Partenon que se embarafustava todos os dias pelos quintais das cercanias para se deslumbrar com as sinfonias cativantes dos músicos e cantores arrabaldinos.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:32 PM by Cassiano Leonel Drum
História
Os novos imigrantes estão chegando
Depois de 180 anos, alemães repetem o caminho de seus antepassados e formam outra onda de migração. São pessoas como o aposentado Rudolf Milas, que trocou a Alemanha por amor a Ingrid Schlender, de Alecrim (foto Paulo Vilani, especial/ZH)
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2:42 PM by Cassiano Leonel Drum
Tales Alvarenga
Heróis no túmulo
"A maioria das pessoas consideradas heróicas matou ou foi morta. As sociedades aceitam e estimulam esse ritual"
O presidente Lula lançou na semana passada uma campanha para "resgatar a auto-estima do brasileiro". Segundo o presidente, o brasileiro não tem heróis, além de esportistas como Ayrton Senna ou Pelé. Lula acha que não é suficiente. "Em qualquer lugar do mundo a que vou, tenho de levar flores ao túmulo do herói nacional.
A gente não tem a figura que todo país do mundo tem." Ainda bem que é assim. O Brasil precisa de gente bem equipada em matéria de cérebro, imaginação, audácia e capacidade de liderança. O Brasil não precisa de heróis com túmulos floridos, como quer Lula.
O herói, de maneira geral, é uma figura simbólica, escalada para representar valores que inspirem a sociedade. No processo de criação de um herói, há uma dose alta de manipulação na qual a pessoa é aliviada das imperfeições humanas para funcionar como objeto de culto.
A maioria das pessoas consideradas heróicas matou ou foi morta. As sociedades aceitam e estimulam esse ritual. Do contrário, seria impossível convencer jovens a ir morrer em guerras, revoluções ou campanhas terroristas.
Entre os grupos radicais muçulmanos, Osama bin Laden e sua gangue dos 19 são heróis. Fora de seu círculo de admiradores, são assassinos. Os franceses ergueram um imponente mausoléu para Napoleão Bonaparte, seu herói. Pergunte a um russo, a um austríaco, a um alemão ou a um inglês o que acha de Bonaparte. Os ingleses preferem o duque de Wellington, que derrotou Napoleão na Batalha de Waterloo, em 1815.
O mausoléu de Napoleão em Paris só perde em exibicionismo mortuário para os túmulos de Vladimir Lenin e Mao Tsé-tung. Lenin e Mao tiveram o cadáver embalsamado e colocado em exposição pública dentro de urnas de cristal, como a Branca de Neve.
A múmia de Lenin foi para um subsolo da Praça Vermelha, em Moscou, e a de Mao, para um salão erguido na Praça da Paz Celestial, em Pequim. Esses dois cavalheiros, heróis do comunismo na União Soviética e na China, iniciaram em seus países regimes totalitários que fizeram milhões de vítimas.
As estátuas de Lenin foram derrubadas quando a União Soviética implodiu. Mao continua firme em seu pedestal na China, mas tem os dias contados como semideus. Obviamente, traços heróicos marcaram os grandes nomes da história, como Bonaparte, Mao e Lenin.
O que se procura aqui não é negar as qualidades que esses homens tiveram em vida. É simplesmente mostrar que esse negócio de herói é muito relativo. Os heróis costumam perder substância quando despojados da mitologia que os cerca.
Duvido que Lula tenha sido convidado a depositar flores em monumentos erguidos para celebrar gênios da arte, da ciência, grandes pensadores ou estadistas brilhantes que nunca estiveram metidos numa guerra. Estas são grandezas que deveriam ser celebradas.
Outra é aquela que algumas pessoas encarnam no cotidiano, sem espalhafato. Se você comparece a uma creche toda semana para cuidar de crianças abandonadas ou se vai a um asilo para trocar fraldas de velhos, sem remuneração nem glória pública, você também é um herói. Pelo menos, o meu herói.
E meu também
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9:28 AM by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
Perde Brasil
"Usar dinheiro público para patrocinar o time de voleibol a gente engole. Para patrocinar a torcida é demais. O Banco do Brasil irá gastar 9,5 milhões de reais para patrocinar a torcida brasileira nas Olimpíadas. O jeito é torcer contra nossos atletas"
O time de voleibol do Brasil acaba de conquistar a Liga Mundial. As finais foram em Roma. Os torcedores brasileiros ocupavam um setor inteiro das arquibancadas. Vestiam camiseta amarela, com a marca do Banco do Brasil.
Usar dinheiro público para patrocinar o time de voleibol a gente engole. Usá-lo para patrocinar a torcida é demais. O departamento de marketing do Banco do Brasil irá gastar 9,5 milhões de reais para patrocinar a torcida brasileira nas Olimpíadas de Atenas. O mote da campanha é Brilha Brasil. O jeito é torcer contra nossos atletas. Perde, Brasil.
Além de patrocinar a torcida do time de voleibol, o Banco do Brasil está patrocinando a torcida pela reeleição de Lula. Dois dos maiores dirigentes do banco, Henrique Pizzolato e Ivan Guimarães, trabalharam na última campanha presidencial lulista, respectivamente como arrecadador de fundos e coordenador financeiro.
Pizzolato foi premiado com o cargo de diretor de marketing do banco e é responsável pela campanha Brilha Brasil. Guimarães tornou-se presidente do Banco Popular do Brasil e é acusado de ter defendido o patrocínio de 5 milhões de reais aos cabos eleitorais petistas Zezé di Camargo e Luciano. O Banco do Brasil gastou 70.000 reais nos espetáculos em que a dupla sertaneja arrecadou fundos para a construção da nova sede do PT.
Pizzolato e Guimarães são ligados à CUT, que tem contado com o patrocínio do Banco do Brasil em seus principais eventos, como a festa de vinte anos e o oitavo congresso nacional. Lula é a grande atração da TV CUT, programa semanal feito pelos mesmos publicitários que administram a conta de propaganda do Banco do Brasil. Uma conta que vale 142 milhões de reais anuais.
Quem cuidou do dinheiro de Lula na campanha eleitoral agora cuida de nosso dinheiro no Banco do Brasil. Quem cuidou de sua segurança agora cuida de nossa segurança. Um dos guarda-costas de Lula, Francisco Baltazar da Silva, foi nomeado superintendente da Polícia Federal de São Paulo. Atualmente, está sendo investigado pela compra de 134 600 dólares através do doleiro Toninho da Barcelona. Outro guarda-costas de Lula, Mauro Marcelo de Lima, ganhou a função de diretor-geral da Abin, nosso serviço de espionagem.
Entre suas credenciais, há um curso de dublagem e uma ponta numa telenovela de 1982, Elas por Elas. Agente secreto com pendores artísticos é sempre uma temeridade. Em seu discurso de posse, algumas semanas atrás, Mauro Marcelo admitiu estar na "torcida por um bis" presidencial de Lula. O serviço de espionagem dos Estados Unidos, no passado, também torceu pela reeleição de um presidente. O resultado foi Watergate.
As campanhas pelo time de voleibol e pelo bis de Lula só perdem para a campanha pelo desarmamento. O sofisma é o seguinte: o cidadão corre mais riscos com uma arma na mão do que sem ela. O que se pretende demonstrar é que a responsabilidade pelo crime é nossa, não do poder público.
Se os guarda-costas de Lula não sabem defender a população, então não podem impedi-la de tentar se defender por conta própria, mesmo que de maneira desastrada. Bem mais honesto do que desarmar o cidadão com falsos argumentos seria oferecer-lhe um curso de tiro e defesa pessoal. Todo mundo com uma arma no coldre e andando a cavalo. Perde, Brasil.
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9:14 AM by Cassiano Leonel Drum
Ponto de vista: Lya Luft
Falta alegria em nossas vidas
"Erico Verissimo, velho amigo amado, uma de minhas mais duras perdas, me disse quando eu era muito jovem: 'Lya, em certos momentos o que nos salva nem é o amor, é o humor'"
Meu Deus, como andamos chatos, dei-me conta outro dia.
Não paramos de reclamar. Muitas vezes com razão: os impostos, o custo de vida, o desemprego, a violência, a prolongada adolescência dos filhos, a súbita falsidade de alguém em quem confiávamos tanto, a velhice complicada dos pais, a pouca autoridade das autoridades, a nossa própria indecisão. As rápidas mudanças na sociedade, alguns ainda tentando arrastar o cadáver dos valores que precisam ser mudados, outros tentando impor a anarquia quando a gente devia era renovar, não bagunçar.
Pensei que uma das coisas que andam ficando raras é a alegria, e comentei isso. Alguém arqueou uma sobrancelha:
Alegria? A palavra está até com cheiro de mofo... Tanta coisa grave acontecendo, tanta tragédia, e você fala em alegria?
Ilustração Ale Setti
Pois comecei a me entusiasmar com a idéia, e provocativamente fui contando nos dedos os motivos que deveriam levar a que o grupo se alegrasse: a lareira crepitava na noite fria, uma amizade generosa circulava entre nós, três bebês dormiam ali perto, na sala ao lado, ouviam-se risadas e, apesar de sermos na pequena roda mais ou menos calejados pelas perdas da vida, tínhamos os nossos ganhos em experiência, amores, conhecimento, esperança.
Nenhum de nós desistira da jornada. Nenhum de nós era um malfeitor, um ser humano desprezível, ao contrário: a gente estava na luta, tentando ser decente, tentando superar os próprios limites.
Havia marcas da passagem do tempo em todos os rostos: ninguém se fizera deformar pelo fanatismo da juventude eterna, mas todos se gostavam o suficiente para não se deixar cair feito um trapo velho.
Olhei em torno e gostei de nós: ali se viam belos cabelos pintados e belos cabelos brancos, rostos interessantes que tinham visto muita coisa, bocas marcadas que haviam dado muitas risadas e pronunciado palavras amorosas, mas também falado coisas duras, silenciado quem sabe ternuras difíceis, ocultado queixas que deveriam ter sido lançadas.
Mãos que tinham segurado bebês, conduzido crianças, confortado adolescentes, cuidado de velhos doentes, fechado pálpebras, dirigido automóveis, segurado ombros, fendido ondas, tapado o rosto em pranto solitário quantas vezes?
Éramos tão humanos, tão desvalidos e tão guerreiros, o pequeno grupo de amigos diante de uma lareira na noite fria, como centenas, milhares de outros, homens, mulheres, crianças, entre os dois mistérios do nascer e do morrer.
Repeti a minha pequena heresia:
Eu acho que uma das coisas que andam faltando, além de emprego, decência e tanta coisa mais, é alegria. A gente se diverte pouco. Andamos com pouco bom humor.
Erico Verissimo, velho amigo amado, uma de minhas mais duras perdas, me disse quando eu era muito jovem: "Lya, em certos momentos o que nos salva nem é o amor, é o humor".
Um riso bom ou um sorriso terno em meio a toda a crueldade, falsidade, hipocrisia, violência de acusações abjetas, de calúnias vis, de corrupção escandalosa, de desagregação familiar melancólica, de mentira secreta e venenosa podem nos confortar e devolver a esperança.
Lya Luft é escritora
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9:02 AM by Cassiano Leonel Drum
Marketing no cardápio atrai cliente
Livro prova que só propaganda boca-a-boca não é suficiente para bares e restaurantes
Silvana Caminiti
Lançado pela Editora Senac, o livro Marketing para Bares e Restaurantes, do empresário e advogado Percival Maricato, contesta mitos como o de que a propaganda boca-a-boca é a melhor forma de divulgação e de que o marketing é acessível apenas a grandes estabelecimentos. No setor há 30 anos, Maricato dá algumas dicas importantes:
Investimento mínimo: bar simples, R$ 25 mil; restaurante simples, R$ 35 mil.
Margem de Lucro: 15%, quando o negócio vai bem.
Marketing: investimento de 3 % do faturamento.
Pesquisa de mercado: aponta se há receptividade para o negócio e o perfil dos clientes em potencial.
Retorno do investimento: um ano, para bares e restaurantes que fazem muito sucesso; dois anos, para os que obtêm bom resultado.
Cardápio: enxutos, os muito variados exigem estoques abarrotados.
Facilidades: tíquetes, cartões de crédito e de débito e cheques representam 70% do faturamento, portanto, deve-se oferecer facilidades nos meios de pagamento.
No Rio, um dos estabelecimentos que Maricato considera exemplo de sucesso é o restaurante Casa da Feijoada, em Ipanema. Quando o empresário Leonardo Braga abriu a casa, disseram que o negócio não daria certo, porque a feijoada é considerada um prato pesado. Temia-se que a casa ficasse vazia durante a semana, com público apenas aos sábados, lembra Maricato.
No entanto, como aponta Maricato, o resultado foi outro. O empresário soube montar uma estratégia de marketing voltada tanto para cariocas, quanto para turistas. Ele também divulgou a casa em hotéis, protegeu a casa com seguranças e prontificou-se a receber caravanas de turistas, além de criar a feijoada delivery. Resultado: um negócio bem-sucedido, diz o escritor.
Casa da Feijoada: (21) 2247-2776
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8:56 AM by Cassiano Leonel Drum
Ai, ela está descontrolada
Nalva de Tânia Kalil bebe demais e fala na frente de todo mundo que deseja o cunhado Viriato
Marcelle Carvalho
Desde que Nalva (Tânia Kalil) confessou a Viriato (Marcello Antony) que é apaixonada por ele, a moça não consegue mais segurar seus impulsos, em Senhora do Destino. Não satisfeita em agarrar o cunhado em plena praça pública, tendo como testemunhas Plínio (Dado Dolabella) e Sebastião (Nelson Xavier), a moça vai aprontar mais uma movida pelo calor da paixão, em cena que deverá ir ao ar daqui a três semanas.
Dessa vez a cena constrangedora será no dia do aniversário de Nalva, comemorado na quadra da escola de samba Unidos de Vila São Miguel, da qual é destaque. Ela bebe e quando Viriato vai abraçá-la para dar os parabéns, Nalva ataca o cunhado e diz tudo que sente por ele na frente de toda a família, adianta Aguinaldo.
A atitude de Nalva vai cair como uma bomba na família. Vai ser um escândalo. E ela não vai mais ficar à vontade perante todos que estavam na quadra. Como a situação ficará insustentável, Giovanni (José Wilker), que é presidente da escola de samba, vai conseguir um contrato para ela fazer shows com outras passistas na Itália, avisa o autor.
O curioso é que tal situação saia-justa não é somente fruto da imaginação do autor. Aguinaldo comenta que o triângulo amoroso entre Leandro (Leonardo Vieira), Nalva e Viriato foi retirado da vida real, de parentes de um antigo amigo dele. Eu vi esse triângulo acontecer, na época em que ia a Caxias visitar um amigo. A família dele era grande, sempre tinha um aniversário e, num desses, o inesperado aconteceu. A mulher disse que frente de todo mundo que tinha vontade de agarrar o cunhado, que não agüentava mais fingir que não sentia nada por ele, relata.
Na vida real, Aguinaldo conta que os cunhados acabaram se casando. Mas que na ficção, as coisas não devem seguir esse caminho. Viriato é apaixonado por Maria Eduarda (Débora Falabella), é o amor Romeu e Julieta da novela, porque são separados pela impossibilidade de haver uma relação entre as duas famílias no caso por causa do nível social entre elas, diz Aguinaldo, deixando os fãs do casal mais aliviados
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8:45 AM by Cassiano Leonel Drum
Bonequinha de luxo
O figurino de Débora Falabella, a Duda de Senhora do Destino, é só doçura
Márcia Disitzer e Mariana Salim
Sílvia de Souza e as figurinistas Beth Filipecki e Regina Carvalho
O figurino de Duda, personagem de Débora Falabella na novela Senhora do Destino, tem chamado a atenção de quem gosta de moda. Inspirado na fada Sininho, com um quê de Audrey Hepburn, as peças usadas pela atriz na televisão já caíram no gosto popular. Os telefones da central de atendimento não param de tocar. Todo mundo quer saber de onde é a borboleta que ela usa no cabelo e a blusa transparente da abertura. E todas as grifes querem vesti-la, conta, orgulhosa, a figurinista da novela, Beth Filipecki.
Sobreposição de camisetas da loja Tempo 4, jeans Mara Mac e bolsa de vime acervo da figurinista
A imagem visual de Duda foi concebida por Beth com a assessoria da consultora de estilo Sílvia de Souza, que imprime nos personagens tendências do universo da moda. As roupas da personagem foram aprovadas com louvor pela atriz. Tenho me policiado para não sair vestida de Duda, diverte-se.O figurino mistura peças com memória, como as de brechó, com outras cheias de modernidade. Como ela é a Sininho, colocamos no cabelo prendedores em forma de borboleta e flor, explica Beth. E as roupas encaixaram com a Débora, que tem frescor e um lado muito romântico, emenda a figurinista.
Blusa Agilitá, saia acervo e bolsa Osklen
No guarda-roupa de Duda, um mix típico das meninas contemporâneas. Tem peças da Maria Bonita Extra, Osklen e Mr. Cat; outras foram compradas em Paris e muitos acessórios de marcas supernovas, como a borboleta do cabelo que é da Mugia. Já a blusa da abertura é de brechó, continua Beth. Segundo Sílvia de Souza, Duda antecipa o que será moda no verão 2005. Ela usa o revival dos anos 50 e investe em roupas com toque romântico. São saias rodadas, blusas delicadas e escarpins, exemplifica Sílvia, que elogia a elegância da atriz: É a própria Audrey Hepburn.
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8:39 AM by Cassiano Leonel Drum
Cláudia Laitano
24/07/2004
Com outros olhos
Uma das experiências mais geniais quando a gente convive com crianças é assistir ao exato instante em que elas aprendem alguma coisa nova. Se você parar e prestar atenção, quase dá para ouvir o barulho do cérebro se ajeitando para receber a informação recém-chegada. O olhar pára, ainda desconfiado, o sorriso se ilumina.
Enquanto isso, em algum canto desconhecido daquela inteligência absolutamente insaciável, velhas hipóteses são descartadas e outras tantas começam a surgir, apontando para direções imprevisíveis, sempre um pouco mais adiante, ao infinito e além. Um pequeno passo para a humanidade, um grande passo para um homenzinho.
Christopher Boone, narrador de O Estranho Caso do Cachorro Morto (Record, 287 páginas, R$ 34,90), livro do escritor inglês Mark Haddon que se transformou em fenômeno editorial na Inglaterra e nos Estados Unidos no ano passado, não é um menino comum. Na verdade, ele já tem 15 anos, mas a maneira como ele conta sua história obriga os adultos a verem a realidade com os olhos de quem ainda não domina totalmente as regras a que o mundo dos adultos obedece.
Gênio da matemática (sabe de cor todos os números primos até 7.507), Christopher sofre da Síndrome de Asperger, um tipo de autismo que o torna incapaz de mentir, de entender metáforas ou de decifrar emoções. Ele é um estrangeiro num ambiente hostil e caótico - o dia-a-dia comum. Sua única arma é a lógica, que se revela uma espadinha de madeira quando o assunto são as relações humanas.
O fascinante nesse livro - um tanto sombrio demais para ser classificado imediatamente como infanto-juvenil, mas diversão garantida para adultos de todas as idades - é exatamente o contraste da lógica muito peculiar do narrador com a mixórdia em torno dele: pais que seguram a barra de ter um filho autista, traições, mentiras, pequenas vilanias.
Sem estragar a surpresa do livro, dá para adiantar que Christopher se sai muito bem na tarefa de sobreviver a toda essa confusão com as poucas armas de que dispõe. O narrador que não entende emoções comove todos os leitores que um dia foram crianças.
claudia.laitano@zerohora.com.br
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8:37 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
24/07/2004
Ensarilhar armas!
É inacreditável, mas duas pessoas compareceram anteontem à Polícia Federal, no Rio de Janeiro e na Paraíba, fazendo entrega de duas granadas, uma cada uma, às autoridades.
Esta campanha pelo desarmamento tabelou como preço de indenização por cada granada entregue R$ 300, valor igual ao pago por um fuzil e superior aos R$ 200 por carabinas e rifles e os R$ 100 que são pagos a quem entregar um revólver.
A portaria que rege a entrega dessas armas é taxativa num ponto: as autoridades não podem interrogar as pessoas que entregam suas armas, que têm o direito de manter em sigilo a sua origem.
Mas suscita curiosidade o fato de um cidadão ter em sua residência uma granada de uso exclusivo das Forças Armadas. Essa granada entregue no Rio de Janeiro estava em razoável estado de conservação e com o pino intacto.
Eu fico a pensar nos motivos que estão levando as pessoas a entregar seus armamentos à polícia, já tendo sido arroladas mais de 6 mil armas levadas às autoridades de maneira espontânea.
Será a dificuldade econômica o que as leva a faturar centenas de reais que podem tirá-las de alguma dificuldade financeira?
Não creio que seja só isso, essa campanha do desarmamento despertou um certo ardor cívico nas pessoas, que parecem se nutrir da esperança de que, sendo desarmados os cidadãos, será atenuado o nível assustador da criminalidade que grassa no país.
A idéia de recolher as armas pagando indenização por elas saiu de uma mente privilegiada.
Calcula o Ministério da Justiça que até o fim do ano devem ser arrecadadas de 150 mil a 200 mil armas.
Ontem à tarde, houve a arrecadação mais retumbante: a filha de um colecionador entregou à polícia 1,3 mil armas, entre revólveres, pistolas, morteiros, granadas, bazucas e explosivos.
Receberá por esse lote, que teve de ser carregado num caminhão, a importância de R$ 200 mil. Sensacional!
E a ordem na Polícia Federal é não fazer qualquer pergunta às pessoas que entregam as armas, esta discrição é o penhor para o sucesso da campanha: se as pessoas fossem obrigadas a se explicar sobre a origem das armas, isso as inibiria e as armas iriam permanecer em perigosa clandestinidade.
Seria arriscado prever que a maioria das armas em poder dos cidadãos não será entregue? Talvez. Mas esta anistia que o governo concedeu a quem portar armas, estimulando ainda a sua entrega pela indenização em dinheiro, revela um entusiasmante espírito de civilidade entre a população.
Estabeleceu-se uma relação de confiança entre o governo e seus governados. E o comovente é que essas pessoas que estão entregando suas armas são gente de bem, que, afora os colecionadores, mantinham armas em suas casas com a intenção de defender-se de agressões.
A cidadania está cumprindo com o seu dever, desarmando-se. Cabe agora aos governos retribuir este desprendimento ao aperfeiçoarem-se no combate ao crime e na proteção dos desarmados.
É indispensável que ninguém no futuro venha a arrepender-se de entregar a sua arma.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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8:34 AM by Cassiano Leonel Drum
Violência
Menino morre na Guerra da Cruzeiro
Para participar de congresso mundial de educação, Lula fez rápida visita a Porto Alegre, pronunciou um discurso sem metáforas e prometeu um sistema informatizado para controlar a freqüência nas escolas brasileiras (foto Júlio Cordeiro/ZH)
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Sexta-feira, Julho 23, 2004
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9:54 PM by Cassiano Leonel Drum
23/07/2004 - 17h27m
Globo Online
Atriz faz a linha reservada e revela que desejava ser palhaça quando era criança
RIO - A novata Gisele já é da turma que fala de trabalho numa boa mas fica tensa quando o assunto é vida pessoal.
- O que me assusta é essa exposição exagerada que muitos atores escolhem. Eu faço novela, mas a minha vida não é uma novela. Existem atores consagrados que não saem por aí divulgando tudo sobre suas vidas. Gostaria que o público sonhasse com a vida da minha personagem, não com a minha vida fora da TV - alfineta ela, admitindo estar mais solteira do que nunca.
- Faz um tempo que estou solteira, mas neste momento é melhor assim. Sou uma pessoa que gosta de namorar e de ter alguém para dividir o cotidiano. Agora prefiro me voltar somente para o trabalho.
Aos 22 anos, Gisele admite que gosta de fazer programas normais de jovens de sua idade.
- Adoro ficar trancada no quarto vendo DVDs. Mas também curto sair para dançar com as minhas amigas, aliás, vou fazer isso hoje! - conta a atriz, que antes de seguir a carreira artística emprestou sua beleza a editorias de modas e desfiles. E, mais cedo ainda, tinha o sonho de ser palhaça.
- Lembro que nos carnavais da minha infância eu me vestia de palhaça, pegava qualquer livro e começava a ler trechos para os meus pais. E era uma menina muito curiosa, adorava ler tudo, de bula de remédio a outdoors - finaliza.
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9:41 PM by Cassiano Leonel Drum
Rio, Versão impressa
Homens rústicos que choram por amor
Simone Mousse
O sucesso que Malvino Salvador e Eriberto Leão vêm fazendo como os peões tudo-de-bom de Cabocla, segundo eles, tem uma explicação: são machões e frágeis ao mesmo tempo. Capazes de matar aqui e chorar de amor ali. Um tipo que agrada. Falante e extrovertido, Malvino, o Tobias, conta que já sofreu, e muito, por amor. Eriberto, o Tomé, mais contido, também confessa: aos 16 anos uma menina partiu seu coração. Mas levantaram poeira e hoje as fãs é que estão com os corações partidos.
A virilidade dos dois, por serem do campo, algo bem brasileiro, agrada. Está no inconsciente coletivo do povo arrisca Malvino. Nossa amizade também transparece. Ficamos amigos no dia em que fizemos o teste.
O sucesso vem dessa mistura da rudeza com a sensibilidade. O lado feminino em um homem é importante opina Eriberto.
Tobias e Tomé são dois rejeitados, qualquer mulher tem vontade de levá-los para casa. Mas sofrer por uma paixão não-correspondida não é privilégio somente dos personagens. Homem que é homem... fica deprimido quando leva um fora!
Na última vez que eu sofri muito por amor, muito mesmo, perdi três quilos. A menina me deixou mal. Mas foi só uma semana! Se eu fosse o Tobias não ficaria correndo atrás da Zuca ( Vanessa Giácomo ) assim garante Malvino.
Claro, já estaria atrás da Mariquinha ( Carolina Kasting ) brinca Eriberto.
Pegando o gancho, quando o comentário é Bem que Tobias já deu uns beijos na Mariquinha mesmo..., a resposta de Malvino é titubeante:
Desde o começo ele dá mole para ela. Não que fosse trair Zuca ou que seja safado. É que...
Ele é homem! emenda Eriberto.
Machismos e risadas (muitas, aliás) à parte, é bom saber que Eriberto, depois de seu momento desembaraçado, acaba confessando:
Minha primeira namorada me trocou por outro. Também perdi peso, fiquei mal por mais de uma semana, achava que nunca mais seria feliz. Vamos sempre sofrer por amor, mas a felicidade não está no outro, e sim em nós. Se o outro não quer participar disso, paciência. Fechamos o canal até a hora que aparecer alguém que possa sintonizar conosco. Este lado racional me ajuda a lidar com os problemas de amor.
Os dois acham que não são tão machistas, só um pouquinho. Coisas da sociedade. Eriberto, por exemplo, diz que compreende melhor a traição masculina do que a feminina.
É algo que tenho que trabalhar em mim, porque sei que é uma bobagem explica. Eu perdoaria uma traição. Mas não porque sou bonzinho, e sim porque aí eu me livro de sentimentos negativos que vão me prejudicar.
Já Malvino tem outra teoria:
Homens e mulheres deveriam ser mais verdadeiros, ir de cabeça nas relações. Quando eu me apaixono é para valer. Tem muita gente que gosta de fazer joguinhos. Isso é influência das revistas femininas, que dizem: Faça isso ou aquilo que ele vai cair aos seus pés. Mata a espontaneidade!
Eriberto complementa:
A liberdade sexual e intelectual da mulher é recente. O feminismo bateu num extremo em que a mulher passou a ser um pouco masculina em suas atitudes. Passou a fazer o que antes criticava. É por isso que hoje é comum ficarem com vários caras.
A fidelidade é sagrada para a dupla. É a palavra-chave de um relacionamento.
Eu já traí e me arrependo. Eu era mais jovem e foi por pura insegurança conta Malvino. É claro que vai sempre ter uma mulher bonita para olhar, mas dá para ser fiel. É fácil.
É uma opção. Ou você cai para o lado animal e passa a ser guiado pelos seus instintos mais primitivos ou você vai ponderar e raciocinar se vale a pena diz Eriberto.
Para ambos, o machismo está com seus dias contados. E o discurso prova isso. Garantem que homem que diz que não chora está mentindo.
No silêncio do quarto eles estão chorando, com certeza diz Eriberto.
Eu choro até no cinema admite Malvino. Outro dia fui assistir a um filme chamado Peixe grande, que fala de relação entre pais e filhos. Comecei a chorar e, quando acabou, eu fiquei com vergonha porque sabia que meus olhos estavam inchados. Pensei: Como eu vou fazer para sair daqui? Tamanho marmanjo, barbudo, 28 anos na cara... Como vai ser?
O papo está muito bom, mas e o trabalho? Cabocla é a estréia do manauara Malvino na TV. Eriberto já esteve em outras novelas, como O amor está no ar (1997). Os atores, que sempre foram urbanos, estão totalmente peões. Montam a cavalo como ninguém, enrolam um cigarro de palha e laçam bois como quem anda de bicicleta. Eriberto está tão apaixonado pela vida no campo que vendeu a moto, uma paixão, e pensa em comprar o cavalo de seu personagem.
Meu pai tinha uma fazenda, mas eu gostava mesmo de fazer trilha de moto. Sou urbano. Mas sou mais ligado à natureza do que eu pensava, e a novela me ajudou a perceber isso. Estamos sempre com o pé na terra explica Eriberto.
Antes da novela, o contato de Malvino com o campo era nos fins de ano, na casa dos avós.
Meu pai fala sô até hoje. Mas eu morria de medo de montar, era meio traumatizado.
O assédio, por enquanto, é controlável. Mas uma vez, durante um jogo de futebol beneficente, os seguranças precisaram agir.
Se eles não estivessem ali ia ter camisa rasgada lembra Eriberto.
Zuca e Tina que se cuidem.
Um ótimo fim de semana se Deus quiser.
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9:25 PM by Cassiano Leonel Drum
Tribos
Torre de babel
É cada vez mais difícil entrar em acordo numa sociedade que mistura tantas gírias. Surfistas, skatistas, rappers, economistas, cada grupo tem seu dialeto
Thiago Asmar
"Vou te mandar um papo reto. Quando o swell entrar, eu vou dropar mesmo se tiver crowd. Vai ser um tylon arrepiante, tá ligado? Para entender um filho que abusa de expressões como estas, o pai ou a mãe devem ser surfistas, skatistas e rappers. Até amigos da mesma faixa etária ficam sem entender uns aos outros. Diálogos entre integrantes de tribos diferentes tornam-se, muitas vezes, verdadeiros desafios. Enquanto o skatista diz que uma manobra foi pegada, o surfista fala que foi o bicho e o rapper acha responsa. O leigo, quando consegue, entende como radical.
As gírias sempre foram comuns entre jovens, mas nunca estiveram tão fatiadas e inacessíveis aos menos enturmados. Para complicar, os socioletos dialetos praticados por grupos específicos invadem o mundo digital e confundem, por exemplo, a vida de quem tenta investigar o correio eletrônico dos filhos. Um pai dificilmente saberia o que pensar ao se deparar com a seguinte frase: Ko é kr, vou lá no fds, cm smp, vlw? A mãe da estudante carioca Lívia Gomes Silvestre, 17 anos, certamente precisaria que a filha traduzisse: Qual é cara, vou lá no fim de semana, como sempre, valeu?
Lanzillotti acha que foi desquali-ficado em entrevistas de emprego por usar termos do hip hop
O linguista Ricardo Salles explica o uso de socioletos como um código de identificação dos grupos. Algumas tribos usam uma linguagem própria como uma espécie de carteira de identidade. Um surfista não precisa dizer que pega onda. O modo de falar o identifica, diz. Ao contrário da língua, os socioletos são excludentes.
Quem não fala daquela forma está fora da galera, completa Salles. Para o estudante de direito Paulo Alberto Galarti, 22 anos, surfista há quatro, as gírias são indispensáveis para a prática do esporte. Sem sabê-las, como vou entender a rapaziada e a previsão das ondas na internet? O chato é quando algum amigo não entende o que eu falo. Tem gente que debocha e pede para eu apertar a tecla SAP, brinca. Galarti gaba-se de conquistar muitas garotas as denominadas Marias-Parafinas com seu jeito de falar, mas lembra que já levou um fora pelo mesmo motivo. Ela era supercareta e disse que não tinha como me entender, conta.
Sem perceber, o surfista já usou gírias em momentos inadequados. Procuro me controlar, mas já dei uns vacilos. Uma vez, disse para minha chefe que o 1º Juizado Especial Cível estava crowdiado e ela não entendeu nada, conta. O colega de esporte Flávio Padaratz, que já foi convidado a ministrar palestras sobre como falar em público, dá a dica: Não é ruim se expressar como o resto do grupo. O errado é não se policiar quando deve.
Os skatistas também têm seu dialeto. Palavras como tylon e bazon são alguns dos termos incompreensíveis. Em diversas entrevistas, eu nem sabia explicar o significado das coisas que havia falado e o repórter ficava sem entender nada, conta o paulista Sandro Dias, 29 anos, campeão mundial de skate vertical em 2003 e conhecido como Mineirinho. Até sua mãe entrou na onda. Ela passou 40 dias comigo na Califórnia e pegou o hábito de falar certas gírias.
Ela sempre me pergunta, por exemplo, se vou fazer uma sessão, ou seja, se vou andar de skate. Eu morro de rir, diz. Sempre na turma do fundo da sala de aula, Sandro era figura carimbada na coordenação da escola e entrava em apuros na hora de se explicar: Eu tentava me redimir e acabava me complicando ainda mais, lembra.
Às vezes, o uso de socioletos chega a despertar preconceito. Quem vê de fora acha ruim. Quem pratica acaba atuando em defesa da própria linguagem. Enquanto divulga a realidade das favelas, os rappers, por exemplo, propagam também seu jeito de falar. O empresário Leonardo Lanzillotti, 23 anos, foi conquistado.
Aprendeu a gostar de hip hop e, claro, a usar seu linguajar. Escuto rap e leio sobre o assunto há algum tempo. Passei a conviver com pessoas que curtem e fui me acostumando, diz. Leonardo já pagou caro por falar tanta gíria. Não me controlava nem em entrevistas de trabalho. Acredito já ter sido desqualificado em umas três por falar informalmente, diz. Afinal, são poucos os clientes capazes de entender expressões como pá e papo reto.
Nas entrevistas de recrutamento, gírias e até mesmo palavrões viraram elementos corriqueiros. Para a maioria dos profissionais de recursos humanos, são indicativos de que o candidato ainda não está preparado para assumir as responsabilidades do mundo do trabalho. Entrevistei um rapaz que aspirava a uma vaga de representante comercial. Criatividade e iniciativa eram características marcantes de sua personalidade, mas, quando abria a boca, parecia se comunicar por meio de um dialeto.
Foi eliminado na hora, lembra Ana Lúcia Corrêa Pires, uma das gerentes do grupo Catho Consultoria de RH. Em outros grupos, é a própria profissão que impõe o vocabulário. Bater um papo em uma mesa de economistas ou de médicos não costuma ser uma experiência agradável para quem não é do ramo. Quanto maior a habilidade para lidar com o socioleto, melhor. O estudante de economia Felipe Gazal sentiu a saia-justa no início da faculdade.
No meu primeiro dia de aula ouvi um professor falando com um aluno mais adiantado. Era um tal de joint-venture pra cá, de viés pra lá, de break-even pra acolá. Não entendi nada, lembra. Hoje, mais estudado, ele domina os antigos enigmas. O dicionário já pode voltar para a gaveta.
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8:02 AM by Cassiano Leonel Drum
Torcida organizada Júlio César
À distância, família sofre e vibra com as defesas do goleiro da Seleção, que na infância usava meias nas mãos quando ainda não podia ter luvas
Marluci Martins
A família que torce unida: o pai Jênis, a mãe Fátima, o irmão Júnior e a cunhada Carla, com o sobrinho Roger Fellipo. Cauet veste a camisa 12 que o pai usou na primeira convocação à Seleção
As luvas que, hoje, cobrem as mãos tratadas semanalmente num salão de beleza da Barra da Tijuca eram, na infância, o maior sonho de consumo de Júlio César. Mesmo na falta delas, o menino insistia em dar chance ao destino: enquanto o pai, Jênis, não providenciava a compra, as mãos, ainda pequenas, vestiam um par de meias nas peladas no bairro da Penha.
As mãos de Júlio César cresceram tanto que não cabem mais nas meias. Cresceram tanto que defenderam o pênalti do uruguaio Sanchez, garantindo o Brasil na final da Copa América.
Chorei tanto, que nem ouvi quando ele, na entrevista, mandou um beijo para mim, disse a mãe, Fátima, torcedora, brasileira e sofredora.
O irmão Júnior, 26 anos, quer mais. Espera que o coração dispare como nunca, na decisão. E avisa: vai rolar um churrascão na cobertura da família. Comida e visibilidade garantidas: a televisão tem 65 polegadas.
Meu irmão já disputou sete partidas decisivas que terminaram em pênaltis. Em todas, pegou pelo menos um. Quer saber? Estou torcendo para o jogo ser decidido nos pênaltis, afirmou Júnior, corretor de imóveis formado em Fisioterapia, que gosta mesmo é de aventuras.
Então, sabe-se a quem Júlio César puxou. Aventureiro, o rapaz matava as aulas do Colégio Estadual Madri, quando já havia trocado a Penha pelo Grajaú. Com Júnior e o outro irmão, Espíndola jogador do Joinville , vivia no Grajaú Country. O tricolor Roger era um fiel companheiro de bola e notas ruins.
O Roger acabou sendo reprovado. Estava sempre na nossa casa, lembrou o pai, Jênis, que cansou de fingir não saber das matadas de aula de Júlio César.
Apaixonado por futebol, Júlio César deve a seu Jênis a perfeita forma de suas mãos. Assim como as unhas tratadas pelas manicures do salão Bahut ou do Werner , todos os dedos estão no lugar. Mas foi por pouco...
Uma vez, ele luxou o dedo mínimo. Tinha 10 anos. Levei-o a um médico, que botou o dedo no lugar. Fez plec. Em três dias, ele voltou a treinar, lembrou o zeloso pai.
Zeloso, mas exigente: Ele falhou no gol do Uruguai.
Mas ele tem crédito, interrompeu o irmão, sonhando com a perigosa disputa de pênaltis no domingo, que pode aumentar ainda mais a dívida da agradecida torcida brasileira.
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7:56 AM by Cassiano Leonel Drum
Bons tempos de volta
Show-tributo a Cazuza no Circo Voador, festa nova no Ateliê Belmonte e o recém-inaugurado Odisséia. Os fins de semana na Lapa prometem
Eusébio Galvão, Flávia Motta e Tatiana Contreiras
Foi-se o tempo do Circo Voador mambembe. A versão século 21, que abre hoje, tem lona de última geração
A boa é a Lapa. Cada vez mais. O Circo Voador volta hoje e novos lugares reforçam o time dos boêmios cariocas. Tem pra todo mundo, de samba a rock, passando por forró e churrasquinho de gato na calçada. O ecletismo já é evidente no Circo. Hoje tem a banda de metal Krisium; amanhã show-tributo a Cazuza com Lobão, Jorge Israel e outros; e domingo a Orquestra Tabaraja. Acho que o Circo vai ser a âncora disso tudo, diz Alexandre Rossi, um dos produtores da lona.
Quando eu era público e ia pra lá, sempre pensava que alguém podia ocupar aqueles casarões de pé direito alto e fazer coisas bacanas ali, lembra. Agora, resolveram fazer. Do lado do Circo abriu o teatro Odisséia, que é maneiríssimo. A gente vive nos shows lá. A Fundição, atrás de nós, tem vários shows bacanas. E aquela praça dos Arcos é muito legal, empolga-se.
A novidade que empolga Rossi existe há um mês. O Teatro Odisséia resume bem a proposta eclética da Lapa. Casa de shows de médio porte, nesse pouco tempo já recebeu Miúcha, Mundo Livre S/A, o rapper BNegão e o suingue carioca do Bangalafumenga, entre uma e outra festa. Hoje, a noite será de hip hop, em festa comandada por Diana Bouth, enquanto amanhã, MPB, samba, coco e funk se misturam na Superbrazooka, em que o DJ Janot divide a cena com o bloco Empolga às 9. Já o domingo é de improvisação teatral, com o desafio Zé x Teatro do Nada.
"Para vir para a Lapa não é preciso saber a programação das casas. É só chegar porque tanto o turista quanto o carioca com certeza vão se encontrar em algum lugar", defende Léo Feijó, dono do Odisséia ao lado de seus sócios na Casa da Matriz.
É verdade. Antes de ir ao Circo, Alexandre Rossi faz um tour. Vou ao Bar do Ernesto e peço chope preto e frango defumado, que é incrível. Depois dou uma volta, passo no Buraco da Lacraia. Gosto de ver pessoas na rua, ninguém quer criar confusão quando está ali, acredita. Ele faz questão de levar amigos estrangeiros para a área. Os gringos têm que comer o acarajé de uma mulher que fica ali onde funcionava o Semente e beber cerveja na rua, decreta.
E isso é só um dos programas. Semana que vem ainda tem mais. O Estrela da Lapa vai abrir na Mem de Sá com temporada de Fafá de Belém. O Circo terá Celso Blues Boy. O Odisséia tem o rock do Hurtmold e o samba de Teresa Cristina.
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7:52 AM by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
23/07/2004
Problemas com o chassi
Aconteceu algo legal, dias atrás. O seguinte: eu estava estacionado na José de Alencar, perto do supermercado. Fui sair, dei o sinal de pisca, conferi nos dois retrovisores, até olhei para o lado a fim de não ser ludibriado pelo malfadado ponto cego. Tudo bem, tudo limpo. Coloquei o bico do carro na pista e aí: UAAAAAAH!, surgiu um Fox branco no meu retrovisor. De onde tinha vindo aquele cara??? Tentei desviar, usei toda a minha formidável habilidade de condutor de veículos automotivos, mas não adiantou, o Fox roçou no bico do meu carro, fez rreec.
Um acidente. Meu primeiro acidente! Fora aquele em que aterrissei numa arvorezinha lá em Criciúma, mas aquele não conta, não tinha outro carro envolvido.
Bem. Mas por que meu acidente foi legal? Em primeiro lugar, ninguém se machucou. Em segundo, a culpa não foi minha - o outro é que não respeitou a placa de pare nem a bifurcação em tê, sou bom nas bifurcações em tê, pode me chamar de o rei da bifurcação em tê. E, em terceiro lugar, e muito importante: o carro era da auto-escola!
O Fabrício, que além de ser o melhor de todos os instrutores é o dono do carro, ele é que ficou um pouco nervoso. Só um pouco. Depois viu que estava tudo bem. Agora uma explicação: fiquei contente não por estar pouco ligando para o carro do Fabrício. Não. Foi porque, depois, saí contando para todo mundo:
- Eu ia tirar o carro e veio o Fox no meu retrovisor...
Entendeu? No MEU retrovisor. EU ia tirar o carro. Conversas de motorista! Muito excitante. Nos dias seguintes, narrei em pormenores a história do acidente. Não tanto para os amigos, que esses sabiam que estava tirando a carteira. Foi com os desconhecidos que me esbaldei. Contei para porteiros, para gente que encontrava no elevador, para garçons.
Fiz descrições minuciosas da batida para pelo menos quatro taxistas. Reclamei da forma como as pessoas dirigem, comentei sobre seguros e franquias, critiquei a fragilidade dos carros, perguntei onde afinal essa gente tira a carteira. Lá estava eu, um motorista, tendo conversas bastante graves com outros motoristas. Nós nos entendemos, nós, motoristas. Nós falamos de chassis, de carburadores, de caixas de câmbio. Que maravilha!
Ah, a vida. A gente sabe que tudo na vida é assim: nascimento, crescimento, apogeu e morte. A gente sabe que tudo que vive caminha inexoravelmente para a extinção. A gente sabe que só existe perfeição de fato na não-existência. A gente sabe que nossa trajetória nesse mundo é pontilhada de perdas e marcada por elas. A gente sabe que o destino de todo amor é o sofrimento. De tudo isso a gente sabe. Mas, às vezes, até um sinistro pode realmente ser muito divertido.
david.coimbra@zerohora.com.br
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7:50 AM by Cassiano Leonel Drum
Mauren Motta
23/07/2004
Tempos bicudos
mauren@rbstv.com.br É impressionante como tá todo mundo reclamando da falta de dinheiro. Sempre fui daquelas esperançosas e viradoras. Quando a grana encurtava, não perdia tempo e ia logo achando uma maneira de descolar uns pilas. Cara-de-pau, adorava vender coisas. Eu e minha prima Beatriz costumávamos montar banquinhas na calçada da nossa rua. Mesmo morando numa zona bem residencial, daquelas em que não passa muita gente, sempre dava um jeito de arranjar um cliente.
Catava as pessoas na descida do ônibus e oferecia as mercadorias. Tinha de tudo: colarzinhos, água-de-cheiro, revistinhas antigas e todo tipo de tranqueira. Na praia, era a mesma coisa. Como o movimento era maior, minha amiga Claudia se somava à equipe de vendas. O tabuleiro armado na frente da casa da minha vó ainda tinha conchinhas catadas à beira-mar.
Na adolescência, a moda do sanduíche natural começou a rolar. Além de ser superbossa, não tinha pra vender no bar do colégio. Pronto! Um novo mercado se abria pra mim. Dava um trabalhão, mas todo mundo comprava mesmo antes de tocar o sinal do recreio. E eu não era a única comerciante da escola. Tinha gente que vendia bolo, rifa, docinhos...
Minha colega Mônica Loss, por exemplo, era a rainha do negrinho. Depois comecei a diversificar os negócios. Vendia bijuterias, piranhas de cabelo decoradas, roupas e tudo mais que achasse apropriado. Já meu primeiro frila foi como pesquisadora da Datafolha. Eu e minha a amiga Luciana saíamos lépidas e faceiras em direção à Zona Norte de Porto Alegre. Carregadas de formulários, íamos de porta em porta fazendo pesquisas eleitorais e mercadológicas. Era dureza, porém garantia a grana do final do mês.
Começar a trabalhar cedo não faz bem só para o bolso. Nos dá, além de muita experiência, uma sensação de liberdade absurda. Ser dono do próprio nariz, e todo aquele papinho que vocês já estão carecas de ouvir, é muito bom! Hoje, passados 16 anos, continuo batalhando. Acho que em tempos de crise devemos ser criativos. Nada de ficar parado. Tem que se mexer e botar a cabeça pra pensar. Outro dia, troquei uma gravura por um lustre antigo. Se no tempo do Mercantilismo dava certo, por que não tentar de novo? Minha amiga Fabiana tem participado de um evento chamado Tarde do Desapego.
Ela e algumas amigas do trabalho levam coisas que não querem mais para trocar. Dá supercerto, ela sempre sai cheia de coisinhas novas. Às vezes a gente enjoa da cara de uma roupa e nem percebe como é legal. Nesses encontros, geralmente alguém olha para aquela peça batida com olhos diferentes e oferece algo em troca. Viu só? Sempre tem uma saída. O que não pode é ter vergonha de batalhar. Até porque o tempo é curto e não pára de passar.
Ah! Obviamente que, com tanta polêmica, não poderia deixar de comentar a coluna da semana passada. Agradeço os muitos e-mails recebidos. É sempre bom saber que tem tanta gente ligada na coluna e querendo trocar opiniões e experiências. No caso, o Orkut. Muito obrigada!
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7:46 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
23/07/2004
Em busca do frio
Um dos fenômenos psicossociais mais surpreendentes é esta atração que está sendo exercida pelo clima frio de inverno sobre as classes mais favorecidas aqui no Rio Grande do Sul.
As multidões disputam a cotovelaços vagas nos hotéis da serra gaúcha nos fins de semana de inverno, em busca do frio ou até mesmo da neve.
Enquanto o que acontece no verão tem uma diferença: todos buscam no Litoral um clima mais ameno, isto é, se refugiam nas praias contra o calor.
Agora no inverno ninguém busca em Gramado, Canela e outras estâncias serranas proteção contra o frio. Nada disso, as pessoas vão para a Serra torcendo para que faça frio, o mais rigoroso possível, só assim se realizarão.
Quem sai de Porto Alegre ou qualquer outra cidade distante do Litoral ou da Serra, no verão, dirigindo-se às praias, está fugindo do calor sufocante, à procura de uma refrescante brisa marítima ou do refrigério das águas do oceano.
Já quem sai de Porto Alegre no inverno e se dirige à Serra está indo para um lugar mais frio, o frio da cidade não satisfaz, é preciso um frio mais intenso: a geada e a neve são aguardadas com ansiedade e fazem sucesso se ocorrerem. Se, pelo contrário, não gear nem nevar, voltam da Serra frustradas as multidões.
Não tenho dúvida de que o homem, se já tivesse atingido a perfeição de fabricar para si clima mais propício, conseguindo intervir diretamente nas condições meteorológicas, reservaria para si na serra gaúcha um inverno repleto de nevadas, com o que a região serrana se tornaria de pressa no maior pólo turístico do Brasil, superior até mesmo às praias do Nordeste.
Está faltando só a neve para a nossa Serra estourar a boca do balão em matéria de economia e turismo, embora mesmo sem a neve sejam já impressionantes os índices de acorrência às estâncias serranas que irromperam nos últimos anos.
É intrínseca às pessoas esta preferência (ou aversão) pelas temperaturas extremas. Todas as pessoas que conheço opinam assim: "Eu gosto do verão". Ou então: "Eu adoro o inverno".
"Eu detesto o verão" é outra opinião muito desenvolvida. Ou então: "Tenho horror do inverno".
Nunca se ouve ninguém dizer que detesta a primavera ou tem horror ao outono, parecem ser duas estações neutras, as pessoas não tem opinião sobre elas.
De tal sorte que o outono e a primavera se constituem apenas em estações de espera para o verão e o inverno, estas sim estações definidas que empolgam os seus amantes.
No outono, curte-se apenas a expectativa do inverno, fica-se aguardando com pressa o tempo de comer mocotó, pinhão, feijoada e beber vinhos e chulear por neve.
Na primavera, apesar do encanto das flores e dos pássaros, fica-se tomado apenas pela sensação de que o verão das águas e das férias está próximo e torce-se para que não tarde o tempo de vestir-se e calçar-se sumariamente.
Como os humanos são criaturas que amam os extremos, a primavera e o outono se tornaram assim para nós apenas estações-tampão, sem qualquer utilidade ou atração.
Temos assim metade da nossa vida perdida.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:43 AM by Cassiano Leonel Drum
Governo Federal
139 minutos na Capital
Para participar de congresso mundial de educação, Lula fez rápida visita a Porto Alegre, pronunciou um discurso sem metáforas e prometeu um sistema informatizado para controlar a freqüência nas escolas brasileiras (foto José Doval/ZH)
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Quinta-feira, Julho 22, 2004
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9:46 PM by Cassiano Leonel Drum
Bom, lemos os jornais de Porto Alegre e os assaltos a banco são uma constante, assim como os sequestros relâmpagos. Se lermos os de São Paulo ou os do Rio, as manchetes não mudam muito. Ai lemos os da Capital Federal, culta politizada e ai está uma das noticias. Então a situação é ampla, geral e irrestrita, não é assim? Tenhamos todos uma boa noite e não esqueçamos de rezar, acho que esse ainda é um recurso válido.
Violência
Filha do jornalista Alexandre Garcia sofre seqüestro relâmpago
Do CorreioWeb
com Guilherme Goullart
Do Correio Braziliense
22/07/2004
18h04 - A universitária Julia Nunes Garcia, 18 anos, sofreu um seqüestro relâmpago na noite desta quarta-feira quando entrava em seu carro no estacionamento do Centro Empresarial Brasília, no Setor de Rádio e TV Sul. Ela foi abordada por dois homens, sendo que um deles estava armado. Julia é filha do jornalista Alexandre Garcia.
Um dos homens assumiu o volante, enquanto o outro ameaçava a adolescente, que estava no banco traseiro. Os bandidos seguiram pelo Eixo Monumental e a deixaram entre a via de acesso a Estrutural e a EPTG, por volta das 24h. A estudante pediu carona e conseguiu chegar até o posto da polícia da Estrutural.
O carro da vítima foi encontrado na altura da quadra 15 da Estrutural. Entre os objetos roubados estão um aparelho de DVD, uma máquina fotográfica digital, um celular, CDs, documentos e R$ 78. Os assaltantes estão sendo procurados e o caso está na 3ª Delegacia de Polícia (Cruzeiro Velho).
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9:33 PM by Cassiano Leonel Drum
Quinta, 22 de julho de 2004.
ARTUR DA TÁVOLA
Fulano faliu...
Chegou à porta da loja. Posto 3. Tarde. Olhou a rua e entrou. Lembrou como o ponto era bom quando o pai instalou a loja, Copacabana fervilhava nos anos 50. O pai criou-os com largueza. O irmão aperfeiçoou-se em oftalmologia nos States. Tudo tirado da loja, o ponto ótimo, perto do Copacabana Palace.
Vendendo mal agora. Dispensara, já, três comerciários. Só aparecem alguns turistas, escasso movimento.
Sentiu raiva das autoridades, dos fiscais, do abandono do bairro, raiva geral de quem pressente decadência e pane onde antes havia segurança e progresso. Pensou no bairro. A calçada imunda. A Avenida Copacabana suja e barulhenta como nunca. Todo mundo a comprar nos shoppings maravilhosos e seguros. Lá de dentro ouvia os motores.
Todo dia aquilo. Um comércio em naufrágio, apenas lojas para turistas. E se modificasse seu negócio? Mas tantos anos vendendo roupas. Não saberia. Fulano faliu. Beltrano fugiu. Sicrano fechou. Até a Progresso, que era tão forte, pifou! Liquidação sem élan. Vendas baixas. De novo aquela fantasia que o perseguia, estaria doido? Reunir os comerciantes:
Olha minha gente, se ficarmos esperando vamos à falência. Ou fazemos algo, ou Copacabana acaba. E não é possível! O bairro dos melhores hotéis, dos melhores e mais tradicionais restaurantes. Temos que nos unir, bolar promoções, shows no calçadão. Teatro de rua. Conheço gente que faz teatro e para sobreviver trabalha em casa de jóias.
Poderia ajudar. Bolaremos nova iluminação para o bairro. Vamos a um arquiteto e ele modificará a faixada de todo o quarteirão, embelezando-o. Vamos ao Detran e pedimos uma alteração no trânsito para, de noite, as lojas abrirem com promoções especiais, ruas iluminadas, com segurança e sem trânsito, pagaremos melhor aos funcionários, horas extras, esforço conjunto de todos nós. Vamos nos mobilizar.
Ouviu os aplausos imaginários da classe ali reunida. Viu Copacabana florescendo, os negócios crescendo, quem sabe, até, a própria candidatura à presidência da Associação Comercial.
Afundado no sonho, não viu o olhar de espanto da moça do caixa sendo assaltada. Só teve tempo de esboçar um calma. O tiro varou-lhe a carótida e Copacabana nem ligou.
tavola@ism.com.br
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7:54 AM by Cassiano Leonel Drum
Com as musas na mão
Ike Cruz, que comanda carreiras das belezocas Juliana Paes e Carol Castro, abre agência própria
Zean Bravo
Com Juliana, cuidados que vão do tamanho da saia ao batom usado
De férias em Boston, nos Estados Unidos, Juliana Paes aciona o empresário, Ike Cruz, pelo rádio, antes dele começar a entrevista. Quer saber se ele prefere ganhar de presente um perfume diferente dos que usa. A passagem ilustra a estreita relação da dupla, que extrapola o profissional. Não trabalho com gente que não gosto. Sento com a pessoa para ver se estou a fim e se vou poder implantar meu método. Tenho que ter predominância sobre as decisões. Se for me questionar, pra que agente?, frisa Ike. Agora, aos 37 anos, ele deixa o posto de diretor da Ford Models para abrir sua própria agência de atores e celebridades, a Actors & Arts.
Com de 17 anos de mercado, Ike começou como modelo e hoje é tido como revelador de beldades. Seu lançamento mais recente, Joana Balaguer, fez campanha de celular com Ronaldinho, e foi descoberta numa padaria. Ela não vai para a agência. Não quero mais trabalhar com modelo. Vou lidar com vocação. Só vou levar quem tem caminho na TV, explica Ike, que usa intuição e empatia para atuar no ramo.
Carol estava doente e quase que o próprio Ike a levou ao médico
Além de Juliana e Carol Castro, a Angélica de Senhora do Destino, Ike leva para o escritório a atriz Luiza Valdetaro, que fez um papel pequeno em Celebridade, e sua nova aposta, Camila Rodrigues, cotada para América, próxima novela das oito. Identifico uma pessoa com estética bacana e que vá de encontro com o que a TV quer, explica ele, que foi o primeiro agente de Rodrigo Santoro. Ele não era seguro de seu potencial no começo, revela.
Às atrizes em potencial, vale avisar: Não gosto de ninguém exibido. Nas festas sempre tem gente querendo se fazer notar. Fico mais atraído quando eu percebo o talento, entrega Ike. Atração profissional, que fique claro. Vejo a Juliana como mulher atraente para os outros, não para mim. Quando nos conhecemos eu era casado e ela namorava. Se tivesse que rolar alguma coisa, seria num primeiro momento, crê.
Fato é que hoje Ike é o único homem que pode reclamar do tamanho da saia, determinar a cor do batom ou apontar míseros gramas a mais na (desejada) silhueta de Juliana sem ouvir uma resposta atravessada. Pelo contrário. Ele sugere, ela acata. Não gosto da Juliana de batom vermelho, falo quando a roupa não me agrada e puxo a orelha se ela atrasa. Tenho um lado disciplinador que vai além de fechar contratos, valores, e fazer assessoria de imprensa. Não vai ser o cara que serve comida a quilo que vai dizer se ela engordou.
Para Ike, é esse tipo de atitude que o difere de um simples babá de celebridade. Não mimo ninguém porque acostuma mal. Dou minhas broncas e não tenho cerimônia com ator, falo como se fosse minha irmã, garante o empresário, que também passa a mão na cabeça quando julga necessário. Dou atenção e colo de vez em quando, alivia. Quer exemplo? Carol Castro estava doente no fim de semana e ele só não a levou ao médico porque não foi preciso. Me dedico muito e exijo isso da pessoa do outro lado.
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7:48 AM by Cassiano Leonel Drum
Imperador garante a vaga
Júlio César defende pênalti e salva a seleção brasileira contra o Uruguai. Final será com a Argentina
LIMA - Foi sofrido, emocionante e nos pênaltis. Após sair atrás no placar, o Brasil conseguiu empatar o jogo no segundo tempo (1 a 1) e, nas penalidades, brilhou a estrela de Júlio César, que defendeu uma das cobranças e despachou o Uruguai (5 a 3), ontem à noite, no Estádio Nacional, em Lima, no Peru. Agora, a Seleção fará uma final inédita na Copa América, contra a Argentina, domingo, às 17h (horário de Brasília). É certeza de mais emoção.
No jogo de ontem, o Uruguai adotou uma tática que pegou o Brasil de surpresa: a pressão total, que deixou a Seleção desorientada. Logo no primeiro minuto de jogo, Dario Silva recebeu uma bola nas costas de Juan, finalizou com força e Júlio César fez grande defesa. A zaga brasileira errava no posicionamento e parecia assustada diante de tanta correria. Em quatro minutos, os uruguaios conseguiram quatro escanteios.
A partida era franca, com muita movimentação no meio-campo e oportunidades de gol. Aos 5, Adriano invadiu a área, bateu cruzado, Vieira fez boa defesa, e a bola sobrou para Kléberson, que chutou para nova intervenção do goleiro. Nada que assustasse os uruguaios. Aos 12, Juan, dentro da área brasileira, deu uma cabeçada para trás, Bueno ajeitou, também de cabeça, para Dario Silva protagonizar um lance inacreditável: totalmente livre de marcação, quase dentro do gol, o atacante conseguiu a proeza de acertar a bola no travessão.
Enfim, aos 21 minutos, a seleção de Jorge Fossati abriu o placar. Depois de cobrança de falta pela esquerda de ataque, Sosa subiu mais do que a zaga, cabeceou para o chão e a bola quicou bem à frente de Júlio César. O goleiro bobeou e não evitou o 1 a 0.
A partida seguiu movimentada, mas com um Uruguai mais disposto. Adriano era o único que produzia, mas não conseguia resolver sozinho. Aos 40, Delgado cobrou falta no canto e o goleiro, com a ponta dos dedos, evitou o segundo gol.
Parreira reclama no intervalo e time acorda
No fim do primeiro tempo, Parreira fez uma análise sensata da equipe. Temos de acertar a cabeça e partir para a briga com eles, que nos sufocaram, afirmou o técnico. A bronca surtiu efeito e o Brasil acertou a cabeça e, principalmente, o pé. Antes de um minuto, Luís Fabiano chutou, Adriano, sempre ele, se antecipou ao zagueiro e com o bico da chuteira dourada deixou tudo igual: 1 a 1. Foi o sexto gol do atacante na Copa América.
O Brasil subiu de produção e criou as melhores oportunidades, mas sempre levando sustos. Aos 43, Júlio Baptista desperdiçou o que seria o gol da vitória. Mas não havia tempo para mais nada e a decisão foi para os pênaltis.
Brilhou a estrela de Júlio César. Todos os cobradores do Brasil assinalaram: Luisão, Luís Fabiano, Adriano, Renato e Alex. Pelo Uruguai, Dario Silva, Vieira, Pouso fizeram, mas na quarta cobrança, Sanchez bateu para a defesa de Júlio César. Alex, então, cobrou o quinto e garantiu a vaga na grande final. Que venha a Argentina.
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7:44 AM by Cassiano Leonel Drum
Nilson Souza
22/07/2004
O intruso
A menina dos meus olhos só tem olhos para a sua melhor amiga. Telefonam-se várias vezes por dia, encontram-se sempre que podem, brincam juntas, têm a mesma idade, os mesmos gostos, a mesma visão da vida. E acabam de descobrir um sentimento tão novo quanto desconcertante: o ciúme. Por nada, estão às lágrimas - uma querendo a companhia da outra, mas sempre colocando a amizade à prova como se estivessem envolvidas num incansável jogo de fidelidade.
Quem nunca sentiu ciúme que atire a primeira pedra. Todo sábado, que é o dia em que dou alguma atenção para a minha outra vida e para as pessoas que fazem parte dela, procuro atuar como juiz desta intrigante disputa de afetos. Sei bem que elas terão que aprender sozinhas a administrar seus próprios sentimentos, mas sinto-me autorizado - pelos anos de rodagem - a dizer-lhes duas ou três coisas sobre o assunto. Invariavelmente digo o seguinte: só quem a gente ama é que pode nos magoar. Mas quem ama de verdade aprende a superar mágoas, mal-entendidos e desfeitas.
E a amizade - já disse um poeta gaúcho que um dia elas certamente vão estudar na escola - é um amor que nunca morre.
Não dá para evitar o ciúme. Ele é um silencioso invasor de corações apaixonados. Não se anuncia, nem pede licença. Simplesmente instala-se no nosso peito e passa a alimentar-se tanto do nosso amor quanto da nossa desconfiança. Se não o identificamos a tempo, pode crescer demais e tomar o lugar dos nossos melhores sentimentos. Porém, quando o reconhecemos e aprendemos a lidar com ele, tende a transformar-se num cãozinho de estimação - que até ladra de vez em quando, mas é incapaz de nos fazer mal.
O principal, para aprendermos a conviver com esse intruso, é nos conscientizarmos de que não somos donos das nossas amizades e dos nossos amores. Amor não é posse - é partilha. Amizade é desprendimento, desinteresse, aceitação incondicional.
Fácil de dizer, difícil de fazer. Como exigir racionalidade de quem está sendo levado pela correnteza de um envolvimento emocional? Que a menina dos meus olhos não veja isso, mas este calejado escriba, metido a dar conselhos sobre os sentimentos alheios, nem sempre consegue driblar o ciúme quando a vê sofrendo pela sua paixão infantil.
nilson.souza@zerohora.com.br
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7:42 AM by Cassiano Leonel Drum
Leticia Wierzchowski
22/07/2004
Bife com feijão
Antigamente é uma palavra empoeirada feito estas velhas máquinas de costura com pedal e cobertas por guardanapos de crochê. Pois antigamente a casa era azul feito um céu e ampla o suficiente, com suas altas paredes de madeira, para acomodar todos os sonhos infantis. Ali passávamos as férias. Ali, após o Natal, com o porta-malas repleto, era que o pai estacionava sua Rural. Já no caminho, disputando espaço no banco traseiro com as minhas irmãs, eu ia farejando o cheiro da areia. Era um olor característico que nascia numa misteriosa curva da estrada; após essa anunciação olfativa, vinha a areia propriamente dita. O primeiro montinho, nada mais que um rastro de areia suja pontilhada de capim.
Freqüentávamos um balneário sulista, e aquela praia não era diferente das demais: mar quase triste, areia compacta, horizonte limpo - podia-se perder o olhar pelo nada. Não havia nada que quebrasse a monotonia do litoral varrido pelo vento. Mas era o nosso paraíso. Nunca o frio ou a cor parda daquelas águas inibiu o banho de mar. Nunca o uivo do vento nas venezianas de madeira nos roubou o sono. Contávamos os meses esperando o verão e, ainda hoje, tantos verões depois e tantos litorais passados, não recuperei em mim, perdida em alguma gaveta da memória, a genuína alegria daquele tempo.
O sobrado de madeira do avô reunia com galhardia os primos e os tios. Tamborilando nossos passos pelo assoalho, nós espiávamos o porão com um medo delicioso: noutros tempos, era ali que minha avó guardava a manteiga. A casa cresceu conosco - a madeira tinha esse dom, o concreto de hoje é como um sapato apertado. Sempre cabiam os novos, os primos nascidos pelo ano, a namorada do tio solteiro, os amigos. Multiplicavam-se as camas: pelos quartos, os beliches iam cheios; almoçava-se em dois turnos, crianças primeiro, adultos depois. Nunca haverá felicidade maior do que o almoço após o banho de mar, o feijão com bife, a mesa repleta e alegre.
Depois, como tudo, isso se acabou. Venderam a casa, e eu nunca mais voltei lá. A casa azul é que vem até mim, toda noite, quando eu conto histórias para o meu filho dormir. Mas por que (vocês devem estar pensando) esta pequena crônica de verão em pleno inverno? Porque minha irmã teve bebê ainda há poucos dias, uma menina linda de nome Mariana, e a vida deu outra inescrutável volta rumo aos seus mais secretos desígnios, enquanto todos nós, que fomos crianças um dia, seguimos agora ocupados em preparar novas infâncias de bife com feijão. Em algum lugar inalcançável e alheio ao tempo, a casa azul ganhou mais um berço.
leticia.wierz@zerohora.com.br
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7:41 AM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
22/07/2004
Enlevo
Eu ouvia o José Miguel Wisnik falar para uma multidão sobre um conto do Guimarães Rosa chamado "O recado do morro" lá em Parati e pensava numa palavra para descrever o que nos acontecia, dentro daquela grande tenda, naquela manhã de domingo. Estávamos embevecidos? Embasbacados? Embestados? Decidi por enlevados.
Grande palavra. Estávamos todos em estado de enlevação, que combina os sentidos de tangidos para o assombro, maravilhados e - com sua sugestão de desprego do chão - embalados. Para quem não sabe (e confesso que até há pouco tempo eu também não sabia), o Wisnik é um talento raro, músico, compositor e professor de literatura, e ouvindo-o eu só imaginava como seria ser seu aluno, ou ser enlevado daquele jeito regularmente, semestre a semestre.
Ele nos guiava pelo universo poético de Guimarães Rosa apontando todas as suas riquezas e às vezes, com uma estocada da sua mente afiada, furando um veio novo de alusões e significados do qual ninguém desconfiara. E tudo com uma clareza didática que nunca tolhia o simples prazer da descoberta compartilhada.
Algumas das suas sacadas foram aplaudidas em cena aberta, como se diz de solos de ópera extraordinários. No fim foi ovacionado de pé. Olhei em volta e vi gente com lágrimas nos olhos. Não estava ali, exatamente, um microcosmo deste outro universo complexo atrás de bons explicadores que é o Brasil, mas não dá para desesperar de um país onde as pessoas se comovem com a inteligência.
Não há nada mais emocionante do que o talento. Não precisa ser o de um mestre ou de um tenor. Pode ser o de um camelô, ou de uma menina negra que desafia todas as fatalidades, a da gravidade e a da sua própria origem, e salta mais alto e com mais graça do que todo o mundo. Mas nosso enlevo com a palavra bem escolhida, com a habilidade mental - uma letra engenhosa do Chico Buarque, um "insight" (ver dentro?) do Millôr, uma exegese brilhante do Wisnik - talvez seja uma maneira de nos consolarmos pela pobreza do resto, pela reincidente falta de talento da nossa classe política, ou classe retórica, para nos salvar da suprema burrice da desigualdade e da miséria.
Até o encanto de um Guimarães Rosa tem esta conotação de compensação pela palavra inspirada da mediocridade que nos governa desde as caravelas. O talento brasileiro nos comove também pelo desperdício - tanta gente boa, tanta criatividade e discernimento, e tão pouco disso passa da palavra para a política, da poesia para o poder. Mas não desesperemos. Virá.
Tem um disco recém-lançado de uma cantora nova, Eveline Hecker, só com músicas do Wisnik, que também é ótimo pianista e competente cantor. O disco, da Biscoito Fino, é produzido pela Patrícia Pillar, como se faltassem mais razões para enlevo.
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7:39 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
22/07/2004
Combate diário
Recebo do secretário da Segurança, José Otávio Germano: "Peço licença para discordar da tua opinião registrada na coluna (de ontem), quando agradeces aos assaltantes por não terem agredido os reféns, na tentativa de assalto à agência 24 de Outubro do Banrisul. Parece-me temerário proceder a tais afirmações, já que muitas pessoas poderão fazer uma leitura equivocada - pois sei que não foi a intenção - de que estarias fazendo apologia à ação delituosa.
Da mesma forma, como secretário da Justiça e Segurança não posso me resignar, me acostumar com assaltos, roubos ou qualquer outro crime e torcer para que as vítimas não sejam agredidas. Não lutamos apenas contra a agressão quando das ocorrências, mas, sim, buscamos a diminuição da ação delituosa. (...)"
Sobre o mesmo assunto, recebo do doutor Montserrat Martins, psiquiatra do Juizado da Infância e Juventude: "Parabéns pela tua coragem e lucidez ao fazer o 'agradecimento elogioso à forma humana como os reféns foram tratados pelos assaltantes' na tua coluna (de ontem). Quero ressaltar o quanto me parece importante a tua postura, porque para enfrentarmos a criminalidade de modo eficaz temos de fazê-lo sem hipocrisias e de modo realista, como o fizeste. A visão maniqueísta dos assaltantes em nada contribui para o combate ao crime. Aprendi isso por circunstâncias profissionais, quando vim a exercer a psiquiatria no Juizado da Infância e da Juventude, onde faço a avaliação de adolescentes infratores. (...)"
Ontem, por exemplo, depois de assaltarem uma cooperativa de crédito em Estância Velha, quatro homens armados se defrontaram na fuga com dois brigadianos em serviço.
Mataram um PM com tiro no rosto e deixaram o outro policial ferido gravemente.
Eis aí um assalto para se lamentar mais ainda do que outro que não tivesse vítimas, isso me parece acaciano.
O melhor, o ideal é que não haja assalto algum, é evidente. Mas se houver, por que é proibido torcer para que não haja vítimas?
Também o que eu quis salientar é a inevitabilidade desses assaltos. Anteontem houve assaltos, ontem se repetiram e é certo que hoje voltarão a ocorrer.
Quando a imprensa noticia os assaltos, as autoridades sentem-se erradamente responsabilizadas por eles.
Sabe-se que as polícias estão dando tudo de si, que flagrantemente estão lutando até de forma desigual com os criminosos, que mostram preparo no enfrentamento, tanto que já 10 PMs e um policial civil foram mortos este ano.
A primeira e fundamental desproporção a favor do crime é a qualidade do armamento que possuem os assaltantes.
E na fuga do assalto de Estância Velha, ontem, espanta o preparo dos meliantes: embora tivessem sido brecados na estrada pelos dois PMs que desceram da viatura policial já de armas em punho, foram mais rápidos e certeiros na pontaria: os dois PMs foram atingidos na cabeça.
Parece até que os bandidos pressentiam que os PMs pudessem estar usando coletes à prova de balas, miraram e acertaram nas cabeças dos policiais.
Isto é preparo, isto é meticulosa escolha de armas potentes e precisas para se atirar ao crime, isto dá a idéia das dificuldades que a polícia está encontrando e com as quais ainda se defrontará nesta luta que teima em ter saído para as ruas diariamente.
É triste e comovente ver funcionários policiais mal pagos tombarem em defesa da sociedade ameaçada pelo crime.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:35 AM by Cassiano Leonel Drum
Copa América
Agora só falta a Argentina
Depois de passar pelo Uruguai, nos pênaltis, o Brasil decide a Copa América no próximo domingo, em Lima (foto Marcos Brindicci, Reuters/ZH)
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Quarta-feira, Julho 21, 2004
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9:19 PM by Cassiano Leonel Drum
Como vai a sua "bolsa"?
Conta a lenda que os seres humanos quando foram criados, em virtude da imenso volume de qualidades que receberam, ganharam uma grande bolsa para carregá-las.
Ocorre que, criados à imagem e semelhança do Criador, como havia infinitas qualidades e sua auto-estima era sempre positiva e muito grande, ficava pesado carregar tudo numa bolsa só. Assim resolveram cortar a bolsa em duas partes, carregando uma na frente com algumas qualidades, e a outra atrás com o peso maior, pois assim era mais fácil caminhar. Porém, à medida que o tempo foi passando, todas as qualidades que estavam na bolsa de trás foram sendo esquecidas e o sentimento de auto-estima do ser humano foi-se reduzindo.
Essa estória nos explica porque em todas as estatísticas, de cada quatro pessoas, três sofrem de falta de autoconfiança, baixo conceito de si mesmo(a) e baixa auto-estima.
Acontece que queiramos ou não, somos nosso crítico mais importante. Não existe opinião mais importante a nosso respeito que a nossa própria opinião. No dia a dia, o tempo todo temos uma "conversa silenciosa" que se passa entre o nosso ouvido direito e esquerdo. E na maioria das vezes nem notamos qual o teor dessa conversa, mas tudo o que trazemos na bolsa às nossas costas, fica rolando em nossa cabeça, diminuindo nosso sentimento de valor e competência pessoal.
Sempre que nos sentirmos derrotados(as) e rejeitados(as), o que temos de fazer é uma avaliação da nossa "BOLSA".
B= Bênçãos. Faça uma avaliação de tudo o que tem recebido de positivo em sua vida. Coisas que recebe e que nem valoriza mais de tão acostumado que já está. Sua saúde, comida à mesa, amigos, família, trabalho, seus estudos, enfim, as bênçãos são muitas.
O= Objetivos de vida. Pense em quais são os seus sonhos, seus objetivos, o que está buscando, onde se encontra e onde quer chegar. Se não tiver sonhos e objetivos, procure criar alguns e comece a persegui-los.
L= Lições que a vida têm lhe apresentado. Lembre-se que nossos erros não são erros, mas aprendizados. Pense que todas as dificuldades que a vida possa ter-lhe apresentado, por mais difíceis que sejam de aceitar e enfrentar, na verdade resultaram de suas próprias escolhas e são lições de vida inestimáveis.
S= Sucessos. Pense em todos os sucessos e realizações em sua vida. Temos o péssimo hábito de esquecer das coisas boas e importantes que conseguimos. Mas se você parar para pensar, vai ver que a lista de realizações e sucessos é imensa e você nem se dava conta.
A= Ações. Faça um balanço das ações que vem praticando para realizar seus sonhos e atingir os seus objetivos na vida. Se achar que não está agindo de acordo, mude. Afinal já que temos uma BOLSA para carregar tantas coisas boas a nosso respeito, por que não tirarmos o melhor proveito dela?
por Wilson Meiler
Dr. Wilson Meiler é psicanalista didata e clínico, palestrante motivacional e autor de vários livros dentre os quais o best-seller De Bem com Você, De Bem com a Vida.
www.wilsonmeiler.com.br ou (41) 335-3563.
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9:12 PM by Cassiano Leonel Drum
O Relógio
O colégio onde eu estudava, em menina, costumava encerrar o ano letivo com um espetáculo teatral. Eu adorava aquilo, porém nunca fora convidada para participar, o que me trazia uma secreta mágoa.
Quando fiz onze anos avisaram-me que, finalmente, ia ter um papel para representar. Fiquei felicíssima, mas esse estado de espírito durou pouco: escolheram uma colega minha para o desempenho principal. A mim coube uma ponta, de pouca importância.
Minha decepção foi imensa. Voltei para casa em pranto. Mamãe quis saber o que se passava e ouviu toda a minha história, entre lágrimas e soluços. Sem nada dizer ela foi buscar o bonito relógio de bolso de papai e colocou-o em minhas mãos, dizendo:
- Que é que você está vendo?
- Um relógio de ouro, com mostrador e ponteiros.
Em seguida, mamãe abriu a parte traseira do relógio e repetiu a pergunta:
- E agora, o que está vendo?
- Ora, mamãe, aí dentro parece haver centenas de rodinhas e parafusos.
Mamãe me surpreendia, pois aquilo nada tinha a ver com o motivo do meu aborrecimento. Entretanto, calmamente ela prosseguiu:
Este relógio, tão necessário ao seu pai e tão bonito, seria absolutamente inútil se nele faltasse qualquer parte, mesmo a mais insignificante das rodinhas ou o menor dos parafusos.
Nós nos entrefitamos e, no seu olhar calmo e amoroso, eu compreendi sem que ela precisasse dizer mais nada. Essa pequena lição tem me ajudado muito a ser mais feliz na vida. Aprendi, com a máquina daquele relógio, quão essenciais são mesmo os deveres mais ingratos e difíceis, que nos cabem a todos. Não importa que sejamos o mais ínfimo parafuso ou a mais ignorada rodinha, desde que o trabalho, em conjunto, seja para o bem de todos. E percebi, também, que se o esforço tiver êxito o que menos importa são os aplausos exteriores. O que vale mesmo é a paz de espírito do dever cumprido...
Autor desconhecido
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6:50 PM by Cassiano Leonel Drum
Clássicos renovados
Eletrônicos trazem emblema de marcas famosas
Alessandra Carneiro
Que tal comprar uma Ferrari por R$ 9 mil? E um BMW por US$ 170? Ou, quem sabe, um Jaguar por US$ 356? Parece impossível? Não se os produtos com essas marcas não vierem equipados com motor e quatro rodas.
Afinal, parece que o mercado de eletrônicos adorou embalar seus produtos com o emblema de grandes marcas. Câmeras digitais, laptops, memory keys, MP3 Players... qualquer gadget pode ganhar uma roupagem clássica, e agradar a gostos mais refinados.
Ou até mesmo, quem sabe, tornar o sonho dos menos abonados quase possível... o do seu pai, por exemplo! Ou o nosso! Afinal, tivemos com uma dessas belezuras na mão: o notebook da Acer 3000LMi, feito sob medida para o emblema da Ferrari.
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6:41 PM by Cassiano Leonel Drum
Quarta, 21 de julho de 2004.
ARTUR DA TÁVOLA
Caetano, o maduro
Somente um artista maduro, na casa dos sessenta anos, hoje figura de relevo mundial e com estas experiência e consciência, poderia realizar como o fez Caetano Veloso no Municipal do Rio semana passada não um show, mas um concerto impecável e talentoso de música popular norte-americana dos anos trinta aos noventa (cantou até um rap), entremeado de alguns momentos exemplares de música brasileira, ajustados à dinâmica da apresentação, protegendo assim o protagonista de tanto americanismo, em plena era Bush.
Claro que as canções nada têm a ver com esse anticidadão Bush que colocou a ordem mundial e a paz em perigo, por sua inteligência atrofiada, e por ser porta voz dos mais sórdidos interesses econômicos, como os da indústria de armamentos.
Música é alheio a isso, eu sei, mas esse é o lado polêmico, sempre presente em Caetano. Ademais, hoje, o revolucionário em música, é voltar às melodias bonitas. E ele o fez. Fora de um trecho infeliz por ele escrito sobre Nova Iorque e que leu em cena (desnecessariamente), quem foi ao Municipal, se politicamente se aborreceu com isso, por outro lado assistiu a um momento maravilhoso da vida desse inquieto e inquietante artista, que se disse "um ser oblíquo".
Aos sessenta e poucos anos sua voz está com o frescor de juventude a mesma juventude de seu corpo, vestido de modo discreto, muito bonito em cena a usar metáforas de gestos com perfeição. Ao recuperar belíssimas canções norte-americanas hoje semi-esquecidas e por outro lado desconhecidas pela juventude por falta de oportunidade de as ouvir, Caetano proporcionou quase duas horas da mais alta qualidade musical e vocal. Sim, vocal.
Sua voz de timbre alto de tenor, quase feminina, dominada por um controle racional com doses exatas de emoção, está límpida e sonora, delicada e intimista. Usou pianíssimos difíceis, chegou a alguns falsetes com perfeição, soube dar uma interpretação hialina ("que tem a transparência do vidro"), notável e peculiar sem ser excêntrica. Repertório de alto bom gosto. Por sua experiência única no gênero (e internacional), ele sabe que desse modo inscreve seu nome entre os intérpretes acatados pelo mundo, com lugar próprio.
Interpretou cada música segundo o sentido da mesma, dosou a voz de curta extensão e pequeno volume mas grande doçura e afinação, de modo sensível e profissional. Além dos arranjos qualificados do maestro Jacques Morelenbaum e de uma percussão primorosa. E assim, ele, o rebelde, tropicalista, continuou contestador e conseguiu, com um repertório conservador de alta qualidade e dentro dos marcos estéticos da classe média, realizar um Concerto inesquecível.
tavola@ism.com.br
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8:18 AM by Cassiano Leonel Drum

História de amor vira fenômeno
Romance de professora com aluno de 14 anos torna-se assunto mais lido e comentado na Internet nas últimas semanas. Caso chegou à Justiça
O romance entre uma professora e um aluno de 14 anos tornou-se o maior fenômeno entre os acessos à Internet nas últimas semanas. A professora americana Debra Beasley LaFave apareceu no noticiário pela primeira vez há um mês, quando o namoro veio à tona.
Desde então, o caso de amor proibido virou mania, como noticiado no site NoMinimo ontem. Já existem três sites com o nome de Debra no domínio, ela é tema de duas conferências numa comunidade virtual e ficou em quarto lugar nas buscas no Google (importante site de busca na Internet) em todo o mundo. São incontáveis suas aparições em blogs (sites pessoais).
Debra, que está licenciada no momento, sem direito aos salários, dá aulas de Literatura para adolescentes numa escola de Tampa Bay, 300 Km de Miami. Ela foi acusada de ter relações sexuais com um dos seus alunos. Os encontros amorosos aconteceram numa das salas de aula da escola, no apartamento da professora e dentro do carro dela, enquanto o primo do adolescente, de 15 anos, dirigia o veículo.
Liberdade condicional após pagar R$ 75 mil
Debra foi presa depois que o adolescente contou tudo a policiais: que ele e Debra se conheceram durante uma excursão da classe e que começaram a fazer sexo em 3 de junho. Segundo ele, a professora, casada há menos de um ano, lhe confessou que estava com problemas em seu casamento havia seis meses.
Os investigadores disseram que o primo do aluno, que dirigia o carro em um dos encontros dos dois e que também foi ouvido, confirmou o testemunho que incriminava Debra. O menino de 14 anos foi capaz, também, de descrever o apartamento da professora e suas tatuagens e marcas de nascença.
Debra foi acusada de agressão sexual, de ter relações sexuais com um menor em seu apartamento e numa sala da Escola Intermediária Greco e de exibicionismo.
Ela conseguiu liberdade condicional depois de pagar fiança e por ter se entregado à polícia do condado de Marion, 129 quilômetros ao norte de Tampa. Para ser solta, Debra pagou 25 mil dólares, o equivalente a R$ 75 mil.
Ela namorou integrante de grupo pop
Desde então, ela tem toda a sua vida descrita, em detalhes, em sites espalhados pela Internet. Informações sobre sua infância ela cantava num coral da escola, seu apelido era Barbie e sua fama de menina popular, graças a sua beleza lotam páginas que circulam na rede.
Fofocas como o seu namoro com um dos integrantes do grupo pop Backstreet Boys se juntam com fotos de ensaios como modelo aos 19 anos. Em julho de 2003, ela casou. O marido, Kristian Owen Lafave, tem 26 anos e pertence à comunidade maçônica.
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8:11 AM by Cassiano Leonel Drum
Não é brinquedo, não
Thunderbirds, cultuada série feita com bonecos nos anos 60, ganha versão em carne e osso
Tatiana Contreiras
De plástico e de verdade, alguns personagens da aventura: Brain (Cérebro), o gênio da turma (E), o vilão Hood, vivido pelo ex-Gandhi Ben Kingsley no cinema, e a charmosa Lady Penélope, a musa
Nos hoje distantes anos 60, a musiquinha na TV era a senha: estava na hora dos Thunderbirds, seriado de marionetes que virou febre e arrebatou fãs e mais fãs, inclusive no Brasil. Criada por Gerry Anderson, a equipe do Resgate Internacional agora invade as telas em carne e osso. Thunderbirds, o filme, apresenta as versões humanas para Jeff, Virgil, Scott, Gordon, John e Alan Tracy, além da charmosa Lady Penélope e do arquivilão Hood, entre outros.
O filme que estréia dia 30 nos Estados Unidos e em dezembro por aqui mostra as aventuras de uma família Tracy mais jovenzinha. Alan, que tinha seus vinte e poucos anos na TV, tem apenas 14 no longa, dirigido por Jonathan Frakes (de Jornada nas Estrelas: Insurreição). Aluno de um colégio interno, ele tem a chance de entrar em ação quando seu pai e seus irmãos caem numa armadilha do malvado e invejoso Hood.
Sérgio (D), José e Guilherme: bonequinhos ainda na embalagem
Passava na Tupi, à tarde, no programa do Capitão Aza, relembra o auxiliar administrativo Guilherme Carneiro, 37 anos. Algumas cenas mostravam um bonequinho pegando um objeto, mas a mão não era de brinquedo, era mão humana! Algumas vezes dava até para ver a linha que prendia as marionetes, conta. Quase todo mundo que curtia sempre tinha um bonequinho ou uma nave. E todo mundo queria a Ilha Tracy, completa Guilherme, que faz parte do Fã-Clube do Capitão Aza e organiza sessões de exibição de antigos programas com direito a Thunderbirds.
O Rolls Royce de Lady Penélope na Ilha de Tracy
A primeira temporada teve 26 episódios entre 1964 e 1965. Depois, em 1966, foram produzidos mais seis episódios todos reprisados à exaustão, até na década de 90. Entre 66 e 68, foram lançados dois longas, Thunderbirds Are Go e Thunderbird 6, com os bonequinhos. Todas as meninas queriam ser a Lady Penélope nas brincadeiras. Quem não queria um carro cor-de-rosa?, lembra a advogada Carla Vasconcelos, 48 anos mais uma na missão de resgate dos Thunderbirds.
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8:00 AM by Cassiano Leonel Drum
Martha Medeiros
21/07/2004
Os ruins de bola
Futebol é assunto sério. Seríssimo. Páginas e páginas dos jornais são dedicadas a este esporte que desperta as emoções mais controversas, da paixão a violência. O documentário Pelé Eterno, que está em cartaz, ajuda a encher ainda mais de orgulho esta pátria de chuteiras, esta nação boa de bola, este país pentacampeão. Temos um rei. Um ídolo mundial. E outros tantos craques excepcionais. O mundo se curva ao nosso talento, mesmo quando a gente decepciona. Ficar fora das Olimpíadas, cá entre nós, foi uma bobeada. Mas passou. Página virada. O mundo é feito de derrotas e vitórias. Viva o futebol.
Mas sem histeria, sem ditadura. É natural que a maioria dos meninos brasileiros gostem de jogar, incentivados por seus pais, seus amigos, sua escola. Natural, ok? Não obrigatório. Alguns meninos não gostam. Preferem tênis, surfe, xadrez, cuspe a distância. Preferem ler. Preferem tocar guitarra. Preferem computador. Preferem matar a hora do recreio desenhando, ouvindo hip hop, se entupindo de salgadinho. Podem não fazer parte da geração saúde, mas existem, estão na lista de chamada. Meninos não nascem com o futebol no DNA. É uma preferência adquirida, uma aculturação. Viva os garotos que entendem isso e não discriminam os outros.
Sei casos de arrepiar. Garotos que são estigmatizados no colégio porque não sabem jogar, ou não querem. As portas do paraíso são fechadas para esses meninos que nem desconfiam quem é o técnico do Inter ou o centroavante do Grêmio. Vão para o banco, caem para a segunda divisão. Boiolas Futebol Clube.
Gostar de esporte, praticar, torcer, tudo isso é mais que importante, faz parte da formação de qualquer criança, injeta ânimo, orgulho, auto-estima e uma competitividade saudável, desde que vivenciada com bom humor e respeito ao adversário. O futebol, além de ser uma diversão, é também um treino pra vida social, para o trabalho em equipe, ajuda a formar a identidade. Futebol é garra, é arte, é festa, é um sonho de infância. Mas tem quem não goste, ora. Tem quem não goste de samba. Tem quem não goste de praia. Tem quem não goste de cinema. Vamos decapitar?
Há muitos garotos que até gostariam de driblar e marcar uns gols, mas são franzinos, têm um ar intelectual, lhes falta a manha, o jogo de corpo, aquela truculenciazinha necessária. Acabam então escalados para o time dos "sensíveis", como se isso fosse alguma espécie de doença contagiosa. Viva o futebol, viva o Pelé, viva o Ronaldinho, viva a Daniela Cicarelli, e viva a diferença, que dá graça à vida.
martha.medeiros@zerohora.com.br
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7:58 AM by Cassiano Leonel Drum
David Coimbra
21/07/2004
Lantelme, Madame Pompadour, Mata Hari
Tenho feito muita pesquisa booleana nos últimos dias. Que coisa. Nem sabia o que era pesquisa booleana e agora vivo fazendo pesquisa booleana. Aprendi, precisei aprender para coletar informações aqui no jornal. Mas depois que aprendi bem aprendidinho, o que aconteceu? Os caras do sistema subiram à Redação para anunciar a implantação de um novo tipo de arquivamento eletrônico de pautas. Então, agora tenho que aprender isso também, um monte de comandos diferentes. Muito shift. Manja shift? Pois é. E vários control também, e algum ou outro alt para premer no teclado. Esses dias até sonhei que era perseguido por um shift alado. Cristo!, acordei suado e gritando:
- Um shift! Um shift!
É assim, todo dia tenho que aprender algo novo. Mas nunca é um conhecimento prazeroso, como a história da cortesã francesa Lantelme, que um dia disse para a esposa do seu amante:
- Minha cara, você pode ficar com ele sob três condições: quero o colar de pérolas que está usando, um milhão de francos e... você.
Não. A fascinante história de Lantelme ou a da sedutora Madame Pompadour ou a da espiã nua Mata Hari, nada desse tipo de aprendizado está incluído nas exigências profissionais modernas.
Eles querem é que saibamos usar o programa Excel, por exemplo. Querem que compreendamos tudo sobre áreas de plotagem. Querem que fiquemos por dentro das minúcias do pareto, Jesus!
É um mundo cheio de novidades, estou sempre defasado. Quer ver? Uma vez, minha irmã Silvia tinha uma vitrolinha. Dessas que parecem uma maleta. Era laranjinha, lembro, e a gente a usava sempre nas reuniões dançantes do IAPI. Eu e a Alice dançando, a mão fria dela fazendo pressão suave na minha nuca, eu lhe massageando as costas:
"Do you wanna dance and hold my hand?
Tell me that I'm your man
Baby, do you wanna dance?"
Lindo lindo. Bem. Eu achava que a vitrolinha da Silvia era tudo o que alguém poderia necessitar em termos de som. Afinal, havia me dado tão bem com ela... Mas surgiu o três-em-um, todo mundo tinha que ter um três-em-um, aí, com certo sacrifício, comprei um três-em-um. Só que nem tinha terminado de pagar meu três-em-um e a moda já era o sound system, assim mesmo, em inglês, com os aparelhos todos empilhados um em cima do outro. Suspirei e me preparei para comprar um desses troços. Então apareceram os CDs, os discos de vinil tinham de ser lançados no lixo sem remorso, como se fossem velhos amores infiéis, inclusive aquele em que o Paulinho da Viola lembra que as coisas estão no mundo, só o que se precisa é aprender. Oh, Deus, lá fui eu comprar um aparelho de CD. Que ficou ultrapassado seis meses depois.
Assim é tudo o mais. Aparelho de TV. Certa feita, uma moça comentou com a amiga sobre a minha TV:
- A TV dele tem uma bolota na frente.
Só então percebi que o seletor de canais não tem mais nenhuma utilidade. Comprei TV nova, mais um gasto.
Computador, a mesma coisa. O meu está eternamente obsoleto, por mais que o substitua pelos lançamentos do semestre. Maldição!
Isso estava me afligindo, de fato. Foi então que decidi: só volto a investir em tecnologia quando lançarem o último. O último som, o último computador, o último aparelho de barbear, o último cortador de unhas. Só compro o último! Não me venham com novidades, estou esperando o último!
Talvez corra o risco de ficar ultrapassado, mas isso não tem importância. Porque hoje em dia os obsoletos estão prestigiados. Até os clubes de futebol mais importantes do país incrustam em seus comandos dirigentes ultrapassados. Por que não eu? Por que não a vitrolinha da minha irmã que tocava tão bem Do You Wanna Dance?, eu realmente me dei bem ao som daquela vitrolinha...
Cuca, batata, Oktoberfest!
Se tem algo que prezo é a contribuição germânica aqui para o nosso Estado. A lingüiça bock. O eisben. A Aninha Hickmann. Eu mesmo sou descendente de alemães, sabia? Meu nome do meio é Wagener. Com G e E mesmo, não é erro de datilografia.
Mas a maioria das pessoas desconhece que os alemães ensinaram os porto-alegrenses a jogar futebol. Ensinaram mesmo, fazendo demonstrações dos fundamentos, mostrando como se chuta, como se passa, como se domina a bola.
Os alemães participaram da fundação dos dois primeiros clubes de futebol de Porto Alegre, ambos no mesmo dia 15 de setembro de 1903: o Grêmio e o Fuss-Ball. O centroavante alemão Booth, autor do primeiro gol dos Gre-Nais, foi um desses que mostrou como se jogava bola. Outros professores pioneiros foram os zagueiros Schuback e Mohrdieck. Com eles dentro da área, o Grêmio montou uma defesa impenetrável.
Schuback e Mohrdieck não apenas jogavam lado a lado como também moravam lado a lado, em casas geminadas, na Bordini. Mais tarde, essas casas foram ocupadas pelo escritor e jornalista Carlos Reverbel e sua mulher Olga.
Schuback e Mohrdieck adestraram os porto-alegrenses nos rudimentos da arte de contenção futebolística. E adestraram à perfeição. Em pouco tempo, o Grêmio já estava desafiando rio-grandinos, pelotenses, uruguaios e argentinos, muito mais antigos no nobre esporte bretão. Talvez resida aí a tendência que o futebol gaúcho tem para a armação de times fortes na marcação. O Wianey Carlet, portanto, tem muito a agradecer à dupla Schuback e Mohrdieck.
Houve um quarto alemão muito importante nesse mesmo time do Grêmio, mas sobre esse contarei no domingo. Tudo em homenagem aos 180 anos da colonização alemã.
david.coimbra@zerohora.com.br
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7:55 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
21/07/2004
Um assalto elegante
A tentativa de assalto contra a agência do Banrisul da Avenida 24 de Outubro chegou ao ápice do refinamento.
Foram entre 15 e 20 assaltantes. E atravessaram dois dias, ontem e anteontem, engendrando os atos preparatórios e de planejamento tipicamente militar, que constaram de três seqüestros a famílias de três residências, compondo 13 reféns envolvendo duas cidades, Esteio e a Capital.
Pode-se dizer que nunca houve algo igual em esmero criminoso na crônica policial da cidade.
O desfecho foi ainda mais surpreendente. Por motivos que não eram conhecidos até ontem à noite, o assalto acabou malsucedido.
Chama a atenção na megaoperação abortada pelo acaso o arsenal de que dispunha o bando assaltante, entre pistolas, fuzis e granadas.
E tanto o modo solto e tranqüilo com que agiu na custódia a 13 reféns como na mobilidade do grupo, mantendo os reféns em Esteio durante cerca de 15 horas e transportando-se simultaneamente a Porto Alegre para tentar violar o cofre do banco.
Para tanto, os assaltantes estavam munidos de excelente sistema de comunicação que os monitorava no ataque a quatro locais, entre os do seqüestro em Esteio e o alvo principal, a agência da Avenida 24 de Outubro.
Manter e transportar 13 reféns durante 15 horas em três residências já é uma tarefa delicada. Suportar com tranqüilidade e delicadeza o convívio com 13 reféns, entre eles mulheres e crianças, nem maridos ou pais agüentam sem exasperação, quanto mais assaltantes.
E o depoimento dos reféns, depois da operação, é unânime num ponto: os seqüestradores se mantiveram durante todo o tempo solícitos, cordiais e humanos com os cativos, tanto mantendo-os intocáveis em sua integridade física quanto, por inúmeros gestos, tomando conta dos afazeres das residências, como no caso de um assaltante que foi preparar na cozinha um chá tranqüilizante para uma senhora refém que tinha distúrbios cardíacos.
Na semana passada, um PM e um empresário assaltados em dois eventos criminais foram mortos a tiros pelos assaltantes no Interior, depois de rendidos e indefesos, dois crimes absolutamente desnecessários e cruéis, os bandidos não tiveram nenhuma vantagem estratégica em eliminar as duas vítimas.
Já na tentativa de assalto que culminou ontem pela manhã, atravessando dois dias, nenhum dos reféns foi morto, sequer molestado, numa ação que chamou a atenção pelo tratamento cortês que os captores prestaram aos cativos.
Não há exagero em se elogiar tal comportamento dos assaltantes. Essa onda de ataques patrimoniais que marca essa nova época da avassaladora criminalidade nas grandes e pequenas cidades brasileiras, se tivesse por parte dos bandidos a compreensão que tiveram os assaltantes desse episódio que terminou ontem, seria tranqüilizante para a sociedade: se se tivesse a garantia, por um pacto de honra com os assaltantes, de que na maior parte das ações delituosas seria respeitada a vida das vítimas de assalto, esse terror de que está tomada a população brasileira seria substituído por um grande alívio.
Teríamos a certeza, todos, de que, quando chegada a hora de cada um ser vítima de um assalto, o que parece fatal pela incidência estatística alarmante, não seríamos eliminados nem feridos.
Por isso é que, sem sentir-me ridículo, com a consciência de estar manejando um veículo de comunicação de massa, lanço um agradecimento elogioso à forma humana como os 13 reféns de ontem foram tratados pelos assaltantes.
Como é incontível essa onda de assaltos, que pelo menos consigamos incutir na imensa legião de assaltantes que se mobiliza para essas ações uma noção de responsabilidade para a preservação das vidas humanas das vítimas de seus ataques.
Que se vão os anéis, se isso está se tornando inevitável, mas que fiquem os dedos. Os prejuízos materiais que esses assaltos pontuais que a sociedade gaúcha e brasileira sofrem nem de longe encostam em importância nas vidas perdidas e sacrificadas durante as ações criminosas.
Penso ser imperioso que a imprensa transmita aos criminosos atuais e em potencial a consciência de respeitar a integridade física das suas vítimas. Para que matar?
Essa ação coordenada do bando que tentou assaltar ontem e anteontem a agência do Banrisul mostra também que não há qualquer necessidade de os criminosos se drogarem para levarem a efeito os seus assaltos. Os 15 a 20 homens que se envolveram no ataque, em nenhum caso, conforme depoimento dos reféns, tiveram qualquer envolvimento com entorpecentes, que são sempre os móveis dos assassinatos.
Muito obrigado, assaltantes da ação contra o Banrisul. Assim a relação incontornável no contexto que atravessamos entre assaltantes e vítimas tem de ser comemorada por este saudável nível de civilização.
Para que se repita e se estimule esse exemplo, eu sei bem da oportunidade da psicologia que estou manejando.
Trata-se de salvar vidas. Muitas podem ser salvas por esse psiquismo, mas uma só já chegaria para justificar esse apelo um tanto bizarro.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:53 AM by Cassiano Leonel Drum
Futebol
O Grêmio volta a sorrir
Depois de sete jogos em jejum, Christian fez dois na vitória de 4 a 0 sobre o Paraná, que tira o time da zona de rebaixamento (foto Fernando Gomes/ZH)
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Terça-feira, Julho 20, 2004
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7:00 PM by Cassiano Leonel Drum
Publicado em 18 de julho de 2004 - Versão impressa
Vida Íntima
Alberto Goldin
O ciúme transforma todos em crianças
Sempre leio sua coluna e nunca tive coragem de escrever e contar o meu problema. Tenho uma dúvida que gostaria que o senhor esclarecesse para mim. Namoro uma menina maravilhosa que se chama Liana já há nove meses. E morro de ciúmes de todos os ex-namorados dela, principalmente de um especificamente. Acho, ou melhor, tenho certeza que é porque ela já teve relações sexuais com eles. Tenho certeza de que ela é a mulher da minha vida, minha alma gêmea. Amo tanto esta mulher que não a imagino com outro homem, fico com muito ciúme.
Ela não sabe disso, resisto bem, disfarço na maioria das vezes, mas por dentro fico supermal, sinto-me magoado e quando me pego distraído fico logo pensando nisso, na sala de aula, no ônibus, em casa, a toda hora. Isso está me atordoando. Estou ficando muito perturbado com estes pensamentos. Isso é normal quando estamos apaixonados por alguém? Ou será que estou ficando paranóico? Existe uma solução para isso? O que você recomenda? ? RONALDO, Rio de Janeiro, RJ
Foi à primeira vista que se reconheceram no meio da multidão, olharam-se nos olhos e, por alguma razão, sorriram. Como além de jovens, eram bonitos, desejaram-se. Em pouco tempo (nove meses?) estavam perdidamente apaixonados. Um precisava falar e o outro escutar e assim construíram um pequeno universo colorido, onde tudo seria perfeito, não fosse por um detalhe: Liana teve outros amores, Ronaldo não foi o primeiro. E será que ele teve outras mulheres?
Liana não se importa, este problema não assola as damas. Ciúmes retroativos são coisa de homem. Ronaldo, angustiado, sabe que não pode reclamar. Na época, nem se conheciam. Mesmo assim está tomado por pensamentos obscuros. O que fizeram com sua deusa? Deleitaram-se com seu corpo, aproveitaram-se da sua ingenuidade, foi enganada e forçada ao sexo? Quantos? Onde e como? Ronaldo sofre em silêncio.
Saio imediatamente em sua defesa. Ronaldo não é exceção. Pelo contrário, seu conflito é universal e tem profundas raízes na estrutura humana. Para entendê-lo faremos um rodeio. O primeiro amor juvenil é uma réplica e uma transformação dos primeiros amores infantis. Toda paixão é coisa de criança e por isso os amantes (de qualquer idade) batizam-se com apelidos infantis, falam horas sem dizer nada, tratam-se com diminutivos. Os presentes do mês de namoro podem ser ursinhos, bonecas. Todo amor intenso é infantil. São crianças que, novamente, descobrem o mundo.
A paixão é louca e regressiva, libera afetos que outrora destinaram aos primeiros objetos de amor. O jovem reencontra na amada uma versão (agora erotizada) do amor que deu e recebeu da sua mãe. Esta é uma forma simples de entender o Complexo de Édipo. Freud dizia que todo encontro amoroso é reencontro com amores primitivos sepultados no inconsciente.
A preocupação do Ronaldo é, com toda dignidade, infantil. O menino se rebela porque sua mãe, a quem imagina virgem, teve relações sexuais com... seu pai. Por isso, os homens que Liana amou foram mais potentes, mais dotados, experientes e lhe geraram todo tipo de fantasia angustiante.
Principalmente um deles!!!, reclama Ronaldo.
Qual?, perguntamos.
Não importa, um que Liana valorizou e, por isso, para Ronaldo, ganhou estatuto de Padre. As crianças curiosas espiam, ou querem espiar, pela fechadura do quarto e Ronaldo gostaria de filmar o passado da Liana. Quer saber e quer ignorar ao mesmo tempo. A paixão reinscreve a infância, mas depois tudo volta ao normal e o passado retorna ao inconsciente e a amada (sem incesto) recupera a condição de namorada genuína.
Os homens que fracassam neste processo são teimosamente infantis nas suas relações e, contrariando toda lógica, não admitem nem perdoam o histórico das suas mulheres. Ou deslocam o passado no clássico quadro do ciúme possessivo ou de eterna desconfiança. Quando Ronaldo se apaixonou, acordou seus fantasmas.
Um psicanalista selvagem dirá: Que horror, mamãe é uma vadia!!. Outro, educado, passará a limpo sua história e delicadamente resolverá o equívoco: Mamãe nunca foi santa, ou não seria mamãe.
Liana não é santa, nem vadia, é mulher. Se o amor de ambos acabar, Liana sairá da sua vida tão pura quanto entrou. O casamento com a mulher de branco, virgem, sustenta-se na premissa de que o amor suja. Não é verdade. O que mancha é a ilusão fantasmática da mãe imaculada.
Não existe mãe sem sexo, Ronaldo. Se alguém te contou essa história, mentiu.
ALBERTO GOLDIN é psicanalista e autor de Amores freudianos (Nova Fronteira) e Histórias de amor e sexo (Objetiva)
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6:41 PM by Cassiano Leonel Drum
Publicado em 20 de julho de 2004 Versão impressa
Arnaldo Jabor
Em trilha de paca, tatu caminha dentro
Hoje não tem estilo, não tem capricho, não tem figuras de retórica; nada de metáforas, metonímias, catacreses ou aliterações chiques como: Rara, rubra, risonha, régia rosa! ou Na messe, que enlourece, estremece a quermesse.
Hoje vai tudo em bruto, em rascunho, porque descobri na internet que sou uma besta quadrada mesmo (dirão meus inimigos: Finalmente, ele se encontrou...). Eu tenho traçado mal traçadas linhas há 13 anos (gente... eu escrevo em jornal desde 1991!...) numa média de 60 artigos por ano, o que totalizaria 780 artigos caprichados, e descubro aterrado na internet que sou um animal, um forte asno. Explico por quê.
Ando pela rua e as pessoas me abordam: Adorei o seu artigo que está circulando na internet! Maior sucesso! Pergunto, já com medo: Que artigo? Esse texto genial que você escreveu e que todo mundo me mandou. Chama-se Bunda Dura.
Imediatamente, sinto-me irreal: Eu sou eu, ou sou outro? Por um instante, penso que tenham renomeado algo que escrevi, mas respondo: Não fui eu quem escreveu esse texto! Digo isso envergonhado e vagamente agressivo para a pessoa, que logo replica: Puxa!... mas o texto é otimo, adorei o Bunda Dura! Aí, não agüento e digo: Você acha que eu ia escrever uma bosta dessas?
Aí, o admirador do texto apócrifo, o fã de um Jabor virtual se encolhe meio ofendido, flagrado em sua desinformação: Mas... tem coisas legais... E eu, implacável: É uma bosta! Aí, o sujeito sai sorrindo amarelo e vira meu inimigo para sempre.
Vejam o efeito da burrice serial: um burro me falsifica, um outro gosta e quem paga o pato sou eu. E fico mais invocado ainda porque capricho muito quando escrevo nos jornais, vocês nem imaginam. Considero o jornal um suporte genial, pois somos lidos por milhares toda semana e podemos falar do mundo ainda quente, sem a busca por transcendências perdidas, tanto assim que, se eu fizer um romance ou um poema épico em 11 cantos, tentarei escrever com a simplicidade leve que busco em meus pobres artigos. Mas o que realmente me encafifa é ver um clandestino simulando o que eu tenho de pior e também porque sou amado pelo que não sou.
Esse texto da Bunda dura está famoso. Toda hora alguém me elogia. Há trechos assim:
Tenho horror à mulher perfeitinha. Sabe aquele tipo que faz escova toda manha, tá sempre na moda e é tão sorridente que parece propaganda de clareamento dentário?
E, só pra piorar: tem a bunda dura!!! Mulheres assim são um porre. Pior: são brochantes!
Aí, a admiradora de bunda caída repete, feliz: Adorei!.
A primeira vez que saiu um troço desses (vou escrever de qualquer jeito...) eu encuquei, fiquei na maior bronca e esculachei o carinha que me tinha metido nessa canastrice (sacaram os cacófatos?), pois o dito texto esculhambava a linda amiga Adriane Galisteu. Companheiro leitor, (serei chulo) tu num sabe o bode que essa parada deu, por causa que o elemento apocrifador era um coleguinha jornalista que publicara aquilo num outro jornal, que eu não sabia. Caí de pau no cara e isso me meteu num cu-de-boi chato pra cacete e tive de escrever outro artigo para me explicar para a Adriane.
Outros textículos rolam na internet. Chega a menina sorrindo pra mim: Rapaz... finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres na internet! Mandei isso pra mil amigas, principalmente naquela parte que você diz: Elas são tão cheirosinhas... elas fazem biquinho e deitam no teu ombro... Não escrevi isso..., respondo. Não seja modesto! É a melhor coisa que já fez!... Olha só essa parte em que você diz: Elas têm horror de qualquer carninha saindo da calça de cintura tão baixa que o cós acaba!...
Eu jamais escreveria cós acaba!. Nem vem... é teu melhor texto... e vai embora rebolando feliz...
E não publicam só textos safadinhos, mas até coisas épicas, como uma esplendorosa Ode aos gaúchos que eu teria escrito, o que já me valeu abraços apertados de machos bigodudos em Porto Alegre, quebrando-me os ossos: Ché, tua escritura estava macanuda, trilegal! Eu nego ter escrito aquele ditirambo meio farroupilha aos bigodudos, mas nego num tom vago, para não ser esculachado: Tu não escreveste?
Então tu não amas nossas prendas lindas, e negas ter escrito aquele pedaço em que tu dizes que a gente já nasce montado num bagual? Aquilo fez meu pai chorar, e o pedaço em que falas que por baixo do poncho também bate um coração? Tu tá tirando o cu da reta, ché? e me aponta o dedo, de bombachas e faca de prata. Não fui eu, não, mas... viva o Olívio Dutra!...
E há mais. Um deles é sobre Amores mal resolvidos onde acho frases profundas como Você sabe, o amor acaba. Ou dor-de-cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote... E há um outro chamado Crônica do amor louco, onde leio pálido de espanto: O amor não é chegado em fazer contas... ou quando a mão dele toca tua nuca, tu derretes feito manteiga ou Ah... o amor, essa raposa...
Sei que outros escritos fantasmas virão, mas saibam que só existo mesmo nas páginas dos jornais onde tenho coluna pelo país afora e que a internet é um deserto virtual, sem chão, onde as individualidades se dissolvem e eu viro um nome sem corpo...
Por isso, vou dar um conselho aos meus ghost-writers : Sejam vocês mesmos! Apareçam na internet, bloguem-se , orkutem-se , spamem suas almas líricas, sem receio ou pudor. Lembrando-me daquele japonês chamado Aki Sujiro, eu aqui sugiro alguns teminhas, para vocês glosarem.
Aqui vão: Tudo sobre minha mãe, como no filme do Almodóvar, ou Confissões de um menino no porão ou o dia em que dei num troca-troca, ou até um texto de cunho mais folclórico e regional: Em trilha de paca, tatu caminha dentro?
Não temam, rapazes, não se escondam expressem-se!
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11:47 AM by Cassiano Leonel Drum
ARTUR DA TÁVOLA
Como se virar na vida
Terça feira da semana retrasada, de fato, começou o inverno. Pela manhã, céu cinzento, frio para suéter leve, e começou uma chuvinha miúda que não se manteve pelo resto do dia nublado.
São como aquela fileira de formigas pequeninas que aparecem até no 23º andar de um edifício recém construído, caso haja restos de um bolo de comemoração do aniversário do chefe. Ninguém sabe de onde aparecem: os vendedores de guarda-chuvas! Mágicos, súbitos, perfeitos.
Em minutos pipocam pelas esquinas de todas as ruas movimentadas do Rio, Zona Norte, Zona Sul, com a mercadoria que sempre tentam vender um pouco mais caro, dada a aflição de quem é pilhado pela chuva sem o esquisito mas indispensável objeto. Fiquei a pensar, enquanto dava minha caminhada diária e medicinal pelas ruas do Leblon: como é que esses caras fazem? Vêm de onde? Por que chegam tão rápido às esquinas? Se moram longe, será que deixam os guarda-chuvas guardados com alguém? Mas se moram longe por que chegam tão rápido? Então moram perto.
Mas se vivem perto, o que fazem quando não chove?
Quem são?De onde surgem? Como resistem? Eis um fenômeno de sobrevivência! Sim é isso:sabem o tipo de produto adequado a cada dia: do óleo de praia ao guarda-chuva. Ademais, farejam que sua muamba é vendida barata, não mais de dez reais; que neguinho sempre perde ou esquece o guarda-chuva; que se molhar na rua é chato às pampas e pode gripar, eles, com a agilidade de malabaristas de circo, em instantes aparecem com o seu montinho de sombrinhas na mão sendo que alguns mais espertos deixam dois ou três abertos como propaganda. É venda certa, por preço volátil, e segundo a cara e o tipo do freguês ou freguesa.
Amo esse traço da capacidade de se virar da gente pobre de meu País, embora sonhe com o dia em que toda essa agilidade, inteligência e esperteza possam se desenvolver através de uma escolarização que seja parelha para todos.
E podem dizer o que quiserem: que é perigoso, que não se abre janela do carro; mas quando vejo aqueles garotos nos sinais de trânsito, precocemente a trabalhar, o problema social brasileiro, ali, esfregado em nossa cara, irretorquível e inegável, a jogar aquelas três e até quatro bolas para o ar, de pé nas costas do parceiro ( e veja-se aqui o espírito de parceria), errado ou certo, não deixo de lhes dar um troco. Salve o carioca e sua maneira única de ir buscar o que a sociedade lhe deve, quando o faz com talento e alegria.
Como aquela fileira de formigas pequeninas que aparecem até no 23º andar de um edifício recém construído, caso haja restos de um bolo de comemoração do aniversário do chefe. Ninguém sabe de onde aparecem: os vendedores de guarda-chuvas! Mágicos, súbitos, perfeitos. Em minutos pipocam pelas esquinas de todas as ruas movimentadas do Rio, Zona Norte, Zona Sul, com a mercadoria que sempre tentam vender um pouco mais caro, dada a aflição de quem é pilhado pela chuva sem o esquisito mas indispensável objeto.
Fiquei a pensar, enquanto dava minha caminhada diária e medicinal pelas ruas do Leblon: como é que esses caras fazem? Vêm de onde? Por que chegam tão rápido às esquinas? Se moram longe, será que deixam os guarda-chuvas guardados com alguém? Mas se moram longe por que chegam tão rápido? Então moram perto.
Mas se vivem perto, o que fazem quando não chove?
Quem são?De onde surgem? Como resistem? Eis um fenômeno de sobrevivência! Sim é isso:sabem o tipo de produto adequado a cada dia: do óleo de praia ao guarda-chuva. Ademais, farejam que sua muamba é vendida barata, não mais de dez reais; que neguinho sempre perde ou esquece o guarda-chuva; que se molhar na rua é chato às pampas e pode gripar, eles, com a agilidade de malabaristas de circo, em instantes aparecem com o seu montinho de sombrinhas na mão sendo que alguns mais espertos deixam dois ou três abertos como propaganda. É venda certa, por preço volátil, e segundo a cara e o tipo do freguês ou freguesa.
Amo esse traço da capacidade de se virar da gente pobre de meu País, embora sonhe com o dia em que toda essa agilidade, inteligência e esperteza possam se desenvolver através de uma escolarização que seja parelha para todos. E podem dizer o que quiserem: que é perigoso,que não se abre janela do carro; mas quando vejo aqueles garotos nos sinais de trânsito, precocemente a trabalhar, o problema social brasileiro, ali, esfregado em nossa cara, irretorquível e inegável, a jogar aquelas três e até quatro bolas para o ar, de pé nas costas do parceiro ( e veja-se aqui o espírito de parceria), errado ou certo, não deixo de lhes dar um troco. Salve o carioca e sua maneira única de ir buscar o que a sociedade lhe deve, quando o faz com talento e alegria.
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8:02 AM by Cassiano Leonel Drum
Terça, 20 de julho de 2004.
Fish ball cat
Música Tradução, um funk do Bonde do Vinho, vira nova mania e piada nas ruas e na Internet e se transforma no mais recente clássico do duplo sentido
Clarissa Monteagudo
Na Cidade de Deus, macho que é macho pensa duas ou três vezes antes de falar em inglês. Tudo por causa da música Tradução, do Bonde do Vinho, que virou piada na cidade e rola solta em correntes na Internet desde que foi lançada em sites especializados em funk. O refrão O que é peixe? Fish! O que é bola? Ball! O que é gato? Cat! Eu pergunto e você repete: Fish Ball Cat pegou nos bailes e o hit já está entre os dez mais pedidos do DJ Marlboro no programa Big Mix da FM O DIA.
Mais uma contribuição da Cidade de Deus ao folclore do funk carioca, que já produziu pérolas como Dako é bom e Kabokaki, da diva da CDD Tati Quebra-Barraco. A gente ficou com medo do Siro Darlan não gostar da música, conta, meio zoando, meio sério mesmo Anselmo, dançarino do bonde. Difícil foi convencer a mulher de que o Fish Ball Cat era profissional. As mulheres de todos ficaram com ciúme. Disse que é melhor isso do que ser garoto de programa, fazer strip-tease, completa Anselmo, consciente do seu poder de persuasão.
O autor da brincadeira é o funkeiro Clebinho, do grupo Pretos de Elite, também da CDD. Caí nessa brincadeira, quando um amigo meu mandou que eu traduzisse. Foi de péssimo gosto, mas valeu a pena, assume o moço, que recorreu até ao dicionário para não fazer feio na tradução. A professora de inglês da minha prima elogiou. As letras do funk acabam tendo muito erro de português, concordância, porque as pessoas daqui não têm conhecimento mesmo. Eu procuro me informar, orgulha-se o moço.
Com sucesso da música, traduzir é verbo proibido entre os funkeiros. Quem conjuga cai na brincadeira dos amigos. Eu não traduzo não, a voz que responde às perguntas é feminina, esclareceu o vocalista Leleco, na última visita do Bonde do Vinho ao Big Mix, sexta-feira. Não tem baixaria nessa brincadeira. É o mesmo duplo sentido que o forró, o rock e pop usam.
Você encontra isso nos Mamonas Assassinas, no Ultrage a Rigor. Mas como é funk , o pessoal gosta de falar mal, protesta Marlboro. O funk é o ritmo que traduz esse espírito do carioca, brincalhão, resume. A tal vozinha feminina, que responde cheia de gemidinhos , é de Juliane, MC do grupo feminino As Debochadas. Faz todo o sentido.
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7:59 AM by Cassiano Leonel Drum
Quantos de nós não tivemos um gato, um cão de estimação, um pônei ou um cavalo de raça mesmo já que estamos aqui no Rio Grande? Hoje, quantos deles devem estar nos seus respectivos céus, sim porque eu creio que haverá um ceu para onde vão todos os gatinhos e gatinhas, assim como um outro para onde vão todos os cães....
Quando a gente também for, deveremos reencontrá-los, e eles, com certeza, virão nos receber fazendo os carinhos que sempre fizeram enquanto estavam por aqui. Uma ótima terça-feira e aproveite as crônicas abaixo.
Cláudio Moreno
20/07/2004
Nosso melhor amigo
No tesouro que é a Odisséia, a história de Argos é uma pequena pérola. Quando Ulisses, depois de muita luta, consegue finalmente voltar à sua amada Ítaca, ele desconhece os perigos que o aguardam em sua casa. Como precaução, Atena, sua deusa protetora, transforma-o num velho decrépito para que ninguém o reconheça - nem mesmo Penélope, que há vinte anos espera pelo retorno do marido.
Ao se aproximar de seu próprio palácio, no entanto, Ulisses depara com um cão moribundo, prostrado no meio da imundície dos estábulos. Argos, o seu cão de caça, era apenas um filhote quando ele tinha partido para a guerra de Tróia; agora, velhíssimo, estava ali para morrer, no meio do lixo e do esterco, sem força sequer para espantar as moscas que o atormentavam.
Ao ver que Ulisses se aproximava, contudo, deitou as orelhas para trás e abanou a cauda, numa saudação feliz - e mais não pôde fazer, pois estava fraco demais para se arrastar para perto de seu mestre, que, de longe, cuidando para não se trair, enxugou uma lágrima furtiva. Homero nos diz, então, que a sombra da morte desceu finalmente sobre Argos: ele agora podia morrer, pois tinha reencontrado seu dono.
Outro exemplo tocante é contado por Plínio, em sua História Natural: quando Tito Sabino, acusado de conspirar contra Nero, foi condenado à morte, o seu cão o acompanhou durante todo o tempo em que esteve preso. Depois da execução, o cadáver foi exposto nas escadarias Gemônias, antes de ser jogado ao Tibre, como era o costume; ali, sem arredar um instante, o pobre animal ficou uivando de tristeza, parando de vez em quando para lamber o rosto do dono, tentando reanimá-lo.
Quando um dos populares que assistiam à cena, condoído, atirou-lhe um pedaço de pão, ele foi depô-lo ao lado da boca do morto, sem compreender por que ele não comia. Por fim, quando jogaram o corpo no rio, o cão lançou-se às águas e nadou ao lado dele, tentando mantê-lo na superfície - diante dos olhos comovidos da imensa população que tinha acorrido ao local para testemunhar aquele exemplo espetacular de fidelidade canina.
Entre nós e o cão existe um trato antiqüíssimo, nascido naquele passado brumoso da aurora da humanidade: foi ele o primeiro animal que roubamos da vida selvagem e trouxemos para nossa caverna, onde ele deixou de ser fera, aprendendo a conviver com o fogo e a reconhecer o seu nome.
A cada noite, na cabeça do nosso amigo, deve voltar a lembrança instintiva daqueles dias escuros em que se firmou esse pacto. Ele sempre cumpre sua parte - nós é que costumamos esquecer, até que histórias como a de Argos nos deixem um tanto envergonhados da ingratidão dos homens.
claudio.moreno@zerohora.com.br
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7:50 AM by Cassiano Leonel Drum
Liberato Vieira da Cunha
20/07/2004
O giz e o quadro-negro
Viver é por vezes ser agraciado por pequenos grandes presentes inesperados. Faz pouco, em função de uma crônica, desembarcou no correio eletrônico o e-mail de um de meus professores de Filosofia, o melhor de quantos tive. Cada aula sua era uma conferência iluminada, profunda, mas inteiramente acessível aos corações e mentes de estudantes do 3º Clássico, rapazes entre os 17 e os 20, cujos interesses eram futebol e garotas, automóveis e garotas, filmes e garotas, bailes e garotas, o espectro do vestibular e garotas. Éramos, em maioria, extrovertidos e barulhentos, divertidos e insolentes, anticonvencionais e rebeldes.
Pois não é que que Fráter Roberto Figurelli, prisioneiro mesmo no verão de uma batina e de um colarinho engomado, apaziguava aqueles 17 adolescentes inquietos, com sua sabedoria, sua timidez bem-humorada? Graças a ele fui apresentado a Jaspers, ao primeiro Heidegger, a Sartre, Marx, Kirkegaard.
Conquistou-nos de tal forma que volta e meia alguns de nós o procurávamos fora dos rígidos horários do curso colegial, para longos papos sobre nada e tudo, com a música de fundo de seu Spika, permanentemente sintonizado nos sons da Rádio da Universidade. Uma noite o arrastamos a um jantar no Recreio Avenida, bródio no qual boa parte dos convivas imergiu fundo no vinho tinto servido em jarras. Figurelli acompanhou sereno efusões e discussões - e penso até hoje que seu traquejo e habilidade evitaram um incidente dramático.
Desconfio que agora, ao responder seu e-mail, fui algo econômico de palavras. Deveria ter-lhe dito que meu parco acervo de compreensão da cultura ocidental se deve a ele; que meus escassos rudimentos de humanismo são obra sua; que guardo na memória seu estímulo para tentar um ofício quase inexistente no Brasil: o de escritor.
Suponho contudo que a principal de minhas dívidas com Fráter Roberto - fráter significa irmão em latim e era na época um degrau na escolha do sacerdócio - reveste-se de natureza diversa: a atemporalidade das lições daquele erudito que freqüentou a Universidade de Pádua, neste momento tão válidas quanto na década de 60.
Tive centenas de professores. Mas sempre que penso na síntese das qualidades de um mestre, é sua imagem que me torna. É essa uma profissão mal compensada. Exige dedicação exclusiva, ainda que o salário seja pífio. Requer uma permanente atualização. Reclama paciência, doação, teimosia. Seu pré-requisito é uma vocação fora de moda.
Não é outro o motivo que me leva a cultivar uma admiração sem limites por esses idealistas que vizinham com o giz e o quadro-negro e ensinam uma complexa matéria: a que desperta nos jovens a capacidade de formular juízos críticos. Enfrentam o estresse, a incompreensão e o cansaço. Mas seu trabalho é insubstituível e único. Cabe-lhes incentivar o amor pela beleza e a verdade, incutir o apreço pelas artes, as ciências, indicar os direitos e os deveres inseparáveis do exercício da cidadania, da democracia, da liberdade e da solidariedade.
Foi pelo menos isso que me transmitiu um jovem fráter que prezava o pensamento grego, o cinema de Fellini e a Nona Sinfonia, não garanto se precisamente nessa ordem.
liberato.vieira@zerohora.com.br
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7:48 AM by Cassiano Leonel Drum
Moacyr Scliar
20/07/2004
Livres das armas
Estudante de Medicina, fui aprovado num concurso para plantonista da Previdência Social e designado para um posto de atendimento de urgência na Grande Porto Alegre. Uma de minhas funções era atender a chamados em casa. A bordo de uma decrépita ambulância eu entrava em remotas vilas populares, inclusive à noite e de madrugada.
Trabalho perigoso; vários dos médicos que atendiam no posto andavam armados e, por insistência deles, acabei comprando um revólver. Não deixava de ser irônico aquilo; numa função em que eu deveria salvar vidas, precisaria estar preparado para matar também. A verdade, porém, é que aquele revólver nunca disparou um tiro. Felizmente. Se tivesse de usá-lo, despreparado como era, provavelmente teria terminado como vítima.
Arma é coisa para quem sabe usar (há cursos para isso), para quem está preparado psicologicamente para usar, para quem está legalmente habilitado a usar. Porque a arma está longe de ser um objeto inócuo, inerte; de alguma forma, comanda seu dono. Há uma charge do Millôr muito sugestiva. Mostra um homem entrando em seu apartamento e recebendo ordens dos objetos que lá existem: "Ligue-me", diz a tevê, "Acenda-me", diz o fogão, e assim por diante.
Um revólver ali diria: "Dispare-me", pela simples razão de que, como o televisor ou o fogão, foi feito para funcionar (senão estraga, como aconteceu com a arma que eu tinha). Não é de estranhar, portanto, o alívio que muitas pessoas demonstram quando, dentro do programa de desarmamento, levam armas à Polícia Federal. Não se trata do "Entregue a arma", como o xerife comanda nos filmes de faroeste, mas sim de um convite: livre-se da arma.
Muita gente fará a pergunta óbvia: e os bandidos, será que estão entregando também suas armas? Pouco provável; certamente em assaltos ganham mais do que o governo paga, e neste sentido foi muito ilustrativa outra charge, a do Marco Aurélio, aqui em ZH, na qual um marginal, ao lado da sede da Polícia Federal, porta um cartaz dizendo: "Pago o dobro".
Talvez, também, a devolução de armas não alcance o montante que se espera. Mas o que vale aí é a atitude favorável ao desarmamento. Esperemos que com isso diminua o número dos que atiram e dos que são baleados. E, alguém dirá, esperemos também que os baleados não sejam visitados pelo Maluf na UTI, coisa que, pelo jeito, deu azar a um pobre homem.
scliar@zerohora.com.br
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7:46 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
20/07/2004
Dalva de Oliveira
Ouço sempre, vejo sempre por escrito pessoas autorizadas dando sua opinião: Elis Regina foi a maior cantora brasileira de todos os tempos.
Isso é dito com tanta convicção e insistência que até eu mesmo me deixei influenciar por esta sentença, claro que também levado pela minha admiração pessoal por Elis Regina, cujo equipamento de voz, ritmo, dicção, afinação etc. foram simplesmente estupendos. E aparentemente insuperáveis.
Estudando melhor a questão, não há dúvida de que Elis Regina foi melhor cantora do que Elizeth Cardoso. Foi melhor que Isaurinha Garcia, melhor que Linda e Dircinha Batista, melhor que Bethânia e que Gal.
Elis parecia mesmo imbatível.
Só que na semana passada vieram parar nas minhas mãos uns 20 discos de Dalva de Oliveira, que encantou o Brasil até os anos 60, a integrante do Trio de Ouro, mulher de Herivelto Martins e mãe de Peri Ribeiro, foi um dos maiores nomes da música popular brasileira.
Depois que ouvi mais atentamente Dalva de Oliveira, depois que me extasiei com seus trinados miraculosos, depois que meus ouvidos se embriagaram com sua voz clara e enérgica, depois que ouvi dela subir às alturas e descer aos abismos em oscilações fenomenais de bemóis e sustenidos no mesmo verso musical, na mesma palavra, às vezes até na mesma nota, cheguei a uma conclusão definitiva: Elis Regina foi a maior cantora brasileira dos tempos modernos.
Porque a maior cantora brasileira de todos os tempos foi indubitavelmente Dalva de Oliveira.
Ninguém tinha sido melhor que ela antes, nem durante, nem ninguém superior a ela lhe sucedeu.
Há cantores que surgem na chance de uma para 1 milhão, são vozes raras, como Johnny Mathis e Yma Sumac.
Pode até ter coexistido com eles um Frank Sinatra, uma Ella Fitzgerald. Mas não houve nada tão sublimemente diferenciado em aparelho melodioso de voz como Johnny Mathis e Yma Sumac, talvez só o fenomenal Elvis Presley cantando balada possa tê-los alcançado.
Dalva de Oliveira foi este milagre de diferença, esta lânguida e inimitável patativa, este extraordinário rouxinol encantado e amargurado que povoou o imaginário poético de uma geração de brasileiros privilegiados por sua voz.
É bobagem minha e de todos saber quem foi a maior de todos os tempos, cada um vive a sua época, cada um é espelho do seu ciclo, não se deve misturar conceitos artísticos com elementos cronológicos, só no caso de Pelé talvez se rompa essa verdade para acreditar que não possa ter havido antes dele, apesar de engatinharem o cinema e a televisão no seu tempo, algo que possa ter superado aquele sonho.
Só que eu peço a todos que ouvirem se repetir doravante a máxima de que Elis Regina foi a maior cantora brasileira de todos os tempos que não permitam esse pecado e essa heresia, porque existiu antes dela, a fonografia está aí para prová-lo, uma cantora cuja voz, quando se erguia, parecia estar subindo aos céus a liderar um coro de anjos: Dalva de Oliveira.
Não era uma voz, era um instrumento, uma cítara, uma orquestra.
psantana.colunistas@zerohora.com.br
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7:43 AM by Cassiano Leonel Drum
Vôlei
Retrato do orgulho tetracampeão
No colo do avô, Enzo admira a foto do pai, Gustavo, um dos gaúchos da seleção campeã da Liga Mundial, que retornam hoje (foto Tadeu Vilani/ZH)
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Segunda-feira, Julho 19, 2004
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6:47 PM by Cassiano Leonel Drum
Fragmentos de um diário inexistente - XII
Paulo Coelho
"Oh! Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós. Amém".
Roma: Isabella Volta do Nepal
Encontro Isabella num restaurante que costumávamos ir porque está sempre vazio, embora a comida seja excelente.
Ela me conta que, durante sua viagem ao Nepal, passou algumas semanas em um mosteiro. Certa tarde, passeava nas redondezas com um monge, quando ele abriu a bolsa que carregava, e ficou um longo tempo olhando o seu conteúdo. Logo em seguida, comentou com minha amiga: - Sabe que as bananas podem lhe ensinar o significado da existência?
Tirou uma banana podre de dentro da bolsa, e jogou-a fora.
- Esta é a vida que passou, não foi aproveitada no momento certo, e agora é tarde demais.
Em seguida, tirou da bolsa uma banana ainda verde, mostrou-a, e tornou a guardá-la.
- Esta é a vida que ainda não aconteceu, é preciso esperar o momento certo.
Finalmente, tirou uma banana madura, descascou-a, e dividiu-a com Isabella.
- Este é o momento presente. Saiba devorá-lo sem medo ou culpa.
Sidney: O Australiano e o Anúncio do Jornal
Estou no porto de Sydney, olhando para a bela ponte que une as duas partes da cidade, quando se aproxima um australiano e me pede para ler um anúncio de jornal.
- São letras muito pequenas - diz ele. - Não consigo enxergar.
Eu tento, mas estou sem meus óculos de leitura. Peço desculpas ao homem.
- Não tem a menor importância - diz ele. - Quer saber de uma coisa? Eu acho que Deus também tem a vista cansada. Não porque esteja velho, mas porque escolheu assim. Deste modo, quando alguém faz alguma coisa errada, Ele não consegue ver direito, e termina perdoando a pessoa, pois não quer cometer uma injustiça.
- E quanto às coisas boas? - pergunto. - Bem, "Deus nunca esquece os óculos em casa", riu o australiano, afastando-se.
Sidney: nas montanhas azuis
Logo no dia seguinte à minha chegada na Austrália, meu editor me leva para uma reserva natural perto da cidade de Sidney. Ali, no meio das florestas que cobrem o lugar conhecido como Montanhas Azuis, existem três formações rochosas em formade obelisco.
- São as Três Irmãs - diz meu editor, e me conta a seguinte lenda:
Um feiticeiro que passeava com suas três irmãs quando se aproximou o mais famoso guerreiro daqueles tempos.
"Quero casar-me com uma destas belas moças", disse.
"Se uma delas casar, as outras duas vão se achar feias. Estou procurando uma tribo onde os guerreiros possam ter três mulheres", respondeu o feiticeiro, afastando-se.
E, durante anos, caminhou pelo continente australiano, sem conseguir encontrar esta tribo.
"Pelo menos uma de nós podia ter sido feliz", disse uma das irmãs, quando já estavam velhas e cansadas de tanto andar.
"Eu estava errado", respondeu o feiticeiro. "Mas agora é tarde".
E transformou as três irmãs em blocos de pedra, para que, quem por ali passasse, pudesse entender que a felicidade de um não significa a tristeza de outros.
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6:35 PM by Cassiano Leonel Drum
Metrossexual, um novo homem
Quinta-feira foi celebrado o Dia do Homem. Talvez uma data comercial que ainda não "pegou", mas com certeza, um dia pra se pensar sobre como estamos cuidando do homem de nossa vida e como eles estão nos tratando, enfim. Os machistas estão em baixa, cada vez mais estão perdendo a vez para os metrossexuais.
O termo não tem nenhuma conotação com o sexo: são sujeitos bem machos. Esse novo homem é sensível, vaidoso, consome moda, quer viver um grande amor de maneira consistente e profunda, gosta de mulher e não dispensa um creminho anti-rugas e o Listerine.
Metrossexual é o mais recente conceito para definir o consumidor masculino, uma palavra que surgiu através das pesquisas de marketing nos Estado Unidos junto aos homens heterossexuais metropolitanos, que gastam bilhões com a aparência física.
O metrossexual também está no Brasil. É um homem empreendedor bem-sucedido, vive nas grandes cidades, tem entre 25 e 45 anos e se preocupa com seu aspecto visual: gosta de cosméticos, roupas, freqüenta manicure, aprecia um bom vinho, adora um shopping, pintam o cabelo e freqüentam clínicas de estéticas. São os "homens do espelho", delicados, mas que nada têm a ver com gays.
Eles querem amor, uma família e amizade acima da fama e da glória, "para envelhecer ao lado da mulher amada" e ter filhos saudáveis. Eles estão deixando florescer suas emoções e reconhecendo a necessidade de manter uma boa aparência.
Mas será que nós estamos preparadas para esse tipo de homem?
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8:05 AM by Cassiano Leonel Drum
Bom depois do fim de semana em que viajei para a Cruz Alta do Veríssimo, cá estou de volta a faina diária. Minha esperança é que você que me lê ou que vem aqui de quando em vez, tenha uma ótima semana e que o Brasil continue ganhando suas partidas, tanto no volei como no futebol e que convença como ontem o fêz: chegando ao tetra no Volei e aos 4 x 0 sobre o México que havia ganho da Argentina.
Vagas à vista no varejo do Rio
Comércio contrata profissionais mesmo sem experiência. Oferta maior de oportunidades é resultado da recuperação da economia
Ana Maria Pessôa e Leila Souza Lima
As vitrines dos principais shoppings centers do Rio e Grande Rio têm novo atrativo: oportunidades de emprego. A maioria é para vendedor de ambos os sexos, mas há também oportunidades para caixa, estoquista, subgerente, gerente e recepcionista de cartão. Muitas contratações são sinal da recente recuperação da economia. Mas, para checar as ofertas, é preciso disposição para andar.
As portas também estão abertas a inexperientes. A sapataria Perlalta Moda, no Carioca Shopping, Vicente de Carvalho, oferece vagas para caixa e vendedor, com exigência de Ensino Médio (2º Grau) completo, mínimo de 18 anos e muita vontade de trabalhar. Apenas.
Mas há vagas que pedem mais qualificação. Na Linea HC, do Plaza Shopping, Niterói, as duas chances para vendedora são para mulheres com Ensino Médio completo, curso de vendas, experiência mínima de dois anos e conhecimento de pelo menos um idioma estrangeiro.
Confecções e redes de alimento empregam mais
A remuneração depende do tipo de loja. No shopping Rio Sul, em Botafogo, os salários começam em R$ 700 por mês para vendedores, já com comissões. Em lojas de marca, é possível ganhar quase o triplo: R$ 2 mil. Nos casos de caixa e estoquista, o piso gira em R$ 400.
Segundo a Pesquisa Mensal do Emprego (PME), do IBGE, surgiram 61 mil vagas no varejo na Região Metropolitana do Rio, entre janeiro e maio alta de 6,8%. Outro dado foi o aumento das vendas. Nos primeiros cinco meses do ano, avançaram 7% no Rio, segundo a Pesquisa do Comércio, do IBGE.
A retomada começou por eletrodomésticos, beneficiados com aumento do crédito e perspectiva de inflação mais baixa. Alimentação e confecções são os segmentos que mais empregam. Segundo o diretor de pesquisas do Instituto Fecomércio, Luiz Roberto Cunha, o inverno antecipado fez crescer as vendas do vestuário. O estoque ficou baixo pela primeira vez no ano e trouxe alento ao setor que pôde programar contratações.
O clima na loja de cosméticos Olfateria, Rio Sul, é de otimismo. As liquidações e as férias melhoraram as vendas, diz a gerente, Francine Figueiredo. Tarcisia de Alencar e Silva, 29, Ivone Krygsman, 26, e Vanessa Chaves Vieira, 20, foram selecionadas através do banco de empregos do shopping. Gostamos do sistema de recrutamento, concordam Tarcisia e Vanessa. Ivone reforça: Bater de porta em porta é cansativo. Eles já indicam à loja que precisa.
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8:00 AM by Cassiano Leonel Drum
Biscoito fino para massa
Rainha das passarelas sofisticadas, Ana Hickmann estréia na TV Record domingo e lança um jogo de tabuleiro
Zean Brav
Deusa dourada das passarelas, Ana Hickmann não se contentou com estrelar desfiles e capas de revista em todo o planeta. Transformou seu nome em marca e hoje, aos 23 anos, vende de calçados a jogo de tabuleiro seu novo lançamento é uma espécie de Banco Imobiliário das manecas. Top puro sangue, ela agora extrapola de vez o mundinho da moda. Contrato assinado por dois anos com a Record, Ana que é vista pelo grande público num comercial de carro, em que se vale do propagadíssimo 1,20m só de pernas é a aposta como apresentadora, no lugar de Adriane Galisteu, que deixa o canal no fim de setembro.
Sai uma loura, entra outra. Não é substituição, garante o diretor de programação e artístico da Record, Hélio Vargas. Adriane deve ir para o SBT, mas fica no É Show até o fim do contrato, afirma ele. Já Hickmann estréia neste domingo, como uma das apresentadoras do Domingo Espetacular. Em agosto, ganha quadro de comportamento, moda e beleza, três vezes por semana, no vespertino Tudo a Ver, que será pilotado por Paulo Henrique Amorim. Ela não vai ter um programa de auditório de cara. Vamos construir uma história antes de desenvolver um projeto próprio. Ela deve estrear na linha de shows e entretenimento em outubro, avisa Vargas.
Apontada como exemplo profissional, Ana arranca elogios. É disciplinada, classuda, chique, uma vencedora. E fala muito bem, aponta a estilista Lenny Niemeyer, da grife Lenny, que trouxe a loura para desfilar com exclusividade na última edição do Fashion Rio.
Com patrimônio estimado em 3 milhões de reais, Hickmann costuma cobrar 150 mil reais por um dia de fotos. Para atravessar a passarela com os famosos pernões, ela ganha 50 mil reais. Não tem preço ter uma mulher como ela atrelada ao seu produto. Ana pode se dar ao luxo de escolher o desfile que quer fazer, diz Lenny.
Diretor da Mega Internacional, agência de Ana, Sérgio Mattos diz que ela não é uma modelo como as outras. É uma top-empresária. Soube valorizar sua imagem. Com a ida para a TV, o cachê aumenta, com certeza, aponta Mattos. Para ele, Ana vai estourar. Modelo atinge público A e B. Agora, na TV, quem nunca ouviu falar em Ana Hickmann vai conhecer. Ela vai passar a ser identificada por todos os públicos, no Brasil inteiro, como uma Galisteu, compara.
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7:58 AM by Cassiano Leonel Drum
Luis Fernando Verissimo
19/07/2004
Anticorpos
O economista italiano Paolo Labini, escrevendo sobre a vergonha que tem do atual primeiro-ministro do seu país, diz que Silvio Berlusconi ainda não merece o apelido que lhe deram, de "Piccolo Césare", mas é uma ameaça real aos "anticorpos" que, numa democracia, protegem contra o vírus do autoritarismo. No caso de Berlusconi, com seu controle sobre grande parte da mídia italiana e sua necessidade de escapar de processos antigos e novos, os anticorpos ameaçados são a liberdade de imprensa e a independência da justiça.
A Itália tem uma história de autoritarismo triunfante, dos Césares ao Duce e aos capos dei capi, e teme-se pela competência dos anticorpos para enfrentar mais esta inflamação. Já nos Estados Unidos, os anticorpos têm melhor retrospecto. Esse sucesso do Fahrenheit 9/11, do Michael Moore - o primeiro documentário a ter público de filme arrasa-quarteirão, nos Estados Unidos -, é um fenômeno cultural que provavelmente não terá no eleitorado o efeito anti-Bush que muitos esperam, mas vale como a evidência mais espetacular da reação em curso aos desvios de conduta democrática que extremistas conservadores quiseram impor a uma nação aterrorizada.
Jornais que engoliram todas as mentirosas razões oficiais para ir à guerra no Iraque, e a conversa de que ser crítico era ser antipatriótico, agora se desculpam com seus leitores. Tribunais americanos estão defendendo os direitos humanos de presos contra os argumentos de emergência nacional para justificar o arbítrio, como no campo de concentração de Guantánamo.
As denúncias da imprensa reacordada sobre tortura de prisioneiros iraquianos por soldados americanos deram numa comissão de inquérito no Congresso que pelo menos deve ter inibido novas torturas. Entre parênteses: devemos ter ciúme do Iraque. Nenhuma comissão do Congresso investigou as supostas aulas técnicas dadas por instrutores do Pentágono a torturadores latino-americanos naquela Escola das Américas, na época dos generais. Fecha parênteses ressentidos.
Os anticorpos em ação hoje são iguais aos que reagiram à histeria macarthista, nos anos 50 e depois à carnificina sem sentido no Vietnã. Ninguém sabe como a América profunda votará nas eleições de novembro. Pode muito bem reeleger seu projeto de César. Mas a América que cultua o seu "Bill of Rights" e sua tradição de irreverência, crítica livre e respeito aos direitos e à inteligência de todos, a América, enfim, admirável, está aí, viva e bem. E mobilizada contra o vírus.
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7:56 AM by Cassiano Leonel Drum
Nei Lisboa
19/07/2004
Perguntem ao gato
Cresci numa época e ambiente em que contestação era palavra-chave. Para qualquer idéia de autoridade que ousasse se manifestar, imediatamente era providenciado um antídoto. Bem compreensível, perante a insuportável realidade do autoritarismo pisoteando gerações e fermentando um silente e enorme não a tudo que o pudesse representar.
Em dado momento, creio que essa negação quis abolir o próprio pensar, estabelecendo a comunhão com uma natureza ideal, pacífica e primaveril como o estado de alma a ser perseguido através de variadas poções mágicas. E, mais adiante, o politicamente correto tratou de normatizar essa submissão à liberdade com soluções realmente do arco-da-velha. Estou falando de forma genérica, para chegar a um ponto bem específico: o Atirei um Pau no Gato.
A tenebrosa versão da música que hoje se ensina às crianças ("Não atirei um pau no gato / Porque isso não se faz /...") parece ser um subproduto dessa contestação cega, já de saída acrescentando um não ao início da letra. Alegam os defensores da idéia que a versão original sugestionaria a criança a cometer atos de violência contra animais.
Supondo, então, por essa tese, que o infante ouvinte venha de fato ater-se ao sentido literal da frase, pergunto: fica a imaginar o quê, alguém a quem do nada se notifica que não se cometeu uma barbárie? Que tal acrescentar a esse cancioneiro pedagógico coisas como "Não toquei fogo no cachorro / porque ele é legal", ou "Não enforquei o coelhinho / porque ele é bonitinho"?
Ainda antes disso, suspeito que a letra original, toda ela, cumpra uma função simbólica para a criança que a canta (e frisa sílabas finais como, "tô-tô", "(r)eu-eu", "cá-cá") da maior importância e vitalidade. Se não tenho como avançar nesse território com a segurança de pedagogos e psicólogos, tenho pelo menos a evidência de que a canção atravessou intacta em seu sucesso um sem-número de gerações.
E quem disse que ela algum dia, em algum lugar do universo, induziu um pivete a jogar um toco de madeira num bichano? O gato prestou queixa? Melhor, alguém se lembrou de consultá-lo? Que se faça isso, então, garanto que ele prefere a música como sempre foi. Até porque, como é inevitável que muitas crianças continuem aprendendo e cantando a versão antiga, essas facções de baixinhos politicamente corretos e incorretos vão acabar se batendo na cabeça - com o pobre do gato.
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7:54 AM by Cassiano Leonel Drum
Paulo Sant'ana
19/07/2004
A invencionice
A tal pobreza brasileira apresenta algumas contradições. É inacreditável, mas existem 54 milhões de telefones celulares em funcionamento no Brasil.
Ou seja, é quase um celular para cada três habitantes.
Assim posto, transmite a idéia de que os brasileiros enriqueceram.
No entanto, como estamos atingindo 179 milhões de habitantes, vê-se então que 125 milhões de brasileiros não possuem telefones celulares. Assim fica mais palatável a estatística.
Ainda mais que 79% dos celulares em uso no Brasil são pré-pagos, isto é, supostamente adquiridos por pessoas de pequeno poder aquisitivo.
O celular é um equipamento necessário ou supérfluo? Não sei não, mas este levantamento parece indicar que muita gente está se alimentando menos para telefonar no celular.
As estatísticas por vezes nos deixam perplexos. Eu, por exemplo, nunca entendi como é que Porto Alegre pode ter quase 700 mil veículos emplacados, enquanto a sua população é de 1,7 milhão de habitantes.
A estatística manda que metade da população saia para as ruas dirigindo um carro, pilotando uma camioneta ou caminhão ou montada numa moto.
Mas não é isso que se nota ou que se espera. O que se nota e o que se espera é que a grande maioria dos porto-alegrenses, entre eles as crianças, não possua veículo automotor.
Então como é que se explica a estatística?
Raras vezes um jogador de futebol faz quatro gols numa partida. A lembrança mais nítida que se tem é de um Gre-Nal em que Marino, avante do Grêmio, fez quatro gols.
Pois não é que o Danilo do Inter fez quatro gols anteontem em apenas 45 minutos, tendo mandado uma bola na trave e sido vítima da insensibilidade de seu treinador, que não permitiu que ele chutasse o pênalti que Alex converteu (quando um jogador já fez quatro gols, o humano é que ele cobre o pênalti, permitindo que alargue o seu recorde).
Foi uma grande exibição do Internacional. Fica-se com pena dos torcedores colorados que não puderam assistir à partida, principalmente por ser cobrado preço inatingível para o poder aquisitivo dos pobres.
Uma grande lástima a derrota do Grêmio frente ao Palmeiras. Ainda mais que foi a melhor partida do Grêmio neste campeonato.
O jogo se encaminhava para o final com o Grêmio melhor que o Palmeiras, com o árbitro sonegando um pênalti favorável ao time de Plein, o empate seria um ótimo resultado para quem pena na zona do rebaixamento.
Então o grande desastre: revelando irresponsabilidade, o treinador gremista desengavetou um sarcófago do banco: colocou Fábio Pinto no lugar de Felipe Melo e desmoronou o time gremista.
Por que será que os treinadores se metem assim a inventores extravagantes, modificando uma experiência exitosa de campo por providências mirabolantes?
É a segunda vez que Plein autoriza a si próprio invencionices bizarras, desconhecendo que está treinando um time pequeno mas de clube grande, ou seja, as suas lunáticas modificações atingem em cheio uma coletividade majoritária na torcida gaúcha.
Não acho que Plein seja um mau treinador, mas que vá inventar loucamente assim em time de torcida pequena.
Uma catástrofe a sacada do técnico.
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7:46 AM by Cassiano Leonel Drum
Clima
Inverno com todas as letras
No Estádio Beira-Rio, o poncho foi a saída para enfrentar as baixas temperaturas, que chegaram a 4ºC em Porto Alegre e a -1,3ºC em Cambará (foto Mauro Vieira/ZH)
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Domingo, Julho 18, 2004
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9:15 PM by Cassiano Leonel Drum
Em foco: Gustavo Franco
Parcerias complicadas
É preciso abandonar a ilusão de que as parcerias público-privadas serão uma solução mágica para o investimento em infra-estrutura no Brasil
Ilustração Ale Setti
A lógica econômica da privatização nunca foi difícil de entender. A família tem dívidas altíssimas, rendas muito disputadas pelos parentes e diversos bens, a maioria dando mais despesa do que rendimento. Vender alguns desses bens para quitar dívidas é uma idéia muito boa para melhorar as finanças familiares. Mas essa idéia não resolve tudo, especialmente se a família não controlar sua vocação para gastar. Por isso mesmo a família adota, um tanto tardiamente, é verdade, uma diretriz, conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que, encurtando a história, tira os cartões de crédito e os cheques especiais de todos os seus membros.
É nesse contexto que se apresenta o seguinte problema: a família tem alguns terrenos de baixo valor comercial em que está obrigada a fazer investimentos para os quais não tem dinheiro. Ela já se endividou tudo o que podia. A solução mais sensata para transferir essa responsabilidade é vender, ou arrendar, o terreno, talvez por preço simbólico, exigindo em contrapartida que o comprador assuma obrigações como a de investir no terreno, a de "universalizar" os serviços ali proporcionados, a de cobrar tarifas razoáveis ¿ e a de devolver o terreno com as benfeitorias depois de algum tempo.
Quando o terreno é bom a ponto de permitir que o operador privado ganhe dinheiro cumprindo todas essas obrigações, a solução mais simples (e já pronta) é a privatização. O problema está, todavia, nos casos em que a exploração privada dá prejuízo. São as situações nas quais o preço do terreno (juntamente com as obrigações para quem o compra) é negativo, ou seja, a família tem de pagar ao empresário para que ele assuma o terreno. Aqui as privatizações são impossíveis e as parcerias público-privadas ¿ as PPPs ¿ se apresentam como solução. Os problemas, contudo, são muitos.
O primeiro é que as PPPs não competem com as privatizações. São complementares a elas, e não devem ser usadas como pretexto para interromper privatizações e respectivos investimentos em áreas onde tudo está pronto. O segundo é que as dificuldades regulatórias existentes, por exemplo, no saneamento e na eletricidade inviabilizam tanto privatizações quanto PPPs. O terceiro tem a ver com os preços que o governo pagará: se nas privatizações era comum o questionamento dos preços mínimos de venda, mesmo se tratando de avaliações relativamente simples, imaginem como será no caso dos pagamentos feitos pelo poder público em projetos de PPP.
O quarto problema é o da personalidade jurídica do arranjo. Na privatização fica muito claro onde acaba o setor público, onde começa o privado. As PPPs estão no meio do caminho, e não existe um empreendimento "meio público", assim como não existe "meia gravidez". Ao afastar, em certos procedimentos, os rigores e impedimentos da administração pública, a lei das PPPs enfrentará dificuldades conceituais e caminhará sobre gelo muito fino. Talvez nem mesmo encontre o equilíbrio entre o "público" e o "privado".
Um quinto problema, mais rasteiro, é o que vem sendo debatido pelo senador Tasso Jereissati e pelo ministro do Planejamento, Guido Mantega: como a parceria pode levantar dinheiro. Se a família for a devedora, garantidora ou avalista, estaremos ferindo a LRF. Se, todavia, o empresário "securitizar" ou ceder o que tem a receber da família para um banco, o que a lei prevê expressamente, é menos claro que está havendo "endividamento público".
O senador, e também o Tesouro Nacional, acha que sim. O ministro diz que se trata de "despesa de caráter continuado", prevista no artigo 17 da Lei de Responsabilidade Fiscal. Paga-se prestação, mas não há dívida.
No sistema de contabilidade adotado nos EUA e pelas empresas brasileiras que têm suas ações negociadas em Nova York, esse tipo de despesa "recorrente" é contabilizado como dívida. A contabilidade dos governos deveria ser até mais rigorosa que a das empresas privadas "globalizadas", ou não deveria? Os problemas são difíceis, mas não insuperáveis. E começarão a se resolver na medida em que se abandonar a ilusão de que as PPPs serão uma solução mágica para o investimento em infra-estrutura.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com; www.gfranco.com.br)
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9:11 PM by Cassiano Leonel Drum
Diogo Mainardi
Seria o caso de mudar para Cabul?
"As crianças deficientes do Afeganistão estão melhor do que antes. As do Brasil, pior. O governo Lula as lesou em mais de uma oportunidade"
NA INTERNET
Arquivo de áudio, colunas anteriores e outras informações em www.veja.com.br/diogomainardi
Liguei para Cabul. Pedi para falar com a fisioterapeuta islandesa Steina Olafsdottir. Ela dirige a primeira clínica para tratamento de paralisia cerebral do Afeganistão. Antes da abertura da clínica, em janeiro deste ano, as crianças com paralisia cerebral não recebiam tratamento algum. Ficavam jogadas num canto. Agora mudou. Os pais finalmente podem se dar conta da potencialidade dos filhos.
A principal causa de paralisia cerebral no país são as complicações decorrentes de partos domésticos. A construção de novas maternidades deve alterar o quadro. Cerca de 500 crianças com paralisia cerebral já foram atendidas na clínica, algumas delas vindas de cidades distantes, como Herat, Kandahar e Jalalabad. O projeto é financiado pela Cruz Vermelha italiana.
Deve durar dois anos. Steina Olafsdottir recrutou um grupo de fisioterapeutas afegãs, que está recebendo treinamento profissional, para que as crianças continuem a ser atendidas depois que os estrangeiros forem embora. As fisioterapeutas afegãs, como todas as outras mulheres do país, eram impedidas de trabalhar durante o regime dos talibãs.
Steina Olafsdottir chegou a Cabul em outubro do ano passado. De lá para cá, segundo ela, a cidade se transformou. Há mais carros nas ruas, mais segurança, mais dinheiro na mão das pessoas. O Afeganistão sumiu das primeiras páginas dos jornais, mas está se ajeitando. As eleições parlamentares tiveram de ser adiadas para abril do ano que vem.
Por outro lado, as eleições presidenciais estão marcadas para 9 de outubro. Atentados terroristas ameaçam o processo democrático. Por outro lado, dois terços dos eleitores já se registraram para votar. A maior fonte de renda do país ainda é o contrabando de ópio. Por outro lado, a economia legal cresceu 20% no último ano. Falta dinheiro para investimentos em obras essenciais.
Por outro lado, os países ricos, reunidos em Berlim, comprometeram-se a desembolsar 8 bilhões de dólares. O interior é dominado por milícias armadas. Por outro lado, Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha já adestraram milhares de soldados locais. Os talibãs controlam muitas áreas remotas do país. Por outro lado, os refugiados começam a retornar.
As crianças deficientes do Afeganistão estão melhor do que antes. As do Brasil, pior. Lula é deficiente físico. Perdeu o dedo numa prensa. Conseguiu comprar um terreno e móveis com a indenização. Apesar disso, seu governo lesou os deficientes em mais de uma oportunidade.
Lula impediu a destinação de recursos do Fundef para escolas particulares dedicadas a alunos deficientes, com o argumento de que era proibido por lei. Prometeu encontrar uma solução para o problema, tirando o dinheiro de algum outro lugar. Tirou mesmo, só que, no meio do caminho, a verba encolheu cerca de 1,5 bilhão de reais.
Cada aluno deficiente mereceu um total de 33,50 reais anuais. Lula também suspendeu o pagamento de uma contribuição social a 15.000 deficientes com renda mensal superior a 65 reais. Deficientes com renda de 70 reais não só pararam de receber o benefício, como poderão ser obrigados a devolver tudo o que ganharam no passado. Claro que ainda não é o caso de arrumar as malas e mudar para Cabul. Daqui a alguns anos, possivelmente.
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8:23 PM by Cassiano Leonel Drum
Do mistério dos reencontros
Vinicius de Moraes diz em uma de suas músicas: a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. No final do ano passado recebi um correio eletrônico de um importante e famoso jornalista brasileiro; perguntei se podia reproduzir suas palavras nesta coluna, ele me deu permissão, mas concordamos em manter seu anonimato. Por causa disso, os lugares onde trabalhou ou trabalha estão suprimidos.
Tenho em casa uma parede imantada, com uma tinta especial que tem a propriedade de funcionar como um ímã. Coloquei ali muitas fotos (presas com uns imãzinhos como os de geladeira, mas bem pequeninos).
Um domingo, estava na sala com minha mulher com quem estou casado há quatro anos e resolvi contar um sonho que tivera na noite anterior com um tio meu, morto em 1981, que se chamava Luiz.
Nunca tinha falado nele, embora tivesse um papel importante em minha vida. Meu pai, sírio, trabalhava como um louco e eu pouco o via; saía à seis da manhã e chegava às dez da noite. Meu tio Luiz, irmão de minha mãe, ambos filhos de meu avô, também sírio, vivia lá em casa. Tinha uma visão diferente da vida, nunca se acostumou à rotina de um trabalho normal e meu pai custava a aceitar como um filho de sírio não trabalhava duro. Mas eu, ainda criança, não entendia direito a situação, e me acostumara com sua presença, e adorava sua companhia.
Em 1981, meu tio morreu de maneira trágica; todos sofreram muito, e a relação da família terminou se dispersando. Nos anos que se seguiram, continuei mantendo relações apenas com um de meus primos, chamado Ahmad. Tornei-me jornalista, fui trabalhar em uma importante revista; um belo dia decidi largar tudo, e correr o mundo. Passei seis meses fora, voltei para trabalhar em um jornal, e quando quis contactar Ahmad, não consegui mais encontrá-lo.
Desde 1989 não tive mais notícias dele. Naquele domingo do final de 2003, conversando com minha mulher, lembrei-me de um sonho que tivera na noite anterior, onde via meu tio e meu primo Ahmad. Foi então que lhe contei pela primeira vez essa história, e disse que colocaria uma foto de meu tio na parede imantada. Escolhi uma onde Tio Luiz aparece segurando uma garrafa de refrigerante. Minha mulher, que nada conhecia dessa história, concordou.
Na terça-feira seguinte, estava em minha sala agora trabalhava em televisão quando minha secretária disse que um homem chamado Ahmad estava na linha, e se dizia meu primo. Como meu nome aparece freqüentemente nos créditos de determinados programas, estou acostumado a receber telefonemas de árabes de todo o Brasil, que se consideram meus primos, orgulhosos de terem um patrício em cargo tão importante. Sempre os atendo bem, mas naquele dia, muito atarefado, pedi para minha secretária dizer que eu estava ocupado.
Ela voltou a me ligar: a pessoa insistia em afirmar que era meu primo. Eu, impaciente, e sem supor quem era, insisti: todos os meus parentes estão na Síria, não tenho ninguém aqui, somente meu pai, minha mãe e três irmãos.
Foi então que minha secretária dise que a pessoa se identificava como Ahmad, filho de Luiz, neto de Mohamed e Maria.
Fiquei gelado. Atendi o telefone, não contive a emoção e chorei, porque me lembrei imediatamente do sonho com meu tio e da conversa com minha mulher, apenas dois dias antes. Embora já estivéssemos casados há quase quatro anos, jamais lhe contara a história.
Ahmad me disse que sempre vira meu nome nos créditos de certos programas, mas nunca quis entrar em contato, até mesmo porque temia que eu não fosse o seu primo. Mas uma reportagem de televisão naquele domingo (justamente o dia que eu conversava com minha mulher sobre ele e sua família) exibiu uma longa matéria sobre um hospital caindo aos pedaços no subúrbio do Rio de Janeiro. A matéria teve grande repercussão e motivou outros telejornais a darem continuidade ao tema. Ao ver um jornalista da TV onde trabalho, pediu meu telefone, e nos reencontramos depois de 14 anos.
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