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Vocês encontrarão aqui muitas figuras construidas em Flash, Fireworks, Swift3D e outros aplicativos. Encontrarão também muitas crônicas do Luiz Fernando Veríssimo, Martha Medeiros, Macaco Simão e de outros cronistas de jornais diários e de revistas semanais. Endereço para email: cassiano.leonel@terra.com.br e para observações e comentários utlize os links disponíveis nos próprios textos. Espero que ele seja útil a você de alguma maneira, pois esta é uma das razões dele existir.

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Sábado, Julho 31, 2004




Martha Medeiros
01/08/2004


O valor das coisas

Desinformados, raramente conseguimos destacar o raro do medíocre. O valor das coisas está no conhecimento das coisas

Outro dia estava assistindo a um programa de tevê que mostrava relíquias da dinastia Ching, especialmente vasos. Peças de valor incalculável, que não eram cedidas nem mesmo a museus, estavam confinadas numa espécie de bunker chinês, preservadas de qualquer olhar. Fiquei pensando: se alguém colocasse um vaso daqueles numa feira de artesanato ao ar livre, junto a outras quinquilharias, as pessoas talvez pagassem 40 reais por ele, não mais.

O mesmo poderia acontecer com uma gravura de Roy Liechtenstein misturada a cartoons expostos numa mostra universitária, ou com um colar do designer Antonio Bernardo pendurado na parede de uma loja de bijuterias, ou uma escultura do Aleijadinho vendida na beira da estrada junto a anjos feitos com material barato. Desinformados, raramente conseguimos destacar o raro do medíocre. O valor das coisas está no conhecimento das coisas.

Tão óbvio, e no entanto há um mundaréu de gente que satisfaz sua curiosidade bisbilhotando a vida alheia, e se contentam com isso. Estão bem informados sobre a novela, sobre a intimidade dos artistas, sobre as fofocas do seu seleto grupo de amigos, e isso é suficiente para preencher-lhes o espírito. Qualquer outra informação adicional - arte, literatura, música, filosofia - é papo de intelectual, e intelectual no sentido mais pejorativo do termo.

Só é possível valorizar aquilo que foi estudado e percebido em sua grandeza. Se eu não me informo sobre o valor histórico de uma moeda que circulava na época dos otomanos, ela passa a ser apenas uma pequena esfera enferrujada que eu não juntaria do chão.

Se eu não conheço o significado que teve uma muralha para a defesa de grandes impérios, ela vira apenas um muro passível de pichação. Se eu não reconheço certos traços artísticos, um vitral de Chagall passará tão despercebido quanto o vitral de um banheiro de restaurante. Podemos viver muito bem sem cultura, mas a vida perde em encantamento.

Vale para pessoas também. Sempre que a gente se conforma com meia dúzia de informações a respeito de alguém- signo, idade, estado civil, time, partido e profissão - perdemos a chance de admirá-lo. Gostamos de muitas pessoas, mas quantas delas a gente admira de verdade? Só aquelas que tivemos a sorte de conhecer mais profundamente.

A ignorância parcial é comum, não há como a gente armazenar milhões de informações, mas ignorância absoluta é preguiça. Faz tudo e todos parecerem iguais. E a vida se torna mais fútil.

Aproveitando o assunto, fica aqui a dica dos cursos de introdução à história da arte ministrados por Clarisse Linhares e Mylene Friedrich. Dia 9 inicia uma nova turma, que estudará o Período Medieval e o Renascimento. Informações pelo e-mail encontroscomarte@terra.com.br .

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Pois não é que é verdade: às vezes, um único golpe bem assestado da mulher é o suficiente para acabar com a vida do homem. E modificá-la então, seguir estradas impensadas até então nem se fala, tudo por elas...Mas leiam a crônica do Coimbra e tenham um ótimo domingo.

David Coimbra
01/08/2004


A camiseta da ex-mulher

Às vezes, um único golpe bem assestado da mulher é o suficiente para acabar com a vida do homem. Foi nessa verdade que pensou Jonas quando Lisi lhe entregou aquela maldita camiseta.

A marca do centroavante Jonas era a camiseta que usava debaixo da camisa do time em cada jogo. Desde o começo da carreira, sempre que marcava um gol, Jonas puxava a camisa do time até o pescoço e exibia a camiseta branca com uma mensagem escrita no peito. Se fizesse gol no primeiro tempo, trocava de camiseta durante o intervalo e ia a campo com nova inscrição. Pois agora Lisi aparecia com aquela camiseta, quanta desgraça.

Jonas conhecera Lisi havia dois anos. Apaixonaram-se. Jonas queria passar o dia inteiro com ela, queria casar com ela, ter filhos com ela. Entre a paixão, apenas um obstáculo: a diferença de idade. Lisi tinha 33 anos; Jonas, 27.

- É demais - argumentava Lisi, já cogitando da separação. - Quando eu tiver 40 anos, você mal terá completado 34. Se fosse o contrário, tudo bem. Mas uma mulher não pode ser tão mais velha do que o homem...

Jonas resistia. Dizia que o amor verdadeiro não tem idade. Ela balançava a cabeça:

- Não, não...

Até que Jonas decidiu fazer-lhe a revelação.

- Olha, Lisi - começou, grave. - O que vou contar é muito importante. Pode acabar com a minha carreira. Com a minha vida!

Ela acedeu, preocupada:

- Pode confiar, pode confiar.

Depois de um suspiro, Jonas desabafou:

- É que sou gato.

Lisi sorriu:

- Claro que é. Um gatinho...

- Não, não - Jonas continuava grave. - Gato. Uma gíria do futebol: pra poder levar vantagem nos juniores, menti a idade, falsifiquei os registros. Na verdade, tenho 33 anos. Como você.

Lisi levantou as sobrancelhas de espanto:

- Não!

- Sim.

- Mas que coisa...

- Pois é.

A revelação prorrogou o amor deles por mais um ano e meio. Mas não foi o suficiente para imunizá-lo contra as pragas da paixão. Lisi era uma mulher braba, sabe como são as mulheres brabas... Acabaram se separando. Para Lisi, restou o ressentimento. Para Jonas, restou o trauma com as mulheres mais velhas. Em poucos meses, estava de namorada nova, uma moreninha de 22 anos. Roberta, o nominho dela.

- Nossa diferença de idade é perfeita - dizia Roberta. - Cinco anos. Nunca namoraria alguém que fosse, por exemplo, sete anos mais velho.

Jonas estremecia. Felizmente, seu segredo estava muito bem guardado.

Pelo menos era o que ele achava. Até o dia em que a ex bateu à porta de seu apartamento com aquela camiseta na mão. Antes de dizer boa noite, antes até de xingá-lo, Lisi lhe atirou a camiseta no nariz.

- Que é isso? - balbuciou Jonas, lendo a inscrição: "Te amo, Lisi. Sempre te amarei".

Jonas riu:

- Está brincando?

- É bom que você compreenda que isso é muito sério - rosnou Lisi, e parecia que falava a sério mesmo. - Você vai usar essa camiseta no próximo jogo. Quando marcar um gol, vai mostrá-la para a torcida, para as TVs. Para o mundo.

- Você está louca - Jonas não estava mais rindo. - Por que eu faria isso?

- Porque, se não fizer, vou aos jornais contar a sua verdadeira idade!

Jonas começou a suar. Ia dizer que ela não faria aquilo, mas leu nos olhos de fogo dela que ela faria, sim. Balbuciou:

- P... por que isso, Lisi?

- Porque sim. Porque eu quero. Faça isso, e não vou mais incomodar. Adeus. Vou estar de olho na TV.

Jonas ficou parado à soleira da porta, com a camiseta na mão. E agora? Se fizesse o que a ex queria, a atual namorada deixaria dele. Roberta não suportaria aquela declaração pública de amor à outra. Contar a verdade a Roberta estava fora de cogitação - seria mais uma a saber do seu segredo e, além disso, ela não ia querer ficar com um homem tão mais velho do que ela. Mas desobedecer a ex também era alternativa horrenda. Caso Lisi cumprisse a ameaça, a carreira dele estaria acabada. Talvez fosse até preso!

Essas questões circularam entre os miolos de Jonas durante todos os minutos que antecederam o jogo. Na hora de entrar em campo, as palavras na camiseta lhe queimavam o peito como se tivessem sido inscritas com óleo fervente. Jonas suava nas mãos, tremia. O que faria quando marcasse um gol? Mostraria a camiseta? Ou não? Olhou para as arquibancadas, para o ponto onde devia estar Roberta. Robertinha. Robinha. Sua Robinha. Suspirou. Que fazer, na hora do gol? Que fazer?

O adversário era fraco, em menos de 10 minutos, a bola sobrou para ele duas vezes, dentro da grande área. Jonas preferiu passar para um companheiro melhor colocado. Ou nem tão bem colocado, mas em condições de receber o passe. Aos 15, nova chance: Jonas recebeu a bola na frente dos zagueiros, o bandeirinha assinalou impedimento. Não era, mas ele nem reclamou. Ficou aliviado. Até o fim do primeiro tempo, Jonas deixou de marcar pelo menos mais três gols. No intervalo, o técnico o procurou:

- Que está acontecendo, Jonas?

- Nada, professor. Nada...

No segundo tempo, ele resolveu jogar fora da área, na intermediária, armando. Parecia um volante. Nas rádios, os comentaristas tentavam entender a mudança tática do treinador.

- A estratégia do técnico é brilhante! - exultava o Wianey Carlet. - Brilhante! Já havia preconizado isso na minha coluna.

Jonas nem sequer se aproximou da meia-lua. Mesmo assim, aos 33 minutos, o atacante Julinho entrou na área foi derrubado e... pênalti! Jonas estremeceu. Ele era o batedor oficial.

- Quem sabe você bate - sugeriu ao Julinho.

- E se erro? O homem me mata - respondeu o colega, apontando para o técnico. - Não, não: você bate.

Jonas apanhou a bola. Ela pesava como um cofre. Fechou os olhos. Abriu-os. Levou a bola até a marca da cal. Olhou para cima, para o azul do firmamento. Não sabia nem o que pedir a Deus. Correu para a bola sentindo vontade de chorar.

Chutou.

Para fora.

Medonhamente para fora. A torcida ficou pasmada nas arquibancadas, os locutores berravam nos microfones, Roberta deu um pulinho de susto nas cadeiras e Jonas, o pobre Jonas, teve ali mesmo, parado na marca do pênalti, a certeza de que jamais voltaria a marcar um gol. Então, pensou mais uma vez naquela frase: às vezes, um único golpe bem assestado da mulher é o suficiente para acabar com a vida do homem.

david.coimbra@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
01/08/2004


Com e sem

Aquela era a divisão fundamental entre as pessoas: as que pediam água mineral com gás e as que pediam água mineral sem gás

Querida Roberta: Você deve estar estranhando meu silêncio e pensando que eu talvez tenha morrido ou, pior, esquecido você.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Continuo razoavelmente vivo e em vez de esquecê-la, não paro de pensar em você. Só o que faço, desde o nosso jantar, é pensar em você. Sim, o jantar, o fatídico jantar em que finalmente nos conhecemos.

Antes éramos apenas seres abstratos, nomes numa tela de computador. O meu nickname era Sonhador e o seu era Bebeta e lembro a primeira coisa que você me perguntou, "Com que sonha o Sonhador?" e eu respondi "Encontrar alguém sonhador como ele". E você: "Serei eu?" E eu: "Me diga com o que você sonha".

E você: "Sonho em encontrar alguém que sonha comigo, mesmo sem me conhecer". E eu: "Me diga como você é". E você: "Me invente, me invente". E eu: "Mas você já se inventou, ou seu nome verdadeiro é mesmo Bebeta?" E você: "Claro que não. Ou seu nome verdadeiro é Sonhador da Silva?" E depois: "Como nunca vamos nos encontrar, invente a Bebeta que você quiser". E eu: "Por que nunca vamos nos encontrar? Vamos sim.

Eu preciso conhecê-la, para ter com o que sonhar". E você: "Mas aí eu não serei mais um sonho seu, mas uma lembrança, e nem serei mais eu, pois meu sonho é alguém que sonhe comigo sem me conhecer e você me conhecerá". Foi então que eu decidi que tinha que conhecê-la.

Você resistiu. Eu insisti. Em vez de sonhar com a abstração, perdi o sono pensando em como seria, concretamente, essa Bebeta que não queria se mostrar, e não queria ver como eu era. Seria feia? Seria velha? Seria homem? Eu precisava conhecê-la.

Finalmente você sugeriu que fôssemos à mesma hora a um local público em que haveria muita gente, sem nada que nos identificasse um para o outro, e tentássemos adivinhar quem era um e quem era o outro. E você lembra o que aconteceu. Você me reconheceu. A mulher mais bonita de todas as que estavam ali bateu no meu ombro e disse "É você o Sonhador?", e era eu. Mal pude dizer "Eu devo estar sonhando".

Depois fomos jantar, e só o que eu conseguia pensar era "Isto não pode estar acontecendo comigo. Não pode ser verdade. Uma mulher dessas. O que eu estou fazendo com uma mulher dessas?" Você talvez não tenha notado o efeito que causava em mim, pobre de mim. Foi simpática o tempo todo. Maravilhosa o tempo todo. Me disse que seu nome era Roberta. Eu: "Sonhador da Silva". Depois: "Brincadeira..." e disse meu verdadeiro nome. Você riu. Além de tudo, tinha os dentes perfeitos! Foi quando eu decidi que era demais.

O garçom perguntou se queríamos água mineral com ou sem gás.

Respondemos ao mesmo tempo. Eu: "Com". Você: "Sem".

Você deve ter estranhado que o resto da nossa conversa foi sobre a minha teoria de que aquela era a divisão fundamental entre as pessoas: as que pediam água mineral com gás e os que pediam água mineral sem gás. Eram as duas grandes tribos humanas, os do com e os do sem.

Você riu outra vez, com os mesmos dentes, até se dar conta de que eu estava falando sério, de que aquele assunto me absorvia, me obcecava. Você tentou mudar de assunto, saber mais a meu respeito, contar mais a seu respeito, descobrir gostos comuns, talvez planejar um futuro em comum para nós.

Mas eu voltava ao tema dos com e dos sem com ênfase crescente. Era irreconciliável aquela divisão entre os com e os sem. Podiam conviver por alguma tempo numa mesma mesa ou numa mesma sociedade, mas fatalmente viria o grande cisma, e um dia a humanidade seria obrigada a escolher o seu lado definitivo, sem entendimento possível. Não estava fora de questão que a última guerra mundial fosse causada pela água mineral. E você se lembra que pedi licença para me retirar porque só pensar naquilo me causava depressão.

Você era demais para mim, entende, Bebeta? Nos conhecermos daquele jeito, nos encontrarmos daquele jeito, você ser perfeita, você não me rejeitar... Não era natural. Desculpe. Mas tenho pensado muito em você. E sonhado com você, Bebeta. Sonhado muito.

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Moacyr Scliar
01/08/2004


O mês da urucubaca

Muitos brasileiros acreditam que agosto é um período de mau agouro para casamentos, mudanças de casa e negócios

Num discurso sobre a situação econômica do país, o presidente Lula usou uma expressão não muito freqüente em pronunciamentos oficiais; ele disse que as coisas vão dar certo e que "a urucubaca não vai pegar".

Não é uma linguagem enigmática. Todo brasileiro sabe bem o que é urucubaca. E muitos brasileiros acreditam em urucubaca. Assim como muitos brasileiros acreditam que agosto é o mês do desgosto.

O que, aliás, não é uma crença só brasileira. Nos países latinos em geral, este é considerado um mês aziago, um mês de mau agouro para casamentos, mudanças de casa, negócios. "No lavarse la cabeza en el mes de agosto: llama la muerte", reza o folclore argentino.

E, no mês de agosto, há dois dias particularmente ruins: um é o 1° de agosto, considerado arriscado sobretudo para viagens; outro é o 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, dia em que o diabo anda à solta. Não faltará quem associe as duas datas a acontecimentos funestos. A Primeira Guerra mundial começou exatamente a 1º de agosto de 1914; 40 anos após, em 24 de agosto de 1954, suicidava-se o presidente Getúlio Vargas.

Coincidências à parte, existe uma diferença básica entre crendice e raciocínio lógico. Para a crendice, existem nexos invisíveis e inexplicáveis entre as coisas, nexos estes para os quais existem antídotos que também funcionam de modo inexplicável. Não é de admirar que, com a proximidade de agosto, a venda de amuletos tenha aumentado bastante, segundo uma matéria da revista Veja.

Além das proteções clássicas contra o mau-olhado, existe um misterioso fio dito cabalístico, um cordel vermelho que é atado no pulso com 7 nós. A moda foi lançada pela sempre irrequieta Madonna, que conseguiu a adesão de Demi Moore, Britney Spears e David Beckham (e que custa R$ 70). Uma corrente de prata com olhinhos coloridos é vendida na butique Daslu, de São Paulo, por R$ 450. O preço já está a indicar que superstição não é coisa só de pobre. Mesmo executivos recorrem a proteções desse e de outros tipos.

Temor supersticioso é uma coisa atemorizante, mortal até. No Haiti, existe um fenômeno conhecido como a morte vudu, estudado pelo grande pesquisador americano Walter B. Cannon. A pessoa que é objeto de um feitiço entra num estado de tal tensão que acaba morrendo pelo estresse resultante. Nas necropsias que fazia dos falecidos, Cannon não achava lesões orgânicas, evidência do poder da ansiedade e do medo.

No caso de agosto e, ao menos no Brasil, há uma explicação para as coisas que acontecem neste mês. Em nosso país, o ano se divide em dois semestres. O primeiro semestre começa, festivo, em pleno verão, logo depois do Natal e do Ano Novo, um pouco antes do Carnaval; é um semestre curto e cheio de festas.

O segundo semestre começa no inverno. É um semestre mais longo que o primeiro, e é o semestre em que os problemas empurrados com a barriga têm de ser, de alguma maneira, resolvidos. O segundo semestre é o período de acerto de contas; aliás, não por outra razão, nele ocorre o período eleitoral.

Os grandes movimentos políticos no Brasil ocorrem mais no segundo semestre, simplesmente porque há mais tempo para que eles possam ocorrer. E qual o mês que começa o segundo semestre? Julho? Não, julho, principalmente para a classe média, que é a grande caixa de ressonância em sociedades como a brasileira, é um mês de férias.

Férias que coroam o primeiro semestre. Terminam as férias, termina o primeiro semestre, damos de cara com agosto. Urucubaca? Não. Lógica. Lógica que, de alguma maneira, vai nos ajudar a enfrentar a crendice e o azar, não é mesmo? Vamos bater na madeira.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
01/08/2004


O pedágio de rapina

Ontem focalizei o absurdo de os contratos de pedágio permitirem que se cobrem tarifas dos ônibus de transporte coletivo, onerando gravemente o preço das passagens.

Não tenho nada contra os empresários que exploram praças de pedágio, eles são agentes econômicos triviais, assinam contrato de concessão com os governos, estão literalmente na sua.

O que sou obrigado a criticar com veemência é este sistema de pedágios que foi erigido entre nós no governo estadual passado, sendo logo imitado pelo governo federal, com distorções que se tornam carnívoras para grande parte das pessoas que transitam por nossas estradas.

Como é que podem ter sido firmados estes contratos com as empresas de pedágio permitindo que elas gravem os passageiros de ônibus com suas tarifas?

Se progredirem esses critérios espoliativos das cobranças de pedágios, em breve essas praças de cobranças serão instaladas dentro das cidades, não mais nas estradas, mas nas ruas e avenidas do perímetro urbano citadino.

É desumano e anticivilizatório cobrar-se tarifa de pedágio de pessoas que transitem diariamente pelas praças tarifadas.

Como é que o governo que assinou tais contratos não se acautelou com salvaguardas sociais que impedissem que passageiros de ônibus ou motoristas que são obrigados cotidianamente, por força de suas relações de trabalho e outros afazeres, a cruzarem praças de pedágio diariamente, não sejam isentos dessas tarifas?

Não se pode cobrar pedágio, em nenhuma hipótese, de quem esteja obrigado a transitar por uma estrada todos os dias em cumprimento de seu sustento, obviamente tinham que ser isentos da tarifa todos os que têm trajeto curto, embora intermunicipal, para trabalhar e ganhar a vida.

Simplesmente porque isso inibe a circulação e o trabalho, até mesmo o emprego, caso que se verifica cabalmente com os trabalhadores e desempregados de Guaíba e de outras centenas de cidades gaúchas.

Para quem faça uma viagem longa e marcada por certa eventualidade, cabe o pedágio. Jamais para pessoas que trabalhem numa cidade e morem na outra ou para pessoas que desenvolvam atividades profissionais diárias, que impliquem travessias de um ou dois municípios.

É injustificável a cobrança de pedágios, às vezes na ida e na volta, dessas pessoas.

Já se chegou ao cúmulo aqui no Rio Grande do Sul de empresas de pedágios, no maior caradurismo, fecharem estradas alternativas às praças de pedágio.

E, por falar nisso, onde estão as estradas alternativas ao pedágio, como manda o espírito da lei?

Sem falar nos reajustes das tarifas de pedágio, desumanamente impostos aos usuários com índices acima da inflação.

Como é que os governos permitem isso? As pessoas, sem voz, suportam esse pesado e injusto encargo. Ou então tombam profissional ou existencialmente diante da exploração. E vão cair na marginalização.

Então, é a hora de denunciar esses contratos que ferem o direito das pessoas de circularem em trajetos curtos, todos os dias, dentro de ônibus ou tripulando veículos, pagando uma tarifa de pedágio que incide direta e brutalmente sobre seu meio de sobrevivência, inviabilizando-lhes a existência.

O pedágio não tem o direito de esquartejar ou paralisar o indivíduo.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Serviços
Viagem à tecnologia oriental
No Japão e na Coréia do Sul, os celulares são usados como TV, cartão de crédito, videogame, guia de endereços e até telefone. Em Seul, por exemplo, o que mais se vê é gente com o aparelho na mão, como a estudante Choi Ming Young e seus amigos.



No Japão, é possível usar o aparelho até para comprar refrigerante. O desenvolvimento da indústria móvel justifica-se pela paixão que coreanos e japoneses nutrem pela tecnologia e pela concorrência acirrada entre as operadoras (foto: Rodrigo Müzell/ZH)

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Ponto de vista: Stephen Kanitz
Observar e pensar

"Ensinar a observar deveria ser a tarefa número 1 da educação. Quase metade das grandes descobertas científicas surgiu
não da lógica, do raciocínio ou do uso de teoria, mas da simples observação"


O primeiro passo para aprender a pensar, curiosamente, é aprender a observar. Só que isso, infelizmente, não é ensinado. Hoje nossos alunos são proibidos de observar o mundo, trancafiados que ficam numa sala de aula, estrategicamente colocada bem longe do dia-a-dia e da realidade. Nossas escolas nos obrigam a estudar mais os livros de antigamente do que a realidade que nos cerca. Observar, para muitos professores, significa ler o que os grandes intelectuais do passado observaram ¿ gente como Rousseau, Platão ou Keynes.

Só que esses grandes pensadores seriam os primeiros a dizer "esqueçam tudo o que escrevi", se estivessem vivos. Na época não existia internet nem computadores, o mundo era totalmente diferente. Eles ficariam chocados se soubessem que nossos alunos são impedidos de observar o mundo que os cerca e obrigados a ler teoria escrita 200 ou 2.000 anos atrás ¿ o que leva os jovens de hoje a se sentir alienados, confusos e sem respostas coerentes para explicar a realidade.

Não que eu seja contra livros, muito pelo contrário. Sou a favor de observar primeiro, ler depois. Os livros, se forem bons, confirmarão o que você já suspeitava. Ou porão tudo em ordem, de forma esclarecedora. Existem livros antigos maravilhosos, com fatos que não podem ser esquecidos, mas precisam ser dosados com o aprendizado da observação.

Ensinar a observar deveria ser a tarefa número 1 da educação. Quase metade das grandes descobertas científicas surgiu não da lógica, do raciocínio ou do uso de teoria, mas da simples observação, auxiliada talvez por novos instrumentos, como o telescópio, o microscópio, o tomógrafo, ou pelo uso de novos algoritmos matemáticos. Se você tem dificuldade de raciocínio, talvez seja porque não aprendeu a observar direito, e seu problema nada tem a ver com sua cabeça.

Ilustração Ale Setti

Ensinar a observar não é fácil. Primeiro você precisa eliminar os preconceitos, ou pré-conceitos, que são a carga de atitudes e visões incorretas que alguns nos ensinam e nos impedem de enxergar o verdadeiro mundo. Há tanta coisa que é escrita hoje simplesmente para defender os interesses do autor ou grupo que dissemina essa idéia, o que é assustador. Se você quer ter uma visão independente, aprenda correndo a observar você mesmo.

Sou formado em contabilidade e administração. A contabilidade me ensinou a observar primeiro e opinar (muito) depois. Ensinou-me o rigor da observação, da necessidade de dados corretamente contabilizados, e também a medir resultados, a recusar achismos e opiniões pessoais. Aprendi ainda estatística e probabilidade, o método científico de chegar a conclusões, e finalmente que nunca teremos certeza de nada. Mas aprendi muito tarde, tudo isso me deveria ter sido ensinado bem antes da faculdade.

Se eu fosse ministro da Educação, criaria um curso obrigatório de técnicas de observação, quanto mais cedo na escala educacional, melhor. Incentivaria os alunos a estudar menos e a observar mais, e de forma correta. Um curso que apresentasse várias técnicas e treinasse os alunos a observar o mundo de diversas formas. O curso teria diariamente exercícios de observação, como:

1. Pegue uma cadeira de rodas, vá à escola com ela por uma semana e sinta como é a vida de um deficiente físico no Brasil.

2. Coloque uma venda nos olhos e vivencie o mundo como os cegos o vivenciam.

3. Escolha um vereador qualquer e observe o que ele faz ao longo de uma semana de trabalho. Observe quanto ele ganha por tudo o que faz ou não faz.

Quantas vezes não participamos de uma reunião e alguém diz "vamos parar de discutir", no sentido de pensar e tentar "ver" o problema de outro ângulo? Quantas vezes a gente simplesmente não "enxerga" a questão? Se você realmente quiser ter idéias novas, ser criativo, ser inovador e ter uma opinião independente, aprimore primeiro os seus sentidos. Você estará no caminho certo para começar a pensar.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard
www.kanitz.com.br

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Diogo Mainardi
Brasil, cúmplice de um crime

"Lula foi à África. De novo. Assinou acordos para o plantio de mandioca com o ditador do Gabão. Deveria ter aproveitado a viagem para condenar o regime genocida do Sudão. Preferiu falar sobre maracatu"

Sudão. De um lado, os milicianos árabes ou "janjawid". Do outro, a população negra da região de Darfur. Os milicianos árabes querem tomar a terra dos negros. Já assassinaram cerca de 30.000 pessoas. Incendiaram vilarejos. Praticaram estupros em massa. Raptaram crianças. Envenenaram as fontes de água. Um milhão de habitantes de Darfur foram obrigados a abandonar suas casas. Dois milhões estão desnutridos. Cento e cinqüenta mil se refugiaram no Chade.

Trata-se da maior crise humanitária da atualidade. Que lado o Brasil escolheu nessa tragédia? O dos negros? Claro que não. O Brasil escolheu ficar com o regime do Sudão e seus esquadrões da morte árabes. Lula nos tornou cúmplices das atrocidades cometidas em Darfur.

A questão está sendo debatida no Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos, desde o fim de junho, defendem a imposição de sanções contra o regime ditatorial do Sudão, que arma e protege os milicianos árabes de Darfur. França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Chile apóiam a iniciativa. O Brasil, não. Uniu-se à Argélia e ao Paquistão para obstruir a proposta americana. O representante brasileiro na ONU, Ronaldo Sardenberg, sugeriu dar mais tempo ao regime do Sudão.

A Anistia Internacional calcula que 1.000 pessoas morrem por semana em Darfur. Dar mais tempo aos paramilitares sudaneses significa permitir o assassinato de ainda mais gente. Como disse o jornal Washington Post, o Brasil considera mais importante a soberania do que a vida.

Os parlamentares dos Estados Unidos, na última semana, definiram a situação em Darfur como um genocídio. Pediram uma intervenção urgente do governo americano, multilateral ou unilateral. Ou seja, com ou sem a ONU. George W. Bush ameaçou abertamente os chefes militares sudaneses, incitando-os a conter os "janjawid".

O candidato do Partido Democrata, John Kerry, foi ainda mais veemente. Discursando na maior associação de negros do país, demandou a punição imediata dos mandantes do genocídio. O movimento negro americano pressionou os políticos a se ocupar do genocídio de negros no Sudão. A ministra de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que representa o movimento negro brasileiro, optou por ignorar o imobilismo criminoso de seus colegas de governo.

Lula foi à África. De novo. Doou cinco ou seis computadores à população de São Tomé e Príncipe e assinou acordos para o plantio de mandioca com o ditador do Gabão, Omar Bongo, conhecido por ser o líder estrangeiro com o maior número de propriedades imobiliárias em Paris. O presidente deveria ter aproveitado a viagem à África para condenar o regime genocida do Sudão. Preferiu falar sobre maracatu.

A megalomania petista considera o Brasil importante o bastante para merecer uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Neste ano, ocupamos uma cadeira rotativa. A primeira decisão relevante de nosso mandato foi sobre as sanções ao Sudão. Escolhemos o lado errado. Decidimos ser coniventes com um crime. Ainda bem que daqui a um ano e meio tomam de volta nossa cadeira rotativa.

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Padarias fazem pães diferentes

Empresas buscam diversificar os produtos e serviços para garantir bons negócios
Silvana Caminiti

Foi-se o tempo em que as padarias vendiam só pão e leite. A concorrência com os grandes supermercados que também vendem esses produtos fez com que os empresários do setor da panificação buscassem a diversificação, para evitar a falência. Ainda assim, é grande o número de padarias que fecham, a cada ano.

Uma das maiores feiras do setor da panificação, a Fipan (Feira Internacional de Panificadoras), que começa hoje em São Paulo, vai mostrar as novas tendências para a área e o que a indústria que abastece padarias e panificadoras tem de novo a oferecer aos empresários.

Além da necessidade da diversificação do mix de produtos, a feira vai mostrar também a importância de ter funcionários bem treinados, seja no preparo de pães e outros itens, ou no atendimento ao cliente. Uma empresa carioca que pode ser considerada um sucesso no ramo é a Ateliê do Pão, na Tijuca. A empresa mantém uma clientela fiel, graças principalmente à diversificação de seus produtos.

Regina Corato, administradora do estabelecimento, conta que a padaria produz mais de 40 tipos de pães, além de tortas e mais 30 tipos de doces finos. Além disso, oferecemos pizza para viagem, sorvete de massa italiana, assados na brasa, e um serviço de bar, com venda de chope e petisco, comenta ela.

Para Regina, a diversificação é o principal diferencial da empresa, e é justamente o que atrai e fideliza a clientela, que ainda conta com serviço de entrega em domicílio.

O setor da panificação é concorrido, e é preciso oferecer um algo mais para não perder o cliente, ensina Regina, lembrando que a casa treina mensalmente seus funcionários, para garantir bom atendimento.

Ateliê do Pão:(21) 2278-0931

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Bela Jogada

Uniforme oficial dos atletas das Olimpíadas de Atenas se une às roupas descoladas e garante uma torcida em verde, azul e amarelo
Texto Marcia Disitzer / Fotos Márcio Mercante

Esporte e moda têm ficado cada vez mais próximos. E, às vésperas das Olimpíadas da Grécia, esse casamento atinge o nirvana. Dia 11, quando a seleção feminina de futebol entrar em campo, a combinação do verde, azul e amarelo estará lá em Atenas, fazendo bonito. Afinal de conta, nossas cores estão em alta no mercado fashion e nunca foram tão badaladas, comentadas e desejadas.

Para esquentar a torcida, a dica é juntar peças do uniforme oficial dos atletas da marca Olympikus, com assinatura do estilista Alexandre Herchcovitch, e maiô da Speedo, que patrocina vários atletas da natação, com roupas urbanas e descoladas, prontas para acelerar o dia-a-dia. Nessa corrida pelo estilo, todos são campeões. A sofisticação do paetê, a flexibilidade e o conforto dos tecidos elásticos e os medalhões dourados se unem ao uniforme olímpico e ganham o jogo da moda. Agora, é só correr para o pódio e comemorar.



CAMISETA Olympikus (R$ 52,90) sobre segunda-pele Yes, Brazil (R$ 89) e saia Animale (R$ 139).Pulseiras Francesca Romana (a partir de R$ 98)



CASACO Olympikus (R$ 306, o conjunto com calça) e colar Francesca Romana (R$ 218)



MAIÔ e óculos Speedo na Sport Society (R$ 79,90 e R$ 67,90) e tricô Maria Filó (R$ 104). Broche Francesca Romana (R$ 116)



REGATA Maria Filó (R$ 59) sob blusa Yes, Brazil (R$ 89), camisa Corpo e Alma amarrada na cintura (R$ 84) e corrente Fiszpan (R$ 42). A calça é Olympikus (R$ 306, o conjunto com jaqueta)

FICHA TÉCNICA: MODELO Nayana Montechiari (Ag. Mega); CABELO E MAQUIAGEM Fernando Rodrigues (com produtos Trucco & Sebastian); PRODUÇÃO Mariana Salim; LOCAÇÃO Academia Estação do Corpo da Lagoa; ENDEREÇOS Olympikus - 3154-7199; Yes, Brazil - Shopping Tijuca, 1º piso; Animale - Plaza Shopping, 2º piso; Francesca Romana - Rua Visconde de Pirajá 351/1º piso, Ipanema; Maria Filó - Rua Lopes Trovão 52/lj.103, Icaraí; Corpo e Alma - Rio Sul, 2º piso; Sport Society - Madureira Shopping, 2º piso; Fiszpan - Rua Sete de Setembro 98, Centro.

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O Prazer das Palavras
Cláudio Moreno - 31/07/2004


Africanismos

Duas abnegadas professorinhas, preparando uma aula sobre a influência africana em nosso vocabulário, incluíram entre esses empréstimos a palavra figa, a qual, segundo Nei Lopes, em seu Novo Dicionário Banto do Brasil, seria derivada do Suaíli fingo, "amuleto".

Animadas com a descoberta, planejavam fazer as crianças construírem gigantescas figas de papel machê quando uma delas se deu conta de que o autor encerrava o verbete com uma interrogação: "Seria um portuguesismo?". Como isso as deixou intrigadas, pediram que eu explicasse o que ele queria dizer. É o que eu faço a seguir.

Não há dúvida de que este é um dos talismãs preferidos pelos seguidores das religiões afro-brasileiras, mas já era conhecido na pré-história européia. O vocábulo figa, por sua vez, vem do Latim fica, e aparece também no Francês e no Espanhol (figue e higa, respectivamente); não se trata, portanto, de uma contribuição africana ao nosso idioma.

Como todos sabemos, os portugueses exploraram a costa da África, dos dois lados do continente, antes de descobrir o Brasil. Quando os primeiros escravos foram trazidos para cá, possivelmente muitas palavras portuguesas já faziam parte do léxico das regiões em que os nossos antepassados se estabeleceram para dedicar-se ao tráfico negreiro - assim como aconteceu na Ásia, em que os povos do litoral da Índia, da Malásia, da China e do Japão, ao negociarem com os lusitanos, terminaram absorvendo vários vocábulos do Português.

Além disso, com a intensificação do comércio de escravos, estabeleceu-se através do Atlântico uma verdadeira rede de influências lingüísticas e culturais que viajavam em mão-dupla, da África para o Brasil e vice-versa - o que explica a dúvida levantada por Nei Lopes: o fingo que aparece no Suaíli pode ser influência do Português sobre o idioma africano, e não o contrário; daí a sua justificada cautela.

Esta prudência é exatamente o que faltou à maior parte dos estudos sobre os africanismos no Português do Brasil, que invariavelmente tendiam para os extremos: ou limitavam essa influência ao vocabulário específico dos cultos religiosos e à culinária correspondente (entre centenas de outros, exu, bará, egum, orixá, ilê, mungunzá, efó, dendê, vatapá, axoxô, xinxim, acaçá), ou caíam no exagero oposto, atribuindo à África vocábulos de origem européia, ameríndia ou oriental (bugiganga, cachaça, cutucar, fulo, bengala, tarrafa, minhoca, pindaíba).

Minhas caras professoras, dou-lhes um conselho que não me pediram: para mostrar às crianças a presença do elemento africano em nossa cultura, acho que pouca ênfase deve ser dada à terminologia específica dos ritos africanos, pois são palavras que, em geral, não fazem parte do léxico corrente do brasileiro, ficando restritas aos fiéis dessas religiões - assim como amicto, casula, galheta, manutérgio, oblata e pátena, palavras relativas à missa, só circulam entre os (bons) católicos.

Trabalhar com este tipo de vocabulário daria, a meu ver, um indesejável caráter exótico à contribuição africana, reforçando a visão de que o negro seria o "outro", o estranho, o não-brasileiro - com todas as implicações racistas que nós tão bem já conhecemos.

Parece-me muito mais produtivo ressaltar aqueles vocábulos que fazem parte do nosso quotidiano afetivo e familiar, que podem muito melhor testemunhar o quanto carregamos na mente (e no sangue) a nossa herança negra: bamba, caçula, cacunda, cafuné, calombo, camundongo, carimbo, catimba, dengue, farofa, inhame, macaco, mamona, marimbondo, miçanga, molambo, moleque, mondongo, quindim, quitanda, quitute, senzala, sunga, tanga, além do especialíssimo samba e da insubstituível bunda, que o Português Europeu raramente usa. (Veja o meu leitor a vantagem de escrever, como eu faço, o nome dos idiomas com inicial maiúscula! Em minúsculas, a frase seria escandalosa...)

claudio.moreno@zerohora.com.br

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Cláudia Laitano
31/07/2004


Flashback

O segredo da receita do mandiopã é guardado até hoje por um sujeito chamado Antonio Gumercindo. Magda Cotrofe, a Juliana Paes dos anos 80, agora é professora de etiqueta e namora um personal trainer. O dublador de Dick o Vigarista, Domício Costa, também é o dono das vozes do Prefeito de As Meninas Superpoderosas e do cachorro Eustácio do desenho Coragem, o Cão Covarde. O Chevette Jeans vinha com bolsos nas laterais dos bancos, imitando calças - só de chinfra.

Não, não derrubaram maconha no meu mountain dew. Ocorre que a minha diversão esta semana foi ler a revistinha Flashback, uma edição especial da SuperInteressante que terá ainda mais dois números lançados este ano - um em setembro e outro em novembro. Se der certo, pode virar uma publicação regular da Abril em 2005. Por mim, já deu.

A pauta são "clássicos, retrôs, vintages, nostalgias e outras saudades" dos anos 70 e 80. Os textos são bem-humorados, informativos, e não caem na armadilha de levar a sério demais o interesse que marmanjos perto dos 40 podem manter sobre esse acervo de cultura inútil.

Não sei se você já reparou, mas poucos assuntos mobilizam tanto um grupo da mesma geração quanto as lembranças de infância e adolescência. Talvez não apenas pela carga afetiva que uma determinada recordação individual envolve, mas principalmente pela oportunidade de compartilhar um arquivo comum de experiências.

A calça deandê, o show do The Cure no Gigantinho, o programa Pra Começo de Conversa, tudo isso são notas de rodapé nas memórias de quem viveu a adolescência em Porto Alegre nos anos 80. Mas são miudezas desse tipo que nos localizam no tempo, que nos fornecem uma espécie de CEP na linha da história. É reconfortante reconhecer membros da mesma tribo, reviver em conjunto experiências banais que, filtradas pela distância, sempre nos parecem um pouco mais divertidas e grandiosas do que elas realmente foram. O tempo deixa as boas lembranças cada vez melhores.

E como a vida não anda de Chevette, quando você vê, pimba: aqueles garotos que ainda ontem andavam emplastando o cabelo de gel subitamente viraram público-alvo de uma revista chamada Flashback. Já? Cacíldis, como foi que a gente chegou aqui tão rápido? De aeromóvel é que não foi.

claudia.laitano@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
31/07/2004


Tarifas genocidas

Esqueci-me ontem de colocar como insumo das passagens de ônibus o pedágio.

Existe maior absurdo que ônibus de linha pagarem pedágio? Para caracterizar melhor a insensibilidade oficial, a pergunta tem de ser modificada: é admissível que cada passageiro de ônibus da linha Guaíba-Porto Alegre pague R$ 0,17 de pedágio, embutidos no preço total da passagem?

E assim vai se encarecendo a passagem de ônibus das populações carentes, tornando-a insuportável para as pessoas, ainda mais para aquelas que são obrigadas a viajar em dois ônibus para cumprir um só trajeto.

É da lógica racional que qualquer passageiro que queira se dirigir a um determinado ponto de uma cidade como Porto Alegre - ou de uma região metropolitana como a Grande Porto Alegre - somente em um sentido, pague somente uma passagem.

Essa é a lógica que preside todos os metrôs do mundo: o passageiro penetra no subterrâneo mediante a aquisição de um tíquete e lá embaixo embarca em quantos trens forem necessários para chegar ao seu destino, sem precisar gastar com uma segunda passagem.

Tanto que a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, instituiu em São Paulo, e está lá vigorando, a passagem integrada.

Inteligentemente, em São Paulo, qualquer passageiro poderá trocar de ônibus durante duas horas com o pagamento de uma só passagem.

Isto é o lógico, isto é o humano, isto é o racional. Aqui não, quem mora em Guaíba muitas vezes é obrigado a pagar duas ou até três passagens para dirigir-se da residência até o emprego em Porto Alegre, isso no sentido de ida, dobra o martírio fiscal com a volta. O mesmo acontece quando o destino ou a origem é Viamão.

Têm consciência as nossas autoridades para o dano monumental que causam às nossas populações ao obrigarem-nas a pagar diversas passagens para cumprirem um único trajeto?

Só em pedágio, portanto, cada morador de Guaíba ou Gravataí que passar como passageiro de ônibus em posto de cobrança paga a mais por sua passagem quase R$ 0,20 por viagem.

Somem-se a isso os impostos embutidos nos combustíveis e temos as passagens de ônibus oneradas de forma tão selvagem que o processo só podia acabar como está culminando: com as reprováveis depredações dos ônibus em Guaíba.

Por milagre, esses condenáveis incêndios de ônibus ainda não se alastraram para outras cidades ao redor de Porto Alegre.

É preciso que o governo estadual, de maneira urgente, em consórcio com o governo federal, revise a planilha de custos das passagens de ônibus metropolitanos.

Está comprovado de maneira definitiva que os empresários de Porto Alegre evitam empregar moradores das cidades vizinhas.

Amanhã Zero Hora publica matéria do repórter Humberto Trezzi em que um grande empresário declara taxativamente que sua empresa não contrata forasteiros. E o diz sem pejar-se: é lógico que uma empresa não empregue quem mora noutro município, pois incrivelmente despenderá seis vezes mais (incrível!) com vale-transporte do que se contratar empregado que more na cidade de sua sede.

Quem tem a obrigação de corrigir esse atentado social é o governo.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Acidente
Explosão mortal na Bélgica



Vazamento de gasoduto provocou incêndio em complexo industrial, deixando pelo menos 14 mortos (foto Stijn Defrene, AP/ZH)


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Sexta-feira, Julho 30, 2004




Superpai


Major Crespo, da Esquadrilha da Fumaça, e as pequenas Isadora e Yasmin: o pai que vem do céu

Para toda criança, o pai é sempre um herói. Em alguns casos, eles são mesmo. Conheça a história de paizões que enfrentam o perigo, voam pelo céu, salvam vidas de inocentes e pilotam máquinas incríveis
Celso Fonseca, Dolores Orosco e Felipe Gil

Ser mãe é padecer no paraíso. Ser pai é ter o privilégio de ser condecorado herói pelo filho logo nos primeiros meses de vida. A mãe segura o bebê com os braços em forma de concha, o que dá uma sensação de proteção e acalento. A forma como o pai segura o filho, desajeitado, permite que a criança perceba que há um mundo a sua volta, explica o psicólogo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) Haim Grunspum. Instintiva-mente, o bebê considera o pai a figura forte nesse ambiente que ainda não conhece, completa o especialista.

Com o passar dos anos, o mito do pai herói diminui ou até acaba. Afinal, papai também é humano e tem uma série de pontos fracos. Muitos conseguem manter a imagem do paizão herói. Até porque eles são, literalmente, heróis. Caso do piloto da Esquadrilha da Fumaça Ricardo Beltran Crespo, do piloto de Stock Car Guto Negrão, do policial Nestor Gomes e do professor Helio Teixeira que salvou seu filho Alexandre das mandíbulas de um crocodilo. Cada um a seu modo fortalece a idéia de heroísmo no imaginário de seus rebentos. E são infalíveis nessa difícil missão.

Circo voador

Para o Super-Homem voar, basta querer. Já o major Ricardo Beltran Crespo, 35 anos, precisa do caça T-27 Tucano da Esquadrilha da Fumaça, que corta o ar a mais de 400 quilômetros por hora. Viajando pelo céu, ambos são heróis. Durante a segunda quinzena de junho e a primeira de julho, os pilotos da Esquadrilha apresentaram suas acrobacias em 12 cidades do Norte do País e na cidade de Rio Negro, na Colômbia.

Em todas as demonstrações do chamado Circuito Norte havia uma multidão em terra, hipnotizada, de olho nas evoluções. Segundo a Esquadrilha, em Rio Branco (AC), a platéia era de 50 mil pessoas. As pessoas pedem autógrafos e fotos ao nosso lado. Algumas querem nos tocar, como se não acreditassem que somos reais, e outras chegam a chorar, diz Crespo.

Além dos admiradores em cada cidade que passa, o major tem três fãs em sua casa, na vila militar da Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga, interior de São Paulo: a esposa, Rita, as filhas, Yasmin, nove anos, e Isadora, sete. Durante a semana, o trabalho de Crespo é cuidar da seção de pessoal do Esquadrão de Demonstração Aérea, nome oficial da Esquadrilha.

Vôos, no máximo dois por semana, rotina bem diferente das duas saídas diárias do primeiro mês de treinamento dos fumaceiros, como os pilotos são conhecidos. Quando sobrevoamos a vila, soltamos um pouco de fumaça e balançamos os aviões, conta o major. A filha Isadora corre para a janela sempre que ouve o barulho dos caças.

A rotina de demonstrações nos finais de semana afasta o pai da família. No Dia dos Pais do ano passado, ele não pôde ir à festa que preparamos na escola. Eu fiquei um pouco chateada, mas gosto muito do trabalho dele, diz Yasmin. Para Crespo e Rita, as filhas assimilam bem a ausência do pai. Elas sabem o quanto ele gosta de voar na Esquadrilha.

A convivência com aviões é tanta o casal está baseado na AFA desde 1995 que Isadora já vestiu as pesadas botas do pai e Yasmin, aos três anos, construiu um avião de travesseiros com chinelos no lugar das asas e uma fralda de pano no lugar do capacete.

A apresentação do domingo que vem está marcada, e este ano Yasmin não terá com o que se preocupar. As acrobacias serão feitas em Pirassununga e devem dar mais graça à festa de Dia dos Pais.

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Roubar é um prazer quase sexual

Por que há tanto ladrão no Brasil? Ah... Miséria, falta de emprego... Mas... não é só isso. Não falo dos ladrões de galinha, que pulam janelas mordidos de cachorro. Falo do ladravaz instituído, aquele que mora dentro dos cofres públicos, que passa dias e noites estudando como burlar as leis e burocracias. Nos grandes e pequenos há, claro, o doce prazer da adrenalina.

Roubar é uma aventura louca, um filme de ação, roubar é um vício secreto: poder entrar numa loja e estarrar um livro ou uma jóia, com o coração disparado do pavor de ser pego, e a imensa alegria do êxito de sair na rua, sem ninguém ver. No caso do ladrão da coisa pública, há o estímulo da vingança contra secretas humilhações você se vinga dos ladrões que sempre te roubaram. Ahhh... estou tirando o meu... Esses ladrões do governo roubam há séculos... antes eu que eles... justificam-se.

Um velho executivo me contou que já comprou um presidente da república. E foi humilhado como se fosse ele o ladrão. O presidente dera ordem para que a eterna mala preta fosse entregue dentro do próprio Alvorada. Ele foi entrando por todas as portas e ninguém lhe barrava. Já era de noite. Até que chegou na sala do presidente.

Luz acesa e, lá longe, o chefe da nação, fingindo desatenção, escrevia na mesa. Olhou o velhinho com desprezo e apontando-lhe o dedo ameaçador berrou, expulsando-o: Deixe a mala aí no chão e... retire-se! O pobre homem se esgueirou como um cão pelo palácio e foi vomitar nos tinhorões do jardim.

No caso dos ladrões públicos, o roubo tem uma conotação até meio patriótica, pois já vi muita gente se orgulhar de não pagar imposto. Eu? Pagar para esses vagabundos pagarem o FMI? Nunca!. Esse é o ladrão de esquerda. Hoje, muitos pululam dentro da administração infiltrada de petistas, que vêem o governo como um palácio a ser saqueado.

Há muitos tipos de ladrões. Já conversei com alguns deles na maciota, para perceber o motivo que os anima. O mais recorrente é o desejo de dar um tapa numa nota e resolver a vida. A idéia de sair da sociedade e de seus contratempos, de ir para uma praia infinita e nunca mais parar de beber água de coco. Mas esses ainda são amadores. O grande ladrão quer ficar, roubando sempre. É uma missão.

Esse ladrão vocacional é olhado com admiração nas churrascarias e shoppings. Olha lá o ladrão!..., diz o executivo traçando uma picanha. O outro responde: É ladrão, mas é espada, dá nó em pingo dágua!....

Eles dizem que depois do primeiro milhão de dólares o negócio é mais sexual.

Um sujeito me contou que já pegou muita mala preta debaixo de banco de praça. A adrenalina que rola na hora de ver as verdinhas é melhor que morfina. Palpar os dólares arrumadinhos pela concessão pública de um canal de esgoto ou de um golpe no INSS são volúpias inesquecíveis.

Outro me contou que adora ver os olhos covardes do empresário pagando-lhe a propina para o empréstimo público ou para o perdão da dívida. O empresário tenta fingir naturalidade, mas o ódio lhe acende os olhos. Disse-me: Adoro ver-lhe a raiva travada, o sapo engolido, fingindo-se simpático, adoro ver-lhe as mãos trêmulas, adoro até o desprezo impotente que ele tem por mim, vendendo-me eu, eu, o desonesto sem vergonha. Gosto de me sentir conspurcado pelo nojo do outro... Disse-me também esse Mr. M... da roubalheira: Hoje, estou aposentado, boiando aqui na minha piscina enorme em forma de vagina, mas me babava de prazer quando via a cara do juiz tentando uma severidade olímpica, enquanto exarava uma liminar comprada e que se exasperava, mudo, quando via a piscadela cúmplice que eu lhe dava na hora da sentença.

Não sei porque me sinto superior aos otários que me compram; não me ofendo, ao contrário, olho-os do alto! Roubar é sexy , meu amigo disse-me o ladrão aposentado, deitado numa bóia roxa, flutuando na piscina, com um coquetel amarelo e rosa na mão Roubar dá tesão!. Roubar tem algo de orgasmo. Quando o sujeito embolsa uma bolada, o fluxo de libido é inesquecível.

Eu mesmo, uma vez, estava com uma pasta com cerca de US$ 50 mil dentro. Fui tomar um cafezinho e tive o capricho de deixar a pasta em cima do balcão, ao lado do açucareiro, onde se acotovelavam proletários com copinhos de cachaça, e eu pensava: Nessa pasta aí está a salvação deles e eles nem imaginam...

Vejam o prazer perverso do poder...

Nos ladrões bem-sucedidos do Brasil, há o orgulho imenso da cafajestice: todos passam a entender de vinho quando enricam, todos compram lanchas e gado, todos arranjam amantes cachorras de cabelo pintado e correntinha no tornozelo, todos se deliciam em se saber vilipendiados pelas costas em salões de grã-finos sussurrando Olha o ladrão..., mas sabendo-se também invejados pelas aventuras que eles lhe atribuem.

As mulheres imaginam os colares que ganhariam se fossem suas piranhas louras, como nos filmes de gângsteres dos anos 40. Nelson Rodrigues dizia que o honesto tem úlcera e a mulher que lhe atira na cara: Você não é honesto, não; você é burro!!.

Senti mesmo em alguns canalhas que conheci o orgulho de suportar o sentimento de culpa que raras vezes lhes bate na consciência quando, digamos, roubaram verbas de remédios para criancinhas com câncer; sua gelada indiferença lhes parece prova de macheza, quase integridade. Um assassino do esquadrão da morte que namorou uma atriz com quem trabalhei contou-lhe que se masturbava diante do estrangulamento de crioulos num terreno baldio, indo depois para casa, onde os filhos felizes viam desenho animado na TV.


Um ladrão intelectual me disse: Esse país foi feito assim: na vala, entre o público e o privado. Há uma grandeza na apropriação indébita, florescem ricas plantas na lama das roubalheiras. A bosta não produz flores magníficas? Pois é... o Brasil foi construído com esse fertilizante. O progresso do país se deve à roubalheira secular. Sempre foi assim e sempre será. Roubo é cultura...

Enquanto isso, o STF quer acabar com os poderes do Ministério Público...

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O filme que abalou uma nação

A munição de Fahrenheit 11 de Setembro: as mazelas da Guerra do Iraque, o relatório entregue pela CIA a Bush antes da explosão das Torres Gêmeas e a suposta ligação comercial do presidente americano com os árabes. O resultado: um documentário brilhante
Tatiana Contreiras


Em frente ao Congresso, Moore e um soldado que sobreviveu ao Iraque

Panfletário, manipulador e tendencioso; gênio, investigador e militante: a opção é sua. Mas não há como negar que Michael Moore, 50 anos, é sinônimo de polêmica. Seja por seus filmes ou por sua postura declaradamente política, o cineasta é um dos líderes de uma legião de americanos insatisfeitos com seu país, que criticam e muito o próprio umbigo.

Depois de ganhar um Oscar por Tiros em Columbine, documentário em que busca os motivos do fascínio americano por armas, Moore agora leva às telas o bombástico Fahrenheit 11 de Setembro, em que sobram acusações a George Bush e até toques de comédia.

A intenção é clara: além de ridicularizar Bush de todas as formas possíveis (e é aí que os críticos de Moore o acusam de ser tão manipulador quanto a Casa Branca), o diretor se propõe a mostrar o que se passou antes e depois de 11 de Setembro (data do ataque às Torres Gêmeas), abusando de imagens fortes como os mortos no Iraque, jovens soldados americanos torturando iraquianos e até a pouca importância dada ao relatório da CIA, que alertava sobre o risco de atentados. Mas não se vê o momento exato do choque dos aviões nas Torres, talvez a imagem que os americanos considerariam a mais violenta de todas.


As férias intermináveis de Bush no início do mandato são alvo de gozação do cineasta no filme

Fahrenheit 11 de Setembro ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio. Há quem diga que o prêmio teve um apelo muito mais político que cinematográfico. Mas o documentário caiu como uma bomba num momento em que os Estados Unidos se preparam para ir às urnas e Bush concorre à reeleição. No filme, que começa em tons de pastelão western, não há como não questionar (no mínimo) a postura do presidente, que logo após saber do atentado continuou lendo historinhas para uma classe infantil na Flórida.


Policial pára Moore, que grava nas ruas: uma das aparições do diretor

Fundamentado por pesquisas (que não o impedem de apresentar as informações como quer, é verdade), Moore ganha de vez o espectador ao esmiuçar o passado de Bush, mostrando suas ligações comerciais com os mesmos sauditas que estariam envolvidos no atentado e como, claro, seria mais fácil usar Saddam Hussein como bode expiatório. Independentemente de opção política, Fahrenheit é mais que necessário.

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Mauren Motta

30/07/2004

Paulicéia querida

Inacreditável o tempo que a gente perde em São Paulo. Todas as grandes avenidas estão em obras. Quando morei lá em 1998, já ficava chocada e irritada com a lentidão do trânsito. Mas agora passou dos limites total! Perder 45 minutos para andar um quilômetro é o cúmulo. Por outro lado, tem coisas que só rolam em Sampa.

Desta vez, o motivo da minha viagem foi a coletiva do filme Hellboy e o Amni Hot Spot. Cinema e moda, duas coisas que adoro. Além disso, essa cidade é um prato cheio de novidades. Dá pra fazer um programinha diferente a cada dia. Reservei o meu tempo livre para assistir a alguns shows.

Com a casa cheia, o ZERO subiu ao palco do Bar Avenida na mesma noite que o Violeta de Outono. Parecia que eu tinha voltado 15 anos no tempo. Na minha adolescência, essas bandas eram superconhecidas, depois não ouvi mais falar. Estava curiosa. A expectativa foi superada quando tocou Agora Eu Sei, hit do ZERO. Guilherme Isnard, vocalista, tá ótimo. O cara, que sempre teve uma personalidade marcante e voz forte, parece mais tranqüilo no palco.

A passagem dos anos não inibiu os sonhos do careca bonitón. A impressão que se tem é de que ele ainda pode estourar. Sabe como é, ficar conhecido pela moçada que descobriu tardiamente outras bandas dos anos 80, como o Capital Inicial.

É por essas e por outras que amo São Paulo. Adoro também a terrine de cabra do SPOT, o frozen yogurt do América, o X-vegetariano do New Dog, e o sushi de enguia do Nagayama. Amo catar tranqueiras na 25 de Março, andar pela sofisticada Oscar Freire, bisbilhotar as feirinhas da Benedito Calixto e Bixiga e as barbadas do Bom Retiro.

Para pegar fôlego, vou dar uma paradinha no Ibirapuera. Tô na corrida entre uma pauta e outra e suuuperengarrafada...

Beijolas cosmopolitas.

mauren@rbstv.com.br

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Paulo Sant'ana
30/07/2004


A revisão das tarifas

É muito bom que por trás dos lamentáveis acontecimentos de Guaíba retorne a discussão sobre o subsídio governamental às passagens no transporte público, o primeiro grito foi desta coluna.

Da minha parte entendo ser dever do Estado transportar as pessoas. E no Estado brasileiro vou mais adiante: as pessoas têm de ser transportadas quando suportam o preço das passagens e também quando não o suportam, seja gratuitamente, seja por passagens sociais, com horários eventuais a preço reduzido.

A planilha de insumos da passagem de ônibus está assim composta: empregados das empresas (50%); combustível e lubrificantes: 18%; pneus e câmaras: 7%; peças e acessórios: 7%; impostos e taxas: 15%.

Já temos aí, segundo a visão das empresas de ônibus, 97% do preço da passagem. Elas reclamam que ainda têm de pagar luz, telefone, energia elétrica, materiais administrativos e a obrigação de renovar a frota com os restantes 3%.

O diretor do Expresso Rio Guaíba, Gerson Piccoli, empresa em tela, manda-me dizer que não sabe a sua empresa o que é lucro há muitos anos, recorrendo ao endividamento para sobreviver. A avaliação da sinceridade dessa afirmação deixo-a para os leitores.

Mas dois itens dessa planilha de custos chamam-me a atenção: os 18% para o custeio de combustíveis e os 15% destinados aos impostos.

Num sistema como o nosso, em que se privilegia para o transporte de massas o ônibus, não tem explicação que os combustíveis destinados para as empresas sejam onerados pelos impostos. Os combustíveis dos ônibus têm de ser anistiados de impostos pelo governo, têm de ser subsidiados pelo governo.

E não tem também explicação que as empresas sejam obrigadas a pagar 15% de impostos para operar seus ônibus.

Só com esses dois itens modificados se poderia baratear sensivelmente as passagens.

O que aflora com extraordinária eloqüência desse episódio de Guaíba é que o preço das passagens assumiu um vulto tal que está agredindo a ordem econômica e social vigente: camadas imensas da população não têm como pagar pelo seu transporte.

E têm de ser transportadas. Paralisar-se as pessoas é marginalizá-las, é desumano, é agressivo, é selvagem privar as pessoas do seu direito de ir e vir. Ainda mais quando é para seu sustento.

É preciso depressa rever o sistema.

Recebo do comando-geral da Brigada Militar um contraditório à visão desta coluna de que tinham de ter sido presos em flagrante os agressores daquele rapaz no aeroporto Salgado Filho: "Senhor colunista. A classificação dos delitos cabe ao Órgão do Ministério Público, após todos os elementos constitutivos da prova, colhidos em conformidade com os dispositivos contidos nas Leis nº. 9.099/95 e 10.259/01.

No que diz com a prisão em flagrante, esta tem natureza cautelar, com vista à preservação da materialidade e autoria do delito, elementos esses que foram colhidos no local do fato.

Afirmar que pretendiam matar o condutor do veículo trata-se de visão açodada. Correto seria afirmar que ao agredirem a vítima poderiam assumir o risco de produzir resultado mais gravoso. O que é de difícil caracterização no caso concreto.

A Brigada Militar não pode nem deve pautar sua atenção baseada em hipóteses, pois lida com valores que uma sociedade tem de mais sagrado, que são a vida e a liberdade.

Assim, frente ao caso narrado, tem-se de concreto uma ocorrência envolvendo jovens tripulantes e condutores de dois veículos que, em conseqüência de desentendimentos e desavenças, resultou em lesões corporais recíprocas, cuja gravidade só se pode afirmar com o devido laudo pericial.

No que se refere à liberação das partes, longe de caracterizar banalização da violência, trata-se de procedimento legal que tem por objetivo oportunizar o exercício do contraditório, da ampla defesa e da formalização da culpa das partes envolvidas, que somente se verifica no âmbito do Poder Judiciário.

Gize-se que prisão em flagrante, no caso em análise, resta substituída pelo Termo Circunstanciado, pela concordância das partes em comparecerem em juízo para que, enfim, se examinem todas as circunstâncias relativas ao delito, em tese, praticado. Portanto, não houve o prejuízo dispensado ao caso na matéria veiculada no jornal Zero Hora do dia 27/07/2004. Reitero estima e consideração, (ass). Airton Carlos da Costa, comandante-geral da Brigada Militar".

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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David Coimbra
30/07/2004


Quem é meu candidato

Votei pela primeira vez em 1982. O feriado amanheceu azul e amarelo no IAPI, lembro bem. A caminho da urna, eu e os amigos debatemos acerca dos abrolhos da política. Em coisa de 15 minutos, desenvolvemos a fórmula exata para salvar o Brasil. Não sei o que fiz com ela nesses últimos 22 anos, talvez tenha se extraviado em meio à coleção de Tex Willer e o Tesouro da Juventude, sei lá. Pena. O Brasil perdeu a chance de ser salvo.

Enfim. Quando finalmente recebi a cédula na qual iria assinalar os candidatos, senti que minha mão tremia. Tremor cívico. Achava que a eleição mudaria o mundo.

Hoje, entendo que o mundo só estará mudado de fato no dia em que a eleição for menos importante. No dia em que eleger este candidato ou aquele não fizer tanta diferença assim. O sistema. O fundamental é que o sistema funcione apesar da interferência humana.

Mas, lastimável, as eleições ainda são importantes. Essa também o será. Donde a necessidade de precisão germânica na escolha dos candidatos. Desenvolvi uma técnica, dos anos 80 para cá: analiso as mulheres e as eventuais ex dos gajos. O tipo de mulher que um homem toma para si diz muito a respeito dele.

Por exemplo: digamos que você conheça uma mulher deslumbrante, daquelas tão lindas que chega a doer, e ela manifeste certo interesse pela sua pessoa. Se você for esperto, vai torcer para que ela seja muito chata e muito burra, ou que tenha mau hálito. Porque, se ela não for nada disso, se, ao contrário, ela for inteligente e agradável e cheirosinha, você estará prestes a se tornar escravo dessa semideusa. Ou seja: homens realmente práticos não se deixam envolver por mulheres estonteantes.

Agora, um homem que opta por uma mulher bonita, mas não tanto que derreta os paralelepípedos da Rua da Praia; uma mulher inteligente, mas não pérfida; uma mulher não indispensavelmente fiel, mas leal; um homem que toma uma mulher dessas é digno de voto.

Pois bem. Estamos diante de uma eleição decisiva, das que podem mudar mesmo o destino do mundo. E temos um candidato com a mulher ideal. O Kerry! Observem Tereza Kerry. Fala cinco línguas, inclusive o português. É bela e até é charmosa. Mais: vive elogiando o ex. Está certo, o ex morreu e lhe legou US$ 500 milhões, mas ainda é o ex. Logo, não há que vacilar: Kerry para a presidência! Enquanto isso, vou ver se encontro aquela fórmula para salvar o Brasil nos escaninhos lá de casa.


david.coimbra@zerohora.com.br

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Fórum Mundial
Todos os sotaques da educação



Evento reúne 22 mil educadores de 47 países em Porto Alegre para discutir a qualificação do ensino (foto Júlio Cordeiro/ZH)


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Quinta-feira, Julho 29, 2004




Felicidade

Felicidade! É o que todos querem. Dizem alguns cientistas que faz parte de nossa evolução e que a felicidade seja uma forma de recompensa para tudo o que fazemos que contribua para nossa sobrevivência (comer, beber, dormir) ou de nossa espécie (sexo, cuidar dos filhos). Seja como for, fazemos qualquer coisa para ficarmos felizes: mandamos flores e cartões para quem amamos, presenteamos nossos filhos, fazemos cursos de aperfeiçoamento profissional, etc.

Para estes cientistas, a felicidade é um hábito que pode ser cultivado, desempenhando atividades importantes para si: trabalho, relacionamentos, lazer e estudo. Bem como, acreditam que sem depressão e mau humor não seríamos capazes de reconhecer a felicidade em si.

Outros acreditam que a origem da felicidade está nos genes, ou seja, as pessoas felizes já nascem para serem felizes, todos os processos cerebrais que controlam a felicidade e a habilidade de uma pessoa sentir-se bem está pré-determinada no gene.

O Surgeon General publicou um relatório mostrando que 7,1% dos norte-americanos entre 18 e 54 anos sofrem de alguma desordem do humor. Alguns especialistas consideram alarmante e recomendaram a esses norte-americanos que procurem tratamento psiquiátrico e terapêutico.

Porém, os psiquiatras "evolucionistas" acreditam que as emoções são o produto de milhões de anos de seleção natural e os mau humores não são necessariamente defeitos que precisam ser corrigidos. Argumentam que ainda não conhecemos o suficiente sobre o humor para alterá-lo com remédios.

Assim, para eles, as emoções, sejam elas positivas ou negativas, existem para nos fazer coisas para os nossos genes. Portanto, ao manipular... E, hoje, o consumo de Prozac e Zolof mais que dobrou desde 1995. Contudo, os problemas com o humor, mesmo a depressão profunda, são mecanismos de alerta, que como outros, nos forçam a cuidar do corpo. Seria uma proteção, que nos induz a ter comportamentos que reduzem ferimentos piores no futuro.

Em 1998, o psicólogo da Universidade da Pensilvânia e presidente da Associação Americana de Psicologia, professor Martin Seligman, desenvolveu a psicologia positiva. Para ele, deve-se ensinar as pessoas, jovens em especial, a serem alegres e otimistas desenvolvendo sua força de caráter ao invés de analisar as suas fraquezas.

A psicologia positiva destina-se àqueles que não querem desperdiçar anos tomando Prozac ou no divã de um terapeuta, e tem uma solução idealizada por Aristóteles 2350 anos atrás: desenvolver atividades cívicas, uma vida espiritual e social. A pesquisa do Dr. Seligan, desenvolvida durante 30 anos, mostra que os otimistas minimizam seus infortúnios enquanto que os pessimistas culpam-se pelos incidentes e, por outro lado, atribuem à sorte os bons eventos.

Os otimistas acreditam que as boas coisas durarão muito tempo e que terão benefícios de tudo o que fazem e acreditam que as más coisas são isoladas, não durarão muito e não afetarão sua vida. Os pessimistas... Não é preciso dizer, certo? Todo mundo conhece um montão (no bom sentido) de pessimistas. Assim, de acordo com essa pesquisa, basta desenvolver pensamentos e atitudes otimistas para se viver melhor.

Para corroborar essa tese, os cientistas da Universidade de Michigan, pesquisando os aposentados verificaram que os mais felizes eram aqueles que têm amigos. E olha que levaram em conta a renda, saúde, morte de cônjuge, etc. Assim, valorizar as amizades é essencial para a sobrevida após a aposentadoria.

Outra pesquisa realizada na Mayo Clinic comprovou que os otimistas vivem mais que os pessimistas, cerca de doze anos a mais. O pior é que os pessimistas, além de viverem menos, sofrem mais. A pesquisa analisou pessoas com o perfil a partir de 1962.

Ser feliz depende mais de você que dos outros, plante que Deus garante! E comece pela própria casa, pelas pessoas que ama. Aliás, dizer que ama já alegra o coração do amado. Felicidade, alegria, otimismo, longevidade, alguém quer?
por Mário Eugênio Saturno

Mário Eugênio Saturno é Tecnologista Sênior da Divisão de Sistemas Espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva (www.fafica.br) e congregado mariano.
saturno@dea.inpe.br


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Bom não sei se já tem tradução, mas é uma boa alternativa de leitura, não?

Quinta, 29 de julho de 2004, 15h01 Atualizada às 15h30
Francesa 'ensina' a manter emprego sem trabalhar

Um livro que ensina trabalhadores a enrolar nos seus empregos está causando polêmica na França.

Bonjour Paresse (Bom Dia Preguiça) se propõe a difundir "a arte de trabalhar o menos possível para o seu empregador". O livro foi escrito como uma paródia de obras que ensinam como fazer sucesso em grandes corporações.

A autora, Corinne Maier, trabalha como consultora na área de economia para a EDF, estatal francesa do setor elétrico. A empresa iniciou um processo disciplinar contra a funcionária.

A EDF está sendo parcialmente privatizada para que se torne mais eficiente, e a diretoria acha que o livro de Maier prejudica a companhia.

Gerentes inúteis
Bonjour Paresse não faz menção direta à EDF. Em capítulos com título como "Cultura Corporativa - Gente Estúpida", o livro ataca os "inúteis" gerentes de médio escalão. E diz que "você não tem muito a perder se não fizer muito no trabalho".

Maier aconselha o leitor a escolher os tipos mais inúteis de trabalho, como o de consultor, especialista ou conselheiro.

A escritora enfrentará a diretoria da EDF em uma audiência no dia 17 de agosto. Se seguir seu próprio conselho, trará uma pilha de arquivos polpudos debaixo do braço.

Segundo ela, essa é a melhor maneira de evitar perguntas da chefia sobre o que exatamente ela fez o dia todo.

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Bom esta foto ai acima é onde trabalho, ouvindo o cantar dos pássaros da Praça da Alfândega. Sim porque mesmo quando tem Feira do Livro e aquele acúmulo de pessoas, eles ainda assim cantam e encantam. Tirada pelo Gilberto Simon lá do Porto Imagem, é uma bela foto sem dúvida, pois não mostra apenas a arte da parede e o prédio em si: alguns galhos da paisagem fazem parte da mesma.

Thanks my brother e continues fotografando esta cidade e mostrando-a ao mundo.

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Tecnologia que une o mundo

Telefonia celular é a que mais emprega no setor de telecomunicações, em crescimento acelerado

O setor de telecomunicações está crescendo no país. O interesse cada vez maior pela Internet, TV a cabo e celulares gera uma demanda pelo avanço tecnológico, via ondas de rádio e satélite ou fibras óticas. Com isso, o mercado de trabalho para engenheiros e técnicos na área está crescendo. Com o investimento no setor, a tendência é um mercado promissor para novos profissionais.

Segundo Fernando Beiriz, professor de Engenharia de Telecomunicações da UFF, depois da privatização do setor, em 98, o maior mercado são as empresas de telefonia celular. Vivo, Telemar, Tim e Oi são responsáveis por 90% dos empregos dos nossos alunos, explica Beiriz. A crescente disputa entre elas aumenta a procura por profissionais. Provedores de acesso à Internet e canais de TV a cabo também geram muitos empregos na área, lembra.

O engenheiro de telecomunicações é responsável por projetos de redes de telefonia e comunicação de dados, utilizando sistemas de rádio, fibras óticas e centrais de computadores, e pela operação e manutenção de sistemas e equipamentos de telecomunicações. Ele também lida com desenvolvimento de serviços e participa de planos comerciais, completa Beiriz.

O profissional é fundamental também na agência reguladora do setor, a Anatel, fabricantes de equipamentos de telecomunicações e empresas de consultoria. O salário inicial está entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil.

Para seguir a carreira é preciso ter interesse por números e cálculos e criatividade. Também é necessário capacidade de adaptar-se a mudanças e às novas tecnologias. É um curso puxado, tem que se dedicar e gostar da carreira, ressalta Beiriz.

Para quem não quer fazer uma faculdade, há ainda os cursos técnicos. O técnico trabalha na parte operacional, realizando tarefas de construção, instalação, manutenção e serviços da área de transmissão de dados e imagens.

Tammy de Souza Pereira, 17 anos, do Curso Electra, faz o curso técnico e depois pretende fazer faculdade na área. Informática e eletrônica já estão com o mercado saturado, ao contrário do que eu estou estudando. A colega Aline Guerra, de 16 anos, também pretende fazer o curso superior após o técnico. Pesquisei muito antes. O mercado é bem amplo, por isso resolvi seguir a profissão, conta.

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Loucura, loucura, loucura!

Versátil, engraçada e inteligente, Narcisa Tamborindeguy estréia domingo como colunista do DIA
Flávia Motta

Ela freqüenta altas rodas da sociedade, boates moderninhas em Nova Iorque, conhece bem pontos turísticos do mundo inteiro. Também é amiga de moradores da Rocinha e, recentemente, foi ver de perto a população de rua que vive em cavernas. Versatilidade é uma de suas marcas registradas. Bom humor também. E é isso que Narcisa Tamborindeguy promete levar aos leitores do DIA na sua nova coluna no Dia D, que estréia domingo. Vai ter entrevistas com gente de todo tipo: médicos, gente que faz trabalho social, personalidades. Para interessar do rei ao trabalhador, garante.

Dona do bordão ai, que loucura que dá nome à coluna Narcisa é despachada a ponto de tentar fazer uma demonstração de uma posição invertida de ioga na frente da repórter. Foi minha filha Marianna (19 anos) quem me levou. Tenho me sentido mais tranqüila, conta ela, que coruja também Catharina, 13 anos. No outro dia ela apareceu no meu quarto às quatro da manhã com uma crônica sobre o amor, dizendo que era para me ajudar na coluna, lembra Narcisa, que acredita dar mais trabalho às filhas do que o contrário.

Ao lado do jornalista e amigo Bruno Astuto, Narcisa promete ainda notícias do que rola pelo mundo, uma seção para responder perguntas de leitores sobre qualquer assunto e uma crônica. A coluna vai ser um canal direto com o leitor. Quero dar conselhos, ajudar as pessoas, conta ela. Boa parte das fontes de notícias serão os próprios amigos, todos com espaços reservados nas seis agendas que a colunista guarda.

Mas tem a lógica da Narcisa. Se vai guardar o telefone de um dentista, coloca na letra D, não importa o nome dele, entrega Bruno minutos antes de Narcisa colocar em prática seu estilo e achar em N, de Nova Iorque, o número de um amigo chamado Jeffrey.

Narcisa é divertida a ponto de fazer suas amigas estrangeiras se apaixonarem pelos morros cariocas. Uma amiga que é condessa vem de Paris passar seis meses trabalhando na Rocinha.

Só eu para fazer isso, gaba-se ela que dá provas de popularidade nos quase 300 e-mails diários que recebe através de seu site (www.narcisa.com.br). E a quantidade triplica quando ela aparece na televisão, como quando topou o desafio do Pânico na TV para viver uma rotina atípica: andar de ônibus, comer ovo colorido de boteco. Sou popular, acho que o povo do DIA vai gostar de mim.

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T r a d u ç ã o
01/07/2004


Você
tão carinhoso, amigo
Você
doce acalento, calor
Você
que seduziu, brincou
Você
inconseqüente invasor
Você
desperta o prazer
Você
desfruta o bem querer
Você
seqüestra a paz
deixa um rastro
um gosto, um caos
e vai embora
inconsciente, nem sente
fugaz.


Maria Cely Corrêa Parronchi

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Nilson Souza
290/08/2004


A coreografia

Vem aí agosto, com uma atração especial que fatalmente mexerá com as nossas emoções: os Jogos Olímpicos. Desta vez, a maior competição esportiva do planeta chega cercada de simbologia. A Grécia ainda é a pátria dos filósofos, dos heróis e dos deuses que nos legaram o saber e o prazer da Antigüidade.

Além disso, num evento internacional deste porte até o nacionalismo - este sentimento mesquinho que Einstein rotulou de sarampo da humanidade - está liberado. Sejamos todos verde-amarelos sem qualquer constrangimento. Vamos torcer por nossos atletas, vamos azarar os rivais, vamos cantar o nosso hino e chorar quando a nossa bandeira subir mais alto do que as demais. Depois, em setembro, a gente volta a ser cidadão do Mercosul e a apostar na globalização como se nada tivesse acontecido.

Falando sério: sou incondicional apreciador de esportes, pois acredito que a competição saudável reproduz a vida e ensina valores indispensáveis ao aperfeiçoamento do ser humano. Cheguei mesmo, em priscas eras, a praticar diversas modalidades esportivas. Depois de concluir o curso de Jornalismo, fiz vestibular para Educação Física.

Confesso que nunca senti tanta satisfação numa escola quanto no período em que freqüentei a pista, as quadras, as piscinas e as salas de aula da Esef da UFRGS. Diziam outros irônicos acadêmicos que nós, alunos de Educação Física, tínhamos músculos no cérebro. Não é verdade: tínhamos, isto sim, muita alegria no coração, resultante de agradáveis aulas ao ar livre, abençoadas pelo sol e pela camaradagem dos companheiros de jogos, brincadeiras e trabalhos.

Nunca fui um atleta de elite, até mesmo porque não era essa a finalidade do aprendizado. Estávamos lá para aprender a ensinar, como na maioria dos cursos de licenciatura destinados ao magistério. Mas, num ambiente como aquele, era impossível não cair de vez em quando na tentação de competir com os colegas.

Em alguns esportes coletivos, até que me defendia bem, mas paguei pelo menos dois grandes micos: na natação e numa tal de ginástica rítmica, que espero já tenha sido abolida do currículo. Na natação, penei para vencer os 200 metros nos quatro estilos exigidos. Sequer me consolava saber que tinha gente pior, como uma colega de afogamento que certa vez, quando estávamos fazendo exercícios em apnéia (com a respiração bloqueada), equivocou-se com as paroxítonas e me propôs:

- Vamos atravessar a piscina em eutanásia?

Era realmente o mais apropriado para nós. Mas constrangedor mesmo foi a prova final de ginástica rítmica. Tive que ensaiar uma coreografia meio, digamos, Balé Bolshoi. Minha mulher ri até hoje quando lembra do dia em que me flagrou em meio a uma estranha dança indígena, ao som de um gravador e com todas as portas e janelas da casa fechadas para não chamar a atenção da vizinhança.

Atleta sofre!


nilson.souza@zerohora.com.br

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José Pedro Goulart
29/07/2004


Escravos das memórias

Difícil não é existir alguém ideal para nós. Difícil é encontrar. E ser encontrado. O encontro com a pessoa ideal faz com que a vida tenha um novo início e, a partir disso, será difícil separar a memória de um da memória do outro. Talvez em razão disso é que passamos todo o tempo procurando os símbolos que unifiquem as memórias.

Fotografias, livros, discos, uma rolha de vinho, um recibo de cinema, algo que ateste que estivemos juntos, mas que seja tangível, que tenha forma ou cheiro, cor, enfim - e mais importante do que tudo - que comprove que a memória é real, não foi tudo um sonho, aquilo existiu.

Apesar de ser difícil encontrar a pessoa ideal, muitas vezes, depois de um tempo, ela deixa de ser tão ideal assim. Hora de cair fora. De reiniciar a procura. Mas e as memórias? Aquelas repletas de objetos, fotografias? E o que fazer com a saudade que a lembrança disso provoca? Alguns jogam fora esses objetos, botam fogo na casa, somem. Outros guardam numa caixa suas lembranças afetivas. É uma caixa de acesso proibido a quem vier depois, mas, de vez em quando, é até permitido dar uma espiada. É a memória renovada.

Vida é memória mais perspectiva. Um amor intenso que tomou outro rumo acaba com as perspectivas de produzir novas memórias. Uma parte da vida foi interrompida. Pode-se dizer que um homem, ou uma mulher, de vários amores, portanto, são homens e mulheres de várias vidas interrompidas.

Peso difícil de carregar. Talvez fosse mais fácil se pudéssemos apagar as lembranças dos amores abandonados, das ilusões dispersas e, com isso, renovar as chances de começar novamente. É sempre mais fácil acreditar na primeira vez. Você gostaria de apagar lembranças de amores que ficaram para trás ou já se conformou com a perda? E mesmo agora, essa pessoa a seu lado, você, se pudesse apagá-la totalmente, começaria tudo novamente?

Somos escravos das nossas memórias. Tentar repetir um momento prazeroso é uma experiência difícil. Não há dois "primeiro beijo", por exemplo. Fosse possível isso e talvez pudéssemos obter um certo "brilho eterno de uma mente sem lembranças". Aliás, a expressão entre aspas é o título do filme, em cartaz na cidade, cujo roteiro é assinado por Charlie Kaufman, o brilhante roteirista de Quero ser John Malkovich e Adaptação, e que inspirou esse texto.

O título seria melhor traduzido se falasse de um brilho eterno de uma mente sem lembranças sujas, que é disso que trata o filme. E também trata da tentativa que temos de recuperar uma certa ingenuidade perdida. E do desejo, muitas vezes angustiante, de se ter outra chance. Kaufman propõe um jogo complexo e perturbador, um jogo que se fosse possível de ser jogado talvez tornasse as coisas mais simples. O filme tem a direção precisa de Michel Gondry e a música triste de Jon Brion. Que não se duvide da força dos filmes profundos com música triste.

jose.pedro@zerohora.com.br

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Luis Fernando Verissimo
29/07/2004


O que nos foi comunicado

Deve-se estar sempre atento para os sinais de favorecimento dos deuses. Os deuses não podem usar, por exemplo, o Correio para se comunicar conosco. Muito menos a internet. Ou mandar alguém bater na nossa porta com instruções sobre como investir, ou com os números que darão na Mega Sena. Para começar, há a questão da segurança.

Você abriria a porta para quem se anunciasse como um mensageiro do além, trazendo a sua fortuna? Claro que não. Antigamente era mais fácil. Os anjos apareciam para as pessoas e lhes diziam o que fazer, ou o que ia lhes acontecer. Hoje, o anjo da anunciação não passaria do interfone do prédio.

- Quem é?

- Eu sou um anjo do Senhor e...

- Quem?

- Um anjo do Senhor, e trago...

- Não é daqui não.

Por isso as pessoas recorrem aos divinadores, que teriam o dom de decifrar as mensagens dos deuses. E o que todos querem saber, do alinhamento dos astros e dos búzios, das emanações do fogo e do formato das nuvens, é: "Tem algum recado pra mim?"

Mas o recado pode estar em qualquer parte, à vista, sem a necessidade de intérpretes. Basta você procurar. Os números que darão na Mega Sena podiam estar embaixo do seu pires, esta manhã. Você apenas não se lembrou de virar o pires. Os deuses podem estar tentando entrar em contato com você há anos, e você simplesmente não notou. Estava olhando para o outro lado quando o Cristo Redentor abanou, querendo chamar sua atenção. Não leu o que uma lesma escreveu na calçada, à sua frente, com seu rastro gosmento.

Jogou fora, com desprezo, o torpedo passado no bar que trazia a explicação da vida, a fórmula para transformar fuligem em ouro e o telefone da Luana Piovani.

O que eu quero dizer é que Brasil x Argentina, no domingo, pode ter sido uma comunicação dos deuses, e que devemos ponderar o que nos foi comunicado. Os gols no último segundo, o empate e a vitória nos pênaltis quando tudo parecia perdido... A mensagem foi que os deuses estão conosco, agora cem por cento, e que desta vez este país vai mesmo? Ou que, do jeito que vai, devemos dobrar nossa esperança no sobrenatural?

No fim, nada a ver, eu só não entendi ainda por que chamam o Juan de Ruan. Depois se queixam quando lá fora dizem Rosé Sarney.

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Paulo Sant'ana
29/07/2004


Ônibus de Guaíba

O juiz da 1ª Vara Cível confirma que os moradores de Guaíba são obrigados a esconder a revelação de que moram lá se quiserem obter emprego em Porto Alegre : "Paulo Sant'Ana. Gostei do conteúdo da tua coluna de hoje (ontem). Abordou o drama que as pessoas de Guaíba vivem ao ter que pagar uma das passagens mais caras da Região Metropolitana. Os governos dão como única explicação os custos, sem discutir o quanto oneram o transporte público com tributos e implementação de pedágios em trechos de deslocamento interurbano.

É necessário pensar uma política de transportes para esse eixo de Guaíba. Realmente, no dia-a-dia, nas audiências em que se discutem alimentos, esse drama sempre tem aparecido. Operários que pagam a passagem do próprio bolso, porque não contam para os seus patrões que moram em Guaíba, pois se disserem perderão o seu emprego. Assim, essas pessoas fornecem um endereço de Porto Alegre e pagam a passagem do seu bolso, apenas para verem o seu emprego mantido (deixam assim de perceber vale-transporte).

É preciso que os governos pensem o transporte público neste eixo, subsidiando o transporte da população de baixa renda e repensando alternativas para todos. Atenciosamente, (ass.) Gilberto Schafer, juiz de Direito/1ª vara Cível - Guaíba/RS".

Sobre o assunto, recebi também do governo do Estado: "Caro jornalista Paulo Sant'Ana.

O governo do Estado está atento para essa realidade dramática que tão bem comentas em tua coluna de hoje (ontem). Porém, não estamos omissos nessas questões. Ontem estive reunido com o governador Germano Rigotto, em reunião já anteriormente agendada, com as presenças do secretário dos Transportes e da presidente da Agergs, para que em conjunto com a Metroplan seja apresentado em 30 dias um estudo completo sobre a estruturação de uma nova política integrada para os cálculos de tarifas na Região Metropolitana.

Consideramos isso um marco zero nesta discussão. Iremos reavaliar e dar transparência à atual planilha de cálculos.

Especificamente sobre a situação no município de Guaíba, um percurso de 30 quilômetros, com enormes vazios urbanos, já estávamos reorganizando em conjunto com a Expresso Guaíba um modelo operacional que utiliza novo itinerário em horários específicos, evitando a BR e, com isso, o pedágio, via Estrada do Conde, e ainda, microônibus gratuitos em alguns bairros até um novo terminal no centro. Com isso estaremos otimizando horários e adequando a demanda de usuários.

Fomos, infelizmente, atropelados pelos atos de vandalismo que sitiaram a população de Guaíba, que, sabemos, tem críticas procedentes ao atual sistema, mas não avaliza essas ações violentas. Já identificamos a ação organizada de um grupo de pessoas que estão perdendo espaço no transporte clandestino.

Um transporte irregular, que coloca em risco a vida dos usuários, vans que circulam somente nos horários de pico, não pagam impostos e esvaziam o transporte regular. A Metroplan, desde fevereiro de 2003, coibiu através de forte ação de fiscalização 1.055 viagens clandestinas por dia. Hoje, ainda sofremos com essa concorrência ilegal, porém, em número bem menor, por volta de 150 viagens por dia.

Quanto à travessia fluvial, também estaremos licitando em até 90 dias empresas que se habilitem a gerir esse serviço. Sabemos da complexidade desse processo, mas pela primeira vez está sendo efetivado esse projeto por parte do governo do Estado.

Caro Sant'Ana, hoje estou em Brasília defendendo a criação de um percentual fixo no orçamento da União para subsídio do transporte coletivo, em reunião do Comitê do Conselho das Cidades, onde sou conselheiro representante da Região Sul. Estamos cientes dos desafios a serem enfrentados, mas a construção de uma sociedade mais justa exige a união de esforços dos agentes públicos. Somente com a adoção de um modelo governamental que trate de maneira integrada as políticas sociais é que será possível combater as desigualdades e melhorar de maneira eficiente as condições de vida de cada cidadão. Um forte abraço, (ass.) Alceu Moreira, secretário de Estado de Habitação e Desenvolvimento Urbano".

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Acidente
Queda de árvore danifica casa na Capital



Paineira centenária, com tronco de dois metros de diâmetro, caiu destruindo um muro e o telhado de uma confecção no bairro Santana. Uma funcionária machucou-se quando corria para fora da residência (foto Arivaldo Chaves/ZH)


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Quarta-feira, Julho 28, 2004




Well acho que minhas células nervosas, também não estão funcionando bem. Não completam todos os passos e "avançam o sinal" a toda hora - o que é considerado pouco atraente pelas fêmeas, ou param quando não deviam no sinal. Será..?

28/07/2004 - 17h19
Pesquisa com moscas revela genes que controlam sucesso no amor

LONDRES (Reuters) - Um grupo de células nervosas ligadas ao comportamento sexual pode ser a diferença entre ser um sucesso entre as garotas ou um fracasso total - pelo menos entre as drosófilas, mais conhecidas como moscas da fruta.

Os cientistas que isolaram as células que controlam o "namoro" na mosca da fruta macho acreditam que suas descobertas podem fornecer pistas sobre o comportamento sexual de outras espécies, incluindo os humanos.

"A mosca da fruta é um organismo modelo com funções celulares básicas muito semelhantes às das pessoas", disse Bruce Baker, da Universidade de Stanford, na Califórnia.

"Não me surpreenderia descobrir que os comportamentos sexuais humanos também se baseiam num circuito do sistema nervoso que regula as atrações e o namoro."

Baker e seus colegas já haviam identificado o principal gene, apelidado de gene estéril, que controla o comportamento sexual na mosca da fruta macho.

"Descobrimos que o gene estéril era responsável por construir os circuitos neuronais para a corte masculina", disse Baker num comunicado.

Numa pesquisa publicada na edição de quarta-feira da revista Nature, ele relatou que 60 células estão envolvidas no comportamento sexual.

Quando elas não funcionam bem, as moscas da fruta machos não conseguem cumprir os passos específicos do ritual de namoro, e são incapazes de se reproduzir.

Quando os pesquisadores interferiram nas células nervosas, as moscas não completaram todos os passos e "avançaram o sinal" - o que foi considerado pouco atraente pelas fêmeas.

Os machos alterados tentavam fazer tudo de uma vez, disse Baker. Como as moscas da fruta e os humanos são semelhantes em sua formação genética, os pesquisadores questionam se os genes que controlam a sexualidade nas drosófilas poderiam ter correspondentes com papel parecido em humanos.

"Os rudimentos básicos são muito semelhantes com o que as pessoas fazem para namorar com sucesso e produzir uma descendência", disse ele.

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Para se aquecer no inverno

Festivais de cachaça e vinho elevam a temperatura em Visconde de Mauá, um bom lugar para se refugiar nesta (gelada) estação
Mahomed Saigg


No Festival de Cachaça do Gosto com Gosto, haverá 100 marcas para degustação. A lareira, como a da pousada Terra da Luz, é outra maneira de espantar o friozinho. Aproveite o pesque e pague de Raimundo Alves

Cruzar a fronteira que divide capitais, como o Rio, de pequenos distritos, muitos deles verdadeiros paraísos ecológicos, significa deixar para trás o ritmo louco das grandes cidades e os compromissos com os horários. Ideal para quem gosta de curtir o friozinho da montanha, ao lado de uma boa companhia, cercado pela natureza, a região de Visconde de Mauá, a 193 km do Rio, tem também dois festivais imperdíveis que prometem aquecer os visitantes a menos de três horas do Rio: a 9ª Degustação de Cachaça e o Beba Vinho. Refúgio ecológico, a região é dividida em três vilas: Visconde de Mauá, Maringá e Maromba.

Situada numa área de proteção ambiental, onde a fauna e a flora nativas encontram nos moradores seus principais guardiões, a zona urbana de Visconde de Mauá, distrito de Resende, é simples e rústica. Principal atrativo da região, Mauá conta com uma boa infra-estrutura para receber seus visitantes, com direito a central de informações, restaurantes e posto médico. Esse paraíso fica a 27km de distância de Resende, passando por uma estrada de terra que, segundo moradores locais, está em boas condições.

Sete quilômetros de estrada de terra serra acima está a Vila de Maringá, onde os visitantes encontram a maior concentração de restaurantes da região. A gastronomia é inspirada no clima local. Foundes, trutas, massas, comida mineira e alemã são o forte na Vila. Dividida pelo Rio Negro, fronteira de estado, uma parte de seu território fica no Estado do Rio, enquanto a outra pertence a Minas Gerais.

Última vila da região, Maromba, que está a três quilômetros de Maringá, é a mais alta das três. Com um vilarejo formado por casebres que se misturam com botecos e lojas de artesanatos, a vila tem a vantagem de ser a primeira a receber as águas que descem do Parque Nacional de Itatiaia. Por isso, esconde as cachoeiras mais bonitas e limpas da região.

Com 30m de extensão e 10 de altura, formando uma grande piscina natural, a Cachoeira do Escorrega é um verdadeiro tobogã natural. Quem procura manter as atividades esportivas em dia também se realiza na região, que oferece condições perfeitas para a prática de esportes como caminhada, rafting, rapel, mountain bike, canoagem, cavalgadas. Para quem gosta de uma boa pescaria, o pesque e pague Truta Rosa, do Sr. Raimundo Alves, fica entre as Vilas de Maringá e Maromba.

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Nelson Sargento

Dia 25, era domingo, esta coluna não é publicada aos domingos e você fazia 80 anos. Até o Fantástico levou para o Brasil inteiro, um pedaço de sua vida, sua arte, inclusive a de pintar e o carinho que o País lhe tributa. Somente hoje posso dar-lhe um abraço público.

E neste 28 de julho, Nelson, ninguém deve estar a lembrar o centenário do bandolinista Luperce Miranda, um gênio no instrumento, nos últimos anos abafado pelo sucesso merecido post-mortem de Jacob do Bandolim. Assim é a vida: uns são lembrados, outros esquecidos.

E você, que tão bem filosofa nos seus sambas imortais e é uma pessoa com muita tristeza guardada nesse coração bondoso, sabe avaliar as marchas e contra marchas da vida na certeza de que diante delas não devemos perder a gratidão ao mistério divino que nos criou e fez seres sensíveis.

Você deve estar feliz com o carinho que o Brasil e o Rio principalmente lhe demosntraram, você, que é o Cartola (com quem tanto aprendeu) da sua geração. A luta de pessoas com a origem muito pobre, num país de grande injustiça social e racial, tem o mérito ainda maior de além de afirmar a categoria e qualidade de sua obra, o de superar as clássicas barreiras que impedem o povão brasileiro de expandir sua sensibilidade, sua cultura e sua arte.

Acho que é por isso que quando se encontra alguém de sua estirpe artística e de seu caráter, esse alguém é logo tomado símbolo do que há de valoroso e resistente no povo brasileiro.

Mas você não apenas uma figura simbólica, você é, concretamente, o autor de obras como Cântico à Natureza, dos anos 50, Falso Moralista, o imortal Agoniza Mas Não Morre, Triângulo Amoroso, Berço de Bamba, Nas Asas da Canção, apenas para lembrar de alguns mais famosos.

Você é concretamente um homem que mesmo quando semi-anônimo se estreava (se não me engano no gostoso e pequeno Teatro Jovem, que existiu ali no Mourisco, nos primeiros shows do Época de Ouro. Você foi um mangueirense que botou o Japão a cantar com você, onde teve a grandeza de lançar um disco com inéditos do Cartola.

Ao lado de uma vida bonita dedicada à música, você é um pintor dos chamados Naïf ou ingênuo e que me goza toda a vez queme encontra e diz para nossos amigos: O Artur da Távola é um conversa fiada, sempre diz que vai passar por lá para comprar meus quadros e nunca aparece. É verdade, bom Nelson. Mas mesmo assim você já me deu quadro pequeno de presente. Lembra? E mais. Até seu filho é bom pintor, um talento que começa a explodir.

Em suma, bom Nelson. Você é Brasil, como Brasil foi Luperce Miranda, este já no plano astral. Meu abraço carinhoso e a admiração pela obra de vocês.

tavola@ism.com.br

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As coisas de Gal

Cantora estréia amanhã versão minimalista de show que foi cancelado por falta de verba
André Gomes

Adolescente, Gal Costa trancou-se no banheiro para reaprender a cantar. Tinha ouvido João Gilberto e, autodidata, queria mudar seu canto. Agora, aos 58 anos, canta no show Todas as Coisas e Eu pérolas pré-Bossa Nova, joaogilberteando-as. O espetáculo do CD estréia amanhã no Canecão nove meses depois de ser cancelado.

Caro demais, sentenciou a Indie Records ao orçamento suntuoso da diretora Bia Lessa. Atitude meio irresponsável da gravadora, avalia hoje a cantora. Passou. O disco, que seria um ao vivo do show cancelado, foi gravado e vendeu 100 mil cópias. Gal fala dele, do show e sobre todas as coisas: dos seios nus no espetáculo de 1994 à defesa pública que fez de Antônio Carlos Magalhães e ainda a negada rixa com Maria Bethânia.

Gal convidou Bia para dirigir seu espetáculo e teve que pedir à diretora que o remodelasse. Ela cantaria sozinha em palco com duas toneladas de terra, com músicos num proscênio, dez troncos de árvore. Agora um quarteto a acompanha, há folhas secas no chão. O cancelamento foi um desgaste mas causou expectativa.

O show está lindo, é minimalista e delicado. É o show que o disco merece, avalia a cantora. Entre a montagem idealizada e a que vingou, Bethânia chamou Bia para dirigir o premiado Brasileirinho. Coincidência? Chamei Bia antes e mantive a postura ética de mantê-la no novo projeto, conta Gal, jogando na imprensa a culpa da alegada eterna rivalidade entre ela e outra diva da MPB. Falam isso desde que surgimos, mas não existe. Somos amigas, fizemos espetáculos juntas. Quando eu fazia Fatal e ela, Rosa dos Ventos, uma ia ver o show da outra, lembra.

Ela nega a disputa com Bethânia, mas não se preocupa em demonstrar falsa modéstia. Esse show tem minha essência. Sou uma pessoa mais cool. O público assiste-o com respeito, há um momento denso (com Ave Maria-no Morro, Assum Preto e Vapor Barato) em que as pessoas quase não respiram. Tem isso de deixar o ar em suspensão, observa. Você deixa as pessoas assim? De certa forma eu as deixo assim, com meu trimbre, minha voz, meu canto, os arranjos.

Aos 58, a cantora, alegados 25 de alma, acredita cantar melhor que nunca. Hoje canto melhor, minha voz tomou corpo e potência, diz. Não me sinto com a idade que tenho. Tenho muito pique. E ousadia. Gal considera seu show ousado, por dispensar piano, ter só quatro músicos, canções executadas com instrumento único (Nada Além é só voz e contrabaixo). Mas ousadia como os seios nus de Índia e O Sorriso do Gato de Alice, não mais.

Tudo o que fiz foi sincero e puro e não me arrependo de nada, sentencia. Nem de ter defendido ACM no episódio da violação do painel do Senado? Já falei muito disso. Eu não disse que não me arrependo de nada?. Disse, Gal, mas há outro assunto delicado. Quatro CDs seguidos de regravações, por que? Essa cobrança insana pelo novo é reflexo da mentalidade americana que torna tudo descartável. Inéditas não vão necessariamente me garantir qualidade.

Polêmicas à parte, entre as pérolas por Gal separadas, sobra romantismo. É pra machucar o coração, quase o título, aliás, de uma das canções do show. Combina comigo. Sou uma pessoa romântica e afetiva, torço para as coisas darem certo. Amor sentido, amor cantado.

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Quarta, 28 de julho de 2004.
Encha o cofre de clique em clique

Quem tem site pode descolar uma graninha com parcerias. Veja como
Mylène Neno

Você já pensou em ganhar dinheiro com o seu site? Se a resposta é positiva, mas você acabou desistindo por achar que a sua página é pequena ou irrelevante demais, é bom rever os seus conceitos. Grandes empresas de comércio eletrônico e sites de busca do País contam com programas de afiliados que beneficiam sites de pequeno, médio e grande portes. Neles, os donos de páginas da Rede podem ser remunerados por simples redirecionamentos (que valem centavos preciosos por cada clique), ou por comissões sobre transações realizadas. E sem gastar nada por isso.

Quem paga somos nós. Remuneramos o usuário pelo tráfego que ele nos dá. Desde junho de 2003 o volume de vendas geradas cresceu 92% graças ao programa MercadoSócio, afirma o diretor-presidente do MercadoLivre, Stelleo Tolda.

Outra empresa que acredita no futuro desse modelo de parceria é o Submarino, maior loja de e-commerce do País. Essa é uma forma alternativa de publicidade, com a qual conseguimos um tráfego mais selecionado, avalia o presidente da e-loja, Flávio Jansen.

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Martha Medeiros
28/07/2004


Lista de chamada

Havia duas coisas que eu adorava na época do colégio. Uma era ditado. No primeiros anos do primário (hoje Ensino Fundamental), a professora dizia as palavras em voz alta e a gente tinha que copiar no caderno. Xícara. Chácara. Cadarço. Ensejo. Exceção. Exceção todo mundo errava. Eu aprendia e me divertia, era boa naquilo. Ainda se faz ditado em sala de aula?

Outra coisa que eu adorava era responder a lista de chamada. Ficava orgulhosa de fazer parte de um grupo. Todo santo dia, eu confirmava minha existência através da chamada. Uma coisa boba, mas que levantava minha auto-estima.

A lista de chamada também oferecia a possibilidade de pequenas transgressões. Tinha aquelas alunas que não respondiam presente, apenas levantavam o braço com desdém - os professores odiavam essa insolência. Havia aquelas que respondiam com a voz quase inaudível, só para provocar. "Araçari. Araçari! A Araçari não veio?""Vim!" E havia, claro, a boa ação de responder pela colega que faltou, imitando a voz da ausente, lá do fundo da sala. Os professores caíam nessa ou fingiam que caíam?

Questões irrelevantes, eu sei. Não é isso que importa numa sala de aula. Mas são lembranças boas e que voltaram ontem depois que li em Zero Hora o artigo assinado pela professora Sandra Mara Corazza, protestando contra a chamada digital que o governo Lula pretende instalar nas escolas do país. Se eu entendi bem, os professores não precisarão mais anotar manualmente a presença dos alunos, bastará que estes passem o polegar por uma máquina e a presença estará confirmada. Simples como passar um produto pelo caixa do supermercado. Impressões digitais são nosso código de barra.

Todos os setores da sociedade estão se automatizando, é natural que isso aconteça nas escolas também. Mas me solidarizo com a opinião da professora Sandra: não seria mais urgente resolver o problema dos salários, das merendas, do material escolar e de infra-estrutura básica antes de sermos tão modernos? A chamada digital seria extremamente bem-vinda se as demais demandas da educação estivessem supridas no Brasil. Não estão. Evasão escolar é assunto sério, mas fica a impressão de que estamos desperdiçando dinheiro que poderia ser melhor aproveitado.

Meses atrás, escrevi uma crônica em que citava um menino cujo sonho era ganhar lápis, caderno e borracha de presente de Natal. Soube, na época, que muitos voluntários arrecadam material escolar para distribuir em escolas carentes. Quantos kits o governo poderia comprar no lugar dessas maquininhas? Longe de mim boicotar o progresso do país, mas esperam-se ações mais realistas e emergenciais para avançar na educação, razão primeira do nosso atraso. E, aproveitando o ensejo, mantenham os ditados.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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David Coimbra
28/07/2004


O soldado inglês

Essa é uma história real. Ocorreu com um dos pára-quedistas britânicos que foram lançados atrás das praias da Normandia durante a madrugada anterior ao Dia D, 6 de junho de 1944.

Devido talvez à força do vento, que soprou o pára-quedas para longe, ou quem sabe à imperícia do piloto, ou a alguma falha de planejamento, seja pelo que for, o fato é que o soldado caiu no ponto errado. Desgarrou-se de sua companhia. Ficou sozinho e perdido em meio à escuridão da noite, tiritando de horror ante as explosões das bombas, os estampidos dos tiros, os gritos de dor, enfim, ante a tenebrosa trilha sonora da guerra. Quatro dias depois, foi encontrado pelos companheiros.

Parecia alheio ao que acontecia ao redor. Apenas olhava para o céu nublado, pasmado, indiferente. Assim foi levado junto com o pelotão para o combate seguinte. Que não tardou. Em pouco tempo, o jovem pára-quedista já se viu envolvido em nova batalha sangrenta no interior da França. Mas, enquanto seus companheiros eram mutilados, matavam e morriam, ele jazia paralisado, protegido por uma barricada, sem conseguir dar um único tiro. Horas depois, estava jogado a um canto da enfermaria. Sem um ferimento aparente, mas totalmente cego.

O soldado permaneceu nas trevas até que seu comandante o viu e se compadeceu dele. Compreensivo, o comandante prometeu que enviaria o pára-quedista de volta à Inglaterra, para a segurança do lar. Mal o chefe terminou de falar, a luz retornou aos olhos do soldado. Cegueira histérica, diagnosticou o médico. E o pára-quedista foi reincorporado ao seu pelotão e aos rigores da guerra.

O pânico que o imobilizava nos combates, porém, não fora curado. O soldado não conseguia desferir um só tiro, não conseguia sequer se mover na trincheira onde se escondera. Então, um companheiro se aproximou e, sem ironia e sem paixão, disse:

- Você tem tanto medo quanto qualquer um de nós. A diferença é que você ainda tem esperança de sair daqui vivo. Depois que se convencer de que vai morrer, você vai conseguir agir.

Aquelas palavras caíram sobre o soldado com o peso da verdade dos Upanishads. De um momento para outro, o frágil recruta britânico se tornou um bravo. Passou a atacar o inimigo com a sanha de um hoplita espartano. Destacou-se nas batalhas.

Não muito tempo depois, seus comandantes precisavam de alguém para inspecionar uma fazenda onde, suspeitava-se, os alemães estavam atocaiados.

- Quem é voluntário para ir até lá? - perguntou o capitão, virando-se para a tropa.

Ninguém deu um grunhido. A não ser o soldado inglês, que se aprestou:

- Eu vou!

Ergueu-se e seguiu em frente. Dez metros adiante, foi derrubado com um tiro no pescoço. O pára-quedista não sobreviveu aos ferimentos. Morreu quatro anos mais tarde, sem amor e sem glória.

Essa história é contada no livro "Dia D", de Stephen Ambrose, e na série americana Band of Brothers, produzida por Spielberg e Tom Hanks, baseada nesse mesmo livro. Qual o seu moral? Simples: que o medo é útil! Se o soldado britânico continuasse saudavelmente apavorado, teria voltado para a sua ilha cinzenta e, quem sabe, estaria vivo até hoje, contando aos netos mentiras sobre sua participação heróica na Segunda Guerra.

Vez em quando, o medo é bom. Acreditar-se invencível como um adolescente ou achar que basta sua tradição de clube grande para permanecer grande, isso só pode ter uma conseqüência: a morte. A escuridão pantanosa da morte.

Ela ronronava e alisava a coxa do Renato

Trabalhava na rádio lá em Criciúma e tinha um colega, o Elias Pavani, que era muito engraçado. Viera de Passo Fundo, o Elias, era gordinho e enxergava o mundo por uns olhos de um brilho verde sempre malicioso. O Elias vivia eternamente bem-humorado, mas um dia se irritou com o Lírio Rosso.

Como, "quem"? O Lírio Rosso, pô! Deputado da região, homem muito sério, bom caráter, bem intencionado. Acontece que o Lírio Rosso estava constantemente na pauta. Lírio Rosso, Lírio Rosso, Lírio Rosso. Todos os dias fazíamos matéria com o Lírio Rosso. Mérito dele, claro, que trabalhava bastante. Até que, uma manhã, bem cedo, mas bem cedo mesmo, o Elias explodiu:

- Não agüento mais Lírio Rosso, Lírio Rosso, Lírio Rosso! É todo dia Lírio Rosso, Lírio Rosso, Lírio Rosso!

Olhei para ele espantado com sua reação irada, algo incomum para o pacífico Elias, mas também o compreendi. Todo dia Líriorossolíriorossolíriorosso. Chato, aquilo. Nada contra o Lírio Rosso, óbvio, mas o assunto se tornou banal para nós. Lírio Rosso, Lírio Rosso!

Essa semana, tantos anos depois, tive a mesma sensação. Cheguei à Redação e deparei com o Wianey falando de Wellington, Marabá, Fernando Miguel. Suspirei. Todo dia Wellington, Marabá, Fernando Miguel. Todo dia, todo dia, todo dia. Esse o problema de um campeonato longo, sem subetapas, sem decisões: os assuntos se repetem e se repetem e se repetem a cada rodada. Não suporto mais falar de três-cinco-dois, quatro-quatro-dois, duas linhas de quatro, alas que apóiam e volantes móveis.

Não suporto! Agora mesmo o Boró perguntou se o Danilo é meia ou atacante e eu bufei, me questionando que importância tem isso, afinal. Chega! De agora em diante, só vou falar de grandes decisões, Gre-Nais inesquecíveis, craques insuperáveis. E histórias interessantes, como daquela vez que testemunhei uma atriz loira no vestiário do Fluminense ronronando enquanto alisava a coxa do Renato Portaluppi. Ou, sei lá, vou falar da Taxa Selic, do Risco-País. Ou quem sabe da Aninha Hickmann. Não é melhor a Aninha Hickmann?

david.coimbra@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
28/07/2004


Um pavio incendiário

O caso do incêndio e depredação dos ônibus em Guaíba encerra um dos mais graves impasses sociais do nosso meio. Evidentemente condenáveis o incêndio e a depredação, no entanto revelam o desespero das pessoas que residem na Grande Porto Alegre e não têm recursos para pagar os altos preços das tarifas de ônibus intermunicipais.

Em todo o mundo o transporte é subsidiado. Aqui se jogam as multidões para longe dos grandes centros e atira-se o preço da tarifa para bailar ao sabor do mercado, sem qualquer vantagem aos usuários, que só se beneficiam do vale-transporte porque este encargo pertence às empresas. Ônus dos governos nenhum. Pelo contrário, os governos só lucram com o transporte de massa, taxando os combustíveis com todos os tipos de impostos.

Como querer assim que as passagens custem barato?

Como é que os trabalhadores e os desempregados vão conseguir sair de suas cidades vizinhas e vir a Porto Alegre se uma passagem está custando entre R$ 4 e R$ 7 em várias cidades metropolitanas?

Só uma passagem de ida e volta para cada um desses infelizes cobre todo o seu salário mensal.

Eles reclamam dramaticamente que não conseguem emprego em Porto Alegre porque as empresas se recusam a pagar-lhes o alto custo das suas passagens com o vale-transporte. É evidente que as empresas preferem empregar pessoas cujo trajeto desde suas casas seja menor e menos custoso.

Mas essas pessoas podem assim ficar condenadas ao desemprego, à miséria e à fome por terem cometido o crime de irem residir em município vizinho à Capital, única forma que tinham de continuar sobrevivendo com aluguéis ou casas próprias mais baratas?

Examinem então a gravidade deste problema: o vale-transporte, a mais luminosa idéia que surgiu neste país nos últimos 50 anos, no entanto para essas multidões da Região Metropolitana se afigura como um carrasco.

Elogiável é a atitude da Trensurb, que cobra apenas R$ 0,75 por passagem. E as diversas outras linhas e regiões que não têm trensurb como é que ficam?

Se esse subsídio não for estendido para as passagens de ônibus, pelo preço que elas atingiram, insuportável para as grandes massas, é certo que vai explodir grave crise social em nosso meio, do que o incêndio e depredação dos ônibus em Guaíba é apenas o primeiro reflexo.

Quando eu era criança, havia o bonde Partenon Operário, o Glória Operário, o Floresta Operário. A passagem custava CR$ 0,50, mas no Operário era de apenas CR$ 0,10.

Ou seja, já há 50 anos havia um conteúdo social no preço das passagens.

Hoje não, deita-se a União, deitam-se os Estados, deitam-se os municípios a tributar os combustíveis, elevando seus preços a um patamar irreal. Acaba estourando nos usuários dos transportes coletivos.

E tanto a União quanto os Estados e os municípios estão se lixando para as pessoas que não têm recursos para se transportarem.

Nem concedem subsídios aos passageiros nem se organizam para dotar os usuários de preços reduzidos ou até mesmo gratuitos nos horários de pico.

Então não era de o governo estadual, através da Metroplan, organizar o transporte fluvial em barcas de Guaíba a Porto Alegre e vice-versa, com preços de R$ 1, subsidiado, todas as manhãs de lá para cá e às tardes daqui para lá?

Nada é feito, instalam-se as concessões, fixam-se preços selvagens nos preços das tarifas e o povo que se lixe.

Não é possível que as empresas de ônibus paguem pelos combustíveis o mesmo preço crivado de impostos dos cidadãos comuns.

Não é crível, é brutal, é desumano que não haja horários diferenciados para trabalhadores com preços de passagens reduzidos ou gratuitos.

O dever de transportar as pessoas é do poder público. E as pessoas não têm mais como suportar essas altas sucessivas das tarifas e dos combustíveis.

Mas será que os governantes se tornaram carrascos dos seus governados?

A multidão dos sem-transporte vai definitivamente engrossar as fileiras dos que aderiram ao crime.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Governo Federal
De Rolls-Royce no Gabão



Presidentes Lula e Omar Bongo desfilam em carro de luxo do aeroporto ao hotel, na capital Libreville (foto Ricardo Stuckert, ABR/ZH)


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Terça-feira, Julho 27, 2004




Tarde de mais...

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...

Florbela Espanca

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Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

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Minha mulher adora cães e por isso vive tratando de muitos vira-latas que aparecem na minha rua. Sua atividade franciscana acabou deixando-a famosa no bairro onde moramos. Isso ficou mais evidente quando, num sábado à tarde, uma senhora bateu à nossa porta perguntando:
- É aqui que mora a mulher do cachorro?
-Carlos Alberto da S. Barbosa, São Paulo (SP)

Numa visita à minha mãe, ela notou que não acendi um único cigarro.
- Está tentando parar?
- Não - respondi. - Estou resfriado e não fumo quando passo mal.
- Sabe - observou ela -, você provavelmente viveria mais se ficasse doente com mais freqüência.
-Ian A. Hammel, EUA

Pontualmente no horário de abertura, meu marido chegou à clínica e encontrou dois homens aguardando do lado de fora e a porta ainda trancada. Richard conhecia um dos homens e começaram a bater papo. Uns cinco minutos depois, a recepcionista atravessou o estacionamento correndo, pedindo desculpas pelo atraso. Richard virou-se para o conhecido e perguntou:
- Você é o primeiro da fila?
- Sou - respondeu o homem.
- Bem, então eu sou o terceiro - raciocinou Richard.
- Não - disse o segundo da fila. - Você é o segundo. Eu sou o médico.
-Sharon Sewell, Canadá

Minha filha, que se formava em direito, marcou hora para extrair os sisos após as provas de fim de semestre. Concluído o procedimento, o cirurgião entrou na sala onde ela se recuperava para dizer que tudo correra bem e que ela logo poderia ir para casa.
E acrescentou:
- Mas vou lhe dizer uma coisa: já vi gente acordar da anestesia falando sobre quase tudo... sua vida amorosa, momentos embaraçosos. Algumas, até mesmo nos xingam. Mas você é a primeira paciente em toda a minha carreira a me dar uma aula sobre direito constitucional.
-Merlynn Rezek, EUA

Quando minha prima entrou para o ginásio, ganhou o direito de ter as chaves de casa, mas logo no primeiro dia, ela as perdeu. Antes de ir à escola, como não havia ninguém em casa, deixou um bilhete enorme na porta: "Mãe, fui para a escola. Não tem ninguém em casa. Deixei a porta aberta pois perdi minhas chaves."
-Claudia da Silveira Pinheiro, Goiânia (GO)

A observação de pássaros é minha paixão e minha mulher sempre se impressionou com minha capacidade de identificar cada espécie apenas pelo canto. Para ajudá-la a aprender um pouco sobre o assunto, comprei um relógio de cozinha que soa um canto de pássaro diferente para cada hora. Um dia estávamos sentados relaxando no jardim quando um cardeal começou a cantar.
- O que é isto? - desafiei-a.
Ela ouviu com atenção.
- Três horas.
-Rich L. Pershey, EUA

Eu tinha acabado de reformar o banheiro, comprando cortinas para o boxe, tapete e acessórios que combinavam. Então resolvi comprar também uma faixa de parede para ajudar na decoração. Levei um pente da cor exata que queria, para comparar com o papel de parede da loja, e um vendedor me ajudou a procurar. Sem encontrar nada que servisse, o vendedor, hesitante, sugeriu:
- Por que não compra um pente de outra cor?
-Jennette Moore, Canadá

Ao passar por um grupo de crianças jogando futebol no parque, ouvi uma mulher gritar:
- Charlie, venha ficar um pouco com a mamãe.
E acrescentou:
- Você sabe que tenho de ir para o escritório daqui a pouco.
Dito isso, um pastor alemão correu até ela, e os dois saíram juntos do parque.
-Marianne Griffiths, Grã-Bretanha

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ARTUR DA TÁVOLA
Carta de mãe

Vivia a maternidade de forma profunda, embora nem sempre houvesse sabido verbalizar o amor que lhe ia dentro. Na véspera do casamento do filho, recolheu-se por horas e foi escrevendo, cortando palavras, meditando, reformando o texto. Fê-lo pequeno. O que se segue:

O que renova o amor é a existência dele. Possui cargas internas de acaso e surpresa que se auto fecundam. Essa renovação é o fermento dos encontros e desencontros de que é feita toda relação de amor verdadeiro como é o caso de vocês.

No amor, riso e lágrimas, esperanças e cansaços, luta e vitórias fazem parte do cotidiano. É da capacidade de compreendê-los e de os incorporar como parte fundamental da construção da vida em comum que surge a luz de um verdadeiro matrimônio.

Reparem que a palavra cônjuge é da mesma raiz de conjugar, de onde vem, aliás, conjugal. Por que será? Talvez porque o casamento desafie a capacidade de conjugar o eu com o tu, o tu com o ele, o eu e o tu com o nós e assim por diante. Conjugar o verbo amar em todas as pessoas é viver o amor na extensão que ele deve possuir. Não apenas o eu, nem o tu mas sobretudo o nós, o ele ou o eles (os filhos).

Vocês são capazes dessa conjugação, o sei por intuição e senso de observação. E são capazes, porque além de se amarem pertencem a uma geração feita de transparência nas relações. Ela os levará à certeza de que felicidade não é meta, algo fora de nós. Felicidade é existir, ter saúde, poder amar, ter vontade de construir. Mas é, igualmente enfrentar os problemas da felicidade. Vocês já estão dentro da felicidade. Sabedoria será mantê-la com as mesmas alegrias e esperanças.

Que Deus os abençoe nesse caminho e eu, como mãe e aprendiz dessa palavra tão assustadora que é sogra, possa ser sempre não apenas a amiga, mas alguém que acompanhe com encantamento a construção diária do grande amor de vocês.

Terminada a leitura, vários olhos marejados olharam-na, felizes. Jamais se sentiu tão mãe como naquele momento. Pensou, então, na força e no valor das palavras.

tavola@ism.com.br

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O combustível do artilheiro

Pai de Adriano revela o segredo de tanta disposição do filho: feijão, farinha e ovo feito pela avó
José Luiz de Pinho e Marco Senna

Não tem mistério. Nem precisa ser um chef para fazer a receita que transformou Adriano em uma espécie de trator: quando ele era criança, a avó materna, Vanda, preparava um prato simples, mas que era devorado pelo atacante, sem dó, nem piedade: feijão, farinha e ovo.

Na minha opinião, o gol contra a Argentina foi o mais bonito. Naquele lance, ele teve de usar o corpo avantajado. E o segredo para tanta força é simples. Quando era criança, o Adriano adorava comer feijão, farinha e ovo, revelou o pai, Almir Ribeiro, 45 anos, eufórico no desembarque da Seleção, ontem à noite, no Aeroporto Internacional Tom Jobim, ao lado da família.

Adriano concordou com o pai. Também achei o gol mais importante e mais bonito o contra a Argentina. Não desistimos em nenhum momento. O meu objetivo de ser campeão foi alcançado, graças a força de vontade de todos. O mais importante, agora, é manter os pés no chão e a humildade, afirmou o atacante, que ficará no Brasil até domingo, quando irá se reapresentar ao Internazionale, na Itália.

Hoje, o cardápio de Adriano será outro. Depois de recepcionar o ídolo com uma queima de fogos, ontem à noite, em um condomínio, na Barra, hoje será dia de um grande churrasco para festejar o bom momento do menino da Vila Cruzeiro.

E foi na favela da zona norte do Rio que Adriano viveu momentos de desespero. Em 92, quando tinha 10 anos, ele curtia um pagode com o pai e a mãe, Rosilda, quando houve um desentendimento e um policial disparou um tiro que resvalou no chão e atingiu a testa de Almir. O acidente, hoje, é motivo de piada, mas à época foi um drama. O Adriano teve de me carregar, mas hoje eu ando armado e ninguém sabe , diverte-se o pai coruja.

Almir diz que o filho é um iluminado: Quando ele tinha 2 anos, já sabia que seria um craque. Uma pessoa, em especial, merece o agradecimento de Adriano. Quando ele chegou à Itália, pensou em desistir , por causa da solidão. O Ronaldo deu uma força e chegou a chamá-lo para morar junto com ele, revelou o pai.

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Samba de primeira

Velha Guarda do Salgueiro vai ao Grammy e mangueirenses dão o serviço da festança
Flávia Motta


Caçula entre veteranos: Josimar produz discos com a bênção de Tia Zélia e João da Valsa, do Salgueiro

Somadas as idades dos componentes, são 1.132 anos de experiência, mais da metade vividos no samba. Daí uma indicação ao Grammy o latino ser tão valorizada. Foi assim em 2001, quando a Velha Guarda da Mangueira foi indicada ao prêmio de melhor disco de samba e a história se repete agora, mas com os bambas do Salgueiro. Foi o primeiro disco ao vivo de uma velha guarda, gravado quase todo na base da amizade (na Sala Baden Powell, em 2002). Vamos concorrer com grandes (Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Monarco e Família Caymmi), então digo para eles que somos a zebra da premiação, conta Josimar Monteiro, o produtor musical por trás das duas indicações.

Paraense há quase 15 anos instalado no Rio, Josimar é carinhosamente chamado de presidente do asilo por Ary, 71 anos, da verde-e-rosa. Ele se diverte com a piada, mas reconhece que é preciso ter cuidado ao se trabalhar com velhas guardas: Às vezes um deles fica doente e é preciso psicologia para botar esse povo para cima. Quando a gente viaja, tomo conta da alimentação e dos horários. Ninguém sai para badalar e instaurei a lei seca. Só bebem água que passarinho bebe.

Parceiro da raiz da Mangueira como eles gostam de ser chamados Josimar foi gentilmente cedido à Velha Guarda do Salgueiro, mas não sem garantia de devolução. Eles são nossos afilhados, então temos que ajudar.

Mas Josimar é nosso, frisa Tia Zélia, veterana de 78 anos, no melhor clima a-ha, u-hu. E a turma vermelha e branca, há apenas 2 anos sob a tutela de Josimar, comemora os efeitos do empréstimo, como um convite para temporada na China em agosto e a indicação ao Grammy em si. Recebemos a notícia com surpresa, depois felicidade e muita vaidade, resume Flávio Oliveira, o caçula da trupe do Salgueiro, com 52 anos.

A empolgação antes do prêmio se justifica: só por terem ficado entre os cinco finalistas, os salgueirenses já fecharam shows em São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Não é só um certificado de qualidade, abre muitas possibilidades de trabalho, explica Josimar, que tenta ainda fechar patrocínio para levar os sambistas para a festa de premiação em setembro, em Los Angeles. Vamos representar o País num prêmio internacional.

Se não cuidarem da raiz, a árvore não dá bons frutos, pondera Mocinha, 66 anos. Asssim, a expectativa é grande, mas os salgueirenses sabem que a disputa é difícil frente às multinacionais donas dos passes de concorrentes no Grammy. Calçamos as sandálias da humildade, mas se a gente ganhar, a produção vai ter que colocar um ambulância para cada componente, encerra Flávio.

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Liberato Vieira da Cunha
27/07/2004


Da idade madura

O que é idade madura, Stéphanie? É a minha, é a de todas as pessoas que singram a casa dos 50, uma época em que você não perdeu certas inclinações da juventude, como o desejo ou o sonho, mas começa a desconfiar de que o relógio de sua vida engrenou sem aviso numa contagem regressiva. Em breve, e com sorte, terá 60, 70, talvez 80 anos.

Você resiste quanto pode. Principia a fazer visitas regulares a laboratórios clínicos e a mostrar o resultado dos exames - a maioria dos quais são, me desculpa, um pé no saco - a cardiologistas, urologistas, gastroenterologistas, oculistas, nutricionistas. Esses cavalheiros e senhoras no geral olham os papéis menos preocupados com os quesitos em que você passou do que com aqueles em que você rodou. E então lhe prescrevem remédios, exercícios, comedimento e paciência.

Em outras palavras, lhe recomendam abstinência dos prazeres que dão sentido à vida: um cigarrinho, um coquetel, uma costela de ovelha, nem pensar num mil-folhas, numa barra de chocolate. Sugerem moderação em certos exercícios de cama e mesa que são parte inalienável de uma existência feliz e levemente abusada. Ordenam-lhe infinitas caminhadas, costumes morigerados (acho que este último adjetivo só encontra tradução nos dicionários), pratos insossos que causariam justa indignação ao Anonymus Gourmet.

Em resumo, Stéphanie, proíbem-lhe, severos, delícias etílicas e gastronômicas que são as únicas, verdadeiras alegrias de sua residência na Terra. Você se percebe de repente um ancião, descobre que o seu tempo se esvai por entre os dedos, como as areias finas do mar. Pior: nota que algumas deusas cuja beleza parecia eterna estão murchando como as flores de julho, que não raras se esticaram tanto, em sucessivas rendições ao bisturi, que seu sorriso se assemelha a um esgar, que as pernas, outrora magníficas, povoaram-se de estrias e de celulite.

Os olhos, que o paralisavam a uma simples, sedutora mirada de convite, não escondem vestígios de pés-de-galinha, brotam-lhes constelações de sinais nas mãos que você acariciava com ternura no escurinho do cinema, os cabelos que você se encantava de ver, brilhantes, dançando ao vento, recobriram-se de foscas tinturas.

E, suprema humilhação, as garotas na faixa dos 20, que ainda estás longe de alcançar, Stéphanie, tratam cavalheiros como eu de tio - hoje uma me deu passagem na saída do elevador, com essa consideração devida aos senhores idosos.

Não, Stéphanie. A idade madura não é, definitivamente, esse paraíso criado em livros de auto-ajuda. É o princípio do ocaso, a ante-sala do crepúsculo. Mas não fala por favor nada disso à professora que te pediu para me entrevistar, em especial se surpreenderes nela os traços, as formas e os disfarces do entardecer.

liberato.vieira@zerohora.com.br

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Luís Augusto Fischer
27/07/2004


Alemães em Porto Alegre

Saiu agora um livro de grande interesse para a história da Capital, particularmente para os que visam ao mundo dos imigrantes alemães. Chama-se, diretamente, Presença Teuta em Porto Alegre no Século XIX - 1850 - 1889, e a autora é Magda Roswita Gans (editora da UFRGS).

A coisa começa justamente com as duas especificações, de tempo e espaço. Não se trata aqui nem dos primórdios da imigração, em 1824, nem se fala das colônias rurais, com epicentro inicial em São Leopoldo. O assunto aqui é a Capital mesmo, naquele período que vai do miolo do século até a chegada da República.

A outra marca forte é metodológica: Magda Gans pertence ao mundo dos historiadores recentes para quem as generalizações devem ser muito mais cautelosas do que o foram para as gerações anteriores, e por isso mesmo se dedica ao manuseio e ao comentário de dados objetivos.

Que dados? Relatos de viajantes, como Wilhelm Kleinguenther, o primeiro pastor luterano com formação superior a viver aqui, a partir de 1865, autor de um interessante relatório sobre a vida da comunidade em que veio trabalhar. Fica-se sabendo detalhadamente que, na opinião dele, "ninguém que tenha vontade de trabalhar sente saudades da Alemanha". Impressão que se confirma, na análise do livro de Magda Gans, com dados sobre ocupação profissional de teutos em Porto Alegre, muitos dos quais disputaram espaço como artesãos, trabalhadores especializados, com escravos.

No famoso episódio de José Ramos, o lingüiceiro de carne humana, amasiado com a teuta Catarina Palse, os relatórios do inquérito policial dão conta de que os trabalhadores manuais alemães eram realmente tidos como gente próxima aos escravos, porque usavam as mãos.

O livro é muito mais que um mero desenrolar de fatos, que porém ocupam o centro da cena. Magda Gans procura valorizar devidamente as informações objetivas que tem (relatórios criminais, registros de internação hospitalar, dados de comunidades religiosas) para montar um mapa geral da vida teuta na capital, incluindo uma interessante tipologia social em classes conforme a renda e a posição simbólica.

Além disso, há toda uma segunda parte dedicada a analisar as formulações intelectuais sobre a identidade dessa gente imigrada ou seus descendentes imediatos. Sem idealizações (o livro mostra que alemães de certa posição social tiveram escravos também) e com grande destreza analítica, o livro vem em hora boa para nossa meditação.


fischer@zerohora.com.br

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Moacyr Scliar
27/07/2004


Abrindo as portas

Há cerca de duas semanas o goiano Welton Feliciano morreu no deserto do Arizona durante uma tentativa frustrada de entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Mesmo assim, diz a revista Veja, brasileiros continuam se arriscando no projeto de realizar a sua modesta versão do sonho americano: juntar um punhado de dólares mediante duro e clandestino trabalho. A matéria sublinha um dado que aparentemente é paradoxal: não são os brasileiros mais pobres os candidatos a esta aventura. É gente que precisa dispor de no mínimo US$ 15 mil para pagar a passagem e o serviço dos coiotes, mexicanos que se encarregam de conduzir os clandestinos através da fronteira.

Ainda que paradoxal, esta informação confirma um fato reiteradamente demonstrado na história da emigração. Os que se arriscam, os que sonham com uma vida melhor, ao menos do ponto de vista financeiro, não são os paupérrimos, os marginalizados. Estes chegaram a um grau tal de desesperança que já não têm forças, e muito menos recursos, para esta aventura. Não, quem vai em frente, quem enfrenta os perigos da jornada são aqueles que estão dispostos a espernear, a se agitar.

A estes o Novo Mundo deve muito. Estamos celebrando, este ano, os 180 anos de imigração alemã e os cem anos da imigração judaica no RS. Estamos falando de gente que atravessou o oceano, trazendo uns poucos pertences e muita fé; gente que para cá veio em busca de uma nova vida. Uma nova vida que não se traduzia necessariamente em riqueza material, mas em dignidade, em oportunidade. Estas pessoas, aliás, foram também para a Argentina, para o Chile, para os Estados Unidos. "Dá-me tuas massas", dizia à Europa a inscrição na Estátua da Liberdade, em versos de Emma Lazarus.

Naquela época, os imigrantes eram recebidos de braços abertos, inclusive e principalmente para substituir a mão-de-obra escrava. Hoje, a coisa mudou. Há uma grande diáspora brasileira nos Estados Unidos (e, nesta próxima semana, nossos clandestinos patrícios estarão sumindo da Costa Leste, com medo dos policiais que ali estarão, vigiando a convenção democrata). Diáspora que está longe de ser bem-vista. Em nosso mundo globalizado, os capitais podem circular à vontade, mas não as pessoas nem as coisas (que o digam os eletrodomésticos brasileiros). O que é um erro. A humanidade precisa desse intercâmbio, a humanidade progrediu graças a ele.

Está certo que autoridades americanas queiram defender o mercado de trabalho; mas isto só se faz aumentando as possibilidades de legalização, não diminuindo, ampliando as oportunidades, não as restringindo. O sonho continua vivo, e é em nome deste sonho que as portas precisam se abrir, como sabemos, desde há muito, aqui no Rio Grande do Sul.

scliar@zerohora.com.br

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Paulo Sant'ana
27/07/2004


Ferocidade no aeroporto

Pelo que consta no noticiário, não há explicação para que não tenham sido presos em flagrante os três agressores do estudante Daniel Schardong, de 23 anos, no início da manhã de sábado.

O jovem, que dirigia um Audi, foi perseguido por três outros jovens, a bordo de um outro carro, depois de uma discussão por causa do trânsito (motivo fútil) desde a BR-116. A vítima, inteligentemente, acabou por refugiar-se no aeroporto Salgado Filho, onde os três agressores avariaram seriamente o carro da vítima e depois passaram a agredi-la, repito, segundo as testemunhas arroladas no noticiário de Zero Hora.

As testemunhas depuseram para a reportagem sobre a ferocidade dos agressores. Uma delas declarou: "Pareciam aqueles pitboys, batendo sem parar no rapaz. Todo mundo ficou revoltado".

Ainda do noticiário: "Taxistas e passageiros acabaram intervindo e ameaçaram linchar os agressores, que foram por sua vez salvos pela chegada da Brigada Militar".

A vítima disse o seguinte: "Eu achei que fosse morrer, não sei por que fizeram isso comigo", apresentando escoriações no rosto e uma mancha vermelha no olho esquerdo.

Esse tipo de agressão, repito, pelo que consta no noticiário, repete-se recentemente no Rio de Janeiro e historicamente aqui no nosso Estado, fazendo vítimas de morte e de lesão corporal.

Por isso é que este fato está causando forte impressão na opinião pública.

O concurso de três agentes em agressão feroz contra uma vítima, só não chegando ao resultado da morte desta por intervenção de terceiros, como faz constar o noticiário, não pode e não deve culminar somente com o registro policial, sem a prisão em flagrante dos acusados.

Tendo "tornado impossível ou difícil a defesa da vítima", como dita a lei penal, os agressores incorreram numa agravante que, somada à cogitação de que o homicídio só foi evitado pela intervenção de populares, vestiu o episódio de uma gravidade incompatível com a simples liberação dos agressores sem a lavratura do auto de prisão em flagrante.

Os termos circunstanciados que a Brigada Militar lavra, criados com o objetivo de desburocratizar o serviço policial, não se podem adaptar de forma nenhuma a esse acontecimento. Eles só servem para ocorrências de pouca monta. Já a hipótese de que os agressores foram salvos pela patrulha da BM, que evitou o linchamento deles, mostra a gravidade da agressão.

Terem se livrado soltos sem uma prisão em flagrante foi, pelo que consta no noticiário, benigno demais para os agressores e serve de mau exemplo para esse tipo de agressão, que se multiplica no Rio de Janeiro e entre nós tem feito vítimas célebres.

Não pode ser descartada a hipótese sequer de que os agressores fossem autuados em flagrante por tentativa de homicídio.

Embora a condição física da vítima estivesse distante da morte quando se consumou o episódio, se tivessem sido apresentados os agressores à autoridade policial, poderiam ter sido enquadrados até em tentativa de homicídio, pois teoricamente o resultado morte só foi evitado por intervenção de terceiros.

Até mesmo pela repercussão do fato no aeroporto, revoltando os que assistiram à agressão, o caso não podia ter terminado com a liberação lá mesmo dos atacantes do estudante.

É preciso se rever este método que não leva ao exame da autoridade policial todos os casos de prisão em flagrante.

Neste caso, no mínimo, havia o flagrante de lesão corporal. E em qualquer flagrante não pode ser assim decidida sumariamente a liberação dos detidos.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Transportes
Vandalismo em Guaíba



Manifestantes quebraram e incendiaram ônibus em protesto contra reajuste das passagens metropolitanas (foto Robinson Estrásulas/ZH)


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Segunda-feira, Julho 26, 2004




Segunda, 26 de julho de 2004, 16h27
Daiane coloca chineses em alerta na Olimpíada

A equipe chinesa de ginástica, uma das maiores forças nos Jogos Olímpicos de Atenas, está preparada para enfrentar novos rivais na batalha pelas medalhas de ouro. Uma das "novas forças" que têm chamado a atenção dos chineses é a brasileira Daiane dos Santos, campeã mundial no solo.

Em reportagens veiculadas em jornais chineses, o técnico da China, Huang Yubin, aponta Estados Unidos, Japão e a brasileira Daiane como novos candidatos ao pódio durante a Olimpíada deste ano, que começará a ser disputada no dia 13 de agosto.

"A ginasta de 21 anos é uma das poucas chances de medalha olímpica do Brasil", classificou o técnico.

Chineses e russos são os maiores favoritos ao ouro em Atenas. Mas as equipes do Japão e dos Estados Unidos também conseguiram bons resultados nos torneios preparatórios e aparecem na lista de adversários perigosos feita pelo treinador oriental.

Daiane dos Santos embarcou, junto com o restante da equipe brasileira de ginática, para a Ucrânia, local escolhido para que os ginastas fizessem a adaptação antes da viagem para a Grécia. O time deixou o Brasil na última sexta-feira.

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Esta foto, pleonasticamente escrevendo, retrata a euforia dos brasileiros e a frustração dos argentinos. Ainda bem que foi assim e espero que não fiquemos de salto alto, como eles.

A imagem abaixo retrata ao fundo o prédio onde trabalho na Praça da Alfândega, 1000. Tirada pelo fotógrafo e designer Gilberto Simon lá da PortoImagem é uma das tantas fotos que mostra esta Porto Alegre ao mundo.

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Devemos valorizar o bom da vida

Para sermos felizes, devemos contrariar o impulso natural de privilegiar a dor e os sentimentos negativos
Luiz Alberto Py*

Todos os animais têm uma capacidade igualmente desenvolvida para perceber mais a dor do que o prazer. Essa característica é de importância fundamental para a sobrevivência de cada indivíduo e, por seleção natural, é herdada por todos nós.

A seleção natural atua da seguinte forma: como repetimos as características de nossos ancestrais, quando eles nos legam uma qualidade que ajuda na sobrevivência, podemos viver mais e ter um maior número de descendentes, que herdarão o mesmo predicado. Perceber a dor nos ajuda a buscar não apenas proteção contra ela, mas também cura para suas causas.

Exemplo disso são as doenças que não provocam dor e que, por isso mesmo, se tornam difíceis de serem percebidas até que seus efeitos já estejam prejudicando o enfermo. Nesse sentido, a atitude de dar atenção às dores e ao negativo é natural, útil e importante para a sobrevivência.

Mas, quando se trata de buscar a nossa felicidade, essa postura passa a ser prejudicial. Para sermos felizes devemos contrariar o impulso natural de privilegiar a dor e os sentimentos negativos e passar a dar mais atenção às coisas que são fonte de prazer, agradáveis e positivas.

Quando deixamos em segundo plano dores e sofrimentos que sempre fazem parte da vida e valorizamos o que existe de bom e saboroso nela, ficamos em paz e serenos para apreciar a vida.

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A Preta no poder

Filha de Gil estréia no sábado programa onde ruídos vão disfarçar eventuais palavrões

Preta Gil classifica de relaxadaço o semanal Caixa Preta, que estréia sábado, às 23h, na Band. Nas últimas três semanas, ela gravou onze programas, trabalhando até de madrugada e, desde o início do ano, emagreceu 12 quilos: Pesava 74. Hoje, estou com 62. Perdi peso porque mudei o foco. Antes, só pensava em comer. Agora, estou voltada à profissão. Mas continuo a típica mulata brasileira: bunduda e coxuda, com celulites e estrias.

Preta se sente à vontade no estúdio, mas confessa se adaptar a questões técnicas. Tem a diretora (Tininha Araújo) que fala no ponto, câmera 1, 2, 3, recados para o público, enumera a cantora, que ganhou de Arnaldo Antunes a música de abertura. Não sou Marisa Monte, mas tenho meu tribalista, ri.

Para anunciar os convidados do programa, ela não poupa brincadeiras. Foi o caso do ator Sérgio Marone. Ele me deu um beijo na boca no Hebe, me lembra o James Dean. É gato, não peguei, mas nunca se sabe o futuro, entrega Preta, que entre um intervalo e outro, se diverte com as 100 pessoas do auditório. Preta compara fãs com artistas, apura se rola clima de pegação na platéia, observa os negões lindos e ainda satiriza: Não sou Fernanda Lima, mas fica comigo?, lembrando o extinto programa da ex-VJ, na MTV.

No palco, decorado com fotos de Preta, ela quer mostrar o 'lado B' das personalidades. Os convidados levam malas com objetos íntimos, encaram situações diferentes em público, como escovar dentes, e respondem perguntas da caixa preta, que ela trata como amiga: Ela é um ser curioso. Só fala comigo.

É como uma Preta velha, que já pegou geral, brinca ela. Irreverente, ela improvisa em cena. Em entrevista com a dançarina Lacraia, ela perguntou se podia se apaixonar pelo Marco Aurélio, nome verdadeiro do funkeiro. Ao ouvir um sim, a cantora não perdeu tempo: Que delícia ter homem e mulher na mesma pessoa. Em outra pergunta da caixa, ela quis saber se Sérgio já tinha visto os pais transando. Como o ator disse não, ela resolveu polemizar: Eu já vi.

Quando erra e precisa repetir a gravação, a apresentadora não perde o bom-humor: Por isso o programa é gravado. E vão colocar pis nos palavrões. Mas é bom Preta já começar a se segurar. A diretora artística Marlene Mattos aposta na morena e pensa em colocá-la ao vivo. É uma possibilidade, em dois meses. Se você analisar as outras TVs, ela é o que tem de mais novo. Tem coragem de falar e fazer sacanagem com tanta naturalidade que deixa qualquer sacana espantado, elogia Marlene.

A relação das duas vai além dos estúdios. Há três meses, elas moram juntas em São Paulo. Depois da estréia, ela se muda. Já estará independente. Trazê-la para minha casa foi uma forma de saber com quem iria trabalhar. Sem enganação, explica a diretora.

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PF abre inscrições amanhã

Corporação vai selecionar os policiais federais que vão atuar nos próximos três anos. Remunerações podem chegar a R$ 7.965
Leila Souza Lima

Muita gente vai pular da cama cedo amanhã, primeiro dia de inscrições para dois grandes concursos da Polícia Federal (PF). São 3.684 vagas para os cargos de delegado, perito criminal, agente de polícia e escrivão. Do total, 2.492 oportunidades estão distribuídas por municípios de todo o Brasil, incluindo Rio de Janeiro, e 1.192 são direcionadas a regiões específicas Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins , onde há grande necessidade de suprir pessoal.

Segundo o delegado Jomar Barbosa, chefe da Divisão de Planejamento e Execução de Concursos da PF, apesar de as vagas já terem sido definidas para os próximos três anos, é possível que o Governo autorize um aporte, dependendo dos recursos. A lei permite que esse número seja aumentado em até 50%, explica o delegado.

Segundo Barbosa, seria necessário que a corporação contasse com pelo menos 15 mil homens. Há mesmo necessidade de profissionais na Polícia Federal, devido ao aumento da criminalidade e das atribuições da organização. A cada ano que passa, o Governo dá mais responsabilidades à corporação, mas a tropa não aumenta na proporção necessária, destaca o chefe da divisão.

Risco na profissão não inibe candidatos

Barbosa destaca ainda que há falta, principalmente, de delegados e agentes. Esses profissionais são responsáveis diretos pelas fiscalizações, investigações e incursões. Apesar de a Polícia Federal hoje ser mais elitizada, devido à exigência de Nível Superior, esses homens também se envolvem em situações de confronto com criminosos, tal como ocorre com as polícias civil e militar estaduais. Há quem veja a função como uma profissão de alta periculosidade, o que não assusta muitos candidatos dispostos a ter uma carreira sólida, estável e livre de outro risco: o desemprego.

É assim que pensa Henrique Walker Amaral, 22 anos, que vai se candidatar a agente. Apesar da pouca idade, ele é casado e tem muitas preocupações uma delas um filho de um ano e nove meses para criar. Decidido a conquistar uma vaga, Henrique demonstra ter o perfil psicológico exigido de quem quer integrar a corporação: Tentei vários concursos, mas quero mesmo é ser policial federal. É a área com a qual mais me identifico, diz sorrindo e tranqüilo.

Formado recentemente em Matemática pela Universidade Estácio de Sá e aluno do curso Tamandaré, Henrique já tem planos para outra faculdade Direito que lhe dará condições de concorrer a delegado. Ele já fez provas para Banco do Brasil, Petrobras e foi aprovado na última seleção da Polícia Rodoviária Federal.

A trajetória confirma lógica pregada por professores dos preparatórios, de que, em se tratando de concursos, é preciso ganhar experiência e tentar até passar. O mais difícil é controlar o nervorsismo, principalmente nas primeiras vezes. Por isso, é fundamental saber todo o programa, ensina Henrique.

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Vamos sambar. Tango já era

Adriano decreta o fim da festa argentina. Brasil é campeão da Copa América nos pênaltis

LIMA - Parece que estava escrito nas estrelas há dois mil anos. A Argentina já comemorava o título da Copa América, quando o Brasil, tal qual uma fênix (personificada no matador Adriano), ressurgiu das cinzas e empatou a decisão em 2 a 2, aos 48 minutos do segundo tempo. Nos pênaltis, o samba deu o tom da vitória da seleção brasileira (4 a 2), enquanto os hermanos desafinaram no tango e deixaram o campo derrotados, numa final de competição inédita e histórica. Afinal, os reservas do Brasil levaram o arquiinimigo (com sua força máxima) à lona.

Se pretendia usar a Copa América para fazer um laboratório, com vistas às Eliminatórias, o técnico Carlos Alberto Parreira viu seus meninos irem muito mais longe do que se imaginava. Descobriu talentos como o goleiro Júlio César (que salvou a Seleção em diversas finalizações da Argentina, e de quebra defendeu um pênalti ), o zagueiro Juan (exímio marcador) e o atacante Adriano (goleador frio e calculista), que terminou como o artilheiro da Copa América, com sete gols. Mais. O Brasil decretou o fim da era Marcelo Bielsa, na Argentina.

Os deuses do futebol, definitivamente, são brasileiros. Os argentinos dominaram o jogo, mas sucumbiram diante do sobrenatural. O Brasil operou milagre em dobro. Se renasceu para a conquista com o gol de Adriano, a Seleção já havia provado que a sorte conspirava a seu favor ainda no fim do primeiro tempo (aos 45 minutos), quando Luisão empatou a partida pela primeira vez, após cobrança de falta de Alex.

Com uma garra impressionante, e marcando a saída de bola brasileira, os argentinos deram as cartas desde o começo da decisão. Logo aos 3, Zanetti obrigou Júlio César a mostrar serviço. Aos 19, Maicon errou um passe e deu a bola de presente para Lucho González invadir a área e ser derrubado por Luisão. Killy González cobrou o pênalti e pôs a Argentina em vantagem 1 a 0.

Não demorou para os argentinos criarem nova chance de gol: Lucho González bateu forte e lá estava São Júlio César. Apático, o time brasileiro limitava-se a olhar, em especial Alex, que sumiu da partida. Aos 37, o goleiro brasileiro voltou a salvar a Seleção, tirando com o pé a conclusão do adversário. Quando já se dava a derrota parcial como certa, o Brasil empatou com Luisão (1 a 1).

O sufoco do Brasil continuou na segunda fase. Tévez acertou a trave, aos 4, com a defesa brasileira olhando. Pouco depois (aos 14), Luisão dividiu bola com Ayala, e eles bateram cabeça com cabeça. O zagueiro ficou tonto e acabou substituído. Numa falha incrível de Renato, aos 41 (furou ao tentar cortar uma bola dentro da área), Delgado fez 2 a 1 para a Argentina. Os hermanos passaram a catimbar à espera do apito final; já se consideravam campeões. Mas, nos descontos, o herói Adriano ressuscitou o Brasil. Nos pênaltis, festa em verde-e-amarelo.

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Luis Fernando Verissimo
26/07/2004


Esperando a neve

Gosto muito desta história. O Egito estava sendo atacado por Israel e não sabia como se defender. Pediu conselhos à Rússia. O que fazer? Ninguém melhor do que os russos para ensinar como resistir a uma invasão e derrotar um exército mais forte do que o seu. Afinal, eles não tinham detido o grande exército de Napoleão? Não tinham parado o grande exército de Hitler? Os russos saberiam o que fazer. Ou o que aconselhar.

Mas tinham que aconselhar logo. A força israelense aproximava-se do Cairo.

- Deixa eles virem - foi o conselho dos russos.

Os egípcios deixaram eles virem. Os israelenses continuaram avançando. Os egípcios preocupados. Até quando deveriam esperar para agir? Calma, disseram os russos.

- Deixa eles virem.

Os israelenses continuaram avançando. Os egípcios nervosos. Não seria melhor... Não, disseram os russos.

- Deixa eles virem.

Os egípcios, finalmente, se desesperaram. Estava certo, os russos tinham detido Napoleão, tinham parado Hitler, mas a única tática que recomendavam era deixar os invasores avançarem?

Exato - respondeu o estrategista russo, de Moscou. - Quando vier a neve, eles ficarão imobilizados.

Sempre lembro desta história quando ouço as razões para se seguir os conselhos de economistas liberais e do FMI - enfim, dos nossos estrategistas russos - sobre os apertos que temos que sofrer agora para merecer a redenção que virá com o tempo, como a neve.

Se a história de todos estes anos de economia de mercado e obediência ao consenso liberal na América Latina ensina alguma coisa é que a neve não vem nunca. Antes aumentou o deserto, agravou-se justamente a realidade que os conselheiros ignoram, a emergência social que transforma qualquer pedido de paciência e qualquer ortodoxia econômica, mesmo as mais bem-intencionadas, numa forma de escárnio.

Brasileiro gosta de uma contradiçãozinha semântica. Na terra de corruptos impunes e de maracutaias diárias, qual é o adjetivo nacional mais elogioso? Legal! Deve ser por isso que por aqui conseguiram transformar responsabilidade fiscal em antônimo de responsabilidade social. É o que dá confiar em estrategistas russos.

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Paulo Sant'ana
26/07/2004


Juventude, Rei do Beira-Rio!

O que dói, o que punge e o que devora não é ser gremista e perder todas as partidas nos minutos finais.

O que dói, punge e devora é a cada semana que passa os gremistas serem enganados por uma central de boatos que espalha que o Grêmio vai contratar jogadores para tirá-lo do calabouço da zona de rebaixamento.

Ora, o boato tranqüilizante é de que o Grêmio vai contratar Fabiano Costa. E na verdade o Grêmio não moveu uma palha para contratar Fabiano Costa.

Dali a pouco, surge o boato estelionatário de que o Grêmio vai contratar Ortemann, ninguém lá no Grêmio jamais cogitou de contratar Ortemann.

Mais alguns dias e veio a notícia de que o Grêmio iria contratar Lopes, enfim um grande reforço.

Com a maior facilidade do mundo, o Juventude corre na frente e contrata Lopes, grande figura na vitória espetacular do Juventude sobre o Inter no sábado.

Aí a torcida gremista é lograda por outro boato: as notícias afirmavam que o Grêmio ia contratar Juninho Petrolina.

E, como se viu depois, não havia qualquer possibilidade de o Grêmio trazer Juninho Petrolina.

Quem é que espalha esses boatos e essas notícias absolutamente falsos?

Por que se ilude assim ardilosamente a torcida do Grêmio, fazendo-a acreditar que os reforços tão urgentemente esperados estão chegando?

Quem é o autor dessas pérfidas falácias? Que sadismo é este que engana a torcida do Grêmio já faz várias semanas, levando-a a crer que finalmente os dirigentes gremistas arregaçaram as mangas e resolveram tirar o time do atoleiro?

É preciso ficar bem claro aos gremistas que não há qualquer propósito concreto do Grêmio em contratar qualquer jogador.

Se fossem contratar, já tinham contratado, já houve tempo suficiente para saberem que sem reforços o caminho vai em direção do abismo.

Não vai contratar. Não vai fazer nada. E parem de espalhar notícias falsas e repetidamente tão infundadas quanto irritantes.

Sempre é bom ganhar da Argentina, talvez ainda melhor com a seleção B do Brasil e sendo inferior aos argentinos dentro de campo.

E se há um jogador que eu gostaria de que atuasse sempre no meu time é este avante Adriano: não há bola perdida para ele, ele persegue com cólera atlética a oportunidade de vislumbrar um ângulo para seu chute e daí a pouco desfere uma bomba.

Há muito não atua em time de clube para que torço alguém com tanta vontade de jogar como este Adriano.

Nunca tinha visto nos últimos tempos uma zaga de três zagueiros antecipar-se tantas vezes aos avantes adversários como fizeram sábado Naldo, Tiago e Índio, do Juventude, frente ao Internacional.

E são jogadores que não custam nada para serem contratados, dois deles vieram do humilde RS. Como é que o Grêmio não enxerga isso e teima em não formar um time digno para sua tradição?

O Juventude é mesmo o verdadeiro dono do Beira-Rio. Ele é que manda no estádio do Internacional.

Como gremista, sinto inveja do Juventude, seria bom torcer assim para um clube tão organizado.
psantana.colunistas@zerohora.com.br

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Copa América
Nos pênaltis é melhor



Com uma seleção de reservas, o Brasil fez dois gols no período de descontos e depois venceu a Copa América nos pênaltis, para desespero dos argentinos (foto Natacha Pisarenko, AP/ZH)


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Domingo, Julho 25, 2004




Nunca subi de elevador

Leia o depoimento de um dos maiores estudiosos da ciência jurídica no Brasil. Esse e outros nove depoimentos você encontra no livro Direito da coleção Grandes Profissões de VOCÊ S/A

Por Damásio de Jesus*

Sempre soube que queria ser juiz de Direito e para realizar o meu tão almejado sonho ingressei na Faculdade de Direito de Bauru. A vontade era tanta que, na porta interna do guarda roupa do quarto 31 do antigo hotel Tapajós, em Bauru, onde morei por tantos anos, escrevi o meu sonho de estudante. Esse guarda roupa ainda existe e, apagado pelo tempo, lá está a velha mensagem: Serei juiz. Estudava muito.

Não havia diferença entre sábados, domingos e feriados. Quem passasse pelo hotel, de sábado para domingo, às duas horas da madrugada, veria uma luz de quarto acesa. Os colegas, que chegavam de madrugada de suas aventuras, diziam que eu estava desperdiçando a vida.

Formei-me e fiquei aguardando o edital do concurso da magistratura no Diário Oficial. Ia todos os dias, religiosamente, ao cartório, mas eis que tive uma surpresa: a Lei do Interstício, exigindo, para concurso de juiz, dois anos de exercício como advogado.

Não os tinha. Procurei o promotor de justiça Silvio Marques Junior, meu professor de introdução à ciência do direito, narrando-lhe meu infortúnio. Aconselhou-me a ingressar no Ministério Público, que não exigia o biênio, e, passados dois anos, tentar o meu sonho: a magistratura.

Fui aprovado no concurso e gostei do Ministério Público, onde fiquei por 26 anos. Havia sido seduzido pela magistratura e acabei me casando com a promotoria. Lecionei direito penal em várias faculdades e muitos alunos me perguntavam como deveriam estudar para os concursos públicos.

Vendo as necessidades desses jovens repletos de sonhos, ideais e planos, mas sem saber como se disciplinar para alcançar seus objetivos criei, em 1970, um curso preparatório para os concursos de ingresso no Ministério Público e na magistratura. Em 1975, Decidi transferir o curso para São Paulo, pois também tinha sonhos, ideais e planos a respeito.

Quando idealizei o curso, visualizando a demanda que o preparatório específico para concursos jurídicos viria a atender, todas as condições eram desfavoráveis. Dos seis colegas aos quais apresentei meus planos, nenhum mostrou interesse pela grandiosidade latejante do projeto. Assim, no dia nove de fevereiro de 1975, abri as portas do Curso do Professor Damásio em São Paulo.

Eram apenas o professor, dois alunos, duas matérias, direito penal e processo penal e mais um professor. Enfrentei dificuldades e obstáculos no início. Desses dois alunos um desistiu das aulas e o outro...não pagou por elas! A turma, entretanto, terminou com 32 alunos. Dos 16 aprovados no concurso, quatro haviam sido alunos do Curso do Professor Damásio: 25% de aprovação já na primeira turma!

Os percalços iniciais serviram para aumentar minha confiança e determinação. Afinal, vivi muito tempo fora de minha cidade e longe da família, trabalhei durante o dia e dei aulas à noite, com dedicação perseverante ao estudo do direito e à carreira jurídica que escolhi. Sabia que o caminho do sucesso é feito de fé e muita disciplina.

Nos caminhos da vida nunca tomei atalhos ou subi de elevador. Sempre fui pelas escadas e o exercício serviu para afiar as canelas. E assim foi no que se refere a tudo. As dificuldades da vida me ajudaram a caminhar com os dois pés no chão e nunca dar o passo maior que a perna.

*Damásio de Jesus, fundador do Complexo Jurídico Damásio de Jesus, centro de estudos localizado em São Paulo (SP).

Direito é o novo título da coleção
Grandes Profissões


Saiba para onde caminha essa profissão, quais são as áreas quentes e onde se especializar. Faça o teste e descubra se você tem vocação para o DIREITO

Existem hoje no país 470 mil advogados licenciados pela Ordem dos Advogados do Brasil. Metade deles trabalha nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A concorrência é grande e tende a ficar cada vez maior. Por isso, sai na frente quem estiver mais bem preparado. O novo livro da coleção Grandes Profissões de VOCÊ S/A tem como tema o Direito. Foram ouvidos dezenas de profissionais de várias especialidades e regiões do país. O resultado é um panorama conciso dos principais caminhos oferecidos pelo direito privado. O livro traz:

As vinte especialidades quentes do direito privado
Onde atualizar seus conhecimentos
Dez depoimentos de advogados de norte a sul do país (leia, no link ao lado, o depoimento do professor Damásio de Jesus)

Direito, o mais novo lançamento da coleção Grandes Profissões de VOCÊ S/A pode ser encontrado em bancas e livrarias de todo o Brasil. O preço é R$ 14,90.

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Saramago diz que adultos deveriam ler contos infantis

Roma, 25 jul (EFE) - O prêmio Nobel de Literatura José Saramago está convencido de que a leitura dos contos para crianças deveria ser obrigatória para os adultos, já que esses textos são fábulas morais nas quais são ensinados valores considerados indispensáveis, como solidariedade, respeito ao próximo e bondade.

Assim afirmou este fim de semana em Roma, onde neste domingo apresenta a obra musical "A Maior Flor do Mundo", do versátil artista e diretor Emilio Aragón, baseada em um conto escrito por Saramago há trinta anos.

Saramago disse que foi o único conto que escreveu e garantiu que não escreverá mais, porque ainda ressoam nele as palavras de um menino a quem pediu que lesse o conto e desse uma opinião, e o pequeno disse ao escritor que não o entendia.

"Foi um duro golpe para mim e não escreverei mais contos para crianças", ressaltou Saramago em um encontro com a imprensa na sede do Instituto Cervantes em Roma.

Saramago perguntou: "E se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos? Nós, os adultos, seríamos capazes de aprender o que há tanto tempo ensinamos?".

"A leitura dos contos para crianças teria de ser obrigatória para os adultos. Estes textos são fábulas morais, nas quais são ensinados valores que consideramos indispensáveis, como a solidariedade, o respeito ao próximo e a bondade. Mas depois, nós, os adultos, somos os primeiros a esquecer disso na vida real", manifestou Saramago.

"A Maior Flor do Mundo" será apresentada neste domingo no Festival Sete Sóis Sete Luas", promovido por várias cidades da Espanha, Portugal, Itália, Cabo Verde e Grécia, e que é realizado nos jardins da romana
Villa Ada.

Este festival, criado em 1993, tem como objetivo buscar as raízes comuns entre a Europa meridional e a África.

A obra de Saramago será narrada por sua esposa, a espanhola Pilar del Río.

Além de "A Maior Flor do Mundo", também será representada a obra musical "O Soldadinho de Chumbo", de Emilio Aragón, que será regida pela Orquestra Roma Sinfonietta. Maddalena Crippa será a narradora.

A noite espanhola em Roma fechará com a leitura de "Não à guerra", o discurso que José Saramago leu em março de 2003 e em fevereiro de 2004 na Porta do Sol de Madri.

O texto será lido por Pilar del Río e Maddalena Crippa. A história contada em "A Maior Flor do Mundo", segundo Saramago, é a de um menino que "sai para descobrir o mundo, a três minutos de sua casa" e o que encontra é uma flor murcha, que consegue fazer reviver com muito esforço pessoal, até que esta fica tão grande que uma de suas pétalas serve de proteção ao menino enquanto seus pais o buscam.


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